domingo, 29 de janeiro de 2017

Resident Evil 6: O Capítulo Final

Ao longo de seus quinze anos de existência (já faz tudo isso? Uau!), a franquia Resident Evil nunca foi mais do que um entretenimento medíocre, trazendo filmes que começavam a ser esquecidos antes mesmo de seus créditos finais chegarem ao fim. E os próprios realizadores parecem ter noção disso, caso contrário eles não sentiriam tanta necessidade de incluir recapitulações no início de todas as continuações (algo até descartável considerando que não há exatamente uma continuidade entre os longas, com a trama em si mudando de um exemplar para outro). Pois bem, finalmente chegamos a este Resident Evil 6, supostamente o último capítulo de toda essa história e que faz mais do que se juntar ao esquecimento ao lado dos outros filmes, conseguindo ser também o pior da franquia e fazendo-a se despedir no fundo do poço.

Escrito e dirigido por Paul W.S. Anderson, o “gênio” por trás da série, Resident Evil 6 faz uma espécie de retorno às origens, trazendo a heroína Alice (Milla Jovovich) tendo que voltar até a Colmeia em Raccoon City, já que a Umbrella Corporation guarda por lá um antivírus que deve acabar com todos os organismos infectados pelo T-vírus, algo que pode salvar os poucos milhares de humanos que ainda habitam o planeta. No caminho, Alice enfrenta não só os zumbis, mas também o retorno do Dr. Isaacs (Iain Glenn), tendo a ajuda de apenas alguns sobreviventes em sua batalha, entre eles sua velha aliada Claire Redfield (Ali Larter).

Basicamente, trata-se da mesma ladainha de sempre, com um fiapo de história desenvolvido sem qualquer cuidado. Nem a ideia de um mistério envolvendo um informante da Umbrella no grupo de Alice tem o efeito que Anderson deseja, já que qualquer chance de surpresa acaba à medida que o diretor elimina personagens, em mortes que não tem impacto algum, tamanho nosso envolvimento com aquelas figuras. Aliás, a incompetência de Anderson como roteirista é tão grande que ele exibe um talento particular para conceber diálogos pavorosos, como “Você está morrendo. Então morre logo” ou “Nós jogamos um longo jogo” (só imagino a alegria dele ao escrever uma coisa tão óbvia envolvendo o material original do filme), ao passo que informações importantes são jogadas na tela sempre de um jeito bastante conveniente. Isso sem falar na temática religiosa que o cineasta insere aqui de maneira boba e desajeitada, o que apenas causa risos involuntários.

No entanto, se falei da incompetência de Paul W.S. Anderson como roteirista, devo apontar que esta só é superada por sua total falta de noção como diretor. Se nos longas anteriores ele abusava da câmera lenta, que tornava as sequências de ação estilizadas e um tanto aborrecidas, dessa vez ele decide seguir o caminho totalmente oposto, provando-se um perfeito discípulo de Michael Bay ao apostar em uma montagem absurdamente picotada, na qual os planos não duram um segundo na tela, e rápidos movimentos de câmera, recursos que tornam a ação incompreensível, de modo que é difícil ver até o formato das criaturas que atacam Alice. E por mais convincente que Milla Jovovich seja como heroína de ação, é uma pena que em determinados momentos nem consigamos entender como que ela abate seus inimigos, de tão caótica que a direção de Anderson se revela.

Duvido muito que este se trate do último exemplar da franquia Resident Evil. É possível que daqui uns anos alguém decida traze-la de volta em um reboot (ou até mesmo em uma continuação focada em outros personagens). De um jeito ou de outro, acho que é seguro dizer que o tempo que a série ficar fora do radar não será preenchido com saudades. Especialmente depois deste filme.

Nota:

Passageiros

Ao sair da sessão de Passageiros, me peguei rindo sozinho enquanto gradualmente retornava para a vida normal fora da sala de cinema. Teria sido ótimo se este efeito tivesse sido causado de maneira proposital pelo filme, mas infelizmente não foi o caso. Na verdade, esta mistura de romance com ficção científica se revela tão moralmente absurda que, enquanto processava as duas horas que havia dedicado a ela, preferi seguir o caminho do “rir para não chorar”.

Escrito por Jon Spaihts (de Prometheus e Doutor Estranho), Passageiros tem início em meio a viagem da espaçonave Avalon, que está levando mais de cinco mil pessoas a um novo planeta chamado de Homestead II, em uma viagem que deve durar 120 anos. Mas após a nave passar por uma onda de asteroides, a cápsula de Jim Preston (Chris Pratt) acaba falhando e fazendo-o acordar 90 anos antes de a jornada ser completada, o que o deixa desesperado por não haver uma opção que o permita voltar para a hibernação. É quando ele se encanta por Aurora (Jennifer Lawrence), escritora que ainda está dormindo sem problema algum, mas que ele decide acordar para não ficar sozinho, o que rende uma história de amor enquanto ambos lidam com a perda de suas vidas normais.

Acordar a mulher de seus sonhos em um ambiente onde vocês estão praticamente sozinhos e fazê-la se apaixonar por você sem deixa-la saber que, na verdade, ela só está ali por conta de um ato egoísta de sua parte e que a fez perder toda uma vida que poderia ter. Basicamente, estamos diante de uma daquelas fantasias machistas definitivas, de forma que chega a ser inacreditável que o filme tenha ganhado vida mesmo com um subtexto tão estúpido (e percebam que descrevi apenas a base da ideia, já que a forma como ela é desenvolvida pelo roteiro ao longo da narrativa consegue tornar as coisas piores).

O engraçado é que o próprio filme tem noção de que essa questão está presente na narrativa, mas parece não saber o que fazer com ela. Em vários momentos o roteiro enfatiza que os atos de Jim são sim condenáveis, mas ao mesmo tempo não deixa de tentar justifica-los, possível resultado de sua determinação em fazer com que simpatizemos com o rapaz apesar de tudo. E quando a história dá a impressão de que tomará um rumo mais interessante, encarando o personagem e a relação dele com Aurora como algo digno de desprezo, isso logo é esquecido quando chegamos ao vergonhoso terceiro ato, com todo o altruísmo exibido pela dupla.

No fim das contas, a visão apresentada pelo diretor Morten Tyldum (de longas como Headhunters e o premiado O Jogo da Imitação) é a de que o relacionamento que se desenvolve entre os personagens não tem nada de muito errado, o que não ajuda suas intenções de fazer com que nos importemos com eles, algo que deveria ser importante principalmente a partir da segunda metade da projeção, quando o cineasta se esforça para criar momentos de grande tensão. E nem mesmo atores carismáticos como Jennifer Lawrence e Chris Pratt (outrora a protagonista forte e independente de Jogos Vorazes) conseguem salvar o barco.

Em tempos de obras como Moana e Rogue One, ver um longa com um sexismo tão escancarado como Passageiros chega a ser assustador. E considerando a fama que Lawrence e Pratt conquistaram nos últimos anos (algo do qual o filme certamente tenta se aproveitar), é uma pena que eles tenham se rendido a um projeto como esse.

Nota:

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Beleza Oculta

Filmes como Beleza Oculta tentam constantemente emocionar o espectador, mas acabam irritando com a maneira como buscam alcançar isso. Apelando para um maniqueísmo barato ao longo de quase toda a narrativa, este novo longa de David Frankel (de O Diabo Veste Prada e Marley & Eu) falha em seus propósitos enquanto desenvolve uma história que talvez contasse com um bom potencial dramático quando era uma semente de ideia, mas isso se perde em meio a decisões criativamente tolas que ajudam a montar uma narrativa que nem o elenco cheio de nomes interessantes consegue salvar.

Escrito por Allan Loeb, Beleza Oculta se concentra em Howard Inlet (Will Smith), líder de uma empresa de publicidade e que costumava aproveitar a vida ao máximo, com muito bom humor. Isso até a morte de sua filha pequena, tragédia que o faz se isolar de tudo e todos, algo que acaba preocupando seus amigos Whit (Edward Norton), Claire (Kate Winslet) e Simon (Michael Peña). Para tentar lidar com a dor que sente, Howard escreve cartaz para os três conceitos abstratos que ele vê como essenciais para as pessoas: Amor, Tempo e Morte, ficando surpreso ao receber respostas pessoais deles nas figuras de Amy, Raffi e Brigitte (interpretados por Keira Knightley, Jacob Latimore e Helen Mirren, respectivamente), sem saber que tratam-se de atores contratados por seus amigos.

Tematicamente, o filme até dialoga com o recente (e excepcional) Manchester à Beira-Mar, contando uma história que lida muito com a dor resultante de perder alguém e de como superar o luto está longe de ser uma tarefa fácil. No entanto, é praticamente um abismo o que separa este trabalho de David Frankel da sensibilidade vista na obra de Kenneth Lonergan, já que o que acompanhamos aqui é uma narrativa permeada de um sentimentalismo exagerado para tentar levar o espectador ao choro. A força disso infelizmente é canalizada em canções melosas, diálogos que poderiam sair de um livro de autoajuda e subtramas que, além de subdesenvolvidas, ainda por cima se resolvem da maneira mais óbvia possível. Para completar, o roteiro não só aposta em um humor bobo para tentar aliviar o drama (como a cena em que Whit fala sobre ter recebido um conselho de um motorista de Uber), como também traz clichês batidos e que só surpreendem por ainda serem utilizados (a tosse como equivalente de doença, por exemplo).

Enquanto isso, Will Smith interpreta Howard em seus momentos felizes com o carisma que poderíamos esperar, sendo sabotado pelo roteiro quando o personagem se isola em sua depressão, já que aqui ele se fecha tanto que fica difícil se aproximar dele. Já Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña fazem o possível para que nos importemos com Whit, Claire e Simon, algo difícil considerando a insensibilidade de seus atos envolvendo Howard e o fato de seus dramas pessoais não terem tanto peso dramático, sendo que a relação que eles formam com os personagens de Keira Knightley, Jacob Latimore e Helen Mirren ainda é bastante esquemática. Fechando o elenco, Naomie Harris é até bem sucedida no calor humano que traz a Madeleine, líder de um grupo de apoio que tenta ajudar o protagonista.

Contando também com um terceiro ato cujas reviravoltas podemos ver a quilômetros de distância, sem falar no fato de o roteiro explicar certos elementos da história sem muita necessidade (como a mulher que Madeleine encontra em determinado momento) e se negar a resolver conflitos centrais, Beleza Oculta é um melodrama que não poderia ser mais artificial, de forma que a experiência de assisti-lo se torna aborrecida graças a sua fragilidade narrativa.

Nota:

sábado, 21 de janeiro de 2017

Assassin's Creed

A cada nova adaptação de um jogo de videogame para o cinema, há a esperança de que ela não caia no marasmo que marcou esse tipo de filme no decorrer dos anos, com obras que são recebidas com paus e pedras ao invés de beijos e abraços. Talvez esta esperança nunca tenha sido tão grande quanto no momento em que os longas de Warcraft e Assassin’s Creed entraram em produção. Mas se o primeiro rendeu um filme bem eficiente (sim, estou no pequeno grupo que o defende), o segundo fica longe de alcançar o mesmo resultado, contribuindo com a má fama das adaptações de jogos.

Em Assassin’s Creed, uma guerra entre a Irmandade dos Assassinos e os Templários ocorre há séculos, sendo que durante a Inquisição Espanhola, em 1492, a disputa entre os dois lados envolveu a Maçã de Éden, objeto que pode dar a quem o possuir o controle sobre o livre arbítrio. Pulando para os dias atuais, Michael Fassbender interpreta Callum Lynch, homem condenado à morte, mas cuja execução é forjada pela Fundação Abstergo, que o recolhe para sua base em Madri para que ele seja usado em um experimento da cientista Sophia Rikkin (Marion Cotillard), filha do líder da organização, Alan (Jeremy Irons). Callum descobre ser descendente do Assassino Aguilar de Nerha (novamente Fassbender), sendo conectado às memórias deste através de uma máquina chamada Animus e recebendo de Sophia a tarefa de descobrir onde a Maçã foi escondida em 1492.

Dirigido por Justin Kurzel (do ótimo Macbeth estrelado por Fassbender e Cotillard) a partir do roteiro escrito por Michael Lesslie e pela dupla Adam Cooper e Bill Collage, Assassin’s Creed se estrutura de um jeito que busca seguir a ideia de um jogo, contando sua história nos tempos atuais e partindo para a ação do passado pontualmente como se estas passagens fossem fases a serem vencidas, com tais momentos se encerrando em cliffhangers na maioria das vezes, numa tentativa de nos deixar curiosos quanto aos acontecimentos de 1492. O problema é que é difícil ficar curioso quando o filme não só falha em criar uma narrativa envolvente como também se estica mais do que o necessário, preferindo nos mostrar toda a jornada de Aguilar na disputa pela Maçã (o MacGuffin do roteiro) ainda que a única coisa que interesse nessa parte da trama seja a localização do objeto, o que apenas evidencia o fiapo de história que o longa tem em mãos.

Isso acaba servindo mais para abrir espaço para cenas de ação que mostrem a luta enfrentada pelo antepassado do protagonista, com Justin Kurzel intercalando as linhas temporais a fim de mostrar Callum recriando cada passo de Aguilar, como se o personagem estivesse jogando uma versão avançada do Nintendo Wii (com a diferença de que ele não controla a ação, e sim a acompanha). Mas mesmo nesse quesito o filme encontra problemas, já que, por mais que Kurzel se esforce em impor um ritmo ágil ao que vemos na tela, ele não consegue criar sequências de batalha minimamente interessantes e que tenham algum peso narrativo.

Para completar, é lamentável ver um elenco incrivelmente talentoso ser desperdiçado. Ainda que Michael Fassbender, Marion Cotillard e Jeremy Irons sejam atores muito competentes, a verdade é que eles não conseguem fazer muita coisa com seus personagens unidimensionais, sem personalidade e pelos quais não nos importamos nenhum pouco ao longo da projeção, certamente um dos principais pontos que fazem o filme cair por terra. No entanto, vale dizer que o trio tem mais sorte que Brendan Gleeson e Charlotte Rampling, que aqui inexplicavelmente surgem como figurantes de luxo.

Assassin’s Creed até exibe um visual que chama a atenção, principalmente nas sequências que se passam durante a Inquisição Espanhola. Mas isso não chega nem perto de compensar o conteúdo pobre e sem vida que o filme apresenta, sendo triste que em determinados momentos ele claramente pareça mais preocupado em criar uma franquia no cinema, nos fazendo temer a possibilidade de retomar a história iniciada aqui ao invés de nos deixar empolgados com isso.


Nota:

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

La La Land: Cantando Estações

Sonhos são capazes de nos dar um norte, de nos ajudar a formar a vida que queremos ter e também os seres humanos que queremos ser. Mas nem sempre seguir o caminho que tanto idealizamos se revela uma tarefa fácil, com frustrações e inseguranças sendo mais do que comuns ao longo da jornada, a ponto de, inclusive, poderem nos afastar do objetivo que tínhamos. La La Land é um filme sobre tudo isso. Mesmo trazendo uma trama que, essencialmente, está longe de ser uma novidade, com uma fórmula que se vê com certa frequência em comédias românticas, este musical dirigido por Damien Chazzele (o mesmo do excelente Whiplash) encanta com a sensibilidade com a qual acompanha seus personagens e os esforços deles para terem sucesso, sabendo usar eficientemente para isso suas canções e números musicais.

O roteiro escrito pelo próprio Damien Chazzele nos apresenta a Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). Ela quer brilhar como atriz, fazendo vários testes e trabalhando em uma cafeteria enquanto não recebe uma chance. Já ele é um pianista que tem o plano de abrir seu próprio clube de jazz, o tipo de música que tanto ama e que vê como algo que está perdendo espaço atualmente. Ao se encontrarem, os dois iniciam uma história de amor na qual um tem no outro o apoio que precisam para não desistirem de seus sonhos.

La La Land abraça sem pestanejar suas inspirações nos musicais da Era de Ouro de Hollywood, como aqueles protagonizados por Gene Kelly e as parcerias de Fred Astaire e Ginger Rogers, de forma que o filme pode até se passar nos dias atuais, mas conta com uma atmosfera que remete muito àquelas produções, formando uma estética que mistura o contemporâneo e o clássico, como se vê nos figurinos e no design de produção. Assim, inevitavelmente o filme traz um ar nostálgico, com Chazzele conseguindo aproveitar isso também para criar a própria energia da narrativa, que surge cheia de vida através das cores quentes que tomam a tela constantemente, numa provável tentativa de emular o clássico Technicolor, algo que o cineasta e o diretor de fotografia Linus Sandgren fazem com sucesso.

Enquanto isso, contar a história vista aqui como um musical é uma decisão mais do que apropriada por parte de Chazzele, considerando que o gênero é uma junção das artes para as quais seus protagonistas tanto se dedicam (cinema e música), sendo natural que o diretor-roteirista traga Mia e Sebastian se comunicando e expressando muito do que sentem através dos números musicais e das canções que os regem. E se em alguns momentos isso se desenvolve de um jeito um tanto óbvio (como a letra de “Someone in the Crowd”) ou pareçam ideias boas no papel, mas desperdiçadas na execução (o número de sapateado com a dupla central), Chazzele ainda consegue conceber cenas cativantes, desde a abertura grandiosa em meio a um engarrafamento (de todos os planos longos que ele e seu diretor de fotografia fazem, o desta cena se sobressai), passando pela sequência situada em um planetário e chegando àquela que mostra uma espécie de realidade alternativa, valendo destacar que o diretor e o montador Tom Cross modulam bem o ritmo da narrativa entre a agilidade de números musicais radiantes e a sensível melancolia presente em outros.

Formando um par romântico pela terceira vez no cinema (as outras foram no ótimo Amor a Toda Prova e no medíocre Caça aos Gângsteres), Emma Stone e Ryan Gosling voltam a exibir uma ótima química que, somada ao habitual carisma deles como intérpretes, contribui para que simpatizemos rapidamente com Mia e Sebastian. São personagens cujos dilemas como sonhadores rendem dramas pessoais com os quais conseguimos nos identificar com relativa facilidade, até por contarem com um apelo universal. Os dois formam a irresistível alma do filme, e é bom ver que o roteiro tem noção de que a importância que eles dão a seus sonhos não diminui o que eles representam um para o outro.

Se em Whiplash Damien Chazzele trazia um conto que beirava o brutal na relação dos personagens com a arte que veneravam, em La La Land ele segue um caminho bem mais leve. Com segurança, o jovem diretor concebe um musical que, mesmo não chegando no nível das obras que o inspirou, sabe entreter o público sem perder de vista o carinho que tem por seus adoráveis protagonistas.

Nota:

sábado, 31 de dezembro de 2016

Os Melhores e os Piores Filmes de 2016


2016 chegando ao fim e com isso vem também o momento das costumeiras listas de fim de ano com o que o cinema nos proporcionou de bom e de ruim, um balanço sempre bacana de se fazer.

Como havia comentado no final do ano passado, dessa vez decidi compor as listas me concentrando não só nos filmes lançados nos cinemas brasileiros, mas também nas produções que não tiveram a chance de passar por nossas salas, indo parar direto no mercado de home video, nos serviços de streaming (como a Netflix) e na televisão. Caso alguém tenha interesse, a lista com todos os 316 longas-metragens que vi em 2016 (e suas respectivas notas) está à disposição no meu perfil no Letterboxd, que pode ser acessado aqui.

Dito isso...

Os dez piores filmes lançados no Brasil em 2016:


10) Inferno, de Ron Howard:

Terceiro filme a adaptar um livro da série protagonizada pelo professor Robert Langdon e escrita por Dan Brown, Inferno coloca o personagem (novamente interpretado por Tom Hanks) no modo desmemoriado e em meio a uma nova correria internacional, tendo a ajuda da médica Sienna Brooks (Felicity Jones) para desvendar o porquê de algumas pessoas estarem o perseguindo enquanto ele tem visões sobre o Inferno concebido por Dante Alighieri. É uma trama que deveria render uma narrativa instigante com as pistas seguidas pelos personagens e o grande mistério envolvendo um cientista (vivido por Ben Foster), mas infelizmente o filme é desinteressante do início ao fim, contando com um desenvolvimento absurdo e até conveniente que parece subestimar a inteligência do público, sendo que a direção de Ron Howard ainda se revela burocrática e nada envolvente. Acaba sendo o pior capítulo da trilogia, que já não era grande coisa com O Código Da Vinci e Anjos & Demônios.


9) A 5ª Onda (The 5th Wave), de J Blakeson:

Tentativa de emplacar mais um sucesso entre as adaptações de livros destinados ao público jovem-adulto, A 5ª Onda traz Chloë Grace-Moretz no papel de Cassie, que se vê tendo que lidar com uma invasão alienígena determinada a acabar com a raça humana, algo feito gradualmente a partir de “ondas” que tiram nossos recursos para sobreviver e causam uma série de desastres. Depois de estabelecer sua premissa, o filme descarrilha com um desenrolar bastante genérico, não só por seguir a fórmula que vem servindo de base para longas como esse (com direito a um triângulo amoroso aborrecido), mas também por a trama ser montada com peças que já vimos em produções infinitamente melhores, como Vampiros de Almas. O que se tem aqui acaba sendo algo terrivelmente insípido e previsível, sem quaisquer personagens com os quais possamos nos importar, e se não torcemos pelos alienígenas é porque estes se revelam estúpidos demais para serem levados a sério.


8) Tirando o Atraso (Dirty Grandpa), de Dan Mazer:

Ver uma lenda como Robert De Niro embarcar em um longa como Tirando o Atraso é algo que até dói. No filme ele interpreta Dick, veterano do exército que, após a morte da esposa, passa a querer viver a vida ao máximo, dando em cima de garotas adolescentes e frequentando altas festas durante uma viagem que ele faz ao lado do neto, Jason (Zac Efron), a fim de salvar o rapaz de um futuro infeliz. Tentando ser uma comédia politicamente incorreta, o filme infelizmente fracassa ao não conseguir fazer graça com as situações exageradas que joga na tela, como quando Jason flagra o avô se masturbando ou as cenas que Dick protagoniza ao lado de Lenore (Aubrey Plaza), momentos que acabam sendo apenas ridículos. Para completar, a história é previsível desde o princípio e engessada por uma série de clichês que não poderiam ser mais batidos, sendo até uma surpresa que ainda sejam usados.


7) Visões do Passado (Backtrack), de Michael Petroni:

Adrien Brody é um ator que curto muito. Muito mesmo. É exatamente por isso que acho uma pena ele estar há anos na mesma maré que atores como Nicolas Cage e Bruce Willis (admiro ambos também), aceitando qualquer projeto que aparecer em sua frente ao invés de ambicionar coisas mais criativas. Visões do Passado entra na área de porcarias protagonizadas pelo ator, que aqui interpreta um psicólogo abatido pela morte da filha pequena e que, gradualmente, se envolve no mistério de uma tragédia que ocorreu quando ele era mais jovem. Trata-se de um filme que se desenvolve de maneira bagunçada e até absurda a partir das peças que tem em mãos, além de falhar em suas tentativas de criar um clima de suspense e irritar com os sustos baratos que aparecem pontualmente. E ainda que Adrien Brody se esforce, a verdade é que nem ele consegue se destacar em meio ao caos narrativo no qual está inserido.


6) Caçadores de Emoção: Além do Limite (Point Break), de Ericson Core:

Dirigido por Kathryn Bigelow e protagonizado por Keanu Reeves e Patrick Swayze em 1991, Caçadores de Emoção não é exatamente um grande filme. No entanto, qualquer coisa que ele apresente consegue ser infinitamente melhor do que este remake dirigido por Ericson Core. Tendo a mesma premissa do anterior ao trazer o jovem agente do FBI Johnny Utah (Luke Bracey, um Chris Hemsworth sem um pingo de carisma) se infiltrando em uma gangue de esportistas que organiza grandes roubos sob a liderança de Bodhi (Édgar Ramirez, ator talentoso que merecia papeis melhores), o longa é praticamente um sonífero, não tendo nada de cativante que possa segurar a narrativa e a atenção do público, contando com uma história que não foge da obviedade, personagens desinteressantes e cenas de ação sem energia alguma, por mais que lidem com esportes radicais. O máximo que este novo filme consegue fazer é nos deixar com saudades do longa original. Ao menos aquele era uma diversão razoável.


5) 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi (13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi), de Michael Bay:

Baseado na história real dos ataques feitos por militantes libaneses ao posto diplomático norte-americano na cidade de Benghazi, em 11 setembro de 2012, 13 Horas acompanha a equipe de soldados americanos que se viu tendo que proteger o local, numa missão feita por baixo dos panos e que durou o tempo que dá título ao filme. Mostrando a mania dos Estados Unidos de querer invadir outros países com a desculpa de querer acabar com seus conflitos, o filme infelizmente surge como uma propaganda ufanista que trata com respeito o poderio americano e sua arrogância enquanto chama a Líbia de fracasso. E se em quesitos como esse o longa já incomoda, ele ainda tem o azar de contar com a incompetência de Michael Bay na direção, que conduz as cenas de ação de maneira caótica e sem o menor apuro técnico. No fim, o que se vê aqui é tão aborrecido e ignorante que os 140 minutos de duração parecem intermináveis.


4) Zerando a Vida (The Do-Over), de Steven Brill:

Segundo filme da parceria entre Adam Sandler e Netflix, Zerando a Vida mostra que os responsáveis pelo serviço de streaming estavam malucos quando concluíram que Sandler era uma aposta interessante em termos criativos, algo que o catastrófico The Ridiculous 6 também havia apontado. Aqui, Sandler e seu velho amigo David Spade interpretam sujeitos que simulam a própria morte a fim de resetar suas vidas, se metendo em uma grande encrenca pelo fato de suas novas identidades serem de figuras que estavam metidas em atividades ilícitas. Uma trama boba por natureza e que rende um filme típico da filmografia de Sandler, tentando causar o riso a partir de piadas nada engraçadas e que muitas vezes se revelam preconceituosas. E se as reviravoltas do roteiro são previsíveis, as pontuais cenas de ação não poderiam ser mais ridículas, como a luta que acompanhamos no terceiro ato. Ainda faltam dois filmes para que Sandler e a Netflix concluam seu contrato, mas já torço para que este não seja renovado.


3) Invasão a Londres (London Has Fallen), de Babak Najafi:

Invasão a Casa Branca já era fraco, mas Invasão a Londres mostra que nada é tão ruim que não possa piorar. Dando continuidade a rotina de seus personagens, o longa troca o local da ação e mantém mais ou menos a mesma história de antes, com o segurança Mike Banning (Gerard Butler) tendo que salvar o presidente americano Ben Asher (Aaron Eckhart) e outros líderes mundiais das mãos de terroristas implacáveis. A partir daí, o filme não só não sai do lugar comum, tanto em termos de trama quanto de cenas de ação (a exceção talvez fique com um plano-sequência em meio a um tiroteio), como ainda exibe uma boa dose de ufanismo e xenofobia através das ações e dos diálogos de seu protagonista. Desconfio que caras como Donald Trump devem adorar um filme como esse. E pensar que um terceiro capítulo da franquia já foi confirmado e deve estrear em 2018 (suspiros).


2) É Fada!, de Cris D’Amato:

Se É Fada! foi usado como veículo para lançar Kéfera Buchmann ao estrelato no cinema, a maneira como faz isso é insuportável. Colocando a youtuber no papel da fada Geraldine, que tem como objetivo ajudar a jovem Julia (Klara Castanho) a superar alguns problemas, o filme é uma produção que mostra não ter a menor noção de desenvolvimento de história e personagens, além de nos colocar diante de situações que tentam (sem sucesso) brincar com a incompetência da fada em seu trabalho, algo que piora quando percebemos que Julia se sairia muito melhor sem a tal ajuda, tornando descartável tudo o que vemos e passando de maneira bastante óbvia a mensagem de “Seja você mesmo(a)”. É um longa aborrecido e constantemente irritante, no qual Buchmann ainda cria uma personagem que termina suas falas com um palavrão como se isso fosse o suficiente para causar o riso. E prefiro nem comentar o hábito de Geraldine de tirar a varinha do ânus. Só de lembrar fico com vergonha alheia.


1) Cinquenta Tons de Preto (Fifty Shades of Black), de Michael Tiddes:

Cinquenta Tons de Cinza é um desastre cujos problemas deixam ganchos para que ele seja ridicularizado, principalmente em um filme que tem como objetivo parodiá-lo. Mas quando o trabalho de criar as piadas em cima disso fica nas mãos de figuras como Marlon Wayans, o resultado é esta grande porcaria chamada Cinquenta Tons de Preto. Seguindo à risca a história do longa baseado no livro de E.L. James, esta comédia parece uma metralhadora ao atirar piadas para todos os lados a fim de fazer o espectador rir, o que é impossível quando o que se vê são sequências longas, repetitivas e incrivelmente idiotas como aquela em que a protagonista Hannah Steele (vivida por Kali Hawk) chupa um lápis, ou a outra em que as portas de um elevador ficam batendo na cabeça dela. Torturante do início ao fim, esta “paródia” só impressiona por conseguir ser mais estúpida do que o longa com o qual tenta (se é que podemos usar essa palavra) tirar sarro. Um feito realmente notável.

Outros 27 filmes que merecem menção desonrosa (em ordem alfabética):

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass), de James Bobin
Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição (Mechanic: Ressurection), de Dennis Gansel
Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice), de Zack Snyder
Ben-Hur, de Timur Bekmambetov
O Bom Gigante Amigo (The BFG), de Steven Spielberg
O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur), de Peter Sohn
O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter’s War), de Cedric Nicolas-Troyan
Café Society, de Woody Allen
Como Ser Solteira (How to Be Single), de Christian Ditter
Demônio de Neon (The Neon Demon), de Nicolas Winding Refn
A Era do Gelo: O Big Bang (Ice Age: Collision Course), de Michael Thurmeier
Um Espião e Meio (Central Intelligence), de Rawson Marshall Thurber
Esquadrão Suicida (Suicide Squad), de David Ayer
Floresta Maldita (The Forest), de Jason Zada
Um Homem Entre Gigantes (Concussion), de Peter Landesman
Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Resurgence), de Roland Emmerich
Jack Reacher: Sem Retorno (Jack Reacher: Never Go Back), de Edward Zwick
Joy: O Nome do Sucesso (Joy), de David O. Russell
Julieta, de Pedro Almodóvar
O Maior Amor do Mundo (Mother’s Day), de Garry Matshall
Mente Criminosa (Criminal), de Ariel Vromen
Meu Amigo Hindu (My Hindu Friend), de Hector Babenco
Pai em Dose Dupla (Daddy’s Home), de Sean Anders
Perfeita é a Mãe (Bad Moms), de Jon Lucas e Scott Moore
Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets), de Chris Renaud e Yarrow Cheney
A Série Divergente: Convergente (The Divergent Series: Allegiant), de Robert Schwentke
Truque de Mestre: O 2º Ato (Now You See Me 2), de Jon M. Chu

E agora...

Os melhores filmes lançados no Brasil em 2016:


10) Sing Street: Música e Sonho (Sing Street), de John Carney:

Algo que John Carney já deixou claro em sua curta filmografia é seu interesse por histórias que trazem a música não só como uma forma de os personagens darem voz a sua criatividade, mas também de encarar seus problemas e evoluírem pessoalmente. Foi assim no maravilhoso Apenas Uma Vez, no ótimo Mesmo Se Nada Der Certo e neste lindo Sing Street. Nos levando até a Dublin da década de 1980, o diretor conta a história do jovem Conor (Ferdia Walsh-Peelo), que vive uma realidade conturbada com a família e dá início a uma banda (a Sing Street do título) para impressionar a adorável Raphina (Lucy Boynton). E assim passamos a acompanhar uma narrativa que diverte e toca o espectador com seus personagens carismáticos e os dilemas que eles vivem, além de encantar com cada uma das canções que surgem pontualmente e ajudam a marcar a evolução de Conor e seus amigos como artistas (aliás, será uma tremenda injustiça se o filme ficar de fora do Oscar de Melhor Canção, já que sua trilha inteira é digna de prêmios). É uma obra que empolga tanto com suas qualidades que acaba sendo capaz de aquecer até o mais gelado dos corações.


9) A Grande Aposta (The Big Short), de Adam McKay:

Mostrando os bastidores da crise financeira que estourou no final da década passada, A Grande Aposta foca em indivíduos que perceberam que um desastre ia acontecer, mas que preferiram ganhar dinheiro ao invés de impedir que milhões de pessoas fossem prejudicadas. Usando sua vasta experiência com comédias para lidar com o material que tem em mãos, Adam McKay parece apontar que é preciso “rir para não chorar” ao apresentar as situações absurdas da história. Em meio a isso, ele cria uma narrativa ágil, cheia de energia e com um mais do que apropriado tom documental, conseguindo prender a atenção do público e divertir sem tirar o peso da gravidade do que está acontecendo. E por o mercado financeiro ser bastante complexo com seus vários termos, é bacana ver como o diretor consegue ser didático quando precisa explicar determinadas coisas ao público, detalhe que rende algumas das cenas mais divertidas do filme. Contando ainda com grandes atuações de todo o elenco (em especial Christian Bale no papel do gestor financeiro Michael Burry), o longa surgiu como uma bela surpresa, ajudando a formar uma visão cinematográfica interessante e relevante sobre um acontecimento marcante em suas consequências.


8) Anomalisa, de Charlie Kauffman e Duke Johnson:

Primeira investida do genial Charlie Kauffman nas animações, Anomalisa se revela tão humano quanto os longas de carne e osso que ele já concebeu. No filme, feito a partir da técnica de stop-motion, Kauffman cria personagens que se revelam tão expressivos quanto os atores que já deram vida às histórias concebidas por ele. Tudo para contar a história de Michael Stone (voz de David Thewlis), escritor de livros de autoajuda que chega a Los Angeles para dar uma palestra sobre sua nova obra, encontrando no hotel em que se hospeda a jovem Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), que surge como uma possível luz para que ele escape da escuridão de sua solidão. Tecnicamente impecável, o longa trata com sensibilidade a visão deprimente que o protagonista tem do mundo e de como isso é capaz de criar um universo bastante simplista, como se vê no fato de todas as pessoas pelas quais ele passa terem o mesmo rosto e a mesma voz (com exceção de Lisa), sendo genial ver como esse jeito do personagem afeta a própria idealização que ele tem sobre um novo amor. É um filme típico de uma mente criativa como Charlie Kauffman, o que o torna imperdível.


7) Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight), de Tom McCarthy:

No início da década passada, a equipe Spotlight do The Boston Globe publicou artigos que trouxeram à tona uma série de casos de pedofilia ocorridos na igreja católica. No cinema, tais casos já haviam sido abordados em documentários excepcionais como Mea Maxima Culpa e Livrai-nos do Mal, mas é interessante ver o ponto de vista jornalístico mostrado em Spotlight, que mostra a instigante investigação feita pela equipe-titulo em Boston, e nisso o longa não esconde sua inspiração na obra-prima Todos os Homens do Presidente. Aliás, assim como o clássico de Alan J. Pakula, este excelente trabalho de Tom McCarthy deveria ser exibido em todas as faculdades de jornalismo, já que dá uma verdadeira aula sobre como exercer a profissão, com os personagens exibindo um admirável compromisso com a verdade, seguindo as pistas e apurando as informações com a integridade que se espera de qualquer jornalista. E qualquer veículo de imprensa que prefere manipular informações a fim de saciar os próprios interesses deveria assistir a um filme como este para passar um pouco de vergonha.


6) Capitão Fantástico (Captain Fantastic), de Matt Ross:

Em um dos grandes filmes que o cinema independente americano produziu neste ano, Viggo Mortensen vive Ben Cash, homem que cuida de seus filhos de maneira um tanto atípica, morando na floresta, tendo mínimo contato com a sociedade e educando-os de maneira impressionante. Com isso, o diretor Matt Ross desenvolve um filme que diverte naturalmente com seus personagens, especialmente por conta da dinâmica que Mortensen (em uma atuação excepcional) tem com seus jovens colegas de elenco, fazendo do núcleo familiar de Ben e seus filhos algo absolutamente adorável, por mais perigoso que pareça em determinados momentos. Mas muito do brilhantismo de Capitão Fantástico também vem da forma como ele mostra a importância de sairmos um pouco de nossas bolhas, onde residem nossas ideias, gostos e cotidianos, e termos contato com coisas diferentes a fim de ganharmos novas vivências e nos tornarmos seres humanos um pouco mais completos, algo tratado com uma sensibilidade ímpar pelo diretor-roteirista Matt Ross. Como se não bastasse, o longa ainda tem uma das melhores versões de “Sweet Child O’Mine”, que rende aqui uma das cenas mais bonitas do ano.


5) Os Oito Odiados (The Hateful Eight), de Quentin Tarantino:

Em seu oitavo filme, Quentin Tarantino cria uma galeria de personagens desprezíveis, colocando todos eles em uma cabana durante um inverno forte no Wyoming e obrigando-os a se relacionar uns com os outros, algo que se revela praticamente impossível e resulta em uma tensão constante. Desde o John Ruth interpretado por Kurt Russell até o general Sandy Smithers vivido por Bruce Dern, os personagens que acompanhamos ao longo do filme fazem questão de mostrar que são criaturas odiáveis, o que não os torna menos memoráveis, sendo que os membros do elenco os encarnam com o grande talento que sabemos possuírem (destaque especial para Jennifer Jason Leigh, Samuel L. Jackson e o já citado Russell). E ao orquestrar um banho de sangue surpreendentemente chocante a partir dessas figuras, Tarantino aproveita para fazer um comentário muito pertinente sobre nossa mania de autodestruição, algo que contribui para a riqueza do longa. A realização de Os Oito Odiados foi uma incógnita por um tempo, depois que uma versão do roteiro vazou na internet. Mas assistindo ao filme, é inevitável ficar feliz com o fato de o diretor ter decidido levar o projeto adiante.


4) Boi Neon, de Gabriel Mascaro:

Boi Neon é uma prova de que não é preciso uma trama bem definida, com início, meio e fim, para termos um grande filme. Às vezes, o olhar aguçado de um diretor talentoso é o que basta, algo que Gabriel Mascaro mostra ter de sobra ao simplesmente acompanhar seus personagens. No filme, Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro que viaja pelo Nordeste cuidando dos bois para os rodeios enquanto sonha em ser estilista. Ele é transportado pela caminhoneira Galega (Maeve Jinkings), que leva consigo a filha pequena, Cacá (Alyne Santana). Mostrando a realidade dos personagens e seus sonhos de maneira intimista, Mascaro faz com que nos importemos tanto com eles que, quando o filme chega ao final, a vontade que fica é de continuar sendo espectador daquelas vidas, que rendem uma narrativa subversiva e repleta de humanidade junto do enfoque dado pelo realizador.


3) O.J.: Made in America, de Ezra Edelman:

“Nenhum filme bom é longo demais e nenhum filme ruim é curto o bastante”, já diria o mestre Roger Ebert. O.J.: Made in America se encaixa como uma luva na primeira parte desta frase. Produzido pela ESPN, o documentário de Ezra Edelman usa suas sete horas e meia de duração (que passam voando!) para contar a trajetória de O.J. Simpson, focando desde sua consagração como jogador de futebol americano até sua eventual decadência a partir do momento em que foi acusado de matar a ex-esposa, Nicole Brown, e o amigo dela, Ronald Goldman, em um julgamento que sacudiu os Estados Unidos na metade década de 1990. A partir dos depoimentos de uma série de pessoas (algumas inclusive próximas do ex-jogador) e um trabalho impecável com imagens de arquivo, Edelman mostra a vida de Simpson em detalhes, conseguindo com isso tocar em temas que vão desde a realização do sonho americano até o culto à celebridade, além de fazer um grande resgate histórico sobre o racismo nos Estados Unidos, uma questão que acabou criando um contexto ainda mais inquietante envolta do julgamento. É um documentário essencial, com uma narrativa clássica de ascensão, apogeu e queda, e uma vitória no Oscar da categoria seria muito merecida.


2) Aquarius, de Kleber Mendonça Filho:

O fato de Aquarius não ter sido escolhido como nosso representante no Oscar (em uma provável retaliação política pelos protestos feitos por Kleber Mendonça Filho e sua equipe em Cannes) é um troço que irrita profundamente, principalmente porque o longa tinha grandes chances de receber uma indicação, algo que seria mais do que merecido. Tendo em seu cerne o embate entre Clara (Sônia Braga) e a construtora liderada por Diego (Humberto Carrão), que quer comprar o apartamento dela a fim de demolir o edifício (o Aquarius do título) e construir outro mais moderno, o filme é um conto poderoso não só sobre a resistência contra o que é errado, mas também sobre a preservação de memórias, representadas aqui por um bem material que ajuda a proporcioná-las, mostrando que nem tudo pode ser comprado (por maior que seja a quantia). E se Kleber Mendonça Filho volta a mostrar o talento que havia exibido em O Som ao Redor, criando uma narrativa envolvente e sabendo divertir e inquietar o espectador quando precisa, Sônia Braga surge numa atuação absolutamente fantástica, marcando a força de Clara em cada frame em que aparece.


1) A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve:

Ao falar sobre a presença de Sicario no Top 10 do ano passado, comentei que colocar um filme de Denis Villeneuve na lista de melhores do ano havia se tornado um clichê. Pois A Chegada não só mantém isso firme como ainda é mais um trabalho do diretor que coloco no topo (O Homem Duplicado encabeçou a lista de 2014). Isso até diz muito sobre a consistência do cineasta, que tem se mostrado cada vez mais fascinante na condução de tramas ambiciosas e inteligentes, conseguindo impor sempre o peso que elas precisam ter. Ao contar a história do primeiro contato entre humanos e alienígenas, focando nos esforços da equipe liderada pela linguista Louise Banks (Amy Adams, naquela que deve ser a melhor atuação de sua carreira até agora) e pelo físico Ian Donnelly (o ótimo Jeremy Renner) para decifrar os símbolos que os visitantes usam para se comunicar, Villeneuve volta a exibir um apuro técnico admirável ao mesmo tempo em que trata com sensibilidade as questões temáticas e emocionais abordadas pelo roteiro. Assim, o filme consegue manter o espectador sempre instigado com o desenvolvimento surpreendente da história e a maneira como organiza suas peças, além de emocionar com a humanidade por trás das decisões dos personagens e dos caminhos que eles veem diante de si próprios. É uma ficção científica fantástica e que faz jus aos melhores filmes do gênero.

Outros 45 filmes que merecem menção honrosa (em ordem alfabética):

A 13ª Emenda (13th), de Ava DuVernay
O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente), de Ciro Guerra
Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them), de David Yates
Ave, César! (Hail, Caesar!), de Joel Coen e Ethan Coen
Big Jato, Cláudio Assis
Blue Jay, de Alex Lehmann
Brooklyn, de John Crowley
A Bruxa (The Witch), de Robert Eggers
Caça-Fantasmas (Ghostbusters), de Paul Feig
Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War), de Anthony Russo e Joe Russo
Carol, de Todd Haynes
Cegonhas: A História Que Não Te Contaram (Storks), de Nicholas Stoller e Doug Sweetland
Cinco Graças (Mustang), de Deniz Gamze Ergüven
Cinema Novo, de Eryk Rocha
O Convite (The Invitation), de Karyn Kusama
Creed: Nascido Para Lutar (Creed), de Ryan Coogler
Deadpool, de Tim Miller
A Despedida, de Marcelo Galvão
Dois Caras Legais (The Nice Guys), de Shane Black
Elle, de Paul Verhoeven
Elvis & Nixon, de Liza Johnson
Hardcore: Missão Extrema (Hardcore Henry), de Ilya Naishuller
O Homem nas Trevas (Don’t Breathe), de Fede Alvarez
Invasão Zumbi (Busanhaeng), de Yeon Sang-ho
Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2), de James Wan
Janis: Little Girl Blue, de Amy Berg
Jogo do Dinheiro (Money Monster), de Jodie Foster
Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings), de Travis Knight
O Lamento (Goksung), de Na Hong-jin
Mogli: O Menino Lobo (The Jungle Book), de Jon Favreau
Para Minha Amada Morta, Aly Muritiba
O Quarto de Jack (Room), de Lenny Abrahamson
O Regresso (The Revenant), de Alejandro González Iñárritu
Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story), de Gareth Edwards
Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane), de Dan Trachtenberg
Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), de Antoine Fuqua
Snoopy & Charlie Brown: Peanuts – O Filme (The Peanuts Movie), de Steve Martino
Snowden: Herói ou Traidor (Snowden), de Oliver Stone
Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek: Beyond), de Justin Lin
Steve Jobs, de Danny Boyle
Truman, de Cesc Gay
Vizinhos 2 (Neighbors 2: Sorority Rising), de Nicholas Stoller
Zoom, de Pedro Morelli
Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Zootopia), de Byron Howard e Rich Moore

E é isso, meus caros. Desejo a todos um Feliz Ano Novo, torcendo desde já para que 2017 seja melhor que 2016.

Um grande abraço!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One: Uma História Star Wars

A ideia de lançar um filme da franquia Star Wars por ano não deixa de ser uma forma de a Disney recuperar os bilhões que investiu na compra da Lucasfilm, podendo muito bem ser algo puramente caça-níquel para ganhar dinheiro com bilheterias e produtos licenciados. No entanto, uma coisa que o excelente O Despertar da Força provou é que o universo criado por George Lucas ainda é capaz de render novas e interessantes aventuras no cinema. E se uma nova trilogia já foi iniciada, agora é a vez dos longas derivados da série explorarem outros detalhes daquele universo, começando por este Rogue One, prequel ambientada pouco antes de Uma Nova Esperança e que se revela um complemento rico para a trama que vimos há 40 anos.

Escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy a partir do argumento de John Knoll e Gary Whitta, Rogue One mostra a Aliança Rebelde recrutando Jyn Erso (Felicity Jones), filha de Galen Erso (Mads Mikkelsen), o cientista que, sob o comando de Orson Krennic (Ben Mendelsohn), ajudou o Império a construir a Estrela da Morte. Ao lado de Cassian Andor (Diego Luna) e do androide K-2SO (Alan Tudyk), Jyn recebe a tarefa de encontrar o rebelde Saw Gerrera (Forest Whitaker), que pode ter uma mensagem importante para a Aliança. Em meio a isso, o trio ganha a companhia do piloto Bodhi Rook (Riz Ahmed) e da dupla Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Jiang Wen), que os ajudam em sua luta contra o Império.

Como quase toda prequel, o que se vê aqui é uma história na qual a maioria das pessoas já entra sabendo como irá terminar, e não é à toa que a graça desse tipo de filme (e até de outros que possam ser um tanto previsíveis) não está no ponto em que ele chega ao final, mas sim no caminho que ele percorre até lá. Apesar de o roteiro levar algum tempo para estabelecer o enredo principal, ele ainda é hábil ao fazer com que este novo exemplar surja como uma peça fundamental na trama geral da franquia, principalmente para Uma Nova Esperança, conseguindo apresentar um novo núcleo da guerra intergaláctica que é tão relevante quanto aqueles que acompanhamos nos outros longas. E ao mesmo tempo em que nos deixa curiosos quanto às direções tomadas pela história, Rogue One ainda preenche certas lacunas que enriquecem a narrativa (dessa vez temos até uma explicação convincente e tocante sobre o porquê de a Estrela da Morte convenientemente ter um ponto vulnerável), além de incluir referências e personagens que não soam apenas como uma forma gratuita de agradar os fãs, servindo principalmente para dar mais peso aos eventos que retrata e criar uma continuidade natural e até necessária entre o filme e o restante da saga.

Trazendo um tom que faz jus a “guerra” que faz parte do título da franquia, o diretor Gareth Edwards (do ótimo Monstros e da mais recente e decepcionante versão de Godzilla) comanda uma narrativa que mantém o espectador inquieto durante a maior parte do tempo, com batalhas ocorrendo quando menos se espera. Estas, por sinal, são bem conduzidas pelo diretor, que impõe tensão e intensidade ao caos que se estabelece por ali, sendo que ele também não desvia o olhar dos resultados brutais de tudo isso, sendo possível notar stormtroopers sendo desmembrados em grandes explosões (ainda que isso aconteça da maneira menos gráfica possível para manter a baixa classificação indicativa). Além disso, o cineasta tem a sorte de poder contar com toda a competência técnica que nos acostumamos a ver ao longo da franquia, desde o excepcional trabalho de design de produção que mantém a escala grandiosa daquele universo, como se vê nos conhecidos interiores da Estrela da Morte e na criação dos diversos planetas que surgem na tela, até os brilhantes efeitos visuais, que impressionam tanto nas cenas de ação quanto nas criaturas digitais, causando estranhamento apenas ao resgatar dois personagens humanos conhecidos do público e cuja artificialidade podemos notar constantemente.

Liderando o elenco bastante diversificado que dá vida a personagens com os quais conseguimos nos importar em maior ou menor grau, Felicity Jones cria em Jyn Erso uma figura que não faz feio se comparada a Leia e Rey no que diz respeito às protagonistas femininas fortes da série, exibindo carisma e segurança admiráveis no papel. Já Diego Luna interpreta Cassian Andor como alguém determinado a fazer o que for necessário pela causa que defende, ao passo que o K-2SO de Alan Tudyk surge como um alívio cômico que praticamente rouba a cena com suas ótimas (e por vezes hilárias) observações. E se o excelente Ben Mendelsohn faz de Orson Krennic um vilão que chama atenção por suas ambições com relação ao seu papel diante do Império e seus líderes, Mads Mikkelsen e Forest Whitaker têm participações pequenas, mas marcantes nos papeis de Galen Erso e do extremista Saw Gerrera, respectivamente. Fechando o elenco, atores como Riz Ahmed, Donnie Yen e Jiang Wen têm presenças interessantes, o que compensa um pouco o fato de seus personagens não serem tão desenvolvidos.

Embalado pela ótima trilha de Michael Giacchino, que cria novas e cativantes composições enquanto faz bom uso dos temas originais de John Williams quando preciso, Rogue One surge como um exemplar admirável de Star Wars, conseguindo inclusive enriquecer os outros longas da franquia ao dar a devida importância aos eventos que apresenta. Depois do filme, é inevitável sentir certa vontade de conferir como essa história continua, algo que felizmente já está à nossa disposição há um bom tempo.

Nota: