segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Missão: Impossível - Efeito Fallout


Ao escrever sobre Missão Impossível: Nação Secreta, comentei como era surpreendente acompanhar a franquia. Isso porque, mesmo com duas décadas nas costas, ela consegue manter uma consistência admirável, tendo a façanha de melhorar a cada novo capítulo (com exceção de Missão Impossível 2, que mesmo sendo um longa eficiente, ainda é o mais irregular da série). Pois bem, essa consistência tem continuidade neste sexto exemplar, Missão Impossível: Efeito Fallout, com Tom Cruise e companhia voltando a impressionar.

Escrito e dirigido por Christopher McQuarrie (que já havia comandado Nação Secreta, marcando assim a primeira vez que um realizador faz mais de um filme da franquia), Efeito Fallout coloca Ethan Hunt (Cruise) precisando recuperar três bombas de plutônio antes que estas caiam nas mãos do desconhecido John Lark e dos Apóstolos, grupo formado a partir do que restou do Sindicato liderado por Solomon Lane (Sean Harris). Mas é claro que isso não é tão fácil para Hunt e, depois que uma primeira investida dá errado, ele e sua equipe formada por Benji (Simon Pegg) e Luther (Ving Rhames) passam a correr atrás do prejuízo, tendo o auxílio nada bem-vindo do agente da CIA August Walker (Henry Cavill), que cuida para que nada na missão fique comprometido. No caminho, eles ainda reencontram a agente do MI6 Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).


É uma premissa relativamente simples, e por isso é até curioso que Efeito Fallout acabe sendo o filme mais longo da franquia. Mas as duas horas e meia de duração são muito bem justificadas e passam rápido. Assim como fez em Nação Secreta, Christopher McQuarrie concebe uma narrativa ágil, que prende a atenção do espectador e não a solta até os créditos finais, desenvolvendo também um roteiro que, além de se estruturar maravilhosamente em cima das sequências de ação, nos mantêm constantemente instigados com relação ao desenrolar da trama. Nesse sentido, é interessante ver o diretor pontualmente inserir reviravoltas que até brincam com a nossa impressão do que está acontecendo em cena, rendendo algumas boas surpresas.

O que não é surpreendente, porém, é o quão empolgante o filme é ao partir para a ação. Desde um salto de avião, passando por lutas como aquela situada em um banheiro, e chegando finalmente a perseguições de carros e helicópteros, McQuarrie novamente coloca na tela sequências espetaculares e que levam quase ao pé da letra o título da franquia. E o diretor conduz tudo com maestria, mantendo a mise en scène das cenas sempre clara para o público e impondo uma tensão crescente na narrativa. Nisso, é impossível não destacar também o excepcional trabalho do montador Eddie Hamilton, que em um mundo justo seria considerado a prêmios, já que é notável a maneira como ele intercala naturalmente várias ações que estão acontecendo ao mesmo tempo, em montagens paralelas que ajudam o filme a não perder seu ritmo e fazem com que a tensão se torne ainda mais forte.


Para completar, as sequências de ação ainda contam com a habitual entrega de Tom Cruise, que mais uma vez encarna Ethan Hunt como um sujeito capaz de fazer absolutamente tudo, de forma que quando alguém questiona como ele fará algo improvável (para não dizer impossível), ele só responde “Eu vou dar um jeito” e isso é o suficiente para que acreditemos nele e fiquemos curiosos para ver suas peripécias. E o ator constantemente parece surpreso com o que está realizando em cena, detalhe que de certa forma traz um pouco de humanidade ao papel. Mas Cruise consegue ir além da fisicalidade de Hunt, tendo a chance de dar a ele um peso dramático maior que nos longas anteriores, levando em consideração tudo o que o personagem já viveu e como isso determina sua forma de agir.

Essa humanidade do protagonista também pode ser vista na relação dele com Benji e Luther, figuras que se tornaram fieis parceiros ao longo dos filmes e que aqui voltam a ser interpretados com grande carisma por Simon Pegg e Ving Rhames. Este último, por sinal, ganha um breve monólogo que aproveita seu talento como pouquíssimos filmes têm aproveitado, rendendo um dos momentos mais tocantes da série. E se Henry Cavill tem em seu August Walker um ótimo contraponto ao protagonista, sendo bem mais impulsivo, Rebecca Ferguson volta a fazer de Ilsa Faust uma personagem forte e que nunca é tratada como mero interesse romântico, tendo seus próprios objetivos para cumprir, enquanto que Sean Harris retoma a ameaça que Solomon Lane representava no longa anterior e o estabelece como o vilão mais interessante da franquia.

Com tudo isso, Efeito Fallout assume facilmente a posição de melhor da franquia Missão Impossível. Mais que isso, o filme se revela um dos grandes destaques do ano, sendo uma daquelas obras de ação capazes de fazer o espectador sair literalmente sem fôlego da sala de cinema.

Nota:


sábado, 28 de abril de 2018

Vingadores: Guerra Infinita


Em outras ocasiões, já elogiei a calma da Marvel para apresentar cada um dos elementos de seu universo, preparando naturalmente as narrativas que juntam todas essas peças, o que ocorre principalmente nos longas focados nos Vingadores. É meio impossível não chamar atenção novamente para isso ao falar deste Vingadores: Guerra Infinita, já que essa nova adição à franquia é o resultado de tudo o que vem sendo construído ao longo de toda uma década (e quando escrevo isso fico até um pouco chocado com o passar do tempo, considerando que parece ter sido ontem que fomos apresentados ao Tony Stark de Robert Downey Jr, que iniciou todo esse projeto). Até por conta disso, seria bastante frustrante se o resultado aqui não fosse satisfatório, mas felizmente o que temos é uma megaprodução que entretém e envolve o público do início ao fim no grandioso (e por vezes até trágico) desenrolar de seus acontecimentos.

Escrito por Stephen McFeely e Christopher Markus (que já haviam sido responsáveis pelos roteiros dos filmes do Capitão América), Guerra Infinita mostra finalmente os esforços de Thanos (Josh Brolin) para coletar as seis Joias do Infinito, que já foram centro de grandes batalhas nos exemplares anteriores da franquia e podem tornar o vilão o ser mais poderoso do universo. Com isso, ele bate de frente com quase todos os super-heróis, desde Tony Stark, Steve Rogers (Chris Evans) e os outros Vingadores até Peter Quill (Chris Pratt) e seus companheiros Guardiões da Galáxia, que passam a se ajudar a fim de impedir Thanos de cumprir seu objetivo.


Mesmo contando com uma vasta galeria de personagens (praticamente todos interpretados por grandes estrelas), o roteiro é hábil não só ao justificar a presença de todos, mas também ao reuni-los de maneira orgânica, dando a eles papéis bem definidos na trama. Numa espécie de distribuição de tarefas, McFeely e Markus espalham os personagens por todo o universo que têm em mãos, dando a eles suas próprias subtramas que mostram ser vitais para a história principal envolvendo Thanos, e por os roteiristas conseguirem dar importância a cada uma dessas partes eles evitam que o filme soe inchado (um risco que, em maior ou menor grau, toda produção com muitos personagens corre). Nisso, também vale destacar o trabalho de montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt, que lida admiravelmente com a estrutura do roteiro, pulando de um ponto a outro da história naturalmente, sem quebrar o ritmo da narrativa concebida pelos irmãos Anthony e Joe Russo.

Aliás, os irmãos cineastas (responsáveis por O Soldado Invernal e Guerra Civil, dois dos melhores exemplares da franquia) novamente se saem bem na condução das sequências de ação, se esforçando para que cada uma seja mais grandiosa que a outra, sendo bom ver que a dupla não se perde no meio disso tudo, dando vida a sequências complexas pelo alto número de personagens envolvidos, mas conseguindo fazer com que elas não sejam visualmente confusas, deixando a mise en scène sempre clara. Além disso, esses momentos se aproveitam bem do carinho que criamos por aqueles heróis nos filmes anteriores, o que faz com que seja natural que nos importemos com eles em meio às batalhas, que assim se tornam mais envolventes. Para completar, ainda que o perigo enfrentado pelos heróis e o que está em jogo fiquem bastante claros, isso não impede que piadinhas sejam inseridas para aliviar um pouco a narrativa e divertir o público (até porque, afinal, estamos falando de um filme da Marvel), aspecto que funciona por mais que acabe tirando o peso de alguns momentos emocionalmente sérios (como uma conversa particular entre Gamora (Zoe Saldanha) e Peter Quill).


Já que mencionei o perigo que é enfrentado no filme, é preciso dizer que Josh Brolin concebe Thanos como um vilão cuja presença é sempre intimidadora, fazendo jus à ameaça que vinha sendo atribuída ao personagem desde que ele apareceu na cena pós-créditos do primeiro Vingadores. E Brolin (que encarnou o papel através da tecnologia de motion capture) alcança isso sem precisar apelar para uma composição exagerada, mantendo um jeito e um tom de voz sempre calmos e que ajudam a estabelecer Thanos como um ser que não se vê como um vilão (ele realmente acredita que seu plano e as perdas que ele causará resultarão em um universo melhor), além de ter plena consciência de que seu poder o torna quase indestrutível. Como se não bastasse, o ator ainda tem a chance de trazer alguma humanidade ao papel, por mais brutal que este seja, o que culmina em uma cena particularmente triste envolvendo o custo de uma das Joias do Infinito que ele tanto almeja.

Mas mesmo que Brolin seja o maior destaque do elenco, isso não quer dizer que seus colegas se saem mal. De veteranos da franquia como Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson e Mark Ruffalo até outros que entraram há relativamente pouco tempo nesse universo como Chadwick Boseman, Tom Holland e Benedict Cumberbatch, todos retornam a seus respectivos papéis com carisma e segurança. E além de eles exibirem uma boa dinâmica nos núcleos narrativos que se constroem, cada um tem sua oportunidade para se destacar.

Vingadores: Guerra Infinita dá densidade a um evento massivamente importante de seu universo sem esquecer de funcionar como um entretenimento eficaz. Tendo em vista que se trata da primeira parte da história (a continuação que irá conclui-la está planejada para o ano que vem), devo dizer que as pontas soltas tramadas pelo roteiro podem até não ter força para deixar o público angustiado (a menos que este seja muito ingênuo), mas certamente são capazes de deixá-lo curioso quanto a como elas serão resolvidas.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.


Nota:


quinta-feira, 15 de março de 2018

Tomb Raider: A Origem


Em determinado momento deste Tomb Raider: A Origem, novo filme baseado na famosa franquia de jogos, a heroína Lara Croft mata uma pessoa e claramente sente o peso de seu ato, mesmo que isso tenha ocorrido em legítima defesa. Trata-se de uma cena com um interessante potencial dramático quanto a humanidade da personagem, principalmente tendo em vista que, minutos antes, ela havia presenciado alguém ser assassinado a sangue frio. No entanto, pouca atenção é dada a esse peso, com o filme logo partindo para sequências de ação insossas. De certa forma, isso resume bem o longa. Aqui e ali, é possível ver elementos que poderiam ter alguma riqueza caso fossem bem desenvolvidos. Mas como o foco é realizar uma aventura genérica, o resultado acaba sendo aborrecido.

Servindo como um reboot da franquia no cinema após os dois exemplares esquecíveis protagonizados por Angelina Jolie (o segundo, em especial, é um desastre absoluto), Tomb Raider: A Origem apresenta Lara Croft (agora vivida por Alicia Vikander) como uma jovem rebelde, que mal se mantém economicamente e se recusa a assumir a grande herança deixada por seu pai, Richard (Dominic West), já que isso a faria admitir que ele morreu quando desapareceu sete anos antes. Mas quando ela encontra uma pista quanto ao possível paradeiro dele, Lara logo parte para tentar encontra-lo, em uma aventura que a leva até a costa do Japão.


A partir daí, o roteiro organiza uma história que gira em torno de uma série de quebra-cabeças e sequências de ação, obviamente seguindo a fórmula do jogo original, algo que como consequência faz o filme aspirar ser uma espécie de Os Caçadores da Arca Perdida, com Lara Croft no lugar de Indiana Jones. É uma pena, porém, que a trama se revele tão boba e clichê, enquanto que os quebra-cabeças carecem de criatividade (muitos parecem ter saído direto de uma obra de Dan Brown) e não são nada intrigantes, sendo que às vezes eles surgem forçadamente em cena, apenas para que o filme nos lembre que estamos vendo uma adaptação de um jogo.

Além de falhar em suas tentativas de despertar o interesse do público, o longa ainda tem uma direção pouco inspirada do sueco Roar Uthaug (o mesmo de A Onda). Não só o cineasta não consegue dar peso a narrativa, mas também conduz sequências de ação sem energia e que se mostram burocráticas, desde a tola perseguição de bicicleta pelas ruas de Londres até os embates entre Lara e os capangas do vilão Mathias Vogel (Walton Goggins). Para completar, há momentos em que o uso de computação gráfica fica muito evidente, naturalmente tirando o espectador do filme, como na cena em que a protagonista cai de paraquedas no meio de uma floresta.


Enquanto isso, Alicia Vikander se esforça para fazer de Lara Croft uma personagem forte, mas é sabotada por um roteiro que constantemente a faz agir de maneira estúpida, chegando a ser risível que tal estupidez seja chamada de coragem em uma cena específica. Com isso, é até difícil se importar com a personagem, aspecto que não ganha auxílio nem da relação lugar-comum dela com o pai, que surge como o centro emocional da narrativa. Richard Croft, aliás, é vivido por um Dominic West essencialmente unidimensional, o que também não deixa de ser culpa do roteiro, ao passo que Walton Goggins é desperdiçado no papel de Mathias Vogel, um vilão que nunca surge como uma ameaça convincente.

Ao escrever sobre Warcraft e Assassin’s Creed, inevitavelmente comentei que as adaptações de jogos sofrem de uma maldição no cinema, já que são pouquíssimas as produções que se destacam positivamente. Tomb Raider: A Origem apenas reforça isso.

Nota:


sábado, 3 de março de 2018

Apostas Para o Oscar 2018



O Oscar 2018 é amanhã. Depois de ficar de olho nas premiações que antecedem a cerimônia da Academia (BAFTA, Critic’s Choice Awards, prêmios dos sindicatos, etc.) e indicam mais ou menos quem ficará com as estatuetas, chegou a hora de apostar. Não irei me alongar muito. Logo abaixo estão não só os filmes que acho que ganharão, mas também aqueles pelos quais estou torcendo.


Melhor Filme

Aposta: A Forma da Água e Três Anúncios Para um Crime têm sido os principais concorrentes desse ano. Ficarei com o primeiro, mas não será surpresa alguma se o segundo vencer.
Torcida: Trama Fantasma


Melhor Direção

Aposta: Guillermo del Toro, por A Forma da Água
Torcida: Paul Thomas Anderson, por Trama Fantasma (mas será lindo ver del Toro subindo no palco para pegar a estatueta).


Melhor Atriz

Aposta: Frances McDormand, por Três Anúncios Para um Crime
Torcida: Frances McDormand simplesmente arrebenta em Três Anúncios Para um Crime. Ela fica com minha preferência pessoal, mas gosto muito de todas as indicadas.


Melhor Ator

Aposta: Gary Oldman, por O Destino de Uma Nação
Torcida: Gary Oldman, por O Destino de Uma Nação, não só por ser uma grande atuação onde ele desaparece no papel de Winston Churchill, mas porque trata-se de um ator que merece um Oscar faz um bom tempo.


Melhor Atriz Coadjuvante

Aposta: Allison Janney, por Eu, Tonya
Torcida: Laurie Metcalf, por Lady Bird: É Hora de Voar


Melhor Ator Coadjuvante

Aposta: Sam Rockwell, por Três Anúncios Para um Crime
Torcida: Sam Rockwell, por Três Anúncios Para um Crime


Melhor Roteiro Original

Aposta: Jordan Peele, por Corra!
Torcida: Gosto muito de todos os indicados.


Melhor Roteiro Adaptado

Aposta: James Ivory, por Me Chame Pelo Seu Nome
Torcida: James Mangold, Michael Green e Scott Frank, por Logan (mas ficarei igualmente feliz com a provável vitória de James Ivory).


Melhor Filme Estrangeiro

Aposta: Uma Mulher Fantástica (Chile)
Torcida: Ainda não assisti ao libanês O Insulto, então por enquanto irei me abster nessa categoria.


Melhor Animação

Aposta: Viva: A Vida É uma Festa
Torcida: Ainda não assisti a The Breadwinner, então por enquanto irei me abster nessa categoria.


Melhor Documentário

Aposta: Ícaro
Torcida: Assisti a apenas dois indicados, portanto me abstenho nessa categoria.


Melhor Direção de Fotografia

Torcida: Blade Runner 2049, porque já está mais do que na hora de Roger Deakins ter um Oscar.


Melhor Montagem

Aposta: Dunkirk


Melhor Design de Produção

Aposta: Blade Runner 2049
Torcida: Blade Runner 2049


Melhor Figurino

Aposta: Trama Fantasma
Torcida: Trama Fantasma


Melhor Maquiagem e Penteados

Aposta: O Destino de Uma Nação
Torcida: O Destino de Uma Nação, que pode não ser grande coisa como filme, mas o trabalho de maquiagem que transformou Gary Oldman em Winston Churchill é excepcional.


Melhor Trilha Original

Aposta: A Forma da Água
Torcida: Dunkirk


Melhor Canção Original

Aposta: “Remember Me”, de Viva: A Vida É Uma Festa
Torcida: “Remember Me”, de Viva: A Vida É Uma Festa


Melhor Som

Aposta: Dunkirk
Torcida: Dunkirk


Melhor Mixagem de Som

Aposta: Dunkirk
Torcida: Em Ritmo de Fuga


Melhores Efeitos Visuais

Torcida: Planeta dos Macacos: A Guerra


Melhor Curta-Metragem

Aposta: DeKalb Elementary
Torcida: Como sempre digo, assistir aos indicados nas categorias de curtas-metragens é sempre mais complicado, além de ser um pouco mais difícil tentar prever os vencedores. Por não ter assistido a nenhum indicado, me abstenho nessa categoria.


Melhor Curta de Animação

Aposta: Dear Basketball
Torcida: Não vi três indicados, portanto me abstenho nessa categoria.


Melhor Curta-Documentário

Aposta: Heaven is a Traffic Jam on the 405
Torcida: Não assisti a nenhum indicado, portanto me abstenho na categoria.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Forma da Água

Ao longo de sua carreira, o diretor Guillermo del Toro já demonstrou algumas vezes ter apreciação por figuras marginalizadas, além de mostrar que os próprios seres humanos são capazes de serem verdadeiros monstros. Blade e Hellboy eram heróis que ajudavam a proteger uma sociedade que provavelmente tentaria queima-los em uma fogueira se soubessem de sua existência, dando voz ao próprio medo, ao passo que filmes como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e A Colina Escarlate lidam com fantasmas e outros seres fantásticos, mas sem encará-los como as ameaças de suas histórias, papel exercido por humanos poderosos e odiosos. Esses pontos de interesse do diretor ajudam a reger este A Forma da Água, uma fábula na qual ele mais uma vez exibe sua grande visão e imaginação.

Escrito pelo próprio Guillermo del Toro em parceria com Vanessa Taylor, A Forma da Água nos leva até o início da década de 1960 e apresenta Elisa Esposito (Sally Hawkins), mulher muda que trabalha no setor de limpeza de um laboratório do governo e tem como únicos amigos o vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins) e a colega Zelda (Octavia Spencer). Levando uma vida relativamente simples, Elisa vê sua rotina sofrer uma reviravolta quando um homem anfíbio (Doug Jones) é trazido ao laboratório para ser estudado, sofrendo torturas pelas mãos do coronel Richard Strickland (Michael Shannon). Aos poucos, Elisa se aproxima do ser recém-descoberto, iniciando um relacionamento no qual ambos parecem ser os únicos capazes de entender um ao outro.


Podemos notar rapidamente que Guillermo del Toro parece ter buscado inspiração em A Bela e a Fera, seguindo mais ou menos o mesmo caminho de Tim Burton em Edward Mãos de Tesoura. No entanto, del Toro usa a premissa não só para desenvolver o romance entre a protagonista e o homem anfíbio, mas também para explorar os preconceitos da sociedade e que afloram, principalmente, na figura de Richard Strickland. Nesse sentido, considerando que temos uma muda, um homem anfíbio, um homossexual e uma negra entre os personagens pelos quais torcemos ao longo da projeção, o diretor faz em A Forma da Água uma espécie de levante das minorias contra aqueles que as oprimem.

Del Toro conduz tudo isso com sensibilidade, sabendo inclusive equilibrar momentos dramáticos com outros mais divertidos, sendo que a narrativa fabulesca concebida pelo diretor é tão cheia de doçura que é possível ver na tela o carinho dele por essa história e pelos personagens, algo que não deixa de ser ressaltado pela linda trilha de Alexandre Desplat. Além disso, como é comum nos trabalhos de del Toro, a parte puramente técnica e estética do filme é de encher os olhos. O design de produção, por exemplo, é hábil ao conceber os lares de Eliza e Giles como lugares simples, mas aconchegantes e cheios de calor humano, enquanto que o laboratório que resguarda o homem anfíbio surge de maneira intimidante, e a excelente fotografia de Dan Laustsen trata de drenar a vida daquele local ao apostar em cores frias, revelando muito sobre a natureza de quem comanda tudo por ali.


Já o ótimo elenco faz um trabalho formidável com seus personagens. Se Richard Jenkins e Octavia Spencer conferem um carisma arrebatador e uma grande força de caráter a Giles e Zelda, tendo também uma bela dinâmica de companheirismo com a protagonista, Michael Stuhlbarg se destaca ao fazer do cientista Robert Hoffstetler um homem capaz de sacrificar a própria integridade moral a fim de fazer o que acredita ser certo (aliás, considerando sua participação memorável em Me Chame Pelo Seu Nome e a outra menor em The Post, Stuhlbarg pode se orgulhar bastante de seu 2017). E se Michael Shannon usa sua persona rígida e um tanto insana para fazer de Richard Strickland um vilão apropriadamente odiável e frio, mas jamais unidimensional (reparem que ele não exibe reação nem quando recebe um simples beijo do filho pequeno), Doug Jones traz uma humanidade essencial ao homem anfíbio mesmo com toda a excelente maquiagem usada para conceber o personagem visualmente. Mas o filme pertence mesmo a Sally Hawkins, que surge em uma de suas melhores atuações, conseguindo fazer de Elisa uma mulher que conquista a simpatia do público com sua bondade e determinação, estabelecendo-a como uma protagonista extremamente forte ainda que sua aparência e sua mudez apontem vulnerabilidade.

Mas é exatamente disso que a fábula de A Forma da Água se trata. Aparências não são nada quando comparadas com o que temos em nossos corações. E é bom ver Guillermo del Toro mostrar isso de maneira rica em mais um longa de destaque, celebrando o amor e a empatia e condenando o ódio e o medo que tanto nos atrasam como sociedade.


Nota:

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Jumanji: Bem-Vindo à Selva

Lançado em 1995, Jumanji é uma aventura escapista deliciosa, que parte de uma premissa bem imaginativa, desenvolvendo-a de maneira divertida e com um elenco carismático liderado pelo saudoso Robin Williams (e tendo eu sido uma criança que cresceu na década de 1990, o filme foi uma das obras que marcou esse período para mim). É exatamente por este caminho que essa continuação, Jumanji: Bem-Vindo à Selva, busca seguir, mesmo que sua trama seja diferente daquela que havíamos acompanhado há pouco mais de 20 anos. E o novo longa até que se sai bem dentro dessa proposta.

Voltando ao universo do livro escrito por Chris Van Allsburg no início da década de 1980, Jumanji 2 nos apresenta aos jovens Spencer (Alex Wolff), Fridge (Ser’Darius Blain), Bethany (Madison Iseman) e Martha (Morgan Turner), que ficam em detenção na escola após se meterem em confusões. É quando eles se deparam com uma versão em videogame de Jumanji, que acaba sugando-os direto para dentro de seu universo, onde cada um deles assume um avatar diferente. Com isso, o quarteto se vê encarnando, respectivamente, o Dr. Smolder Bravestone (Dwayne Johnson), seu ajudante Franklin “Mouse” Finbar (Kevin Hart), o Professor Shelly Oberon (Jack Black) e a comando Ruby Roundhouse (Karen Gillan), passando a enfrentar uma série de desafios para poderem voltar para casa.


Ao trocar o tabuleiro pelo videogame, o filme já mostra seu desejo de atualizar a premissa que vimos em seu original. Não deixa de ser uma decisão desnecessária, mas o roteiro consegue fazer com que isso abra espaço para que ele aposte em ideias que o afastem de ser apenas uma repetição da fórmula. Assim, por mais que a estrutura narrativa seja um tanto episódica, com os desafios encarados pelos personagens surgindo como fases do jogo, isso possibilita que o diretor Jake Kasdan (filho do diretor e roteirista Lawrence Kasdan) conceba cenas de ação um pouco mais elaboradas e absurdas comparadas com aquelas do primeiro filme, algo natural tendo em vista que o astro da produção dessa vez é Dwayne Johnson. Nisso, o longa diverte na maior parte do tempo, ainda que em momento algum o diretor consiga dar peso a narrativa ou trazer ameaças realmente convincentes, sendo que nesse último quesito o vilão Van Pelt (agora interpretado por Bobby Cannavale, assumindo o papel que antes fora de Jonathan Hyde) é simplesmente ridículo.


Porém, o que acaba realmente sustentando Jumanji 2 é a dinâmica de seu elenco principal, que se mostra simpática pela confiança que eles vão criando entre si gradualmente, se importando uns com os outros e conquistando no processo a torcida do público. Além disso, o fato de os personagens serem adolescentes em corpos de adultos se revela um prato cheio para que os atores se divirtam em suas composições, merecendo destaque especial Dwayne Johnson com o jeito nerd e um tanto desajeitado de Spencer (aliás, o talento cômico do ator brilha em seu “olhar intenso”) e Jack Black e os toques afeminados com os quais ele vive Bethany.

Jumanji 2 fica longe de ser uma aventura memorável, sendo até bastante previsível no desenvolvimento de sua trama e dos dramas de seus personagens. Mesmo assim, o que temos aqui é um entretenimento válido, que funciona bem até a hora de as luzes da sala de cinema serem acesas.

Nota:

domingo, 31 de dezembro de 2017

Os Melhores e os Piores Filmes de 2017


Chegamos ao costumeiro momento em que anuncio aqui no blog aqueles que, para mim, foram os melhores e os piores filmes lançados nos nossos cinemas durante o ano. Sem mais delongas, vamos a eles.

Começando pelas bombas. Confiram com cautela.

Os piores filmes lançados no Brasil em 2017:


10) Baywatch: S.O.S. Malibu (Baywatch), de Seth Gordon

Versão para o cinema da famosa série de TV, Baywatch é um filme sofrível, para dizer o mínimo. Ao acompanhar a equipe de salva-vidas liderada por Mitch Buchannon (Dwayne Johnson), é clara a intenção do longa de querer apostar em uma narrativa irreverente para contar a história, mas quando o material é ruim as coisas se complicam. Trazendo uma série de gags bobas e ridículas (quando não são constrangedoras), o filme não diverte como gostaria, além de contar com subtramas clichês que o tornam mais longo do que o necessário e deixam óbvio seu caráter episódico. Nem mesmo Dwayne Johnson, um cara que geralmente exala carisma, tem uma presença cativante por aqui.


9) Tempestade: Planeta em Fúria (Geostorm), de Dean Devlin

Filme que marcou a estreia do produtor Dean Devlin na direção, Tempestade: Planeta em Fúria até exibe boas intenções ao focar numa trama onde as pessoas se unem para combater um desastre natural global que elas mesmas causaram. Mas é doloroso ver que isso é feito a partir de uma narrativa pobre, que tenta se sustentar em seus efeitos visuais grandiosos, detalhes que no fim só pontuam um espetáculo vazio e aborrecido. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


8) xXx: Reativado (xXx: The Return of Xander Cage), de D.J. Caruso

Eu devo admitir que os primeiros cinco minutos deste xXx: Reativado me fizeram rir. Mas dali pra frente o filme foi ladeira abaixo, se entregando a uma trama estúpida e uma ação burocrática, que desperdiça até as habilidades de Donnie Yen. É o tipo de produção que só quer aproveitar a fama de seu astro, Vin Diesel, para fazer alguns trocados, já que se o objetivo era reativar (sem trocadilhos) uma franquia que já foi esquecida, o plano não deu certo.


7) Assassin’s Creed, de Justin Kurzel

Se no ano passado Warcraft se revelou uma bela surpresa entre as adaptações de games, Assassin’s Creed deu continuidade a maldição dessas produções, que em 90% das vezes acabam rendendo porcarias homéricas. A partir de um roteiro que desenvolve um fiapo de história e personagens que não poderiam ser mais rasos, o filme concebe uma narrativa sem vida, desperdiçando um elenco repleto de grandes nomes. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


6) Emoji: O Filme (The Emoji Movie), de Tony Leondis

Na boa, a ideia de um filme baseado nos famosos emojis que tanto usamos em conversas na internet é idiota por natureza. Mas mesmo assim é triste ver Emoji: O Filme confirmar essa idiotice, nos colocando diante de uma animação tão irritante e sem graça que a vontade que fica ao final da projeção é a de nunca mais usar emojis.


5) O Chamado 3 (Rings), de F. Javier Gutiérrez

Quando Hollywood decidiu refilmar alguns belos exemplares do terror asiático, Gore Verbinski surpreendeu ao fazer em O Chamado um filme que fazia jus a seu ótimo original japonês. Mas se a continuação dirigida por Hideo Nakata (o mesmo do original) já não havia prestado, este terceiro filme trata de piorar as coisas. Sendo falho como terror, não conseguindo causar nenhum susto ou alguma tensão, e desenvolvendo ideias bobas sobre o universo da temível Samara, o longa acaba se mostrando totalmente descartável, provando que a franquia não tem mais para onde ir. Assistir a fita de Samara talvez seja uma opção melhor.


4) Fica Comigo (You Get Me), de Brent Bonacorso

Já é velha a história do rapaz que trai a namorada e depois passa a ser perseguido pela garota obsessiva e psicótica com quem ficou, mas Fica Comigo consegue ser uma das piores versões disso (caso não seja a pior). Formuláico até não poder mais, além de contar com um elenco inexpressivo e uma direção preguiçosa, o filme jamais consegue fazer com que nos importemos com o que quer que esteja acontecendo ali. Certamente uma das piores coisas que a Netflix já adquiriu para seu catálogo.


3) Resident Evil 6: O Capítulo Final (Resident Evil: The Final Chapter), de Paul W.S. Anderson

Se ao longo de toda sua existência a franquia cinematográfica de Resident Evil nunca foi mais do que medíocre, este sexto capítulo tratou de leva-la ao fundo do poço, sendo sem dúvida seu pior exemplar. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


2) Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker), de James Foley

O romance dessa franquia é um troço assustador, sendo carregado de um machismo doentio. Acompanha-lo acaba sendo uma tortura, não só pelas ideias ali desenvolvidas, mas também porque é inacreditável que os envolvidos no projeto tratem tudo aquilo como algo normal. Além disso, como esse filme é chato!


1)      Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight), de Michael Bay

Nem sei mais o que dizer sobre esse filme, essa franquia e seu diretor. Só sei que é impressionante que a série consiga piorar a cada novo exemplar, já totalizando cerca de doze horas de história sem ter concebido absolutamente nada de memorável fora sua ruindade. E este quinto capítulo só é mais um lixo audiovisual que parece ter prazer em torturar o espectador com sua fórmula narrativa, suas ideias estúpidas e seus barulhos. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.

Outros 29 filmes que merecem menção desonrosa (em ordem alfabética):

Além da Morte (Flatliners), de Niels Arden Oplev
Alien: Covenant, de Ridley Scott
O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin), de Michael Cuesta
Beleza Oculta (Collateral Beauty), de David Frankel
Boneco de Neve (The Snowman), de Tomas Alfredson
Bright, de David Ayer
A Cabana (The Shack), de Stuart Hazeldine
O Círculo (The Circle), de James Ponsoldt
Depois Daquela Montanha (The Mountain Between Us), de Hany Abu-Assad
O Espaço Entre Nós (The Space Between Us), de Peter Chelsom
Fragmentado (Split), de M. Night Shyamalan
Jogos Mortais: Jigsaw (Jigsaw), de Michael Spierig e Peter Spierig
A Lei da Noite (Live by Night), de Ben Affleck
Max Steel, de Stewart Hendler
Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3), de Pierre Coffin e Kyle Balda
A Morte Te Dá Parabéns (Happy Death Day), de Christopher B. Landon
A Múmia (The Mummy), de Alex Kurtzman
Passageiros (Passengers), de Morten Tyldum
Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales), de Joaquim Rønning e Espen Sandberg
O Poderoso Chefinho (The Boss Baby), de Tom McGrath
Polícia Federal: A Lei é Para Todos, de Marcelo Antunez
Power Rangers, de Dean Israelite
Real: O Plano Por Trás da História, de Rodrigo Bittencourt
Sandy Wexler, de Steven Brill
Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso (Suburbicon), de George Clooney
Tinha Que Ser Ele? (Why Him?), de John Hamburg
A Torre Negra (The Dark Tower), de Nicolaj Arcel
Vida (Life), de Daniel Espinosa
A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell), de Rupert Sanders

Agora vamos para a parte boa...

Os melhores filmes lançados no Brasil em 2017:


10) A Tartaruga Vermelha (La Tortue Rouge), de Michael Dudok de Wit

Animação produzida pelo fantástico estúdio Ghibli, famoso por ser a casa artística do mestre Hayao Miyazaki, A Tartaruga Vermelha se coloca facilmente entre as grandes obras feitas por lá. Acompanhando um homem naufragado em uma ilha e seus encontros com uma tartaruga que revela não ser bem o que parece, o filme abre mão dos diálogos e usa o poder de suas imagens evocativas para contar uma história sensível e repleta de calor humano. E a animação rica nos mínimos detalhes é um bônus natural tendo em vista a qualidade dos trabalhos de seu estúdio.


9) Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

Focando o dia-a-dia de um grupo de pessoas que está prestes a ser despejado pelo governo após ter ocupado um prédio e fazer dele sua casa, Era o Hotel Cambridge cria uma narrativa que mistura ficção e documentário a fim de fazer um retrato bastante humano daqueles indivíduos e sua situação. Considerando o nosso atual contexto político-social, Eliane Caffé (a mesma diretora responsável pelo igualmente maravilhoso Narradores de Javé) faz aqui um filme essencial.


8) Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

Quando anunciada, essa continuação soou totalmente desnecessária, até porque o filme original de Ridley Scott era muito bem resolvido. Mas quando chegou aos cinemas, Blade Runner 2049 se mostrou uma experiência que mantém o espectador em transe, tamanha a riqueza de suas ideias e a forma como as desenvolve, abrindo discussões interessantíssimas sobre a natureza humana. Com isso, o longa faz mais do que jus a seu original. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


7) Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica), de Sebastián Lelio

Um raro filme protagonizado por uma artista transexual, Uma Mulher Fantástica retrata em detalhes toda a falta de respeito por trás da transfobia que sua protagonista, Marina (Daniela Vega), enfrenta, com o diretor Sebastián Lelio conduzindo uma narrativa constantemente revoltante, já que a personagem é tratada pela maioria das outras pessoas como qualquer coisa, menos um ser humano. Enquanto isso, é admirável a maneira respeitosa e digna como o filme trata Marina, interpretada com extrema sensibilidade por Daniela Vega em uma das grandes atuações do ano.


6) Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi), de Rian Johnson

Se O Despertar da Força acendeu uma faísca empolgante ao iniciar a nova trilogia de Star Wars, Os Últimos Jedi dá continuidade a isso brilhantemente. Trata-se de um longa que arrepia, diverte, fascina com a complexidade com a qual aborda seus temas e traz um peso emocional admirável aos caminhos trilhados por seus personagens. Um filme fantástico da série, conseguindo até se igualar a O Império Contra-Ataca.


5) Logan, de James Mangold

Depois de dois filmes-solo esquecíveis (especialmente o primeiro), Wolverine ganhou aqui um longa que não poderia ter encerrado de maneira melhor seu arco nos cinemas (ao menos no que diz respeito a versão interpretada por Hugh Jackman por quase vinte anos). Ao mesmo tempo que é uma obra violenta e visceral ao partir para a ação, Logan exibe um carinho com seus personagens e as relações entre eles que é capaz de deixar um nó na garganta do público. E o plano final é simplesmente perfeito. A crítica completa sobre o filme pode ser lida aqui.


4) Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea), de Kenneth Lonergan

Kenneth Lonergan faz em Manchester à Beira-Mar um filme sobre luto e de como superar este sentimento pode ser impossível. Ao longo da história, o diretor cria uma narrativa que trata os dramas de seus personagens com grande humanidade, de forma que nos sensibilizamos e compreendemos como aquelas pessoas agem sem conseguir esquecer as tragédias e perdas que tanto as marcaram. Assim, mesmo conseguindo equilibrar momentos delicados com outros mais leves, o longa deixa um impacto emocional muito forte.


3) Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), de Barry Jenkins

Um filme extremamente poético na forma como conta a trajetória de seu protagonista, Chiron, desde a infância até a fase adulta. Aqui, o diretor Barry Jenkins exibe uma sensibilidade ímpar não só no retrato que faz da realidade em volta do personagem, mas também (e principalmente) na forma como ele lida com a própria homossexualidade. Tudo isso dá razões de sobra para que Moonlight seja sempre lembrado por seu valor artístico, de maneira que ficarei decepcionado se as pessoas ligarem o filme primeiramente ao jeito bizarro como ele recebeu seu Oscar de Melhor Filme.


2) A Criada (Ah-ga-ssi), de Park Chan-Wook

Em A Criada, Park Chan-wook (o sensacional diretor por trás de filmes como Sede de Sangue e a trilogia da vingança – formada por Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança) concebe uma obra intrigante, capaz de empolgar o espectador a cada reviravolta, mostrando assim uma carpintaria dramática admirável na construção da trama, dos arcos dos personagens e de como eles manipulam uns aos outros. Ao final, só resta concluir mais uma vez que Park Chan-wook é um gênio. Simples assim.


1) mãe! (mother!), de Darren Aronofsky

Muitos provavelmente irão torcer o nariz para este 1º lugar. Mas mãe! foi a experiência mais rica que tive em uma sala de cinema este ano. Apresentando-se como um terror psicológico com elementos bíblicos, o filme tem uma narrativa instigante, com Darren Aronofsky desenvolvendo temas fascinantes que nos levam a discussões inteligentes sobre o nosso mundo e a sociedade que formamos. É algo que muitas vezes ocorre de maneira bizarra, mas que resulta em uma obra que nos mantém inquietos e pensativos mesmo depois de as luzes da sala de projeção serem acesas.

Outros 39 filmes que merecem menção honrosa (em ordem alfabética):

Ao Cair da Noite (It Comes At Night), de Trey Edward Shults
Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express), de Kenneth Branagh
Até o Último Homem (Hacksaw Ridge), de Mel Gibson
Atômica (Atomic Blonde), de David Leitch
A Babá (The Babysitter), de McG
Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
Borg vs. McEnroe (Borg McEnroe), de Janus Metz
Como Nossos Pais, de Laís Bodansky
Corra! (Get Out), de Jordan Peele
Detroit em Rebelião (Detroit), de Kathryn Bigelow
Dunkirk, de Christopher Nolan
Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), de Edgar Wright
O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled), de Sofia Coppola
Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake), de Ken Loach
Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro), de Raoul Peck
Feito na América (American Made), de Doug Liman
O Filme da Minha Vida, de Selton Mello
Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa
Guardiões da Galáxia: Vol. 2 (Guardians of the Galaxy: Vol. 2), de James Gunn
A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes), de Jonathan Dayton e Valerie Faris
Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming), de Jon Watts
It: A Coisa (It), de Andy Muschietti
Jackie, de Pablo Larraín
Jogo Perigoso (Gerald’s Game), de Mike Flanagan
John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2), de Chad Stahelski
Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island), de Jordan Vogt-Roberts
La La Land: Cantando Estações (La La Land), de Damien Chazzele
Lego Batman: O Filme (The Lego Batman Movie), de Chris McKay
Minha Vida de Abobrinha (Ma Vie de Courgette), de Claude Barras
Moana: Um Mar de Aventuras (Moana), de Ron Clements e John Musker
Mulher-Maravilha (Wonder Woman), de Patty Jenkins
Okja, de Bong Joon-ho
Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes), de Matt Reeves
A Qualquer Custo (Hell or High Water), de David Mackenzie
Silêncio (Silence), de Martin Scorsese
Terra Selvagem (Wind River), de Taylor Sheridan
Toni Erdmann, de Maren Ade
Una, de Benedict Andrews
Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z), de James Gray

E isso é tudo, pessoal. Desejo a todos uma bela entrada de ano e que 2018 venha com muitos filmes legais.

Grande abraço!