quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Halloween


Lançado em 1978, Halloween logo se estabeleceu, ao lado de obras como O Massacre da Serra Elétrica e Noite do Terror, como um dos principais semeadores do subgênero slasher, composto por filmes que giram em torno de personagens geralmente jovens e que precisam correr de um assassino sanguinário. Aliás, mais do que ajudar a lançar tal subgênero, o filme do grande John Carpenter se tornou um verdadeiro clássico ao longo dos anos, e como quase todo terror de sucesso ele veio a render uma extensa franquia entre continuações e remakes. Mas é preciso dizer que esta, de modo geral, é no máximo medíocre, sendo até compreensível o porquê desta nova versão, dirigida por David Gordon Green, ter decidido ignorar todos os longas anteriores, dando continuidade direta ao original.

Escrito pelo próprio David Gordon Green em parceria com Danny McBride e Jeff Fradley, este Halloween mostra que Michael Myers (Nick Castle) passou os últimos 40 anos preso em uma instituição para os criminalmente insanos, sem qualquer contato com o mundo fora dali. Já Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) sofre com o trauma de todo o terror que vivenciou na noite de Dia das Bruxas na qual Myers cometeu seus crimes, tendo se dedicado desde então a se preparar para o caso de ele voltar, algo visto como paranoia por muitos e que a afastou da filha, Karen (Judy Greer), e da neta, Allyson (Andi Matichak). Mas quaisquer paranoias quanto a essa possibilidade vão para o espaço quando Myers finalmente consegue escapar, dando início a um novo rastro de sangue.


Com um roteiro que não tenta trazer algum frescor a um subgênero que se tornou engessado por clichês, Halloween se mantém dentro de sua fórmula comum, sem grandes novidades. Isso, porém, não chega a impedir David Gordon Green (um cineasta mais conhecido por dramas e comédias como Joe, Prince AvalancheSegurando as Pontas) de mostrar ser um diretor de terror competente. Aqui, Green é hábil ao criar uma atmosfera de tensão ao redor da presença imponente de Michael Myers, cuja força e psicopatia são bem explorados para que suas ações sejam genuinamente tenham algum peso na tela. Para alcançar esse efeito, o diretor ainda conta com a boa trilha composta por (vejam só!) John Carpenter, Cody Carpenter e Daniel A. Davies, que trazem um ar de constante inquietude ao mesmo tempo que modernizam o tema clássico do longa original.

Assim, esta continuação soa diferente dos outros exemplares da série, que em sua maioria são obras difíceis de levar a sério, chegando ao ponto de causarem risos involuntários. Tendo isso em vista, o fato de alguns momentos serem um pouco mais elaborados também evidencia o desejo de Green de querer fazer algo interessante com esse universo e seus personagens, e nisso é difícil não ressaltar o belo plano-sequência que acompanha Michael Myers em sua chegada a uma vizinhança pacata.


No entanto, a eficácia nesses pontos não chega a compensar apostas um tanto equivocadas e que enfraquecem um pouco o resultado da narrativa. A subtrama envolvendo uma dupla de jornalistas investigativos, por exemplo, abre o filme e aparenta ter alguma importância, o que não se concretiza e acaba sendo pouco funcional para a história. Da mesma forma, uma reviravolta que surge no fim do segundo ato consegue ser tão descartável quanto boba em suas motivações. E seguindo essa linha um tanto besta, Michael Myers não deixa de contar constantemente com uma sorte até comum aos assassinos de slasher, sendo rodeado por personagens que ganham um tratamento estúpido e que facilita muito seus assassinatos. Mas é preciso dizer que isso não ressoa em Jamie Lee Curtis, cuja segurança em seu retorno ao papel de Laurie Strode contribui para manter o espectador envolvido na narrativa.

Fazer um Halloween acima da média do que a franquia vinha apresentando talvez não fosse uma tarefa muito difícil. Mas, de qualquer forma, David Gordon Green e sua equipe merecem créditos por cumprirem essa tarefa satisfatoriamente, dando novo gás a uma série que parecia já ter rendido tudo o que podia.

Nota:

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O Primeiro Homem


Damien Chazelle ascendeu no cinema com longas que encontravam na arte (majoritariamente na música) um pano de fundo para contar histórias de personagens que precisam ora se superar, ora fazer sacrifícios por seus sonhos (falo, claro, de Whiplash e La La Land). Em O Primeiro Homem, o diretor realiza um filme que encontra certa semelhança com seus trabalhos anteriores. Não pelo pano de fundo musical, claro, mas sim pelo esforço dos personagens para cumprirem seus objetivos, focando dessa vez na jornada que levou a humanidade até a lua, algo que ele conta com um cuidado admirável.

Escrito por Josh Singer (co-roteirista do fantástico Spotlight) a partir do livro de James R. Hansen, O Primeiro Homem nos leva até a década de 1960, período em que Estados Unidos e União Soviética travavam a grande corrida espacial, um dos principais pontos de sua Guerra Fria. É quando passamos a acompanhar o envolvimento de Neil Armstrong (Ryan Gosling) na missão da NASA para chegar á lua, pouco depois de ele e sua esposa, Janet (Claire Foy), terem perdido a filha pequena devido a um câncer.
De maneira muito segura, Damien Chazelle cria uma narrativa que favorece muito a delicadeza ao redor da missão. Assim, além de não ignorar os vários problemas e sacrifícios com os quais Armstrong e o resto da NASA precisam lidar, o diretor dá atenção especial ao cuidado que todos têm a cada passo que dão rumo à lua. O curioso em relação a isso é que, por mais que saibamos o final da história, esse cuidado também acaba servindo para gerar tensão na narrativa, porque qualquer erro na missão pode colocar vidas em risco e pôr tudo a perder. E a própria montagem mais cadenciada de Tom Cross (parceiro habitual do diretor) contribui para dar peso a esse aspecto.


No entanto, se O Primeiro Homem se mostra capaz de envolver o espectador, muito se deve ao drama pessoal do protagonista, detalhe que não deixa de se tornar o fio condutor da história. Usando a morte da filha de Armstrong como ponto de partida, o filme desenvolve ao longo da trama um belo arco dramático de luto e superação, fazendo com que a chegada de Armstrong (e, consequentemente, dos seres humanos de modo geral) à lua ganhe contornos emocionais que se revelam essenciais, já que transformam a missão em algo maior que vencer a corrida espacial. Também é preciso ressaltar aqui o trabalho de Ryan Gosling, que não só encarna com talento a determinação de Armstrong e sua aparente frieza, que cai por chão quando ele se isola das outras pessoas, mas também forma com a ótima Claire Foy um núcleo familiar que aproxima eles do público. Foy que, aliás, merece destaque pela força que traz a Janet, cujos questionamentos sobre a missão ajudam a mostrar as implicações que esta tem na vida pessoal dos personagens.

“Este é um pequeno passo para o homem, e um grande salto para a humanidade” é a famosa frase de Neil Armstrong. Pois levando tais palavras a sério, Damien Chazelle fez em O Primeiro Homem um filme que não faz feio frente a obras similares, como Apollo 13 e Os Eleitos, evitando quaisquer ufanismos e contando com propriedade uma história que indica que não há limites para a ambição humana.



Nota:

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Megatubarão


Recentemente, fiz uma pequena maratona de filmes cujas histórias consistiam basicamente de um confronto entre pessoas e uma força animal perigosa, o tipo de ideia que já foi explorado a exaustão no cinema, principalmente após o sucesso fenomenal de Tubarão. O Jacaré Assassino, Piranha e Aracnofobia foram alguns dos longas dessa linha que acabei conferindo. Comento isso agora porque é difícil assistir a este Megatubarão e não lembrar de todas essas obras e da fórmula que suas premissas estabeleceram ao longo dos anos. Mesmo assim, este novo filme consegue render um entretenimento satisfatório.

Em Megatubarão, Jason Statham interpreta Jonas Taylor, um experiente mergulhador que se exilou na Tailândia depois que liderou um trágico resgate a tripulação de um submarino. No entanto, quando a base de pesquisas Mana Um vê parte de sua equipe em perigo em uma região recém-descoberta no fundo do mar, onde é atacada por uma criatura desconhecida, Jonas é chamado por ser o único capaz de driblar os riscos e realizar um resgate bem sucedido, ajudando velhos conhecidos. É então que ele e todos os membros da Mana Um passam a enfrentar um megalodonte, um tubarão pré-histórico de mais de 20 metros de comprimento.


Não é um filme em que possamos ver sinais de frescor na narrativa, até porque o roteiro escrito por Dean Georgaris e Jon e Erich Hoeber (que por sua vez é baseado no livro de Steve Alten) é envolvido em um amontoado de clichês que engessam o desenvolvimento da trama, mantendo-a firme no lugar-comum. Seguindo isso, o diretor Jon Turteltaub falha em praticamente todas suas tentativas de surpreender ou assustar o público, já que a forma como ele concebe os ataques do megalodonte torna fácil para o público antecipar o que acontecerá, algo evidente em cenas que aparentam alguma tranquilidade (é óbvio que o animal aparecerá quando os personagens menos esperam). Se isso já é capaz de incomodar, os diálogos que volta e meia martelam informações na cabeça do espectador não ficam muito atrás (coisas como “Aquilo é maior do que pensávamos ser possível” ficam repetitivas depois de um tempo), ao passo que os personagens não deixam de ser tipos bastante batidos, desde o herói traumatizado que precisa enfrentar seus medos até o ricaço que financia as pesquisas, mas se preocupa mais com seu dinheiro e imagem que com as pessoas.


Porém, esses pontos não atrapalham o divertido senso de humor que o filme tem diante da bobagem inerente de sua história. É engraçado, por exemplo, ver os personagens tensos à procura do megalodonte, mas aliviados ao se depararem com uma horda de tubarões comuns, uma imagem que faria qualquer pessoa normal saltar. Considerando o currículo de Jon Turteltaub (ele é conhecido por comédias e aventuras como Jamaica Abaixo de Zero e A Lendo do Tesouro Perdido), não é uma surpresa ver esse tipo de leveza na narrativa. Além disso, ainda que criatividade não seja exatamente seu forte, Turteltaub consegue criar alguns momentos genuinamente inquietante, com destaque para as cenas em que os personagens são perseguidos pelo vilão, fazendo o possível para se salvarem. Nesse sentido, o elenco liderado por um carismático Jason Statham (e que também conta com nomes interessantes, como Li Bingbing, Cliff Curtis e Rainn Wilson) também merece créditos, exibindo em cena uma dinâmica divertida e simpática que ajuda o público a torcer pelos personagens.

Talvez Megatubarão tivesse chances de ser algo do nível da pavorosa franquia Sharknado. Mas para a nossa sorte, o projeto conta com algum talento, o que certamente contribui para que suas ideias funcionem. Por mais que no fim tenhamos um longa que não deixa de soar como um produto reciclado.

Nota:


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O Protetor 2


Denzel Washington é um ator fantástico, e é interessante notar que, ao longo de sua carreira, ele evitou fazer continuações de seus filmes, por mais que aqui e ali houvesse potencial para isso (para citar um exemplo, Lincoln Rhyme, personagem que ele interpretou no mediano O Colecionador de Ossos, teve origem em uma série de livros policiais que tem novos exemplares lançados até hoje). Quer dizer, evitou até agora. Em O Protetor 2, Washington retoma sua parceria com o diretor Antoine Fuqua e volta ao papel de Robert McCall após o eficiente (ainda que nada memorável) primeiro filme, que trouxe para o cinema a série de TV protagonizada por Edward Woodward na década de 1980. E o nível da saga do personagem nas telonas não muda nada nessa continuação.

Escrito pelo mesmo Richard Wenk do longa anterior, O Protetor 2 traz Robert McCall trabalhando como motorista, usando suas horas vagas para colocar em prática suas habilidades de ex-agente do governo e ser uma espécie de anjo da guarda, não se importando de ajudar completos desconhecidos quando vê que estes estão sendo vítimas de alguma injustiça. Mas quando alguém próximo a ele é assassinado, McCall logo se envolve no caso que a pessoa vinha investigando, passando então a não medir esforços para descobrir por que ela morreu e quem a matou.


Se eu tivesse escrito sobre o primeiro filme, talvez escrever sobre O Protetor 2 fosse mais ou menos como bater nas mesmas teclas, já que ambos os longas compartilham praticamente dos mesmos problemas e das mesmas virtudes. O roteiro, por exemplo, além de se concentrar na investigação realizada pelo protagonista, também tenta desenvolver várias subtramas envolvendo pessoas que ganham o auxílio dele, sendo pontos que podem até ser vistos como pequenos episódios considerando a natureza do material original. Entre elas, a que ganha maior destaque é a de Miles (Ashton Sanders, uma das revelações da obra-prima Moonlight), jovem que se vê dividido entre seu talento como artista e uma possível vida de crimes. O problema é que tais subtramas em sua maioria pouco acrescentam ao filme, que às vezes até perde o foco ao se ver tendo que pausar o desenvolvimento da trama principal para poder dar conta de tudo, montando uma estrutura que faz a narrativa perder o ritmo pontualmente.


Se o filme não chega a ficar desinteressante mesmo em seus momentos mais fracos, isso se deve principalmente a Denzel Washington, que novamente usa sua costumeira segurança para encarnar Robert McCall como um homem de modos bastante simples e metódicos, criando um contraste natural com sua implacabilidade ao partir para a ação. Esta característica, por sinal, funciona tanto a favor quanto contra o filme. Por um lado, Antoine Fuqua aproveita as habilidades de McCall para conceber sequências de ação ágeis e eficientes, se destacando, por exemplo, quando o personagem luta contra um capanga enquanto dirige seu carro (e é bom ver que o diretor não tenta driblar a violência presente na ação, mostrando a sanguinolência resultante dos golpes desferidos em cena). Mas por outro, isso faz com que em momento algum duvidemos do sucesso do protagonista, o que tira boa parte da tensão que a narrativa poderia ter. Contribui para isso também o fato de o roteiro construir vilões que pouco servem como ameaça, dando a eles uma inteligência que nunca é párea a do herói, que parece sempre estar vários passos à frente deles.

O Protetor 2 fica longe de ser um ponto alto na carreira de Denzel Washington. Mas também não chega a ser um longa que faça o astro se arrepender de ter decidido estrelar uma continuação, já que, apesar de suas irregularidades, o que temos aqui é um trabalho que ainda consegue se sustentar como filme de ação.


Nota:

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Missão: Impossível - Efeito Fallout


Ao escrever sobre Missão Impossível: Nação Secreta, comentei como era surpreendente acompanhar a franquia. Isso porque, mesmo com duas décadas nas costas, ela consegue manter uma consistência admirável, tendo a façanha de melhorar a cada novo capítulo (com exceção de Missão Impossível 2, que mesmo sendo um longa eficiente, ainda é o mais irregular da série). Pois bem, essa consistência tem continuidade neste sexto exemplar, Missão Impossível: Efeito Fallout, com Tom Cruise e companhia voltando a impressionar.

Escrito e dirigido por Christopher McQuarrie (que já havia comandado Nação Secreta, marcando assim a primeira vez que um realizador faz mais de um filme da franquia), Efeito Fallout coloca Ethan Hunt (Cruise) precisando recuperar três bombas de plutônio antes que estas caiam nas mãos do desconhecido John Lark e dos Apóstolos, grupo formado a partir do que restou do Sindicato liderado por Solomon Lane (Sean Harris). Mas é claro que isso não é tão fácil para Hunt e, depois que uma primeira investida dá errado, ele e sua equipe formada por Benji (Simon Pegg) e Luther (Ving Rhames) passam a correr atrás do prejuízo, tendo o auxílio nada bem-vindo do agente da CIA August Walker (Henry Cavill), que cuida para que nada na missão fique comprometido. No caminho, eles ainda reencontram a agente do MI6 Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).


É uma premissa relativamente simples, e por isso é até curioso que Efeito Fallout acabe sendo o filme mais longo da franquia. Mas as duas horas e meia de duração são muito bem justificadas e passam rápido. Assim como fez em Nação Secreta, Christopher McQuarrie concebe uma narrativa ágil, que prende a atenção do espectador e não a solta até os créditos finais, desenvolvendo também um roteiro que, além de se estruturar maravilhosamente em cima das sequências de ação, nos mantêm constantemente instigados com relação ao desenrolar da trama. Nesse sentido, é interessante ver o diretor pontualmente inserir reviravoltas que até brincam com a nossa impressão do que está acontecendo em cena, rendendo algumas boas surpresas.

O que não é surpreendente, porém, é o quão empolgante o filme é ao partir para a ação. Desde um salto de avião, passando por lutas como aquela situada em um banheiro, e chegando finalmente a perseguições de carros e helicópteros, McQuarrie novamente coloca na tela sequências espetaculares e que levam quase ao pé da letra o título da franquia. E o diretor conduz tudo com maestria, mantendo a mise en scène das cenas sempre clara para o público e impondo uma tensão crescente na narrativa. Nisso, é impossível não destacar também o excepcional trabalho do montador Eddie Hamilton, que em um mundo justo seria considerado a prêmios, já que é notável a maneira como ele intercala naturalmente várias ações que estão acontecendo ao mesmo tempo, em montagens paralelas que ajudam o filme a não perder seu ritmo e fazem com que a tensão se torne ainda mais forte.


Para completar, as sequências de ação ainda contam com a habitual entrega de Tom Cruise, que mais uma vez encarna Ethan Hunt como um sujeito capaz de fazer absolutamente tudo, de forma que quando alguém questiona como ele fará algo improvável (para não dizer impossível), ele só responde “Eu vou dar um jeito” e isso é o suficiente para que acreditemos nele e fiquemos curiosos para ver suas peripécias. E o ator constantemente parece surpreso com o que está realizando em cena, detalhe que de certa forma traz um pouco de humanidade ao papel. Mas Cruise consegue ir além da fisicalidade de Hunt, tendo a chance de dar a ele um peso dramático maior que nos longas anteriores, levando em consideração tudo o que o personagem já viveu e como isso determina sua forma de agir.

Essa humanidade do protagonista também pode ser vista na relação dele com Benji e Luther, figuras que se tornaram fieis parceiros ao longo dos filmes e que aqui voltam a ser interpretados com grande carisma por Simon Pegg e Ving Rhames. Este último, por sinal, ganha um breve monólogo que aproveita seu talento como pouquíssimos filmes têm aproveitado, rendendo um dos momentos mais tocantes da série. E se Henry Cavill tem em seu August Walker um ótimo contraponto ao protagonista, sendo bem mais impulsivo, Rebecca Ferguson volta a fazer de Ilsa Faust uma personagem forte e que nunca é tratada como mero interesse romântico, tendo seus próprios objetivos para cumprir, enquanto que Sean Harris retoma a ameaça que Solomon Lane representava no longa anterior e o estabelece como o vilão mais interessante da franquia.

Com tudo isso, Efeito Fallout assume facilmente a posição de melhor da franquia Missão Impossível. Mais que isso, o filme se revela um dos grandes destaques do ano, sendo uma daquelas obras de ação capazes de fazer o espectador sair literalmente sem fôlego da sala de cinema.

Nota:


sábado, 28 de abril de 2018

Vingadores: Guerra Infinita


Em outras ocasiões, já elogiei a calma da Marvel para apresentar cada um dos elementos de seu universo, preparando naturalmente as narrativas que juntam todas essas peças, o que ocorre principalmente nos longas focados nos Vingadores. É meio impossível não chamar atenção novamente para isso ao falar deste Vingadores: Guerra Infinita, já que essa nova adição à franquia é o resultado de tudo o que vem sendo construído ao longo de toda uma década (e quando escrevo isso fico até um pouco chocado com o passar do tempo, considerando que parece ter sido ontem que fomos apresentados ao Tony Stark de Robert Downey Jr, que iniciou todo esse projeto). Até por conta disso, seria bastante frustrante se o resultado aqui não fosse satisfatório, mas felizmente o que temos é uma megaprodução que entretém e envolve o público do início ao fim no grandioso (e por vezes até trágico) desenrolar de seus acontecimentos.

Escrito por Stephen McFeely e Christopher Markus (que já haviam sido responsáveis pelos roteiros dos filmes do Capitão América), Guerra Infinita mostra finalmente os esforços de Thanos (Josh Brolin) para coletar as seis Joias do Infinito, que já foram centro de grandes batalhas nos exemplares anteriores da franquia e podem tornar o vilão o ser mais poderoso do universo. Com isso, ele bate de frente com quase todos os super-heróis, desde Tony Stark, Steve Rogers (Chris Evans) e os outros Vingadores até Peter Quill (Chris Pratt) e seus companheiros Guardiões da Galáxia, que passam a se ajudar a fim de impedir Thanos de cumprir seu objetivo.


Mesmo contando com uma vasta galeria de personagens (praticamente todos interpretados por grandes estrelas), o roteiro é hábil não só ao justificar a presença de todos, mas também ao reuni-los de maneira orgânica, dando a eles papéis bem definidos na trama. Numa espécie de distribuição de tarefas, McFeely e Markus espalham os personagens por todo o universo que têm em mãos, dando a eles suas próprias subtramas que mostram ser vitais para a história principal envolvendo Thanos, e por os roteiristas conseguirem dar importância a cada uma dessas partes eles evitam que o filme soe inchado (um risco que, em maior ou menor grau, toda produção com muitos personagens corre). Nisso, também vale destacar o trabalho de montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt, que lida admiravelmente com a estrutura do roteiro, pulando de um ponto a outro da história naturalmente, sem quebrar o ritmo da narrativa concebida pelos irmãos Anthony e Joe Russo.

Aliás, os irmãos cineastas (responsáveis por O Soldado Invernal e Guerra Civil, dois dos melhores exemplares da franquia) novamente se saem bem na condução das sequências de ação, se esforçando para que cada uma seja mais grandiosa que a outra, sendo bom ver que a dupla não se perde no meio disso tudo, dando vida a sequências complexas pelo alto número de personagens envolvidos, mas conseguindo fazer com que elas não sejam visualmente confusas, deixando a mise en scène sempre clara. Além disso, esses momentos se aproveitam bem do carinho que criamos por aqueles heróis nos filmes anteriores, o que faz com que seja natural que nos importemos com eles em meio às batalhas, que assim se tornam mais envolventes. Para completar, ainda que o perigo enfrentado pelos heróis e o que está em jogo fiquem bastante claros, isso não impede que piadinhas sejam inseridas para aliviar um pouco a narrativa e divertir o público (até porque, afinal, estamos falando de um filme da Marvel), aspecto que funciona por mais que acabe tirando o peso de alguns momentos emocionalmente sérios (como uma conversa particular entre Gamora (Zoe Saldanha) e Peter Quill).


Já que mencionei o perigo que é enfrentado no filme, é preciso dizer que Josh Brolin concebe Thanos como um vilão cuja presença é sempre intimidadora, fazendo jus à ameaça que vinha sendo atribuída ao personagem desde que ele apareceu na cena pós-créditos do primeiro Vingadores. E Brolin (que encarnou o papel através da tecnologia de motion capture) alcança isso sem precisar apelar para uma composição exagerada, mantendo um jeito e um tom de voz sempre calmos e que ajudam a estabelecer Thanos como um ser que não se vê como um vilão (ele realmente acredita que seu plano e as perdas que ele causará resultarão em um universo melhor), além de ter plena consciência de que seu poder o torna quase indestrutível. Como se não bastasse, o ator ainda tem a chance de trazer alguma humanidade ao papel, por mais brutal que este seja, o que culmina em uma cena particularmente triste envolvendo o custo de uma das Joias do Infinito que ele tanto almeja.

Mas mesmo que Brolin seja o maior destaque do elenco, isso não quer dizer que seus colegas se saem mal. De veteranos da franquia como Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson e Mark Ruffalo até outros que entraram há relativamente pouco tempo nesse universo como Chadwick Boseman, Tom Holland e Benedict Cumberbatch, todos retornam a seus respectivos papéis com carisma e segurança. E além de eles exibirem uma boa dinâmica nos núcleos narrativos que se constroem, cada um tem sua oportunidade para se destacar.

Vingadores: Guerra Infinita dá densidade a um evento massivamente importante de seu universo sem esquecer de funcionar como um entretenimento eficaz. Tendo em vista que se trata da primeira parte da história (a continuação que irá conclui-la está planejada para o ano que vem), devo dizer que as pontas soltas tramadas pelo roteiro podem até não ter força para deixar o público angustiado (a menos que este seja muito ingênuo), mas certamente são capazes de deixá-lo curioso quanto a como elas serão resolvidas.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.


Nota:


quinta-feira, 15 de março de 2018

Tomb Raider: A Origem


Em determinado momento deste Tomb Raider: A Origem, novo filme baseado na famosa franquia de jogos, a heroína Lara Croft mata uma pessoa e claramente sente o peso de seu ato, mesmo que isso tenha ocorrido em legítima defesa. Trata-se de uma cena com um interessante potencial dramático quanto a humanidade da personagem, principalmente tendo em vista que, minutos antes, ela havia presenciado alguém ser assassinado a sangue frio. No entanto, pouca atenção é dada a esse peso, com o filme logo partindo para sequências de ação insossas. De certa forma, isso resume bem o longa. Aqui e ali, é possível ver elementos que poderiam ter alguma riqueza caso fossem bem desenvolvidos. Mas como o foco é realizar uma aventura genérica, o resultado acaba sendo aborrecido.

Servindo como um reboot da franquia no cinema após os dois exemplares esquecíveis protagonizados por Angelina Jolie (o segundo, em especial, é um desastre absoluto), Tomb Raider: A Origem apresenta Lara Croft (agora vivida por Alicia Vikander) como uma jovem rebelde, que mal se mantém economicamente e se recusa a assumir a grande herança deixada por seu pai, Richard (Dominic West), já que isso a faria admitir que ele morreu quando desapareceu sete anos antes. Mas quando ela encontra uma pista quanto ao possível paradeiro dele, Lara logo parte para tentar encontra-lo, em uma aventura que a leva até a costa do Japão.


A partir daí, o roteiro organiza uma história que gira em torno de uma série de quebra-cabeças e sequências de ação, obviamente seguindo a fórmula do jogo original, algo que como consequência faz o filme aspirar ser uma espécie de Os Caçadores da Arca Perdida, com Lara Croft no lugar de Indiana Jones. É uma pena, porém, que a trama se revele tão boba e clichê, enquanto que os quebra-cabeças carecem de criatividade (muitos parecem ter saído direto de uma obra de Dan Brown) e não são nada intrigantes, sendo que às vezes eles surgem forçadamente em cena, apenas para que o filme nos lembre que estamos vendo uma adaptação de um jogo.

Além de falhar em suas tentativas de despertar o interesse do público, o longa ainda tem uma direção pouco inspirada do sueco Roar Uthaug (o mesmo de A Onda). Não só o cineasta não consegue dar peso a narrativa, mas também conduz sequências de ação sem energia e que se mostram burocráticas, desde a tola perseguição de bicicleta pelas ruas de Londres até os embates entre Lara e os capangas do vilão Mathias Vogel (Walton Goggins). Para completar, há momentos em que o uso de computação gráfica fica muito evidente, naturalmente tirando o espectador do filme, como na cena em que a protagonista cai de paraquedas no meio de uma floresta.


Enquanto isso, Alicia Vikander se esforça para fazer de Lara Croft uma personagem forte, mas é sabotada por um roteiro que constantemente a faz agir de maneira estúpida, chegando a ser risível que tal estupidez seja chamada de coragem em uma cena específica. Com isso, é até difícil se importar com a personagem, aspecto que não ganha auxílio nem da relação lugar-comum dela com o pai, que surge como o centro emocional da narrativa. Richard Croft, aliás, é vivido por um Dominic West essencialmente unidimensional, o que também não deixa de ser culpa do roteiro, ao passo que Walton Goggins é desperdiçado no papel de Mathias Vogel, um vilão que nunca surge como uma ameaça convincente.

Ao escrever sobre Warcraft e Assassin’s Creed, inevitavelmente comentei que as adaptações de jogos sofrem de uma maldição no cinema, já que são pouquíssimas as produções que se destacam positivamente. Tomb Raider: A Origem apenas reforça isso.

Nota: