Deadpool não é um filme de super-herói como os que estamos acostumados
a ver. Trazendo de volta o personagem dos
quadrinhos da Marvel, depois de sua breve participação no esquecível X-Men Origens: Wolverine, o longa não
tenta adotar um tom sério e realista, nem busca se conter em termos de
linguagem e violência. É um filme que manda muita coisa para o espaço a fim de tentar
fazer jus ao seu protagonista insano, psicótico, depravado e surpreendentemente
hilário, num projeto que talvez pudesse dar muito errado. Mas os realizadores mostram
compreender o material que têm em mãos, conseguindo resultados mais do que
satisfatórios com o que colocam na tela.

À primeira vista, é uma história
de origem como qualquer outra, não trazendo nada de particularmente novo, mas o
grande diferencial aqui é o modo como ela é contada. Deadpool é um personagem
que não está no mesmo ritmo de seus colegas de cena, tendo plena noção de fazer
parte de uma obra cinematográfica e de um vasto subgênero. Sendo assim, ao
mesmo tempo em que desenvolve um filme de super-herói (ou melhor,
super-anti-herói), o roteiro usa sabiamente a perspectiva do protagonista para
explorar seu lado metalinguístico e brincar não só com sua própria narrativa, mas
também com outras produções do tipo e suas fórmulas, seguindo um pouco a linha que
Pânico desenvolveu com os slasher movies. Dessa forma, Deadpool consegue surpreender e divertir
do início ao fim com boas sacadas (como as descrições nos créditos iniciais) e piadas
bastante inspiradas (a menção ao Professor Xavier é uma das melhores), fazendo
isso sem subestimar a inteligência do público.
Boa parte da eficiência da
comicidade do filme, porém, se deve a performance de Ryan Reynolds, que pode
já ter aparecido em outras adaptações de quadrinhos (além de X-Men Origens: Wolverine, ele fez Blade Trinity, Lanterna Verde e R.I.P.D.),
mas nunca esteve tão confortável interpretando um personagem desse tipo quanto aqui.
Mostrando o carisma que já havia provado ter em outras produções, o ator
encarna o jeito irreverente e altamente falante de Wade Wilson com segurança
absoluta, conseguindo levar o espectador a simpatizar imediatamente com o
personagem, quesito no qual as conversas que ele tem diretamente com o público,
quebrando a quarta parede, não deixam de ser peças fundamentais. Para completar,
por Deadpool desde o início afirmar não ser um super-herói, o filme não perde a
chance de divertir com o contraste entre os modos violentos de agir dele e o
idealismo dos X-Men, representados aqui por Colossus (voz de Stefan Kapicic) e
a jovem rebelde Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand).
Enquanto isso, o diretor Tim
Miller conduz com energia as cenas de ação, merecendo destaque àquela que ocorre
em uma rodovia (que, aliás, recria a cena-teste cuja boa recepção levou à
realização do longa) e o embate no terceiro ato, momento que explora muito bem
as habilidades de seus personagens. Miller ainda exibe um timing cômico preciso e necessário para a narrativa, além de impor
um ritmo ágil e envolvente. São detalhes que só contribuem para que o filme
mantenha um bom nível de entretenimento durante toda a história.
Deadpool chega em uma época muito propícia, considerando que os
filmes de super-herói já se estabeleceram há algum tempo como um nicho popular
e bem sucedido (ao menos na maior parte dos casos). O subgênero talvez
estivesse precisando de um longa como esse, que, assim como o protagonista,
aciona o botão do “foda-se” e não teme se arriscar por um caminho diferente
para cumprir seu objetivo de divertir o público.
Obs.: Há uma cena após os
créditos finais.
Nota:
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