quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Um Espião e Meio

Dwayne Johnson e Kevin Hart não poderiam ser atores mais diferentes. É algo que, obviamente, não se vê só no que diz respeito à estatura de cada um, mas também nas personas que eles têm criado nas telonas. Enquanto Johnson faz o tipo herói de ação durão, boa-praça e que parte para a porrada sempre que necessário, Hart na maioria das vezes surge com uma postura histérica para causar o riso, o que às vezes pode funcionar, mas também é capaz de irritar profundamente (como no fraco Policial em Apuros). Um Espião e Meio tenta se aproveitar exatamente do choque entre as características dos dois atores ao trazê-los no centro de sua cômica trama de ação. Mas, ainda que a dupla cause algumas risadas, o longa não consegue se sustentar como gostaria.

Escrito pelo diretor Rawson Marshall Thurber (do divertido Família do Bagulho) em parceria com Ike Barinholtz e David Stassen, dupla responsável pelo argumento, Um Espião e Meio foca em Calvin Joyner (Hart) e Robbie Wheirditch (Johnson). O primeiro é o aluno mais popular da escola, despontando como alguém que se dará bem na vida, enquanto que o segundo é obeso e alvo de bullying por parte dos colegas, passando por um momento extremamente constrangedor no último dia de aula. Vinte anos depois, Calvin se encontra em uma crise de meia-idade, com sua vida não tendo seguido o caminho que ele imaginava. É quando um Robbie completamente mudado fisicamente ressurge em sua vida sob o nome de Bob Stone e o coloca em uma grande enrascada com a CIA, liderada pela agente Pamela Harris (Amy Ryan).

A dupla central basicamente é a boia em que o filme tenta se segurar para não se afogar. Enquanto Kevin Hart surge um pouco mais contido do que de costume interpretando Calvin como um homem comum que se vê fazendo coisas inimagináveis, Dwayne Johnson se diverte ao trazer certa doçura ao jeito de ser de Bob, criando um contraste engraçado com sua força bruta e habilidades absurdas. Criando personagens que são o oposto um do outro, ambos os atores exibem carisma (detalhe comum de ver em Johnson, mas surpreendente em Hart) e têm uma dinâmica que diverte pontualmente (como na cena da terapia), com Calvin e Bob encontrando um no outro o apoio que precisam para superar possíveis problemas que estejam enfrentando.

É uma pena, porém, que o restante da narrativa não se mostre minimamente cativante ou criativo, tendo um roteiro que fica repetindo suas piadas (como as aparições repentinas de Bob) e que desenvolve uma trama formuláica, clichê e óbvia, mas aparentemente pensando que está concebendo algo de grande frescor. Se os arcos dos protagonistas já são elementos que já soam um tanto batidos e previsíveis, em nada se comparam ao fato de que, ao longo de quase toda a história, o filme mantém a identidade de seu vilão como um grande mistério, o que é ineficaz considerando que podemos antecipar de quem se trata antes mesmo de chegarmos à metade da projeção (e é lamentável ver o talentoso intérprete do personagem ser desperdiçado em um papel tão fraco). Aliás, é impressionante ver o roteiro constantemente tentar enganar o espectador a fim de tornar a trama surpreendente, como ao tentar nos manter em dúvida quanto as reais intenções de Bob. Além disso, é um pouco irritante que tenhamos algumas referências a outros filmes (como Os Bons Companheiros e Matador de Aluguel) e os roteiristas sintam a necessidade de explica-las para que o público as entenda, detalhes que não fazem muita diferença no fim das contas.

Enquanto isso, como diretor, Rawson Marshall Thurber não consegue fazer coisas que compensem os problemas do roteiro. Sendo assim, ele não chega a envolver o público com o ritmo ágil que impõe na maior parte da narrativa, além de se esforçar em criar sequências de ação que buscam causar o riso do público através do absurdo, o que pode até funcionar no confronto que se passa no escritório de Calvin, mas em outros pontos da trama o que toma a tela são sequência burocráticas e sem graça.

No fim, o que se tem em Um Espião e Meio é uma comédia de ação tola e facilmente esquecível. Um filme que se forma a partir de um material excessivamente frágil, que não ajuda a dupla de protagonistas a render uma boa diversão.

Nota:

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