quarta-feira, 20 de julho de 2016

Dois Caras Legais

Shane Black, de certa forma, fecha com este Dois Caras Legais uma trilogia interessante em sua filmografia. Tendo roteirizado Máquina Mortífera no início de sua carreira e comandado Beijos e Tiros (que também roteirizou), dois grandes filmes que já se colocavam no subgênero buddy cop ao trazer uma dupla de protagonistas com personalidades distintas se unindo em uma investigação, Black volta a apostar nesse tipo de premissa neste seu novo trabalho, que usa a Los Angeles da década de 1970 como pano de fundo. E mais uma vez o diretor concebe uma obra admirável, que diverte tanto pela comicidade que surge em meio à história quanto pela dinâmica entre seus protagonistas.

Dois Caras Legais coloca Ryan Gosling e Russell Crowe como Holland March e Jackson Healey, respectivamente. O primeiro é um detetive particular contratado para investigar a morte da atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio), já que a tia dela (Lois Smith) a teria visto viva. Isso acaba levando March até a jovem Amelia (Margaret Qualey), que o faz bater de frente com Healey, contratado pela garota para espantar/espancar qualquer um que a ameace. Mas ao tomar conhecimento dos perigos enfrentados por ela, Healey concentra seus esforços em encontra-la e descobrir em que situação ela teria se metido, juntando forças com March e até com a filha dele, Holly (Angourie Rice), que teima em ajudá-los.

Dois Caras Legais talvez pudesse ser bem lugar-comum, mas o modo como Shane Black executa as ideias que tem em mãos é muito cativante, criando uma narrativa que mistura o charme dos filmes noir com o ar retrô da década de 1970, que é admiravelmente recriada pelo design de produção e pelos figurinos, regendo até mesmo o estilo dos créditos iniciais e da trilha de David Buckley e John Ottman. São aspectos que trabalham a favor de uma trama que o roteiro (escrito por Black em parceria com Anthony Bagarozzi) desenvolve inteligentemente e de maneira muito bem estruturada, sendo que até o mais insignificante dos detalhes (como um protesto com pessoas se fingindo de mortas) mostra sua importância no decorrer da narrativa.

Com isso, Shane Black já consegue fazer com que o espectador fique envolvido na história e instigado com os rumos que ela pode tomar, mas é admirável como ele ainda consegue trazer humor à narrativa, sendo que em boa parte do tempo isso ocorre a partir de desgraças, algo que acaba funcionando sem ignorar a seriedade dos perigos enfrentados por Healey e March. Tais perigos tomam a tela principalmente nas cenas de ação, que Black conduz com intensidade e tendo plena noção da mise-en-scène que desenvolve, criando sequências envolventes e que mantêm o público entretido em meio às situações apresentadas pela trama.

Mas muito do sucesso de Dois Caras Legais se deve mesmo ao fato de o filme ter grandes atores como Russell Crowe e Ryan Gosling no centro da narrativa, com ambos tendo uma fantástica dinâmica em cena e estabelecendo com talento as diferenças entre Healey e March, de forma que a diversão que eles causam vem muito do contraste de suas personalidades. Se Crowe faz de Healey um sujeito mais sério e violento, exibindo sempre uma postura firme e segura, Gosling encarna March como alguém que parece não levar a sério o que ocorre ao seu redor e que, às vezes, beira a hiperatividade. O momento em que eles usam um elevador serve até para sintetizar suas personalidades, trazendo Healey quase estático enquanto March fica inquieto. No entanto, vale dizer que, por melhor que seja a dupla central, a excelente Angourie Rice rouba a cena surpreendentemente interpretando Holly, tornando-a uma garota que por vezes se revela mais madura que o próprio pai e que mostra ter um faro natural para o trabalho de detetive, além de ser o centro moral do filme, fazendo florescer o lado humano dos protagonistas.

Ágil e divertido, Dois Caras Legais é um entretenimento notável, que sabe seguir por caminhos interessantes a fim de trazer certo frescor a sua premissa. E considerando que o filme deixa as portas abertas para uma continuação, talvez esta não tenha sido a última vez que vimos Holland March e Jackson Healey.

Nota:

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