quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Beleza Oculta

Filmes como Beleza Oculta tentam constantemente emocionar o espectador, mas acabam irritando com a maneira como buscam alcançar isso. Apelando para um maniqueísmo barato ao longo de quase toda a narrativa, este novo longa de David Frankel (de O Diabo Veste Prada e Marley & Eu) falha em seus propósitos enquanto desenvolve uma história que talvez contasse com um bom potencial dramático quando era uma semente de ideia, mas isso se perde em meio a decisões criativamente tolas que ajudam a montar uma narrativa que nem o elenco cheio de nomes interessantes consegue salvar.

Escrito por Allan Loeb, Beleza Oculta se concentra em Howard Inlet (Will Smith), líder de uma empresa de publicidade e que costumava aproveitar a vida ao máximo, com muito bom humor. Isso até a morte de sua filha pequena, tragédia que o faz se isolar de tudo e todos, algo que acaba preocupando seus amigos Whit (Edward Norton), Claire (Kate Winslet) e Simon (Michael Peña). Para tentar lidar com a dor que sente, Howard escreve cartaz para os três conceitos abstratos que ele vê como essenciais para as pessoas: Amor, Tempo e Morte, ficando surpreso ao receber respostas pessoais deles nas figuras de Amy, Raffi e Brigitte (interpretados por Keira Knightley, Jacob Latimore e Helen Mirren, respectivamente), sem saber que tratam-se de atores contratados por seus amigos.

Tematicamente, o filme até dialoga com o recente (e excepcional) Manchester à Beira-Mar, contando uma história que lida muito com a dor resultante de perder alguém e de como superar o luto está longe de ser uma tarefa fácil. No entanto, é praticamente um abismo o que separa este trabalho de David Frankel da sensibilidade vista na obra de Kenneth Lonergan, já que o que acompanhamos aqui é uma narrativa permeada de um sentimentalismo exagerado para tentar levar o espectador ao choro. A força disso infelizmente é canalizada em canções melosas, diálogos que poderiam sair de um livro de autoajuda e subtramas que, além de subdesenvolvidas, ainda por cima se resolvem da maneira mais óbvia possível. Para completar, o roteiro não só aposta em um humor bobo para tentar aliviar o drama (como a cena em que Whit fala sobre ter recebido um conselho de um motorista de Uber), como também traz clichês batidos e que só surpreendem por ainda serem utilizados (a tosse como equivalente de doença, por exemplo).

Enquanto isso, Will Smith interpreta Howard em seus momentos felizes com o carisma que poderíamos esperar, sendo sabotado pelo roteiro quando o personagem se isola em sua depressão, já que aqui ele se fecha tanto que fica difícil se aproximar dele. Já Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña fazem o possível para que nos importemos com Whit, Claire e Simon, algo difícil considerando a insensibilidade de seus atos envolvendo Howard e o fato de seus dramas pessoais não terem tanto peso dramático, sendo que a relação que eles formam com os personagens de Keira Knightley, Jacob Latimore e Helen Mirren ainda é bastante esquemática. Fechando o elenco, Naomie Harris é até bem sucedida no calor humano que traz a Madeleine, líder de um grupo de apoio que tenta ajudar o protagonista.

Contando também com um terceiro ato cujas reviravoltas podemos ver a quilômetros de distância, sem falar no fato de o roteiro explicar certos elementos da história sem muita necessidade (como a mulher que Madeleine encontra em determinado momento) e se negar a resolver conflitos centrais, Beleza Oculta é um melodrama que não poderia ser mais artificial, de forma que a experiência de assisti-lo se torna aborrecida graças a sua fragilidade narrativa.

Nota:

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