sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A Chegada

A ideia do primeiro contato entre humanos e seres extraterrestres surge com certa frequência no cinema, sendo que em boa parte das vezes ela é usada como ponto de partida para que cineastas deem vida à reflexões sobre a própria natureza humana. É uma premissa obviamente ambiciosa e capaz de render obras fascinantes quando bem realizado. Pois A Chegada se encaixa nisso perfeitamente. Ao focar os esforços dos humanos em se comunicar com os alienígenas, esse novo longa do cada vez mais brilhante Denis Villeneuve mostra como essa nossa habilidade pode de nos levar a evoluir como espécie. Isso, claro, quando queremos.

Escrito por Eric Heisserer a partir do conto “História da Sua Vida”, de Ted Chiang, A Chegada nos coloca diante da linguista Louise Banks (Amy Adams), cuja filha adolescente morreu devido a um câncer. Tendo uma vida solitária e dando aulas em uma universidade, Louise vê sua rotina mudar no momento em que doze cápsulas extraterrestres pousam em diferentes pontos do planeta. É quando ela é chamada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ir até Montana, onde está uma das cápsulas, recebendo ali a tarefa de liderar, ao lado do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), uma equipe que tem como objetivo traduzir a linguagem dos visitantes e, assim, descobrir qual o propósito deles na Terra.

A partir daí, o roteiro de Heisserer desenvolve com propriedade a temática comunicacional que rege a maior parte da trama, sendo que se o trabalho dos personagens com os alienígenas já se revela difícil por natureza, acaba se tornando ainda mais urgente quando se vê o caos que se espalha pela sociedade ao redor do mundo, resultado do medo que as pessoas têm do desconhecido e também da falta de diálogo, detalhe que desencadeia conflitos que poderiam ser evitados caso a desconfiança não fizesse parte de nossa natureza, impedindo uma maior união entre os envolvidos no evento que acompanhamos. Além disso, é notável a crítica certeira que o filme faz a veículos midiáticos que alimentam o sentimento de pânico com um trabalho nada informativo, indo contra o propósito que deveriam ter, como pode ser visto em pequenos momentos como aquele em que um soldado assiste a fala ignorante de um radialista (certamente inspirado em Rush Limbaugh).

Se nessa parte A Chegada já faz jus à ambição que exibe, o longa ainda tem a sorte de contar com a direção de Denis Villeneuve, já que o cineasta tem se mostrado um especialista em criar narrativas que prendem a atenção do público do início ao fim. Enquanto apresenta um mundo bastante melancólico, cortesia da fotografia acinzentada de Bradford Young e da trilha de Jóhann Jóhannsson, Villeneuve mantém o espectador constantemente instigado quanto às questões levantadas pelo roteiro, algo que melhora principalmente depois de uma excelente reviravolta que faz o filme ir além da comunicação com os alienígenas, trazendo reflexões sobre as decisões que tomamos e no que elas podem resultar. Para completar, o diretor trata com sensibilidade os dramas pessoais de sua protagonista, sendo hábil também na forma como ressalta a urgência do trabalho dela ao lado de Ian, o que rende sequências excepcionais como aquela envolvendo uma ligação telefônica. Aliás, é preciso destacar aqui a excelente montagem de Joe Walker, que dita muito bem a tensão que toma a tela pontualmente e lida perfeitamente com a estrutura do roteiro.

Como se não bastasse, o filme ainda conta com um elenco que encarna seus personagens com uma segurança admirável. Jeremy Renner, por exemplo, faz de Ian um sujeito inteligente e carismático, que pode discordar de ideias que lhes são apresentadas (como ocorre logo em sua primeira cena), mas sem ser uma figura arrogante, tendo algumas de suas crenças desafiadas no decorrer da trama, ao passo que Forest Whitaker surge eficiente ao estabelecer a autoridade representada pelo Coronel Weber. Mas o filme é mesmo de Amy Adams, que tem aqui uma de suas melhores atuações interpretando Louise (e ficarei surpreso caso ela fique de fora da temporada de premiações). Adams cria aqui uma mulher forte e complexa, que leva uma vida vazia (como vemos em sua casa escura e com paredes de vidros), mas que encontra em meio a seu contato com os alienígenas algo capaz de reverter isso, seguindo um arco dramático tocante em seu desenvolvimento.

A Chegada basicamente é um dos melhores tipos de ficção científica, sendo um filme que exibe força para arrebatar o espectador não só com as ideias que apresenta ao longo da trama, mas também com as discussões que promove sobre a humanidade e as direções que planejamos seguir. Sem dúvida estamos falando de uma das grandes obras de 2016.

Nota:

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Ao criar a série Harry Potter, J.K. Rowling nos colocou diante de um universo imaginativo que fascinava com cada um de seus detalhes, sendo um palco tão instigante quanto as aventuras (e posteriormente batalhas) em que seu jovem protagonista se metia ao lado dos amigos. Pois é de volta a este mundo que Animais Fantásticos e Onde Habitam nos leva, cinco anos depois de nos despedirmos de Harry, Rony, Hermione e tantos outros grandes personagens em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, um final bastante digno para aquela excelente saga. E é interessante ver como esse novo filme é um spin-off/prequel que diverte e encanta com a expansão de um universo com o qual estamos familiarizados, além de apresentar personagens cativantes o suficiente para que fiquemos envolvidos com a trama.

Escrito pela própria J.K. Rowling (em sua estreia como roteirista de cinema) e dirigido por David Yates (que comandou os quatro últimos filmes da franquia e este ano já apareceu nos cinemas com uma nova versão de Tarzan), Animais Fantásticos e Onde Habitam se passa várias décadas antes de Harry Potter bater de frente com Voldemort, mais especificamente em 1926, época na qual outra figura maléfica realiza ataques que podem expor a existência dos bruxos para os trouxas (ou “não-majs”, como dizem os americanos), algo investigado pelo Congresso de Magia dos Estados Unidos (MACUSA) e seu diretor de segurança, Percival Graves (Colin Farrell). Nesse contexto, o magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega à Nova York com uma série de criaturas na bagagem, perdendo algumas delas em uma confusão com o trouxa Jacob Kowalski (Dan Fogler), e é exatamente da ajuda deste que ele precisará para encontra-las, ao passo que a ex-aurora Tina Goldstein (Katherine Waterston) fica no encalço deles.

O roteiro de J.K. Rowling poderia muito bem render uma narrativa episódica, concentrando-se nos esforços do protagonista e de seu novo amigo para recuperar os animais um por um. No entanto, isso também poderia ser excessivamente simples e repetitivo, sendo bom ver a roteirista entrelaçar naturalmente essa parte do filme com subtramas que aumentam a escala da narrativa sem torna-la inchada. No processo, Rowling expande admiravelmente o universo que criou, de forma que a decisão de situar este novo longa nos Estados Unidos por si só acaba dando frescor à história, já que o mundo dos bruxos visto no país é muito diferente daquilo que conhecemos nos oito capítulos anteriores da franquia, com direito a um grupo extremista antibruxos (a Sociedade Filantrópica Nova Salem) e novos cenários grandiosos. Neste sentido, a sede da MACUSA com seus vários departamentos é um dos destaques visuais que surgem por aqui, num trabalho exemplar do design de produção, que ainda faz uma excelente recriação de época, quesito no qual os figurinos de Colleen Atwood auxiliam perfeitamente, valendo ressaltar também a maneira como eles combinam com as personalidades dos personagens.

Enquanto isso, David Yates volta a mostrar que compreende bem o universo concebido por Rowling, parecendo se divertir sempre que insere elementos que denotam o quão fascinante este é, como uma pequena briga entre bichinhos de papel, uma mesa de jantar se organizando sozinha após um leve aceno de varinha ou a organização interna da maleta de Newt Scamander, elemento que rende uma das melhores sequências do filme ao apresentar os animais que ali estão guardados, sendo que eles se revelam adoráveis em sua maioria, além de ganharem vida convincentemente graças ao ótimo trabalho da equipe de efeitos visuais. Essa sequência na maleta, por sinal, é um dos poucos momentos em que David Yates se permite jogar uma luz mais calorosa na tela, já que na maior parte do tempo ele e o diretor de fotografia Philippe Rousselout apostam em cores frias que ressaltam a tensão dos bruxos quanto aos ataques que ocorrem em Nova York, algo que chega ao ápice em um clímax que, mesmo carregado de efeitos visuais, não esquece de tratar com sensibilidade seus personagens. Mas esse lado mais sombrio da narrativa não impede Yates de criar momentos divertidos, o que ocorre principalmente quando o roteiro se concentra na caça aos animais perdidos, em cenas que apostam muito na inteligência deles e de Newt.

Newt Scamander, aliás, é vivido pelo carismático Eddie Redmayne como um sujeito um tanto tímido e atrapalhado, que por vezes até parece não ter muita noção da coexistência entre o mundo dos bruxos e dos trouxas, como ao perseguir um dos animais em um banco. Mas o que faz o espectador se aproximar mais do personagem é o carinho e o respeito que ele exibe pelas criaturas que resgata, compreendendo-as melhor do que ninguém. Katherine Waterston, por sua vez, faz de Tina uma mulher forte, que não fica na mera posição de interesse amoroso do herói e busca provar seu valor para seus superiores na MACUSA, ao passo que Dan Fogler no papel de Jacob não só funciona na função de alívio cômico como ainda reflete a admiração do público por aquele universo a cada feitiço que presencia, e a relação dele com a adorável Queenie, a irmã de Tina interpretada por Alison Sudol, não demora para conquistar a nossa simpatia. E se Ezra Miller se destaca como o perturbado Credence (mesmo protagonizando uma reviravolta previsível no terceiro ato), Colin Farrell usa seu subestimado talento para tornar Percival Graves uma figura misteriosa e que deixa o espectador constantemente com o pé atrás quanto a suas intenções.

Se a história de Animais Fantásticos e Onde Habitam terá fôlego para preencher cinco filmes (como foi divulgado recentemente) é algo que ainda vamos descobrir. Por ora, a ideia de mostrar que o universo concebido por J.K. Rowling é muito maior do que o que vimos anteriormente se desenvolve em uma aventura eficiente, que sabe explorar o potencial de seu ótimo material e se estabelece como um início promissor para uma nova saga.

Nota:

domingo, 6 de novembro de 2016

Doutor Estranho

Seguindo os mesmos passos de outros filmes de origem da Marvel, principalmente Thor e Guardiões da Galáxia, Doutor Estranho é um trabalho que deixa claro que pretende não apenas apresentar um novo super-herói com o qual o público pode simpatizar, mas também nos colocar diante de um novo canto do universo que o estúdio vem construindo desde que Homem de Ferro foi lançado. Inserindo as artes místicas na jogada, o longa de Scott Derrickson trata de mostrar mais algumas camadas de um mundo já incrivelmente vasto, conseguindo fazer isso ao mesmo tempo em que diverte tanto com a forma como desenvolve seus conceitos quanto com a personalidade de seu protagonista.

Escrito por Jon Spaihts e pelo próprio Scott Derrickson em parceria com C. Robert Cargill, Doutor Estranho é centrado em Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um arrogante, mas excepcional neurocirurgião que se vê sem poder exercer a profissão após sofrer um acidente que causa danos graves a suas mãos. Desesperado e fazendo de tudo para reverter sua situação, Stephen vai ao templo de Kamar-Taj, no Nepal, onde conhece o feiticeiro Mordo (Chiwetel Ejiofor) e a mestra dele, conhecida como a Anciã (Tilda Swinton), figura que expande a mente inicialmente cética do doutor e lhe mostra as possibilidades das artes místicas. Enquanto isso, outro feiticeiro, Kaecilius (Mads Mikkelsen), prova ser uma ameaça para o mundo ao buscar evocar as forças do poderoso Dormammu e sua Dimensão Negra.

Visualmente, Doutor Estranho desponta como um dos exemplares mais interessantes da Marvel, inserindo o protagonista (e consequentemente o espectador) em um daqueles universos narrativos onde o impossível se torna possível. Assim, Scott Derrickson (diretor conhecido por filmes de terror como O Exorcismo de Emily Rose e A Entidade) claramente se diverte ao nos apresentar a uma série de ideias que brincam com as leis da natureza e que tomam a tela amalucadamente, sendo o ápice disso a sequência em que a Anciã joga Stephen em uma viagem astral psicodelicamente insana (aliás, eis aqui um raro momento em que ver um filme em IMAX realmente resultou em uma experiência imersiva um pouco mais forte do que o normal).

Mas não é só por aí que Derrickson busca entreter o público, já que os poderes dos personagens abrem possibilidades curiosas quando o filme parte para a ação. É algo que o cineasta consegue explorar eficientemente, tendo para isso o auxílio do ótimo trabalho da equipe de efeitos visuais, o que resulta em momentos divertidos (a luta espiritual que ocorre em um hospital) e outros que impressionam por sua concepção e escala (o embate em Nova York dentro da Dimensão Espelhada, uma das sequências em que o longa exibe sua inspiração em A Origem), valendo destacar também o ritmo ágil imposto por Derrickson no decorrer da narrativa, aspecto que ajuda a prender a atenção do público sem criar uma confusão visual na tela.

Enquanto isso, o ótimo Benedict Cumberbatch interpreta Stephen Strange com carisma e até mesmo certa irreverência, levando o público a gostar do personagem e se identificar com ele por mais arrogante que se mostre. Na verdade, Stephen pode muito bem ser visto como uma versão alternativa do Tony Stark de Robert Downey Jr., seja por seu jeito de ser (incluindo piadinhas) ou pelo arco dramático que percorre, gradualmente parando de olhar apenas para o próprio umbigo. Já Rachel McAdams pouco pode fazer com Christine Palmer, interesse amoroso do herói e que surge em cena apenas quando o roteiro precisa, ao passo que Chiwetel Ejiofor é um tanto subaproveitado no papel de Mordo, personagem que deve ser melhor explorado futuramente. E se Benedict Wong faz de Wong, mestre que mantém seguros os livros do Kamar-Taj, um sujeito que diverte mesmo sem ter isso como propósito, Mads Mikkelsen não consegue fazer de Kaecilius uma ameaça palpável, ainda que exista no roteiro algum esforço em torna-lo um vilão interessante. Fechando o elenco, Tilda Swinton tem na Anciã um papel que remete diretamente ao do Morpheus de Lawrence Fishburne em Matrix, sendo a personagem alguém cuja sabedoria a estabelece como uma figura de presença grandiosa, detalhe que a atriz encarna com segurança, compensando o fato de a maior parte de seus diálogos serem expositivos para que o protagonista e o público fiquem por dentro daquele universo.

Escorregando em um clímax que resolve facilmente o conflito principal da trama, além de ter a narrativa embalada por uma trilha pouco inspirada do geralmente excelente Michael Giacchino, Doutor Estranho não deixa de apertar os mesmos botões que a Marvel se acostumou a apertar ao contar suas histórias no cinema. Uma fórmula que vem ficando cada vez mais óbvia, mas que mesmo assim é capaz de fazer o filme funcionar bem como entretenimento enquanto se estabelece como uma peça importante dentro da franquia.

Obs.: Como de costume em se tratando da Marvel, há cenas durante e depois dos créditos finais.

Nota:

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Contador

Concentrando-se na história de um contador autista que, além de ter suas grandes habilidades com números, também é um sujeito letal quando necessário, O Contador não deixa de partir de uma premissa curiosa, que pode ter sido uma tentativa do roteiro de apostar em algo que tenha algum frescor. Como resultado, o novo trabalho de Gavin O’Connor (de obras como Guerreiro e Força Policial) e protagonizado por Ben Affleck é um longa que pode ser considerado como um choque entre Rain Man e a franquia Bourne, mesmo ficando bem abaixo desses filmes em termos de qualidade.

Escrito por Bill Dubuque (um dos responsáveis pelo roteiro do fraco O Juiz, com Robert Downey Jr.), o filme traz Affleck no papel de Christian Wolff, contador que tem figuras perigosas entre seus clientes e que se relaciona com certa dificuldade com outras pessoas, sendo portador da Síndrome de Asperger. Quando recebe a tarefa de identificar um erro nas contas de uma empresa de robótica que perdeu milhões de dólares recentemente, algo percebido pela jovem Dana Cummings (Anna Kendrick), Chris é encurralado à medida que se aproxima de descobrir o que aconteceu, precisando pôr em prática suas habilidades mortais para sobreviver. Enquanto isso, ele é investigado por Ray King (J.K. Simmons), diretor de crimes financeiros do Departamento do Tesouro, e pela analista Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), que buscam identifica-lo e prendê-lo por suas atividades ilícitas.

Por mais que a premissa de O Contador chame atenção em sua proposta, um dos pontos que acabam prejudicando o filme é o desejo por parte do roteiro em querer tornar a história um pouco maior e mais complexa do que o necessário. Sendo assim, o longa se estrutura de forma que acompanhamos não só Christian, mas também as subtramas envolvendo outros núcleos narrativos, como a investigação de Ray e Marybeth e os trabalhos de um assassino profissional (vivido por Jon Bernthal), além de pontualmente inserir flashbacks da vida do protagonista. É uma pena, porém, que Gavin O’Connor não consiga dar importância a todos esses elementos e não salte naturalmente de um ponto da história para outro, o que causa sérios problemas de ritmo na narrativa. É um aspecto tão problemático que, em determinado momento, O’Connor chega a parar a trama principal por vários minutos a fim de que algo seja explicado ao público.

No entanto, quando se concentra em seu protagonista, o filme consegue ser envolvente, o que se deve em parte a boa atuação de Ben Affleck, que encarna Christian Wolff de maneira bastante contida e trazendo frieza ao jeito de ser do personagem, que não tem muita noção de convivência, algo feito sem sacrificar sua humanidade. Aliás, a maneira convincente com que Affleck interpreta os modos de Chris até contribui com o senso de humor do filme, como na cena em que faz um breve aceno para um casal logo depois de cometer um ato violento. Quanto às habilidades físicas do personagem, vale dizer que Gavin O’Connor consegue utilizá-las eficientemente para criar sequências de ação ágeis e que injetam um pouco de energia na narrativa (por sinal, é curioso notar como Chris deixa de usar óculos ao ter que agir com socos e pontapés, como se tirasse uma espécie de máscara).

Se Affleck se sai bem, o elenco de coadjuvantes faz o que pode com personagens que não chegam a ser particularmente interessantes. J.K. Simmons usa sua grande presença em cena para estabelecer a autoridade de Ray King, enquanto Anna Kendrick compõe Dana Cummings com o mesmo jeito meio excêntrico que marca boa parte de seus papeis, sendo uma pena que a personagem seja usada de maneira rasteira e óbvia pelo roteiro para evocar o lado emocional do protagonista. Já Jon Bernthal traz sua persona um tanto insana (e que ele carrega por todos os projetos em que se envolve) para o assassino que interpreta, criando um indivíduo que mantém certa irreverência em meio ao trabalho violento, mas chega a ser triste que ele protagonize uma reviravolta que, de tão previsível, nos faz questionar a inteligência dos realizadores.

Apesar de não fazer muitas coisas interessantes e sentir a necessidade de explicar elementos da trama mesmo quando isso não é importante (a revelação nos últimos segundos é exemplo disso), O Contador é um thriller de ação que funciona razoavelmente. E considerando seus problemas, isso não deixa de ser um pouco de sorte tanto da equipe por trás do filme quanto nossa que o assistimos.

Nota:

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Inferno

Servindo como expoentes na carreira de Dan Brown, um escritor do qual não posso dizer que sou fã, as aventuras centradas no professor Robert Langdon não deixam de partir de uma ideia curiosa ao colocar o personagem como uma espécie de Indiana Jones moderno, que usa seus conhecimentos históricos para resolver grandes quebra-cabeças. Tendo isso em vista, não é à toa que as obras de Brown que têm ganhado as telonas são exatamente as protagonizadas por Langdon, que retorna agora neste Inferno, sua terceira aventura cinematográfica (por algum motivo, os produtores decidiram pular O Símbolo Perdido). Mas se tanto O Código Da Vinci quanto Anjos & Demônios já não haviam resultado em filmes memoráveis, este novo exemplar se supera ao se estabelecer disparadamente como o pior da trilogia.

Com roteiro escrito por David Koepp, Inferno traz Robert Langdon (novamente interpretado por Tom Hanks) acordando em um hospital na Itália sem lembrar de eventos recentes, além de ter visões envolvendo o Inferno concebido por Dante Alighieri em A Divina Comédia. É então que várias pessoas passam a persegui-lo, e ele tem o auxílio da médica Sienna Brooks (Felicity Jones) para ajuda-lo a seguir pistas e entender o que está acontecendo, algo que pode estar ligado às ideias de Bertrand Zobrist (Ben Foster), que vê a superpopulação do mundo como nossa possível extinção.

Assumindo rapidamente a estrutura que regeu os longas anteriores, especialmente O Código Da Vinci, Inferno joga os personagens no meio de uma grande correria enquanto tentam decifrar os mistérios que aparecem em seu caminho, o que obviamente envolve mensagens subliminares em objetos atípicos e obras de arte. Mas é triste acompanhar uma trama que se revela desinteressante e é desenvolvida de forma estúpida, o que vai desde as motivações por trás do que está acontecendo até as visões que Langdon tem ao longo da trama, que se revelam absurdas e até mesmo desnecessárias, já que o protagonista não demora para encontrar um objeto que mostre exatamente a obra de Alighieri e as pistas ali plantadas. Como se não bastasse, o roteiro de David Koepp mastiga a trama constantemente com diálogos expositivos, além de aparentemente subestimar a inteligência do público, seja ao executar reviravoltas ora ilógicas, ora previsíveis, ou ao trazer os personagens falando sua localização segundos depois de esta informação ter sido apresentada por alguns letreiros na tela.

Enquanto isso, Ron Howard (que já havia dirigido os dois longas anteriores) parece conduzir a narrativa no piloto automático, algo decepcionante tendo em vista que ele vinha fazendo trabalhos admiráveis (Rush e No Coração do Mar, para ser mais específico). Além de não impor nenhuma energia ao fraco material que tem em mãos, Howard concebe sequências de ação burocráticas e visualmente confusas (isso quando não são ridículas, como aquela envolvendo um drone), o que dilui qualquer tipo de tensão que a narrativa deveria ter e que a montagem frenética da dupla Tom Elkins e Daniel P. Hanley, somada à trilha pouco inspirada de Hans Zimmer, tanto busca ressaltar sem sucesso.

Interpretando Robert Langdon pela terceira vez, Tom Hanks até exibe seu carisma habitual, mas isso infelizmente mostra não ser o suficiente para tornar o personagem interessante, sendo que os problemas de memória que ele exibe durante a trama até o fazem agir como um pateta, como na cena envolvendo o vídeo de segurança de um museu. Já a langdon girl da vez, Felicity Jones, não consegue dar muita personalidade a Sienna Brooks, uma figura que age de acordo com as necessidades do roteiro, ao passo que Ben Foster mal tem a chance de estabelecer Bertrand Zobrist como um vilão intrigante, e o plano do personagem se revela tão enrolado que é até difícil leva-lo a sério, sem falar que suas ideias sobre superpopulação são tratadas de maneira rasa pelo roteiro. Fechando o elenco, intérpretes como Omar Sy, Irrfan Khan e Sidse Babett Knudsen passam batidos pela tela em papeis puramente unidimensionais.

Foram necessários sete anos para que O Código Da Vinci e Anjos & Demônios ganhassem uma continuação, sendo que aqueles longas nem fizeram com que fosse possível sentir falta das histórias de seu protagonista durante esse período. Pois Inferno também não ajuda a reverter isso, mostrando ser um thriller que fica bem longe de ter a inteligência que acredita possuir.

Nota:


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Séries: Luke Cage

Introduzido no universo Marvel na ótima primeira temporada de Jessica Jones, Luke Cage rapidamente se estabeleceu como um personagem interessante, tendo sido bom ver que sua participação na série da anti-heroína interpretada por Krysten Ritter teve um destaque maior do que ser apenas uma mera apresentação ao público. Ganhando agora sua própria série, este novo herói tem a chance de ter seu potencial mais explorado, além de ser por si só um ponto para a representatividade, já que não é sempre que minorias aparecem protagonizando grandes produções como esta, que é a primeira empreitada do universo Marvel centrada em um personagem negro. O que se vê aqui é uma série eficiente, ainda que inferior a Demolidor e Jessica Jones no que diz respeito aos trabalhos da parceria Marvel/Netflix.

Desenvolvida por Cheo Hodari Coker (cujos créditos incluem Ray Donovan e a cinebiografia Notorious B.I.G.), essa primeira temporada de Luke Cage traz o indestrutível personagem-título (novamente interpretado por Mike Coulter) vivendo no Harlem, bairro famoso por ser um grande centro da comunidade negra em Nova York. Por ali, Luke tenta não chamar a atenção de ninguém, mantendo suas habilidades em segredo e se dividindo entre seus empregos na barbearia comandada pelo bondoso Pop (Frankie Faison em uma participação pequena, mas marcante) e na boate de Cornell “Boca de Algodão” Stokes (Mahershala Ali). Este último é um dos maiores mafiosos da região e primo da vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodard), com quem tem uma parceria corrupta que ajuda a mantê-los em suas respectivas posições de poder, e ambos ganham ainda a ajuda de Shades (Theo Rossi). Mas é claro que não demora até que eles batam de frente com Luke, desencadeando uma série de conflitos pelo Harlem que acabam sendo investigados pela detetive Misty Knight (Simone Missick) e seu parceiro Rafael Scarfe (Frank Whaley).

Claramente inspirada por produções de blaxploitation, movimento de filmes feitos e protagonizados por negros e que tomou as telas na década de 1970, Luke Cage logo mostra seguir um tom diferente de qualquer coisa que a Marvel já produziu. Com uma ótima trilha repleta de toques de soul, jazz e hip-hop composta por Ali Shaheed Muhammad e Adrian Younge, a ambientação no Harlem e as discussões pontuais envolvendo a cultura negra e seus principais expoentes, a série ganha uma personalidade muito particular graças à natureza de seu material, algo que ela abraça sem pestanejar. Além disso, os episódios não deixam de abordar questões sociais importantes, inserindo comentários sobre escravidão, racismo e sexismo, ainda que por vezes isso ocorra de um jeito óbvio e superficial.

Sabendo que os poderes de Luke Cage quase anulam as possibilidades de ele ficar em risco nas cenas de ação (ênfase no “quase”), a série acerta ao se concentrar bastante nos dramas pessoais do herói e nas rixas que ele cria com os vilões, e nesses aspectos estão alguns dos melhores pontos dessa temporada. Inicialmente, Luke vê seus poderes como uma maldição que o impede de ser uma pessoa normal, mas é bacana ver que, depois que ele os abraça como uma possibilidade de fazer o bem, o personagem utiliza-os não só como uma forma de derrubar bandidos e tornar seu mundo um pouco mais limpo, mas também de impedir que pessoas que ele quer proteger sujem as mãos (o quinto episódio mostra isso muito bem). Para completar, melhor do que ver os embates diretos entre o protagonista e seus inimigos é acompanhar as estratégias de ambos os lados para derrubar um ao outro, com a imagem que a população tem deles sendo um dos aspectos mais utilizados para isso.

Voltando confortavelmente ao papel de Luke Cage, o carismático Mike Coulter tem uma presença em cena que mistura imponência, charme e virilidade, características que acabam combinando perfeitamente com o personagem. E é bom ver como o ator ainda mostra saber entreter com o controle que Luke tem quanto os próprios poderes, divertindo com a calma que exibe enquanto alguns capangas desesperados o enfrentam (como não rir em momentos como aquele em que ele coloca alguém para dormir com um peteleco?). Já no elenco de apoio, Rosario Dawson volta a interpretar a enfermeira Claire Temple dando continuidade ao arco da personagem iniciado na primeira temporada de Demolidor, fazendo dela uma figura cada vez mais interessante, ao passo que Simone Missick se destaca ao estabelecer Misty Knight como uma policial que conquista o espectador com sua força e integridade. E se Theo Rossi compensa a unidimensionalidade de Shades ao torna-lo um braço-direto cuja racionalidade é vital para os chefes impulsivos, Mahershala Ali cria em Cornell Stokes um mafioso que segue a linha Wilson Fisk (ou seja, se meter com ele é assinar a própria sentença de morte), enquanto que Alfre Woodard faz de Mariah Dillard uma figura por vezes mais inteligente e ameaçadora que o primo, e ambos os atores formam uma bela dinâmica vilanesca entre seus personagens. É exatamente por a dupla ser tão bacana que é uma pena vê-la perder espaço na segunda metade da temporada para Kid Cascavel, cuja aparição é preparada desde o começo, mas que se revela um vilão um tanto aborrecido quando finalmente surge em cena, por mais que o roteiro e seu intérprete, Erik LaRay Harvey, se esforcem para fazer dele um sujeito intrigante.

Este, porém, não é o único problema que impede essa temporada de Luke Cage de ser um pouco mais consistente. Tendo que cumprir a demanda de treze episódios, a série infelizmente enrola demais a trama, como ao esticar por dois capítulos o momento em que o protagonista invade um esconderijo de Cornell Stokes, se estruturando de um jeito que passa a impressão de que não há material suficiente para a temporada toda. Isso, inclusive, leva os roteiristas a fazer algo parecido com o que ocorreu no recente segundo ano de Demolidor, organizando dois arcos narrativos que se dividem fragilmente a partir da metade da temporada, e por precisar lidar com isso e mais algumas subtramas a série acaba ganhando um ritmo irregular, mesclando grandes momentos com outros não tão interessantes, não conseguindo ser constantemente envolvente.

Mas por mais que haja uma sensação de que a temporada talvez pudesse ser melhor, felizmente os elementos ricos que ela apresenta sustentam bem os episódios. Assim, Luke Cage consegue ficar marcada como um exemplar satisfatório da franquia que a Marvel vem concebendo. E considerando que antes de uma provável segunda temporada o protagonista retornará em Os Defensores, minissérie que reunirá os heróis das produções da Marvel/Netflix, é inevitável ficar interessado em ver como a história dele e dos outros personagens irão se encontrar.

Leia as críticas das outras séries da Marvel/Netflix:

12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição

Ao assistir Uma Noite de Crime e sua continuação, Uma Noite de Crime: Anarquia, algo que fica muito claro é que o diretor-roteirista James DeMonaco bolou uma premissa interessante, que abre possibilidades para explorar a natureza autodestrutiva do ser humano e como esse aspecto poderia dar as caras caso não precisássemos seguir leis, resultando em críticas sociais por vezes surpreendentes. Mas mesmo que não sejam produções desastrosas, ao final daqueles filmes fica a impressão de que eles não são tão bons quanto suas ideias. Isso é algo que se mantém neste terceiro exemplar, 12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição (suponho que a série não esteja fazendo muito sucesso no Brasil e a distribuidora agora decidiu trocar o título para vender este novo capítulo como uma novidade por aqui).

Como o subtítulo do filme aponta, a trama dessa vez se passa em época de eleições presidenciais nos Estados Unidos. A senadora progressista Charlie Roan (Elizabeth Mitchell) sobe cada vez mais nas pesquisas, tendo como principal meta acabar com a noite anual de Purgação, que permite as pessoas a cometerem qualquer tipo de crime por doze horas sem sofrerem qualquer tipo de consequência. Não gostando nenhum pouco da possibilidade de terem sua liberdade sanguinária cortada e se sentindo ameaçados nas urnas, os adversários políticos de Charlie decidem eliminá-la antes das eleições, aproveitando para isso a noite que ela busca extinguir. Solta em meio à violência da Purgação, a senadora tem apenas seu chefe de segurança Leo Barnes (Frank Grillo, reprisando seu papel do segundo filme) para ajuda-la a sobreviver. Enquanto isso, Joe Dixon (Mykelti Williamson) tenta proteger seu pequeno mercado com a ajuda de seu funcionário Marcos (Joseph Julian Soria), e não demora até a história deles se encontrar com a de Charlie.

A trama basicamente repete boa parte das direções tomadas nos filmes anteriores, colocando pessoas que não querem participar da Purgação sendo pegas no fogo cruzado e fazendo o possível para sobreviver à noite. Até mesmo questões morais levantadas aqui pelo roteiro lembram o que já vimos antes, com personagens pensando sobre os atos de violência que cometem (ou querem cometer) e como estes não os tornam diferentes dos bandidos que os fizeram sofrer. Sendo assim, em termos criativos, é inevitável sentir que a história é mais do mesmo no que diz respeito à fórmula que a série vem construindo para si mesma. De qualquer forma, não deixa de ser curioso ver como o roteiro mostra a facilidade que algumas pessoas têm para usarem a violência e o ódio para se livrarem de colegas de espécie que, para elas, representam um problema para o mundo onde vivem.

Enquanto desenvolve essas questões, James DeMonaco se esforça para criar um thriller minimamente envolvente, e mesmo que em determinados momentos ele aposte em dar sustos baratos no público, com ameaças surgindo repentinamente na frente dos personagens, o realizador consegue criar eficientes momentos de tensão, merecendo destaque cenas como aquela em que o mercado de Joe corre risco de ser invadido e a outra que se passa em uma igreja. Aliás, se cenas como essas funcionam, isso se deve principalmente porque o roteiro e o elenco conseguem fazer com que nos importemos com os personagens. Elizabeth Mitchell, em especial, chama atenção ao fazer de Charlie Roan a bússola moral do projeto, sendo a única que não comete atos de violência ao longo da história (e não é à toa que ela aparece vestida de branco na maior parte do tempo, o que deixa clara sua natureza pacifista).

Pontualmente inserindo frases de efeitos bobas (“Pequeña Muerte está de volta, vadias”) e exagerando muito nas caricaturas que desenvolve (os religiosos do terceiro ato mais causam risos do que assustam), 12 Horas Para Sobreviver é um filme que tem alguns bons pontos que validam os esforços de James DeMonaco, ainda que no fim o resultado não chegue a ser particularmente marcante.

Nota: