quinta-feira, 27 de julho de 2023

Barbie vs. Oppenheimer: O Fenômeno Barbenheimer

Acho que fazia algum tempo desde a última vez que dois filmes assumiram o protagonismo em uma semana de estreia como está ocorrendo com Barbie e Oppenheimer, duas obras totalmente diferentes e que, em qualquer outro momento, possivelmente estreariam com certa distância uma da outra, a fim de não prejudicar seus respectivos resultados de bilheteria. Mas “Barbenheimer” (como esse evento está sendo chamado) acabou fazendo bem para ambos os filmes, possivelmente dando-lhes muito mais atenção do que receberiam normalmente. E apesar do título deste texto apontar para algum tipo de disputa ou comparação, não é isso que pretendo fazer. Até porque os dois filmes me agradaram imensamente e por virtudes completamente diferentes.

Começarei por Oppenheimer porque foi o primeiro que consegui assistir. O longa é um retorno a boa forma para Christopher Nolan, um diretor que admiro, mas que escorregou em sua última empreitada, o medíocre e aborrecido Tenet. No filme, Nolan acompanha a vida de J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) a partir de duas linhas narrativas: a primeira (em cores) acompanha o protagonista de forma mais subjetiva, seguindo desde seus passos iniciais como físico até a liderança que exerceu no Projeto Manhattan e na criação da bomba atômica, enquanto a segunda (em preto e branco) se passa em meio a Guerra Fria e mostra as divergências que Oppenheimer veio a ter em relação ao uso da arma e os julgamentos aos quais foi submetido, algo que também é mostrado pelo ponto de vista de outros personagens, em especial Lewis Strauss (Robert Downey Jr.), membro do Comitê de Energia Atômica.

Christopher Nolan faz uma cinebiografia que mostra riqueza não só na figura de Robert Oppenheimer, mas também em todas as discussões morais e políticas que a criação e o uso da bomba atômica vieram a trazer para muito além do contexto que todos viviam. Não são discussões que o roteiro traz superficialmente ou martelando respostas fáceis, com Nolan desenvolvendo tudo com inteligência e colocando em xeque até mesmo intenções que podem parecer boas em teoria (“Não sei se nós somos confiáveis com tal arma. Mas sei que os nazistas não são”, diz o protagonista em determinado momento), mas que no fundo não deixam de abrir portas para o caos. Para completar, a narrativa concebida por Nolan é muito consistente, intercalando muito bem os dois pontos da história, de forma que o espectador nunca fica confuso com o desenrolar dos acontecimentos ao mesmo tempo em que o cineasta gera tensão a partir de diversas situações, e nisso é preciso aplaudir também tanto o trabalho da montadora Jennifer Lame quanto a trilha composta por Ludwig Göransson.


Mas seria impossível falar de Oppenheimer sem mencionar o trabalho absolutamente brilhante de Cillian Murphy, que consegue projetar desde a confiança e o narcisismo do personagem-título até a angústia que ele passa a sentir em relação ao que construiu (e seguindo a subjetividade da narrativa, vale dizer que o filme não tenta diminuir a responsabilidade do sujeito nas tragédias de Hiroshima e Nagazaki). Além disso, Murphy ainda conta com um elenco de apoio fabuloso, de forma que se eu for mencionar todo mundo esse texto não irá acabar. Por isso destacarei apenas dois nomes: Emily Blunt e Robert Downey Jr. No papel de Kitty Oppenheimer, esposa do protagonista, Blunt cria uma personagem resiliente e que muitas vezes demonstra ter mais força do que o próprio marido, ao passo que Downey Jr. faz de Lewis Strauss um homem cuja influência política rivaliza com sua aparente inveja e insegurança, o que o torna uma versão de Antonio Salieri frente ao Mozart representado por Robert Oppenheimer (lembrando a obra-prima Amadeus).

Barbie... Bem, adaptando um pouco uma fala de Anton Ego (o maravilhoso crítico de Ratatouille), o filme fez eu pensar que “nem toda obra pode ser excelente, mas uma excelente obra pode vir de qualquer lugar”. Digo isso porque não é particularmente comum ver uma produção baseada numa linha de brinquedos ter tanto a dizer, e se isso ocorre em Barbie acho que Greta Gerwig é a maior responsável. No longa, Barbie (vivida por Margot Robbie) é uma figura que tem uma vida perfeita na Barbielândia ao lado de suas amigas Barbies e vários Kens (o principal deles sendo vivido por Ryan Gosling). E o roteiro coescrito por Gerwig e Noah Baumbach começa a encontrar sua razão de ser quando a personagem-título se vê diante de uma crise existencial, precisando vir com Ken até o nosso mundo a fim de resolver o problema, que parece apenas piorar quando ela se depara com uma realidade essencialmente patriarcal, o oposto da Barbielândia.

Acho que a melhor forma que encontrei para descrever Barbie é que se trata de uma obra muito consciente. Consciente de suas origens, de seu contexto e que sabe trabalhar esses aspectos inteligentemente. O roteiro de Gerwig e Baumbach não tem medo de apontar o dedo para a própria boneca Barbie (e para a Mattel, empresa que a produz) e questionar o quanto ela contribuiu para o desenvolvimento de padrões que até podem se encaixar em uma Barbielândia, mas soam como mentiras no mundo real quando olhamos a desigualdade enfrentada pela parcela feminina da sociedade. Nesse sentido, é impossível não destacar o discurso feito em determinado momento por Gloria (interpretada pela ótima America Ferrera), palavras que além de cumprirem uma função bacana na história ainda escancaram a visão que a sociedade frequentemente tem e impõe às mulheres. E por apresentar dois universos distintos, o filme chama atenção quanto aos paralelos entre eles (principalmente na inversão de papeis na Barbielândia, onde as Barbies reinam e se apoiam enquanto os Kens ou tem pouco espaço, ou não tem tanto valor ou vivem em função das Barbies) e o quanto um é capaz de influenciar o outro, sem falar que Greta Gerwig ainda cria um contraste visual e físico entre os dois mundos que é muito apropriado.


São ideias muito ricas e que vêm embaladas num pacote de fantasia e comédia que envolve o espectador do início ao fim, seja pelas piadas divertidíssimas, pela direção ágil de Gerwig ou pelo elenco encantador liderado por Margot Robbie e Ryan Gosling. Aliás, enquanto Robbie gradualmente imprime personalidade a Barbie, conseguindo ressaltar a humanidade da personagem em cada passo e em cada dúvida que surge ao longo de sua jornada, Gosling usa a falta de personalidade de Ken como um fio condutor do personagem, que assim se torna um receptáculo de imposições patriarcais que mascaram sua insegurança. E ambos os intérpretes surgem em cena repletos de carisma e exibindo um timing cômico impecável.

De um lado, uma grandiosa (em vários sentidos) cinebiografia realizada por um diretor já muito bem estabelecido como um grande nome. Do outro, uma obra surpreendente e prazerosa que mostra que Greta Gerwig é uma cineasta cada vez mais interessante. E enquanto o cinema como indústria agradece o sucesso de ambos os trabalhos, creio que podemos dizer que o espectador também sai feliz por ver que a sessão dupla de “Barbenheimer” no fim das contas envolve dois dos melhores filmes de 2023.

Nota (para os dois filmes):



quarta-feira, 12 de julho de 2023

Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte Um

Relendo críticas que escrevi anos atrás sobre filmes de Missão Impossível, uma coisa que sempre aponto é a minha surpresa de ver como a consistência da série segue firme mesmo depois de tantos anos. É uma franquia admirável na qual Tom Cruise e sua equipe parecem sempre determinados a tentar fazer um capítulo superar o outro. E em meio a esses esforços, o longa mais recente, Efeito Fallout, se mostrou uma obra-prima difícil de ser superada dentro da franquia, mas isso não impede Cruise de tentar. E o resultado é essa primeira parte de Missão Impossível: Acerto de Contas, que não chega a igualar o capítulo anterior, mas ainda assim é uma obra que impressiona em vários momentos.

Escrito por Erik Jendrensen e pelo diretor Christopher McQuarrie, Acerto de Contas – Parte Um coloca Ethan Hunt (Cruise) precisando recuperar as duas metades de uma chave. Mas claro que isso não é tão fácil quanto parece, já que o objeto dá acesso a uma inteligência artificial chamada de A Entidade, que atrai o interesse de muitas pessoas e cujo poder pode colocar em risco o mundo inteiro (detalhe que o roteiro aponta frequentemente, naquele que talvez seja seu maior problema). Tendo esse perigo em mente, Hunt decide se rebelar novamente contra a IMF a fim de tentar destruir A Entidade, o que o coloca no caminho de Gabriel (Esai Morales), um antigo e misterioso colega que tem interesse em controlar a inteligência artificial. No processo, Hunt ainda bate de frente com Grace (Hayley Atwell), uma ladra que mal sabe onde está se metendo. E claro que a única ajuda que o sujeito tem para realizar a missão é a de seus fiéis aliados Luther Stickel (Ving Rhames), Benji Dunn (Simon Pegg) e Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).


É uma história típica de Missão Impossível, com vários elementos que são de praxe na franquia e que podem apontar que ela talvez não funcione de outra forma, precisando sempre colocar o protagonista e sua equipe na posição de renegados que devem realizar uma missão que sempre parece próxima de dar errado (e que envolve um objeto que pode ser perigoso se cair nas mãos erradas). É tão comum que até os personagens já reconhecem como todas essas coisas parecem ser parte integral de suas rotinas. Mas é preciso dizer que, apesar da fórmula ser facilmente reconhecível, Christopher McQuarrie (o diretor mais longevo na franquia, o que faz eu pensar que Tom Cruise encontrou um cineasta tão maluco quanto ele) consegue fazer com que tudo tenha algum frescor e que o espectador fique na ponta da cadeira, seja pela tensão ou pela mera curiosidade de ver se os personagens conseguirão fazer o que planejam.

Muito disso se deve ainda a ameaça escolhida para essa missão. E não me refiro a personagens humanos, apesar de estes também renderem uma bela dor de cabeça para o protagonista, mas sim à A Entidade. Além de mostrar um timing preciso por parte dos realizadores (considerando as várias discussões que têm surgido ultimamente quanto ao uso desse tipo de tecnologia), a inteligência artificial enfrentada por Hunt e sua equipe dá início a um jogo de gato e rato que tem um bom grau de imprevisibilidade, já que o algoritmo da Entidade sempre parece estar muitos passos à frente do protagonista, consequentemente aumentando os riscos da missão e a tensão provocada pela narrativa. Como se não bastasse, a presença do ótimo Esai Morales como Gabriel, o principal vilão humano da história, funciona muito por conta de ele ser o mais próximo de uma representação da Entidade, ficando sempre por dentro do que é calculado pelo algoritmo e soando mais perigoso por conta disso.

Mas talvez as ameaças não fossem tão eficazes caso não nos importássemos com os personagens, o que sempre ocorreu na franquia e em Acerto de Contas – Parte Um não é diferente. Aliás, uma das coisas mais perceptíveis ao longo da série Missão Impossível é como Ethan Hunt cria laços cada vez mais fortes com sua equipe, a ponto de a partir do quinto filme ele poder dizer que tem um grupo de amigos com os quais se importa (e vice-versa). E a base emocional da narrativa desse sétimo exemplar reside principalmente na dinâmica que ele constrói com os talentosos Simon Pegg, Ving Rhames e Rebecca Ferguson, cujos ótimos personagens frequentemente são usados para ressaltar a humanidade do protagonista e manter os pés dele no chão enquanto tenta salvar o mundo.

Todos esses elementos ajudam a fazer com que a narrativa envolva o espectador enquanto as sequências de ação são costuradas umas nas outras pela trama, sequências estas que mais uma vez são conduzidas com competência por Christopher McQuarrie, que vem mostrando ser um diretor de ação muito confiável (vide não só Missão Impossível, mas também o primeiro Jack Reacher). McQuarrie concebe sequências cuja escala vai aumentando gradualmente durante o filme, formando uma estrutura em que o ritmo da narrativa segue uma crescente até chegar em seu ápice no terceiro ato, quando o diretor e Tom Cruise decidem deixar a sanidade de lado. Esse ritmo também merece ser creditado a ótima montagem de Eddie Hamilton, que ainda faz um trabalho notável em momentos em que precisa intercalar ações que ocorrem ao mesmo tempo, o que contribui com a tensão do filme, como pode ser visto por exemplo na sequência situada no aeroporto de Abu Dhabi.

Se juntando a Homem-Aranha Através do Aranhaverso no grupo de filmes de 2023 que se apresentam como a primeira parte de uma história, mas que sabe encerrar seu arco narrativo concluindo os pontos que precisa e criando uma curiosidade natural quanto a vindoura continuação, Missão Impossível: Acerto de Contas – Parte Um mantém o alto nível de uma franquia que parece não cansar de empolgar o público.

Nota:



quarta-feira, 7 de junho de 2023

Transformers: O Despertar das Feras

Quem me acompanha há algum tempo deve saber que não vejo Transformers como uma franquia particularmente agradável. Mas ela mostrou ser capaz de render um filme simpático e divertido quando a prequel Bumblebee foi lançada em 2018, que curiosamente marcou a primeira vez que um longa da linha de brinquedos da Hasbro não foi comandado por Michael Bay. E a franquia resolve manter a diversidade por trás das câmeras neste Transformers: O Despertar das Feras, continuação de Bumblebee e que coloca a direção nas mãos de Steven Caple Jr. (de Creed II). E o resultado até que é satisfatório.

O Despertar das Feras se passa em 1994, quando o jovem Noah Diaz (Anthony Ramos) vive dificuldades com sua família e, em uma tentativa desesperada para ganhar dinheiro, acaba tendo contato com Mirage (voz de Pete Davidson), um dos Autobots liderados por Optimus Prime (voz de Peter Cullen). Junto com a pesquisadora Elena Wallace (Dominique Fishback), Noah acaba sugado para o conflito dos Autobots, passando a ajuda-los a recuperar uma chave que pode salvar o planeta deles. No caminho, eles têm que enfrentar os Terrorcons liderados por Scourge (voz de Peter Dinklage) e contam com o auxílio dos Maximals, que basicamente são Transformers que tomam a forma de animais ao invés de veículos.


Na maior parte do tempo, O Despertar das Feras não parece tão disposto a trazer frescor a série. Ao longo da projeção, nos deparamos com coisas que já estão mais do que batidas no universo desses filmes, desde ver novas espécies de Transformers serem apresentadas (sendo que não há nada que realmente as diferencie de outras que já vimos, tirando as formas que elas assumem), passando pela relação entre os personagens humanos e os robôs e chegando finalmente a própria base da trama. Afinal, esta não é a primeira vez que vemos pessoas ajudando os Autobots a recuperar um artefato que pode ajuda-los. Além disso, os diálogos expositivos que surgem com alguma frequência se intercalam com outros mais bestas (“Se vamos morrer, vamos morrer lutando como um só”).


Mas isso não impede o filme de divertir e até mesmo envolver minimamente o espectador. A introdução de Mirage, por exemplo, é muito bem-vinda, com o jeito mais irreverente do personagem rendendo bons risos, o que vale também para a dinâmica entre ele e Noah. Este, por sua vez, é interpretado com carisma e segurança por Anthony Ramos, exibindo muito mais personalidade que outros protagonistas que a franquia já teve (me refiro basicamente a Shia LaBeouf e Mark Wahlberg). E é bacana ver Steven Caple Jr. em determinados momentos se concentrar em questões mais pessoais dos personagens, principalmente no que diz respeito a relação de Noah com o irmão mais novo Kris (Dean Scott Vasquez), detalhes que ajudam o espectador a simpatizar com eles. Para completar, Caple Jr. conduz com competência as sequências de ação, lidando bem com a escala grandiosa dos combates sem criar uma confusão visual como Michael Bay tanto gosta de fazer, merecendo destaque a grande batalha que ocorre no terceiro ato. Mas é preciso dizer que o diretor nada pode fazer nos momentos em que certos personagens estão em perigo ou prestes a se sacrificarem, já que o próprio fato de O Despertar das Feras ser uma prequel impede que acreditemos que o destino daquelas figuras está realmente em jogo.

O Despertar das Feras não chega a ter a doçura e o coração de Bumblebee, mas ainda é uma obra que funciona bem como entretenimento, além de até deixar alguma curiosidade para continuações. E isso já representa uma evolução considerando o baixo nível apresentado pela franquia até pouco tempo atrás.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 1 de junho de 2023

Muito Obrigado, Ted Lasso!

(O texto a seguir não contém spoilers)

Não é exatamente comum eu me sentir em dívida com algum filme ou série de TV. Mas me sinto em dívida com Ted Lasso. Ao longo dos últimos três anos, em nenhum momento eu sentei em frente ao computador para escrever um texto sobre essa série, que acompanhei de maneira fiel desde seu lançamento. Mas tendo a série chegado ao fim nessa semana, creio ser apropriado usar o momento para cobrir essa dívida.

Ted Lasso começou como uma série engraçada sobre um técnico de futebol americano que praticamente cai de paraquedas no AFC Richmond, um clube fictício da Premier League (como é conhecida a primeira divisão do campeonato inglês). E seguiu sempre divertindo dentro dessa ideia. Mas creio que fui pego de surpresa com o quanto a série se revelou profundamente encantadora.

Com uma visão de mundo que mistura um pouco de otimismo, ingenuidade, humildade e doçura, o personagem-título (interpretado por Jason Sudeikis, que certamente encontrou aqui um papel que definirá sua carreira) facilmente conquista as pessoas ao seu redor e o espectador, sendo que tal visão de mundo não deixa de estabelecer os principais pontos da série em si. E a partir desses pontos, vemos a história e sua gama de personagens serem preenchidos de humanidade. Consequentemente, cada episódio no universo de Ted Lasso se revelou uma dose saborosa de chocolate quente, capaz de aquecer o coração e nos ajudar a escapar por alguns minutos dos nossos próprios problemas.

Até por conta disso a série não deixa de parecer uma utopia, algo que eu poderia ter concluído mais cedo, mas só fui refletir sobre isso nessa terceira e última temporada. E creio que esse é outro motivo para ela ter se mostrado tão agradável. Digo “utopia” não tanto pelo otimismo da série e de seu protagonista, mas porque na vida real falar de saúde mental ainda é um tabu. Digo “utopia” porque, olhando notícias recentes, o mundo do futebol pouco faz para combater coisas como racismo e homofobia. “Utopia” porque é comum vermos clubes serem patrocinados por marcas ou pessoas que violam direitos humanos. “Utopia” porque a série tocou em elementos como esses como se colocasse o dedo nas feridas, fazendo seus personagens refletirem e darem respostas sensatas sobre tais assuntos como raramente (para não dizer nunca) vemos na vida real, o que meio que fez o AFC Richmond ser um clube que eu gostaria que realmente existisse.

Essa última temporada de Ted Lasso certamente deixou a desejar em comparação com as anteriores (principalmente a segunda temporada). Tropeçou em subtramas e personagens não tão interessantes e mais de uma vez recorreu a resoluções fáceis. Mas apesar de não terminar numa nota tão alta, seu fim ainda foi digno, e os sentimentos doces que ela gerou ao longo das três temporadas são infinitamente mais fortes do que qualquer dose amarga que tenha surgido no caminho.

E por gerar esses bons sentimentos, digo apenas... Muito obrigado, Ted Lasso. Sentirei sua falta.


sábado, 22 de abril de 2023

Ghosted: Sem Resposta

Chris Evans e Ana de Armas são intérpretes que acho muito carismáticos. Não é à toa que ambos se tornaram bastante populares nos últimos anos. No entanto, há filmes onde infelizmente não importa o quão carismáticos os astros sejam, já que o material é tão pouco inspirado que nem mesmo eles são capazes de salvar. Exemplo disso é este Ghosted, novo longa produzido pela Apple para seu serviço de streaming e que já é o terceiro filme estrelado por Evans e de Armas (depois do excelente Entre Facas e Segredos e do fraco Agente Oculto).

Escrito por Rhett Reese e Paul Wernick em parceria com Chris McKenna e Erik Sommers, Ghosted traz sua dupla de protagonistas interpretando Cole e Sadie. Ele é um cara legal e inocente que trabalha ajudando seus pais na fazenda da família. Já ela é uma agente da CIA. Logo ao se conhecerem eles têm o melhor encontro romântico possível, mas claro que Sadie não conta a verdade sobre seu trabalho. E depois de um breve período sem ter qualquer tipo de retorno e desconfiando que foi deixado no vácuo (ou “ghosted”), o rapaz resolve ir atrás da amada, a ponto de atravessar o oceano até Londres para fazer uma surpresa (como qualquer ser humano normal faz depois de um único encontro, certo?). É onde ele descobre a real profissão de Sadie, que está no meio de uma missão em que precisa recuperar uma poderosa arma biológica. E Cole é arrastado para dentro da situação.

E então passamos a acompanhar uma comédia romântica de ação que parece não fazer nenhum esforço para driblar os clichês desses gêneros, com os protagonistas durante grande parte do tempo sendo o clássico “casal que se odeia, mas ama” em meio a missão para salvar o mundo de uma arma perigosa, que está nas mãos de um vilão unidimensional (e que Adrien Brody encarna como uma caricatura ambulante). Talvez clichês como esses não incomodassem tanto caso houvessem pontos interessantes que equilibrassem um pouco a narrativa. Mas a verdade é que Ghosted não tem nada de muito valoroso durante suas quase duas horas de duração. Chris Evans e Ana de Armas, por exemplo, se veem interpretando personagens aborrecidos e que chegam a irritar, um com sua falta de noção devido a carência e a outra com a dificuldade de se conectar com outras pessoas (outro clichê mais do que batido), detalhes que fazem as brigas entre eles serem dignas de revirar os olhos tamanha chatice.

Dessa forma, o diretor Dexter Fletcher (que havia se saído bem no adorável Voando Alto e na cinebiografia Rocketman) não consegue impedir que a narrativa se desenrole de maneira formuláica e previsível. Além disso, as cenas de ação se revelam muito burocráticas, o que talvez denote a inexperiência do cineasta com o gênero, vindo a culminar em um terceiro ato que se esforça até demais para ser grandioso, mas que acaba sendo apenas uma bagunça. O “melhor” momento nesse quesito talvez seja a primeira sequência de ação do filme, onde vemos uma longa perseguição envolvendo um ônibus, mas mesmo esta não empolga ou tem alguma graça.

Trazendo ainda rostos conhecidos do público em participações especiais que servem só para distrair o espectador, já que pouco ou nada contribuem para qualquer outra coisa na narrativa, Ghosted é um filme besta no pior sentido da palavra. Um trabalho pobre que só desperdiça seus simpáticos protagonistas.

Nota:



quarta-feira, 19 de abril de 2023

A Morte do Demônio: A Ascensão

Duvido que Sam Raimi, Bruce Campbell e toda a equipe do modesto e excepcional A Morte do Demônio imaginavam que, ao lançarem o filme em 1981, estariam iniciando uma franquia que ainda renderia frutos 42 anos depois. E ao longo desse período, é bacana notar como a franquia se mantém consistente e coesa mesmo passando por diversas mentes criativas e formatos (já tivemos série de TV e jogos de videogame, por exemplo), além de estar cada vez mais determinada a abraçar qualquer sanguinolência absurda de seu universo. São coisas que seguem firmes e fortes neste A Morte do Demônio: A Ascensão, o quinto filme da série.

Escrito e dirigido por Lee Cronin, A Ascensão inicia quando Beth (Lily Sullivan) vai visitar sua irmã, Ellie (Alyssa Sutherland), e os três filhos dela, Bridget, Danny e Kassie (Gabrielle Echols, Morgan Davies e Nell Fisher, respectivamente), que moram em um prédio que está literalmente caindo aos pedaços. Seria uma oportunidade perfeita para que todos tentassem lidar juntos com seus problemas pessoais. Mas tudo vira de cabeça para baixo quando o trio de irmãos encontra um volume do Livro dos Mortos nos confins do edifício, o que eventualmente acaba por libertar os demônios que passam a infernizar a vida da família.

Assim como o eficaz reboot dirigido por Fede Alvarez em 2013, A Ascensão não tem conexões com os capítulos anteriores da franquia, apresentando novos personagens e até mesmo uma nova localização, saindo de uma cabana isolada no meio da floresta e indo para um local mais urbano. Isso, porém, não impede Lee Cronin de criar uma atmosfera claustrofóbica, situando quase toda a narrativa dentro dos limites do prédio e agarrando quaisquer oportunidades para mostrar que os personagens não têm para onde fugir, o que contribui com a sensação de angustia gerada pelo desenrolar da trama. Mas muito dessa sensação se deve também porque Cronin sabiamente dedica o primeiro ato do filme para estabelecer Beth, Ellie e as crianças como figuras em uma situação vulnerável em suas vidas particulares e cujo carinho uns pelos outros é muito claro, o que facilita a identificação do público com eles e, consequentemente, dá mais peso para a tensão que passam a viver.


E quando a tensão começa, ela não para mais. Pontualmente, Lee Cronin até pode cair em sustos batidos, mas de modo geral ele exibe segurança na condução do terror que toma conta da história, criando momentos visualmente interessantes como a sequência que vemos através do olho mágico de uma porta. Mas o diretor se sai ainda melhor ao investir no alto grau de violência, uma das marcas registradas da série e que volta a render cenas divertidamente aflitivas ou de puro banho de sangue. O terceiro ato acaba sendo o grande destaque nesse sentido, chegando até a fazer referência a O Iluminado (por sinal, o clássico de Stanley Kubrick certamente serviu de inspiração para o filme). Mas é preciso apontar que A Ascensão causa arrepios mesmo quando a violência parte de coisas banais, e aqui devo admitir que um brevíssimo momento envolvendo um ralador dificilmente sairá da minha cabeça tão cedo.

A Morte do Demônio: A Ascensão já mereceria créditos por sua eficácia como filme de terror. Mas também acaba sendo interessante ver o longa conseguir injetar uma boa dose de frescor a uma franquia tão longeva, algo que por tabela não deixa de ressaltar o rico potencial do material que Sam Raimi e seus amigos conceberam há quatro décadas.

Nota:



quarta-feira, 29 de março de 2023

O Urso do Pó Branco

Arte é uma produção imaginativa por natureza. Um processo criativo que nos permite dar vida a qualquer história, sentimento ou ideia na esperança de nos conectarmos com outros seres humanos. É também o que permite que um filme como O Urso do Pó Branco pegue uma história real e a transforme em algo majoritariamente ficcional. Afinal, se a diretora Elizabeth Banks contasse a história do urso do título exatamente como se desenrolou, o filme na verdade não teria muito o que contar, tendo o animal consumido cocaína e morrido pouco tempo depois. Mas ao imaginar esse urso causando terror e deixando rastros de sangue por onde passa, Banks ganha uma premissa bem mais chamativa. É uma pena, porém, que tal imaginação não renda um filme dos mais eficazes.

Escrito por Jimmy Warden, O Urso do Pó Branco nos leva até 1985, quando uma grande remessa de cocaína cai nas florestas do estado da Geórgia. Ali, um grande urso acaba encontrando e consumindo grandes quantidades da droga, ficando absolutamente surtado e agressivo, o que o torna uma ameaça a qualquer um que surja em seu caminho. Enquanto isso, a enfermeira Sari (Keri Russell) entra na floresta à procura de sua filha Dee Dee (Brooklynn Prince) e o amigo dela Henry (Christian Convery), ao passo que a dupla Eddie e Daveed (Alden Ehrenreich e O’Shea Jackson Jr., respectivamente) tenta recuperar a cocaína, que pertence ao chefão do crime Syd (o saudoso Ray Liotta). E ninguém imagina que um urso “doidão” está à espreita.


É normal que uma premissa como essa não almeje se levar a sério, buscando ter o espírito de um filme B que mistura terror e comédia. É algo que Elizabeth Banks (em seu terceiro longa na cadeira de direção, depois do divertido A Escolha Perfeita 2 e o mediano reboot de As Panteras) trata de estabelecer já na primeira cena, trazendo um contrabandista (vivido por Matthew Rhys) despachando a cocaína de seu avião de maneira infantil e, logo em seguida, tendo um fim absolutamente patético. Mas mesmo tendo um senso de humor que pontualmente apresenta momentos engraçados como essa cena inicial, o filme na maior parte do tempo não consegue fazer tanta graça quando deseja, soando apenas bobo e colocando no meio disso personagens que ou são puramente caricatos ou puramente unidimensionais, o que os torna desinteressantes seja como obstáculos, seja como alimentos para o urso. E o elenco cheio de nomes talentosos pouco pode fazer para contornar isso.


Aliás, as cenas que trazem pessoas sendo atacadas pelo urso claramente são tratadas por Elizabeth Banks como uma espécie de carro-chefe do filme, mas nem mesmo elas impressionam. Isso porque além de ser difícil se importar com o que ocorre na tela, tais cenas ainda são realizadas de forma bastante burocrática, ficando longe de chocar o espectador com o que o urso é capaz de fazer com suas vítimas, e o fato de a sanguinolência (ou ao menos boa parte dela) ser feita através de computação gráfica também não contribui muito para que esses momentos tenham alguma relevância.

O Urso do Pó Branco até pode ser uma obra consciente da própria bobagem que representa, mas quem dera isso fosse suficiente para sustentar sua narrativa. Ou ao menos para tornar a graça do filme um pouco mais memorável.

Nota: