quarta-feira, 7 de junho de 2023

Transformers: O Despertar das Feras

Quem me acompanha há algum tempo deve saber que não vejo Transformers como uma franquia particularmente agradável. Mas ela mostrou ser capaz de render um filme simpático e divertido quando a prequel Bumblebee foi lançada em 2018, que curiosamente marcou a primeira vez que um longa da linha de brinquedos da Hasbro não foi comandado por Michael Bay. E a franquia resolve manter a diversidade por trás das câmeras neste Transformers: O Despertar das Feras, continuação de Bumblebee e que coloca a direção nas mãos de Steven Caple Jr. (de Creed II). E o resultado até que é satisfatório.

O Despertar das Feras se passa em 1994, quando o jovem Noah Diaz (Anthony Ramos) vive dificuldades com sua família e, em uma tentativa desesperada para ganhar dinheiro, acaba tendo contato com Mirage (voz de Pete Davidson), um dos Autobots liderados por Optimus Prime (voz de Peter Cullen). Junto com a pesquisadora Elena Wallace (Dominique Fishback), Noah acaba sugado para o conflito dos Autobots, passando a ajuda-los a recuperar uma chave que pode salvar o planeta deles. No caminho, eles têm que enfrentar os Terrorcons liderados por Scourge (voz de Peter Dinklage) e contam com o auxílio dos Maximals, que basicamente são Transformers que tomam a forma de animais ao invés de veículos.


Na maior parte do tempo, O Despertar das Feras não parece tão disposto a trazer frescor a série. Ao longo da projeção, nos deparamos com coisas que já estão mais do que batidas no universo desses filmes, desde ver novas espécies de Transformers serem apresentadas (sendo que não há nada que realmente as diferencie de outras que já vimos, tirando as formas que elas assumem), passando pela relação entre os personagens humanos e os robôs e chegando finalmente a própria base da trama. Afinal, esta não é a primeira vez que vemos pessoas ajudando os Autobots a recuperar um artefato que pode ajuda-los. Além disso, os diálogos expositivos que surgem com alguma frequência se intercalam com outros mais bestas (“Se vamos morrer, vamos morrer lutando como um só”).


Mas isso não impede o filme de divertir e até mesmo envolver minimamente o espectador. A introdução de Mirage, por exemplo, é muito bem-vinda, com o jeito mais irreverente do personagem rendendo bons risos, o que vale também para a dinâmica entre ele e Noah. Este, por sua vez, é interpretado com carisma e segurança por Anthony Ramos, exibindo muito mais personalidade que outros protagonistas que a franquia já teve (me refiro basicamente a Shia LaBeouf e Mark Wahlberg). E é bacana ver Steven Caple Jr. em determinados momentos se concentrar em questões mais pessoais dos personagens, principalmente no que diz respeito a relação de Noah com o irmão mais novo Kris (Dean Scott Vasquez), detalhes que ajudam o espectador a simpatizar com eles. Para completar, Caple Jr. conduz com competência as sequências de ação, lidando bem com a escala grandiosa dos combates sem criar uma confusão visual como Michael Bay tanto gosta de fazer, merecendo destaque a grande batalha que ocorre no terceiro ato. Mas é preciso dizer que o diretor nada pode fazer nos momentos em que certos personagens estão em perigo ou prestes a se sacrificarem, já que o próprio fato de O Despertar das Feras ser uma prequel impede que acreditemos que o destino daquelas figuras está realmente em jogo.

O Despertar das Feras não chega a ter a doçura e o coração de Bumblebee, mas ainda é uma obra que funciona bem como entretenimento, além de até deixar alguma curiosidade para continuações. E isso já representa uma evolução considerando o baixo nível apresentado pela franquia até pouco tempo atrás.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 1 de junho de 2023

Muito Obrigado, Ted Lasso!

(O texto a seguir não contém spoilers)

Não é exatamente comum eu me sentir em dívida com algum filme ou série de TV. Mas me sinto em dívida com Ted Lasso. Ao longo dos últimos três anos, em nenhum momento eu sentei em frente ao computador para escrever um texto sobre essa série, que acompanhei de maneira fiel desde seu lançamento. Mas tendo a série chegado ao fim nessa semana, creio ser apropriado usar o momento para cobrir essa dívida.

Ted Lasso começou como uma série engraçada sobre um técnico de futebol americano que praticamente cai de paraquedas no AFC Richmond, um clube fictício da Premier League (como é conhecida a primeira divisão do campeonato inglês). E seguiu sempre divertindo dentro dessa ideia. Mas creio que fui pego de surpresa com o quanto a série se revelou profundamente encantadora.

Com uma visão de mundo que mistura um pouco de otimismo, ingenuidade, humildade e doçura, o personagem-título (interpretado por Jason Sudeikis, que certamente encontrou aqui um papel que definirá sua carreira) facilmente conquista as pessoas ao seu redor e o espectador, sendo que tal visão de mundo não deixa de estabelecer os principais pontos da série em si. E a partir desses pontos, vemos a história e sua gama de personagens serem preenchidos de humanidade. Consequentemente, cada episódio no universo de Ted Lasso se revelou uma dose saborosa de chocolate quente, capaz de aquecer o coração e nos ajudar a escapar por alguns minutos dos nossos próprios problemas.

Até por conta disso a série não deixa de parecer uma utopia, algo que eu poderia ter concluído mais cedo, mas só fui refletir sobre isso nessa terceira e última temporada. E creio que esse é outro motivo para ela ter se mostrado tão agradável. Digo “utopia” não tanto pelo otimismo da série e de seu protagonista, mas porque na vida real falar de saúde mental ainda é um tabu. Digo “utopia” porque, olhando notícias recentes, o mundo do futebol pouco faz para combater coisas como racismo e homofobia. “Utopia” porque é comum vermos clubes serem patrocinados por marcas ou pessoas que violam direitos humanos. “Utopia” porque a série tocou em elementos como esses como se colocasse o dedo nas feridas, fazendo seus personagens refletirem e darem respostas sensatas sobre tais assuntos como raramente (para não dizer nunca) vemos na vida real, o que meio que fez o AFC Richmond ser um clube que eu gostaria que realmente existisse.

Essa última temporada de Ted Lasso certamente deixou a desejar em comparação com as anteriores (principalmente a segunda temporada). Tropeçou em subtramas e personagens não tão interessantes e mais de uma vez recorreu a resoluções fáceis. Mas apesar de não terminar numa nota tão alta, seu fim ainda foi digno, e os sentimentos doces que ela gerou ao longo das três temporadas são infinitamente mais fortes do que qualquer dose amarga que tenha surgido no caminho.

E por gerar esses bons sentimentos, digo apenas... Muito obrigado, Ted Lasso. Sentirei sua falta.


sábado, 22 de abril de 2023

Ghosted: Sem Resposta

Chris Evans e Ana de Armas são intérpretes que acho muito carismáticos. Não é à toa que ambos se tornaram bastante populares nos últimos anos. No entanto, há filmes onde infelizmente não importa o quão carismáticos os astros sejam, já que o material é tão pouco inspirado que nem mesmo eles são capazes de salvar. Exemplo disso é este Ghosted, novo longa produzido pela Apple para seu serviço de streaming e que já é o terceiro filme estrelado por Evans e de Armas (depois do excelente Entre Facas e Segredos e do fraco Agente Oculto).

Escrito por Rhett Reese e Paul Wernick em parceria com Chris McKenna e Erik Sommers, Ghosted traz sua dupla de protagonistas interpretando Cole e Sadie. Ele é um cara legal e inocente que trabalha ajudando seus pais na fazenda da família. Já ela é uma agente da CIA. Logo ao se conhecerem eles têm o melhor encontro romântico possível, mas claro que Sadie não conta a verdade sobre seu trabalho. E depois de um breve período sem ter qualquer tipo de retorno e desconfiando que foi deixado no vácuo (ou “ghosted”), o rapaz resolve ir atrás da amada, a ponto de atravessar o oceano até Londres para fazer uma surpresa (como qualquer ser humano normal faz depois de um único encontro, certo?). É onde ele descobre a real profissão de Sadie, que está no meio de uma missão em que precisa recuperar uma poderosa arma biológica. E Cole é arrastado para dentro da situação.

E então passamos a acompanhar uma comédia romântica de ação que parece não fazer nenhum esforço para driblar os clichês desses gêneros, com os protagonistas durante grande parte do tempo sendo o clássico “casal que se odeia, mas ama” em meio a missão para salvar o mundo de uma arma perigosa, que está nas mãos de um vilão unidimensional (e que Adrien Brody encarna como uma caricatura ambulante). Talvez clichês como esses não incomodassem tanto caso houvessem pontos interessantes que equilibrassem um pouco a narrativa. Mas a verdade é que Ghosted não tem nada de muito valoroso durante suas quase duas horas de duração. Chris Evans e Ana de Armas, por exemplo, se veem interpretando personagens aborrecidos e que chegam a irritar, um com sua falta de noção devido a carência e a outra com a dificuldade de se conectar com outras pessoas (outro clichê mais do que batido), detalhes que fazem as brigas entre eles serem dignas de revirar os olhos tamanha chatice.

Dessa forma, o diretor Dexter Fletcher (que havia se saído bem no adorável Voando Alto e na cinebiografia Rocketman) não consegue impedir que a narrativa se desenrole de maneira formuláica e previsível. Além disso, as cenas de ação se revelam muito burocráticas, o que talvez denote a inexperiência do cineasta com o gênero, vindo a culminar em um terceiro ato que se esforça até demais para ser grandioso, mas que acaba sendo apenas uma bagunça. O “melhor” momento nesse quesito talvez seja a primeira sequência de ação do filme, onde vemos uma longa perseguição envolvendo um ônibus, mas mesmo esta não empolga ou tem alguma graça.

Trazendo ainda rostos conhecidos do público em participações especiais que servem só para distrair o espectador, já que pouco ou nada contribuem para qualquer outra coisa na narrativa, Ghosted é um filme besta no pior sentido da palavra. Um trabalho pobre que só desperdiça seus simpáticos protagonistas.

Nota:



quarta-feira, 19 de abril de 2023

A Morte do Demônio: A Ascensão

Duvido que Sam Raimi, Bruce Campbell e toda a equipe do modesto e excepcional A Morte do Demônio imaginavam que, ao lançarem o filme em 1981, estariam iniciando uma franquia que ainda renderia frutos 42 anos depois. E ao longo desse período, é bacana notar como a franquia se mantém consistente e coesa mesmo passando por diversas mentes criativas e formatos (já tivemos série de TV e jogos de videogame, por exemplo), além de estar cada vez mais determinada a abraçar qualquer sanguinolência absurda de seu universo. São coisas que seguem firmes e fortes neste A Morte do Demônio: A Ascensão, o quinto filme da série.

Escrito e dirigido por Lee Cronin, A Ascensão inicia quando Beth (Lily Sullivan) vai visitar sua irmã, Ellie (Alyssa Sutherland), e os três filhos dela, Bridget, Danny e Kassie (Gabrielle Echols, Morgan Davies e Nell Fisher, respectivamente), que moram em um prédio que está literalmente caindo aos pedaços. Seria uma oportunidade perfeita para que todos tentassem lidar juntos com seus problemas pessoais. Mas tudo vira de cabeça para baixo quando o trio de irmãos encontra um volume do Livro dos Mortos nos confins do edifício, o que eventualmente acaba por libertar os demônios que passam a infernizar a vida da família.

Assim como o eficaz reboot dirigido por Fede Alvarez em 2013, A Ascensão não tem conexões com os capítulos anteriores da franquia, apresentando novos personagens e até mesmo uma nova localização, saindo de uma cabana isolada no meio da floresta e indo para um local mais urbano. Isso, porém, não impede Lee Cronin de criar uma atmosfera claustrofóbica, situando quase toda a narrativa dentro dos limites do prédio e agarrando quaisquer oportunidades para mostrar que os personagens não têm para onde fugir, o que contribui com a sensação de angustia gerada pelo desenrolar da trama. Mas muito dessa sensação se deve também porque Cronin sabiamente dedica o primeiro ato do filme para estabelecer Beth, Ellie e as crianças como figuras em uma situação vulnerável em suas vidas particulares e cujo carinho uns pelos outros é muito claro, o que facilita a identificação do público com eles e, consequentemente, dá mais peso para a tensão que passam a viver.


E quando a tensão começa, ela não para mais. Pontualmente, Lee Cronin até pode cair em sustos batidos, mas de modo geral ele exibe segurança na condução do terror que toma conta da história, criando momentos visualmente interessantes como a sequência que vemos através do olho mágico de uma porta. Mas o diretor se sai ainda melhor ao investir no alto grau de violência, uma das marcas registradas da série e que volta a render cenas divertidamente aflitivas ou de puro banho de sangue. O terceiro ato acaba sendo o grande destaque nesse sentido, chegando até a fazer referência a O Iluminado (por sinal, o clássico de Stanley Kubrick certamente serviu de inspiração para o filme). Mas é preciso apontar que A Ascensão causa arrepios mesmo quando a violência parte de coisas banais, e aqui devo admitir que um brevíssimo momento envolvendo um ralador dificilmente sairá da minha cabeça tão cedo.

A Morte do Demônio: A Ascensão já mereceria créditos por sua eficácia como filme de terror. Mas também acaba sendo interessante ver o longa conseguir injetar uma boa dose de frescor a uma franquia tão longeva, algo que por tabela não deixa de ressaltar o rico potencial do material que Sam Raimi e seus amigos conceberam há quatro décadas.

Nota:



quarta-feira, 29 de março de 2023

O Urso do Pó Branco

Arte é uma produção imaginativa por natureza. Um processo criativo que nos permite dar vida a qualquer história, sentimento ou ideia na esperança de nos conectarmos com outros seres humanos. É também o que permite que um filme como O Urso do Pó Branco pegue uma história real e a transforme em algo majoritariamente ficcional. Afinal, se a diretora Elizabeth Banks contasse a história do urso do título exatamente como se desenrolou, o filme na verdade não teria muito o que contar, tendo o animal consumido cocaína e morrido pouco tempo depois. Mas ao imaginar esse urso causando terror e deixando rastros de sangue por onde passa, Banks ganha uma premissa bem mais chamativa. É uma pena, porém, que tal imaginação não renda um filme dos mais eficazes.

Escrito por Jimmy Warden, O Urso do Pó Branco nos leva até 1985, quando uma grande remessa de cocaína cai nas florestas do estado da Geórgia. Ali, um grande urso acaba encontrando e consumindo grandes quantidades da droga, ficando absolutamente surtado e agressivo, o que o torna uma ameaça a qualquer um que surja em seu caminho. Enquanto isso, a enfermeira Sari (Keri Russell) entra na floresta à procura de sua filha Dee Dee (Brooklynn Prince) e o amigo dela Henry (Christian Convery), ao passo que a dupla Eddie e Daveed (Alden Ehrenreich e O’Shea Jackson Jr., respectivamente) tenta recuperar a cocaína, que pertence ao chefão do crime Syd (o saudoso Ray Liotta). E ninguém imagina que um urso “doidão” está à espreita.


É normal que uma premissa como essa não almeje se levar a sério, buscando ter o espírito de um filme B que mistura terror e comédia. É algo que Elizabeth Banks (em seu terceiro longa na cadeira de direção, depois do divertido A Escolha Perfeita 2 e o mediano reboot de As Panteras) trata de estabelecer já na primeira cena, trazendo um contrabandista (vivido por Matthew Rhys) despachando a cocaína de seu avião de maneira infantil e, logo em seguida, tendo um fim absolutamente patético. Mas mesmo tendo um senso de humor que pontualmente apresenta momentos engraçados como essa cena inicial, o filme na maior parte do tempo não consegue fazer tanta graça quando deseja, soando apenas bobo e colocando no meio disso personagens que ou são puramente caricatos ou puramente unidimensionais, o que os torna desinteressantes seja como obstáculos, seja como alimentos para o urso. E o elenco cheio de nomes talentosos pouco pode fazer para contornar isso.


Aliás, as cenas que trazem pessoas sendo atacadas pelo urso claramente são tratadas por Elizabeth Banks como uma espécie de carro-chefe do filme, mas nem mesmo elas impressionam. Isso porque além de ser difícil se importar com o que ocorre na tela, tais cenas ainda são realizadas de forma bastante burocrática, ficando longe de chocar o espectador com o que o urso é capaz de fazer com suas vítimas, e o fato de a sanguinolência (ou ao menos boa parte dela) ser feita através de computação gráfica também não contribui muito para que esses momentos tenham alguma relevância.

O Urso do Pó Branco até pode ser uma obra consciente da própria bobagem que representa, mas quem dera isso fosse suficiente para sustentar sua narrativa. Ou ao menos para tornar a graça do filme um pouco mais memorável.

Nota:



terça-feira, 21 de março de 2023

John Wick 4: Baba Yaga

Toda ação tem uma consequência. Podemos dizer que essa ideia está no centro de todos os eventos que se desenrolam ao longo de toda a franquia John Wick. Eventos estes que não cansam de tomar proporções cada vez maiores até ficarem quase fora de controle. É até curioso lembrar que tudo começou com um assassino profissional se vingando daqueles que mataram seu cachorro e roubaram seu carro, e gradualmente vimos este mesmo assassino entrar em uma verdadeira guerra contra todo seu submundo do crime. E se os três primeiros exemplares estabeleceram John Wick como uma franquia de ação empolgante, este John Wick 4: Baba Yaga retoma essa empolgação e não a deixa cair em nenhum momento.

Escrito por Shay Hatten e Michael Finch, John Wick 4 tem uma trama bem simples, como é comum na série. Depois dos eventos do terceiro filme, o personagem-título (Keanu Reeves) quer se vingar da Alta Cúpula e ficar livre de uma vez por todas do submundo de assassinos profissionais. A Cúpula por sua vez é representada agora pela figura do Marquês Vincent de Gramont (Bill Skarsgård), que quer o fim de John Wick e não medirá esforços para destruir ele e qualquer um que o ajudar. Para alcançar tal objetivo, o Marquês convoca até mesmo Caine (Donnie Yen), um assassino cego e que é um velho amigo de Wick.


Apesar de simples, a trama não impede que o diretor Chad Stahelski construa um épico de ação com quase três horas de duração. Isso se deve principalmente porque Stahelski e sua equipe parecem se deliciar com toda possibilidade de expandir o universo de John Wick, apresentando novos personagens, regras e núcleos narrativos. E assim como foi em John Wick 2 e 3, é fascinante ver esse universo ganhar vida e se revelar cada vez maior. Neste quarto filme, porém, há determinados momentos em que a trama pode soar desnecessariamente longa, com os roteiristas apenas querendo colocar mais obstáculos no caminho do protagonista mesmo quando poderiam ser mais objetivos. Mas creio que tal inchaço na história deixa de ser um problema quando vemos que ele traz recompensas, com os obstáculos adicionados rendendo belas cenas de ação e apresentando personagens que chamam a atenção. Nesse sentido, destaco o Rastreador vivido por Shamier Anderson, que ao longo do filme mostra ter seus próprios interesses, e o chefe da cúpula alemã, Killa, vivido por um quase irreconhecível Scott Adkins, um dos mais interessantes astros de ação contemporâneos e que aqui tem uma rara oportunidade de criar um personagem que não é definido só por suas habilidades como artista marcial.


E já que mencionei as cenas de ação, é preciso dizer que Chad Stahelski com frequência passa a sensação de que uma é melhor que a outra. A exemplo do que fez nos filmes anteriores, o diretor investe não só na grande escala das lutas e tiroteios, mas também na variedade, de forma que esses momentos jamais soam repetitivos e trazem o elenco usando de tudo um pouco em meio ao quebra-pau, sejam armas de fogo, facas, espadas, carros ou nunchakus. Mas mais do que isso, Stahelski e o diretor de fotografia Dan Laustsen fazem com que a ação seja visualmente atrativa para o espectador, deixando a mise en scène sempre clara e por vezes investindo em planos longos que contemplam as ótimas coreografias dos atores, merecendo destaque a sequência filmada em um ângulo alto (plongée) e que acompanha John Wick eliminando seus adversários enquanto passa por várias salas. Aliás, por conta da intensidade da ação, os momentos em que John Wick 4 se concentra no desenvolvimento de seu universo e de seus personagens também servem como pausas para o espectador, que assim pode respirar um pouco antes de entrar na próxima grande sequência do filme, e o roteiro merece créditos por conseguir amarrar de maneira organizada toda essa ação à história e às motivações dos personagens.

Tendo em vista a alta regularidade da franquia, dizer que John Wick 4 é o melhor exemplar que ela apresentou até agora não quer dizer pouca coisa. O que Chad Stahelski, Keanu Reeves e companhia realizam aqui é um verdadeiro espetáculo de ação, sendo desde já uma das produções que merecem destaque nesse ano.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 2 de março de 2023

Creed III

Uma coisa que podemos notar tanto na série Rocky quando nesta série derivada Creed é que, mesmo focando seus respectivos filmes em protagonistas completamente diferentes um do outro, elas compartilham a ideia de fazer os personagens encararem conflitos que se revelam muito pessoais. Assim, quando o Rocky Balboa de Sylvester Stallone ou o Adonis Creed de Michael B. Jordan entram em um ringue, o embate físico que se desenrola acaba sendo muito maior do que uma mera troca de socos em uma arena lotada. Jordan mantém essa ideia como cerne neste Creed III, no qual o ator ainda assume a cadeira de diretor pela primeira vez na carreira.

Escrito por Keenan Coogler e Zach Baylin a partir do argumento concebido por eles e Ryan Coogler, Creed III traz Adonis Creed vivendo feliz e tranquilamente ao lado de Bianca (Tessa Thompson) e a filha Amara (Mila Davis-Kent). É então que Damian Anderson (Jonathan Majors), seu grande amigo de infância e adolescência e que costumava ser um boxeador de grande potencial, ressurge em sua vida após muitos anos na prisão. Isso acaba trazendo de volta antigas e profundas feridas que Adonis queria esquecer, mas que talvez só possam ser cicatrizadas no ringue.

Como podem ver, Rocky Balboa não faz parte da história, marcando a primeira vez que Sylvester Stallone não dá as caras no universo que criou. Mas isso se revela até um alívio, não só porque a história do personagem teve um final digno em Creed II, mas também porque possibilita que este spin-off corra com as próprias pernas, não sendo surpresa que isso ocorra com naturalidade ao longo de Creed III. Adonis, sua família e o núcleo que formam são interessantes, apresentando conflitos palpáveis e humanos, sendo mais do que o suficiente para sustentar a narrativa. Aliás, é bacana ver o roteiro adicionar novas camadas aos personagens, o que contribui até para dar mais peso dramático às histórias daquelas figuras.

As atuações do elenco também são essenciais para isso. É notável, por exemplo, como Michael B. Jordan encarna Adonis Creed com uma segurança ainda maior do que nos filmes anteriores, exibindo uma postura mais forte e decidida em cena, detalhes que pincelam apropriadamente a experiência que o boxeador adquiriu ao longo dos anos. Além disso, sua química com Tessa Thompson novamente cativa o espectador, com os personagens se abrindo um com o outro e soando mais humanos no processo. Thompson, aliás, mais uma vez consegue fazer de Bianca uma mulher que não fica apenas apoiando o protagonista, exibindo personalidade e tendo seus próprios sonhos e frustrações. Para completar, o talentoso Jonathan Majors se revela uma boa adição ao universo da franquia, fazendo de Damian uma figura que mantém o espectador desconfiado, o que consequentemente torna a dinâmica dele com Michael B. Jordan algo cheio de tensão, mesmo quando os personagens se tratam com respeito e cumplicidade.


Enquanto isso, Michael B. Jordan mostra talento também como diretor, dedicando um bom tempo para o desenvolvimento dos dramas dos personagens e conseguindo assim manter o espectador envolvido. Mas ele merece créditos principalmente por conceber cenas de luta que fazem coisas novas dentro da franquia, usando a costumeira câmera lenta tanto para dar impacto aos golpes desferidos quanto para apontar o conhecimento do protagonista, que parece notar oportunidades para nocautear os adversários. Mas o principal momento nesse quesito certamente é aquele que traz um ringue fechado por grades e em uma arena sem público, transmitindo com eficiência como os lutadores ali presentes encaram seu embate. Esses detalhes da direção de Jordan até compensam um pouco o fato de Creed III não trazer grandes surpresas com o desenrolar de sua história, que em alguns momentos ou repete coisas que já vimos em outros exemplares (seja em filmes de Rocky ou de Creed) ou é apenas previsível.

Creed III, em suma, mantém admiravelmente a consistência da franquia. E eu não reclamarei caso o filme seja o capítulo final dessa história, até por ele trazer em seus derradeiros segundos um plano que encanta não só pela beleza da imagem ali contida, mas também porque realmente serve como um belo fim para o arco de seu ótimo protagonista.

Nota: