sábado, 22 de abril de 2023

Ghosted: Sem Resposta

Chris Evans e Ana de Armas são intérpretes que acho muito carismáticos. Não é à toa que ambos se tornaram bastante populares nos últimos anos. No entanto, há filmes onde infelizmente não importa o quão carismáticos os astros sejam, já que o material é tão pouco inspirado que nem mesmo eles são capazes de salvar. Exemplo disso é este Ghosted, novo longa produzido pela Apple para seu serviço de streaming e que já é o terceiro filme estrelado por Evans e de Armas (depois do excelente Entre Facas e Segredos e do fraco Agente Oculto).

Escrito por Rhett Reese e Paul Wernick em parceria com Chris McKenna e Erik Sommers, Ghosted traz sua dupla de protagonistas interpretando Cole e Sadie. Ele é um cara legal e inocente que trabalha ajudando seus pais na fazenda da família. Já ela é uma agente da CIA. Logo ao se conhecerem eles têm o melhor encontro romântico possível, mas claro que Sadie não conta a verdade sobre seu trabalho. E depois de um breve período sem ter qualquer tipo de retorno e desconfiando que foi deixado no vácuo (ou “ghosted”), o rapaz resolve ir atrás da amada, a ponto de atravessar o oceano até Londres para fazer uma surpresa (como qualquer ser humano normal faz depois de um único encontro, certo?). É onde ele descobre a real profissão de Sadie, que está no meio de uma missão em que precisa recuperar uma poderosa arma biológica. E Cole é arrastado para dentro da situação.

E então passamos a acompanhar uma comédia romântica de ação que parece não fazer nenhum esforço para driblar os clichês desses gêneros, com os protagonistas durante grande parte do tempo sendo o clássico “casal que se odeia, mas ama” em meio a missão para salvar o mundo de uma arma perigosa, que está nas mãos de um vilão unidimensional (e que Adrien Brody encarna como uma caricatura ambulante). Talvez clichês como esses não incomodassem tanto caso houvessem pontos interessantes que equilibrassem um pouco a narrativa. Mas a verdade é que Ghosted não tem nada de muito valoroso durante suas quase duas horas de duração. Chris Evans e Ana de Armas, por exemplo, se veem interpretando personagens aborrecidos e que chegam a irritar, um com sua falta de noção devido a carência e a outra com a dificuldade de se conectar com outras pessoas (outro clichê mais do que batido), detalhes que fazem as brigas entre eles serem dignas de revirar os olhos tamanha chatice.

Dessa forma, o diretor Dexter Fletcher (que havia se saído bem no adorável Voando Alto e na cinebiografia Rocketman) não consegue impedir que a narrativa se desenrole de maneira formuláica e previsível. Além disso, as cenas de ação se revelam muito burocráticas, o que talvez denote a inexperiência do cineasta com o gênero, vindo a culminar em um terceiro ato que se esforça até demais para ser grandioso, mas que acaba sendo apenas uma bagunça. O “melhor” momento nesse quesito talvez seja a primeira sequência de ação do filme, onde vemos uma longa perseguição envolvendo um ônibus, mas mesmo esta não empolga ou tem alguma graça.

Trazendo ainda rostos conhecidos do público em participações especiais que servem só para distrair o espectador, já que pouco ou nada contribuem para qualquer outra coisa na narrativa, Ghosted é um filme besta no pior sentido da palavra. Um trabalho pobre que só desperdiça seus simpáticos protagonistas.

Nota:



quarta-feira, 19 de abril de 2023

A Morte do Demônio: A Ascensão

Duvido que Sam Raimi, Bruce Campbell e toda a equipe do modesto e excepcional A Morte do Demônio imaginavam que, ao lançarem o filme em 1981, estariam iniciando uma franquia que ainda renderia frutos 42 anos depois. E ao longo desse período, é bacana notar como a franquia se mantém consistente e coesa mesmo passando por diversas mentes criativas e formatos (já tivemos série de TV e jogos de videogame, por exemplo), além de estar cada vez mais determinada a abraçar qualquer sanguinolência absurda de seu universo. São coisas que seguem firmes e fortes neste A Morte do Demônio: A Ascensão, o quinto filme da série.

Escrito e dirigido por Lee Cronin, A Ascensão inicia quando Beth (Lily Sullivan) vai visitar sua irmã, Ellie (Alyssa Sutherland), e os três filhos dela, Bridget, Danny e Kassie (Gabrielle Echols, Morgan Davies e Nell Fisher, respectivamente), que moram em um prédio que está literalmente caindo aos pedaços. Seria uma oportunidade perfeita para que todos tentassem lidar juntos com seus problemas pessoais. Mas tudo vira de cabeça para baixo quando o trio de irmãos encontra um volume do Livro dos Mortos nos confins do edifício, o que eventualmente acaba por libertar os demônios que passam a infernizar a vida da família.

Assim como o eficaz reboot dirigido por Fede Alvarez em 2013, A Ascensão não tem conexões com os capítulos anteriores da franquia, apresentando novos personagens e até mesmo uma nova localização, saindo de uma cabana isolada no meio da floresta e indo para um local mais urbano. Isso, porém, não impede Lee Cronin de criar uma atmosfera claustrofóbica, situando quase toda a narrativa dentro dos limites do prédio e agarrando quaisquer oportunidades para mostrar que os personagens não têm para onde fugir, o que contribui com a sensação de angustia gerada pelo desenrolar da trama. Mas muito dessa sensação se deve também porque Cronin sabiamente dedica o primeiro ato do filme para estabelecer Beth, Ellie e as crianças como figuras em uma situação vulnerável em suas vidas particulares e cujo carinho uns pelos outros é muito claro, o que facilita a identificação do público com eles e, consequentemente, dá mais peso para a tensão que passam a viver.


E quando a tensão começa, ela não para mais. Pontualmente, Lee Cronin até pode cair em sustos batidos, mas de modo geral ele exibe segurança na condução do terror que toma conta da história, criando momentos visualmente interessantes como a sequência que vemos através do olho mágico de uma porta. Mas o diretor se sai ainda melhor ao investir no alto grau de violência, uma das marcas registradas da série e que volta a render cenas divertidamente aflitivas ou de puro banho de sangue. O terceiro ato acaba sendo o grande destaque nesse sentido, chegando até a fazer referência a O Iluminado (por sinal, o clássico de Stanley Kubrick certamente serviu de inspiração para o filme). Mas é preciso apontar que A Ascensão causa arrepios mesmo quando a violência parte de coisas banais, e aqui devo admitir que um brevíssimo momento envolvendo um ralador dificilmente sairá da minha cabeça tão cedo.

A Morte do Demônio: A Ascensão já mereceria créditos por sua eficácia como filme de terror. Mas também acaba sendo interessante ver o longa conseguir injetar uma boa dose de frescor a uma franquia tão longeva, algo que por tabela não deixa de ressaltar o rico potencial do material que Sam Raimi e seus amigos conceberam há quatro décadas.

Nota:



quarta-feira, 29 de março de 2023

O Urso do Pó Branco

Arte é uma produção imaginativa por natureza. Um processo criativo que nos permite dar vida a qualquer história, sentimento ou ideia na esperança de nos conectarmos com outros seres humanos. É também o que permite que um filme como O Urso do Pó Branco pegue uma história real e a transforme em algo majoritariamente ficcional. Afinal, se a diretora Elizabeth Banks contasse a história do urso do título exatamente como se desenrolou, o filme na verdade não teria muito o que contar, tendo o animal consumido cocaína e morrido pouco tempo depois. Mas ao imaginar esse urso causando terror e deixando rastros de sangue por onde passa, Banks ganha uma premissa bem mais chamativa. É uma pena, porém, que tal imaginação não renda um filme dos mais eficazes.

Escrito por Jimmy Warden, O Urso do Pó Branco nos leva até 1985, quando uma grande remessa de cocaína cai nas florestas do estado da Geórgia. Ali, um grande urso acaba encontrando e consumindo grandes quantidades da droga, ficando absolutamente surtado e agressivo, o que o torna uma ameaça a qualquer um que surja em seu caminho. Enquanto isso, a enfermeira Sari (Keri Russell) entra na floresta à procura de sua filha Dee Dee (Brooklynn Prince) e o amigo dela Henry (Christian Convery), ao passo que a dupla Eddie e Daveed (Alden Ehrenreich e O’Shea Jackson Jr., respectivamente) tenta recuperar a cocaína, que pertence ao chefão do crime Syd (o saudoso Ray Liotta). E ninguém imagina que um urso “doidão” está à espreita.


É normal que uma premissa como essa não almeje se levar a sério, buscando ter o espírito de um filme B que mistura terror e comédia. É algo que Elizabeth Banks (em seu terceiro longa na cadeira de direção, depois do divertido A Escolha Perfeita 2 e o mediano reboot de As Panteras) trata de estabelecer já na primeira cena, trazendo um contrabandista (vivido por Matthew Rhys) despachando a cocaína de seu avião de maneira infantil e, logo em seguida, tendo um fim absolutamente patético. Mas mesmo tendo um senso de humor que pontualmente apresenta momentos engraçados como essa cena inicial, o filme na maior parte do tempo não consegue fazer tanta graça quando deseja, soando apenas bobo e colocando no meio disso personagens que ou são puramente caricatos ou puramente unidimensionais, o que os torna desinteressantes seja como obstáculos, seja como alimentos para o urso. E o elenco cheio de nomes talentosos pouco pode fazer para contornar isso.


Aliás, as cenas que trazem pessoas sendo atacadas pelo urso claramente são tratadas por Elizabeth Banks como uma espécie de carro-chefe do filme, mas nem mesmo elas impressionam. Isso porque além de ser difícil se importar com o que ocorre na tela, tais cenas ainda são realizadas de forma bastante burocrática, ficando longe de chocar o espectador com o que o urso é capaz de fazer com suas vítimas, e o fato de a sanguinolência (ou ao menos boa parte dela) ser feita através de computação gráfica também não contribui muito para que esses momentos tenham alguma relevância.

O Urso do Pó Branco até pode ser uma obra consciente da própria bobagem que representa, mas quem dera isso fosse suficiente para sustentar sua narrativa. Ou ao menos para tornar a graça do filme um pouco mais memorável.

Nota:



terça-feira, 21 de março de 2023

John Wick 4: Baba Yaga

Toda ação tem uma consequência. Podemos dizer que essa ideia está no centro de todos os eventos que se desenrolam ao longo de toda a franquia John Wick. Eventos estes que não cansam de tomar proporções cada vez maiores até ficarem quase fora de controle. É até curioso lembrar que tudo começou com um assassino profissional se vingando daqueles que mataram seu cachorro e roubaram seu carro, e gradualmente vimos este mesmo assassino entrar em uma verdadeira guerra contra todo seu submundo do crime. E se os três primeiros exemplares estabeleceram John Wick como uma franquia de ação empolgante, este John Wick 4: Baba Yaga retoma essa empolgação e não a deixa cair em nenhum momento.

Escrito por Shay Hatten e Michael Finch, John Wick 4 tem uma trama bem simples, como é comum na série. Depois dos eventos do terceiro filme, o personagem-título (Keanu Reeves) quer se vingar da Alta Cúpula e ficar livre de uma vez por todas do submundo de assassinos profissionais. A Cúpula por sua vez é representada agora pela figura do Marquês Vincent de Gramont (Bill Skarsgård), que quer o fim de John Wick e não medirá esforços para destruir ele e qualquer um que o ajudar. Para alcançar tal objetivo, o Marquês convoca até mesmo Caine (Donnie Yen), um assassino cego e que é um velho amigo de Wick.


Apesar de simples, a trama não impede que o diretor Chad Stahelski construa um épico de ação com quase três horas de duração. Isso se deve principalmente porque Stahelski e sua equipe parecem se deliciar com toda possibilidade de expandir o universo de John Wick, apresentando novos personagens, regras e núcleos narrativos. E assim como foi em John Wick 2 e 3, é fascinante ver esse universo ganhar vida e se revelar cada vez maior. Neste quarto filme, porém, há determinados momentos em que a trama pode soar desnecessariamente longa, com os roteiristas apenas querendo colocar mais obstáculos no caminho do protagonista mesmo quando poderiam ser mais objetivos. Mas creio que tal inchaço na história deixa de ser um problema quando vemos que ele traz recompensas, com os obstáculos adicionados rendendo belas cenas de ação e apresentando personagens que chamam a atenção. Nesse sentido, destaco o Rastreador vivido por Shamier Anderson, que ao longo do filme mostra ter seus próprios interesses, e o chefe da cúpula alemã, Killa, vivido por um quase irreconhecível Scott Adkins, um dos mais interessantes astros de ação contemporâneos e que aqui tem uma rara oportunidade de criar um personagem que não é definido só por suas habilidades como artista marcial.


E já que mencionei as cenas de ação, é preciso dizer que Chad Stahelski com frequência passa a sensação de que uma é melhor que a outra. A exemplo do que fez nos filmes anteriores, o diretor investe não só na grande escala das lutas e tiroteios, mas também na variedade, de forma que esses momentos jamais soam repetitivos e trazem o elenco usando de tudo um pouco em meio ao quebra-pau, sejam armas de fogo, facas, espadas, carros ou nunchakus. Mas mais do que isso, Stahelski e o diretor de fotografia Dan Laustsen fazem com que a ação seja visualmente atrativa para o espectador, deixando a mise en scène sempre clara e por vezes investindo em planos longos que contemplam as ótimas coreografias dos atores, merecendo destaque a sequência filmada em um ângulo alto (plongée) e que acompanha John Wick eliminando seus adversários enquanto passa por várias salas. Aliás, por conta da intensidade da ação, os momentos em que John Wick 4 se concentra no desenvolvimento de seu universo e de seus personagens também servem como pausas para o espectador, que assim pode respirar um pouco antes de entrar na próxima grande sequência do filme, e o roteiro merece créditos por conseguir amarrar de maneira organizada toda essa ação à história e às motivações dos personagens.

Tendo em vista a alta regularidade da franquia, dizer que John Wick 4 é o melhor exemplar que ela apresentou até agora não quer dizer pouca coisa. O que Chad Stahelski, Keanu Reeves e companhia realizam aqui é um verdadeiro espetáculo de ação, sendo desde já uma das produções que merecem destaque nesse ano.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 2 de março de 2023

Creed III

Uma coisa que podemos notar tanto na série Rocky quando nesta série derivada Creed é que, mesmo focando seus respectivos filmes em protagonistas completamente diferentes um do outro, elas compartilham a ideia de fazer os personagens encararem conflitos que se revelam muito pessoais. Assim, quando o Rocky Balboa de Sylvester Stallone ou o Adonis Creed de Michael B. Jordan entram em um ringue, o embate físico que se desenrola acaba sendo muito maior do que uma mera troca de socos em uma arena lotada. Jordan mantém essa ideia como cerne neste Creed III, no qual o ator ainda assume a cadeira de diretor pela primeira vez na carreira.

Escrito por Keenan Coogler e Zach Baylin a partir do argumento concebido por eles e Ryan Coogler, Creed III traz Adonis Creed vivendo feliz e tranquilamente ao lado de Bianca (Tessa Thompson) e a filha Amara (Mila Davis-Kent). É então que Damian Anderson (Jonathan Majors), seu grande amigo de infância e adolescência e que costumava ser um boxeador de grande potencial, ressurge em sua vida após muitos anos na prisão. Isso acaba trazendo de volta antigas e profundas feridas que Adonis queria esquecer, mas que talvez só possam ser cicatrizadas no ringue.

Como podem ver, Rocky Balboa não faz parte da história, marcando a primeira vez que Sylvester Stallone não dá as caras no universo que criou. Mas isso se revela até um alívio, não só porque a história do personagem teve um final digno em Creed II, mas também porque possibilita que este spin-off corra com as próprias pernas, não sendo surpresa que isso ocorra com naturalidade ao longo de Creed III. Adonis, sua família e o núcleo que formam são interessantes, apresentando conflitos palpáveis e humanos, sendo mais do que o suficiente para sustentar a narrativa. Aliás, é bacana ver o roteiro adicionar novas camadas aos personagens, o que contribui até para dar mais peso dramático às histórias daquelas figuras.

As atuações do elenco também são essenciais para isso. É notável, por exemplo, como Michael B. Jordan encarna Adonis Creed com uma segurança ainda maior do que nos filmes anteriores, exibindo uma postura mais forte e decidida em cena, detalhes que pincelam apropriadamente a experiência que o boxeador adquiriu ao longo dos anos. Além disso, sua química com Tessa Thompson novamente cativa o espectador, com os personagens se abrindo um com o outro e soando mais humanos no processo. Thompson, aliás, mais uma vez consegue fazer de Bianca uma mulher que não fica apenas apoiando o protagonista, exibindo personalidade e tendo seus próprios sonhos e frustrações. Para completar, o talentoso Jonathan Majors se revela uma boa adição ao universo da franquia, fazendo de Damian uma figura que mantém o espectador desconfiado, o que consequentemente torna a dinâmica dele com Michael B. Jordan algo cheio de tensão, mesmo quando os personagens se tratam com respeito e cumplicidade.


Enquanto isso, Michael B. Jordan mostra talento também como diretor, dedicando um bom tempo para o desenvolvimento dos dramas dos personagens e conseguindo assim manter o espectador envolvido. Mas ele merece créditos principalmente por conceber cenas de luta que fazem coisas novas dentro da franquia, usando a costumeira câmera lenta tanto para dar impacto aos golpes desferidos quanto para apontar o conhecimento do protagonista, que parece notar oportunidades para nocautear os adversários. Mas o principal momento nesse quesito certamente é aquele que traz um ringue fechado por grades e em uma arena sem público, transmitindo com eficiência como os lutadores ali presentes encaram seu embate. Esses detalhes da direção de Jordan até compensam um pouco o fato de Creed III não trazer grandes surpresas com o desenrolar de sua história, que em alguns momentos ou repete coisas que já vimos em outros exemplares (seja em filmes de Rocky ou de Creed) ou é apenas previsível.

Creed III, em suma, mantém admiravelmente a consistência da franquia. E eu não reclamarei caso o filme seja o capítulo final dessa história, até por ele trazer em seus derradeiros segundos um plano que encanta não só pela beleza da imagem ali contida, mas também porque realmente serve como um belo fim para o arco de seu ótimo protagonista.

Nota:



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Baleia

Os filmes de Darren Aronofsky não são exatamente conhecidos como experiências agradáveis para o espectador. O diretor, na verdade, criou um hábito de nos apresentar a personagens e, a partir daí, nos conduzir pela jornada de autodestruição deles, como em Pi, Réquiem Para um Sonho, O Lutador e Cisne Negro. São obras de grande densidade dramática e capazes de nos deixar angustiados por sabermos o que determinados passos representam na vida daqueles indivíduos. Este novo trabalho de Aronofsky, A Baleia, acaba sendo mais um exemplo desse seu hábito, além de colocar Brendan Fraser de volta aos holofotes após um bom tempo.

Escrito por Samuel D. Hunter a partir de sua própria peça de teatro, A Baleia nos apresenta a Charlie (Fraser), um professor universitário que perdeu o namorado há algum tempo e agora vive sob os cuidados da amiga enfermeira Liz (Hong Chau). Tais cuidados são necessários porque Charlie sofre com obesidade mórbida, vivendo em reclusão em seu pequeno apartamento. É então que ele resolve tentar se reconectar com sua filha adolescente, Ellie (Sadie Sink), procurando resolver antigas mágoas.

Desde o princípio as origens teatrais do texto de Samuel D. Hunter podem ser notadas, seja por diálogos expositivos que estabelecem detalhes do passado dos personagens ou pelo fato de o filme se situar quase todo em um único cenário (o apartamento de Charlie). Mas este ponto não chega a limitar a narrativa, com Darren Aronofsky e seu habitual diretor de fotografia Matthew Libatique optando por conceber o filme na tela com uma razão de aspecto de 1.33:1 (o clássico quadrado 4:3), que contribui para tornar opressivo o universo do protagonista, algo realçado também pela iluminação mais escura que toma seu apartamento.

Esse visual faz com que A Baleia, por vezes, pareça um filme de terror, o que não deixa de ser apropriado se pensarmos que Charlie sofre de uma espécie de maldição. Mas se engana quem acha que a maldição a qual me refiro é o estado físico e clínico do personagem, já que sua obesidade e compulsão alimentar parecem ser os resultados desta maldição. O problema de Charlie, na verdade, é pensar muito dos outros e muito pouco de si próprio. Temos aqui um personagem que não consegue evitar de pensar o melhor das pessoas, acreditando constantemente que a humanidade tem potencial para coisas maravilhosas. Não é à toa que logo nos primeiros minutos vemos ele dando uma aula (via videochamada) em que procura ajudar seus alunos a se expressarem melhor naquilo que escrevem, idealizando que eles são melhores do que imaginam. Mas ele não inclui a si próprio nessa visão de mundo. “Quem iria me querer como parte de sua vida?”, diz ele em determinado momento. E mais uma vez, não é à toa que sua câmera se mantém desligada durante suas aulas. Ao lidar com esses elementos, o roteiro naturalmente cria um embate de ideias que encontra grande peso dramático no protagonista e ressoa nos outros personagens, principalmente Liz e o jovem missionário Thomas (Ty Simpkins).


Mas boa parte do porquê de A Baleia envolver o espectador e fazê-lo se importar com seu protagonista tem nome e sobrenome: Brendan Fraser. Ator que passou anos relegado a projetos duvidosos até ter a carreira revitalizada recentemente, Fraser tem aqui uma oportunidade ímpar de brilhar e não decepciona. Por trás do excelente trabalho de maquiagem necessário para compor Charlie, o ator cria um personagem quebrado por arrependimentos e por um luto constante, que se entrega a compulsão alimentar como se acreditasse que esta é a punição que merece, seja pelo que já viveu e sofreu ou por quem é. Trata-se de um homem que está longe de ser perfeito, mas que tem também muito da honestidade que procura ver nas pessoas, e Fraser preenche com humanidade cada fala e movimento do personagem, tendo ainda uma ótima dinâmica com a sempre excelente Hong Chau, que faz de Liz uma figura que há muito já deixou de tentar evitar que o amigo se destrua, cuidando dele dentro do que pode e lhe servindo como única base de afeto. E enquanto Sadie Sink e Ty Simpkins são eficazes nos papeis de Ellie e Thomas, Samantha Morton se destaca mesmo com poucos minutos em cena, exibindo uma bela sensibilidade como Mary, a ex-esposa de Charlie.

A Baleia pode ser uma experiência triste e por vezes angustiante, mas se isso ocorre é porque Darren Aronofsky realiza aqui uma obra que transpira empatia por seu protagonista e pelas figuras ao redor dele, o que é algo bastante recompensador de ver.

Nota:



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Batem à Porta

Apesar de muitas vezes criarmos expectativas, a verdade é que é difícil saber o que esperar de uma obra de arte antes de conferi-la, principalmente se pensarmos que quase todo artista tem altos e baixos na carreira. Com um diretor como M. Night Shyamalan, essa incógnita talvez surja com mais força a cada obra que ele lança. Afinal, o que veremos será algo do calibre de O Sexto Sentido e Corpo Fechado (seus dois grandes filmes) ou outra bomba como Fim dos Tempos, Depois da Terra, Fragmentado, Tempo e outros?

Baseado no livro de Paul Tremblay, este Batem à Porta acompanha a família formada pelo casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge) e sua pequena Wen (Kristen Cui, adorável), que estão de férias em uma cabana. É quando eles são abordados por quatro indivíduos que pretendem invadir o local de qualquer forma e confrontá-los. Eles são Leonard (Dave Bautista), Sabrina (Nikki Amuka-Bird), Adriane (Abby Quinn) e Redmond (Rupert Grint), pessoas aparentemente comuns, mas que estão ali para fazer o possível para que aquela família sacrifique um de seus membros e, segundo eles, salve o resto da humanidade do apocalipse.

Por puro acaso, no dia anterior à sessão de Batem à Porta, eu conferi O Sacrifício do Cervo Sagrado, do sempre excelente Yorgos Lanthimos. E acaba sendo praticamente impossível não fazer uma comparação entre as duas produções, considerando que ambas contam histórias que colocam seres humanos recebendo a tarefa de sacrificar um ente querido em prol de algo maior. Mas se Lanthimos montava uma narrativa inquietante a partir da frieza dos personagens e de um contexto mais intimista para falar da natureza humana, Shyamalan constrói Batem à Porta lidando com ideias bíblicas que nos levam a discussões diferentes, onde algo mais amplo parece estar em jogo.


É uma pena, porém, que tais discussões não fujam muito do óbvio. Estariam Leonard e companhia acreditando em algo verdadeiro? Ou são apenas malucos conspiracionistas? E independentemente da resposta dessas questões, como atender o pedido de sacrifício para salvar a humanidade? Aliás, seria a humanidade digna de salvação? É com questões como essas que o roteiro escrito por Shyamalan e pela dupla Steve Desmond e Michael Sherman busca fomentar reflexões ao longo da projeção, mas elas não saem muito do lugar-comum ou ganham grande profundidade.

Mesmo assim, é relativamente interessante acompanhar o conflito entre as crenças do grupo invasor e o ceticismo da família, com Shyamalan conseguindo construir uma atmosfera de tensão entre os personagens na cabana, merecendo destaque o fato de o diretor manter a câmera muitas vezes próxima dos rostos dos atores, tirando espaço do cenário e tornando-o mais opressivo no processo. Contribui para essa inquietação também algumas atuações do elenco, principalmente Dave Bautista, que chama a atenção ao fazer de Leonard uma figura pacata e que mantém uma constante lamentação em seu tom de voz, aspectos que criam um contraste eficaz com seu físico imponente e ameaçador. E se Ben Aldridge mostra segurança ao encarnar a convicção de Andrew, Jonathan Groff é eficiente ao fazer de Eric um contraponto mais influenciável. Já Nikki Amuka-Bird, Abby Quinn e Rupert Grint pouco podem fazer com personagens essencialmente unidimensionais.


Mas se ao longo da narrativa Shyamalan cria alguma tensão, esta é quebrada sempre que o diretor insere flashbacks da vida de Eric e Andrew, mostrando compromissos que eles fizeram um com o outro ou como que um deles aprendeu a lutar. Mas esses são detalhes que não acrescentam nada de importante para a história, servindo apenas para tornar irregular o ritmo do filme. Além disso, apesar de a natureza bíblica das ideias do roteiro ser clara desde o princípio, Shyamalan parece não confiar na inteligência do espectador, resolvendo trazer explicações no terceiro ato que apenas martelam o óbvio e nos fazem revirar os olhos. Como se não bastasse, a resolução do filme além de não surpreender também soa um tanto anticlimática.

Talvez um elogio que eu possa fazer para Batem à Porta é que M. Night Shyamalan já fez filmes muito piores. O que não quer dizer muito levando em conta que ele também já fez filmes infinitamente melhores.

Nota: