domingo, 11 de novembro de 2012

Argo

Desde que estreou como diretor em Medo da Verdade, Ben Affleck vem mostrando ter um talento inquestionável nessa função, e é interessante ver que a cada nova produção que dirige, o ator assume desafios cada vez maiores. Se em Medo da Verdade ele preferiu entregar o papel de protagonista ao seu irmão, Casey, enquanto cuidava da direção e do roteiro, em Atração Perigosa ele já se arriscou a ficar tanto atrás como na frente das câmeras, e em ambos os filmes os resultados foram mais do que satisfatórios. Agora em Argo, Affleck sai de sua querida Boston (cidade que serviu como palco dos outros filmes) para conduzir uma história que conta até mesmo com mais núcleos narrativos. E o resultado mais uma vez não é nenhum pouco decepcionante.
Escrito por Chris Terrio, baseado no artigo de Joshuah Bearman, Argo se passa entre o fim da década de 1970 e o início da de 1980, quando a embaixada dos Estados Unidos no Irã foi invadida por um grupo de militantes, que fizeram vários americanos de reféns. Seis pessoas conseguiram escapar e se esconder na casa do embaixador canadense. Para trazer esse grupo de volta para casa, a CIA chama o exfiltrador Tony Mendez (Affleck), que apresenta a ideia de ele e os seis refugiados fingirem ser uma equipe de filmagem que está no Irã apenas para explorar locações para um filme de mentira, uma ficção científica chamada Argo. Com a ajuda de seu supervisor Jack O’Donnell (Bryan Cranston), do maquiador John Chambers (John Goodman) e do produtor Lester Siegel (Alan Arkin), Mendez consegue armar toda a falsa produção hollywoodiana. Então, tem início uma missão impossível, cercada de desconfiança por quase todos os envolvidos.
Iniciando o filme com a cena da invasão na embaixada americana, Ben Affleck já coloca Argo em um ambiente tenso e hostil que permanecerá assim ao longo de quase toda a projeção. O modo como o diretor consegue construir a tensão nessa parte ainda é muito interessante, já que ele não utiliza nenhum tipo de trilha musical, deixando as próprias imagens fazerem o trabalho. E quando uma música finalmente surge na tela não é algo que dê um tom de terror ou suspense, e sim uma trilha bastante melancólica, porque é triste ver esse tipo de violência acontecendo. Só aí Affleck já demonstra uma inteligência admirável no comando da narrativa, além de conferir ao filme uma abordagem bastante documental, o que ajuda a fazer daquela situação algo ainda mais urgente.
Mas não é só isso. Trabalhando ao lado de Rodrigo Prieto (um diretor de fotografia bastante competente, como pode ser conferido em filmes como Amores Brutos e O Segredo de Brokeback Mountain), Affleck consegue fazer um belo contraste entre os locais onde o filme se passa. Por exemplo, em Hollywood temos um lugar mais relaxado e repleto de cores quentes, enquanto que no meio da revolução no Irã há um ambiente opressivo, composto basicamente por um tom acinzentado. Esse contraste fica mais do que claro em um breve plano-sequência no qual Affleck segue um garçom, que sai da sala onde o roteiro do filme de mentira está sendo lido, e entra em uma cozinha onde a televisão transmite o depoimento de uma iraniana. Já o design de produção e os figurinos realizam um brilhante trabalho ao reconstruir nos mínimos detalhes a época na qual a história se passa, desde os escritórios da CIA até os ternos e acessórios usados pelos personagens.
O roteiro de Chris Terrio merece créditos por conseguir retratar o cotidiano dos refugiados como algo que apesar de parecer tranquilo em alguns momentos, na verdade é bastante amedrontador. Se em uma cena eles aparecem conversando, rindo e bebendo vinho na casa do embaixador canadense, em outra eles precisam se esconder assim que aparece algum sinal de que os militares iranianos estão por perto. Além disso, Terrio inclui vários momentos que mostram o quanto aquelas pessoas estão desconfortáveis naquela situação, estando sempre preocupados, algo que tem um peso um pouco maior nos casais, já que o pensamento de que apenas um deles poderia estar ali (foram os maridos que levaram as esposas para lá) parece persistir em suas cabeças. Isso faz com que nos sensibilizemos com essas pessoas, o que acaba sendo fundamental para que a missão de tirá-los dali se torne realmente interessante.
Mesmo tratando a história com grande seriedade, o roteiro investe um pouco no humor sempre que possível. Nisso, as figuras de John Chambers e Lester Siegel acabam virando os principais alívios cômicos do filme. Por tratarem Hollywood como um lugar onde coisas impossíveis podem acontecer (“Você quer vir aqui e parecer um grande figurão sem fazer nada? Você veio ao lugar certo”, diz Chambers para Mendez), a dupla protagoniza os momentos mais divertidos do filme. Aliás, o roteiro aproveita até mesmo para alfinetar um pouco a indústria, já que vários filmes são derivados do sucesso de algo original, o que acontece até hoje. Na época em que a história se passa, o principal sucesso de ficção científica era Star Wars, e Argo (o filme de mentira) é meio que uma cópia barata da obra de George Lucas (um dos storyboards da produção chega a mostrar uma dupla de robôs que são claramente baseados em C3-PO e R2-D2).
Mas o grande momento de Argo é a missão em si, comandada com maestria por Ben Affleck. Tendo de se preocupar com três núcleos da narrativa (Mendez e os refugiados no Irã, a CIA e Hollywood), Affleck consegue conduzir tudo de maneira tensa e imprevisível, mostrando uma segurança invejável com relação ao trabalho que está fazendo. É também preciso ressaltar o trabalho do montador William Goldenberg, que aqui consegue coordenar as montagens paralelas brilhantemente, deixando a sequência fluir muito bem sem sacrificar o ritmo da narrativa.
Vale dizer que Ben Affleck não mostra seu talento apenas como diretor, se saindo bem em seu trabalho como ator. Surgindo em cena sempre com uma expressão séria, Affleck consegue transmitir a preocupação que Tony Mendez sente diante de tudo o que ocorre em sua volta, agindo sempre com cautela com relação aos detalhes da missão. Enquanto isso, Bryan Cranston interpreta Jack O’Donnell com grande determinação, sendo finalmente bem aproveitado depois de seus fracos papéis em três blockbusters desse ano (John Carter, O Vingador do Futuro e Rock of Ages), ao passo que John Goodman empresta seu carisma habitual para John Chambers. Mas é Alan Arkin quem rouba a cena sempre que aparece como Lester Siegel. O momento em que o personagem concorda em ajudar Mendez em sua missão é um exemplo da bela atuação do ator, já que ele chega a tremer os lábios em um misto de cansaço e tristeza ao ver na televisão o que está acontecendo no Irã. Sem falar que o ator tem em mãos algumas das melhores piadas do filme (“Argo fuck yourself!”), proferindo-as sempre com seriedade, o que as deixa mais divertidas (sinceramente, eu não pensaria duas vezes antes de indica-lo ao Oscar).
Envolvente do início ao fim, Argo desponta como um dos principais concorrentes ao Oscar do ano que vem. Além disso, é uma obra na qual Ben Affleck mostra mais uma vez que é um dos melhores diretores que surgiram nos últimos anos, sendo mais um ator que conseguiu fazer com sucesso a transição para trás das câmeras. Quem diria?
Cotação:

2 comentários:

Hugo disse...

Por enquanto vi apenas o ótimo "Medo da Verdade".

Por este filme e pelas ótimos críticas de seus outros dois trabalhos como diretor, acredito que Affleck tem potencial para fazer uma bela carreira atrás das câmeras.

Abraço

Brothers disse...

Ótima resenha! Assisti ontem ao filme e me surpreendi como Affleck só melhora como cineasta com o passar do tempo. Era um grande desafio esse roteiro, por envolver tantos personagens. A propósito, a sequência da Kombi é de tirar o fôlego, bem como todo o 3º ato. FILMAÇO!