terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Houve Uma Vez Dois Verões

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Jorge Furtado construiu uma belíssima carreira como curta-metragista, dirigindo obras como O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, Barbosa, Ilha das Flores (que lhe rendeu o Urso de Ouro de melhor curta-metragem no Festival de Berlim) e O Sanduíche. Sendo assim, é surpreendente que o diretor tenha vindo a dirigir seu primeiro longa-metragem apenas em 2002. Mas tal demora acabou valendo a pena, já que em Houve Uma Vez Dois Verões o cineasta usa todo seu talento para criar uma narrativa divertida e envolvente, nos apresentando ainda a belos personagens.
Escrito pelo próprio Jorge Furtado, Houve Uma Vez Dois Verões conta a história de Chico (André Arteche), jovem de 16 anos que ao lado de seu melhor amigo Juca (Pedro Furtado, filho do diretor) passa sua primeira semana de aula naquela que, segundo ele, é a “maior e pior praia do mundo”, no Rio Grande do Sul. Numa noite, no fliperama, Chico conhece Roza (Ana Maria Mainieri), garota pela qual ele se apaixona quase que imediatamente. Eles transam logo no primeiro encontro, mas ela some no dia seguinte. Quando volta para Porto Alegre, Chico a reencontra, e ela diz que está grávida. É o começo de uma série de situações na qual Roza quase leva o garoto à loucura.
Logo de cara, Jorge Furtado apresenta algo que viria a ser uma marca registrada de quase todos os seus longas-metragens: a narração em off do protagonista (elemento que só não dá as caras em Saneamento Básico: O Filme). Em Houve Uma Vez Dois Verões, isso ajuda muito o espectador a se aproximar de Chico e a simpatizar com ele rapidamente. Some isso ao fato de o personagem ser uma figura realmente interessante, além de contar com o grande carisma de André Arteche, e tem-se uma narrativa que consegue manter o espectador sempre curioso quanto ao que vai acontecer ao longo da história.
Mas não é só Chico que prende a atenção do público. Os outros personagens que passam pela história mostram ser tão bons quanto ele. Roza faz coisas terríveis ao longo do filme, mas sua intérprete Ana Maria Mainieri traz uma ternura surpreendente para o papel, e isso acaba impedindo que a garota seja vista como uma verdadeira megera que brinca com os sentimentos do protagonista. E a química que a atriz desenvolve com André Arteche também é muito boa, contribuindo ainda mais para que o espectador se importe com os personagens. Enquanto isso, Juca é um alívio cômico bem-vindo, dono de algumas das cenas mais engraçadas do filme (como quando ele cumprimenta o namorado de uma garota no fliperama, mesmo estando com caxumba), além de ser interpretado de maneira divertida por Pedro Furtado.
O roteiro de Houve Uma Vez Dois Verões chega a ser uma miscelânea de gêneros muito curiosa. Uma hora o filme é um romance, em outra uma comédia de situações, em outra um road movie. É surpreendente que tudo se encaixe tão bem na narrativa, com essa mistura funcionando muito bem no filme e deixando-o ainda mais divertido, o que mostra como Jorge Furtado é um ótimo contador de histórias. Enquanto o relacionamento entre Chico e Roza é algo simpático apesar dos obstáculos que ele enfrenta, os momentos em que os personagens se metem em enrascadas conseguem arrancar risos ao mesmo tempo em que são tensos, já que nós não queremos ver aquelas figuras se dando mal.
No entanto, há um detalhe que incomoda em Houve Uma Vez Dois Verões: o fato de aqueles jovens serem independentes demais para a idade que têm. Isso nem incomoda tanto com relação a Roza, já que ela é um pouco mais velha e demonstra saber cuidar de si mesma. Mas é estranho demais ver Chico e Juca, dois garotos de 16 anos que ainda estão na escola, saírem por aí fazendo o que querem sem ter alguém que questione suas atitudes. Em determinado momento, por exemplo, Chico vende alguns objetos que tem em casa como se ninguém fosse dar falta deles, o que é muito difícil de acreditar.
Mas esse talvez seja o único problema que o roteiro de Jorge Furtado enfrenta. No resto, o cineasta capricha, e faz de seu primeiro longa-metragem um delicioso aperitivo para o filme que viria a fazer depois: o excepcional O Homem Que Copiava.
Cotação:

Um comentário:

Cris Mitsue disse...

Esse filme é delicioso de se ver! :D