segunda-feira, 23 de outubro de 2023

47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - 3ª Parte

Particularmente falando, a leva de filmes desse post resultou em uma das maiores correrias dessa Mostra de São Paulo até agora. Os quatro filmes foram assistidos em quatro cinemas diferentes. No entanto, correrias como essa são o mais próximo que estou chegando de turistar por São Paulo, considerando que não estou tendo tempo algum para passear e conhecer a cidade. Mas é algo tem valido muito a pena, sendo que dessa vez gostei de todos os filmes.

Enfim, eis os comentários sobre mais quatro obras exibidas na 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Uma Vida de Ouro (Or de Vie, 2023), de Boubacar Sangaré:

“Se eu tivesse 3 milhões de dólares já iria embora agora”, diz de maneira bem humorada um dos trabalhadores que aparecem neste Uma Vida de Ouro, documentário de Boubacar Sangaré. É um momento que de certa forma resume bem o filme, já que é possível notar a desesperança de quem gostaria de mudar de vida, mas sabe que dificilmente isso irá ocorrer. No longa, o diretor mostra o dia-a-dia de quem trabalha em uma região de mineração na Burkina Faso, focando principalmente no jovem Rasmané.

A partir daí acompanhamos Rasmané e seus colegas sendo explorados ao mesmo tempo que vivem e trabalham precariamente. À noite, eles dormem quase empilhados uns em cima dos outros, ao passo que de dia eles descem e sobem 100 metros em uma mina. Mas algo que Boubacar Sangaré mostra é que todos ali são dominados por um sistema determinado a mantê-los onde estão, fazendo os trabalhadores terem de seguir essa rotina de pobreza enquanto buscam manter acesa a esperança de uma vida melhor.

Uma Vida de Ouro acaba se tornando bastante repetitivo depois de um tempo, mas é um documentário que acaba valendo por mostrar uma realidade que nem sempre ganha atenção.

Nota:


Fancy Dance (2023), de Erica Tremblay:

Não satisfeito em ter ido ver Lily Gladstone em uma atuação absolutamente memorável em Assassinos da Lua das Flores, resolvi assistir também ao filme estrelado por ela que está na programação da Mostra. Em Fancy Dance, Gladstone dá vida a Jax, que está cuidando de sua sobrinha, Roki (Isabel Deroy-Olson), desde que sua irmã sumiu semanas atrás, um caso que a polícia parece não ter interesse em resolver. Mas quando a assistência social ameaça tirar de Jax a custódia de Roki, ela passa a se esforçar ainda mais para descobrir o paradeiro da irmã.

A trama de investigação em Fancy Dance não deixa de ser comum. Mas o diferencial do longa é a atenção que a diretora Erica Tremblay faz questão de dar a cultura indígena de seus personagens, que assim como a realizadora fazem parte da nação Seneca-Cayuga (Tremblay inclusive assina o filme com seu nome indígena, Qdewayę:sta’). Sendo assim, ao mesmo tempo que é envolvente acompanhar Jax tentando achar sua irmã, é muito bacana quando a história faz pausas para mostrar rituais importantes da cultura dos personagens. É um aspecto que também contribui muito para a riqueza da relação entre Jax e Roki, que é repleta de respeito e afeto. E Lily Gladstone faz um ótimo trabalho ao trazer força e determinação a uma mulher que sabe pertencer a um mundo que negligencia seu povo o quanto pode.

Nota:


A Sobrevivência da Bondade (The Survival of Kindness, 2022), de Rolf de Heer:

Num mundo justo, Mwajemi Hussein receberia uma tonelada de prêmios de atuação por seu trabalho neste A Sobrevivência da Bondade. Em um filme praticamente sem diálogos, a atriz (que nunca havia atuado antes) tem como seus principais recursos o olhar e o carisma para fazer uma composição de personagem brilhante. A personagem à principio sem nome – nos créditos finais ela é chamada apenas de BlackWoman – vive em uma distopia, sendo enjaulada no meio do deserto por figuras que usam máscaras de gás e representam um poder autoritário. Mas ao conseguir escapar, BlackWoman começa a resgatar um mínimo de dignidade em um mundo desolado.

Autoritarismo, intolerância, colonialismo. A alegoria que ganha vida pelas mãos do diretor Rolf de Heer toca nessas questões com muita clareza, conseguindo ainda envolver o espectador mesmo investindo em um ritmo mais cadenciado na narrativa, algo que serve também para que ele mostre com calma o universo cheio de cenários desesperadores. Mas ainda que lide com temas pesados, A Sobrevivência da Bondade se mostra capaz de causar o riso. E aqui cito mais uma vez o trabalho de Mwajemi Hussein, que faz de BlackWoman uma personagem capaz de nos fazer sorrir em meio ao caos, seja com meras reverências a manequins, seja com interjeições de impaciência. Mas acho que o que define mesmo a atuação maravilhosa da atriz é seu olhar generoso, e que se mantém assim ao longo de praticamente todo o filme e faz o espectador ter um carinho quase imediato por ela.

Um ótimo filme e uma performance central que certamente é uma das melhores do ano.

Nota:


O Mal Não Existe (Aku Wa Sonzai Shina, 2023), de Ryūsuke Hamaguchi:

Aguardado novo trabalho do diretor Ryūsuke Hamaguchi após o sucesso Drive My Car, O Mal Não Existe é uma ode contra a ignorância e a políticas neoliberais predatórias. Escrito pelo próprio Hamaguchi, o filme se passa em um vilarejo que abriga uma natureza linda e muito valorizada por seus habitantes, sendo que o trabalho de muitos deles depende dessa natureza. Mas eis que uma empresa de Tóquio chega lá com o objetivo de construir um local para “glamping” (ou acampamento glamoroso), cujo projeto promete ameaçar todo o ecossistema do vilarejo.

Ryūsuke Hamaguchi naturalmente começa mostrando a beleza e a importância que a região tem para seus habitantes, algo que ele faz investindo em planos longos e bastante contemplativos, o que se revela essencial para entendermos o que está em jogo. Com isso estabelecido, o diretor com propriedade desce suas críticas à forma totalmente ignorante com a qual grandes corporações buscam se livrar de recursos naturais e/ou pontos históricos, pouco se importando com seu valor e costumeiramente querendo criar negócios estapafúrdios em nome de grana. Nisso, Hamaguchi concebe uma das cenas mais hilárias do ano quando os despreparados representantes da empresa apresentam seu projeto no vilarejo, subestimando todo o povo que vive ali e que se mostra conhecedor de sua história, de seu valor e não tem absolutamente nada de burro.

Além disso, o cineasta concebe uma narrativa muito bem organizada, fazendo não só rimas visuais elegantes (gosto principalmente de como o primeiro plano do filme dialoga com o último),  mas também sabendo usar a leveza dos dois primeiros atos para potencializar o peso e a surpresa carregados pelo terceiro.

Nota:



Outros posts da cobertura da Mostra:

1a parte

2a parte

domingo, 22 de outubro de 2023

47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - 2ª Parte

A Mostra recém começou e o crítico que vos fala... já conseguiu ir e voltar das sessões de metrô (uma vitória para o bolso) e ainda soube ajudar alguém que pediu direções na rua. Mais uns dias e serei um nativo de São Paulo.

Mas brincadeiras à parte, hoje temos mais cinco filmes para comentar.

Sonhando e Morrendo (Dreaming & Dying, 2023), de Nelson Yeo:

Focado no reencontro entre três amigos (interpretados por Peter Yu, Doreen Toh e Kelvin Ho) após muitos anos sem se verem, o filme do diretor Nelson Yeo procura ser um conto sobre desejos reprimidos. Quando a reunião dos amigos ocorre, tais sentimentos vêm a tona e dão início a um triângulo amoroso com toques fantásticos.

Ao longo de Sonhando e Morrendo, Nelson Yeo intercala os momentos do trio principal com cenas que recriam passagens de um livro, obra que reflete os sentimentos dos personagens. Inicialmente ambos os pontos da narrativa até se complementam, mas não demora muito para que se misturem, fazendo a história como um todo ficar redundante. Além disso, em determinados momentos o longa procura fazer comentários sobre o meio ambiente e refletir sobre a finitude da vida, mas são coisas que não saem muito do óbvio e superficial.

Nota:


Afire (Rotter Himmel), de Christian Petzold:

O jovem escritor Leon (Thomas Schubert) vai com seu amigo Felix (Langston Uibel) até uma casa de praia no Mar Báltico, onde espera se concentrar melhor em seu novo romance. Chegando lá a dupla se depara com Nadja (Paula Beer), cuja presença acaba se revelando distrativa principalmente para Leon, que passa então a se esforçar muito para não dar voz a seus sentimentos, enquanto que incêndios florestais atingem a região e limitam os arredores dos personagens.

Coincidência ou não, tematicamente Afire lembra o primeiro filme deste post, com o diretor alemão Christian Petzold construindo uma narrativa sobre desejos reprimidos e de como eles são capazes de nos atrasar. Mas ao contrário do que ocorre em Sonhando e Morrendo, Petzold conta uma história muito mais sólida, desenvolvendo seus temas com propriedade, com os incêndios servindo como um reflexo interessante das limitações que o protagonista impõe a si próprio. Os personagens de Afire, aliás, se revelam muito ricos e contam com intérpretes que fazem jus a essa riqueza, merecendo destaque Thomas Schubert, que exibe uma segurança admirável encarnando a introspecção de Leon, e Paula Beer, que praticamente rouba o filme com seu carisma e personalidade, fazendo de Nadja uma mulher absolutamente encantadora (o que até justifica os sentimentos conturbados do protagonista).

Sabendo causar risos sem que estes tirem o peso dramático da narrativa (que fica maior principalmente no terceiro ato), Afire é um belo filme de um diretor cada vez mais aclamado.

Nota:


She Came to Me (2023), de Rebecca Miller:

Novo filme de Rebecca Miller, She Came to Me nos apresenta a Steven Lauddem (Peter Dinklage), um renomado compositor que agora enfrenta um sério bloqueio criativo. Casado com a psicóloga Patricia (Anne Hathaway), ele um dia resolve seguir as dicas dela e se distrair, conhecendo no processo a rebocadora Katrina (Marisa Tomei), que fica obcecada por ele. Ao mesmo tempo ainda acompanhamos o romance adolescente entre o filho de Patricia, Julian (Evan Elisson), e Tereza (Harlow Jane), filha de Magdalena e Trey (Joanna Kulig e Bryan d’Arcy James, respectivamente).

Apesar de contar com um elenco talentoso, o filme se revela bem decepcionante. O roteiro escrito pela própria Rebecca Miller tenta desenvolver tantas coisas na trama sem que nada tenha muita graça, sendo que a partir de determinado momento a cineasta parece nem saber no que focar. Sim, há momentos divertidos envolvendo Peter Dinklage, Anne Hathaway e Marisa Tomei, mas tais momentos não compensam a bobagem bagunçada que o filme acaba sendo.

Acho que o maior elogio que posso fazer a She Came to Me é que pelo menos seus créditos finais são embalados por uma canção original do grande Bruce Springsteen.

Nota:


Caixa-Preta (Black Box, 2023), Asli Özge:

Produzido pelos irmãos Dardenne, Caixa-Preta se passa em um condomínio que é gerado pelo investidor Johannes Horn (Felix Kramer), cujas decisões e modo de gerir estão desagradando alguns moradores, principalmente Erik Behr (Christian Berkel). E as coisas ficam ainda mais à flor da pele quando repentinamente a polícia faz um cordão de isolamento ao redor do condomínio, não permitindo que ninguém entre ou saia dali. O motivo? Bom, é um mistério.

Esse mistério ajuda o diretor Asli Özge a captar a atenção do espectador, ainda que o interesse do realizador esteja menos em explorar essa incógnita e mais em fazer um comentário sócio-político a partir dos embates entre os inquilinos e o investidor. Johannes Horn, por exemplo, não é muito diferente de líderes autoritários que fazem o que querem enquanto tentam calar opositores e destratar figuras que pareçam “suspeitas” (leia-se: minorias). E ao redor disso, inquilinos como Erik lidam não só com tal liderança, mas também com quem é conivente com tudo o que ocorre no condomínio, figuras que chegam a elogiar Horn apenas por ele fazer o básico de sua função como gestor.

O maior problema de Caixa-Preta é que se trata de um filme bastante monótono na maior parte do tempo, não chegando a aproveitar muito a intensidade proporcionada pelas limitações de seu espaço. A exceção quanto a isso é o terceiro ato, quando as coisas fogem um pouco mais do controle. Mas ainda assim Asli Özge concebe um bom thriller.

Nota:


Névoa Prateada (Silver Haze, 2023), de Sasha Polak:

Franky (vivida por Vicky Knight) é uma jovem enfermeira que convive há anos com um desejo de se vingar de quem causou o incêndio que desfigurou parte de seu corpo. Uma raiva constante que afeta até seus relacionamentos. Quando ela conhece Florence (Esme Creed-Miles), ela passa a ter contato com sentimentos mais afetuosos que podem tornar sua percepção de vida menos raivosa.

Névoa Prateada acaba sendo um grande palco para o talento de Vicky Knight, cuja vida inspirou grande parte da concepção de sua personagem (a atriz realmente esteve em um incêndio quando criança e carrega as cicatrizes desde então). Acompanhar o arco dramático de Franky pelas mãos de Knight é fascinante, com a atriz merecendo destaque pela sutileza e pela segurança com a qual encara tudo pelo que a protagonista passa. Nisso, os melhores momentos do filme são exatamente aqueles de maior leveza, como quando Franky está com sua irmã ou com a família de Florence, cenas que são conduzidas com sensibilidade pela diretora Sasha Polak. Não é a toa que a narrativa perde um pouco da força quando se concentra na instabilidade de Florence, mas mesmo isso ainda agrega ao belo arco percorrido pela protagonista.

Nota:



Outros posts da cobertura:

1a parte

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - 1ª Parte

Em meio ao susto com o tamanho de São Paulo, ansiedade e pensamentos de “O que diabos estou fazendo aqui?”, finalmente dei início a essa aguardada cobertura da 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Um início bem leve com apenas três filmes, servindo como uma espécie de aquecimento para a correria que esses dias prometem ser.

Sem mais delongas, esses são os três primeiros filmes que conferi:

Portavoz (Passe-parole, 2023), de Mario Valero:

Situado entre as cidades de Paris, Marselha e Bruxelas entre 2019 e 2020, Portavoz mistura ficção e imagens documentais para fazer um retrato de um grupo de amigos, principalmente o casal Pierre e Mila (Hugues Perrot e Elise Vilain-Gosselin, respectivamente), enquanto vivem cotidianos bastante comuns com seus trabalhos, ideias e relacionamentos.

Partindo disso, o filme tem um ou outro momento interessante, como a cena em que duas mulheres cantam a música que surge pontualmente ao longo da história. Mas a mistura entre ficção e documentário, que é curiosa como ideia, cria um problema difícil de ignorar, já que infelizmente o diretor Mario Valero não consegue usar o recurso para que ambos os aspectos da narrativa se potencializem, de forma que o documental artificializa o ficcional. Sem falar que os personagens não se mostram tão cativantes, mesmo levando rotinas com as quais poderíamos nos identificar.

Nota: 

Gamodi (2023), de Felix Kalmenson:

Outro filme que se constrói no meio da pandemia, dessa vez em Tiblissi (capital da Geórgia), Gamodi foca sua narrativa em Victor (Matta Shally), uma drag queen que faz sucesso na TV, e no adolescente sem teto Tarzan. Ambos buscam lidar como podem com realidades bastante sombrias e que parecem piorar devido ao isolamento imposto pelo contexto do mundo, tendo como principal cenário um prédio que aparenta ou ser uma obra inacabada ou estar apenas caindo aos pedaços.

Dirigido por Felix Kalmenson, Gamodi praticamente não conta com diálogos ao longo da trama, mas ainda demonstra ter algo a dizer com sua narrativa, fazendo de certa forma uma reflexão em cima de ilusões que criamos e a realidade que encaramos. É algo bem ilustrado em uma longa cena em que vemos o programa de Victor na televisão, repleto de cores quentes e animação, enquanto ele fuma no canto de uma sala escura e sem vida, ou quando Tarzan encontra o projeto do prédio, mostrando como aquele lugar foi imaginado e o quão longe isso está da realidade.

É uma pena, porém, que tudo o que o diretor tem a dizer com essas reflexões já fique dito na metade do filme, fazendo a segunda metade da projeção se estender mais do que precisava enquanto a história fica sem ter muito pra onde ir, o que tira um pouco da força do que vinha sendo construído.

Nota: 


The Royal Hotel (2023), de Kitty Green:

Filme que reúne a diretora Kitty Green e a atriz Julia Garner após elas terem feito A Assistente, The Royal Hotel é um thriller que busca criar tensão ao jogar suas protagonistas no meio de um cenário dominado pela masculinidade. Inspirado pelo documentário Hotel Coolgardie (que não assisti), o filme nos apresenta a Hanna e Liv (vividas por Garner e Jessica Henwick, respectivamente), duas jovens que estão fazendo um mochilão pela Austrália. Mas quando se veem absolutamente sem dinheiro, elas acabando aceitando ir trabalhar como garçonetes no Royal Hotel, um bar no meio do nada, movimentado no pior sentido da palavra e habitado majoritariamente por homens que claramente não inspiram confiança – isso quando não são abertamente babacas.

E trata-se de um longa eficaz naquilo que se propõe, com Kitty Green usando a bagunça do estabelecimento e os abusos que ali ocorrem para criar uma atmosfera inquietante que percorre a narrativa praticamente o tempo inteiro. O grande mérito do filme, aliás, é passar para o público a impressão de que algo horrível está prestes a acontecer a qualquer momento, de maneira que é difícil não sentir alguma coisa errada naquela situação mesmo quando estamos diante de algo tranquilo como um banho em uma cachoeira.

Contribui muito para isso também o trabalho de Julia Garner e Jessica Henwick, cujas personagens não conhecemos de maneira muito aprofundada ao longo da história, mas têm personalidades completamente diferentes e que se chocam quando menos esperamos. Garner em particular se destaca ao fazer de Hanna uma figura que, mesmo frágil, mostra um grande esforço para se impor diante dos homens nojentos que ficam ao seu redor.

The Royal Hotel pode frustrar com algumas soluções da trama, que não chegam a ser tão catárticas, mas ainda assim a apreensão que sentimos pelas personagens acaba valendo o filme.

Nota: 


sábado, 14 de outubro de 2023

Linguagem Cinéfila estará na 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Apesar de ter este blog e escrever sobre cinema há quase 15 anos, minha experiência cobrindo festivais de cinema é escassa. É um compromisso difícil de assumir, seja por questões financeiras ou logísticas. Se posso dizer que cobri o Fantaspoa de 2020 ou que fiz parte do júri do Levante, festival de Pelotas, em 2021, isso se deve porque foram eventos online durante a maior pandemia do último século. Mas sempre tive vontade de sair da minha cidade (Porto Alegre) exclusivamente para cobrir um festival de cinema.

Essa vontade virou projeto para 2023. “Por que não pego uma parte de minhas economias e invisto nisso?”, pensei. E agora que as coisas que eu vinha planejando se confirmaram, posso compartilhar que estarei com o Linguagem Cinéfila cobrindo a 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Estou indo de maneira totalmente independente, com a esperança de não só ter uma experiência profissional e pessoal enriquecedora (será inclusive a primeira vez que viajarei sozinho), mas também de criar um conteúdo legal sobre os filmes que serão exibidos. É algo que tentarei encarar ainda como umas merecidas férias, mesmo que eu esteja longe de ir lá para passear.

Usarei as redes sociais para divulgar a cobertura o máximo possível. Criei um novo perfil do blog no Instagram (sigam aqui) e o usarei junto com meus perfis no Twitter (aqui) e no Letterboxd (aqui) para falar sobre os filmes e avisar sobre novas postagens. E como estou indo de maneira independente, peço apenas uma ajuda nessa parte da divulgação: compartilhem os posts. Quanto mais pessoas forem alcançadas, mais bacana essa experiência será.

Espero que gostem.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Retratos Fantasmas

Astor, Central, Imperial, Guarany, São João, Vogue, Cacique, Ritz, Rosário, Presidente...

Esses são nomes de alguns dos cinemas de rua que por décadas marcaram presença no cenário de Porto Alegre, mas que com o passar do tempo e a chegada de negócios que se tornaram mais populares (como os cinemas de shopping) acabaram perdendo espaço na cidade. Se formos ver hoje os lugares onde estes cinemas estavam, talvez nem consigamos ver sinais de que eles existiram, já que muitos deram lugar a coisas que nada tem a ver com exibições cinematográficas. Tais sinais talvez só sejam encontrados em velhas fotografias e nas memórias de quem os frequentava (anos atrás, por exemplo, escrevi brevemente sobre uma experiência que meu pai teve no São João). Apesar de eu nunca ter frequentado esses cinemas, tendo nascido logo quando os cinemas de shopping já haviam se estabelecido, foi inevitável lembrar deles ao longo da sessão de Retratos Fantasmas, documentário de Kleber Mendonça Filho.

Em Retratos Fantasmas, o diretor faz um verdadeiro resgate histórico dos cinemas de rua de Recife, relembrando a popularidade que tinham ao mesmo tempo em que ele faz uma conexão entre esses espaços e sua própria vida e formação cinematográfica. A partir daí, Kleber Mendonça Filho realiza um filme que fala muito sobre como nós temos a capacidade de nos conectarmos a determinados espaços (sejam eles cinemas ou simplesmente as nossas casas) e como, dessa forma, tais espaços acabam ajudando a formar os seres humanos que somos. É algo que o diretor ilustra através de histórias sobre os cinemas (aliás, as imagens de arquivo que ele traz são um primor) e falando até sobre a evolução de sua própria casa, exibindo cenas de curtas que ele dirigiu na residência. Mas essas experiências que ele relata soam tão cotidianas que acaba sendo difícil para o espectador não relacionar com suas próprias experiências de vida e espaços que frequentou. Sendo assim, Kleber Mendonça Filho merece créditos por conseguir tornar universal um projeto que poderia soar puramente pessoal.

Mas, como bem sabemos, são poucos os cinemas de rua que ainda estão firmes no Brasil, de maneira que o destino daqueles de Recife não é muito diferente daqueles de Porto Alegre (e arrisco dizer que isso vale para o país todo). Tendo isso em mente, Kleber Mendonça Filho não deixa de trazer para o centro de sua narrativa uma discussão sobre preservação da memória, focando muito no nosso descaso, já que não é incomum a sociedade escantear ou até abrir mão de determinados lugares mesmo que eles tenham uma importância inegável, fazendo eles se tornarem fantasmas nas áreas em que se situavam. E o diretor pode até iniciar a discussão em um ponto (no caso, os cinemas), mas podemos facilmente incluir outros espaços na conversa, como parques, bibliotecas, teatros e universidades, o que contribui ainda mais com a universalidade da narrativa que ele concebe.

Retratos Fantasmas é nada menos que brilhante. Um filme que serve tanto como um documento histórico quanto como uma celebração da memória e do cinema como espaço de imaginação. Até por isso é ideal que Kleber Mendonça Filho encerre o filme com uma sequência divertidíssima que, situada dentro de um carro, ilustra muito bem o tipo de criatividade que apenas o cinema (como arte ou como espaço físico) pode nos proporcionar em toda sua potencialidade.

Nota:



terça-feira, 5 de setembro de 2023

A Chamada

Recentemente resolvi assistir a Legado Explosivo, um dos vários filmes de ação que Liam Neeson estrelou nos últimos anos. Não darei spoilers, ainda que o longa não seja daqueles que precise ser preservado, mas em determinado momento na história um personagem se vê preso dentro de seu carro, já que há uma bomba embaixo do banco que será acionada caso ele se levante para sair dali. Coincidência ou não, este novo filme protagonizado por Neeson, A Chamada, basicamente não deixa de ser uma versão estendida dessa cena.

Refilmagem do filme espanhol El Desconocido (que não assisti), A Chamada traz Neeson no papel de Matt Turner, um executivo de banco morando na Alemanha e (no modo mais clichê) dá atenção excessiva ao trabalho, relegando sua família. Um dia ele está em seu carro levando seus filhos, Zach e Emily (Jack Champion e Lilly Aspel, respectivamente), para a escola. O que ele não esperava era que durante o trajeto ele receberia uma ligação avisando que há uma bomba no carro, que explodirá caso ele ou seus filhos saiam do veículo e não façam tudo o vilão lhes mandar fazer.

Apesar de o conceito por trás do filme não ser nada novo, lembrando produções como Velocidade Máxima, é preciso dizer que ele é simples o bastante para poder render algo eficaz. Aliás, o próprio Liam Neeson protagonizou Sem Escalas, um longa que não é grande coisa, mas ainda funciona ao colocar o ator em um avião e precisando obedecer ao vilão a fim de salvar os passageiros. Mas A Chamada desde o princípio se mostra distante de conseguir entreter o espectador, conseguindo falhar até mesmo no que deveria ser básico em uma produção como essa: fazer o público se importar com os personagens, que se revelam medíocres. Matt Turner, para começo de conversa, é um marido e pai ausente que faz seu banco ganhar dinheiro mesmo que isso signifique fazer seus clientes perderem fortunas (em determinado momento ele é até descrito como “um orgulho para o capitalismo”). Já seus filhos nos fazem revirar os olhos com suas rebeldias adolescentes e bobas, como ao não gostarem que desliguem seus celulares, sendo que Zach ainda chama o pai pelo nome (um dos clichês que, ao menos para mim, automaticamente estabelece um personagem como uma criatura irritante). E é claro que o arco narrativo ao longo do filme é fazer os personagens mudarem diante da situação de risco em que se encontram, mas a verdade é que além de essa ideia ser tediosamente óbvia, os sinais de evolução dessas figuras são superficiais no máximo, e nem um ator talentoso como Liam Neeson consegue salvar.

Sendo assim, ao invés de torcermos para que os personagens sobrevivam, o único desejo que surge durante a projeção é que o carro exploda de uma vez e encurte a história. Possivelmente isso faria até com que não precisássemos ser guiados pela direção de Nimród Antal, que é burocrática no melhor dos casos, não conseguindo criar tensão em momento algum, nem criar sequências de ação minimamente envolventes (as perseguições com o carro chegam a ser risíveis). Aliás, permitam-me dizer que torcer para a bomba explodir não necessariamente significa torcer pelo vilão, já que até mesmo ele se mostra uma figura estúpida, algo que piora quando vemos o roteiro tentar fazer o personagem parecer muito inteligente, fazendo-o gritar que “pensou em tudo” e “está muitos passos a frente dos outros” mesmo que, na verdade, seu plano seja pavorosamente ruim.

Se Liam Neeson não fosse o protagonista, creio que A Chamada seria um daqueles filmes que nem são exibidos nos cinemas, sendo jogados direto na obscuridade do mercado de video-on-demand. Trata-se de uma experiência sem a menor graça, com reviravoltas previsíveis que fazem jus a pobreza criativa que vemos durante toda a narrativa.

Nota:



quarta-feira, 30 de agosto de 2023

As Tartarugas Ninja: Caos Mutante

Dentre todos os filmes produzidos sobre as Tartarugas Ninja, sejam eles longas em live-action ou animações, a palavra “adolescentes” que os personagens exibem em seu título original (“Teenage” Mutant Ninja Turtles) raramente tinha algum sentido na tela. Não que isso fosse um problema grave naquelas produções, que tinham suas próprias propostas narrativas, mas é um aspecto com o qual o diretor Jeff Rowe (que codirigiu o ótimo A Família Mitchell Contra as Máquinas) e os produtores (dentre eles a dupla Seth Rogen e Evan Goldberg) claramente se preocuparam mais na hora de realizar um novo filme focado na equipe. E o resultado é este As Tartarugas Ninja: Caos Mutante.

O roteiro parte da premissa que já conhecemos: Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello são tartarugas que moram com seu pai e mentor, o rato Splinter, nos esgotos de Nova York depois de terem tido contato com uma gosma mutagênica, vivendo escondidos da sociedade. Mas o quarteto sonha em ser aceito pelos humanos. Para isso, com a ajuda da jovem aspirante a jornalista April O’Neil, eles resolvem utilizar suas habilidades em artes marciais para tentar capturar uma gangue que está aterrorizando a cidade. Eles são pegos de surpresa, porém, quando os bandidos revelam ser animais mutantes como eles, liderados pela figura do Super-Mosca.

É interessante notar como a adolescência das tartarugas surge não tanto pela faixa etária em que elas estão e pela dinâmica que exibem umas com as outras, mas sim pelo que aspiram viver. Com o obscurantismo guiando e limitando suas rotinas, o roteiro desenvolve com naturalidade o fato de eles desejarem ser adolescentes normais que vão à escola, estudam, têm amigos e vivem as experiências comuns dessa fase. Dessa forma, o filme até dialoga com produções como aquelas dirigidas por John Hughes nos anos 1980 (Curtindo a Vida Adoidado até aparece em uma sessão de cinema), trazendo em seu centro personagens que querem viver sua adolescência por saberem a importância dela para sua formação humana, o que é uma grata surpresa considerando que estamos falando de tartarugas que sabem artes marciais, um conceito com o qual o filme poderia se dar por satisfeito.


Já visualmente As Tartarugas Ninja: Caos Mutante é encantador, com Jeff Rowe e sua equipe concebendo o design dos cenários e dos personagens em um formato 2D que lembra páginas de histórias em quadrinhos, o que reverencia o próprio material de origem do filme, além de mostrar que longas como Homem-Aranha no Aranhaverso talvez já estejam fazendo escola. E o filme ainda abraça com gosto certos absurdos. Talvez pudéssemos questionar de onde Donatello tirou seus óculos ou como Michelangelo colocou aparelho nos dentes, mas esses detalhes não são nada quando vemos que o filme já parte da premissa de um rato que ensina tartarugas a lutar, de forma que quaisquer outros absurdos servem até para pincelar a liberdade criativa de Jeff Rowe ao dar vida aos personagens. Além disso, as cenas de ação ganham a tela de maneira ágil, merecendo destaque a sequência em que acompanhamos intercaladamente cada um dos protagonistas ir atrás de chefões do crime, um momento que brilha pela continuidade visual que mantém entre cenas.

Ainda que o roteiro com alguma frequência se revele expositivo e trate de maneira repetitiva a questão do preconceito enfrentado pelos personagens, não fugindo muito do lugar-comum, As Tartarugas Ninja: Caos Mutante mostra ser um longa digno dos personagens divertidos que retrata, algo que eles estavam precisando tendo em vista que as últimas empreitadas deles nos cinemas não haviam sido muito interessantes.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.


Nota: