domingo, 13 de janeiro de 2013

A Viagem

Tom Tykwer e os irmãos Andy e Lana Wachowski são três diretores que foram grandes revelações do final da década de 1990. Apesar de terem feito o ótimo Ligadas Pelo Desejo em 1996, os Wachowski emplacaram mesmo só três anos depois com o excepcional Matrix, enquanto que em 1998 Tykwer ficou conhecido pelo excelente e frenético Corra Lola, Corra. Sendo cineastas com estilos bastante distintos, é uma surpresa vê-los reunidos em um mesmo projeto. Mas A Viagem mostra todo o talento e o cuidado que o trio tem para contar histórias ambiciosas, e isso acaba fazendo com que o filme faça jus ao título que ganhou aqui no Brasil, representando uma viagem grandiosa e absolutamente fantástica.
Escrito pelos próprios diretores, baseado no livro de David Mitchell, A Viagem mostra a jornada de várias almas que reencarnam ao longo de seis histórias, que vão desde o século 19 até o futuro pós-apocalíptico. Nisso vemos como as decisões que eles tomam em uma vida afeta suas encarnações seguintes. A primeira história, em 1849, mostra o advogado Adam Ewing (Jim Sturgess), que passa a ajudar o escravo Autua (David Gyasi) e muda seus conceitos quanto à escravidão. A segunda, em 1930, mostra o amor proibido entre o compositor Robert Frobisher (Ben Whishaw) e o estudante Rufus Sixmith (James D’Arcy), enquanto o primeiro tenta ajudar o também compositor Vyvyan Ayrs (Jim Broadbent) a criar uma obra-prima. Na terceira, em 1973, a jornalista Luisa Rey (Halle Berry) é envolvida em uma perigosa trama sobre o projeto de um reator nuclear, após conhecer o agora velho Rufus Sixmith. Na quarta, em 2012, o editor Timothy Cavendish (Broadbent) é vitima de uma vingança de seu irmão (Hugh Grant), e acaba indo parar em um asilo onde os funcionários maltratam todos os pacientes, o que o faz dar início a um plano de fuga. Na quinta, que se passa na Coréia do Sul de 2144, mais especificamente na Nova Seul, Sonmi-451 (Donna Bae) é uma clone programada para trabalhar em um restaurante, mas após descobrir sua própria natureza se junta a Hae-Jo Im (Sturgess) para uma grande revolução. E na sexta e última história, no futuro pós-apocalíptico, Zachry (Tom Hanks) é o líder de uma tribo que considera Sonmi uma espécie de deusa, mas tudo muda após a chegada de Meronym (Berry), membro de um grupo conhecido como Prescients.
O grande desafio que os diretores enfrentam está no modo como eles estruturaram o roteiro, já que todas as passagens são contadas ao mesmo tempo ao longo da projeção. O trio apresenta logo de cara todas as histórias, como elas serão contadas e quem é a alma protagonista de cada uma delas (o personagem que aparecer com a marca de um cometa). E apesar de a narrativa ser um pouco confusa no início, depois de um tempo o jogo dos diretores fica muito claro e fácil de acompanhar. Aliás, o trabalho de montagem de Alexander Berger é digno de todos os prêmios do mundo (para ter ficado de fora do Oscar, os membros da Academia devem ter tomado algum tipo de sonífero forte antes da sessão), conseguindo intercalar todas as histórias de maneira compreensível, realizando belíssimos raccords (como quando o velho Sixmith pede ajuda no telefone em 1973, e na cena seguinte vemos Cavendish também no telefone explicando seu problema em 2012) e nunca comprometendo o ritmo do filme.
Mas não é só isso. O roteiro de A Viagem mostra praticamente seis filmes em um só. Afinal, as seis histórias representam um gênero cinematográfico diferente, o que mostra toda a grandiosidade do projeto. Temos desde o drama histórico (Ewing e a escravidão) até a ficção científica pós-apocalíptica (a realidade de Zachry e Meronym), passando pelo drama (Frobisher e sua composição), pelo thriller político (Luisa Rey e a trama do reator nuclear), a comédia (Cavendish na clínica) e finalmente a ficção futurística (a revolução com Sonmi-451). E todos os gêneros funcionam maravilhosamente dentro da narrativa, além de causarem diversos tipos de emoções no espectador. Se em um momento rimos do que acontece com Cavendish, no seguinte ficamos tensos com Luisa correndo perigo. Além disso, a belíssima trilha composta por Reinhold Heil, Johnny Klimek e Tom Tykwer (como sempre compondo as músicas de seus filmes) dá o tom que cada gênero precisa, do mais emotivo ao mais cômico.
O design de produção e os figurinos também merecem aplausos por retratar seis épocas diferentes com um cuidado admirável (e mais uma vez, os membros da Academia devem ter apenas fingido assistir ao filme, já que sua perfeição técnica é inegável). O mesmo vale para a belíssima fotografia de Frank Griebe e John Toll, que transita por todas as histórias deixando uma marca diferente, seja ressaltando o clima conspiratório da década de 1970, estabelecendo o ar mais descontraído de 2012 ou o tom um pouco mais acinzentando na era pós-apocalíptica.
Com segurança absoluta na condução do filme, o trio de diretores não só consegue fazer com que a narrativa seja algo envolvente, como ainda mostram talento tanto na construção de cenas mais divertidas (um momento muito engraçado envolvendo Cavendish, outros velhinhos da clínica e os funcionários em um bar) quanto para sequências de ação (como toda a guerra no futuro com Somni e Hae-Jo Im). Para completar, o modo como os cineastas ligam todas as histórias umas nas outras é admirável, fazendo elementos acrescentados no início do filme fazerem sentido mais adiante. Mas mais interessante ainda é ver que todas as histórias se conectam não só por elementos como esses, mas também por um sentimento universal que traz um calor humano incomparável para qualquer pessoa: o amor.
Com um elenco impecável que consegue interpretar com eficiência seus diferentes personagens mesmo sob a excelente e pesada maquiagem (que até causa certo estranhamento inicialmente, mas nada que o costume não resolva), A Viagem é desde já um dos melhores filmes do ano. Tom Tykwer e os irmãos Wachowski realizaram um verdadeiro espetáculo visual e narrativo, que poucas vezes tem se visto no cinema ultimamente.
Cotação:

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Breve Comentário - Uma Família em Apuros

Há muito tempo Billy Crystal e Bette Midler não apareciam como protagonistas de uma história, o que até se deve pelo fato de o auge das carreiras deles infelizmente já ter passado. Ultimamente, eles andam aparecendo como coadjuvantes em filmes que não fazem muito sucesso. Sendo eles talentosos e carismáticos, é uma pena vê-los de volta em um filme como Uma Família em Apuros, uma produção que se não é um desastre completo, também não é grande coisa.
Escrito por Lisa Addario e Joe Syracuse (cujo crédito mais conhecido é a animação Tá Dando Onda), Uma Família em Apuros nos apresenta a Artie Decker (Crystal) e sua esposa Diane (Midler), que são chamados pela filha Alice (Marisa Tomei) para tomar conta dos netos enquanto ela e o marido Phil (Tom Everett Scott) vão viajar. O problema é que eles não veem as crianças há muito tempo e mal as conhecem, tendo se tornado os “outros avós”. Assim, Artie e Diane começam a tentar ganhar o afeto dos pequenos mesmo com um método à moda antiga para cuidar deles, o que além de entrar em conflito com o método adotado por Alice e Phil, ainda dá início a uma série de confusões.
A trama se mostra formuláica e previsível desde o início da projeção, e à medida que vai caminhando exatamente para o que pensamos, Uma Família em Apuros vai ficando cada vez mais bobo. O fato de o roteiro elaborar alguns problemas que precisam ser superados pelas crianças contribui ainda mais para isso. Além do mais, nem todas as piadas funcionam, sendo que algumas não fazem com que ríamos com o filme, e sim do filme, como uma cena em que determinado personagem vomita em cima de uma criança ou um momento específico envolvendo o famoso skatista Tony Hawk.
Aliás, falando nas piadas, o filme tem momentos realmente divertidos, como quando Artie narra os jogos de beisebol ou uma cena em que ele ajuda um de seus netos a ir ao banheiro. Mas Uma Família em Apuros sofre do problema de ter várias cenas sem graça para cada momento interessante, o que é uma pena. Enquanto isso, as crianças se mostram bem chatinhas durante boa parte da projeção, sendo cheias de manias estranhas graças ao modo como foram criados pelos pais, e só melhoram um pouco apenas quando chega o terceiro ato da história.
Com uma dupla de protagonistas simpáticos e que emprestam seu bom humor aos personagens, Uma Família em Apuros não chega a ser uma tortura, mas é uma comédia inofensiva e que acaba sendo esquecida pouco depois do início dos créditos finais.
Cotação:

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Jack Reacher: O Último Tiro

A vida pessoal de Tom Cruise foi alvo de todos os tabloides mais uma vez em 2012, mas pelo menos em termos de filmes este foi mais um bom ano para o ator. Ele foi uma das melhores coisas de Rock of Ages, um musical problemático cujo elenco secundário (que incluía Cruise, Alec Baldwin, Russell Brand, e outros) conseguiu tornar uma experiência divertida. Agora o astro está de volta interpretando um personagem interessantíssimo neste Jack Reacher: O Último Tiro, produção que ainda parece ter potencial para iniciar uma nova franquia de filmes de ação.
Baseado no livro “One Shot”, de Lee Child (que não li), o roteiro escrito pelo diretor Christopher McQuarrie (frequente colaborar nos filmes de Bryan Singer) inicia mostrando cinco pessoas sendo assassinadas por um atirador. As evidências encontradas no local levam a polícia a prender um ex-soldado do exército, James Barr (Joseph Sikora), que pede para os detetives encontrarem um homem chamado Jack Reacher (Cruise). Mas Reacher acaba aparecendo sem precisar de um chamado, e logo vê que há coisas estranhas no modo como tudo ocorreu. Ele então passa a investigar o caso ao lado da advogada de Barr, Helen Rodin (Rosamund Pike), para ter certeza de que o acusado é mesmo culpado.
No momento em que o nome de Jack Reacher é escrito em um pedaço de papel e entregue para os detetives, já é possível ver um pouco da força do personagem, mesmo que ele não tenha dado as caras ainda. E realmente ele é uma figura imponente desde a primeira cena em que aparece. Ao longo do filme, Reacher demonstra ser um homem muito inteligente, de pensamento rápido (o que fica mais do que claro quando ele faz uma conexão entre duas das vítimas), intimidador e bom de briga. É o tipo de personagem que quando quer alguma coisa acaba conseguindo mesmo que tenha que apelar a medidas mais drásticas. Além disso, suas ações são sempre surpreendentes, já que é impossível prever o que ele fará em determinadas situações.
Para completar, Reacher é interpretado com grande carisma por Tom Cruise, e isso nos faz simpatizar rapidamente com o personagem. O ator ainda exibe um timing cômico curioso, o que é responsável por boa parte das risadas que surgem durante o filme, e que surpreendentemente nunca soam involuntárias. São várias as falas de Reacher que acabam divertindo, sendo que uma das melhores delas é “Vou te bater até a morte e beber seu sangue em uma bota!”, que ele diz para um dos capangas do vilão Zec, interpretado por Werner Herzog (sim, o diretor de clássicos como Fitzcarraldo e Aguirre: A Cólera dos Deuses é o vilão do filme). Cruise ainda tem na bela Rosamund Pike uma boa parceira em cena, já que Helen é uma personagem mais vulnerável e a atriz consegue fazer com que nos importemos com ela.
E já que mencionei Werner Herzog, vale dizer que a composição que ele faz de Zec é interessante. Exibindo uma voz rouca e com sotaque, o cineasta surge sempre com uma grande e temível presença em cena. Mas se por um lado a composição de Herzog é boa, por outro o personagem não é dos melhores, sendo um daqueles antagonistas que não colocam a mão na massa. Zec apenas dá ordens para seus capangas e nunca mostra ser uma ameaça por si mesmo, o que lamentavelmente o enfraquece bastante, tornando-o uma figura até meio sem graça.
Jack Reacher pode ser o elemento mais forte do filme, mas Christopher McQuarrie ainda consegue fazer com que a história seja envolvente, e cada passo que o personagem-título dá em suas investigações nos mantêm curiosos com relação ao que acontecerá em seguida. Infelizmente, o diretor falha ao não conseguir colocar obstáculos que realmente desafiem o protagonista em sua missão. Em nenhum momento duvidamos da vitória de Reacher, o que tira um pouco a tensão de certas sequências, como uma luta que ocorre sob a chuva forte no terceiro ato. Isso é até uma consequência do fato de o personagem ser muito bom naquilo que faz e ainda contar com habilidades múltiplas, o que faz com que qualquer pessoa que cruze seu caminho pareça uma barata prestes a ser esmagada por um sapato.
Mas McQuarrie compensa esse detalhe com ótimas sequências de ação que ele conduz com grande segurança, como a perseguição de carros envolvendo Reacher, dois capangas e a polícia, e que ainda por cima é iniciada como se fosse um duelo em um western (a diferença é que no lugar de uma das armas, temos um carro). Além do mais, o diretor sempre consegue manter o espectador a par do que está acontecendo na tela, tendo total controle quanto à geografia das cenas e nunca investindo em uma montagem com cortes rápidos, algo que beneficia principalmente as cenas de luta, como aquela em que Reacher enfrenta cinco valentões do lado de fora de um bar.
Jack Reacher: O Último Tiro termina deixando a esperança para que tenha uma continuação. Não só por ser um filme de ação eficiente, mas também porque seria bom ver o personagem-título em outras histórias. Até onde sei, livros protagonizados por ele é que não faltam.
Cotação:

Oscar 2013 - Indicados

Hoje pela manhã foram anunciados os indicados ao Oscar 2013. Lincoln lidera o páreo com 12 indicações, sendo seguido de perto por As Aventuras de Pi com 11 indicações. Os Miseráveis e O Lado Bom da Vida vêm logo atrás, ambos indicados em 8 categorias.
Mas o anúncio foi repleto de surpresas. Kathryn Bigelow e Ben Affleck, nomes dados como certos para Melhor Direção, deram lugar a Michael Haneke e Benh Zeitlin, sendo que este último é talvez a grande zebra da categoria. Quanto a outras surpresas, Batman: O Cavaleiro das Trevas não foi lembrado nem nas categorias técnicas, enquanto o francês Intocáveis ficou de fora da lista de Melhor Filme Estrangeiro. E Seth MacFarlane, que vai apresentar a cerimônia, foi indicado a Melhor Canção por seu filme Ted.
Já na categoria de Melhor Atriz não houve surpresas, mas vale ressaltar alguns recordes. Aos 85 anos, Emmanuele Riva se tornou a atriz mais velha a ser indicada ao prêmio, ao passo que Quvenzhané Wallis se tornou mais jovem, tendo apenas 9 anos. Assim como falei no dia do anúncio dos indicados ao Globo de Ouro, a maioria dos filmes indicados ainda não estreou no Brasil, então fica um pouco difícil comentar as categorias agora. Mas semana que vem eles já começam a estrear nos cinemas.
A cerimônia do Oscar vai acontecer no dia 24 de fevereiro. Confira a lista completa de indicados.
Melhor Filme
- Amor
- Argo
- As Aventuras de Pi
- Django Livre
- A Hora Mais Escura
- Indomável Sonhadora
- O Lado Bom da Vida
- Lincoln
- Os Miseráveis
Melhor Direção
- Michael Haneke, por Amor
- Ang Lee, por As Aventuras de Pi
- David O. Russell, por O Lado Bom da Vida
- Steven Spielberg, por Lincoln
- Benh Zeitlin, por Indomável Sonhadora
Melhor Ator
- Bradley Cooper, por O Lado Bom da Vida
- Daniel Day-Lewis, por Lincoln
- Hugh Jackman, por Os Miseráveis
- Joaquin Phoenix, por O Mestre
- Denzel Washington, por O Voo
Melhor Atriz
- Jessica Chastain, por A Hora Mais Escura
- Jennifer Lawrence, por O Lado Bom da Vida
- Emmanuelle Riva, por Amor
- Quvenzhané Wallis, por Indomável Sonhadora
- Naomi Watts, por O Impossível
Melhor Ator Coadjuvante
- Alan Arkin, por Argo
- Robert De Niro, por O Lado Bom da Vida
- Philip Seymour Hoffman, por O Mestre
- Tommy Lee Jones, por Lincoln
- Christoph Waltz, por Django Livre
Melhor Atriz Coadjuvante
- Amy Adams, por O Mestre
- Sally Field, por Lincoln
- Anne Hathaway, por Os Miseráveis
- Helen Hunt, por As Sessões
- Jacki Weaver, por O Lado Bom da Vida
Melhor Roteiro Original
- Michael Haneke, por Amor
- Quentin Tarantino, por Django Livre
- John Gatins, por O Voo
- Wes Anderson e Roman Coppola, por Moonrise Kingdom
- Mark Boal, por A Hora Mais Escura
Melhor Roteiro Adaptado
- Chris Terrio, por Argo
- Lucy Alibar e Benh Zeitlin, por Indomável Sonhadora
- David Magee, por As Aventuras de Pi
- Tony Kushner, por Lincoln
- David O. Russell, por O Lado Bom da Vida
Melhor Animação
- Valente
- Frankenweenie
- Paranorman
- Piratas Pirados!
- Detona Ralph
Melhor Filme Estrangeiro
- Amor (Áustria)
- Rebelle (Canada)
- No (Chile)
- O Amante da Rainha (Dinamarca)
- Kon-Tiki (Noruega)
Melhor Direção de Fotografia
- Seamus McGarvey, por Anna Karenina
- Robert Richardson, por Django Livre
- Claudio Miranda, por As Aventuras de Pi
- Janusz Kaminski, por Lincoln
- Roger Deakins, por 007: Operação Skyfall
Melhor Montagem
- William Goldenberg, por Argo
- Tim Squyres, por As Aventuras de Pi
- Michael Kahn, por Lincoln
- Jay Cassidy e Crispin Struthers, por o Lado Bom da Vida
- William Goldenberg e Dylan Tichenor, por A Hora Mais Escura
Melhor Design de Produção
- Sarah Greenwood e Katie Spencer, por Anna Karenina
- Dan Hennah, Ra Vincent e Simon Bright, por O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
- Eve Stewart e Anna Lynch-Robinson, por Os Miseráveis
- David Gropman e Anna Pinnock, por As Aventuras de Pi
- Rick Carter e Kim Erickson, por Lincoln
Melhor Figurino
- Jacqueline Durran, por Anna Karenina
- Paco Delgado, por Os Miseráveis
- Joanna Johnston, por Lincoln
- Eiko Ishioka, por Espelho, Espelho Meu
- Colleen Atwood, por Branca de Neve e o Caçador
Melhor Maquiagem
- Hitchcock
- O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
- Os Miseráveis
Melhor Trilha Sonora
- Dario Marianelli, por Anna Karenina
- Alexandre Desplat, por Argo
- Mychael Danna, por As Aventuras de Pi
- John Williams, por Lincoln
- Thomas Newman, por 007: Operação Skyfall
Melhor Canção
- J. Ralph por “Before My Time”, de Chasing Ice
- Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer por “Suddenly”, de Os Miseráveis
- Mychael Danna e Bombay Jayshree por “Pi’s Lullaby”, de As Aventuras de Pi
- Adele e Paul Epworth por “Skyfall”, de 007: Operação Skyfall
- Walter Murphy e Seth MacFarlane por “Everybody Needs a Best Friend”, de Ted
Melhor Mixagem de Som
- Argo
- Os Miseráveis
- As Aventuras de Pi
- Lincoln
- 007: Operação Skyfall
Melhor Edição de Som
- Argo
- Django Livre
- As Aventuras de Pi
- 007: Operação Skyfall
- A Hora Mais Escura
Melhores Efeitos Visuais
- Os Vingadores
- O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
- As Aventuras de Pi
- Prometheus
- Branca de Neve e o Caçador
Melhor Documentário
- 5 Broken Cameras
- The Gatekeepers
- How to Survive a Plague
- The Invisible War
- Searching for Sugar Man
Melhor Curta Documentário
- Inocente
- Kings Point
- Mondays at Racine
- Open Heart
- Redemption
Melhor Curta de Animação
- Adam and Dog
- Fresh Guacamole
- Head Over Heels
- O Avião de Papel
- Os Simpsons: O Dia Mais Longo na Creche
Melhor Curta-Metragem
- Asad
- Buzkashi Boys
- Curfew
- Dood van een Schaduw
- Henry

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

MacGuffins no Cinema

Com a estreia de Sete Psicopatas e Um Shih Tzu, percebi que nunca falei sobre um elemento muito usado em filmes e que acho muito interessante: MacGuffin. Pra quem não sabe, o termo “MacGuffin” foi criado por Alfred Hitchcock para descrever um elemento que muitas vezes não é realmente importante em um filme, mas serve para motivar os personagens e levar a história pra frente. Quase sempre ele pode ser substituído por qualquer outra coisa e não fará diferença alguma.
Um MacGuffin pode ser um objeto procurado pelos personagens, um local ou até mesmo uma palavra (como vocês poderão ver daqui a pouco). Muitas vezes o filme acaba e a natureza do tal MacGuffin não fica clara, o que já rendeu muitas discussões entre cinéfilos.
Eis uma pequena lista com alguns MacGuffins que ficaram famosos:
- A estátua do Falcão Maltês, em O Falcão Maltês:
Logo em sua estreia como diretor, John Huston usou como MacGuffin o objeto que dá titulo a seu filme. A estátua do Falcão Maltês, uma relíquia que data de 1539, conecta os personagens, faz eles se relacionarem, entrarem em conflito, mas no final mostra não ser muito relevante. Quando um detetive pergunta para Sam Spade (Humphrey Bogart, brilhante como de costume) o que é a estátua, ele apenas responde “É o material do que os sonhos são feitos”, frase que veio a se tornar a mais memorável dessa obra-prima.
- “Rosebud”, em Cidadão Kane:
A última palavra proferida por Charles Foster Kane (Orson Welles) acaba fazendo a imprensa partir em uma investigação para descobrir seu significado. Mas no fim mostra ser apenas uma desculpa para contar toda a história do magnata, mostrando sua ascensão e decadência. Depois de toda a investigação, ninguém descobre o que Rosebud significa. Mas Thompson (William Alland), um dos repórteres, diz em determinado momento que “O Sr. Kane foi um homem que teve tudo e então perdeu tudo. Talvez Rosebud fosse algo que ele queria, mas nunca teve, ou foi algo que ele perdeu”. E Orson Welles mostra a palavra no trenó que ele tinha quando criança, mostrando que aquilo significava a infância perdida do protagonista.
- O Pé de Coelho, em Missão Impossível 3:
Afinal, o que é o tal Pé de Coelho? O filme acaba e essa pergunta fica no ar. Em uma cena, Benji (o divertido Simon Pegg) diz que é o “Anti-Deus”, uma arma que acabará com o mundo. Mas é pura especulação. Em nenhum momento é explicado o que é esse objeto. Mas também não importa, já que ele serve apenas para fazer Ethan Hunt (Tom Cruise) e os outros personagens brigarem para recuperá-lo, e nesse sentido funciona maravilhosamente bem.
- A maleta, em Pulp Fiction: Tempos de Violência:
Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) são enviados pelo chefão Marcellus Wallace (Ving Rhames) para pegar uma maleta no apartamento de Brett (Frank Whaley). Chegando lá, Vincent abre a maleta, liberando um brilho intenso. E é isso. Ela causa vários momentos tensos, como a discussão no final do filme entre Jules e Pumpkin (Tim Roth), e nem ficamos sabendo o que existe ali dentro. Mas isso não impediu as pessoas de especularem quanto isso. A lenda mais famosa é a de que se trata da alma de Marcellus. Mas há quem diga que a maleta contém os diamantes roubados em Cães de Aluguel, uma tese que gosto muito pela conexão interessante que cria entre um filme e outro. Conexão que até existe mesmo, considerando que Vincent Vega é irmão do Mr. Blonde (interpretado por Michael Madsen). O diretor Quentin Tarantino já disse que o conteúdo da maleta é qualquer coisa que o espectador quiser.
- A Arca da Aliança, em Os Caçadores da Arca Perdida:
A franquia Indiana Jones inteira tem MacGuffins (o Santo Graal, por exemplo, não só apareceu no terceiro filme, como ainda moveu os personagens de O Código Da Vinci e Monty Python em Busca do Cálice Sagrado). Mas preferi falar sobre apenas um deles. A Arca da Aliança seria o objeto onde estão guardadas as tábuas dos Dez Mandamentos, e foi desejo não só de Indy, mas também dos nazistas, o que resultou em diversas confusões ao longo da jornada dos personagens, o que é típico da franquia. No final, a relíquia acaba mostrando ter poderes arrasadores, dando um destino assustador para os vilões.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sete Psicopatas e Um Shih Tzu

O cineasta Martin McDonagh vem mostrando ter talento para criar histórias envolventes que ainda divertem com suas belas doses de humor negro. Se isso já ocorria com eficiência em sua estreia como diretor no ótimo curta-metragem Six Shooter (que ganhou o Oscar da categoria em 2006), só melhorou em seu filme seguinte, o excelente Na Mira do Chefe. Agora McDonagh lança Sete Psicopatas e Um Shih Tzu, e mais uma vez é eficiente no modo como conduz a história e seu lado mais cômico, além de conseguir inserir o filme em um exercício de metalinguagem muito interessante.
Escrito pelo próprio McDonagh, Sete Psicopatas e Um Shih Tzu acompanha Marty (Colin Farrell), um roteirista que está com dificuldades em escrever seu mais novo filme, intitulado “Sete Psicopatas”. Seu melhor amigo, Billy (Sam Rockwell), é um ator fracassado que com a ajuda de Hans (Christopher Walken) tenta ganhar algum dinheiro fácil sequestrando cães, apenas para depois “acha-los” e ganhar a recompensa dos donos. Um desses cães é Bonny, o Shih Tzu do mafioso Charlie (Woody Harrelson), que promete matar quem pegou seu amado cão, algo que resulta em uma série de situações imprevisíveis.
Existe um nome melhor para o tal Shih Tzu, e este seria o famoso termo criado pelo mestre Alfred Hitchcock: “MacGuffin”. Afinal, ele é um elemento que não tem muita relevância na história porque o foco do filme é outro (o roteiro de Marty), assim como acontece com a maleta em Pulp Fiction ou com o Pé de Coelho em Missão Impossível 3. Ele serve apenas para levar a trama para frente, fazendo os personagens realizarem coisas absurdas. Sendo assim, Bonny cumpre bem seu papel narrativo. Além do mais, ver todas as tragédias do filme acontecerem por causa de algo tão pequeno já arranca uma boa parcela de risos.
Sete Psicopatas e Um Shih Tzu é claramente uma pequena brincadeira que o diretor-roteirista faz com o processo de escrever um filme, fazendo até algumas críticas a convenções que vivem aparecendo na tela grande, e Marty seria o próprio Martin McDonagh. Isso já estabelece bem a metalinguagem que o cineasta propõe, já que o que se vê na tela é basicamente um filme sendo desenvolvido ao longo da história. Em vários momentos surgem algumas cenas do roteiro de “Sete Psicopatas” ao mesmo tempo em que elas são narradas pelos personagens, e a montagem de Lisa Gunning merece créditos por conseguir intercalar muito bem realidade e ficção sem sacrificar a fluidez da narrativa.
O filme consegue divertir com suas piadas e as situações nas quais os personagens se metem, e é aí que o humor negro de McDonagh aflora. Um dos vários momentos engraçados de Sete Psicopatas e Um Shih Tzu é quando o cineasta inclui uma sequência (que inclusive conta com uma participação marcante de Tom Waits) que mostra o porquê de alguns famosos serial killers nunca terem sido identificados e presos, o que inclui até o Zodíaco, assassino de San Francisco que rendeu o magnífico filme de David Fincher. Além disso, é bom ver que mesmo diante da atmosfera cômica da história McDonagh consegue impor um bom nível de tensão em algumas cenas, como quando Charlie faz uma visita a um hospital e conversa com uma paciente.
No entanto, o trabalho de McDonagh poderia ficar comprometido caso ele não tivesse um elenco tão afinado como o que aparece aqui. Colin Farrell empresta seu carisma habitual a Marty, fazendo dele um cara comum que entra em pânico ao se ver em uma situação violenta e inesperada. Sendo assim, não é à toa que ele é o único personagem importante no filme a não ser estabelecido como um psicopata pelo roteiro, enquanto que os outros se encaixam de alguma maneira nessa definição. Se Hans consegue aparentar não sentir absolutamente nada pela morte de um personagem, o vilão Charlie mostra toda sua loucura pelo modo como age por causa de seu cachorro. É até divertido vê-lo chorar em determinada cena, já que ele demonstra ser uma figura durona e ameaçadora. Ambos os personagens são bem construídos por Christopher Walken e Woody Harrelson, respectivamente, que até aparecem mais contidos do que de costume, além de exibirem um senso de humor impecável.
Mas é Sam Rockwell quem brilha mais do que os outros. Interpretando Billy com grande intensidade, o ator consegue transformá-lo em uma figura divertida, carismática e até mesmo excêntrica. Em vários momentos, Billy parece pensar muito mais em ficção do que na realidade onde vive, e é interessante ver que ele fica meio frustrado quando consegue ter uma ideia que funcionaria em um filme, mas não no mundo real. A cena em que ele descreve como seria o tiroteio no final de “Sete Psicopatas” é talvez a melhor do filme, e boa parte se deve a grande atuação de Rockwell.
Apesar de até agora ter uma curta filmografia, Martin McDonagh não fez nenhuma obra decepcionante. Sete Psicopatas e Um Shih Tzu é mais um belo trabalho, onde o diretor mostra novamente ser um nome que merece atenção.
Cotação:

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Detona Ralph

Quem acompanha produções baseadas em jogos sabe que essa área ainda não trouxe um filme realmente memorável. Algumas produções até não chegam a ser exatamente ruins, como Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo e Lara Croft: Tomb Raider, mas é inegável que os jogos vêm rendendo no cinema muito mais bombas (nesse sentido, filmes como Super Mario Bros. e Alone in the Dark acabam sendo inesquecíveis) do que bons entretenimentos. Nem mesmo a franquia mais duradoura dessa área (Resident Evil) tem filmes memoráveis. Dito isso, Detona Ralph pode não ser a adaptação de um jogo existente, mas o retrato que faz desse universo é divertidíssimo, ao mesmo tempo em que nos apresenta a personagens que conquistam a nossa simpatia rapidamente.
Roteirizado por Jennifer Lee e Phil Johnson e com argumento deste último em parceria com Jim Reardon e o diretor Rich Moore, Detona Ralph é centrado no personagem-título (voz original de John C. Reilly), o vilão de “Fix-It Felix Jr.”, jogo no qual ele destrói um prédio que deve ser reconstruído pelo jogador que controlar Felix (Jack McBrayer). Mas após ficar fazendo sempre a mesma coisa durante 30 anos e ser tratado como um nada por todos, Ralph se rebela e decide que agora quer ser um herói. Para tentar mudar de lado, ele não hesita em invadir a área do jogo “Hero’s Duty” em busca de uma medalha que lhe conceda tal valor, o que além de pôr várias coisas em risco, acaba o colocando no caminho de Vanellope (Sarah Silverman), menina que é sempre impedida de correr em seu jogo, “Sugar Rush”, dominado pelo Rei Doce (Alan Tudyk).
O modo como o roteiro desenvolve o universo em que Detona Ralph se passa chama a atenção por tentar fazer uma versão virtual do nosso mundo. Ser vilão, mocinho ou figurante em um jogo é como um trabalho para os personagens, e o expediente termina no momento que o fliperama fecha. Mantendo essa lógica interna, o filme apresenta até mesmo sua versão de mendigos, representadas por figuras de jogos que foram desativados do fliperama, como “Q*bert”. Além disso, são várias as divertidas gags que fazem referência a jogos, como quando Kano (de “Mortal Kombat”) executa um conhecido golpe em um zumbi. Mas as gags não ficam presas só a referências, sendo a melhor delas o modo como as balas de Mentos aparecem.
Aliás, já que mencionei referências a jogos, um pensamento que me ocorreu antes mesmo de entrar na sala de cinema foi o quanto que a Disney deve ter pagado em direitos autorais para as empresas de games, uma vez que são vários os personagens famosos que desfilam pelo filme em pequenas aparições. Só na divertida terapia em grupo com vilões vemos M. Bison, Zangief (ambos de “Street Fighter”), Bowser (de “Super Mario Bros.”) e Robotnik (de “Sonic”). Mas o mais interessante é que o diretor Rich Moore não usa gratuitamente as pontas em que os personagens aparecem, utilizando-as para fazer com que o universo do filme fique mais próximo de nossa realidade.
Moore ainda comanda Detona Ralph com uma energia que combina perfeitamente com o universo aventureiro da história, e isso ajuda a fazer com que o filme se torne um experiência bastante envolvente. Além disso, o diretor conduz muito bem as cenas de ação, como a parte em que Ralph aparece em “Hero’s Duty”, além da corrida que ocorre no terceiro ato. Sem falar que o cineasta tem outros momentos inspirados, como quando vemos a passagem de tempo no fliperama logo no início do filme, sequência que ainda mostra com eficiência a evolução dos games, que foram ficando cada vez mais modernos.
Assistindo Detona Ralph, chega a ser difícil não pensar que o filme faria uma boa sessão dupla com o divertido Megamente. Enquanto a animação da Dreamworks mostra a ascensão de um vilão e a falta que ele passa a sentir da figura do herói, este novo filme mostra o contrário, ainda que meio de relance. Afinal, “Fix-It Felix Jr.” vira um jogo com defeito sem a presença de Ralph, já que Felix não pode concertar nada se não há ninguém para destruir. Dessa forma, Detona Ralph se torna mais um filme a mostrar o quanto heróis e vilões se completam de alguma maneira, e faz isso sem precisar ficar martelando tal informação o tempo todo ao longo da projeção.
Mas é com seus personagens que Detona Ralph realmente conquista o espectador. Apesar de ser um vilão, Ralph é extremamente simpático, e acaba sendo lamentável que ele seja tratado com indiferença por todos ao seu redor, o que faz suas ações se tornarem compreensíveis. Já Vanellope surge irritante em sua primeira cena, mas aos poucos se revela uma menina adorável, e a amizade que ela desenvolve com Ralph é tratada com sensibilidade por Moore, representando o ponto alto do filme, apesar de contar com um conflito um tanto previsível no meio do caminho. Enquanto isso, Felix vive com a Sargento Calhoun (Jane Lynch), de “Hero’s Duty”, uma trama que apesar de não ser tão interessante quanto a aventura envolvendo Ralph e Vanellope, conquista por ter a sorte de a dupla também se mostrar cativante.
Representando ainda uma bela viagem nostálgica, Detona Ralph é talvez a melhor animação de um ano que não foi muito bom para o gênero. E agora que uma continuação foi confirmada, resta esperar que haja mesmo mais uma história para ser contada com esses ótimos personagens, e que não sirva apenas para mostrar outras figuras conhecidas de games.
Obs.: A Disney acertou duas vezes. O curta-metragem O Avião de Papel, que antecede Detona Ralph, é belíssimo. Além de misturar computação gráfica e animação tradicional de um jeito muito interessante, é um filme divertido, tocante, com personagens carismáticos e uma história bem bacana.
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