Aproveitando a estreia de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o blog faz agora um pequeno especial sobre os filmes do Homem-Morcego nos cinemas. A franquia cinematográfica de Batman pode ser uma boa representação de uma fênix. Afinal, depois de se estabelecer como algo interessante nos filmes dirigidos por Tim Burton, o personagem viu suas histórias irem ao fundo do poço a partir da metade da década de 1990, e foi preciso quase uma década para que se recuperasse, ressurgindo das cinzas. Hora de fazer essa pequena recapitulação.
Batman: O Homem-Morcego
O primeiro filme estrelado por Batman e os outros personagens de suas HQs veio em 1966. Batman: O Homem Morcego havia sido planejado para fazer parte da famosa série Batman, estrelada por Adam West e Burt Ward. Mas acabou sendo lançado nos cinemas para aproveitar a popularidade do programa, que durou três temporadas.
Batman: O Homem Morcego tem problemas óbvios, como os diálogos explicativos demais (em certo momento Batman fala “Se tirarmos nossas máscaras, nossas identidades serão reveladas”, e este é o menor dos exemplos) e cenas de ação que são bastante bagunçadas. Mas consegue ter seus momentos de pura diversão, como a cena em que Batman corre para se desfazer de uma bomba (assista o video abaixo), ou o confronto final de Batman e Robin contra os vilões Coringa (Cesar Romero), Pinguim (Burgess Meredith, também conhecido como o treinador de Rocky Balboa, Mickey Goldmill), Charada (Frank Gorshin) e Mulher-Gato (Lee Meriwether), que conta com as famosas onomatopeias da série de TV.
Apesar dos absurdos que se vê ao longo da história (como no início, quando o herói é mordido por um tubarão que havia engolido uma mina e, por isso, explode ao cair no mar), Batman: O Homem Morcego pode não ter sido um grande começo para o personagem nas telonas, mas é um filme no mínimo curioso e pelo menos em termos de diversão é bem melhor que as bombas que o herói ainda iria enfrentar (e que comentarei daqui a pouco).
A Fase Sombria de Tim Burton
Em 1986, Tim Burton aceitou o trabalho de levar o personagem de volta às telonas. Lançando Batman em 1989 com Michael Keaton no papel principal (algo que os fãs do personagem não gostaram nenhum pouco a princípio), Burton apresentou um filme com um tom muito mais sério, em uma Gothan City que parecia um pesadelo graças ao habitual estilo gótico do diretor, o que é bastante apropriado em uma cidade bastante violenta. Mesmo com uma abordagem mais sombria o filme tem momentos divertidíssimos, e muito se deve a bela interpretação de Jack Nicholson como o Coringa.
Em 1992, veio a continuação Batman: O Retorno e um tom ainda mais sombrio do que aquele visto anteriormente. Com o Pinguim (Danny DeVito) e a Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer) como principais vilões, a história pouco se concentra em Bruce Wayne, focando muito mais seus antagonistas, enquanto que o herói ganha mais atenção em seu relacionamento com Selina Kyle. Com algumas falas de duplo sentido (em uma cena, quando encontra a Mulher-Gato, o Pinguim diz “Just the pussy I've been lookin' for!”, que prefiro não traduzir), o roteiro do filme certamente precisaria de algumas alterações para ser produzido hoje.
Foram dois filmes interessantes, que estabeleceram bem o tipo de universo que Batman deveria percorrer. Uma pena que tudo começaria a virar um grande carnaval três anos mais tarde.
O Erros de Joel Schumacher
A bilheteria de Batman: O Retorno ficou abaixo dos números esperados pela Warner, e o estúdio resolveu tirar a abordagem sombria na qual Tim Burton havia mergulhado a franquia. No entanto, ele ficou como produtor de Batman Eternamente e ajudou a escolher Joel Schumacher para assumir a cadeira de direção do terceiro filme, que ainda faria o cineasta ser chamado para uma quarta produção (esta sem qualquer envolvimento de Burton).
Com o objetivo de fazer algo mais “família” e divertido para o público, Schumacher e os roteiristas (um deles sendo o medíocre Akiva Goldsman, e é vergonhoso que esse cara tenha um Oscar na estante, ainda que seja por um bom filme) acabaram transformando Batman em um verdadeiro festival de cafonice. Repleto de cores quentes e gags que buscam o riso fácil, Batman Eternamente e Batman & Robin em nada lembram o universo criado por Tim Burton, além de contar com os famosos mamilos na roupa do herói. Batman Eternamente até diverte em alguns momentos, mas muito pouco diante de tantas escolhas erradas.
Tudo piora em Batman & Robin, lançado em 1997, no qual as cenas de ação são uma bagunça, o roteiro muito capenga, o elenco mal escalado e as gags não fazem com que ríamos com o filme, e sim do filme, transformando tudo em uma experiência desagradável. Até George Clooney (um ator e diretor excepcional, mas que foi um Batman fraquíssimo) se envergonha, e volta e meia faz piadas com a produção.
Batman ficaria no limbo durante alguns anos, até que em 2003 um certo cineasta britânico foi contratado para dar nova vida ao herói.
Christopher Nolan e a Trilogia do Cavaleiro das Trevas
Com Christopher Nolan no comando, Batman Begins chegou em 2005 apenas como mais um filme de super-herói no meio de tantas outras produções. Mas surpreendeu com sua história de origem extremamente eficiente e também com o viés mais realista conferido por seu ambicioso diretor. Gotham City, por exemplo, se tornou um lugar muito mais real do que aquela cidade de visual gótico apresentada por Tim Burton, e o fato de ela ser dominada pelo medo, pela violência e pela corrupção é muito mais explorado. Até a própria figura de Batman, seus acessórios e os vilões que ele enfrenta se tornaram mais críveis. E Nolan achou em Christian Bale (um ator espetacular) o Bruce Wayne perfeito.
Dando continuação a história de Batman Begins viria Batman: O Cavaleiro das Trevas, um dos melhores filmes de 2008. Trazendo um embate pesado e psicologicamente desgastante entre Batman e o Coringa (Heath Ledger), o filme não pode ser considerado apenas um filme de super-herói. É uma obra que não deixa nada a desejar a clássicos policiais como Fogo Contra Fogo, de Michael Mann.
Tendo no Coringa um dos melhores vilões dos últimos anos (Ledger deixou para trás todos os intérpretes do personagem, inclusive Jack Nicholson no filme de Burton, e merecidamente ganhou um Oscar póstumo), Batman: O Cavaleiro das Trevas é o filme no qual várias adaptações de quadrinhos começaram a sonhar em se tornar. Christopher Nolan transforma Gotham City em uma cidade caótica, um lugar no qual até o ser humano mais correto pode se tornar um criminoso (como diz o Coringa “Loucura é como a gravidade. É preciso apenas um empurrãozinho”).
Nesses dois filmes, é fascinante constatar que Nolan acertou em cheio ao tratar Batman não só como um homem que luta contra o mal que assola uma cidade (e que está disposto a ficar marcado como inimigo para protegê-la), mas também como um símbolo que pode deixar uma marca muito maior por onde passar.
Esperemos que Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge finalize bem uma trilogia tão ambiciosa. O filme estreia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira.
Ano passado, quando lançou Carros 2, a Pixar conseguiu fazer seu primeiro filme realmente decepcionante. Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer, afinal até os gênios falham em algum ponto de suas vidas. Com isso em mente, seria difícil que o estúdio fizesse logo em seguida um filme de qualidade igual ou pior que a da continuação das histórias de Relâmpago McQueen e Mate. Sendo o primeiro filme original da Pixar desde Up: Altas Aventuras, Valente não chega a ser um grande retorno do estúdio de John Lasseter à boa forma que exibia, por exemplo, na trilogia Toy Story, sendo um filme que se salva em grande parte graças a sua protagonista.
Escrito pelos diretores Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell ao lado de Irene Mecchi, e baseado no argumento de Chapman, Valente nos apresenta a Merida (voz na versão original de Kelly Mcdonald), a jovem princesa do reino de Dunbrock. Sua mãe, a Rainha Elinor (Emma Thompson), faz de tudo para transformá-la em uma dama, enquanto que seu pai, o Rei Fergus (Billy Connolly), não vê muito problema na garota saber se defender um pouco. Ao se recusar a seguir as tradições da família e não deixar que sua mão seja competida pelos príncipes dos três reinos vizinhos, Merida entra em conflito com Elinor e com a ajuda de uma bruxa (Julie Walters) arranja um feitiço para fazer sua mãe mudar de ideia quanto ao que está acontecendo. Mas o plano não sai como desejado e a jovem acaba transformando Elinor em um urso.
Filmes de princesa sempre foram uma área da Disney, então é um pouco surpreendente ver a Pixar mexendo com esse tema. Mas Valente tem em Merida mais uma grande personagem para a coleção do estúdio. Ela é a verdadeira razão de ser do filme, que poderia fracassar por completo caso contasse com uma protagonista menos interessante. Merida conquista por ser uma figura independente e com grande força de vontade para lutar por aquilo que acha certo, além de não ser uma típica donzela em perigo. Não deixa de ser interessante o detalhe de sua arma predileta ser o arco e flecha, já que seu pai diz em certo momento que “flechas apontam o caminho”. Quando usa a arma, Merida acerta o alvo que quiser, o que é um reflexo daquilo que ela mais deseja: ser livre para seguir o caminho que quer.
Sempre que foca outra coisa que não seja sua protagonista, Valente perde muito de sua força, e o roteiro tenta compensar isso com o riso. As várias gags que aparecem ao longo da história são constantes, como se fossem uma atração à parte no filme, e isso não acontecia muito nas animações da Pixar, que sempre se concentrava mais em seus personagens e na história do em que tentar fazer rir disparando piadas para todos os lados. Sendo um humor físico, o roteiro investe muito dessas gags na rainha se atrapalhando diante da situação de ser um urso, além de colocar outros personagens da realeza se atrapalhando também. É engraçado, mas depois de um tempo fica um pouco repetitivo. As piadas também se concentram bastante nos três irmãos caçulas da garota, que cumprem satisfatoriamente seu único propósito: o de alívio cômico. Se não fosse por isso, os pestinhas seriam completamente descartáveis.
O roteiro ainda demonstra um pouco de falta de imaginação ao utilizar o velho clichê do limite de tempo que, se ultrapassado, transformará a situação em algo permanente (Shrek 2 é o primeiro filme que me veio a cabeça nesse momento). Isso deixa o filme até um pouco previsível, além de surgir como algo realmente necessário apenas no final, quando o tempo está quase acabando. Até então, a tensão era imposta muito mais pela urgência de Merida em tentar fazer sua mãe voltar ao que era antes. Além disso, é lamentável que o filme apresente personagens interessantes, como a bruxa e o Rei Fergus, e não dê muita atenção a eles, sendo que a primeira é descartada pouco depois de aparecer.
Logo no início, ao mostrar a infância da protagonista, o roteiro estabelece a relação entre Merida e Elinor de forma bastante amorosa, ainda que a rainha coloque algumas restrições na filha (ela só está livre de suas lições de princesa em um dia da semana, por exemplo). Mesmo assim, a relação entre mãe e filha consegue ser um dos pontos altos de Valente. O modo encontrado para que as duas personagens tentem se entender é um tanto exagerado, mas Valente consegue belos momentos quando se concentra em Merida e Elinor se reaproximando, como em uma cena em que elas comem peixe na cachoeira.
O trio de diretores dá atenção a certos detalhes que ajudam a animação a ser bonita e realista, como quando os cabelos de Merida se movem por causa do vento ou a maneira como uma flecha treme após ser disparada. Eles ainda conseguem mudar o tom do filme de maneira rápida e natural em determinadas cenas. Se em um segundo temos um ambiente tranquilo, no seguinte o perigo pode tomar conta. Isso ocorre sempre que aparece o urso Mordu, o vilão da história (se é que ele pode ser classificado dessa forma, já que ele sempre age por instinto e não por ter algo contra os personagens). Com seus pelos desgrenhados e dentes afiados, Mordu consegue ser ameaçador em todas as cenas em que aparece, nos fazendo temer pelo destino dos personagens.
Por ser melhor que Carros 2 o filme já merece créditos, mas Valente consegue ser um entretenimento agradável, ainda que esteja longe de ser uma das melhores obras da Pixar. Esperemos que o estúdio volte ano que vem com um filme que relembre seus excelentes tempos.
Obs.: O curta-metragem La Luna, que passou antes do filme, é bem interessante.
Cotação:
Quando duas crianças brigam no colégio de um jeito inesperado ou exagerado, como lutando a socos e pontapés, o que as leva a uma ação tão desnecessária e violenta? Muitas vezes há algo nos bastidores, ou seja, na casa dessas crianças, onde o ambiente pode não ser dos mais tranquilos ou a própria educação que receberam pode ser meio problemática. Nesse sentido, o foco acaba indo para os pais das figuras. O grande diretor Roman Polanski se concentra exatamente nessa parte em seu novo e interessante filme, Deus da Carnificina. O que poderia ser uma obra dramaticamente pesada acaba sendo um estudo de personagens não só eficiente, mas também muito divertido.
Escrito pelo próprio Polanski em parceria com Yasmina Reza, e adaptado a partir da peça dessa última, Deus da Carnificina acompanha uma reunião de dois casais, Penelope e Michael Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly) e Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz), que procuram resolver amigavelmente uma briga feia entre seus filhos. Mas aos poucos, eles mesmos começam a brigar, discutindo por motivos que vão desde a personalidade de cada um até os interesses que demonstram, além da briga entre os garotos.
Mostrando de maneira rápida e inesperada o motivo que inicia toda a discussão, Polanski não perde tempo e quando apresenta seus personagens já deixa muito claro algumas diferenças entre eles, sendo que boa parte delas são definidas pelos figurinos. O casal Longstreet aparece usando roupas mais simples e de cores mais simpáticas, o que ressalta a simplicidade da família, que se torna ainda mais evidente quando ficamos sabendo quais são suas profissões: Michael trabalha vendendo produtos como descargas de vasos sanitários e Penelope é uma escritora. Já os Cowan parecem ser um casal que frequenta a alta sociedade, aparecendo com roupas mais elegantes e de cores mais escuras, além de terem profissões que à primeira vista poderiam ser consideradas de maior sucesso: Nancy é uma corretora e Alan um advogado.
Tirando a cena inicial e a final, Deus da Carnificina se passa totalmente no apartamento do casal Longstreet e em tempo real. Dessa forma, é admirável ver que Polanski consegue mudar o tom do filme aos poucos e naturalmente à medida que a história se desenrola naquele lugar. Se no início temos uma conversa amigável (apesar de os personagens ficarem segurando alguns pensamentos para si mesmos), as coisas vão ficando mais tensas e agitadas ao longo do filme. Em certo momento a discussão chega ao ponto de parecer um luta de boxe, já que pelo menos duas vezes os casais chegam a sair do mesmo cômodo, se separando para falar o que realmente pensam, como se isso fosse os intervalos entre os “rounds”.
O modo infantil como os personagens reagem em determinados momentos é um dos elementos mais interessantes de Deus da Carnificina. Isso por que é dessa forma que as pessoas agem quando perdem, quebram ou danificam um objeto com o qual se importam demais. Em uma cena do filme, Alan fica emburrado e encolhido depois de um pequeno acontecimento com seu precioso celular (e é até uma pena que o roteiro sinta a necessidade de incluir uma fala de Nancy indicando esse estado do marido, o que é explicativo demais e desnecessário). Não importa a idade, ficamos tristes quando algo ruim acontece com nossos brinquedos. Talvez o filme mostre isso um pouco exageradamente, mas aí também reside o lado cômico do projeto.
Algo que chama muito a atenção é que nenhum dos lados está realmente certo com relação a situação dos filhos. Se um dos garotos usou um pedaço de pau para bater em um colega, este deve tê-lo provocado muito, o que fica claro na cena inicial. Só por que um deles teve uma reação mais extrema, não muda o fato de o outro também estar errado. E o roteiro consegue refletir essa imparcialidade nos quatro personagens centrais, fazendo com que nenhum deles soe muito bonzinho. Considerando que estamos falando das pessoas que colocaram os meninos no mundo e os criaram, fica claro o porquê de ambas as crianças terem errado ao brigarem, já que nem seus pais são pessoas muito normais apesar de tentarem e aparentarem ser.
Qualquer filme de comédia obrigatoriamente precisa ter momentos engraçados, e mesmo sendo dirigido por Roman Polanski (um cineasta mais conhecido por filmes com um tom muito mais sério como O Bebê de Rosemary, Chinatown e O Pianista), Deus da Carnificina possui situações divertidíssimas. Além das cenas em que alguns dos personagens soam extremamente infantis, o roteiro conta com tiradas interessantes, como quando Alan reconhece que seu filho é um maníaco, o que surpreende por ser uma coisa que nenhum pai que se prese falaria. Aliás, Alan é o responsável pela maior parte das risadas do filme, e muito se deve ao fato de Christoph Waltz exibir um timing cômico impecável. O modo cínico como o ator fala alguns de seus diálogos resulta em momentos hilários, como quando Alan fala para Nancy “O casamento deles já está indo para o ralo, nós não precisamos competir”.
Enquanto Waltz surge engraçado, o resto do elenco também se sai bem em suas atuações. John C. Reilly, interpretando um personagem que inicialmente quer ver tudo na maior harmonia possível, diverte quando Michael passa a não se importar mais em pregar a paz na situação, chegando a falar abertamente que ele e sua esposa são "dois filhos das p...”. Já Jodie Foster e Kate Winslet retratam bem suas personagens como duas pessoas cansadas da vida que estão levando. É uma pena, no entanto, que suas atuações caiam um pouco de qualidade depois que Penelope e Nancy bebem algumas doses de uísque. Enquanto Foster começa a exagerar no overacting, Winslet não convence muito bem com a embriaguez de sua personagem.
A última comédia que Roman Polanski havia lançado foi Piratas, em 1986, um filme que foi mal recebido pela crítica, que considerou este um de seus piores trabalhos (particularmente, ainda não assisti para poder opinar). Levando isso em conta, Deus da Carnificina é um filme no qual o diretor surpreende, não só por ele ter em mãos personagens interessantes, mas também por conseguir fazer com que o humor funcione muito bem.
Cotação:
Lançando um filme por ano, Woody Allen é um dos realizadores mais produtivos do cinema atual. Não tirando férias desde 1982 (algo que comentei na minha crítica de Meia-Noite em Paris), o cineasta chega a surpreender com seu sistema de produção, já que nem todos os diretores conseguem chegar aos 76 anos fazendo tantos filmes. No entanto, em meio a tantas obras, não é sempre que Allen chega a fazer um filme que lembre seus tempos de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Nos últimos dez anos, o diretor fez poucas obras que agradaram a ponto de ficar na memória após a sessão, sendo Match Point e Meia-Noite em Paris as melhores. A maioria parece ter sido feita mais para manter a produção em dia do que para ser algo realmente marcante. Nisso, entram produções como Igual a Tudo na Vida, Scoop: O Grande Furo e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Apesar de divertir, Para Roma, Com Amor não deixa de ser mais um desses filmes.
Escrito pelo próprio Woody Allen, Para Roma, Com Amor acompanha vários personagens em quatro histórias diferentes, todas situadas na belíssima cidade do título. Hayley (Alison Pill) e Michelangelo (Flavio Parenti) são um jovem casal e os pais dela, Jerry (o próprio Woody Allen, voltando à frente das câmeras depois de Scoop) e Phyllis (Judy Davis), vêm para Roma a fim de conhecer o rapaz e sua família. No meio de tudo isso, Jerry vê um grande talento no pai de Michaelangelo, Giancarlo (o carismático Fabio Armilliato), que poderia ficar famoso como cantor de ópera. Temos também a história de Leopoldo (Roberto Benigni), um cidadão comum que se transforma em celebridade da noite para o dia. Além deles, o arquiteto John (Alec Baldwin) tenta ajudar o estudante Jack (Jesse Eisenberg) a lidar com a vinda de Monica (Ellen Page), a melhor amiga de sua namorada, Sally (Greta Gerwig), e que pode colocar a relação em risco. Por último, há também os recém-casados Tim (David Pasquese) e Milly (Alessandra Mastronardi), que se perdem na cidade em plena lua-de-mel, e enquanto ele tem que lidar com sua família e a prostituta Anna (Penélope Cruz), ela se vê em meio a experiências e oportunidades únicas.
Com tantas histórias paralelas, Para Roma, Com Amor lembra filmes como Simplesmente Amor. A diferença é o fato de que Woody Allen em nenhum momento faz suas histórias se ligarem de alguma forma. Seguindo cada uma delas até seus respectivos desfechos, a montagem rapidamente se torna episódica, o que piora pelo fato de nem todas as histórias serem interessantes. A trama envolvendo Tim e Milly, por exemplo, conta com alguns personagens aborrecidos, como os membros da família dele e Anna, além de ter poucas situações realmente engraçadas. Enquanto isso, a história envolvendo Jerry e sua família perde um pouco de espaço, já que Allen não consegue dar igual importância para todas as partes de seu filme, o que é lamentável porque essa é a história mais interessante e divertida do projeto.
O roteiro de Allen conta com alguns clichês, mas mesmo assim consegue divertir. O tipo de triângulo amoroso que existe entre Jack, Sally e Monica é algo que já se viu em muitos filmes, mas que diverte pelo modo como é tratado, por que Jack sabe desde o início sobre o risco que sua relação com Sally pode correr, e as cenas em que John serve como uma espécie de voz da consciência/experiência para o garoto resultam em bons momentos. Mas é o próprio Woody Allen, como ator, que consegue tirar mais risadas. Tendo em mãos um personagem típico de sua filmografia (excêntrico, inseguro e pessimista), Allen diverte com o jeito de agir de Jerry. Em certo momento, ele fica desconfortável depois de saber que Giancarlo o cumprimentou sem ter lavado as mãos. Mas como sua história não ganha tanta atenção, Allen infelizmente não aparece tanto quanto poderia.
Os diálogos criados por Woody Allen também conseguem divertir, ainda que estes não sejam geniais como vários que apareceram em sua obra anterior ou em sua carreira como um todo. Esse quesito se destaca um pouco mais quando envolve Jerry e Phyllis, já que são várias as tentativas dela, como psiquiatra, de analisar as atitudes do marido, e ele contesta todas as conclusões. Já a história de Leopoldo diverte com as alfinetadas aos paparazzis, colocando eles fazendo perguntas extremamente fúteis para o personagem, mostrando que esses profissionais se interessam por qualquer coisa que possam revelar sobre as celebridades que perseguem.
Seguindo o que diz o título, Woody Allen tenta mostrar de várias formas sua clara paixão pela capital italiana. O diretor não economiza em travellings circulares, que captam muito bem a beleza do local em que as histórias estão acontecendo. Até o roteiro conta com momentos em que os personagens elogiam a cidade, dizendo o quanto ela é maravilhosa. É uma pena, no entanto, que esses diálogos não surjam naturalmente, deixando claro que não são os personagens que estão falando, e sim o próprio Woody Allen.
No elenco, Alec Baldwin e Jesse Eisenberg criam uma boa química entre seus personagens, além de torna-los carismáticos, enquanto que Ellen Page não consegue transformar Monica em uma figura interessante o bastante para justificar a atração sentida por Jack. E se Judy Davis surge engraçada em suas cenas com Woody Allen, Penélope Cruz (linda como sempre) surge um tanto chata como Anna, o que é lamentável. Enquanto isso, no lado italiano, Roberto Benigni até tira algumas risadas com seu overacting, ao passo que Alessandra Mastronardi esbanja simpatia como Milly, diferente de seu companheiro de cena, David Pasquese, que pouco tem a fazer com Tim.
Para Roma, Com Amor não é um filme decepcionante de Woody Allen, já que consegue divertir e tem uma atmosfera simpática, mas não chega a mostrar todo o talento que o cineasta possui. De qualquer forma, ano que vem ele já está de volta, e tomara que com um filme um pouco mais interessante.
Cotação:
O projeto de transformar On The Road, o livro de Jack Kerouac (que não pude ler ainda), em filme existia desde a época de seu lançamento, ou seja, há mais de cinquenta anos. Desde então, houve várias tentativas de levá-lo para as telonas, principalmente a partir de 1980, quando Francis Ford Coppola comprou os direitos de adaptação da obra. Sendo a história um verdadeiro road movie, a escolha de Walter Salles para a direção não é nenhum pouco estranha. Afinal, estamos falando de um diretor que fez Central do Brasil e Diários de Motocicleta, dois filmes absolutamente maravilhosos neste estilo. Na Estrada não chega a ser tão bom quanto os filmes citados, mas também está longe de ser uma decepção.
Escrito por Jose Rivera, Na Estrada acompanha Sal Paradise (Sam Riley), um jovem escritor que não consegue escrever seu livro por causa de um bloqueio criativo. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund), Sal inicia uma bela amizade formada graças à admiração mútua que os dois sentem um pelo outro. Enquanto Sal admira o lado selvagem e irresponsável de Dean, este aprecia a paixão que o outro tem em escrever. Eles começam a viajar sem rumo pelos Estados Unidos ao lado de Marylou (Kristen Stewart), uma amante de Dean, procurando aproveitar o máximo que podem de suas vidas.
A amizade entre Sal e Dean é bem construída pelo roteiro, o que é fundamental para o funcionamento da história. Os dois personagens têm personalidades muito diferentes. Se Dean faz o tipo que fica com todas as garotas, sem ter vergonha ou muita consciência daquilo que faz, Sal é um rapaz mais “pé no chão”. Claramente eles se completam de alguma maneira, e a viagem que fazem juntos é uma maneira de fugir de problemas e responsabilidades que podem prendê-los eternamente. Dean foge de seu casamento com Camille (Kirsten Dunst, ótima), enquanto que Sal tenta escapar de seu bloqueio. Para ele, uma página em branco é como uma estrada sem fim, algo ressaltado em um pequeno (e inspirado) momento da montagem de François Gédigier. Já Marylou tenta aproveitar o que pode antes que seu noivo retorne da Marinha. Não é à toa que sempre que a palavra “casa” entra em alguma conversa, os personagens mostram certo desconforto, porque sabem o que os estará esperando.
Mas Na Estrada não é um filme apenas sobre a viagem e a amizade dos personagens da história. É também um filme que mostra muito bem que, querendo ou não, o período da juventude tem um limite. Ao longo da história, Sal e Dean aproveitam ao máximo as coisas que aparecem em seu caminho. Mas não importa o quanto eles (ou nós, já que é muito fácil nos identificarmos com a situação de alguma maneira) tentem ignorar, suas responsabilidades fazem questão de estar grudadas em suas vidas. Se um deles percebe isso e aceita seu destino como deve ser, o outro se torna dependente da vida de aventuras, praticamente da mesma forma que alguém fica viciado em uma droga.
Com sua competência habitual, Walter Salles explora bem todas as experiências pelas quais Sal, Dean e Marylou passam durante a viagem. Ainda que a montagem seja um tanto episódica (um risco que muitos road movies correm), o diretor consegue fazer a narrativa fluir bem. Além disso, a opção de investir em vários cortes rápidos nos momentos em que os personagens estão no meio da agitação de uma festa ou usando drogas se mostra mais do acertada, já que passa muito bem a sensação energética que eles sentem. E a narração em off de Sal não é mal utilizada, nos mostrando o que o personagem pensa ou está sentindo diante de tudo o que acontece ao seu redor. No entanto, Salles não consegue situar muito bem o passar do tempo no filme, que desenrola rapidamente. A história começa em 1940, mas só a partir de 1950 é que o tempo volta a ficar bem estabelecido, quando o diretor começa a colocar os anos nos letreiros que aparecem na tela, que até então informavam apenas os locais pelos quais os personagens passam.
É uma pena que o roteiro falhe com relação a algumas figuras que aparecem ao longo filme. O saxofonista Walter (Terrence Howard), por exemplo, além de não acrescentar nada realmente importante ao filme, é esquecido logo depois de sua breve participação no início. Outra personagem que é praticamente abandonada depois de sua aparição, apesar de ser um pouco mais marcante, é Terry (Alice Braga), mulher que Sal encontra quando está viajando sozinho como um andarilho. Já o casal Old Bull Lee (Viggo Mortensen) e Jane (Amy Adams) ganha mais atenção, tornando-se as figuras mais interessantes que Sal, Dean e Marylou encontram na viagem, sendo que boa parte disso se deve pela excentricidade deles. O fato de os atores estarem muito bem nos papéis (principalmente Viggo Mortensen, que rouba a cena em seu pouco tempo de tela) é algo que torna esse problema ainda mais lamentável.
Sam Riley e Garrett Hedlund surpreendem com suas atuações, conseguindo mostrar que Sal e Dean tem um carinho muito grande um pelo outro, ainda que eles saibam que não são nada parecidos e queiram coisas diferentes para si mesmos. O abraço que eles dão ao se encontrarem depois de um tempo sem se ver é o retrato perfeito de duas pessoas que se veem como irmãos. Hedlund, aliás, chega a se destacar até mais do que Riley, já que seu personagem é uma pessoa triste devido ao seu medo de encarar a vida que tem, e o ator mostra isso muito bem. Enquanto isso, Kristen Stewart finalmente se livra de sua persona de Bella Swan (algo que se viu não só em Crepúsculo, mas também no fraquíssimo Branca de Neve e o Caçador), deixando claro que quando tem uma personagem interessante em mãos, ela pode sim ter uma boa atuação, como foi no início de sua carreira quando apareceu tão promissora em Quarto do Pânico.
Depois de tantos anos na espera para ir aos cinemas, Na Estrada pode não ser perfeito, mas consegue ser um filme interessante do início ao fim. Apesar de ainda não ter lido o livro, acredito que Jack Kerouac ficaria satisfeito com a transição de sua obra para a tela grande.
Cotação:
Mesmo com seus superpoderes, é admirável ver que o Homem-Aranha sempre foi um personagem que enfrenta problemas muito humanos, como não ter muito dinheiro para pagar o aluguel, e este é um dos motivos de ele ser o meu super-herói favorito dos quadrinhos. Há dez anos, o primeiro filme do personagem chegava às telonas, praticamente consolidando as adaptações de histórias em quadrinhos como um gênero. De lá pra cá, houve adaptações desse tipo em todos os anos, e os estúdios passaram a dar uma atenção mais do que especial a estes filmes. Se Sam Raimi continuou muito bem sua história do aracnídeo da Marvel no excelente Homem-Aranha 2, é triste constatar que em Homem-Aranha 3 ele tenha finalizado sua trilogia de maneira tão decepcionante.
Dito isso, um reboot como O Espetacular Homem-Aranha soa precoce demais. Afinal, há apenas cinco anos de diferença entre o terceiro filme de Raimi e este exemplar dirigido por Marc Webb. Esta nova produção chama a atenção por mostrar um lado diferente das histórias do personagem, apesar de estar mostrando algo que já vimos boa parte há dez anos. Mas é bom ver que ela ainda consegue ser eficiente, não ficando preocupada apenas com cenas de ação ou com a introdução de novos vilões, apresentando muito bem o novo universo pelo qual o cabeça-de-teia transitará nos cinemas.
Escrito por James Vanderbilt, Alvin Sargent (de volta depois de Homem-Aranha 2 e Homem-Aranha 3) e Steve Kloves, O Espetacular Homem-Aranha mostra o início das aventuras de Peter Parker (Andrew Garfield) como Homem-Aranha. Deixado por seus pais, Richard e Mary (Campbell Scott e Embeth Davidtz) na segurança de seus tios Ben e May (Martin Sheen e Sally Field), Peter cresce (ganhando então o rosto de Andrew Garfield) sem saber o porquê de eles terem desaparecido. Durante uma investigação, Peter é mordido por uma aranha e... bem, o resto todos já sabem mais ou menos como se desenrola. Enquanto isso, ele tenta ajudar o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans), um antigo colega de seu pai, a completar uma fórmula que pode curar as pessoas de qualquer deficiência, a ponto de poderem regenerar partes do corpo.
O roteiro peca com relação a esse mistério envolvendo os pais de Peter. É algo que praticamente não é explorado, sendo usado muito mais para encaminhar o personagem até a aranha que lhe dará os poderes e também para coloca-lo frente a frente com Curt Connors. Provavelmente isso ganhará um pouco mais de foco nos próximos filmes, mas poderia ser um pouco mais resolvido aqui. Afinal, a ausência dos pais é algo que fez muita falta para Peter e há várias cenas que comprovam isso.
Logo no início, o filme demonstra ter como objetivo mostrar um Peter Parker mais cool. Ele é tímido e tudo mais, mas não hesita em brincar com o que o diretor da escola diz ou defender um colega. E ele ainda anda de skate e brinca no celular, o que é até estranho comparado com o que havia sido mostrado nos filmes de Sam Raimi. Como a história é inteiramente situada nos tempos de escola, atmosfera de O Espetacular Homem-Aranha se torna muito mais teen do que a dos outros filmes.
Marc Webb (que fez o excelente 500 Dias Com Ela) dirige alguns momentos-chave do filme meio displicentemente, como a picada da aranha e a morte de um determinado personagem. Isso tira um pouco do impacto que esses momentos deveriam ter no filme. Por um lado, essa pode ter sido uma forma de o diretor dizer que sabe que está contando uma história que praticamente todo mundo conhece, mas de qualquer forma isso não justifica a irregularidade dessas cenas. Por outro, ao não dar muita ênfase nessas cenas e agilizar o desenrolar da história, Webb consegue abrir um pouco mais de espaço para se concentrar nos personagens.
E esses personagens tornam a história ainda mais interessante, e como eles têm intérpretes afinados no elenco, as coisas ficam ainda melhores. A começar pelo protagonista, um jovem inteligentíssimo e corajoso, capaz de desafiar mesmo quem não deveria. Em nenhum momento se sente falta de Tobey Maguire, já que Andrew Garfield tem uma atuação bastante segura e eficiente, mostrando estar muito confortável no papel. Ele faz de Peter um rapaz atrapalhado (sua gagueira quando o personagem fica nervoso não é forçada) e tímido (o jeito encurvado como anda deixa isso claro), além de muito carismático e bem humorado. E o fato de Marc Webb prestar atenção às consequências das lutas em que o Homem-Aranha se mete, como hematomas e arranhões, é algo que torna o personagem vulnerável e humano, compensando um pouco a falta de problemas como aqueles que citei inicialmente.
Já Emma Stone empresta seu carisma habitual para Gwen Stacy, nos fazendo esquecer completamente o modo como a personagem foi tratada em Homem-Aranha 3 (o que não seria muito difícil de fazer, diga-se de passagem). Em momento algum Gwen se torna uma mocinha em perigo, sendo uma espécie de calor humano para o herói. E a química entre ela e Garfield é ótima, resultando em bons momentos. Enquanto isso, Rhys Ifans consegue se destacar como Curt Connors, um vilão com motivações parecidas com as do Dr. Otto Octavius, vivido por Alfred Molina em Homem-Aranha 2. Ambos os personagens têm uma ideia com o objetivo de ajudar as pessoas de alguma maneira, mas mal sabem que podem trazer consequências destruidoras.
Quanto ao resto do elenco, Martin Sheen aproveita ao máximo suas cenas, conseguindo fazer de Ben Parker uma figura querida e um pai ideal para Peter. Uma pena que o roteiro resolva deixar isso ainda mais claro ao incluir uma cena em que o protagonista diz ao tio “Você é um ótimo pai”, o que só martela o óbvio. E se Sally Field aparece um pouco apagada como a tia May, Denis Leary interpreta o Capitão Stacy com grande seriedade, sendo este um personagem que compensa a ausência de J. Jonah Jameson.
No quesito ação, Marc Webb se sai admiravelmente bem. Não investindo na fórmula “dez cortes por segundo”, o diretor deixa o espectador a par de toda a ação que acontece na tela. Além disso, Webb explora bem as habilidades tanto do Homem-Aranha quanto do Lagarto, o que resulta em boas cenas de luta. Tudo isso é muito bem embalado pela trilha sonora de James Horner, apesar de esta não ser muito marcante. O Espetacular Homem-Aranha ainda traz o famoso bom humor do personagem, e nesse sentido o roteiro acerta na maioria de suas tentativas de fazer rir e as gags surgem naturalmente. As brincadeiras que o herói faz com alguns capangas que aparecem em seu caminho são interessantes, principalmente aquela envolvendo um ladrão de carros. Mas certamente a gag que todos lembrarão é a que envolve uma figura carimbada em quase todos os filmes da Marvel.
Caindo um pouco em um desnecessário melodrama adolescente no terceiro ato, O Espetacular Homem-Aranha não chega a fazer jus ao seu título, mas consegue ser um filme de origem eficiente, ainda que essa origem já tenha sido contada há pouco tempo. O universo do personagem ainda pode render várias histórias interessantes. Caberá aos próximos filmes encontrá-las.
Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.
Obs. 2: Apesar de o filme ter sido filmado em 3D, Marc Webb não soube utilizar a tecnologia muito bem. Infelizmente, o resultado não difere muito das conversões, portanto não há diferença entre ver o filme em 2D ou em 3D.
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Algo que apenas as pessoas que me conhecem há anos sabem é que, durante algum tempo, cogitei trabalhar na área de games. Sempre gostei de videogames e, seguindo a lógica de que “devo trabalhar com aquilo que gosto”, pensei que essa era a área para a qual eu estava destinado. Até que um dia percebi que gostava muito mais de cinema do que de jogos.
Mas por que resolvi compartilhar esse detalhe da minha vida nessa crítica? Muito simples: depois de assistir a este documentário Indie Game: The Movie passei a admirar muito os profissionais que trabalham com a produção de jogos independentes, e o filme ainda me fez pensar o que poderia ter acontecido comigo caso eu tivesse seguido esse caminho. Eu aguentaria todo o stress que rola durante o processo de fazer um jogo? Aguentaria a pressão que cai nos ombros desses profissionais? Provavelmente são respostas que só poderão ser encontradas em uma outra dimensão.
Dirigido pela dupla Lisanne Pajot e James Swirsky, Indie Game: The Movie segue três histórias: Jonathan Blow, criador jogo de plataforma Braid; Tommy Refenes e Edmund McMillen, que se dedicam a produção de Super Meat Boy; e Phil Fish tenta finalizar FEZ. Todos eles trabalham em seus jogos sem a ajuda de ninguém. Nada de empresas da área ou doações. E é claro que isso traz várias dificuldades para cada um deles.
Essa dificuldade é muito bem transmitida pelos diretores. Os protagonistas do filme sacrificam muitas coisas para poder ver seu projeto ganhar vida, desde o próprio dinheiro até as chances de uma vida social. Tommy Refenes diz em certo momento “Você meio que precisa desistir de alguma coisa para ter algo ótimo”. O problema é que esse “algo” pode demorar muito para vir ou até mesmo não vir, o que torna o trabalho de Tommy e de outros designers de jogos independentes um grande risco. Ao longo de Indie Game: The Movie, nós conhecemos a vida das pessoas retratadas no filme, ficamos a par de seus problemas, e dessa forma é fácil simpatizar com elas, o que faz com que o sucesso dessas figuras seja um desejo até para quem está assistindo ao filme.
Blow, Refenes, McMillen e Fish projetam seus jogos como uma forma de se conectar com as pessoas, mas isso não quer dizer que eles queiram conhece-las. Como McMillen diz em certo momento: “Eu posso não gostar delas”. Esse antissocialismo é compreensível, já que há pessoas que não se importam com as dificuldades pelas quais eles passam para fazer os jogos ou com o tempo que eles levam. O que interessa para elas é apenas quando que o produto será lançado, e se ocorrer algum tipo de atraso então é o começo dos comentários desrespeitosos, algo que faz parte da vida de Phil Fish, que está há quatro anos desenvolvendo FEZ.
A montagem, feita pelos próprios diretores, é um tanto episódica, mostrando as histórias do filme uma de cada vez. Mesmo assim, a narrativa nunca perde sua fluidez, as histórias não atrapalham umas as outras (por exemplo, uma delas poderia ganhar mais importância, o que não acontece em momento algum) e a dupla de cineastas sempre consegue deixar o espectador muito bem situado no filme. Em certos momentos, Pajot e Swirsky ainda se dão a liberdade de fazer alguns raccords saindo de um jogo para outro ou de um jogo para a vida real, como quando um personagem virtual vai cair em uma piscina e no plano seguinte vemos Edmund mergulhar.
Mas um dos elementos mais interessantes de Indie Game: The Movie é o fato de que, apesar de não ser reconhecido como arte, um jogo não difere muito de outros tipos de obras. Quem faz um filme, escreve um livro ou pinta um quadro tem um propósito específico com essa produção. Vistos à primeira vista, jogos parecem servir apenas como um entretenimento, algo para distrair as pessoas. Assim como as artes citadas, os games têm seus críticos especializados, que às vezes escrevem sobre um jogo e ainda assim não conseguem captar tudo o que o artista quis dizer com seu trabalho. Esse é um dos motivos que fazem Jonathan Blow não ficar muito satisfeito mesmo com Braid fazendo um sucesso estrondoso. As pessoas podem adorar o jogo, dar nota 10, mas ainda assim dar uma opinião muito superficial sobre ele, e isso é realmente algo triste para um realizador que tinha muito a dizer com sua obra.
A produção de um jogo independente é parecida com a de um filme independente. Existem dificuldades e muitas vezes é preciso da ajuda de desconhecidos para que o produto possa ser finalizado. Nesse caso, o próprio Indie Game: The Movie serve para uma comparação interessante. Afinal, a equipe que fez o filme não é muito grande e seus diretores ocuparam várias funções, como a direção de fotografia e a montagem, além da direção. Muitas pessoas doaram dinheiro para que o filme pudesse ser feito, e o nome delas ocupa uma parte nos créditos do filme muito maior do que a dos próprios realizadores.
Indie Game: The Movie é praticamente uma carta de amor feita a jogos de videogame e computador, que são parte importante não só na vida das pessoas vistas no filme, mas também de muitas outras. E se arte é tudo aquilo que pode causar um determinado tipo de emoção no ser humano, então já está na hora de os games ganharem sua chance.
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