quinta-feira, 19 de julho de 2012

Deus da Carnificina

Quando duas crianças brigam no colégio de um jeito inesperado ou exagerado, como lutando a socos e pontapés, o que as leva a uma ação tão desnecessária e violenta? Muitas vezes há algo nos bastidores, ou seja, na casa dessas crianças, onde o ambiente pode não ser dos mais tranquilos ou a própria educação que receberam pode ser meio problemática. Nesse sentido, o foco acaba indo para os pais das figuras. O grande diretor Roman Polanski se concentra exatamente nessa parte em seu novo e interessante filme, Deus da Carnificina. O que poderia ser uma obra dramaticamente pesada acaba sendo um estudo de personagens não só eficiente, mas também muito divertido.
Escrito pelo próprio Polanski em parceria com Yasmina Reza, e adaptado a partir da peça dessa última, Deus da Carnificina acompanha uma reunião de dois casais, Penelope e Michael Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly) e Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz), que procuram resolver amigavelmente uma briga feia entre seus filhos. Mas aos poucos, eles mesmos começam a brigar, discutindo por motivos que vão desde a personalidade de cada um até os interesses que demonstram, além da briga entre os garotos.
Mostrando de maneira rápida e inesperada o motivo que inicia toda a discussão, Polanski não perde tempo e quando apresenta seus personagens já deixa muito claro algumas diferenças entre eles, sendo que boa parte delas são definidas pelos figurinos. O casal Longstreet aparece usando roupas mais simples e de cores mais simpáticas, o que ressalta a simplicidade da família, que se torna ainda mais evidente quando ficamos sabendo quais são suas profissões: Michael trabalha vendendo produtos como descargas de vasos sanitários e Penelope é uma escritora. Já os Cowan parecem ser um casal que frequenta a alta sociedade, aparecendo com roupas mais elegantes e de cores mais escuras, além de terem profissões que à primeira vista poderiam ser consideradas de maior sucesso: Nancy é uma corretora e Alan um advogado.
Tirando a cena inicial e a final, Deus da Carnificina se passa totalmente no apartamento do casal Longstreet e em tempo real. Dessa forma, é admirável ver que Polanski consegue mudar o tom do filme aos poucos e naturalmente à medida que a história se desenrola naquele lugar. Se no início temos uma conversa amigável (apesar de os personagens ficarem segurando alguns pensamentos para si mesmos), as coisas vão ficando mais tensas e agitadas ao longo do filme. Em certo momento a discussão chega ao ponto de parecer um luta de boxe, já que pelo menos duas vezes os casais chegam a sair do mesmo cômodo, se separando para falar o que realmente pensam, como se isso fosse os intervalos entre os “rounds”.
O modo infantil como os personagens reagem em determinados momentos é um dos elementos mais interessantes de Deus da Carnificina. Isso por que é dessa forma que as pessoas agem quando perdem, quebram ou danificam um objeto com o qual se importam demais. Em uma cena do filme, Alan fica emburrado e encolhido depois de um pequeno acontecimento com seu precioso celular (e é até uma pena que o roteiro sinta a necessidade de incluir uma fala de Nancy indicando esse estado do marido, o que é explicativo demais e desnecessário). Não importa a idade, ficamos tristes quando algo ruim acontece com nossos brinquedos. Talvez o filme mostre isso um pouco exageradamente, mas aí também reside o lado cômico do projeto.
Algo que chama muito a atenção é que nenhum dos lados está realmente certo com relação a situação dos filhos. Se um dos garotos usou um pedaço de pau para bater em um colega, este deve tê-lo provocado muito, o que fica claro na cena inicial. Só por que um deles teve uma reação mais extrema, não muda o fato de o outro também estar errado. E o roteiro consegue refletir essa imparcialidade nos quatro personagens centrais, fazendo com que nenhum deles soe muito bonzinho. Considerando que estamos falando das pessoas que colocaram os meninos no mundo e os criaram, fica claro o porquê de ambas as crianças terem errado ao brigarem, já que nem seus pais são pessoas muito normais apesar de tentarem e aparentarem ser.
Qualquer filme de comédia obrigatoriamente precisa ter momentos engraçados, e mesmo sendo dirigido por Roman Polanski (um cineasta mais conhecido por filmes com um tom muito mais sério como O Bebê de Rosemary, Chinatown e O Pianista), Deus da Carnificina possui situações divertidíssimas. Além das cenas em que alguns dos personagens soam extremamente infantis, o roteiro conta com tiradas interessantes, como quando Alan reconhece que seu filho é um maníaco, o que surpreende por ser uma coisa que nenhum pai que se prese falaria. Aliás, Alan é o responsável pela maior parte das risadas do filme, e muito se deve ao fato de Christoph Waltz exibir um timing cômico impecável. O modo cínico como o ator fala alguns de seus diálogos resulta em momentos hilários, como quando Alan fala para Nancy “O casamento deles já está indo para o ralo, nós não precisamos competir”.
Enquanto Waltz surge engraçado, o resto do elenco também se sai bem em suas atuações. John C. Reilly, interpretando um personagem que inicialmente quer ver tudo na maior harmonia possível, diverte quando Michael passa a não se importar mais em pregar a paz na situação, chegando a falar abertamente que ele e sua esposa são "dois filhos das p...”. Já Jodie Foster e Kate Winslet retratam bem suas personagens como duas pessoas cansadas da vida que estão levando. É uma pena, no entanto, que suas atuações caiam um pouco de qualidade depois que Penelope e Nancy bebem algumas doses de uísque. Enquanto Foster começa a exagerar no overacting, Winslet não convence muito bem com a embriaguez de sua personagem.
A última comédia que Roman Polanski havia lançado foi Piratas, em 1986, um filme que foi mal recebido pela crítica, que considerou este um de seus piores trabalhos (particularmente, ainda não assisti para poder opinar). Levando isso em conta, Deus da Carnificina é um filme no qual o diretor surpreende, não só por ele ter em mãos personagens interessantes, mas também por conseguir fazer com que o humor funcione muito bem.
Cotação:

2 comentários:

Simone Schuck disse...

Então, não concordo muito com a tua análise psicológica do filme. A análise cinematográfica, apesar de ter achado o filme muito bem feito, nem me arrisco a criticar hahaha

Achei o filme incrível, daria nota cinco. E acredito que o tema principal é a hipocrisia humana frente às situações difíceis de lidar em uma sociedade dita civilizada.

Ao contrário do que disseste, acredito que os dois casais de pais são extremamente normais, comuns. São os pais que vemos todos os dias. São, sim, pessoas normais, com todas suas dificuldades de relacionamento (afetivo ou não) dos seres humanos atuais.

As birras relacionadas a objetos materiais, como o celular do advogado, não seriam "o modo infantil como os personagens reagem" por causa da danificação de "um objeto com o qual se importam demais", mas sim o modo infantil que todo o ser humano atual lida com as situações de perda, de falha em uma competição. E, claro, o bem material exemplifica isso ao extremo.

Mas, veja, toda a situação do filme é a mesma: a ideia de competição moral. Quem é mais civilizado e consegue encarar melhor a pequena "incivilização" dos filhos? Esse é o peso nos ombros destes pequenos mamíferos bípedes que arrecém descobriram a usar as mãos para outra ação senão lutar, caçar ou qualquer necessidade básica da espécie.

Somos todos psicologicamente infantis. Criamos uma sociedade altamente tecnológica e complexa em suas relações sociais, mas ainda não sabemos, pessoalmente, lidar com isso. E acredito que Polanski quis mostrar o quanto isso é engraçado, porque é bobo. É macaco querendo brincar de casinha. Mas somos isso - e é muito divertido ser!

Enfim, me excedi, mas é porque gostei muito mesmo do filme, e isso foi um pouco do que me veio ^^ beijo!

Thomás R. Boeira disse...

Oi, Simone!

Não se preocupe com a cotação. Ela é o de menos. O que importa é que o filme é bom no final das contas. ;D

Concordo com o que tu falou sobre essa coisa da perda dos personagens e a de que todos nós somos infantis, tanto que eu disse que "é dessa forma que as pessoas agem". Acabei limitando a brinquedos porque foram a primeira coisa em que pensei quando vi aquilo.

Já o fato de eles não serem pessoas normais, eu acho que eles são um pouco desequilibrados, sendo a representação do próprio ambiente em que vivem. E esse ambiente é bem problemático. À medida que o filme vai passando e eles começam a discutir, eles vão revelando sua infelicidade quanto a própria vida que levam e os problemas que tem no casamento, e isso os deixa loucos. Eles não aguentam mais aquilo ali.

E acho que o filme diverte muito por essas coisas.

Beijos.