terça-feira, 17 de julho de 2012

Para Roma, Com Amor

Lançando um filme por ano, Woody Allen é um dos realizadores mais produtivos do cinema atual. Não tirando férias desde 1982 (algo que comentei na minha crítica de Meia-Noite em Paris), o cineasta chega a surpreender com seu sistema de produção, já que nem todos os diretores conseguem chegar aos 76 anos fazendo tantos filmes. No entanto, em meio a tantas obras, não é sempre que Allen chega a fazer um filme que lembre seus tempos de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Nos últimos dez anos, o diretor fez poucas obras que agradaram a ponto de ficar na memória após a sessão, sendo Match Point e Meia-Noite em Paris as melhores. A maioria parece ter sido feita mais para manter a produção em dia do que para ser algo realmente marcante. Nisso, entram produções como Igual a Tudo na Vida, Scoop: O Grande Furo e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Apesar de divertir, Para Roma, Com Amor não deixa de ser mais um desses filmes.
Escrito pelo próprio Woody Allen, Para Roma, Com Amor acompanha vários personagens em quatro histórias diferentes, todas situadas na belíssima cidade do título. Hayley (Alison Pill) e Michelangelo (Flavio Parenti) são um jovem casal e os pais dela, Jerry (o próprio Woody Allen, voltando à frente das câmeras depois de Scoop) e Phyllis (Judy Davis), vêm para Roma a fim de conhecer o rapaz e sua família. No meio de tudo isso, Jerry vê um grande talento no pai de Michaelangelo, Giancarlo (o carismático Fabio Armilliato), que poderia ficar famoso como cantor de ópera. Temos também a história de Leopoldo (Roberto Benigni), um cidadão comum que se transforma em celebridade da noite para o dia. Além deles, o arquiteto John (Alec Baldwin) tenta ajudar o estudante Jack (Jesse Eisenberg) a lidar com a vinda de Monica (Ellen Page), a melhor amiga de sua namorada, Sally (Greta Gerwig), e que pode colocar a relação em risco. Por último, há também os recém-casados Tim (David Pasquese) e Milly (Alessandra Mastronardi), que se perdem na cidade em plena lua-de-mel, e enquanto ele tem que lidar com sua família e a prostituta Anna (Penélope Cruz), ela se vê em meio a experiências e oportunidades únicas.
Com tantas histórias paralelas, Para Roma, Com Amor lembra filmes como Simplesmente Amor. A diferença é o fato de que Woody Allen em nenhum momento faz suas histórias se ligarem de alguma forma. Seguindo cada uma delas até seus respectivos desfechos, a montagem rapidamente se torna episódica, o que piora pelo fato de nem todas as histórias serem interessantes. A trama envolvendo Tim e Milly, por exemplo, conta com alguns personagens aborrecidos, como os membros da família dele e Anna, além de ter poucas situações realmente engraçadas. Enquanto isso, a história envolvendo Jerry e sua família perde um pouco de espaço, já que Allen não consegue dar igual importância para todas as partes de seu filme, o que é lamentável porque essa é a história mais interessante e divertida do projeto.
O roteiro de Allen conta com alguns clichês, mas mesmo assim consegue divertir. O tipo de triângulo amoroso que existe entre Jack, Sally e Monica é algo que já se viu em muitos filmes, mas que diverte pelo modo como é tratado, por que Jack sabe desde o início sobre o risco que sua relação com Sally pode correr, e as cenas em que John serve como uma espécie de voz da consciência/experiência para o garoto resultam em bons momentos. Mas é o próprio Woody Allen, como ator, que consegue tirar mais risadas. Tendo em mãos um personagem típico de sua filmografia (excêntrico, inseguro e pessimista), Allen diverte com o jeito de agir de Jerry. Em certo momento, ele fica desconfortável depois de saber que Giancarlo o cumprimentou sem ter lavado as mãos. Mas como sua história não ganha tanta atenção, Allen infelizmente não aparece tanto quanto poderia.
Os diálogos criados por Woody Allen também conseguem divertir, ainda que estes não sejam geniais como vários que apareceram em sua obra anterior ou em sua carreira como um todo. Esse quesito se destaca um pouco mais quando envolve Jerry e Phyllis, já que são várias as tentativas dela, como psiquiatra, de analisar as atitudes do marido, e ele contesta todas as conclusões. Já a história de Leopoldo diverte com as alfinetadas aos paparazzis, colocando eles fazendo perguntas extremamente fúteis para o personagem, mostrando que esses profissionais se interessam por qualquer coisa que possam revelar sobre as celebridades que perseguem.
Seguindo o que diz o título, Woody Allen tenta mostrar de várias formas sua clara paixão pela capital italiana. O diretor não economiza em travellings circulares, que captam muito bem a beleza do local em que as histórias estão acontecendo. Até o roteiro conta com momentos em que os personagens elogiam a cidade, dizendo o quanto ela é maravilhosa. É uma pena, no entanto, que esses diálogos não surjam naturalmente, deixando claro que não são os personagens que estão falando, e sim o próprio Woody Allen.
No elenco, Alec Baldwin e Jesse Eisenberg criam uma boa química entre seus personagens, além de torna-los carismáticos, enquanto que Ellen Page não consegue transformar Monica em uma figura interessante o bastante para justificar a atração sentida por Jack. E se Judy Davis surge engraçada em suas cenas com Woody Allen, Penélope Cruz (linda como sempre) surge um tanto chata como Anna, o que é lamentável. Enquanto isso, no lado italiano, Roberto Benigni até tira algumas risadas com seu overacting, ao passo que Alessandra Mastronardi esbanja simpatia como Milly, diferente de seu companheiro de cena, David Pasquese, que pouco tem a fazer com Tim.
Para Roma, Com Amor não é um filme decepcionante de Woody Allen, já que consegue divertir e tem uma atmosfera simpática, mas não chega a mostrar todo o talento que o cineasta possui. De qualquer forma, ano que vem ele já está de volta, e tomara que com um filme um pouco mais interessante.
Cotação:

Um comentário:

Simone Schuck disse...

Tu percebeu os microfones?