sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Fúria

Apesar de ainda ser capaz de escolher bons projetos de vez em quando (Joe e a animação Os Croods, ambos de 2013, são os mais recentes), na maioria das vezes em que Nicolas Cage aparece encabeçando um novo filme boa parte das pessoas começa a tremer de medo. Isso porque é bem possível que o ator esteja envolvido em uma bomba, que servirá apenas para colocar suas contas (que não são poucas, até onde se sabe) em dia. Fúria entra nessa linha, mas a verdade é que o longa tem alguns elementos interessantes que o ajudam se tornar minimamente suportável.

Escrito por Jim Agnew e Sean Keller, Fúria nos apresenta a Paul Maguire (Cage), homem que vive tranquilamente com sua bela esposa Vanessa (Rachel Nichols) e sua filha adolescente Caitlin (Aubrey Peeples), tendo largado sua vida de crimes com a máfia há muito tempo para se tornar um empresário de sucesso. Mas quando Caitlin é sequestrada, ele resolve ignorar os trabalhos da polícia liderada por Peter St. John (Danny Glover) e se junta a seus antigos colegas Kane e Danny (Max Ryan e Michael McGrady, respectivamente). A partir desse momento passa a fazer de tudo para descobrir onde está a garota e quem a pegou, nem que para isso tenha que dar início a uma guerra entre os gângsteres locais.
Com uma história dessas, fica claro que Fúria segue uma série de convenções e clichês, e se levarmos em conta que estamos falando de Nicolas Cage, vale ressaltar que o astro estrelou o péssimo O Resgate, que também o trazia como um pai criminoso em busca da filha sequestrada. No entanto, mesmo genérico, este novo trabalho ainda consegue ser um pouco mais interessante pela forma quase irracional com a qual Paul passa a agir, o que traz consequências exorbitantes e o faz deixar um rastro de sangue por onde passa, alcançando pessoas que podem não ter nada a ver com o que aconteceu com Caitlin. E a atuação de Cage é eficiente na maior parte do tempo, mesmo quando encarna a raiva do personagem ora de um jeito contido, ora mais explosivo (fãs do ator provavelmente gostarão de vê-lo dar seus conhecidos gritos em cenas pontuais).
Mas se por esse lado Fúria prende a atenção, por outro o diretor Paco Cabezas conduz a ação investindo em uma mise en scène desinteressante, seja nas cenas de luta ou nas de tiroteios e perseguições. Com relação a este último tópico, aliás, há uma sequência em que o protagonista corre atrás de um suspeito onde o realizador opta por fazer a câmera tremer excessivamente, o que mais atrapalha a compreensão a respeito do que está acontecendo do que propriamente ajuda a criar alguma tensão. Apesar de não se sair muito bem nesses quesitos, Cabezas merece créditos por conduzir satisfatoriamente o terceiro ato, que se revela a melhor parte da trama ao oferecer uma conclusão simples e ainda assim coerente, considerando os conflitos construídos até ali.
Fúria não chega a ser particularmente bom. Mas assistindo ao filme e comparando-o com outras produções que Nicolas Cage tem estrelado nos últimos tempos, é fácil chegar à conclusão de que poderia ter sido muito pior (torturante como O Resgate, talvez?). No fim, de um jeito ou de outro, saímos no lucro.
Nota:

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Annabelle

No início do ótimo Invocação do Mal, víamos o casal Ed e Lorraine Warren concluindo o caso da boneca Annabelle, o que em parte servia para apresentar os personagens para o público. Mas toda a história envolvendo a boneca é famosa entre os casos ditos sobrenaturais, tendo potencial para ganhar um filme. Considerando o sucesso de Invocação do Mal, não é surpresa ver isso acontecer neste spin-off, Annabelle, que se revela capaz de render alguns bons sustos, apesar de não ser grandes coisas.

Escrito por Gary Dauberman, Annabelle se passa no fim da década de 1960 e nos apresenta ao jovem casal John e Mia Gordon (Ward Horton e Annabelle Wallis, respectivamente), que estão esperando seu primeiro filho. Na noite em que John presenteia Mia com a boneca de porcelana que faltava para ela completar sua coleção, eles são atacados pela filha de seus vizinhos e o namorado dela, que fazem parte de um culto satânico e são mortos antes de conseguirem fazer algo devastador. Por Mia ter visto a garota morrer enquanto segurava sua boneca, ela decide se desfazer do presente, mas isso não se mostra tão fácil e coisas assombrosas passam a infernizar ela, John e o bebê que vem a nascer pouco tempo depois.

Em um comentário óbvio, há de se ressaltar que a pessoa que compra uma boneca feia como essa vista no filme basicamente está pedindo para ser amaldiçoada. Mas é verdade que temos que compreender que se uma boneca de pano bonitinha fosse usada (e a Annabelle do caso real no qual a história se baseia segue esse estilo), isso certamente não teria um efeito tão eficiente em uma produção que pretende assustar o público. Liberdades criativas à parte, Annabelle se prejudica ao se sustentar demais em clichês, diferente de Invocação do Mal, que soube usar esses detalhes a seu favor. Assim, é fácil se cansar da mania que Mia tem de ficar sozinha em casa com o bebê e as assombrações enquanto John trabalha, além dos momentos em que ela anda por um lugar pouco iluminado.

Enquanto isso, a história desenvolvida pelo roteiro não é das melhores, sendo que às vezes ele soa óbvio, como quando os personagens passam a tentar descobrir o que as presenças demoníacas realmente querem. Aliás, para uma produção que parece se rodear em volta da boneca Annabelle, ela é a figura menos utilizada para causar as assombrações, e o roteiro parece ter noção disso, lembrando-se dela pontualmente para poder seguir sua premissa de boneca amaldiçoada. Para completar, o filme tem diálogos muito expositivos que mastigam a trama para o espectador, usando para isso principalmente a bibliotecária vivida por Alfre Woodard, e também conta com outras falas que parecem ter saído de um livro de autoajuda, sendo proferidas pelo Padre Perez interpretado por Tony Amendola.

Mesmo assim, o cineasta John R. Leonetti ainda consegue criar uma atmosfera de tensão que mantém o espectador envolvido no filme durante a maior parte do tempo, o que se deve até a expectativa que ficamos com relação aos sustos. Nesse aspecto, por sinal, Leonetti não chega a causar tantos pulos na cadeira, mas os poucos que ocorrem são bem-vindos e até divertem dentro do gênero (destaque para a cena em que uma criança corre em direção a Mia). E apesar de Annabelle Wallis e Ward Horton são serem tão talentosos, eles ao menos têm carisma o suficiente para que possamos nos importar com o destino de seus personagens.

Trazendo ainda uma resolução meio covarde para sua história, Annabelle é um spin-off que certamente não chega a ser tão bom quanto Invocação do Mal. Mas ao menos se estabelece como um passatempo interessante com sua premissa. O que não deixa de ser lucro levando em conta que o filme foi feito mais para aproveitar o sucesso recente de seu original.

Nota:


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um Amor de Vizinha / O Homem Mais Procurado

Um Amor de Vizinha e O Homem Mais Procurado são duas das principais estreias dessa semana nos cinemas. São filmes diferentes um do outro em todos os sentidos possíveis. Deixo aqui meus comentários sobre eles.

Um Amor de Vizinha (And So it Goes, 2014), de Rob Reiner:

Um Amor de Vizinha traz três grandes nomes: Rob Reiner como diretor, Michael Douglas e Diane Keaton como protagonistas. No entanto, essa é uma daquelas produções em que é triste ver artistas tão bons entre seus envolvidos. Trata-se de um filme clichê, cujo plot já vimos várias vezes em outras obras.

Escrito por Mark Andrus, Um Amor de Vizinha nos apresenta a Oren Little (Douglas), homem que ainda não superou a morte da esposa, descontando sua mágoa nas pessoas ao seu redor, inclusive em sua vizinha, Leah (Keaton). É quando seu filho Kyle (Austin Lysy), com quem não tem uma boa relação, avisa que será preso e pede para que ele cuide da pequena Sarah (Sterling Jerins), a neta que nem sabia que existia. Sem paciência, Oren pega a tarefa contra sua vontade, mas com a ajuda de Leah acaba redescobrindo seu lado mais afetuoso e...

Bem, todos já devem saber como é o restante da história, considerando que ela segue à risca a cartilha do “protagonista rabugento (pra não dizer babaca) que vai se tornando uma pessoa melhor”, algo dirigido de maneira nada inspirada por Rob Reiner. Aliás, aqui Reiner nem parece ser o diretor que uma vez realizou grandes filmes como Isso é Spinal Tap, Conta Comigo e Harry & Sally. Dessa forma, Um Amor de Vizinha acaba tentando se sustentar no carisma de Michael Douglas e Diane Keaton, mas a verdade é que isso ainda se revela muito pouco para salvar o projeto.

Bobo e até esquemático em determinados momentos, Um Amor de Vizinha é um filme sem imaginação alguma, do tipo que é esquecido pouco depois de os créditos começarem a subir.

O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man, 2014), de Anton Corbijn:

Esse ano vem assustando com as perdas que o Cinema vem sofrendo. Uma das mais sentidas foi a de Philip Seymour Hoffman, não só porque ele era imensamente talentoso, mas também por ter partido muito cedo, aos 46 anos. Neste O Homem Mais Procurado, temos a chance de acompanhar o último trabalho completo de Hoffman, e é uma atuação que confirma ainda mais que ele era um dos melhores atores de sua geração, e é bacana ver que o filme em si merece um desempenho como esse.

Escrito por Andrew Bovell, baseado no livro de John le Carré, O Homem Mais Procurado acompanha o trabalho do agente alemão Günther Bachmann (Hoffman), que ao lado de sua equipe e do pessoal da CIA passa a seguir os passos de Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin), que acaba de chegar ilegalmente em Hamburgo. Sendo Issa filho de um terrorista, todos ficam na dúvida se ele veio até a cidade para realizar um ataque ou para viver em paz. As suspeitas aumentam quando ele pede ajuda para a advogada Annabel Richter (Rahcel McAdams), tendo como objetivo pegar o dinheiro sujo de seu pai e que está guardado no banco de Thomas Brue (Willem Dafoe).

Assim tem início um filme instigante e que mostra confiar na inteligência do publico, com o roteiro nunca parando sua trama complexa pra explica-la. Em meio a isso, o diretor Anton Corbijn (o mesmo de Control e Um Homem Misterioso) surpreende ao trazer um tom um tanto melancólico para a narrativa, detalhe que ajuda a dar um grande peso ao que está acontecendo, além criar uma atmosfera envolvente ao apostar na tensão entre os personagens.

Personagens estes que se revelam muito inteligentes e que são interpretados com grande eficiência pelo elenco, desde Grigoriy Dobrygin como Issa até Willem Dafoe como Thomas Brue, passando por Rachel McAdams como Annabel e Robin Wright como a agente da CIA Martha Sullivan. Mas o filme é mesmo de Philip Seymour Hoffman, que em uma atuação extremamente sensível faz de Günther um homem exausto, solitário e em constante estresse, aspectos que não o impedem de ser competente e humano em seu trabalho.

Tudo isso faz O Homem Mais Procurado se estabelecer como um filme de espionagem muito acima da média. Um dos grandes destaques do ano, sem dúvida.

sábado, 4 de outubro de 2014

Garota Exemplar

Garota Exemplar é um thriller com um roteiro absolutamente genial, que conta com personagens inteligentes e que precisa de um diretor competente para orquestrar tudo o que acontece na história sem que esta vire uma grande bagunça. E o filme encontra esse diretor em David Fincher, que aqui se dedica exatamente ao tipo de projeto que dá gosto de vê-lo fazendo. Dessa forma, temos como resultado uma obra fascinante em todo o suspense que percorre seus 145 minutos de duração.

Baseado no aclamado livro de Gillian Flynn, o roteiro escrito com precisão cirúrgica pela própria autora se concentra no desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike), que ganha grande atenção por parte da mídia e causa um alvoroço na pequena cidade de North Carthage, no Missouri. O principal suspeito do caso é o marido dela, Nick Dunne (Ben Affleck), que age de maneira estranhamente tranquila para alguém que pode ter acabado de perder a esposa. A partir disso, passamos a acompanhar os esforços de Nick e da polícia para descobrir o que aconteceu, e ao mesmo tempo vemos como era o relacionamento do casal.

“Eu me imagino abrindo seu crânio, desenrolando seu cérebro e vasculhando-o, tentando capturar e fixar com alfinete seus pensamentos”. Logo de cara vemos Nick falar isso sobre sua esposa em uma narração em off. Obviamente é algo macabro de se dizer e trata de estabelecer que o que veremos não é um relacionamento particularmente tranquilo, tornando compreensível como Nick pode ser suspeito. No entanto, há uma troca de diálogos entre a policial responsável pelo caso, Rhonda Boney (Kim Dickens), e seu parceiro Jim Gilpin (Patrick Fugit) que sintetiza bem a história em si. Enquanto ele fala que “As respostas mais simples geralmente são as corretas”, ela diz “Nunca acreditei que isso fosse verdade”. E realmente, ainda que o caminho mais fácil seja dar Nick como culpado, à medida que avançamos no filme descobrimos que a escala do que está acontecendo é muito maior do que imaginamos.

Nisso, a estrutura do roteiro de Gillian Flynn é interessante ao fazer um verdadeiro quebra-cabeça, trazendo inicialmente a investigação em seu centro e intercalando essa parte com flashbacks impulsionados pelo diário mantido por Amy, que mostram a visão dela quanto aos principais momentos de sua vida com Nick e de como a relação deles vinha se deteriorando. Mas se até aí vemos um thriller sobre um desaparecimento, as reviravoltas que Flynn constrói ao longo da narrativa subvertem a expectativa do público, dando rumos surpreendentes e imprevisíveis ao filme, de forma que mais tarde vemos praticamente um jogo de gato e rato manipulador e intrigante, disputado quase que exclusivamente na mídia.

E já que mencionei esse elemento importante da trama, vale dizer que é impossível não admirar o comentário interessantíssimo que o filme faz sobre como a imprensa, infelizmente, se importa não só com explorar tudo o que puderem de uma história para conquistar a audiência, mas também com apontar possíveis culpados, não ligando se as provas para isso não são suficientes ou se vidas serão destruídas no processo. Sendo assim, é curioso ver que só o fato de Nick sorrir na hora mais inapropriada já é o suficiente para fazer com que uma apresentadora de TV veja sinais de sociopatia. E é exatamente a força da imprensa que dita grande parte dos atos dos personagens.

Tudo isso é conduzido com maestria por David Fincher, sendo que o diretor desde o início demonstra ter controle sobre a história que está contando, aproveitando ao máximo o roteiro de Flynn para criar uma narrativa envolvente e constantemente tensa. Para isso, Fincher tem a ajuda da belíssima fotografia de Jeff Cronenweth, que aposta bastante nas sombras para criar uma atmosfera inquietante, detalhe que encontra reflexo no próprio estado dos personagens. Enquanto isso, a montagem de Kirk Baxter se revela digna de prêmios ao lidar brilhantemente com a complexa estrutura do roteiro, investindo ainda em um ritmo mais ágil para a trama, fazendo isso sem sacrificar a calma com a qual ela é desenvolvida.

Já o elenco interpreta com propriedade as figuras inteligentes criadas por Gillian Flynn. Ben Affleck encarna Nick com uma segurança invejável, sendo possível se identificar com o personagem por mais falho que ele seja como pessoa, ao passo que Rosamund Pike brilha em todos os frames em que aparece com sua atuação multifacetada como Amy (tanto ela quanto Affleck merecem ser lembrados nessa temporada de premiações). E se Tyler Perry surpreende ao trazer carisma e bom humor ao advogado Tanner Bolt, Neil Patrick Harris, Carrie Coon e Kim Dickens deixam fortes impressões como Desi Collings, Margo Dunne (irmã gêmea de Nick), e Rondha Boney.

Com tantas qualidades, é impossível não se empolgar com Garota Exemplar, que se estabelece desde já como um dos trabalhos mais impressionantes de um dos melhores diretores de sua geração, além de ser também um dos melhores filmes deste frutífero ano de 2014.

Nota:


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Os Boxtrolls

Coraline e o Mundo Secreto e ParaNorman. Como podem ver, o currículo de longas-metragens do estúdio Laika ainda é bem curto, mas já o estabelece como uma empresa de animação em stop-motion que vem merecendo destaque nos últimos anos. Ambos os filmes, de um jeito ou de outro, não só souberam ser ótimos entretenimentos, mas também demonstraram confiança em seu público-alvo e não temeram dar toques mais sombrios para suas histórias. Agora o estúdio volta aos cinemas com este Os Boxtrolls, baseado no livro infantil de Alan Snow.

Escrito por Irena Brignull e Adam Pava, o filme nos apresenta aos Boxtrolls do título, pequenas criaturas que vivem em uma comunidade nos subterrâneos da cidade de Pontequeijo e se vestem com caixas de papelão, saindo à noite para vasculhar os lixos atrás de algo que lhes tenha valor. Mas, por mais inofensivos que sejam, a população os vê como monstros perigosíssimos. Por esse motivo, o lorde Portley-Rind aceita contratar os serviços de Arquibaldo Surrupião, que quer dar um fim nos Boxtrolls em troca de assumir uma posição entre os grandes degustadores de queijo, mesmo sendo alérgico a isso. Para ajudá-los na luta contra Surrupião, os Boxtrolls contam com a ajuda do jovem Ovo, que foi criado na comunidade desde bebê e conhece a verdadeira natureza deles como ninguém, além de Winnie Portley-Rind, a filha do lorde.
O filme consegue quase que imediatamente fazer com que o público simpatize com os Boxtrolls, e não por eles serem engraçadinhos, embora essa característica se faça presente, mas, sim, por se mostrarem bondosos e inventivos. É algo que os diretores Graham Annable e Anthony Sacchi tratam de deixar evidente na adorável relação deles com Ovo e no design de produção do lar subterrâneo, formado de maneira incrivelmente funcional pelos objetos que pegam nas ruas. Por nos importarmos com os Boxtrolls, os momentos em que Surrupião sequestra alguns deles se revelam bem melancólicos, e é notável a impotência sentida por todos diante da situação, em especial a de Ovo.
Já que mencionei o design de produção, vale dizer que o visual de Os Boxtrolls é sensacional, característica comum nas obras da Laika. Isso aparece não só no já citado lar dos personagens, mas também na própria Pontequeijo, com seu jeito obscuro à noite e rico em cores à tarde, além da enorme mansão do Lorde Portley-Rind e da suja e desorganizada casa de extermínio de Surrupião. Para completar, é bacana ver a atenção que os diretores dão a pequenos detalhes da animação, como quando Ovo engole o choro ao ver um Boxtroll ser pego, o que torna a técnica do stop-motion ainda mais expressiva.
Mas, apesar dessas virtudes, Os Boxtrolls se prejudica um pouco por não ter uma história das mais originais. Seu plot, com os personagens-título sendo figuras boas ao invés de monstruosas como todos pensam, lembra àquele visto, por exemplo, em Como Treinar o Seu Dragão. No entanto, o principal problema do filme é o fato dele ter coragem de dar tons mais pesados à sua história (como no flashback que explica como Ovo foi parar nas mãos dos Boxtrolls), mas ser um tanto covarde ao não manter ao menos uma parte disso até o final. Dessa forma, o roteiro traz reviravoltas meio forçadas, que funcionam apenas graças ao carisma de seus protagonistas, mas não faria mal algum caso um pouquinho de escuridão fosse mantido no final das contas.
Assim, Os Boxtrolls não chega a ser um trabalho tão interessante quanto os outros realizados pela mesma produtora. Mas ainda se mostra capaz de se sustentar como uma animação simpática e que é um deleite para os olhos do espectador, fazendo o suficiente para render um entretenimento agradável.
Nota:

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Arremesso de Ouro

“Baseado em uma história real”. Há filmes que colocam essa frase em sua narrativa antes de qualquer outra coisa. Mas muitas vezes eles seguem tantas convenções que chega a ser uma surpresa perceber que seus materiais de origem tenham realmente existido. Arremesso de Ouro, produção dos Estúdios Disney, é um desses casos. Aqui, temos uma história que até poderia render uma produção interessante, mas que resulta em um drama do tipo que já vimos diversas vezes em obras melhores.

Escrito por Tom McCarthy, Arremesso de Ouro se concentra em J.B. Bernstein (Jon Hamm), agente esportivo que, ao lado de seu sócio Aash (Aasif Mandvi), está quase falido, perdendo clientes para outras agências. É quando ele tem a ideia de ir até a Índia com o objetivo de encontrar talentosos jogadores de críquete e transformá-los em grandes jogadores de baseball, selecionando-os a partir de um reality show, o “Million Dollar Arm” (Braço de Um Milhão de Dólares, em tradução literal). Com a ajuda do olheiro Ray Poitevint (Alan Arkin), J.B. chega aos jovens Rinku Singh (Suraj Sharma) e Dinesh Patel (Madhur Mittal), levando-os para serem treinados nos Estados Unidos. E se inicialmente J.B. só pensa em negócios, aos poucos acaba se aproximando e formando laços afetivos com a dupla, que tenta se adaptar ao novo lar longe de suas famílias.
Assim tem início a velha história do homem solitário e egoísta que encontra uma família onde menos espera. No caso de J.B., entretanto, ela não irá se restringir apenas a Rinku e Dinesh, mas incluirá também sua inquilina, Brenda (Lake Bell). Isso é tratado pelo roteiro de um jeito muito clichê, sendo possível prever não só o arco dramático do protagonista (que fica bem claro quando afirma “não tenho família”), mas também nos conflitos ao longo do filme. Aliás, alguns acontecimentos, como a subtrama envolvendo um jogador de futebol americano ou um pequeno machucado que um personagem sofre, são inseridos apenas para causar distúrbios artificiais, pois no geral não apresentam impacto nenhum na história.
Isso é conduzido pelo diretor Craig Gillespie (o mesmo do excelente A Garota Ideal e do divertido remake de A Hora do Espanto) como um melodrama barato. Há momentos, por exemplo, em que o realizador claramente tenta forçar o choro do espectador, usando até uma trilha melosa para alcançar seu objetivo. Além disso, Gillespie não consegue impedir que o filme se torne chato em determinadas partes, como na sequência envolvendo o reality show, que toma muito tempo de tela, principalmente se considerarmos que é estabelecido logo no início quem serão os escolhidos.
Mas Arremesso de Ouro ao menos tem um bom elenco, detalhe que o deixa mais suportável. Se não criamos antipatia por J.B. e seus modos egoístas, isso se deve porque o talentoso Jon Hamm o interpreta com carisma, sendo eficiente em toda a transição pela qual o protagonista passa. Já Suraj Sharma e Madhur Mittal desenvolvem uma bela camaradagem entre Rinku e Dinesh, ao passo que Lake Bell faz de Brenda uma figura adorável, compensando o fato de a personagem ser apenas o interesse amoroso do protagonista. Finalmente, Alan Arkin rouba algumas cenas como o rabugento Ray, que vem a ser usado como um deus ex-machina pelo roteiro.
Arremesso de Ouro busca ser uma produção que faz o espectador sair da sala de cinema de bom humor (“feel good movie”, como costumam chamar). Mas, infelizmente, se estabelece como um filme água com açúcar esquecível, que desperdiça seu potencial dramático ao optar por seguir caminhos mais fáceis e batidos.
Nota:

domingo, 21 de setembro de 2014

Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola

Depois do sucesso alcançado por suas séries animadas, sendo Family Guy a mais popular, Seth MacFarlane surpreendeu grande parte das pessoas ao fazer de sua estreia na direção de longas-metragens, Ted, uma das comédias mais hilárias dos últimos anos. Com a boa aceitação do filme, MacFarlane parece ter ganhado confiança para se arriscar em outra comédia que segue seu estilo de humor escrachado e politicamente incorreto. É o que vemos neste Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola, onde o diretor também decide aparecer de carne e osso em frente às câmeras ao invés de optar pelo motion capture ou por uma dublagem.

Escrito por MacFarlane e seus colaboradores habituais Alec Sulkin e Wellesley Wild, Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola se passa no Velho Oeste de 1882 e segue o covarde criador de ovelhas Albert Stark (MacFarlane), que vive diante dos perigos da pacata cidade de Old Stump, no Arizona, e é dispensado por sua namorada, Louise (Amanda Seyfried). Em meio a isso, o impiedoso Clinch (Liam Neeson) segue sua jornada de crimes, deixando sua sensível esposa Anna (Charlize Theron) ficar na cidade, já que assim ela não precisa se incomodar com sua crueldade. Anna então acaba se aproximando de Albert, passando a ajudá-lo a impressionar Louise, que o trocou rapidamente pelo rico e bigodudo Foy (Neil Patrick Harris).

É difícil ver Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola e não se lembrar da comédia de western mais famosa do cinema: o excepcional Banzé no Oeste, de Mel Brooks, que é até referenciado em alguns momentos. Mas ao contrário da obra de Brooks, é uma pena que Seth MacFarlane prefira investir em uma história bem pobre, cujo desenvolvimento segue fórmulas e clichês tão batidos que ao vermos Albert e Anna ficando amigos já sabemos o que acontecerá ao longo da narrativa. E por os pontos importantes da trama serem tão óbvios, de vez em quando o filme se torna desinteressante por demorar a chegar neles.

No entanto, MacFarlane parece usar a história desse jeito apenas como uma base para inserir todas as piadas, uma escolha que rende coisas boas e ruins. Por um lado, o roteiro tem sacadas inspiradas, sendo eficiente em seu humor negro (como nas cenas de mortes inacreditáveis, que são tratadas como algo divertidamente assustador, mas comum naquele universo) e na forma como satiriza detalhes conhecidos do Velho Oeste (a sequência da luta no bar, com todos se envolvendo na briga sem motivo, é um exemplo). Por outro, o filme às vezes se esforça demais para fazer o espectador rir (como quando Albert vai embriagado até a casa de Louise), além de trazer gags escatológicas, mas idiotas (a ovelha urinando no protagonista vem em mente).

Enquanto isso, se MacFarlane não chega a ser um intérprete dos melhores, ao menos tem carisma como Albert, desenvolvendo ainda uma bela química com Charlize Theron, que traz uma bem-vinda doçura por trás da grande força de Anna, caprichando também no lado cômico da personagem. Até por isso é uma pena que ela vire uma donzela indefesa a partir de determinado momento. Já Amanda Seyfried e Neil Patrick Harris pouco tem a fazer com Louise e Foy, ao passo que Giovanni Ribisi e Sarah Silverman causam boas risadas como Edward e Ruth, amigos do protagonista e que mantêm uma relação incomum (Ribisi, inclusive, tem a chance de referenciar um detalhe hilário de seu papel em Ted). Fechando o elenco, Liam Neeson claramente se diverte como Clinch, tendo uma presença admirável encarnando a vilania do personagem.

Contando ainda com uma série de participações especiais interessantes das quais duas em especial se revelam absolutamente geniais, Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola faz o suficiente para render um bom entretenimento. Mas é uma comédia que empalidece não só se comparada a outras obras do tipo, mas também a outros trabalhos de Seth MacFarlane.

Obs.: Há uma cena depois dos créditos finais.

Nota: