sábado, 20 de setembro de 2014

O Justiceiro (1947)

George Lambert (Wyrley Birch) é um padre adorado na cidade americana de Bridgeport, o que faz seu assassinato a sangue frio causar grande comoção na população. Apostando nas testemunhas e nas poucas provas que tem em mãos, a polícia liderada por Harold Robinson (Lee J. Cobb) prende o veterano de guerra John Waldron (Arthur Kennedy), mesmo que este jure não ter feito nada. É, então, que o promotor Henry Harvey (Dana Andrews) mostra ser o único com dúvidas relativas à acusação e tenta investigar a verdade, ainda que isso não seja muito bem visto pelos habitantes da cidade, eles que querem ver alguém preso pelo crime de qualquer maneira.

Lançado em 1947, O Justiceiro é um filme no qual o diretor Elia Kazan lida com um ótimo material, baseado em um caso real que ocorreu em Bridgeport na década de 1920. A premissa é até similar ao de uma obra-prima realizada dez anos depois: 12 Homens e uma Sentença. No entanto, ao longo do filme, em especial na primeira metade, Kazan enfrenta certos obstáculos que o atrapalham na hora de tornar a trama interessante, o que se deve a alguns problemas do roteiro escrito por Richard Murphy.
Quando focado apenas na história e nos personagens, Elia Kazan consegue criar uma narrativa instigante. Desde o início fica claro que John Waldron não é culpado, detalhe que aguça nossa curiosidade para saber o que acontecerá com ele no fim das contas. Não à toa o filme é mais envolvente em sua segunda metade, quando Henry Harvey admite a possibilidade da inocência de Waldron. O roteiro de Murphy merece créditos por desenvolver bem os esforços do promotor para provar sua teoria diante do tribunal. Ao mesmo tempo, é bacana notar como é explorada a vontade do ser humano de fazer justiça com as próprias mãos (a cena em que os habitantes tentam pegar o acusado quando ele é escoltado pela polícia vem em mente), assim como a grande pressão em volta de todos os envolvidos no caso.
Mas, se por um lado o roteiro tem essas qualidades, por outro sua estrutura às vezes se revela episódica, trazendo cenas sem ligações muito orgânicas, que passam a sensação de desenvolvimento corriqueiro. Além disso, Murphy usa uma péssima narração em off para explicar ao espectador eventos importantes, mas que por algum motivo não são mostrados no filme. Dessa forma, a história fica simplificada demais, a ponto de tornar a narrativa um tanto superficial. Para completar, a subtrama envolvendo Paul Harris (Ed Begley) e seu interesse particular na condenação de Waldron é apresentada displicentemente, não tendo o peso que poderia ter.
Em meio a isso, Dana Andrews traz força e determinação para Henry Harvey, fazendo do personagem uma figura íntegra e que segue seus princípios (“O dever de quem ocupa o cargo de promotor não é obter condenações, mas obter justiça”) apesar das dificuldades do trabalho. Já Arthur Kennedy é hábil ao fazer de John Waldron um homem vulnerável diante da situação em que se encontra. E Lee J. Cobb e Ed Begley como Harold Robinson e Paul Harris, respectivamente, enriquecem o filme com suas presenças magnéticas.
O Justiceiro é um trabalho menor de Elia Kazan. Uma produção que, mesmo tendo rendido algo satisfatório, certamente poderia ter resultado melhor do que se vê na tela. Até por isso, não chega a ser uma surpresa que o filme não seja tão lembrado quanto os outros que o diretor viria a realizar em sua frutífera carreira.
Nota:

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Maze Runner: Correr ou Morrer

Livros de fantasia infato-juvenis já tem uma fórmula básica na busca de serem bem sucedidos: trazer um protagonista que mostra ser uma espécie de “Escolhido” e que causará um grande impacto dentro de seu universo. E se essa fórmula já está enjoando um pouco nos livros, o mesmo pode ser dito sobre suas adaptações cinematográficas, e todo ano surgem novos candidatos para tentar emplacar um sucesso parecido com os de Harry Potter e Jogos Vorazes. Só em 2014 tivemos Divergente (que rendeu dinheiro o suficiente para que suas continuações sejam preparadas), O Doador de Memórias e agora este Maze Runner: Correr ou Morrer, baseado no primeiro livro da trilogia escrita por James Dashner.

Roteirizado a seis mãos por Noah Oppenheim, Grant Pierce Myers e T.S. Nowlin (todos estreantes na função), Maze Runner acompanha o jovem Thomas (Dylan O’Brien), que repentinamente acaba indo parar em um lugar conhecido como Clareira, uma espécie de acampamento no qual dezenas de garotos ficam presos cercados por um enorme labirinto, sem lembrar de seu passado ou de como e por que foram enviados para lá. Todos têm a esperança de encontrar a saída através do labirinto, algo que àqueles que têm permissão para entrar nele (os chamados Corredores), como Gally (Will Poulter) e Minho (Ki Hong Lee), procuram há tempos sem sucesso. No entanto, Thomas promete pôr à prova as chances de todos escaparem de lá, sendo que as coisas ficam mais estranhas com a chegada de Teresa (Kaya Scoledario), a primeira menina a vir para a Clareira.

Logo de cara Maze Runner lembra de certa maneira O Senhor das Moscas, com seus personagens buscando sobreviver de um jeito quase primitivo, inclusive formando suas próprias regras para convivência. E não deixa de ser uma surpresa ver que a história tenha um tom mais sombrio quando comparada com as de outros filmes do tipo, algo que o diretor Wes Ball (estreante em longas-metragens) abraça sem medo. Ball, aliás, também consegue criar uma atmosfera de suspense interessante em volta do mistério em volta da Clareira e o labirinto, que ganham uma aparência pós-apocalítica graças ao design de produção e a fotografia com tons por vezes acinzentados de Enrique Chediak.

Mas se por um lado esse suspense é bem-vindo e necessário para a trama, por outro o filme vai ficando gradativamente desinteressante à medida que o roteiro revela quem está por trás da Clareira e por que os garotos vão para lá, sendo algo bobo demais. Não é à toa que o terceiro ato seja a parte mais fraca da produção. Além disso, Wes Ball pode até desenvolver eficientemente a atmosfera da história, mas mostra ser um diretor muito fraco em termos de cenas de ação, fazendo desse aspecto um dos mais problemáticos do filme ao não conseguir deixar clara a lógica visual e tentando ditar a tensão ao investir em cortes rápidos, mas isso apenas torna as cenas aborrecidas, como na sequência em que os monstros conhecidos como Verdugos atacam a Clareira.

Maze Runner ainda se prejudica não só ao seguir à risca sua fórmula, não se arriscando muito a fazer coisas novas dentro dela, mas também por ter diálogos muito óbvios. Dessa forma, quando o roteiro coloca personagens dizendo para Thomas “Não vá além dos muros” ou “Ninguém nunca sobreviveu a uma noite dentro do labirinto”, fica muito claro que o protagonista irá quebrar as regras do que acontece naquele universo, detalhe que impede que nos surpreendamos com seus feitos. Isso é até uma pena considerando que o jovem Dylan O’Brien surpreende ao trazer carisma e segurança ao papel.

Se levarmos em conta a atual mania dos estúdios de dividir o capítulo final de uma série literária em dois filmes, é provável que Maze Runner ganhe três continuações caso faça sucesso. Se forem realizadas, esperemos que sejam um pouco melhores do que este primeiro filme, ou essa será apenas mais uma saga que passará batida, sem deixar uma marca relevante.

Nota:


domingo, 7 de setembro de 2014

Hércules

Figura icônica da mitologia grega, Hércules já apareceu diversas vezes no cinema ao longo dos anos, sendo que no início de 2014 ele voltou às telonas tendo Kellan Lutz como intérprete, em uma produção dirigida por Renny Harlin. Mas esta mostrou ser uma catástrofe, e provavelmente estará em algumas listas de piores do ano. No entanto, como é comum que em uma mesma época sejam feitas obras similares (os chamados “filmes gêmeos”, que comentei neste post), o herói ganha uma nova chance no cinema neste Hércules dirigido por Brett Ratner e protagonizado por Dwayne Johnson. E o resultado felizmente é infinitamente melhor do que o da porcaria vista anteriormente, mesmo que ainda não seja um grande filme.

Escrito por Ryan Condal e Evan Spiliotopoulos, baseado nos quadrinhos de Steve Moore, Hércules acompanha o personagem-título liderando um grupo de mercenários formado por seu sobrinho Iolaus (Reece Ritchie), Autólico (Rufus Sewell), Anfiarau (Ian McShane), Atalanta (Ingrid Bolsø Berdal) e Tideu (Aksel Hennie), que o ajudam a espalhar sua fama de guerreiro lendário que enfrentou doze incríveis tarefas. É então que ele recebe a proposta de Lorde Cotys (John Hurt) para ajudar a proteger o reino Trácia. Tudo para que os exércitos dele tenham uma vantagem sobre dos homens comandados por Rhesus (Tobias Santelmann), que quer tomar a cidade.

Trazendo várias vezes alguns questionamentos com relação à fama de grande guerreiro do protagonista (quando perguntado sobre como matou o Leão de Nemeia, ele responde “Com minhas próprias mãos... Ou ao menos é o que dizem.”), o roteiro tenta retratá-lo como uma figura mais humana se comparada àquela que as histórias espalham. Em determinado momento, inclusive, ele tem seus ferimentos cobertos antes que alguém note sua vulnerabilidade. Sendo assim, vale ressaltar que Dwayne Johnson faz um bom trabalho ao trazer um jeito um tanto cético para o herói, como se todos seus feitos não fossem verdadeiros ou se tratassem apenas histórias mal contadas. Sem falar que o ator se revela um intérprete ideal para Hércules, seja por sua imponência ou por seu carisma, que ajuda o espectador a simpatizar rapidamente com o personagem.

Enquanto isso, Brett Ratner consegue trazer uma escala apropriadamente épica ao filme, comandando sequências de ação cativantes, detalhe que acaba sendo importante por elas serem longas. Nesse aspecto, aliás, é bom notar a bela dinâmica entre Hércules e sua equipe, com todos realmente protegendo um ao outro, não importando a posição em que estão no campo de batalha. Além disso, a grandiosidade da produção ainda é muito bem estabelecida pelo próprio visual do filme, onde Ratner tem o auxílio não só da boa fotografia em tons sépia de Dante Spinotti, mas também dos cenários impressionantes concebidos pelo design de produção de Jean-Vincent Puzos.

Mas se Hércules acerta nesses aspectos, encontra graves problemas no modo como desenvolve sua história, e nesse sentido o roteiro mostra-se muito pobre, impedindo a produção de ser um pouco mais interessante. Apostando em clichês e reviravoltas óbvias, o filme nunca chega a surpreender, contando ainda com uma estrutura um tanto problemática, já que em vários momentos são inseridos flashbacks que se desviam da trama principal e quebram o ritmo da história. Para completar, por mais que os intérpretes dos amigos do protagonista tenham uma boa presença em cena (em especial Rufus Sewell e Ian McShane), isso não tira o fato de que estes são meros estereótipos, ao passo que os vilões são bem caricaturais.

Hércules sem dúvida não é um trabalho dos mais memoráveis, mas ao menos consegue ser um entretenimento razoável, se salvando ao divertir com seu personagem e com o bom humor que envolve a narrativa.

Nota:


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Anjos da Lei 2

Divertido e com uma ótima dupla de protagonistas em Jonah Hill e Channing Tatum, Anjos da Lei foi uma adaptação bem interessante da famosa série de TV estrelada por Johnny Depp na década de 1980. Com o sucesso surpreendente que o filme fez nas bilheterias, é lógico que uma continuação já está aqui para mostrar outra uma aventura dos personagens. No entanto, vale dizer que boa parte das sequências tem uma ambição muito mais comercial do que propriamente criativa, chegando a contar praticamente a mesma história vista anteriormente. De certa forma, Anjos da Lei 2 entra nesse caso, mas com a diferença de que tem plena noção disso, aproveitando sua proposta com toques metalinguísticos para brincar com essa mania até comum no cinema. O que é apenas uma de suas sacadas inspiradas.

Escrito por Michael Bacall, Oren Uziel e Rodney Rothman, a partir do argumento concebido por Bacall e Jonah Hill, Anjos da Lei 2 traz Schmidt (Hill) e Jenko (Tatum) recebendo novas ordens do Capitão Dickson (Ice Cube), que manda eles se infiltrarem em uma faculdade, caminho natural considerando que antes eles havia voltado ao colégio. Ali, eles ficam a cargo de descobrir quem é o fornecedor da droga conhecida como “WHYPHY”, responsável pela morte de uma das alunas. Mas enquanto fazem sua tarefa, a dupla também passa a viver um pouco a experiência de faculdade que não puderam aproveitar mais cedo em suas vidas, sendo que o sucesso de um não agrada muito o outro.

Apesar de se manter coerente com as personalidades dos dois protagonistas, esse descontentamento entre eles leva a conflitos que são desenvolvidos de um jeito meio previsível, além de similar ao que havíamos visto no filme anterior. Mas se por um lado isso faz com que a história não surpreenda tanto, por outro acaba rendendo bons momentos graças a já citada metalinguagem, como quando o chefe Hardy (vivido por Nick Offerman) ressalta o sucesso da outra missão dos personagens (“Façam a mesma coisa da última vez e todos ficarão felizes”, ele diz). E os talentosos diretores Phil Lord e Chris Miller conduzem tudo com grande energia, explorando com eficiência as cenas mais engraçadas, mostrando um ótimo timing tanto para as piadas quanto para as brincadeiras com clichês, como quando um personagem questiona o fato de ninguém ser ferido em meio a um tiroteio.

Enquanto isso, Jonah Hill e Chaning Tatum voltam a mostrar a excelente química que desenvolveram no primeiro filme, mostrando que Schmidt e Jenko realmente se completam e gostam um do outro apesar de suas diferenças, tendo ainda um carisma natural que faz com que nos importemos com eles ao longo da história. E eles claramente se divertem encarnando os personagens, como na cena em que Jenko percebe o motivo de uma birra entre Schmidt e o Capitão Dickson, em um dos melhores momentos do filme. Dickson que, aliás, ganha mais espaço dessa vez, dando a Ice Cube a oportunidade de divertir um pouco mais com seu jeito durão e desbocado.

É verdade que de vez em quando Anjos da Lei 2 parece jogar uma piada na tela torcendo para que o espectador ria, sem muito sucesso. Por sorte isso não acontece muito e o filme consegue ser uma continuação bem eficiente. No entanto, considerando a hilária sequência no início dos créditos finais, que brinca com franquias cinematográficas e como elas são exploradas, será uma pena se a qualidade da série cair em um terceiro exemplar, já que é bacana ver os realizadores fazendo essas piadas, mas apenas enquanto eles mesmos não se tornam os próprios alvos.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.

Nota:


Locke

Filmes como Locke são do tipo que não aparecem com frequência no cinema. É um trabalho que consiste em seguir apenas um personagem num mesmo cenário durante quase toda a narrativa, e que conta uma história que se passa em tempo real. São limitações que, nas mãos de realizadores menos talentosos, poderiam impedir a realização de uma obra interessante. No entanto, o diretor-roteirista Steven Knight (responsável pelo roteiro dos aclamados Coisas Belas e Sujas e Senhores do Crime, além de ter comandado recentemente o eficiente Redenção, estrelado por Jason Statham) aproveita isso para montar um estudo de personagem instigante, trazendo Tom Hardy naquela que é desde já uma das melhores atuações de sua carreira.

Ivan Locke (Hardy) é um homem bem sucedido em seu trabalho com construções e tem uma boa vida com a esposa Katrina (Ruth Wilson) e os filhos Eddie (Tom Holland) e Sean (Bill Milner). Certo dia, ele recebe uma mensagem de Bethan (Olivia Colman), mulher com quem passou uma noite há alguns meses e que agora está entrando em trabalho de parto prematuramente. Enquanto se dirige para casa assistir a um jogo de futebol com a família e se preparar para um grande serviço que terá no dia seguinte, Ivan toma a decisão de ir apoiar o nascimento deste filho inesperado, o que lhe fará perder tudo o que construiu em sua vida.
Tirando a cena inicial, que mostra o protagonista saindo do trabalho e entrando em seu BMW, o filme se passa inteiramente dentro do veículo, e todas as informações que precisamos para entender o que está acontecendo são dadas através das conversas que ele tem pelo celular enquanto dirige à caminho do hospital, em Londres. Dessa forma, Steven Knight é hábil ao construir diálogos que nunca soam expositivos e ajudam no desenvolvimento do personagem, estabelecendo de maneira natural o passado dele – principalmente sua relação com o pai, o que nos faz entender o porquê dele tomar a decisão que inicia a história. Knight ainda cria uma narrativa envolvente do início ao fim, e com a ajuda da maravilhosa fotografia de Haris Zambarloukos transforma o carro em um lugar inquietante e até claustrofóbico, detalhes que se encaixam perfeitamente no contexto proposto, considerando os conflitos estressantes que o personagem enfrenta ali dentro.
Mas, mesmo com essas qualidades, Locke certamente não teria tanta força caso não tivesse um grande ator à frente de sua trama. Por sorte, Tom Hardy é um dos melhores nomes que surgiram nos últimos anos e encarna o personagem com a complexidade que este merece, e em um mundo justo seria indicado a todos os prêmios por isso. Desde o impulso no modo como muda a direção do carro para Londres até a maneira como fala, que denota certa lamentação na voz por trás de sua calma, Hardy faz de Ivan uma figura muito humana, apesar de falha. Ao longo da história, acompanhamos um homem que claramente gostaria de estar em casa ao invés de dirigindo, mas que tem consciência de que isso não só seria errado como também o deixaria parecido com o próprio pai. Assim, Ivan está constantemente tentando fazer aquilo que é certo, ainda que prejudique pessoas com as quais se importa. E ele sabe que as palavras que trocar pelo celular farão com que sua vida esteja diferente quando colocar os pés para fora do carro, o que, inclusive, torna compreensível o porquê dele hesitar um pouco antes de atender a cada chamada.
Fascinante em seus 85 minutos de duração, Locke é, sem dúvida, um dos melhores filmes dessa temporada. É até uma pena que chegue ao fim e tenhamos que nos afastar de seu excelente protagonista. Mas assim como ele precisa resolver seus problemas e lidar com a nova vida que terá, nós precisamos voltar aos nossos cotidianos, mesmo com os obstáculos que somos obrigados a encarar.
Nota:

sábado, 30 de agosto de 2014

Cidade das Ilusões

Algo que as pessoas passam boa parte do tempo tentando alcançar, de um jeito ou de outro, é o sucesso. Ter uma vida segura e feliz, que possibilite olhar para trás e pensar que toda a energia gasta para realiza-la foi válida. Alguns cumprem esse objetivo com certa facilidade, outros com incrível dificuldade. E há pessoas que passam a vida inteira buscando isso, mas que parecem não estar destinadas a algo assim. É o caso dos personagens vistos neste excelente Cidade das Ilusões, que John Huston lançou em 1972 e que representou um retorno à boa forma para o diretor, que na época vinha fazendo alguns filmes não muito bem recebidos.

Baseado no livro de Leonard Gardner, o roteiro escrito pelo próprio autor acompanha Billy Tully (Stacy Keach), boxeador que já viveu bons momentos e que agora tenta voltar aos ringues, mesmo em franca decadência. Em seu primeiro dia de treino, ele encontra Ernie Munger (Jeff Bridges), jovem que mostra potencial para ser um boxeador de destaque e que logo segue seu conselho de ir ver o antigo treinador dele, Ruben (Nicholas Colasanto), homem que pode ajuda-lo a conseguir suas primeiras lutas. A partir disso conhecemos as vidas deles e passamos a acompanhar as dificuldades de ambos para alcançarem o tão desejado sucesso.
Cidade das Ilusões apresenta um universo pacato, melancólico, habitado por personagens fracassados, detalhe ressaltado pela ótima fotografia de Conrad L. Hall, que investe bastante em tons pastel. Dessa forma, quaisquer tentativas de mudança por parte daquelas pessoas acabam sendo frustradas. No caso de Tully, vemos um homem fraco, alcóolatra, que foi deixado pela esposa, chega a morar de favor com a ainda mais alcoólatra Oma (Susan Tyrrell) e precisa colher frutas para ganhar algum dinheiro. Quando finalmente consegue uma vitória, o valor desta se revela praticamente insignificante. Enquanto isso, Ernie serve como um contraponto perfeito a Tully, sendo uma figura cheia de energia e que aguenta bem os golpes desferidos contra ele, tanto no ringue quanto no dia a dia. Ele também tem como vantagem clara o fato de ser jovem e, portanto, não ter tido tantas decepções quanto seu colega boxeador. E não é surpresa ver que Tully em determinados momentos aparece dando conselhos para Ernie, o que indica seu pensamento de que o rapaz pode ser alguém muito melhor do que ele, isso se não cometer os mesmos erros.
Conduzido com grande sensibilidade por Huston, que ainda traz uma veracidade admirável a narrativa, Cidade das Ilusões também conta um elenco inspiradíssimo, a começar por Stacy Keach, até então um ator não muito conhecido, mas que aqui tem uma atuação digna de prêmios. Desde a postura em cena até a voz arrastada, Keach encarna Tully como alguém cujo jeito de derrotado é muito mais forte do que sua capacidade de vencer. Já Jeff Bridges, que estava em ascensão e recém havia sido indicado ao Oscar por A Última Sessão de Cinema, encarna Ernie Munger com grande carisma e vitalidade, tendo ainda uma dinâmica interessante com Keach. Também merecem destaque Susan Tyrrell, que rouba a cena sempre que aparece (não à toa sua indicação ao Oscar foi a única que o filme recebeu), e Nicholas Colasanto, que faz de Ruben um treinador ansioso para tornar seus pupilos vencedores.
Cidade das Ilusões é um filme delicado de John Huston, e seus personagens ficam na cabeça do espectador por um bom tempo. Pode não ser uma das obras mais lembradas do cineasta, mas merece tanta atenção quanto alguns de seus trabalhos mais elogiados. O que significa muita coisa, considerando que estamos falando de um diretor bastante celebrado.
Nota:

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lucy

A teoria de que nós usamos apenas 10% de nossos cérebros rende várias discussões, em parte por ela explicar o fato de muitas pessoas não realizarem tantas coisas quanto poderiam. Mesmo que na prática quase todos os especialistas digam que se trata de uma teoria falsa, isso não impede que alguém possa usá-la como ponto de partida para um filme, como foi no medíocre thriller Sem Limites, dirigido por Neil Burguer e estrelado por Bradley Cooper. Agora é Luc Besson quem resolve montar uma história a partir disso neste Lucy, que coloca Scarlett Johansson no centro de uma eficiente mistura de filme de ação com ficção científica.

Lucy se concentra na personagem-título (vivida por Johansson), uma jovem estudante que é forçada pelo namorado a entregar uma maleta a um certo Sr. Jang (Choi Min-sik, o eterno Oh Dae-su, de Oldboy). O que deveria ser uma tarefa simples se complica quando Jang resolve usar Lucy como mula para transportar uma nova e potente droga chamada CPH4, implantando-a na barriga da moça. Mas um de seus capangas a agride, fazendo o pacote se romper e permitindo que a substância entre em contato com o organismo dela. Como resultado, Lucy ganha habilidades inimagináveis graças ao fato de a droga expandir suas atividades cerebrais, que aumentam à medida que o tempo passa. Mas a jovem também fica em seus últimos momentos de vida, e ao mesmo tempo em que precisa lidar com Jang e seus capangas, ela pede ajuda ao Professor Samuel Norman (Morgan Freeman) para entender o que está acontecendo e saber o que deve fazer com seus recém-adquiridos poderes.

O modo como Besson desenvolve sua premissa não tem uma lógica bem estabelecida, iniciando quase como um filme de super-herói e em outro momento se aproximando de Transcendence, a fraca ficção científica estrelada por Johnny Depp recentemente. E devido a isso, chega a ser engraçado (mesmo que um tanto bobo) que Lucy possa ler mentes usando cerca de 20% de sua capacidade cerebral ou simplesmente não sinta dor, detalhe que rende uma cena divertidamente over em um hospital, quando ela vai tirar o pacote com CPH4 de seu corpo. Mas aos poucos o diretor-roteirista mostra que, na verdade, sua proposta é acompanhar Lucy perdendo gradativamente tudo aquilo que a faz humana, com ela buscando então usar os poderes para repassar seus conhecimentos e, de alguma forma, ajudar as pessoas a se tornarem seres melhores do que são. Nisso, o filme usa sua protagonista para fazer quase que um estudo da evolução humana, algo até surpreendente de se ver na história.

Iniciando como uma jovem extremamente vulnerável e demonstrando grande segurança depois que ganha os poderes, Lucy se revela uma protagonista forte e ideal para a história. Sendo assim, boa parte da eficiência do filme se deve a Scarlett Johansson, atriz que desde o ano passado vem escolhendo sabiamente os projetos para os quais dedica seu talento. Johansson carrega a narrativa maravilhosamente bem, retratando as mudanças de sua personagem admiravelmente ao interpreta-la praticamente como um androide durante quase toda a projeção, o que é perfeito para a proposta do filme.

No entanto, Lucy sofre com problemas de ritmo que enfraquecem o resultado final. No início, por exemplo, Luc Besson se concentra na tensão que a protagonista enfrenta com Jang, mas várias vezes ele resolve parar isso para dar espaço às explicações de Samuel Norman sobre o funcionamento cerebral das pessoas, o que é feito de maneira expositiva e aborrecida. Aliás, é uma pena que Morgan Freeman apareça basicamente para dar essas explicações, não tendo muito mais o que fazer ao longo da história. Além disso, não podemos esquecer que Besson também busca fazer um filme de ação, incluindo algumas perseguições e tiroteios, mas essas sequências não são muito interessantes, já que Lucy é poderosa demais. Dessa forma, em nenhum momento pensamos que ela terá dificuldades para se livrar dos vilões. E por mais curiosa que seja a presença de Choi Min-sik, seu Jang nunca se mostra ameaçador.

Trazendo ainda um final que leva a premissa a níveis impressionantes, apesar de absurdos, Lucy rende um entretenimento satisfatório. E considerando que Luc Besson tem uma carreira com mais pontos baixos do que altos, não deixa de ser uma surpresa que depois do divertido A Família ele tenha até conseguido manter a consistência.

Nota: