quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Intocáveis

Philippe (François Cluzet) é um homem rico que ficou tetraplégico após um acidente que sofreu fazendo parapente, um de seus esportes favoritos. Precisando de cuidados, ele contrata Driss (Omar Sy), que além de fazer parte de uma classe social oposta a sua e ter uma personalidade completamente diferente, ainda não tem experiência alguma quanto a cuidar de pessoas como ele. Mas os dois acabam formando uma bela amizade, aprendendo muito um com o outro.
Baseado em uma história real, Intocáveis à primeira vista parece ser um filme que se entregará a um melodrama irritante em algum momento, assim como acontece com muitos filmes. Mas a produção dirigida pela dupla Olivier Nakache e Eric Toledano surpreende ao ser um drama com bons toques de comédia, resultando em uma experiência gostosa, leve e divertida ao lado de seus ótimos personagens, justificando o porquê de esse filme ter sido a maior bilheteria na França ano passado.
Iniciado em uma pequena perseguição que a dupla de protagonistas cria apenas para se divertir e relaxar, o filme segue a estrutura comum de começar em algum ponto futuro e logo depois mostrar como a história chegou naquele momento. Talvez aí resida um dos problemas que mais incomodam em Intocáveis: não há motivo aparente para que o filme se estruture dessa forma. Afinal, não é um ponto exatamente curioso ou impactante (os personagens não estão passando por nenhum tipo de problema) para que surja um mistério em torno de tudo que aconteceu até ali.
Problemas de estrutura à parte, o filme conquista o espectador com o carisma de seus personagens. Sendo um ser humano muito dependente de outras pessoas, Philippe surpreende ao não ser uma figura ranzinza, que tem a morte como maior desejo ou trata sua deficiência apenas como uma maldição que lhe causa vergonha. Ao invés disso, o personagem surge sempre simpático e de bom humor, tentando aproveitar a vida mesmo com sua limitação, que não o impede de ter um romance através de cartas ou continuar praticando parapente.
Já Driss inicialmente parece ser um bon vivant, querendo viver apenas às custas do auxílio desemprego. No entanto, ao começar a cuidar de Philippe, ele gradualmente começa a ganhar a confiança não só do espectador, mas também de outros personagens do filme, como os empregados de Philippe, além de se tornar uma pessoa mais responsável. O motivo para o porquê de Driss ter sido contratado para o cargo de ajudante é um tanto óbvio, mas bastante apropriado: “Ele não tem compaixão”, diz Philippe. É uma pena que o roteiro mostre que Driss tem alguns problemas na família, mas não os desenvolva muito bem, não deixando claro nem que tipo de encrenca o irmão do personagem entra em determinado momento.
Tanto François Cluzet quanto Omar Sy aparecem carismáticos interpretando os protagonistas. Exibindo uma belíssima química em cena, os atores colecionam ótimos momentos ao longo do filme, como quando Philippe e Driss saem no meio da noite para tomar um ar. Mas a dupla também capricha em seu timing cômico, e diversão é o que não falta em Intocáveis. A cena em que Driss começa as fazer “experiências” nas pernas de Philippe é um dos momentos mais divertidos do filme, ao lado da sequência que mostra vários tipos de bigodes em um dos personagens.
Olivier Nakache e Eric Toledano comandam o filme com grande sensibilidade, algo que não é quebrado mesmo quando os diretores investem puramente na comédia. O roteiro escrito por eles mesmos parece ir em direção a uma espécie de conflito desnecessário entre os dois personagens, o que acontece bastante em filmes que contam com duas figuras com personalidades totalmente diferentes. Mas Nakache e Toledano surpreendem ao nunca levar sua história por esse caminho, que ainda transformaria o filme em algo bastante formuláico e clichê.
Os diretores também conseguem fazer um belo contraste entre os lares dos personagens. Se a casa de Philippe surge luxuosa, sempre limpa e organizada, o mesmo não pode ser dito quanto a casa de Driss, um lugar onde ele não consegue nem tomar um banho de banheira tranquilamente, graças a bagunça que toma conta da casa. É algo que revela muito sobre a natureza dos dois personagens, mostrando o quão diferentes eles são.
Devo dizer que não era nenhum pouco familiarizado com o trabalho de Olivier Nakache e Eric Toledano. Intocáveis é uma grata surpresa e, mesmo tendo um título como esse, é um filme tocante, além de ser tão simpático quanto seus personagens.
Cotação:

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Vingador do Futuro

Até pouco tempo atrás, O Vingador do Futuro não era um filme do qual eu tinha boas recordações. Sendo um dos clássicos de Paul Verhoeven, resolvi dar uma segunda chance ao filme antes de assistir a este remake dirigido por Len Wiseman (diretor dos dois primeiros Anjos da Noite e do ótimo Duro de Matar 4.0). A segunda visita mostrou que eu estava enganado, e vi que Verhoeven fez uma obra interessante, com uma história envolvente e que ainda tinha em Arnold Schwarzenegger um protagonista bastante carismático. Este remake é diferente do primeiro filme, ainda que conte basicamente a mesma história. Ao longo de suas duas horas de duração mostra ser um filme de ação até eficiente, mas ainda inferior ao que Verhoeven havia feito antes.
Baseado no conto de Philip K. Dick, o roteiro escrito por Mark Bomback e Kurt Wimmer se passa em um planeta Terra considerado inabitável, com exceção de dois lugares: a Federação Unida da Bretanha (ou FUB) e a Colônia. No meio disso, o operário Douglas Quaid (Colin Farrell) tenta viver da melhor maneira possível ao lado da esposa, Lori (Kate Beckinsale). Tento sonhos estranhos com uma misteriosa mulher (Jessica Biel), ele vai à empresa Rekall com o desejo de ter memórias interessantes como um espião, ainda que essas memórias sejam falsas. Mas algo dá errado e ele se vê no meio de uma trama conspiratória envolvendo o mandante da FUB, Cohaagen (Bryan Cranston) e os rebeldes da Colônia, além de descobrir que sua memória foi apagada e ele não é a pessoa que pensa ser.
Este novo O Vingador do Futuro faz algumas mudanças com relação ao filme de 1990, sendo que duas são sentidas logo de cara: o nível de violência não chega nem perto daquilo que Paul Verhoeven havia feito, e os personagens não vão a Marte. Mas apesar de serem grandes mudanças, não chegam a atrapalhar na proposta deste remake. De qualquer forma, Len Wiseman tenta de vez em quando fazer algumas homenagens ao primeiro filme, como ao incluir uma cena em que Douglas Quaid usa um elevador para derrotar seu adversário (no caso, um robô), algo parecido com o que havia acontecido com Richter, personagem de Michael Ironside na primeira versão. Mas, em alguns momentos, a preocupação em manter algumas coisas do primeiro filme é tão grande que o roteiro não hesita em trazer de volta a famosa “mulher de três peitos”. No entanto, ela surge deslocada e completamente fora de contexto, já que o filme não trás de volta os mutantes, que antes faziam a presença da personagem ser bastante comum.
O design de produção de Patrick Tatopoulos é bastante eficiente no sentido de conseguir diferenciar muito bem a FUB da Colônia. A primeira aparece como uma grande metrópole, com prédios grandes e limpos, usando as melhores tecnologias possíveis. Já a segunda parece uma junção de várias favelas, tudo muito apertado, onde as pessoas ainda usam barcos para se transportar. Já a direção de arte consegue mostrar que Douglas Quaid se transformou em uma pessoa oposta aquela que costumava ser. Se antes ele morava em um belo e aconchegante apartamento na FUB (o que deixa claro a classe social a qual ele pertencia), em sua nova vida ele é infeliz em um lugar sem muita expressão.
Ao longo do filme, Len Wiseman consegue fazer com que as cenas de ação prendam a atenção do espectador. São momentos envolventes, ainda que pouco empolgantes. Wiseman conduz bem essas cenas, que vão desde perseguições até lutas. O primeiro confronto entre Quaid e Lori, em particular, é interessante, assim como uma briga que acontece dentro de um elevador. Tais cenas ainda têm o uso dos bons efeitos visuais, que ainda ajudam a dar o clima futurístico do filme. Infelizmente, se Wiseman dirige bem essas cenas, o mesmo não pode ser dito sobre a história em si, que parece ser conduzida sem muita segurança, contando com um ritmo bastante irregular.
O talentoso Colin Farrell (que parece estar gostando de colocar seu rosto em remakes, tendo feito A Hora do Espanto no ano passado) consegue segurar bem o filme. Se torcemos por Douglas Quaid ao longo da história, isso se deve a atuação do ator. Surgindo carismático e atento a tudo em cena, Farrell não deixa nada a desejar se comparado a Arnold Schwarzanegger. Enquanto isso, Kate Beckinsale não transforma Lori em uma real ameaça, ao passo que Jessica Biel não consegue fazer de Melina uma figura interessante. Já Bryan Cranston (um grande ator, como já comentei outras vezes) pouco pode fazer com Cohaagen, um vilão que de tão inteligente coloca Quaid para trabalhar em uma fábrica que produz exatamente os robôs que irão persegui-lo mais tarde, fazendo o protagonista saber quais são os pontos fracos deles.
Não deixando nem mesmo dúvidas se tudo o que acontece não passa de uma falsa lembrança de Quaid na Rekall, este novo O Vingador do Futuro não tem nada que seja realmente marcante. É mais um remake que não consegue bater o original.
Cotação:

sábado, 18 de agosto de 2012

"Eu curto Nicolas Cage"


Acho que muitos vão me chamar de louco pelo que vou dizer, mas não me importo: eu curto Nicolas Cage. É um ator que sempre achei interessante. Sim, de cada dez filmes que ele faz atualmente, oito são ruins. Sim, nesses filmes ele não tem boas atuações, se entregando ao overacting ou surgindo no piloto-automático. Mas ver o cara em ação ainda pode ser algo divertido, mesmo que às vezes seja de um jeito involuntário. Além disso, ignorando as produções rasteiras que ele vem fazendo (como O Vidente, Reféns, Perigo em Bangkok, Fúria Sobre Rodas e O Sacrifício) e considerando apenas as produções realmente interessantes (como Kick-Ass, Vício Frenético e Presságio), o sobrinho de Francis Ford Coppola mostra que ainda consegue ser um bom ator, lembrando os tempos em que fez filmes como Despedida em Las Vegas (que lhe rendeu um merecido Oscar), Coração Selvagem e Adaptação.
Os projetos fracos em que Nicolas Cage vem se metendo começaram a surgir com mais frequência a partir de 2006, depois que ele se encrencou com a Receita Federal. Cage, infelizmente, é louco em termos de gastos, sendo dono de várias mansões, carros e muitas outras coisas. O ator parece não ter limites com relação ao dinheiro que ganha. Muitas das produções duvidosas em que ele embarca são puramente para ele poder quitar suas dívidas. Talvez ele não precisasse se afundar tanto (afinal, estamos falando de um ator que ainda é respeitado na indústria), mas mesmo assim ele participa de filmes que poderiam ir direto para o mercado de home video caso não tivessem seu nome acima do título.
Por causa de suas escolhas, Nicolas Cage já virou motivo de piada. O College Humor, por exemplo, fez um vídeo hilário que mostra como é difícil ser agente do ator e guia-lo pelas várias propostas que ele recebe, já que Cage aceita todos os projetos que lhe propõem. Já o site The Onion fez um vídeo chamado “O Homem Dentro de Nicolas Cage” no qual o ator é apenas um fantoche controlado por um titereiro, que agora está lançando um livro sobre a experiência de ser o homem dentro de Nicolas Cage (infelizmente, não encontrei versões legendadas para nenhum dos vídeos, que podem ser conferidos logo abaixo). Mas o legal é ver que Cage tem consciência do momento em que está. O programa humorístico Saturday Night Live tem um quadro chamado “Get in the Cage”, no qual o ator é interpretado por Andy Samberg. É basicamente uma sátira a tudo o que ele vem fazendo. Em um dos episódios, o próprio Nicolas Cage participa e ajuda a satirizar a si mesmo (clique aqui para ver o vídeo).


Mesmo nessa fase desconfortável, Nicolas Cage ainda consegue papéis em filmes interessantes, e isso proporciona um alívio para quem gosta de ver o ator em sua boa forma. Entre seus próximos projetos, por exemplo, temos Kick-Ass 2: Balls to the Wall, onde ele voltará a interpretar Damon Macready (em um provável flashback). Outro projeto aguardado é Frank or Francis, musical dirigido por ninguém menos que Charlie Kaufman, que arrancou elogios com sua estreia na direção em Sinedóque, Nova York, além de ser o roteirista de filmes como Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.
Enfim, Nicolas Cage ainda é capaz de fazer bons filmes, mesmo que homeopaticamente. Espero que suas dívidas acabem em algum momento e ele pare (pelo menos um pouco) de fazer filmes que não merecem ter seu nome nos créditos.

sábado, 11 de agosto de 2012

Personagens Marcantes - Marty McFly e Dr. Emmett Brown

Viagens no tempo são interessantes. Não digo no sentido de voltar para uma época e tentar mudar algo que fez (nunca se sabe que consequências isso trará), mas sim no sentido de ir para uma época que chama muito a atenção. Particularmente, gostaria de ir para os anos em que grandes clássicos foram lançados. Seria fascinante ter a oportunidade de ver filmes como O Poderoso Chefão quando começaram a causar seu impacto. E é claro que eu aproveitaria para tentar conquistar o coração de Audrey Hepburn, mas isso é assunto para outra hora.
Enfim, pensando nesse conceito tão utilizado no cinema, achei que seria apropriado dedicar o espaço de Personagens Marcantes deste mês para duas figuras que fazem muitos cinéfilos felizes até hoje. Personagens que fizeram fama graças às grandes aventuras em que se metiam viajando no tempo em seu belo DeLorean. De Volta Para o Futuro é uma das maiores trilogias do cinema e seus protagonistas, Marty McFly e Dr. Emmet Brown, são dois grandes personagens.
Imortalizados por Michael J. Fox e Christopher Lloyd, Marty e Doc Brown conquistam o espectador logo no primeiro segundo que aparecem em cena. O primeiro com todo o seu jeito cool e o segundo com sua divertida excentricidade (“Great Scott!”), e seus intérpretes ainda são muito carismáticos, além de exibirem uma química em cena absolutamente maravilhosa. Isso é até colocado à prova no começo do primeiro filme, quando Doc Brown é morto com cerca de dez minutos e rapidamente já é possível sentir sua falta. Então, é um alívio quando Marty volta no tempo (para 1955) e encontra a versão mais jovem de seu amigo.
Os roteiros que o diretor Robert Zemeckis escreveu em parceria com Bob Gale sempre conseguiram colocar os dois personagens em situações divertidas, inusitadas e empolgantes, desenvolvendo tudo com inteligência. Não é todo dia que vemos uma mãe se apaixonar pelo seu futuro filho, como acontece no primeiro filme da trilogia. Aliás, com relação às tramas, é surpreendente o quanto elas podem ser complexas. No segundo filme, por exemplo, Marty tem que viajar no tempo diversas vezes para impedir que o presente vire um inferno graças ao vilão, Biff Tanen (Thomas F. Wilson).
Além de funcionarem muito bem quando estão juntos, Marty e Doc conseguem segurar os filmes quando estão sozinhos também. Durante boa parte de De Volta para o Futuro 3 (que, aliás, faz uma belíssima homenagem aos westerns), Marty fica sozinho no velho-oeste, procurando Doc e entrando em confusões com Mad Dog Tannen, um antepassado de Biff. No mesmo filme ainda vemos o roteiro dedicar boa parte da história para desenvolver o simpático romance entre Doc Brown e Clara Clayton (interpretada por Mary Steenburgen), que não atrapalha em nada a trama e ainda resulta em um belo final para o personagem.
Michael J. Fox e Christopher Lloyd são dois atores talentosíssimos e parecem ter nascido para dar vida a Marty e Doc Brown. Assistindo aos três filmes, é praticamente impossível imaginar outros atores interpretando esses personagens (Eric Stoltz chegou a gravar algumas cenas como Marty, mas foi substituído por Fox depois). Robert Zemeckis e Bob Gale criaram duas figuras sensacionais, e é sempre um prazer entrar nas aventuras de De Volta Para o Futuro ao lado deles.

sábado, 4 de agosto de 2012

O Que Esperar Quando Você Está Esperando / Bel Ami: O Sedutor

Não pude escrever críticas mais completas de dois filmes que estreiam essa semana, mas para não deixar passar em branco fiz comentários mais breves sobre eles. Os filmes são a comédia O Que Esperar Quando Você Está Esperando e o drama Bel Ami: O Sedutor.
O Que Esperar Quando Você Está Esperando
Baseado na série de livros de autoajuda escritos por Heidi Murkoff, O Que Esperar Quando Você Está Esperando segue cinco casais que estão passando pelo momento importante de acrescentar mais um membro a sua família. São várias situações, desde uma gravidez inesperada até adoção, que mostram que este período pode ser mágico ou infernal.
Devo dizer que ainda sou jovem para saber como é ser um pai, mas tenho alguma ideia por ter visto bebês nascerem na minha família, além eu mesmo já ter sido uma criança, obviamente. O que vejo é que por mais exaustivo que seja ter e cuidar de um bebê, no final tudo vale a pena por que os pais terão em mãos um ser humano que amarão pelo resto de suas vidas. E é exatamente por tentar passar essa mensagem que O Que Esperar Quando Você Está Esperando acaba incomodando bastante.
Afinal, é uma mensagem muito óbvia. Ao longo do filme, vemos os casais ficarem inseguros e acharem que não vão conseguir aguentar todo o período de nove meses ou ser bons pais. O roteiro ainda mostra um grupo de personagens que aparentam não gostar de ter que cuidar dos filhos, já que isso fez eles perderem um pouco de suas próprias vidas. Essa infelicidade e sofrimento que mães e pais têm é tão martelada pelo roteiro que acaba deixando a história previsível demais, já que é lógico que todos ficarão felizes mais tarde.
As cenas cômicas exploram o máximo que podem da gravidez das personagens (principalmente a de Wendy, interpretada por Elizabeth Banks), além de fazer algumas tiradas envolvendo o grupo de pais, o trabalho de Jules (personagem de Cameron Diaz) e até o detalhe de Dennis Quaid interpretar o pai de Ben Falcone, já que a diferença de idade entre os dois atores não parece ser muito grande. Mas o roteiro não acerta muitas vezes e poucos membros do elenco demonstram ter timing cômico, o que torna o filme entediante em alguns momentos.
No fim, O Que Esperar Quando Você Está Esperando é apenas mais uma comédia sem graça que acaba sendo esquecida assim que as luzes da sala se acendem.
Cotação:
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Bel Ami: O Sedutor
Baseado no livro de Guy de Maupassant, Bel Ami: O Sedutor se passa no final o século XIX e acompanha Georges Duroy (Robert Pattinson), um soldado que acaba de voltar da guerra. Sem dinheiro nem para ter um lar mais organizado ou roupas decentes, ele vai a Paris tentar melhorar sua situação, e com seu jeito sedutor conquista algumas das mulheres mais ricas da cidade.
Como é esperado em qualquer filme de época, Bel Ami conta com uma parte técnica competente. A direção de arte e os figurinos reconstroem bem a Paris de 1890. Além disso, os diretores Declan Donnellan e Nick Ormerod (dois estreantes em longas-metragens) conseguem deixar clara a precariedade da vida de Georges ao fazer da casa dele um local pequeno, bastante bagunçado e com paredes mofadas, e a fotografia de Stefano Falivene ainda acerta ao investir em cores frias e escuras nessa parte do filme. São elementos que criam um contraste interessante a partir do momento em que o protagonista passa a frequentar a alta sociedade, onde tudo é muito mais elegante.
Mas se tecnicamente o filme consegue chamar a atenção, o mesmo não pode ser dito quanto ao resto. O roteiro escrito por Rachel Bennett em nenhum momento consegue transformar Georges em uma figura sedutora, e Robert Pattinson também não ajuda muito nisso. Aparecendo em cena sempre inexpressivo e fazendo suas caras de dor de barriga (tão vistas em Crepúsculo) até para pedir uma simples cerveja, Pattinson não consegue transformar Georges em uma figura interessante. Em sua cena mais importante (quando Georges se vê enganado por várias pessoas em sua volta, descontando sua raiva em tudo o que vê pela frente), o ator se entrega um pouco ao overacting, não causando o impacto que deveria causar.
Já algumas personagens femininas se tornam caricaturas ao longo do filme. Madeleine Forestier e Virginie Rousset (interpretadas por Uma Thurman e Kristin Scott Thomas, respectivamente) não caem de amores por Georges logo à primeira vista, como acontece com Clotilde de Marelle (Christina Ricci). No entanto, quando elas finalmente se rendem aos encantos do protagonista, isso acontece sem muita naturalidade, fazendo elas se apaixonarem por ele muito repentinamente. Aliás, a obsessão que toma conta de Virginie acaba se tornando involuntariamente risível em alguns momentos.
Dirigido com um ritmo bastante irregular por Donnellan e Ormerod, Bel Ami não é nenhum pouco envolvente, além de desinteressante do início ao fim. Talvez Pattinson tenha melhor sorte em Cosmópolis. Se Walter Salles tirou uma boa atuação de Kristen Stewart, David Cronenberg pode fazer o mesmo com o rapaz.
Cotação:

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Quando Batman Begins foi lançado em 2005, ninguém imaginava que ali estava surgindo algo maior do que uma simples adaptação dos quadrinhos. Talvez nem o piloto de toda a viagem, o diretor Christopher Nolan, imaginava isso. Em uma época na qual o cinema se acostumou com produções de super-heróis que eram puro entretenimento, eis um filme que inicia algo que promete ecoar por muitos anos. Batman Begins surpreendeu e iniciou excepcionalmente a saga de um símbolo e de todo o bem que representa para uma sociedade. A história foi continuada brilhantemente em Batman: O Cavaleiro das Trevas, que com seu clima pesado, caótico e desgastante foi uma adaptação de quadrinhos que se colocou em outro patamar, não devendo nada a grandes clássicos do cinema. Agora, sete anos após o início de tudo isso, chega Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, um filme no qual Christopher Nolan finaliza sua contribuição para o personagem não só satisfatoriamente, mas também da forma épica como deveria ser.
Escrito pelo próprio Christopher Nolan em parceria com seu irmão Jonathan, e com argumento dele e David S. Goyer, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge se passa oito anos após os eventos do filme anterior. Ao fazer o Batman assumir a culpa pelos crimes cometidos por Harvey Dent, Bruce Wayne (Christian Bale) conseguiu trazer segurança a Gotham City, levando o promotor a condição de ídolo e herói da cidade e aposentando seu uniforme. Mas quando o mercenário Bane (Tom Hardy) dá as caras com o objetivo de acabar com a cidade aos poucos, o que nem Jim Gordon (Gary Oldman) e sua força policial podem impedir, Bruce se vê obrigado a voltar a usar sua máscara, mesmo que contra a vontade de Alfred (Michael Caine). O que se segue é uma grande batalha pela salvação de Gotham.
Começando o filme mostrando a tela se quebrando, Nolan indica que o mundo no qual estamos prestes a entrar pode até estar mais seguro do que antes, mas essa parede protetora a qualquer momento será destruída. Não é à toa que o diretor apresenta logo de cara o vilão da história, já que é ele que irá fazer um grande estardalhaço. E já que cheguei em Bane, vale dizer que ele consegue ser o vilão que o final da trilogia precisava. Tendo em Tom Hardy um intérprete com grande presença em cena (que nos faz esquecer durante todo o filme que o personagem esteve presente no desastroso Batman & Robin), Bane se torna ameaçador não só por suas habilidades e seu enorme porte físico, que faz qualquer pessoa ao seu redor tremer, mas também por seus olhares e por sua voz, que consegue ser amedrontadora graças ao modo como ela sai de sua máscara. Além disso, o plano de Bane consegue deixar Gotham City num estado inimaginável, o que certamente faria o Coringa ter orgulho de seu sucessor.
Como foi mostrado em O Cavaleiro das Trevas, Batman se tornou em um inimigo para as pessoas de Gotham, mesmo que algumas delas ainda acreditem nele, como o policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt). E em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Bruce Wayne se torna uma figura ainda mais admirável, já que mesmo sendo considerado um inimigo público, ele não hesita em voltar a colocar o uniforme quando aqueles que o desprezam (os policiais chegam a parar uma perseguição em determinado momento só para tentar prendê-lo) mostram precisar dele mais do que nunca. Quando Batman finalmente volta à ativa é uma cena até emocionante devido a tudo o que o personagem passou e ainda está passando.
Uma das principais características do universo de Batman criado por Christopher Nolan e sua equipe é o fato de ele ser moldado de forma muito crível, o que fez até a própria figura do herói algo que poderia existir no mundo real. Nesse terceiro filme, essa preocupação do diretor em manter isso é muito clara, de maneira que a máscara de Bane tem uma função específica, e até o uniforme que a ladra Selina Kyle (Anne Hathaway) usa em seus trabalhos tem suas utilidades. Isso demonstra grande inteligência do roteiro na hora de adaptar os personagens para este universo (aqui, uma Mulher-Gato falando “miau” e se lambendo não combinaria muito bem).
Nolan não tem piedade dos espectadores, tornando O Cavaleiro das Trevas Ressurge uma experiência pesada ao longo de suas quase três horas de duração (que por sinal em nenhum momento ficam entediantes, passando bem rápido). É um número grande de informações, reviravoltas e cenas intensas que o diretor apresenta. Mas essa é uma das características mais admiráveis em Nolan, que como mostrou em todos os seus filmes, demonstra confiar em seu público, sempre levando a trama para frente e nunca parando para mastigar a história caso alguém tenha perdido algum detalhe. E quando o filme parece estar se encaminhando para algo previsível, as reviravoltas do roteiro tratam de impor a ideia de que tudo pode acontecer.
O fato de o centro de operações de Bane e seus capangas ser localizado nos esgotos de Gotham é um dos detalhes mais interessantes de O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Dessa forma, Nolan consegue mostrar que a cidade literalmente começa a ser dominada pelo submundo, composto por pessoas criminosas por natureza. Com o mal vindo à superfície, é como se a cidade estivesse sendo destruída pelo inferno. Isso ainda é muito bem representado na tela, já que Nolan e seu diretor de fotografia Wally Pfister conseguem conferir à história uma atmosfera de puro pânico, desesperadora e sufocante, algo que ganha uma tensão constante graças à excelente trilha sonora do sempre competente Hans Zimmer.
O cineasta ainda consegue fazer boas cenas de ação, assim como já havia feito nos outros filmes da trilogia e em A Origem. Explorando ao máximo as habilidades de seus personagens, Nolan mantém um ritmo interessante quando eles partem para lutar. As duas lutas entre Batman e Bane, por exemplo, representam dois ótimos momentos do filme, nos fazendo temer o tempo todo pelo destino do herói, por que o vilão é monstruoso em termos de força. A própria guerra no terceiro ato é muito bem feita pelo diretor e ajuda a dar contornos épicos ao filme.
Christian Bale volta muito bem ao papel de Bruce Wayne. Com o personagem sem entrar em ação por oito anos, é bom ver que o ator consegue mostrar o quão “enferrujado” Bruce está no início. A própria decadência do personagem, que se exilou do mundo após os acontecimentos do filme anterior, fica clara na atuação de Bale, que prova mais uma vez ser o melhor intérprete de Bruce Wayne/Batman nos cinemas até agora. Além disso, a química entre ele e Michael Caine resulta em alguns dos momentos mais emocionantes de toda a trilogia. Aqui, Alfred deixa clara sua preocupação com o destino daquele que considera como o filho que nunca teve. Sendo o maravilhoso ator que sempre foi, Caine tem uma atuação comovente em boa parte de suas cenas.
Enquanto isso, os outros dois veteranos da trilogia voltam confortavelmente em seus papeis. Morgan Freeman surge sempre carismático como Lucis Fox, que aqui ganha mais importância devido à posição que está na Wayne Enterprises, e Gary Oldman faz do Comissário Gordon uma pessoa revoltada por ser um dos únicos que sabe a verdade sobre Harvey Dent, mas não poder fazer nada para limpar o nome de um amigo, que considera como o verdadeiro herói de Gotham.
Já os novos integrantes, além de Tom Hardy, Anne Hathaway cria uma Selina Kyle tão interessante quanto a de Michelle Pfeiffer em Batman: O Retorno. Esbanjando sensualidade no papel, a atriz tem em Selina uma personagem que quer passar por cima dos poderosos de Gotham, mas não a ponto de querer sua total destruição. E se com grande determinação Joseph Gordon-Levitt faz de Blake uma figura que fica cada vez mais interessante ao longo da história, Marion Cotillard acerta ao fazer de Miranda Tate uma mulher digna de confiança (algo que acaba sendo importante mais tarde).
Ao escrever sobre Batman: O Cavaleiro das Trevas, eu afirmei o seguinte: “Se Christopher Nolan caprichar no terceiro e último capítulo de Batman, então ele terá acabado de fazer a trilogia O Poderoso Chefão do gênero histórias em quadrinhos”. Nolan não só caprichou nessa terceira parte como conseguiu fazer com que seja tão marcante quanto os outros dois filmes.
Se a história realmente acaba aqui, então espero que não tenha tão cedo outro filme do Batman. O personagem precisará descansar um pouco depois do impacto que causou com essa trilogia.
Cotação:

terça-feira, 24 de julho de 2012

Batman - Através dos Filmes

Aproveitando a estreia de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o blog faz agora um pequeno especial sobre os filmes do Homem-Morcego nos cinemas. A franquia cinematográfica de Batman pode ser uma boa representação de uma fênix. Afinal, depois de se estabelecer como algo interessante nos filmes dirigidos por Tim Burton, o personagem viu suas histórias irem ao fundo do poço a partir da metade da década de 1990, e foi preciso quase uma década para que se recuperasse, ressurgindo das cinzas. Hora de fazer essa pequena recapitulação.
Batman: O Homem-Morcego
O primeiro filme estrelado por Batman e os outros personagens de suas HQs veio em 1966. Batman: O Homem Morcego havia sido planejado para fazer parte da famosa série Batman, estrelada por Adam West e Burt Ward. Mas acabou sendo lançado nos cinemas para aproveitar a popularidade do programa, que durou três temporadas.
Batman: O Homem Morcego tem problemas óbvios, como os diálogos explicativos demais (em certo momento Batman fala “Se tirarmos nossas máscaras, nossas identidades serão reveladas”, e este é o menor dos exemplos) e cenas de ação que são bastante bagunçadas. Mas consegue ter seus momentos de pura diversão, como a cena em que Batman corre para se desfazer de uma bomba (assista o video abaixo), ou o confronto final de Batman e Robin contra os vilões Coringa (Cesar Romero), Pinguim (Burgess Meredith, também conhecido como o treinador de Rocky Balboa, Mickey Goldmill), Charada (Frank Gorshin) e Mulher-Gato (Lee Meriwether), que conta com as famosas onomatopeias da série de TV.
Apesar dos absurdos que se vê ao longo da história (como no início, quando o herói é mordido por um tubarão que havia engolido uma mina e, por isso, explode ao cair no mar), Batman: O Homem Morcego pode não ter sido um grande começo para o personagem nas telonas, mas é um filme no mínimo curioso e pelo menos em termos de diversão é bem melhor que as bombas que o herói ainda iria enfrentar (e que comentarei daqui a pouco).
A Fase Sombria de Tim Burton
Em 1986, Tim Burton aceitou o trabalho de levar o personagem de volta às telonas. Lançando Batman em 1989 com Michael Keaton no papel principal (algo que os fãs do personagem não gostaram nenhum pouco a princípio), Burton apresentou um filme com um tom muito mais sério, em uma Gothan City que parecia um pesadelo graças ao habitual estilo gótico do diretor, o que é bastante apropriado em uma cidade bastante violenta. Mesmo com uma abordagem mais sombria o filme tem momentos divertidíssimos, e muito se deve a bela interpretação de Jack Nicholson como o Coringa.
Em 1992, veio a continuação Batman: O Retorno e um tom ainda mais sombrio do que aquele visto anteriormente. Com o Pinguim (Danny DeVito) e a Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer) como principais vilões, a história pouco se concentra em Bruce Wayne, focando muito mais seus antagonistas, enquanto que o herói ganha mais atenção em seu relacionamento com Selina Kyle. Com algumas falas de duplo sentido (em uma cena, quando encontra a Mulher-Gato, o Pinguim diz “Just the pussy I've been lookin' for!”, que prefiro não traduzir), o roteiro do filme certamente precisaria de algumas alterações para ser produzido hoje.
Foram dois filmes interessantes, que estabeleceram bem o tipo de universo que Batman deveria percorrer. Uma pena que tudo começaria a virar um grande carnaval três anos mais tarde.
O Erros de Joel Schumacher
A bilheteria de Batman: O Retorno ficou abaixo dos números esperados pela Warner, e o estúdio resolveu tirar a abordagem sombria na qual Tim Burton havia mergulhado a franquia. No entanto, ele ficou como produtor de Batman Eternamente e ajudou a escolher Joel Schumacher para assumir a cadeira de direção do terceiro filme, que ainda faria o cineasta ser chamado para uma quarta produção (esta sem qualquer envolvimento de Burton).
Com o objetivo de fazer algo mais “família” e divertido para o público, Schumacher e os roteiristas (um deles sendo o medíocre Akiva Goldsman, e é vergonhoso que esse cara tenha um Oscar na estante, ainda que seja por um bom filme) acabaram transformando Batman em um verdadeiro festival de cafonice. Repleto de cores quentes e gags que buscam o riso fácil, Batman Eternamente e Batman & Robin em nada lembram o universo criado por Tim Burton, além de contar com os famosos mamilos na roupa do herói. Batman Eternamente até diverte em alguns momentos, mas muito pouco diante de tantas escolhas erradas.
Tudo piora em Batman & Robin, lançado em 1997, no qual as cenas de ação são uma bagunça, o roteiro muito capenga, o elenco mal escalado e as gags não fazem com que ríamos com o filme, e sim do filme, transformando tudo em uma experiência desagradável. Até George Clooney (um ator e diretor excepcional, mas que foi um Batman fraquíssimo) se envergonha, e volta e meia faz piadas com a produção.
Batman ficaria no limbo durante alguns anos, até que em 2003 um certo cineasta britânico foi contratado para dar nova vida ao herói.
Christopher Nolan e a Trilogia do Cavaleiro das Trevas
Com Christopher Nolan no comando, Batman Begins chegou em 2005 apenas como mais um filme de super-herói no meio de tantas outras produções. Mas surpreendeu com sua história de origem extremamente eficiente e também com o viés mais realista conferido por seu ambicioso diretor. Gotham City, por exemplo, se tornou um lugar muito mais real do que aquela cidade de visual gótico apresentada por Tim Burton, e o fato de ela ser dominada pelo medo, pela violência e pela corrupção é muito mais explorado. Até a própria figura de Batman, seus acessórios e os vilões que ele enfrenta se tornaram mais críveis. E Nolan achou em Christian Bale (um ator espetacular) o Bruce Wayne perfeito.
Dando continuação a história de Batman Begins viria Batman: O Cavaleiro das Trevas, um dos melhores filmes de 2008. Trazendo um embate pesado e psicologicamente desgastante entre Batman e o Coringa (Heath Ledger), o filme não pode ser considerado apenas um filme de super-herói. É uma obra que não deixa nada a desejar a clássicos policiais como Fogo Contra Fogo, de Michael Mann.
Tendo no Coringa um dos melhores vilões dos últimos anos (Ledger deixou para trás todos os intérpretes do personagem, inclusive Jack Nicholson no filme de Burton, e merecidamente ganhou um Oscar póstumo), Batman: O Cavaleiro das Trevas é o filme no qual várias adaptações de quadrinhos começaram a sonhar em se tornar. Christopher Nolan transforma Gotham City em uma cidade caótica, um lugar no qual até o ser humano mais correto pode se tornar um criminoso (como diz o Coringa “Loucura é como a gravidade. É preciso apenas um empurrãozinho”).
Nesses dois filmes, é fascinante constatar que Nolan acertou em cheio ao tratar Batman não só como um homem que luta contra o mal que assola uma cidade (e que está disposto a ficar marcado como inimigo para protegê-la), mas também como um símbolo que pode deixar uma marca muito maior por onde passar.
Esperemos que Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge finalize bem uma trilogia tão ambiciosa. O filme estreia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira.