terça-feira, 23 de março de 2021

Liga da Justiça de Zack Snyder

Uma das maiores frustrações que um artista pode ter é ver seu nome ligado a uma obra pela qual ele não se sente responsável. Parece ter sido assim com Zack Snyder e a versão do cinema de Liga da Justiça, lançada em 2017. Tendo se afastado do projeto durante a pós-produção devido a uma tragédia pessoal (o suicídio de sua filha), Snyder viu o filme ir parar nas mãos de Joss Whedon, que escreveu novas cenas e refilmou outras a fim de montar o produto que o estúdio queria, mas mantendo o nome de Snyder nos créditos de direção (Whedon foi creditado como corroteirista). E apesar de eu não achar essa versão tão ruim como a maioria aponta, ainda assim a impressão que os bastidores passam foi de que um grupo se reuniu para fazer um trabalho escolar, mas colocou o nome de um colega que pouco participou de suas decisões, fazendo-o ser responsável pela nota baixa. Tendo tudo isso em vista, é justo que Snyder tenha a chance de mostrar ao público o filme que havia realizado na época. E agora que podemos finalmente conferi-lo, é preciso admitir que o diretor tinha na cabeça uma abordagem e preferências melhores com relação ao material que tinha em mãos.

Este Liga da Justiça de Zack Snyder mostra que, após a morte de Superman (Henry Cavill) em Batman vs. Superman, o mundo está prestes a encarar a ameaça do poderoso Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), que quer encontrar três Caixas Maternas para preparar a Terra para o domínio de seu mestre Darkseid (Ray Porter). Tendo isso em vista, Bruce Wayne (Ben Affleck) tem a ajuda de Diana Prince (Gal Gadot) para formar um grupo de super-heróis que possa enfrentar tal ameaça, conseguindo recrutar Arthur Curry (Jason Momoa), Barry Allen (Ezra Miller) e Victor Stone (Ray Fisher), também conhecidos como Aquaman, Flash e Ciborgue.

Talvez vocês não tenham notado, mas eu praticamente apenas reescrevi a sinopse da minha crítica do Liga da Justiça de 2017, fazendo apenas algumas alterações. E é mais ou menos isso que essa versão de Zack Snyder faz, já que a história é exatamente a mesma, com o diretor trazendo para a narrativas as subtramas e as decisões criativas que havia imaginado originalmente. O tom sombrio do filme, por exemplo, pode não ter funcionado tão bem em Batman vs. Superman, mas aqui contribui para dar peso a narrativa, algo ressaltado pela trilha de Tom Holkenborg.

Aliás, se Batman vs. Superman não dava conta de todos os elementos de sua história, de forma que muitas vezes ele parecia querer ser vários filmes e mal conseguia ser um só, este Liga da Justiça envolve o espectador em uma narrativa que desenvolve melhor a trama e os personagens, talvez porque Zack Snyder se viu com a liberdade e o espaço para isso. Assim, entendemos melhor os dramas dos heróis e o que os move, algo que faz com que eles não sejam meras peças unidimensionais no tabuleiro. Nisso, é preciso destacar principalmente o lado pessoal de Ciborgue e a relação com o pai Silas Stone (Joe Morton), certamente um dos pontos mais altos do filme. Da mesma maneira, até o Lobo da Estepe se torna um vilão infinitamente melhor que o desastre visto na versão do cinema, com sua ameaça ficando clara e ele sendo mais interessante como personagem graças a suas motivações e a fidelidade a Darkseid.

Assim como a outra versão, porém, este Liga da Justiça não é à prova de problemas. Por conta do tom sombrio imposto por Snyder, as piadinhas do roteiro soam bastante deslocadas, prejudicando um pouco o Flash de Ezra Miller, já que ele é o responsável por grande parte delas. Mas o grande problema certamente está no fato de Zack Snyder dar atenção a momentos e cenas que não deixam de ser descartáveis, servindo apenas para inflar o longa, que tem quatro horas de duração (aliás, por mais que este filme seja a visão original do diretor, eu duvido que ele fosse lançar uma obra de quatro horas nos cinemas em 2017, mas isso é só uma observação). Sendo assim, há certos pontos que parecem ter sido incluídos no filme por puro preciosismo de Snyder, como quando vemos um grupo de mulheres cantar em coral quando Arthur Curry mergulha no mar ou a cena da visita de Martha Kent (Diane Laine) a Lois Lane (Amy Adams). As sementes que o diretor planta para uma continuação também soam desnecessárias considerando que, ao menos hoje, não há certeza alguma de que veremos os frutos dessas sementes futuramente (aqui me refiro principalmente a uma sequência envolvendo um clássico vilão, que chega a ser constrangedoramente ruim).

Apesar disso, este Liga da Justiça de Zack Snyder surge como uma obra mais completa e coerente com o que vinha sendo realizado na franquia até então, ao menos quando comparada com a versão lançada anteriormente. No fim, é mais uma prova de como interferências de estúdio, mesmo sendo comuns em superproduções como essa, podem sacrificar uma narrativa melhor.


Nota:




Confira também o episódio do Tem Pauta! que gravamos sobre o filme.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Tem Pauta! #6 - Falando Sobre Eu Me Importo


Não cheguei a comentar por aqui, mas no final de 2020 iniciei um podcast em parceria com Jeferson Derfim, um de meus grandes amigos dos tempos de faculdade. O nome do podcast é Tem Pauta! e a nossa proposta, basicamente, é falar sobre qualquer coisa que a gente se sinta confortável e seguro para debater, o que pode ir desde a atual pandemia do coronavírus até, claro, cinema. E o episódio que lançamos hoje tem a ver com este último. O filme Eu Me Importo foi lançado no mês passado pela Netflix e tanto eu quanto o Jeferson ficamos com vontade de conversar sobre ele. Deixo abaixo o link para o episódio no Spotify. E claro, ficaremos muito agradecidos a quem quiser nos seguir por lá.


domingo, 17 de janeiro de 2021

Os Melhores e os Piores Filmes de 2020

Como muitos já devem ter cansado de dizer, 2020 foi um ano profundamente atípico. Falando só na parte de cinema, a pandemia de coronavírus fechou salas de exibição por um longo período, fez muitos lançamentos serem adiados e motivou estúdios a tomarem decisões drásticas. De minha parte particular, a pandemia chegou a tirar a vontade de ver filmes, algo que eu nunca havia experenciado desde que comecei acompanhar e a estudar a sétima arte. Ir ao cinema definitivamente foi algo que fez (e ainda faz) uma falta absurda nesse sentido, já que em casa encontrei sérias dificuldades de focar e fazer as coisas que eu mais gostava (ou melhor, gosto) de fazer. Ao menos as minhas idas ao cinema em 2020 foram bem encerradas, já que o último filme que vi em uma tela grande foi o ótimo O Homem Invisível. Mas retornaremos a programação normal depois da vacina.

Diante desse caos (que não acabou ainda e não tem previsão de acabar, ao contrário do que dizem negacionistas como o presidente), por um bom tempo fiquei pensando se seria legal fazer as listas de fim de ano que sempre faço aqui no Linguagem Cinéfila. Como ser justo tendo em vista os impactos que a pandemia teve no cinema e o fato de eu não ter conseguido assistir a tantos lançamentos quanto eu gostaria? Mas se você está aqui lendo essas palavras, é porque eu achei melhor publicar alguma coisa.

Por conta de todos esses fatores, decidi que as listas desse ano seriam diferentes. Ao contrário das ocasiões anteriores, não irei fazer um ranking com dez melhores filmes e dez piores filmes entre as produções lançadas. Ao invés disso, decidi eleger três filmes como os melhores de 2020 e três como os piores de 2020, algo um pouco mais simples e enxuto.

Sem mais delongas...

Os piores filmes lançados comercialmente no Brasil em 2020:

O Grito (The Grudge), de Nicolas Pesce


A Hora da Sua Morte (Countdown), de Justic Dec


Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy), de Rupert Goold


Menções desonrosas:

2020 Nunca Mais (Death to 2020), de Al Campbell e Alice Mathias

Artemis Fowl, de Kenneth Branagh

Bloodshot, de Dave Wilson

Dolittle, de Stephen Gaghan

Os Orfãos (The Turning), de Floria Sigismondi

Você Deveria Ter Partido (You Should Have Left), de David Koepp


Os melhores filmes lançados comercialmente no Brasil em 2020:

AmarElo: É Tudo Pra Ontem, de Fred Ouro Preto



Estou Pensando em Acabar Com Tudo (I’m Thinking of Ending Things), de Charlie Kaufman



Retrato de Uma Jovem em Chamas (Portrait de la Jeune Fille en Feu), de Céline Sciamma


Menções honrosas:

Adoráveis Mulheres (Little Women), de Greta Gerwig

Alice Júnior, de Gil Baroni

Borat: Fita de Cinema Seguinte (Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan), de Jason Woliner

Destacamento Blood (Da 5 Bloods), de Spike Lee

O Farol (The Lighthouse), de Robert Eggers

O Homem Invisível (The Invisible Man), de Leigh Whannell

Joias Brutas (Uncut Gems), de Benny Safdie e Josh Safdie

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighbourhood), de Marielle Heller

Má Educação (Bad Education), de Cory Finley

Para Sama (For Sama), de Waad Al-Kateab e Edward Watts

O Som do Silêncio (Sound of Metal), de Darius Marder

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É isso. Esperemos que 2021 seja um ano um pouco melhor em todos os quesitos. Tudo bem que até agora ele não deu muitos indícios de que será diferente, mas torçamos para que isso mude. Depois do desgaste de 2020, precisamos urgentemente de um sopro de ar fresco.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Fatman

Papai Noel. Eis um papel que, para ser sincero, nunca imaginei que veria Mel Gibson interpretar. Provavelmente essa impressão seja resultado da imagem unidimensional de “bom velhinho” que padronizou essa figura natalina, algo que não encaixa nos tipos durões e falhos que Gibson interpretou ao longo da carreira. Em parte, Fatman mostra que essa impressão era equivocada. Digo “em parte” porque o longa até traz Gibson interpretando o clássico personagem, mas trata-se de uma versão diferente do que estamos acostumados, parecendo ter sido moldada para que o talentoso ator caísse com uma luva no papel. E além de ser interessante ver Gibson dar vida a essa versão do personagem, isso ainda acontece em um filme muito bacana.

Em Fatman, o Papai Noel é conhecido como Chris Cringle, sujeito que vive em uma fazenda com sua esposa, Ruth (Marianne Jean-Baptiste), e mantém ali uma fábrica para fazer os brinquedos que as crianças merecedoras ganham, um negócio que está indo de mal a pior. Enquanto isso, o jovem Billy Wenan (Chance Hurstfield) acorda no Natal e vê que ganhou de presente um pedaço de carvão, o que o faz querer se vingar do Papai Noel. Para isso, ele contrata o Magrelo (Walton Goggins), um assassino profissional que tem seus próprios ressentimentos com Chris.

A execução dos irmãos Eshom e Ian Elms, que escreveram o roteiro e dirigiram a produção, capricha ao explorar bem a ideia por trás da história, que por si só já é divertidamente absurda. Além de criarem uma lógica convincente para a existência do Papai Noel naquele universo, os cineastas conseguem equilibrar bem o tom da narrativa, que diverte com certos exageros, mas sem deixar de se levar a sério, rendendo ainda alguns momentos de genuína tensão, como no explosivo terceiro ato.

Mas o que me chamou mais atenção em Fatman é que o filme faz essas coisas sem sacrificar o desenvolvimento dos personagens. Assim, o ótimo Walton Goggins faz do Magrelo um indivíduo frio e ameaçador, mas pontualmente tem chances de sugerir como o assassino se tornou a pessoa que é agora, apontando para um passado repleto de tristezas que tridimensiona o personagem. O mesmo serve para Billy, que o jovem Chance Hurstfield encarna como um sociopata riquinho e mimado, mas aos poucos vemos que isso vem da completa falta de autoridade em sua vida.

Mas o grande destaque fica mesmo para Mel Gibson. Exibindo seu carisma habitual, o ator faz de Chris Cringle uma figura bondosa, que faz sempre o melhor que pode e exibe um real afeto por seu trabalho e pelas pessoas ao seu redor. Mas ao mesmo tempo ele não deixa de se entregar a suas frustrações, que o desmotivam e ditam o rumo de suas ações. Assim, Gibson concebe um Papai Noel que pode até ter sua aura mágica (como vemos nas cenas em que ele mostra saber tudo sobre a vida das pessoas), mas se aproxima muito de ser um indivíduo comum (arrisco dizer que é uma das versões mais humanas que lembro de ver do Papai Noel, ao menos nos últimos anos). Para completar, Gibson ainda forma uma ótima dinâmica com a excelente Marianne Jean-Baptiste, cuja presença como Ruth surge sempre repleta de calor humano.

Assistir a Fatman acaba sendo um verdadeiro deleite. E não consigo evitar de classificar o filme como uma das boas surpresas de 2020.


Nota:



terça-feira, 1 de setembro de 2020

Power

Nova produção da Netflix, Power é situado em um futuro próximo, quando um grupo liderado por Biggie (Rodrigo Santoro) chega à cidade de Nova Orleans para testar um novo produto: “Power”, uma pílula que dá a seu usuário um superpoder que dura exatos cinco minutos. Nesse contexto, as histórias de três personagens se conectam. Art (Jamie Foxx) é um ex-soldado que não mede esforços para acabar com a organização por trás da pílula, mesmo objetivo de Frank (Joseph Gordon-Levitt), um policial que usa o produto para encarar de igual para igual aqueles que utilizam os superpoderes para cometer crimes. E ambos acabam tendo a ajuda de Robin (Dominique Fishback), uma jovem em busca de uma vida melhor, mesmo que para isso tenha que fazer parte do tráfico da pílula.

O roteiro de Power parte de um conceito interessante, sendo hábil ao trazer elementos que conhecemos dos filmes de super-heróis ao mesmo tempo em que mantém a história calcada no mundo real. E como o longa se situa em Nova Orleans, uma cidade que até hoje sofre com as consequências do Furacão Katrina, os diretores Henry Joost e Ariel Schulman exibem cuidado ao mostrar como o local é tratado com descaso por figuras poderosas, que subestimam a capacidade de seus habitantes. É uma pena, porém, que esses detalhes não sejam mais aprofundados, dando espaço para cenas de ação pouco envolventes, com os diretores apostando em uma montagem frenética que torna difícil entender o que acontece na tela, ao passo que os efeitos visuais tentam criar uma grandiosidade que não deixa de soar artificial.

Mas Power tem a sorte de contar com um ótimo trio no centro da narrativa. Jamie Foxx, Joseph Gordon-Levitt e Dominique Fishback criam figuras simpáticas em Art, Frank e Robin, desenvolvendo ainda uma dinâmica divertida em cena e que contribui para que nos importemos com o que acontece com os personagens (Fishback, aliás, é a grande revelação do projeto, e espero vê-la ganhar papeis cada vez melhores no futuro). A qualidade dos heróis compensa um pouco o fato de Biggie ser um vilão pavoroso. Rodrigo Santoro se esforça, mas pouco tem a fazer com um personagem subdesenvolvido, que é tratado como um capanga comum pelo roteiro.

Por lançar várias produções a cada ano, o subgênero dos filmes de super-heróis já parece estar ficando saturado. Sendo assim, um longa como Power até surge com algum frescor. O resultado pode não ser muito marcante, mas ao menos consegue divertir.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

XVI Fantaspoa - Última Parte e Considerações Finais

Os últimos dez dias foram interessantes, para dizer o mínimo.

Como falei logo na primeira parte dessa cobertura do XVI Fantaspoa, eu não tenho o hábito de cobrir festivais. Quando disse que tentaria assistir e comentar o maior número de filmes possível, eu achava que não conseguiria fazer o plano dar certo e o compromisso (mesmo não sendo muito grande) viria por água abaixo. Mas vejam só... Até que as coisas correram bem, fazendo minhas inseguranças queimarem a língua.

Acabei assistindo e comentando 25 longas-metragens durante os dez dias de Fantaspoa, o que me deixa meio longe de poder dizer que vi todos os 49 trabalhos selecionados (isso que ainda havia vários programas de curtas-metragens que não conferi). Mas considerando que foi uma primeira tentativa de cobrir um festival, acredito que os filmes que consegui encaixar em meio a minha rotina dentro de casa foram um bom aprendizado, rendendo também uma bem-vinda e estimulante distração para os tempos que temos vivido. E foi uma bela edição de Fantaspoa, por mais que assistir aos filmes na tela do meu computador e sozinho no meu quarto por vezes me passasse certa tristeza, já que muitas obras mereciam ser conferidas em uma sala de cinema lotada (quem sabe um dia?).

Olhando aqui os textos que fui escrevendo ao longo desses dias, admito que sinto certo orgulho. Mas acho que vocês podem dizer melhor que eu se o conteúdo produzido ficou legal ou não. Espero que tenham curtido tanto quanto eu curti ver e falar sobre os filmes.

Sem mais delongas, deixo aqui os comentários sobre os últimos quatro filmes que assisti.

Salvação (Guwon, 2020), de Lee Chang-moo:

O corpo de uma prostituta é encontrado em um rio depois de ela roubar 1 bilhão de won de seu cafetão. O detetive Seok-jae investiga o caso mesmo com o seu parceiro afirmando ter sido um suicídio. Mas as coisas se tornam um pouco maiores quando a investigação leva Seok-jae a uma misteriosa casa que serve como uma espécie de centro espiritual para seus residentes.

Apesar de o suposto assassinato ou suicídio abrir a narrativa deste Salvação, ele na verdade nem chega a ser o ponto principal da trama, sendo um ponto de partida que o roteiro às vezes parece esquecer. Mas a história não deixa de ser menos intrigante por isso, nos conduzindo por ambientes inquietantes e apresentando personagens amaldiçoados pela culpa. São detalhes que o diretor estreante Lee Chang-moo utiliza bem para falar da falsidade de certos negócios (ou instituições), que se aproveitam das crenças das pessoas e apertam suas fraquezas enquanto prometem recompensas enganosas.

Zumbis no Canavial: O Documentário (Zombies en el Cañaveral: El Documental, 2019), de Pablo Schembri:

Este documentário argentino trata de um assunto muito interessante. Em 1965, um filme de zumbi chamado “Zumbis no Canavial” foi realizado na província de Tucumán. O longa acabou se perdendo, impossibilitando muitas pessoas de assisti-lo, mas ainda assim deixou sua marca no cinema, originando um subgênero que se mantém de pé até hoje, mas cujo início nos acostumamos a creditar ao clássico A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero, que foi lançado três anos depois.

Bem, claro que se trata de um falso documentário, mas devo admitir que Zumbis no Canavial: O Documentário conta com um trabalho de pesquisa tão instigante e uma estética tão convincente que, pontualmente, me peguei acreditando no que era jogado na tela. E certamente isso faz parte da diversão que ele proporciona, sendo engraçado acompanhar também o sucesso e as influências que “Zumbis no Canavial” supostamente veio a ter internacionalmente, de forma que às vezes é um pouco triste que nada disso tenha acontecido.

Mas engana-se quem acha que não devemos levar o longa de Pablo Schembri a sério. Mesmo partindo de uma obra ficcional para conceber a narrativa, o diretor faz um belo resgate da história dos filmes de terror (há menções até ao nosso saudoso José Mojica Marins), além de explicar muito bem a relação do gênero com o período conservador e ditatorial que a Argentina viveu naquela época, algo que podemos estender para toda a América Latina. Assim, Zumbis no Canavial: O Documentário se revela um surpreendente falso documentário que consegue falar muitas verdades.

Barry Fritado (Fried Barry, 2020), de Ryan Kruger:

Se Sob a Pele ingerisse uma certa quantidade de entorpecentes, o resultado provavelmente seria algo como este Barry Fritado. A história dessa produção sul-africana gira em torno do personagem-título (interpretado por Gary Green), um viciado em drogas que em um dia qualquer é abduzido por uma nave extraterrestre. No processo, seu corpo é possuído por um alienígena que passa então a andar pelas ruas, vivendo a experiência terrestre com o que surge em seu caminho, sejam isso drogas, sexo ou problemas com figuras violentas.

E assim passamos a acompanhar uma jornada com boas doses de bizarrice e psicodelia, mesmo que durante boa parte do tempo o filme tenha um ritmo meio monótono e não impressione tanto. Mas o diretor Ryan Kruger merece créditos pelo tom mais sério que impõe na narrativa, ressaltando como o caminho percorrido pelo protagonista está longe de ser uma grande festa, tendo em vista o ambiente inóspito que a Terra é capaz de ser. E é impossível não destacar a atuação de Gary Green, que cria um protagonista curioso mesmo que quase não tenha diálogos, usando apenas suas expressões faciais e postura em cena.

Ausente (Poissa, 2019), de Arttu Haglund:

Como seria se pudéssemos nos teletransportar para longe de uma vida que não nos agrada? É dessa ideia que parte o finlandês Ausente. Aqui somos apresentados a Matti (Panu Tuomikko), que tem uma vida deprimida ao lado da esposa Teija (Eeva Putro) e da filha pequena Emma (Julia Hemmilä). Mas quando ele descobre que tem a habilidade de se teletransportar aleatoriamente para qualquer lugar, deixando sua esposa e filha sozinhas durante a maior parte do tempo, as coisas parecem ficar mais relaxadas.

Mas só parecem, já que teletransporte não é uma habilidade que apague sentimentos e responsabilidades, detalhes que ajudam a formar a base emocional da narrativa concebida por Arttu Haglund (estreante em longas-metragens). Matti não tem controle sobre o próprio poder, sumindo dos lugares quando menos espera, o que não deixa de lhe dar uma desculpa perfeita para justificar suas longas ausências, que gradual e naturalmente criam um distanciamento entre ele e a família (a montagem, aliás, se destaca pela forma como consegue simular o poder do protagonista através de cortes secos). E ainda que possamos antecipar algumas conclusões, o roteiro é hábil ao usar o teletransporte para desenvolver questões existenciais, mostrando as dificuldades do sujeito para achar seu lugar no mundo e como as consequências disso podem ser mais tristes que o imaginado.

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Para conferir as outras partes da cobertura do festival, é só clicar nos links abaixo.

XVI Fantaspoa - 1ª Parte

XVI Fantaspoa - 2ª Parte - Especial Nabwana IGG

XVI Fantaspoa - 3ª Parte

XVI Fantaspoa - 4ª Parte

XVI Fantaspoa - 5ª Parte

sábado, 1 de agosto de 2020

XVI Fantaspoa - 5ª Parte

Segue abaixo os comentários sobre mais quatro filmes conferidos nesse XVI Fantaspoa.

Butt Boy (2019), de Tyler Cornack:

Às vezes eu fico particularmente surpreso com as ideias malucas que ganham vida no cinema, como no caso deste Butt Boy. Aqui, Chip (vivido pelo próprio diretor Tyler Cornack) é um homem infeliz em seu casamento e longe de ser um herói para o filho. Seu maior prazer vem de uma habilidade incomum, que permite que ele enfie qualquer coisa em sua bunda (qualquer coisa mesmo!). Enquanto isso, o policial Russel Fox (Tyler Rice) começa a frequentar os Alcoólatras Anônimos, sendo apadrinhado por Chip. Mas os caminhos dos dois se cruzam com mais força quando uma criança desaparece na empresa onde Chip trabalha, um caso que cai nas mãos de Russel, que nem imagina a forma como seu parceiro pode estar envolvido na história.

A habilidade de Chip, obviamente, não poderia ser mais absurda. E isso nem chega a ser um problema do filme, sendo apenas algo que aceitamos dentro daquele universo. No entanto, Butt Boy se leva a sério demais para um longa que tem um elemento tão naturalmente risível no centro de sua história, de forma que mesmo algumas tentativas de humor soam um tanto deslocadas. É como se houvesse dois tons narrativos completamente distintos tentando formar uma narrativa coesa, alcançado resultados irregulares. Mas é um filme que certamente é difícil de esquecer, ainda que isso ocorra mais por se tratar de uma produção que não se vê todo dia do que propriamente por render uma experiência marcante.

Ghost Master (Gôsuto Masutâ, 2019), de Paul Young:

A exemplo de um dos meus favoritos deste Fantaspoa (o indiano RK/R Kay), Ghost Master é mais um longa do festival com uma história que envolve metalinguagem, mas infelizmente essa produção japonesa não se revela muito rica. No filme, o jovem Akira Kurosawa (Takahiro Miura) é um assistente de direção que faz parte da equipe de filmagens da adaptação de um mangá, algo que está saindo do controle. Akira, porém, tem o sonho de dirigir seu próprio filme, “Ghost Master”, cujo roteiro ganha vida de forma demoníaca e passa a causar terror e violência entre toda a equipe.

Além de a metalinguagem de Ghost Master ser desenvolvida de maneira óbvia, com o filme quase gritando para o espectador o que está fazendo na tela, as homenagens que o diretor Paul Young insere pontualmente a alguns cineastas clássicos se revelam muito pouco inspiradas. O filme, porém, merece alguns créditos pelos efeitos práticos nas cenas de violência, ainda que este aspecto não chegue a fazer com que a narrativa se torne mais instigante. Para completar, Ghost Master estica sua trama além do necessário, o que só aponta que ele não tem tanto a oferecer.

O Velhaco: O Filme (Vanamehe Film, 2019), de Oskar Lehemann e Mikk Mägi:

Animação estoniana feita em stop motion, O Velhaco: O Filme mostra um universo onde as pessoas tratam leite como uma espécie de dádiva, o que faz os fazendeiros que ordenham suas vacas bastante populares. Nesse contexto, conhecemos o Velhaco que dá título ao filme, fazendeiro que recebe seus três netos para passar o verão com ele. Mas quando sua valiosa vaca resolve fugir, o Velhaco e as crianças logo partem à procura dela, já que o animal irá explodir se ficar 24 horas sem ser ordenhado, causando um Lactocalipse.

Trata-se de um filme que parece fazer questão de ser uma bobagem, sendo que os diretores Oskar Lehemann e Mikk Mägi fazem isso funcionar a favor da narrativa durante boa parte do tempo, divertindo ao longo da jornada dos personagens. Há momentos que o longa até parece que não irá se resumir só a isso, como ao trazer o neto do Velhaco fazendo um discurso a favor dos animais, mostrando tanto quem ordenha a vaca quanto quem quer abatê-la como figuras que estão erradas na história, mas isso nunca é muito bem desenvolvido pelo roteiro. Mas apesar de divertir, O Velhaco: O Filme desaponta um pouco em seu clímax, cujas soluções para a trama não chegam a ser engraçadas como o caminho que nos trouxe até ali.

H0us3 (2018), de Manolo Munguia:

Enquanto eu assistia a este H0us3, foi difícil não lembrar do italiano Perfeitos Desconhecidos, já que ambos os longas mostram amigos de longa data se reunindo e tendo suas vidas impactadas pelo uso de tecnologias. Claro que, no fim, tratam-se de filmes bem diferentes, mas a dinâmica é parecida, com a diferença que H0us3 não chega nem perto de ter a mesma riqueza narrativa. A história mostra um grupo de amigos que se reúne em uma casa para passar o fim de semana. Todos lidam em maior ou menor grau com computadores, o que gera grande tensão quando um deles diz ter decriptado um arquivo ultrassecreto do governo.

O conceito que H0us3 traz em meio a sua trama (e que não comentarei em detalhes a fim de evitar possíveis spoilers) não deixa de ser intrigante, mas é uma pena que o filme desenvolva subestimando a inteligência do espectador. Mais de uma vez o longa coloca os personagens exibindo um prazer irritante ao explicarem certas teorias e paradoxos, como se isso fizesse o roteiro soar inteligente, ao passo que algumas paranoias que surgem pontualmente não poderiam ser mais risíveis. A impressão é que o diretor Manolo Munguia concebeu uma obra que acredita ser muita mais inteligente do que realmente é.

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Lembrando que o XVI Fantaspoa está acontecendo gratuitamente na plataforma de streaming Darkflix.

Para conferir as outras partes da cobertura do festival, é só clicar nos links abaixo.