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terça-feira, 6 de setembro de 2016

A ambição por trás de Eu Não Vou Dizer Eu Te Amo


Há pouco mais de um ano, logo depois de eu ter me formado em Produção Audiovisual pela ULBRA, um grupo de colegas meus chegou a tão esperada fase do Trabalho de Conclusão de Curso (ou TCC, como chamam os mais íntimos). Aqui é o momento em que todos se juntam para produzir algo que possa ser feito nos poucos meses que duram o semestre, e ainda leve em consideração as limitações orçamentárias de um projeto estudantil. No que diz respeito à ULBRA e ao cinema universitário de modo geral, o que resulta disso são produções de curta duração, considerando que, teoricamente, estas exigem menos trabalho. No caso do meu grupo, foi um videoclipe. Em vários outros, foram curtas-metragens.

Mas eis que meus colegas decidiram levar as regrinhas que citei para um nível um pouco mais desafiador: um longa-metragem chamado Eu Não Vou Dizer Eu Te Amo, o primeiro TCC feito nesse formato na ULBRA (ou ao menos o primeiro a ser entregue ao final do semestre). Uma ideia que muitos certamente poderiam desconsiderar, mas que nesse caso foi abraçada por todo o grupo. E não posso dizer que fico surpreso com isso. Tendo feito algumas disciplinas e trabalhos com essas pessoas antes de me formar, posso dizer que elas sempre mostraram um empenho admirável ao pegar os equipamentos e dar voz a sua criatividade.

Eu Não Vou Dizer Eu Te Amo saiu do papel, foi completado e apresentado. Isso já poderia ser motivo de orgulho para sua equipe, tendo em vista o tamanho do desafio. E particularmente falando, acho o filme bacana, sendo uma produção que mantém sua simplicidade (como poderíamos esperar de um projeto de orçamento bastante reduzido), mas sem deixar que isso seja um entrave para a concepção de sua história e de sua narrativa.

No entanto, como você já deve ter percebido, o que escrevo agora não é uma crítica sobre o filme, até porque acho que não seria ético de minha parte fazer isso (sinto ser suspeito para comentá-lo). Na verdade, vejo essas palavras como um atestado de minha admiração pela ambição do projeto, e não só por conta de seu formato e por ser bem realizado, mas também por ser um TCC que conseguiu fazer com que seu caminho fosse além da apresentação ao final do semestre. Eu Não Vou Dizer Eu Te Amo teve dificuldades para circular e chegar até um público maior do que aquele formado por professores, familiares e colegas de seus realizadores, e mesmo assim obteve feitos notáveis e até incomuns para um longa universitário. Entre eles estão a participação no programa Encontros com o Cinema Brasileiro, onde foi exibido para Julien Welter (um dos curadores do Festival de Cannes), e a seleção para a Mostra de Longas Gaúchos no Festival de Gramado, com sua sessão tendo ocorrido na quinta-feira passada.

Sendo assim, mesmo que eu tenha demorado para falar a respeito disso (já faz um ano desde que vi a apresentação do filme), aplaudo a iniciativa de Guto Bozzetti, Julia Escobar, João Henrique Mattos, Sérgio Albeche, Jeniffer Casagrande, Marcelo Morandini, Rafael Barpp e todos que os ajudaram a realizar o projeto. Não sei se isso irá incentivar mais estudantes a toparem um desafio desse tipo, mas é bom ver o filme conquistar algum espaço diante de um mercado tão complicado.

Obs.: Clique aqui e confira o ótimo artigo que o Guto escreveu em parceria com a Gabriela Almeida, professora nos cursos de Jornalismo e Produção Audiovisual da ULBRA.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Santiago

Em 1992, o cineasta João Moreira Salles havia desenvolvido o projeto de um documentário sobre Santiago, o mordomo argentino que trabalhou para sua família durante 30 anos. Na época, Salles filmou depoimentos de Santiago, além de outras cenas gravadas em estúdio e na mansão onde ele cresceu. Mas, infelizmente, o diretor não soube organizar o material na sala de montagem, o que o fez abandonar o filme sem finalizá-lo. No entanto, isso deve ter perseguido o diretor desde então, porque treze anos depois ele voltou a mexer nesse material. Como resultado, ele obteve este Santiago, que tem um foco diferente daquele pensado originalmente. Ao invés de centrar mais no mordomo, Salles fez um documentário sobre o filme que ele não havia conseguido terminar.
Começando o filme com pequenos zooms em três quadros diferentes, João Moreira Salles mostra como queria ter iniciado o documentário na época em que iniciou o projeto. É então que ele começa uma introdução, que percorre os dez minutos iniciais, na qual ele diz quem Santiago era e como realizou as filmagens. E quando ele retorna ao quadro que mostrou inicialmente, o diretor deixa mais do que claro que o que veremos é uma espécie de recomeço, além de uma nova tentativa de terminar o filme de alguma forma.
Ao longo da projeção, fica evidente o porquê de João Moreira Salles ter pensado em fazer um filme sobre Santiago, já que este mostra ser uma pessoa realmente fascinante, sendo alguém que claramente tem algo a compartilhar, sejam histórias ou sua própria experiência de vida, além de ser uma figura muito carismática. É interessante ver Santiago rezando em latim ou falando das páginas que reuniu sobre as mais diversas dinastias da História. E quando Joãozinho (como o diretor é chamado em determinado momento) comenta sobre coisas que aprendeu com o mordomo quando criança, isso resulta em belas cenas no filme, como quando ele fala sobre o dia em que viu Santiago usando um fraque enquanto tocava Beethoven no piano.
No entanto, o modo como Salles conduziu certas coisas no filme deixam um pouco a desejar, e o mais interessante é que ele percebeu isso mais tarde, como é evidenciado em sua narração em off (que na verdade foi realizada por seu irmão, Fernando Moreira Salles, que tem uma voz imponente, da qual é difícil não prestar a atenção), que acaba apontando o que ele gostaria de ter feito diferente. As entrevistas, por exemplo, eram feitas com um pouco de pressa (os rolos de filmes eram uma limitação) e o diretor mostrava estar um tanto impaciente em alguns momentos. O próprio Santiago às vezes não sabia o que dizer. Além disso, Salles gravou tudo sempre com a câmera distante de Santiago, impedindo que ele próprio e o espectador se aproximassem mais do personagem. No caso do cineasta, essa distância se torna ainda mais estranha considerando que ele parece ter um carinho e um respeito muito grande pelo mordomo. Dessa forma, é bastante compreensível como que ele não conseguiu finalizar seu documentário treze anos antes.
Mas algo curioso em Santiago é o fato de João Moreira Salles ainda aproveitar para comentar a realização de documentários de modo geral, mais especificamente o que é causado pelo diretor e o que é captado espontaneamente. Salles chega a falar para o espectador questionar tudo o que vê. Nesse sentido, ele mostra um plano que gravou da piscina de sua casa com algumas folhas caindo por ali de repente, e depois mostra um momento no qual ele passa instruções a Santiago quanto aos gestos que este deve fazer durante seu depoimento. Assim, fica claro que por mais que os documentários possam capturar a realidade como ela é, os diretores ainda podem tentar causar um efeito no espectador de alguma maneira, o que pode nem ser um ato de desonestidade, mas sim um jeito que eles encontram para passar sua visão quanto ao assunto que estão tratando.
Santiago foi lançado em 2007, e desde então João Moreira Salles não voltou a dirigir nenhum outro filme, trabalhando apenas como produtor em outros projetos (como alguns documentários de Eduardo Coutinho). Isso acaba sendo uma pena considerando que ele é um cineasta muito talentoso. Esperemos que ele volte a fazer filmes em breve.
Cotação:

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Último Concerto de Rock

Ao longo de todos os seus anos de estrada (que oficialmente durou de 1958 a 1999), a The Band conseguiu ficar conhecida como uma das maiores bandas de rock da história, tendo ainda tocado com alguns dos artistas mais respeitados da indústria fonográfica. Em 1976, a formação original do grupo (o guitarrista Robbie Robertson, o baterista Levon Helm, o baixista Rick Danko, o pianista Richard Manuel e o tecladista Garth Hudson) veio a fazer seu último show. A apresentação ficou conhecida como “The Last Waltz” (ou “A Última Valsa”) e rendeu nas mãos de Martin Scorsese este O Último Concerto de Rock, que ostenta até hoje a fama de ser um dos melhores documentários de música já realizados.
Desde o início, Scorsese parece estar empenhado a fazer seu espectador ter uma bela experiência durante o filme. É interessante notar, por exemplo, quando ele filma o caminho percorrido por um carro até a Winterland Ballroom (local da apresentação), passando a ideia de que ele está usando a câmera como uma maneira de levar seu público para lá. Além disso, Scorsese também mantém a câmera muitas vezes próxima da banda durante o show, como se ele estivesse nos dando alguns dos melhores lugares do espetáculo (mas há de se reconhecer que assistir aquilo ao vivo deve ter sido algo incomparável). E não deixa de ser curioso que o diretor coloque a The Band dizendo “Adeus” logo nos primeiros minutos do documentário, já que assim ele faz com que o público enfrente rapidamente o momento da despedida.
Intercalando as apresentações da The Band no show com entrevistas feitas com seus membros, Scorsese faz com que O Último Concerto de Rock consiga contar um pouco da história daqueles artistas ao mesmo tempo em que capta com brilhantismo um evento memorável, que contou com vários convidados especiais. Quando Robbie Robertson chama Ronnie Hawkins para o palco, por exemplo, o diretor corta imediatamente para um depoimento do guitarrista falando um pouco da importância que aquele músico teve na carreira do grupo.
Aliás, muitas dos depoimentos dos membros da The Band consistem em pequenas histórias do que aconteceram com eles e que são contadas sempre com muito bom humor. Isso indica que por mais que a banda esteja se separando (ao menos por enquanto, já que a maioria deles se reuniria para novos discos e turnês alguns anos depois) as viagens que eles fizeram juntos certamente renderam boas lembranças. E sendo o diretor talentoso que sempre foi, é interessante o cuidado que Scorsese tem na hora de filmar certos momentos, principalmente quando a The Band toca uma de suas músicas mais famosas, “The Weight”, ao lado do The Staple Singers, com as estrofes sendo cantadas por membros diferentes de cada grupo (cada um representando o protagonista da canção) enquanto o refrão é cantado por todos.
Assim como boa parte dos documentários, um show é algo no qual os envolvidos não têm um controle total quanto ao que acontecerá. Coisas que não estavam planejadas podem ocorrer. Dessa forma, é bom ver um momento específico em que o convidado Eric Clapton começa a tocar sua guitarra, mas a alça do instrumento acaba se soltando, fazendo Robbie Robertson improvisar um solo até que o pequeno problema seja resolvido. E Scorsese parece fazer questão de incluir essa parte no filme, que de certa forma mostra que todos ali estão em perfeita sintonia.
Mas mais do que um documentário sobre a The Band e seu último show, O Último Concerto de Rock acaba sendo uma verdadeira celebração da música. Não é à toa que figuras como Bob Dylan, Neil Young, Neil Diamond, Van Morrison e outros foram chamados para tocar ao lado da banda. O amor que todos eles nutrem por aquilo que fazem fica muito claro quando eles estão no palco, e nesse sentido é bacana ver a gratidão que Neil Young tem por ter sido convidado para uma noite como aquela. E o final da apresentação, que traz a The Band e seus convidados cantando a bela “I Shall Be Released”, é sem dúvida um dos melhores momentos do filme.
Martin Scorsese é sempre lembrado por suas obras de ficção. No entanto, O Último Concerto de Rock não só é um de seus melhores trabalhos como também é um exemplo de que ele é um documentarista muito competente. E é difícil não se tornar fã da The Band quando se assiste a esse filme.
Cotação:

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ônibus 174

O sequestro do ônibus 174 no dia 12 de junho de 2000 é um dos eventos mais trágicos que aconteceram no Brasil na última década. Virou apenas mais um exemplo de como a violência esta impregnada na sociedade, enquanto ficamos sem fazer nada para mudar esse quadro (às vezes por impotência, outras por pura negligência). Mas por que jovens como Sandro do Nascimento (responsável pelo sequestro) caem em uma vida de crimes? Por que tragédias como a do ônibus 174 acabam acontecendo? E mais, há como impedir que elas aconteçam? José Padilha (hoje conhecido como o diretor dos excelentes Tropa de Elite 1 e 2) toca nessas questões de maneira impactante neste seu filme de estreia, o documentário Ônibus 174.
Quando alguém aparece assaltando um ônibus e mantendo vários reféns, a primeira coisa que a grande maioria da população faz é classificar o indivíduo como um monstro, uma figura que merece morrer por fazer pessoas sofrerem durante horas e horas. São poucos os que chegam a pensar em como alguém como Sandro entrou naquela situação. Sendo assim, Padilha é inteligente ao estruturar seu filme de maneira que possamos acompanhar o assalto ao mesmo tempo em que a história de Sandro é contada, intercalando depoimentos tanto de reféns e policiais que estiveram presentes no caso quanto de pessoas que conheceram o jovem (e a montagem de Felipe Lacerda merece créditos por amarrar muito bem o filme, nunca quebrando seu ritmo envolvente).
É então que conhecemos um garoto que teve sua mãe degolada na sua frente quando ele era criança, sobreviveu à chacina da Candelária em 1993 (quando policiais militares executaram meninos que dormiam próximo a Igreja da Candelária), e viveu nas ruas sem maiores cuidados, nunca tendo chances de realmente construir uma vida. Tudo isso somado a desigualdade social e ao preconceito da sociedade acaba fazendo o garoto estourar de alguma forma. No caso de Sandro, estourou para o lado do crime, e ao sequestrar aquele ônibus ele deixou de ser uma figura “invisível” e se tornou o protagonista da história.
Padilha mostra em Ônibus 174 que Sandro é, no fim, algo que a própria sociedade ajudou a criar. E não deixa de ser triste ver um rapaz que dizia que ia ser conhecido no mundo inteiro (o que é revelado em um depoimento da tia dele) alcançar esse objetivo de maneira tão implacável. O sequestro foi transmitido ao vivo por várias emissoras, inclusive pela CNN. Isso de certa forma impediu algumas ações da polícia, que teve medo de fazer alguma coisa contra Sandro em plena rede nacional, o que poderia salvar os reféns, inclusive a professora Geísa Gonçalves, que no final da história foi morta junto com o sequestrador. Mas vale ressaltar que essas imagens de arquivo se tornam um material precioso nas mãos de Padilha, que assim consegue retratar eficientemente toda a tensão em volta do ônibus nos mínimos detalhes. Em determinado momento, por exemplo, vemos uma ação do Capitão André Batista (do BOPE) ao mesmo tempo em que ele explica o que exatamente estava fazendo.
Já que mencionei a polícia, José Padilha faz questão de mostrar o despreparo desses homens para casos extremos como esse. Aliás, não só o despreparo, mas também as limitações que eles enfrentavam, já que a falta de certos equipamentos (como rádios para comunicação) os prejudicou muito, e sempre que o comandante estava prestes a dar uma ordem importante ele era parado por uma pessoa em um cargo superior. Quando finalmente alguém fez alguma coisa, foi de maneira precipitada, o que custou vidas. Mas o que é bastante decepcionante é ver que mesmo depois de uma situação como essa, tal despreparo ainda existe, como podemos ver no caso em que a jovem Eloá Cristina foi mantida presa em seu apartamento pelo namorado, sendo assassinada por ele após a polícia invadir o local de maneira extremamente displicente.
Em 2008, a história de Sandro do Nascimento rendeu um filme de ficção, Última Parada 174, dirigido por Bruno Barreto. Mas aquela produção não chega aos pés do que José Padilha faz em Ônibus 174. No final desse documentário, é muito triste constatar que ele continua sendo incrivelmente atual, mostrando que o Brasil parece ter parado no tempo. A violência se mantém como uma praga incontrolável, enquanto vários jovens continuam caindo na criminalidade.
Cotação:

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Saneamento Básico: O Filme

Se em sua carreia como curta-metragista Jorge Furtado já mostrava ser muito talentoso, depois de estrear na direção de longas-metragens o cineasta provou que é indubitavelmente uma das mentes mais criativas do atual cinema brasileiro. Isso fica claro logo no início deste Saneamento Básico: O Filme, quando ele coloca Marina (personagem de Fernanda Torres) falando com os espectadores, esperando eles se ajeitarem nas poltronas do cinema enquanto os patrocinadores do filme vão aparecendo. Poucas vezes essa parte se mostrou tão divertida quanto aqui. E quando a história finalmente começa, Furtado dá início a uma produção que se mostra tão engraçada quanto essa sequência inicial.
Escrito pelo próprio diretor, Saneamento Básico se passa na pequena vila de Linha Cristal, na serra gaúcha, onde moram muitos descendentes de italianos. Ao lado de seu marido Joaquim (Wagner Moura), Marina monta uma comissão para ir até a prefeitura e conseguir apoio para a construção de uma fossa, já que o tratamento de esgoto no local é terrível. Eles são informados de que existe uma verba de R$ 10 mil para a produção de um filme de ficção, dinheiro este que será devolvido ao governo federal caso não seja usado. Isso faz com que surja a ideia de utilizar a quantia na construção da fossa e na realização de um filme de monstro, no qual Marina ainda terá a ajuda de sua irmã, Silene (Camila Pitanga), e do namorado dela, Fabrício (Bruno Garcia).
Enquanto realiza um exercício muito interessante de metalinguagem, Jorge Furtado faz uma bela crítica ao modo como são tratados os problemas de saneamento básico das cidades, como se os políticos tentassem consertá-los apenas para mostrarem o “bom” trabalho que fazem. Quando a construção da fossa finalmente é aprovada, o prefeito aparece em cena para tentar ganhar créditos junto à imprensa, como se ele fosse uma espécie de salvador da pátria, quando na verdade nem parece ter mexido os pauzinhos para a obra ser iniciada.
Quanto ao “filme dentro do filme”, Jorge Furtado aproveita para fazer brincadeiras divertidíssimas com o processo de desenvolvimento de uma obra audiovisual. Como exemplo há a cena em que Marina, Joaquim, Silene e Fabrício começam a discutir qual deveria ser o nome de um personagem do filme, chegando ao ponto de dizer que isso tem que combinar com a cara do ator que irá interpretar a figura, o que faz pensar se este foi o modo como Furtado escolheu o nome dos personagens da história. Além disso, o diretor mostra as dificuldades de se fazer um filme, principalmente com as limitações que os personagens enfrentam. Em determinado momento, eles se veem na posição de ter apenas uma chance de filmar uma cena, e por isso precisam que tudo dê certo, algo que acontece muito na vida real.
Ao longo de Saneamento Básico, Jorge Furtado investe em enquadramentos e movimentos de câmera elegantes, como ao usar a câmera subjetiva para deixar clara a visão que Marina tem sobre uma cena. Além disso, o diretor mostra um timing cômico perfeito para as cenas cômicas, sendo que boa parte delas envolvem as filmagens do filme dos personagens. Aliás, isso é algo que faz de Saneamento Básico um filme diferente de outras comédias da Globo Filmes, como Se Eu Fosse Você e os recentes Totalmente Inocentes e As Aventuras de Agamenon. Afinal, Furtado tem consciência de que está dirigindo um filme de comédia, e não uma reunião de sketches de televisão ridículos ligados por uma historinha boba.
Vale dizer também que Furtado soube escolher muito bem seu elenco. Fernanda Torres e Wagner Moura surgem carismáticos interpretando Marina e Joaquim, desenvolvendo ainda uma bela química para o casal. Já Camila Pitanga e Bruno Garcia acertam no nível de futilidade de Silene e Fabrício, e não deixa de ser interessante que eles sejam as estrelas do “filme dentro do filme”, como se essa fosse uma pequena alfinetada em algumas celebridades. Enquanto isso, Lázaro Ramos aparece muito divertido como Zico, ao passo que o grande Paulo José dispensa comentários interpretando Otaviano, o pai de Marina. Aliás, é curioso ver que esse é o único personagem que aparece atuando bem no filme que está sendo feito, dando a entender que o veterano ator é tão bom naquilo que faz que não conseguiria atuar mal nem se tentasse.
Inteligente e cativante, Saneamento Básico: O Filme é mais um brilhante trabalho na riquíssima carreira de seu realizador. Depois de assisti-lo, só resta lamentar que Furtado esteja há cinco anos sem dirigir um filme para o cinema.
Cotação:

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Houve Uma Vez Dois Verões

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Jorge Furtado construiu uma belíssima carreira como curta-metragista, dirigindo obras como O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, Barbosa, Ilha das Flores (que lhe rendeu o Urso de Ouro de melhor curta-metragem no Festival de Berlim) e O Sanduíche. Sendo assim, é surpreendente que o diretor tenha vindo a dirigir seu primeiro longa-metragem apenas em 2002. Mas tal demora acabou valendo a pena, já que em Houve Uma Vez Dois Verões o cineasta usa todo seu talento para criar uma narrativa divertida e envolvente, nos apresentando ainda a belos personagens.
Escrito pelo próprio Jorge Furtado, Houve Uma Vez Dois Verões conta a história de Chico (André Arteche), jovem de 16 anos que ao lado de seu melhor amigo Juca (Pedro Furtado, filho do diretor) passa sua primeira semana de aula naquela que, segundo ele, é a “maior e pior praia do mundo”, no Rio Grande do Sul. Numa noite, no fliperama, Chico conhece Roza (Ana Maria Mainieri), garota pela qual ele se apaixona quase que imediatamente. Eles transam logo no primeiro encontro, mas ela some no dia seguinte. Quando volta para Porto Alegre, Chico a reencontra, e ela diz que está grávida. É o começo de uma série de situações na qual Roza quase leva o garoto à loucura.
Logo de cara, Jorge Furtado apresenta algo que viria a ser uma marca registrada de quase todos os seus longas-metragens: a narração em off do protagonista (elemento que só não dá as caras em Saneamento Básico: O Filme). Em Houve Uma Vez Dois Verões, isso ajuda muito o espectador a se aproximar de Chico e a simpatizar com ele rapidamente. Some isso ao fato de o personagem ser uma figura realmente interessante, além de contar com o grande carisma de André Arteche, e tem-se uma narrativa que consegue manter o espectador sempre curioso quanto ao que vai acontecer ao longo da história.
Mas não é só Chico que prende a atenção do público. Os outros personagens que passam pela história mostram ser tão bons quanto ele. Roza faz coisas terríveis ao longo do filme, mas sua intérprete Ana Maria Mainieri traz uma ternura surpreendente para o papel, e isso acaba impedindo que a garota seja vista como uma verdadeira megera que brinca com os sentimentos do protagonista. E a química que a atriz desenvolve com André Arteche também é muito boa, contribuindo ainda mais para que o espectador se importe com os personagens. Enquanto isso, Juca é um alívio cômico bem-vindo, dono de algumas das cenas mais engraçadas do filme (como quando ele cumprimenta o namorado de uma garota no fliperama, mesmo estando com caxumba), além de ser interpretado de maneira divertida por Pedro Furtado.
O roteiro de Houve Uma Vez Dois Verões chega a ser uma miscelânea de gêneros muito curiosa. Uma hora o filme é um romance, em outra uma comédia de situações, em outra um road movie. É surpreendente que tudo se encaixe tão bem na narrativa, com essa mistura funcionando muito bem no filme e deixando-o ainda mais divertido, o que mostra como Jorge Furtado é um ótimo contador de histórias. Enquanto o relacionamento entre Chico e Roza é algo simpático apesar dos obstáculos que ele enfrenta, os momentos em que os personagens se metem em enrascadas conseguem arrancar risos ao mesmo tempo em que são tensos, já que nós não queremos ver aquelas figuras se dando mal.
No entanto, há um detalhe que incomoda em Houve Uma Vez Dois Verões: o fato de aqueles jovens serem independentes demais para a idade que têm. Isso nem incomoda tanto com relação a Roza, já que ela é um pouco mais velha e demonstra saber cuidar de si mesma. Mas é estranho demais ver Chico e Juca, dois garotos de 16 anos que ainda estão na escola, saírem por aí fazendo o que querem sem ter alguém que questione suas atitudes. Em determinado momento, por exemplo, Chico vende alguns objetos que tem em casa como se ninguém fosse dar falta deles, o que é muito difícil de acreditar.
Mas esse talvez seja o único problema que o roteiro de Jorge Furtado enfrenta. No resto, o cineasta capricha, e faz de seu primeiro longa-metragem um delicioso aperitivo para o filme que viria a fazer depois: o excepcional O Homem Que Copiava.
Cotação:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cinco Vezes Favela

Algo que chama um pouco a atenção em filmes divididos em segmentos (ou episódios) é que a irregularidade de um dos episódios pode comprometer um pouco o resultado final do projeto. Ou a produção pode se salvar graças a um capítulo bem realizado. Dito isso, Cinco Vezes Favela não precisa se preocupar com nenhuma dessas possibilidades citadas. Com cinco ótimos segmentos, o filme explora muito bem em suas histórias a miséria e as dificuldades pelas quais várias pessoas passam nas favelas cariocas.
Escrito e dirigido por Marcos Farias, “Um Favelado” inicia o filme brilhantemente, já nos apresentando a uma péssima situação. João (Flávio Migliaccio) está sem dinheiro e desempregado, e tudo piora quando recebe o aviso de que ele e sua família serão despejados caso o aluguel não seja pago. Por isso, ele recorre a Pernambuco, que o envolve em um assalto.
Em alguns detalhes, Marcos Farias mostra que a situação daquele personagem já persiste por algum tempo. No almoço da família de João, por exemplo, vemos apenas o filho dele comer e logo depois afastar o prato com certa raiva, deixando claro o cansaço que deve sentir em ter que viver daquele jeito. Além disso, um dos grandes momentos da atuação de Flávio Migliaccio é quando ele vê um homem contando dinheiro e seu olhar é o mesmo que de uma pessoa no deserto, sedenta por água. No pouco tempo que tem, o diretor-roteirista consegue deixar claro que João é um bom homem que não teve muita sorte na vida, e até por isso o final do segmento é um tanto trágico.
Depois de “Um Favelado”, é a vez de “Zé da Cachorra”, capítulo escrito e dirigido por Miguel Borges e que mostra o personagem-título (interpretado por Waldir Onofre) deixando a família de Raimundo morar em um barraco na favela onde mora, indo contra as ordens de Bruno, um grileiro que não quer que nenhuma outra pessoa vá morar no local por que ele pretende construir um prédio por ali. Sendo assim, surge a ideia de tirar todos de lá, o que Zé da Cachorra é totalmente contra.
“Zé da Cachorra” se concentra bastante no quanto os ricos tentam se aproveitar dos pobres. O protagonista é estabelecido como um personagem rebelde e de pavio curto, e por isso é até compreensível o porquê dos outros moradores da favela quererem deixa-lo de fora de uma reunião. Mas ao mesmo tempo, ele é a única pessoa por ali que não é ingênuo a ponto de aceitar qualquer coisa que lhe proponham, o que o torna uma figura de confiança para o espectador. É até uma pena que o segmento termine sem mostrar o que acontece com o personagem após ele tomar uma decisão, que representa uma completa revolta com o que está acontecendo ao seu redor.
Em seguida vem “Couro de Gato”, o único curta que não foi feito especialmente para o filme, tendo ganho vários prêmios antes de ser incluído no projeto. Dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, que escreveu o roteiro em parceria com Domingos de Oliveira, “Couro de Gato” acompanha um trio de meninos que roubam gatos para vender a fabricantes de instrumentos de escolas de samba. Dois gatos são resgatados, mas o outro fica nas mãos de seu ladrão, se apegando a ele.
A montagem de Jacqueline Aubrey é eficiente ao seguir todos os garotos ao mesmo tempo sem comprometer a fluidez da narrativa, mesmo quando foca eles fugindo dos donos dos gatos em uma sequência bastante agitada. À primeira vista, seria fácil condenar esses meninos pelo que eles estão fazendo, mas isso se torna difícil depois que o roteiro coloca um deles mais no centro da história. Joaquim Pedro de Andrade desenvolve bem a relação entre o garoto e o gato, mas o roteiro deixa mais ou menos claro que a situação na qual ele se encontra não deve ser das melhores, e o pesar que ele sente pelo que se vê obrigado a fazer ao final do curta ajudando a tornar seu ato menos condenável, sendo uma dura realidade das crianças da favela.
Em “Escola de Samba, Alegria de Viver”, Cinco Vezes Favela chega ao mais inferior dos curtas, mas que ainda assim consegue ser muito interessante. Dirigido por Cacá Diegues, e escrito por ele em parceria com Carlos Estevão, o episódio segue uma escola de samba que passa por várias dificuldades até o dia do desfile. Dificuldades estas que são enfrentadas pelo novo diretor da escola, o jovem Gazaneu (Oduvaldo Viana Filho).
A precariedade da escola de samba fica evidente no momento em que todos comemoram bastante a chegada de um dinheiro que conseguiram. E apesar das dificuldades, é interessante ver que Cacá Diegues filma todos os membros da escola realizando suas tarefas com boa vontade, como se o samba fosse a única coisa boa que existe para aquela comunidade.
Finalizando o filme, Leon Hirzman dirige “Pedreira de São Diogo”, segmento que escreveu em parceria com Flávio Migliaccio. A história mostra um operário que, após saber que vai ter de explodir uma encosta com uma carga de 500kg de dinamites, pede para que os moradores da favela que fica logo acima dali tentem impossibilitar seu trabalho.
“Pedreira de São Diogo” tem um dos momentos mais impressionantes de Cinco Vezes Favela: a cena da primeira explosão, feita com uma carga mais leve. Filmada de dois ângulos diferentes, a explosão é um tanto impactante, e faz com que seja possível imaginar a destruição que uma carga de 500kg pode causar. O final do curta, com vários rostos felizes, também finaliza Cinco Vezes Favela perfeitamente, passando a ideia de que apesar de todas as dificuldades focadas ao longo dos cinco segmentos, as pessoas ainda arranjam um jeito de abrir um sorriso.
Ainda que cada um deles tenha sua própria história para contar, os segmentos de Cinco Vezes Favela têm uma característica em comum: poucos diálogos. Isso acaba fazendo bem ao filme, já que dessa forma os cineastas se concentram muito mais nas imagens que filmam e nos atos de seus personagens, que agem de acordo com a situação em que se encontram e da necessidade que sentem.
Cinco Vezes Favela é o esforço de vários realizadores (além dos nomes citados, há também a participação de figuras como Eduardo Coutinho, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra em algumas funções) que conseguiram deixar suas marcas no Cinema brasileiro. E assistindo ao filme, é muito bom ver que todo o esforço valeu a pena, resultando em um dos grandes clássicos do nosso Cinema.
Cotação:

domingo, 4 de novembro de 2012

O Pagador de Promessas

Vários filmes brasileiros foram apresentados no Festival de Cannes ao longo de sua história. Mas desde 1946, ano de sua fundação, apenas uma das obras do nosso cinema teve o privilégio de receber a Palma de Ouro, o prêmio máximo concedido pelo júri do evento. Além disso, ainda conseguiu ser o primeiro filme brasileiro a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Esta obra é O Pagador de Promessas. Lançado em 1962, o clássico de Anselmo Duarte parte de uma história bastante simples, mas que acaba sendo uma bela crítica a sociedade.
Baseado na peça de Dias Gomes, o roteiro escrito pelo próprio diretor acompanha a jornada de Zé do Burro (Leonardo Villar), que após ter seu burro de estimação gravemente ferido, faz uma promessa para Iansã, ou Santa Bárbara, em um templo de Candomblé. Se o burro melhorasse, Zé sairia a pé de sua cidade e levaria uma cruz para dentro da igreja de Santa Bárbara, em Salvador. O milagre acontece e Zé imediatamente vai cumprir sua promessa. Ao chegar no local ao lado de sua esposa, Rosa (Glória Menezes), e explicar para o padre Olavo (Dionísio Azevedo) toda a situação, Zé é proibido de entrar na igreja com a cruz, já que ele teria feito uma promessa ao diabo e não a Santa Bárbara.
Logo no começo, durante os créditos iniciais, Anselmo Duarte mostra de maneira rápida e eficiente as dificuldades pelas quais Zé do Burro passa para levar a cruz até a igreja. Ao colocar Zé do Burro passando diversos locais e lutando contra todo tipo de clima, seja o calor, o frio ou a chuva, em uma sequência repleta de elipses, Duarte consegue passar muito bem o desgaste que o protagonista sente ao longo do caminho até chegar à igreja, e o resultado disso está em seu ombro muito machucado.
Mas não é só sobre Zé do Burro e sua promessa que o filme se trata. Diante de toda a confusão que ele causa junto à igreja e ao padre Olavo, ele começa a chamar a atenção nos arredores, chegando aos ouvidos do editor do jornal da cidade, que envia um repórter (Othon Bastos) para cobrir a história. Nisso, O Pagador de Promessas mostra brilhantemente o quê certas pessoas estão dispostas a fazer apenas para atingir seus objetivos. O repórter quer vender mais jornais, então não hesita em fazer manchetes que dizem “Novo Cristo prega a revolução”, usando as palavras de Zé do Burro como discurso pela reforma agrária, tentando transformá-lo numa figura muito maior do que ele realmente é ou deseja ser (afinal, dizer que o homem está apenas tentando cumprir uma promessa não seria algo muito interessante para ser vendido).
Mas mais do que a exploração da mídia, O Pagador de Promessas inclui outras pessoas tentando tirar algum lucro em cima da ingenuidade do protagonista. Quando um fotógrafo vai tirar uma foto de Zé para colocar no jornal, um comerciante aproveita para pedir que mostrem seu estabelecimento, já que assim ficará famoso. Até a própria igreja tenta passar para as pessoas o quanto ela é justa, dando a Zé a oportunidade de trocar de promessa para que possa entrar na igreja. E é por estar extremamente vulnerável à exploração das pessoas que a situação de Zé ganha traços de desespero, pois ali está um homem que tinha um objetivo bastante simples, mas que parece ter chegado ao inferno depois de toda a viagem que fez para estar ali.
O fato de Zé do Burro se manter sempre fiel a promessa que fez o torna uma figura muito admirável. Juntando isso com o modo como Anselmo Duarte faz com que ele se refira a Nicolau vemos o quanto o animal é importante para ele, o que é fundamental considerando que não há nenhuma cena que mostre os dois lado a lado como companheiros. A relação entre essas duas figuras, aliás, chega a ser mais importante do que a que Zé tem com sua esposa, o que até acaba sendo um empurrãozinho para que ela o traia com Bonitão (Geraldo Del Rey). E Leonardo Villar é brilhante ao retratar a angústia de seu personagem quando este se vê em um momento difícil. Depois de passar por tantas coisas ruins, Zé do Burro claramente parece querer colocar a cruz dentro da igreja e sair correndo dali imediatamente.
Enquanto isso, Glória Menezes consegue fazer de Rosa uma mulher que apoia o marido em suas decisões, ao mesmo tempo em que procura impedir que a situação dele piore, o que mostra que ela se importa com Zé do Burro ainda que ele não a trate da forma como ela gostaria. Já Geraldo Del Rey e Othon Bastos aparecem apropriadamente desagradáveis como Bonitão e o repórter, respectivamente. Mas o grande destaque do filme ao lado de Leonardo Villar é mesmo Dionísio Azevedo, que transforma o padre Olavo em uma figura muito forte e suas discussões com Villar resultam em alguns dos melhores momentos do filme.
O Pagador de Promessas representa um grande momento na história do cinema no Brasil, e ajudou a chamar mais atenção para o trabalho que era feito por aqui. É mesmo uma das grandes obras-primas do cinema nacional.
Cotação:

sábado, 6 de outubro de 2012

Análise de Áudio - Era Uma Vez no Oeste

Uma das cenas que mais impressionam no clássico Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, é aquela na qual o vilão Frank (interpretado por Henry Fonda) mata a família de Jill (Claudia Cardinale). É um momento que impressiona em vários aspectos, e um deles é o modo como o áudio é usado.
Logo no início da cena (00:18), Leone inclui o canto de grilos ao fundo, e o mantém ali durante exatos dois minutos. É o tempo suficiente para que os personagens e o espectador se acostumem com aquele som, de forma que quando ele é cortado pela primeira vez acaba trazendo um silêncio que passa desconforto muito grande para todos os envolvidos naquela cena, e nisso incluo os espectadores que assistem ao filme. Nessa primeira vez que os grilos saem de cena, deixando apenas o som do vento, de um cão gemendo e das galinhas cacarejando, Leone consegue passar muito bem a ideia de que aquele local é tão isolado que se algo acontecer ali aquelas pessoas estarão indefesas, além de já passar a sensação de que algo ruim está prestes a acontecer.
Os membros da família voltam a ficar tranquilos quando os grilos retornam (02:42). É então que ocorre o segundo corte desse canto (05:23), e dessa vez é algo que tem muito mais impacto, não tendo mais o gemido do cão ou o cacarejar das galinhas, e o vento fica mais forte. Logo depois disso, ocorrem os primeiros tiros. É como se Frank fosse um ser humano tão amedrontador que todos pararam diante de sua presença.
Quando o pai e dois de seus filhos caem mortos, o caçula da família corre para a rua para saber o que está acontecendo. No momento em que ele bota os pés para fora da casa (06:37), Sergio Leone inclui a trilha musical de Ennio Morricone. É uma música bastante triste e ao mesmo tempo consegue dar um tom de suspense para a cena. Seu lado triste é mais do que apropriado por que aquela família estava prestes a ser completada com a presença de Jill, e eles também estavam se preparando para se livrar de suas dificuldades financeiras e serem mais felizes. Felicidade esta que nunca mais será alcançada.
Já o lado do suspense é adequado por dois motivos: 1) Será que aqueles homens são tão cruéis a ponto de matar uma criança?; 2) Quem é o líder daquele grupo?
Afinal, na época do lançamento do filme, ninguém sabia que Henry Fonda (mais conhecido por interpretar “mocinhos”) apareceria aqui como o vilão da história. E não é à toa que a música chega ao seu ápice (07:53) no momento em que Leone faz um travelling circular revelando Fonda como a figura pela qual as pessoas terão que torcer contra. E depois dessa grande revelação, Leone baixa um pouco o volume da música, como se estivesse dizendo para o público “Conformem-se! Este será o grande vilão do filme!”. E ainda por cima, é um vilão impiedoso, que mata crianças quando preciso.
É uma cena incrível e muito bem orquestrada por Sergio Leone, sendo apenas um dos vários momentos sensacionais de uma das grandes obras-primas da história do Cinema.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Matar ou Morrer

(Texto originalmente escrito para a aula de Análise da Produção Audiovisual)
O gênero western é muito mais conhecido por ser aquele em que aparecem os cowboys, os saloons, os “bang-bang”, o cenário desértico, entre outras coisas. Lançado em 1952, Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, é um dos maiores clássicos do gênero. Mas diferente de outros grandes filmes, como os da Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, este exemplar tem apenas uma cena em que seus personagens trocam tiros, e ela acontece no final do filme. O que se vê em Matar ou Morrer é uma bela história de honra e coragem na qual o protagonista passa por conflitos internos muito interessantes.
Escrito por Carl Foreman, Matar ou Morrer conta a história de Will Kane (Gary Cooper), delegado que está se casando com a bela Amy Fowler (Grace Kelly, em um de seus primeiros papeis no cinema). Depois do casamento, ele é avisado que Frank Miller (Ian MacDonald) inacreditavelmente conseguiu se safar da cadeia, e é esperado por seus capangas (um deles é Lee Van Cleef, por sinal) no trem que chegará ao meio-dia. Querendo ele mesmo encerrar o assunto com Miller, Kane resolve ficar na cidade e enfrentar seu inimigo. Mas a situação piora quando o delegado vê que a população não o ajudará.
Historicamente, Matar ou Morrer começa de forma inédita: usa uma canção-tema, feita especialmente para o filme, na abertura. Quando “Do Not Forsake Me, Oh My Darling” (por sinal, uma belíssima canção que ganhou merecidamente o Oscar, em 1953) começa a tocar, o tom da narrativa já é imposto quase que imediatamente, já que a letra mostra exatamente a situação pela qual Will Kane está passando. Ao mesmo tempo em que quer enfrentar Frank Miller, ele não quer que sua esposa o esqueça, mesmo que ele morra lutando. É uma questão não só dignidade (morro como herói ou fujo e fico conhecido como um covarde), mas também protetora, já que sem ele a cidade fica sem delegado durante um dia inteiro. E sabe-se lá o que os bandidos podem fazer nesse período.
A direção de Fred Zinnemann é absolutamente brilhante. O filme foi feito para dar a impressão de que a história se passa em tempo real. Ela ocorre em um período de tempo de uma hora e quarenta minutos, um pouco acima dos 85 minutos de duração, mas Zinnemann consegue perfeitamente passar esse sentimento. Ao longo do filme, o diretor faz vários enquadramentos em que mostra não só os personagens, mas também um relógio na parede. Isso é algo que traz uma grande tensão para o filme, por que à medida que os ponteiros se aproximam do meio-dia, nós tememos cada vez mais com o que pode acontecer quando Frank Miller chegar.
O grande Gary Cooper ajuda muito a implantar essa atmosfera temerosa. Interpretando Will Kane como o típico bom homem que quer apenas manter a paz em sua cidade, é difícil não gostar do ator e, consequentemente, se importar com o destino do personagem. Sendo assim, quando a cidade começa a se recusar a ajuda-lo na luta contra Frank Miller, nós ficamos tão desesperados quanto o protagonista.
Quando chega a grande cena da luta, Fred Zinnemann brilha mais uma vez ao fazer um zoom out no momento em que Kane está indo em direção aos vilões, algo que mostra que, da maneira em que está, ele é apenas uma formiga fácil de ser abatida. E quando a câmera fica próxima de seu rosto, em primeiro plano, vemos o medo que este homem está sentindo. Já com os vilões, Zinnemann mantém a câmera baixa e próxima deles, em plano de conjunto, algo que os torna maiores do que já aparentam ser, e consequentemente mais ameaçadores perto da “formiga” Kane.
Matar ou Morrer faz ainda uma crítica ao sistema de justiça americano. Apesar de existir corrupção, há pessoas que querem fazer o certo, mas não podem por terem as mãos atadas pela lei. Will Kane como essas pessoas. Além de saber que os bandidos estão soltos, ele sabe quem eles são, mas não pode prendê-los por que não tem justificativa. Esse é um dos motivos para que a maioria população não queira ajuda-lo. A cena na igreja é uma das melhores do filme por mostrar que há pessoas que entendem a situação de Kane, mas não o ajudam por medo.
Matar ou Morrer é o tipo de filme que mostra o porquê de o cinema ser uma arte tão apaixonante. Hoje em dia, é uma pena que existam tão poucos westerns com tamanha qualidade.
Cotação:

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Underground: Mentiras de Guerra

(Texto originalmente escrito para a aula de Estudo do Cinema Internacional)
Underground: Mentiras de Guerra mostra a história da Iugoslávia desde a Segunda Guerra Mundial até os dias atuais, em 1992. Toda a história é contada de maneira satírica pelo diretor Emir Kusturica, o que faz com que Underground seja um filme engraçado durante quase todo tempo de projeção (162 minutos), e consegue essa façanha mesmo com o cenário político em que está envolvido.
Dividido em três partes (Guerra, Guerra Fria e Guerra), Underground nos apresenta a uma dupla de fabricantes de armas, Marko e Crni, no período da Segunda Guerra Mundial. Eles mantêm em seu porão um grupo de refugiados que os ajudam na fabricação dos armamentos. Quando a guerra acaba, os trabalhadores não ficam sabendo e continuam a produção. Anos mais tarde, eles conseguem sair do porão e descobrem que a guerra, apesar de não ser a mesma de antes, continua.
Essa forma com que o filme é dividido já é engraçada por ser muito bem montada para que os refugiados se surpreendam com o que veem no momento em que saem do porão. Isso é só uma parte do humor negro que aparece ao longo do filme. Mas, apesar de contar com seus momentos engraçados, Underground não deixa de ficar sério em alguns momentos, como quando um dos personagens, Ivan, tenta desesperadamente salvar os animais do zoológico enquanto que a guerra estoura no país.
O final de Underground, quando vários personagens, até mesmo os que morreram ao longo do filme, aparecem juntos em um pequeno pedaço de terra, é genial por ser uma bela metáfora, que representa um novo começo para o povo daquele país. Genialidade que merece ser aplaudida de pé.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Incompreendidos

(Texto originalmente escrito para a aula de Análise da Produção Audiovisual)
Várias pessoas dizem que críticos de cinema são aqueles que não têm o dom para fazer um filme, e por isso procuram escrever sobre essa bela arte. Quando digo isso, estou me referindo ao modo como essas pessoas reconhecem os críticos, ou seja, dizendo que eles usam as palavras para destruir os filmes (algo que acho uma grande bobagem, já que existem bons e maus filmes). Mas há sempre aquela boa e velha pergunta: seria um crítico de cinema capaz de fazer um filme? Ou mais do que isso: seria um crítico de cinema capaz de fazer uma obra-prima, que será lembrada mesmo que tenham se passado 50 anos desde seu lançamento? François Truffaut respondeu essas perguntas com Os Incompreendidos, seu filme de estreia como diretor de longas-metragens.
Escrito pelo próprio Truffaut em parceria com Marcel Moussy, Os Incompreendidos conta a história de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), um garoto que vive arranjando problemas na escola e tem uma vida familiar difícil. Ele é uma criança que é castigada até quando tenta fazer o que é certo. Influenciado por seu amigo René, Antoine foge de casa e começa a cometer pequenos delitos, e consequentemente paga por eles.
Desde o início do filme Truffaut mostra como são os adultos aos olhos de Antoine, ou seja, aos olhos de uma criança. Neste caso, os adultos são tratados como pessoas autoritárias e pouco atenciosas, e por isso são pouco respeitados. Quando o professor de francês está escrevendo no quadro, por exemplo, os alunos aproveitam para fazer bagunça, principalmente Antoine. A falta de respeito com o professor chega a ser compreensível: como aturar uma pessoa que acha que o futuro da França já está perdido e trata as crianças com mão de ferro?
No caso dos pais de Antoine, a situação é ainda pior, já que eles praticamente querem se livrar do garoto e tentam encontrar um lugar para enviá-lo. Um dos momentos mais memoráveis do filme acontece quando Antoine está deitado em sua cama e seus pais falam coisas que nenhum filho gostaria de ouvir. Sua mãe o acha irritante, enquanto que seu pai diz que já fez demais por ele ao dar nome e alimento.
Essa personalidade dos adultos fica ainda mais evidente no terceiro ato do filme, quando Truffaut nos mostra um Centro de Observação para Delinquentes Juvenis. Em determinado momento, o diretor foca dois jovens conversando e um deles fala que bateu no pai porque este imitava um violino quando o via chorar, mostrando total descaso com a situação. Durante a conversa, Truffaut levanta a câmera e mostra anjos, indicando o que aqueles jovens realmente são: crianças boas que se cansam com o modo como são tratadas. Incompreendidas, como diz o título em português.
Os Incompreendidos tem tons autobiográficos. Assim como Antoine, Truffaut tinha problemas com os pais, algo que o fazia tirar notas baixas na escola e o levou a cometer seus pequenos crimes. O que chama a atenção é o modo como ele trata isso no filme, empregando a belíssima trilha sonora composta por Jean Constantin de maneira muito eficiente. Quando Antoine rouba uma garrafa de leite, Truffaut coloca a trilha sonora suave e com toques de canção de ninar, algo que ressalta não só a tristeza daquele momento, mas também o fato de Antoine ser apenas uma criança. Mais tarde, quando o menino começa a pagar por seus atos, os toques de canção de ninar somem, indicando que Antoine já não está sendo tratado como uma criança pelos adultos a sua volta.
Apesar de definir os adultos como autoritários e as crianças como incompreendidas, Truffaut inclui um momento em que eles não são tão diferentes um do outro. Influenciado por seu melhor amigo, René, Antoine não vai à aula e resolve ir ao cinema. O garoto tira um dia de folga para se divertir, escondido dos pais. Ironicamente, Antoine encontra sua mãe na rua beijando outro homem, quando na verdade deveria estar trabalhando. Ou seja, ela também estava se divertindo quando não deveria.
Mas o mais marcante do filme é com certeza seu final, algo que Truffaut conduz magnificamente. Em certo momento, Antoine diz que nunca viu o mar. Em outro, um jovem que conseguiu fugir do Centro de Observação diz que valeu a pena pela diversão que teve. Sendo assim, quando Antoine foge do local e corre sem parar até o mar, ele não faz isso só para cumprir um objetivo, mas também para poder dizer, caso seja apanhado, que a fuga valeu a pena.
Confesso que nunca havia assistido a um filme da Nouvelle Vague antes deste Os Incompreendidos. Mas esta é uma obra tão linda de se ver que é impossível não se interessar pelas outras produções.
É possível um crítico de cinema fazer um grande filme? Resposta de Truffaut: “Com certeza!”.
Cotação:

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Blow Up - Depois Daquele Beijo

(Texto originalmente escrito para a aula de Estudo do Cinema Internacional)
Primeiro filme em que o diretor Michelangelo Antonioni dirigiu fora da Itália, Blow Up: Depois Daquele Beijo é centrado em Thomas (David Hemmings), fotógrafo que, um dia em uma praça, tira várias fotos de uma jovem (Vanessa Redgrave) com um homem mais velho. Depois de despistá-la, entregando-lhe o rolo de filme errado, Thomas revela as fotos e vê um homem armado atrás dos arbustos. Ele então investiga e descobre um corpo na praça. Mais tarde, as prova somem e Thomas retorna a sua vida normal.
Quando mostra Thomas tentando desvendar o que está acontecendo, Blow Up fica ainda mais interessante por mostrar a obsessão do personagem, que investiga tudo o que pode através das fotos, tentando descobrir o que elas realmente significam. A investigação chega a tal ponto que Thomas vai a uma festa, onde pede ajuda para um conhecido, mas não sabe explicar o porquê de estar ali.
Apesar de contar com uma história parecida com um thriller, Blow Up nunca mostra ser um filme deste estilo. Antonioni se concentra muito mais no universo em que o filme se passa, que mostra ser estranho em várias cenas. Por exemplo, Thomas vai a um show (da banda The Yardbirds) e encontra um público formado por pessoas quietas, como se fossem robôs, e que ficam loucas no momento que um membro da banda destrói uma guitarra. Nessa cena, o diretor mostra o quanto as pessoas fazem muito barulho por pequenas coisas. Isso, de certa forma, encontra reflexo no próprio trabalho do protagonista, que se irrita ao ver que um pequeno detalhe de uma foto não está do modo como gostaria, algo que podemos ver na cena em que ele tira fotos e pede para as modelos sorrirem, mas elas não fazem do jeito “certo”.
Um filme que causou polêmica na época de seu lançamento por contar com cenas de nudez, Blow Up mostra que a primeira excursão de Michelangelo Antonioni fora de casa não só é muito interessante, mas também é eficiente com relação a sua proposta. Um grande filme feito por um grande diretor.

domingo, 2 de outubro de 2011

Gosto de Sangue

(Texto originalmente escrito para a aula de Estudo do Cinema Internacional)
Ao longo dos anos, os irmãos Joel e Ethan Coen construíram uma carreira muito interessante. Eles são os responsáveis por comédias hilárias, como O Grande Lebowski, Arizona Nunca Mais e Na Roda da Fortuna, por dramas muito eficientes, como Ajuste Final, e por thrillers sensacionais como Onde os Fracos Não Têm Vez e este Gosto de Sangue, estreia deles no cinema em 1984.
O filme tem uma trama bem montada. Marty (Dan Hedaya) acha que sua mulher, Abby (Frances McDormand), está traindo ele com Ray (John Getz). Ele contrata Loren Visser (M. Emmet Walsh) para segui-los, e mais tarde pede para matá-los. O desenrolar da história é cheio de desconfiança, onde ninguém sabe o que realmente está acontecendo.
Desde o início o clima de suspense impera, desde a fotografia sombria de Barry Sonnenfeld até a direção de Joel Coen (Ethan só começou a ser creditado a partir de Matadores de Velhinha, de 2004). A trilha sonora consegue deixar o público aflito para saber o que vai acontecer a seguir. O curioso é notar que essa trilha utiliza até mesmo a exaustão de um cachorro para fazer suspense, como quando Marty ataca Abby na casa de Ray. O roteiro dos Coen ainda traz cenas que divertem, como quando uma mulher mostra um apartamento para Abby e grita com o homem que está dormindo lá.
Algo interessante é ver que a direção dá ênfase em algumas coisas no filme que aparentemente não parecem ter propósito algum, mas mais tarde elas revelam ter alguma função. Por exemplo, quando Marty fica olhando para a incineradora perto de seu bar pouco depois do início do filme, isso parece ser apenas algo comum, mas depois ele pede para Visser desaparecer com os corpos dos amantes queimando-os ali.
A estreia dos Coen não poderia ser melhor. Gosto de Sangue é um grande filme. Hoje, pode-se dizer que os irmãos só melhoraram com o tempo.

sábado, 1 de outubro de 2011

A Fita Branca

(Texto originalmente escrito para a aula de Estudo do Cinema Internacional)
Michael Haneke disse que seu A Fita Branca é sobre as origens do nazismo. A história do filme se passa na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial e acompanha estranhos acontecimentos que estão ocorrendo no local sem que ninguém saiba quem está por trás deles.
A fotografia em preto e branco é mais do que adequada para retratar este período. Ao tirar as cores da narrativa, Haneke ressalta que este foi um momento triste da história alemã, já que mostra como começou um regime de monstruosidades. Isso lembra muito o excelente documentário Noite e Neblina, de Alan Resnais, onde as imagens de 1955 eram coloridas e as mais antigas, da época da Segunda Guerra Mundial, eram em preto e branco.
Tudo é mostrado pelos olhos do professor interpretado por Christian Friedel, que narra a história em uma fase mais adulta, como se percebe pelo seu tom de voz. Por ser o personagem que mais procura saber o que está acontecendo no vilarejo, essa narração ajuda muito a compreender o que ocorre ao longo do filme.
Quando Haneke revela os responsáveis pelos acontecimentos no vilarejo, é surpreendente ver que é um grupo de jovens. Provavelmente, são jovens como eles que vieram mais tarde a fazer parte do regime que hoje é uma mancha na história da humanidade. Regimes como o nazismo nascem porque a maioria se deixa ser dominada pela minoria. O povo alemão desconhecia das atrocidades de Hitler e por isso o apoiava. A mesma coisa acontece em A Fita Branca. Os jovens passam quase despercebidos e sempre aparecem preocupados com as pessoas que atacaram. Por isso, todos no vilarejo pensam que eles são pessoas boas, que não fariam mal a ninguém. Mas pelo modo violento como são criados, eles provavelmente veriam em Hitler a figura de um pai salvador.
Com grandes atuações do elenco (destaque para Friedel), A Fita Branca é uma visão sutil e interessante sobre um período para ser esquecido.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Batman: O Cavaleiro das Trevas

(Texto originalmente escrito para a aula de Análise da Produção Audiovisual)
Tim Burton havia concebido em seus dois filmes sobre o homem-morcego, Batman e Batman: O Retorno, sua visão sobre o mundo desse personagem. Com seu estilo gótico, Burton criou uma Gotham City mergulhada em trevas onde o perigo era uma constante e os vilões, apesar de serem quase absurdos, conseguiam ser uma ameaça. Depois disso, Joel Schumacher tratou de entrar na lista negra de todos os fãs do herói ao transformar esse universo em algo completamente caricatural, onde até mesmo a roupa de Batman era ridícula com seus mamilos.
Com Batman Begins, o diretor inglês Christopher Nolan não só ressuscitou Batman nas telonas como conseguiu fazer do universo do personagem algo muito mais real (a violenta Gotham City poderia ser qualquer cidade do mundo, seja Nova York ou São Paulo, por exemplo), além de desenvolver muito mais a figura de Bruce Wayne, o homem por trás da máscara. Com Batman: O Cavaleiro das Trevas, Nolan não só nos mergulha em um universo onde o mal parece ser absoluto, mas também nos faz presenciar confrontos psicológicos memoráveis entre o herói e o mais novo vilão de Gotham.
Escrito pelo próprio Christopher Nolan em parceria com seu irmão Jonathan e com um argumento feito por eles e David S. Goyer, Batman: O Cavaleiro das Trevas mostra que os marginais de Gotham City agora temem a figura de Batman a ponto de o tenente Jim Gordon precisar apenas acender o bat-sinal para que eles já comecem a pensar duas vezes antes de atacar. A fama do herói ainda faz com que indivíduos comuns resolvam se fantasiar como ele para fazer justiça com as próprias mãos. Com a ajuda de Gordon e do novo promotor, Harvey Dent, Batman parece estar tendo êxito em sua missão de afastar o mal de sua cidade. Mas a chegada do Coringa ameaça pôr a perder todos os esforços do trio.
Christopher Nolan, ao lado de seu fiel diretor de fotografia, Wally Pfister, mergulha Gotham City no sombrio, muito mais do que havia feito em Batman Begins, o que acaba sendo mais do que adequado já que a cidade parece estar encarando um de seus mais caóticos momentos. Além disso, o diretor faz grandes cenas de ação, sendo uma delas a sequência na qual o Coringa persegue Harvey Dent, no túnel de Gotham. E a belíssima trilha sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard remete não só a parte sombria da narrativa, mas também ao heroísmo de Batman.
O roteiro de O Cavaleiro das Trevas parece ter sido escrito baseado em um objeto simples e pequeno: uma moeda. De um lado temos Batman, um símbolo de esperança para os habitantes de Gotham, Harvey Dent, um cidadão comum que está colocando metade dos marginais na cadeia sem usar uma máscara, e Jim Gordon, um dos poucos policiais em quem se pode confiar. Do outro, temos o Coringa e sua fome por destruir seus adversários física e psicologicamente e ainda impor medo e caos na cidade.
Essa ideia da moeda surge várias vezes ao longo do filme. Quando Batman interroga o Coringa na delegacia, Christopher Nolan faz um jogo de plano e contra-plano que, devido à conversa e ao momento dos personagens, pode ser comparado com o jogo de cara ou coroa. Sendo uma das cenas mais importantes do filme, por representar uma das poucas vezes em que herói e vilão ficam frente a frente, ela é tensa até seu último segundo.
Aliás, o Coringa vivido pelo grande Heath Ledger nos faz esquecer todas as outras encarnações do personagem, até mesmo a divertida interpretação de Jack Nicholson no filme de Tim Burton. Surgindo ameaçador desde sua primeira cena, Ledger constrói um personagem louco e psicótico, e a ideia do ator de emprestar ao vilão seu tique de passar a língua em volta da boca é algo que faz do vilão um ser ainda mais estranho e único. E o fato de o roteiro não perder tempo contando as origens do personagem faz com que ele seja imprevisível.
Enquanto isso, Christian Bale comprova que é o melhor ator a encarnar Bruce Wayne nas telonas, deixando o até então favorito Michael Keaton para trás (prefiro não comentar Val Kilmer e, principalmente, George Clooney). Sendo Bruce Wayne um personagem que precisa ser um playboy milionário durante o dia e um herói à noite, Bale interpreta essas duas partes da personalidade do protagonista de maneira impecável. O ator ainda consegue nos passar a exaustão de Wayne não só com relação ao que acontece com o personagem durante o filme, mas também por ele ter a esperança de poder largar a máscara de Batman algum dia.
Quanto ao resto do elenco, Michael Caine aparece sempre ótimo como Alfred, personagem que aparece para confortar e aconselhar Bruce quando este precisa. A substituição de Katie Holmes por Maggie Gyllenhall no papel de Rachael Dawes acaba sendo mais do que adequada, já que Gyllenhall é uma atriz claramente mais madura do que Holmes, e a personagem está muito mais experiente como advogada nesta sequência do que no filme anterior. Morgan Freeman empresta todo seu carisma para Lucius Fox, ajudante que consegue todos os tipos de armas e aparelhos para Wayne. Fechando o elenco, Aaron Eckhart tem uma grande atuação interpretando o personagem mais trágico do filme. Harvey Dent é um homem que tenta de todas as formas fazer o bem, e não é à toa que o protagonista confia nele desde seu primeiro encontro. Mas Dent acaba por ser a grande experiência/plano do Coringa, que prova que as pessoas só precisam de um empurrãozinho para passar para o “lado negro da força”.
Mas o grande êxito de O Cavaleiro das Trevas é o fato de que ele parece ser o primeiro filme onde é mostrado o significado do verdadeiro herói. Se até então o que víamos era uma pessoa comum que salva a cidade sem pedir nada em troca, Nolan acrescenta algo absolutamente fascinante. Em certo momento do filme, Harvey Dent diz em um jantar “Ou você morre como herói ou vive o bastante para se tornar o vilão”, diálogo que ainda indica o que acontecerá com o personagem. Um herói é aquele que não tem medo de tornar-se o vilão para ver as pessoas e a cidade a salvo. A maneira como Nolan trata isso é espetacular, sendo digno de palmas.
Finalizado com o cavaleiro das trevas cercado por um belíssimo feixe de luz, indicando que ele é o grande herói que Gotham City precisa, Batman: O Cavaleiro das Trevas coloca os filmes de super-heróis em um patamar muito mais sério do que a do simples entretenimento. Se Christopher Nolan caprichar no terceiro e último capítulo de Batman, então ele terá acabado de fazer a trilogia O Poderoso Chefão do gênero histórias em quadrinhos.
Cotação:

O Lutador

(Texto originalmente escrito para a aula de Análise da Produção Audiovisual)
O diretor Darren Aronosky é conhecido por fazer dramas em que explora o psicológico de seus personagens. Se em Pi ele mostrou um homem que ia a loucura tentando descobrir o significado de uma série numérica e em Réquiem Para Um Sonho ele mostrou a degradação que as drogas podem causar nas pessoas, em O Lutador ele nos faz presenciar a tentativa de redenção não só do personagem, Randy “The Ram” Robinson, mas também a de seu intérprete, um ator que até então tinha sua carreira considerada como acabada: Mickey Rourke.
Escrito por Robert Siegel, O Lutador nos apresenta a Randy “The Ram” Robinson, lutador de wrestling que teve o auge de sua carreira na década de 1980, mas que agora ganha dinheiro participando de lutas menores além de ser obrigado a trabalhar em um supermercado. Quando surge a proposta de uma revanche contra um velho adversário, Randy resolve aproveitar a chance, mas um infarto faz com que ele se afaste da profissão e comece a pensar um pouco mais sobre o que valorizar em sua vida.
Aronofsky começa o filme com reportagens que mostram toda a carreira vitoriosa de Randy. Ao som de “Bang Your Head”, da banda Quiet Riot, nós nos familiarizamos com o personagem logo de cara e vemos a fama que ele conseguiu. Mas logo depois dessa abertura, ouvimos a tosse de Randy, indicando imediatamente que ele não é mais o grande lutador que costumava ser em seus dias de glória. Quando finalmente vemos seu rosto, algo que demora um pouco mais do que o esperado, fica claro que este é um homem que já levou muitos socos não só dos adversários, mas também da vida. E a atenção de Aronofsky aos detalhes, como os barulhos de moedas nas calças de Randy, mostra como o protagonista leva uma vida precária.
Usando a câmera na mão e seguindo Randy de perto (algo que fez também com Nina, personagem de Natalie Portman em Cisne Negro), Aronosfsky dá um caráter documental que cai como uma luva para o filme, tornando a história mais real. Além disso, o diretor nos apresenta aos bastidores do wrestling. Vemos que todos aqueles brutamontes são como uma família e encenam os golpes que darão na hora de lutar. Não que tudo seja mentira, já que o diretor faz questão de mostrar que os lutadores se sacrificam nos ringues, como ao usar um pedaço de lâmina para fazer cortes em si mesmos. E o fato de todos eles serem amigos nos faz entender o porquê de Randy não se sentir a vontade em abandonar a profissão. Afinal, aquele é o único lugar onde ele é respeitado por suas conquistas.
O roteiro consegue tratar muito bem essa parte na qual Randy ainda não sabe o que fazer: colocar sua vida em risco nos ringues ou se entregar a sua rotina e seu verdadeiro nome (Robin)? Ele volta a ver sua filha, Stephanie, que à primeira vista não consegue nem olhar na sua cara, e arranja um trabalho melhor no supermercado (algo que rende uma das cenas mais descontraídas do filme). Esses acontecimentos dão sinal de que uma vida normal não parece ser impossível para ele e também não é de todo ruim.
O Lutador não conta só a história de Randy, mas também a da bela Cassidy, stripper e talvez melhor amiga do lutador. Assim como Randy, Cassidy não está mais no auge de sua carreira, sendo hostilizada por vários clientes que a consideram uma velha, apesar de ainda ser maravilhosa. Com isso, vemos dois personagens que encontram um no outro uma válvula de escape para revisitar os velhos tempos. Se Cassidy ouve as histórias de Randy com total atenção, o lutador a acha uma das mulheres mais lindas que já viu. E não deixa de ser curioso que os dois se escondam atrás de nomes artísticos.
Randy “The Ram” Robinson foi o personagem perfeito para o grande retorno de Mickey Rourke. Sendo um dos melhores atores de sua geração, Rourke largou tudo isso no final da década de 1980 para se tornar lutador de boxe. Quando tentou voltar, seu rosto de galã não era mais o mesmo e ninguém arriscava dar papéis importantes para ele. Sendo assim, O Lutador acaba ganhando alguns toques de biografia por se tratar uma volta por cima, e Rourke brilha desde o primeiro segundo em que aparece. O ator não só consegue retratar a decadência de Randy impecavelmente, mas também mostra todo sacrifício dele pela profissão que tanto adora. Em vários momentos do filme, Rourke sutilmente consegue nos passar o que Randy está sentindo, como a tristeza ao saber que não pode mais lutar ou quando vai a uma feira de velhos lutadores e olha o estado de seus ex-colegas de trabalho, pensando claramente que não se permitirá ficar como eles. Uma atuação espetacular que infelizmente não recebeu o Oscar tão merecido.
Mas se Rourke é a grande estrela do filme, Marisa Tomei não fica muito atrás. Trazendo grande carisma para Cassidy, a atriz consegue mostrar o cansaço da personagem em ter que ficar tirando a roupa por gorjetas medíocres. Isso fica mais claro na cena em que Cassidy se rebela e ao sair pela porta da boate diz seu nome verdadeiro (“Pam”) em forma de desabafo. Evan Rachel Wood, interpretando Stephanie, aparece sempre com uma expressão triste, de decepção com o pai que nunca esteve presente em sua vida. Por causa do medo de Randy em não querer decepcioná-la novamente, Wood protagoniza com Rourke uma das cenas mais bacanas do filme, quando pai e filha começam a dançar em um salão abandonado depois de ele desabafar e dizer tudo o que sente.
Embalado pela belíssima canção “The Wrestler”, composta especialmente para o filme por Bruce Springsteen, o final de O Lutador é triste, mas fecha com chave de ouro a história de Randy “The Ram” Robinson. Uma pena que esta seja uma das várias produções de 2008 que não receberam o devido reconhecimento na temporada de premiações. Uma obra-prima com um protagonista entregando a melhor atuação de sua carreira merecia mais atenção.
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