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domingo, 15 de setembro de 2024

Longlegs - Vínculo Mortal

Em maior ou menor grau, podemos reconhecer as qualidades e problemas de um filme assistindo a ele em qualquer lugar ou formato. Mas não tenho dúvida alguma de que na sala de cinema tais características são potencializadas pelo próprio tamanho do espetáculo, algo que não é possível replicar totalmente fora dali (a menos que a pessoa tenha montado um cinema em casa, mas aí é outra história). Enfim, começo esse texto falando isso porque enquanto assistia a Longlegs, novo terror dirigido por Osgood Perkins, me vi constantemente aliviado por estar vendo o filme em uma boa sala de exibição, já que os arrepios e a angústia que ele causa certamente estarão na lista de coisas que vou lembrar quando pensar o que o cinema nos ofereceu de bom em 2024. 

Escrito pelo próprio Osgood Perkins (filho do eterno Anthony Perkins), Longlegs é em sua trama um típico filme de serial killer. Situado majoritariamente em meados dos anos 1990, o longa nos apresenta a Lee Harker (Maika Monroe), uma jovem agente do FBI com um forte poder de intuição e um passado aparentemente traumático. Tudo isso é posto à prova quando ela é chamada por seu superior, William Carter (Blair Underwood), para ajudar a encontrar o assassino conhecido como Longlegs (Nicolas Cage), que há décadas é responsável por familicídios que parecem ocorrer quase que sobrenaturalmente, já que o único rastro que ele deixa são cartas criptografadas. 

Nessa breve sinopse, em que falo só o ponto de partida da trama, já podemos ver que o filme não deixa de pegar elementos que já vimos em obras clássicas como O Silêncio dos Inocentes ou Zodíaco. Mas apontar isso como repetição seria, na minha humilde opinião, um exercício superficial, já que Osgood Perkins está muito mais interessado na tensão que pode provocar com o material que está explorando. Aliás, considerando que revi recentemente O Iluminado, não pude evitar de pensar que Perkins também bebeu um pouco da mesma água de Stanley Kubrick. Aqui, o cineasta imprime uma sensação de inquietude que percorre a narrativa do começo ao fim, algo que ele ressalta com elementos que vão desde a fria ambientação, passando pelo desenho de som e pela fotografia opressivos e chegando ao próprio mistério quanto a natureza da trama (afinal, os eventos que acompanhamos têm algo de sobrenatural ou contam com alguma lógica?). 

Essa angústia do filme ainda é compartilhada pela protagonista, Lee Harker, que é vivida pela ótima Maika Monroe como uma pessoa que carrega no próprio olhar um passado doloroso (ou que prefere não lembrar), com a atriz encarnando com segurança a fragilidade emocional da personagem, assim como seu foco e determinação como detetive. E se o carismático Blair Underwood faz de William Carter um sujeito cuja estabilidade até funciona como um contraponto a Lee, Alicia Witt contribui ainda mais com a estranheza do filme ao surgir quase catatônica no papel de Ruth, a mãe da protagonista.  

Mas é inegável que é mesmo Nicolas Cage quem mais se destaca. Sob uma maquiagem e figurinos que fizeram eu lembrar um pouco do Abominável Homem das Neves de Chapolin (o que de forma alguma tira a graça da composição), Cage tem um tempo de tela reduzido, mas rouba cada uma de suas cenas ao fazer do personagem-título uma figura que exala ameaça e bizarrice desde o princípio, seja por seu modo delicado e cadenciado de falar, seus gestos ou pela mera normalidade com a qual ele vê tudo o que faz, aspectos que obviamente contrastam com o nível de violência de seus crimes. Além disso, Osgood Perkins ainda esconde o rosto do personagem por um bom tempo, contribuindo para criar uma aura de mistério que o torna mais inquietante e ameaçador. E para complementar esses elementos, o desenho de som trata de fazer com que os gritos pontuais de Longlegs soem como se um quadro negro estivesse sendo arranhado ao lado do espectador. 

Quando obras-primas como O Silêncio dos Inocentes, Zodíaco e O Iluminado são lembradas enquanto pensamos sobre um filme, isso talvez pudesse ser algo que colocasse ele para baixo. Mas no caso de Longlegs, acho que Osgood Perkins mostra ter aprendido bem as lições deixadas por filmes como aqueles, criando mais uma obra notável no processo. 


Nota:



domingo, 8 de setembro de 2024

Os Fantasmas Ainda Se Divertem

“Se não há muita criatividade, então apostemos naquilo que já deu certo uma vez, aproveitando para investir em nostalgia”.

Creio que principalmente na última década esse pensamento tem sido o condutor dos estúdios na hora de dar sinal verde para algumas de suas principais produções. E assim nos vimos retornando ao universo de franquias como Jurassic Park, Caça-Fantasmas e Star Wars ou a grandes sucessos de bilheteria como Independence Day, Top Gun e mais recentemente Twister, todos com resultados altos e baixos. E é nessa onda que temos agora este Os Fantasmas Ainda Se Divertem, que nos faz retornar universo do clássico de Tim Burton.

Com Burton de volta na direção, essa continuação mostra que Lydia Deetz (Winona Ryder) agora utiliza seus talentos de mediunidade em seu programa de TV sobre casas mal-assombradas. Mas após o falecimento de seu pai, Charles (interpretado por Jeffrey Jones no primeiro filme e que aqui surge em breves participações que não precisaram do ator), Lydia volta a antiga casa em Winter River junto com sua madrasta Delia (Catherine O’Hara) e sua filha cética e rebelde Astrid (Jenna Ortega). É então que uma série de eventos faz elas retomarem contato com o universo da vida após a morte, e claro que o desagradável Beetlejuice (Michael Keaton) quer aproveitar o momento ao máximo.

É principalmente essa série de eventos que faz com que Os Fantasmas Ainda Se Divertem acabe encontrando problemas no desenvolvimento da narrativa. Afinal, o filme acaba não conseguindo ser tão interessante quando vemos o roteiro perder tempo com subtramas e personagens que, além de desperdiçarem o talento de seus intérpretes, também nunca conseguem justificar sua presença. É o caso de Willem Dafoe e Monica Belucci, que parecem bastante perdidos no meio da história. O roteiro pula de um ponto da trama a outro sem qualquer organização, trazendo ainda soluções e dinâmicas já utilizadas no filme original, o que até pode ser uma sinalização para momentos nostálgicos, mas também não deixa de exibir um pouco de preguiça dos realizadores para bolar coisas diferentes.


Ainda assim, o longa tem bons momentos que o tornam uma experiência agradável. A sequência em que vemos uma personagem “se montar” é surpreendentemente divertida, assim como é bacana ver Tim Burton brincar (ainda que brevemente) com outras técnicas e visuais, o que vemos em uma sequência de animação e em outra em preto e branco que lembra os terrores italianos de Mario Bava, que tanto influenciam o diretor. Mas é claro que a maior parte da diversão do filme está no retorno de Michael Keaton ao papel de Beetlejuice, que continua sendo uma figura que arranca risos com facilidade. Keaton encarna com naturalidade a energia de trem desgovernado que do personagem, e seu carisma e irreverência mais uma vez nos impede de achar Beetlejuice um ser totalmente deplorável.

Ao final de Os Fantasmas Ainda Se Divertem, fica a impressão de que a produção com certeza se beneficiaria muito de um roteiro melhor amarrado, que conseguisse aproveitar mais o potencial de algumas de suas ideias. Mas o universo com o qual Tim Burton trabalha aqui ainda se mostra capaz de render uma boa diversão.


Nota:



sábado, 30 de março de 2024

Godzilla e Kong: O Novo Império

Com exceção do ótimo Kong: Ilha da Caveira, acho a franquia MonsterVerse construída com King Kong e Godzilla bem irregular, desperdiçando o potencial dos dois titãs (como são chamados aqui) em uma tentativa frustrada de universo compartilhado. Dez anos depois de essa ideia ter começado, chegamos a este Godzilla e Kong: O Novo Império, que pouco faz para melhorar a impressão da franquia.

Retomando a história anos depois de Godzilla vs. Kong, este O Novo Império mostra que a humanidade já aceitou que os dois gigantes fazem parte de sua realidade, com Kong levando sua vida na Terra Oca, enquanto Godzilla volta e meia aparece em diversas cidades, deixando rastros de destruição ao abater outros monstros ameaçadores. É quando um sinal desconhecido passa a causar certo distúrbio entre os dois titãs, algo que é captado pela equipe da Dra. Ilene Andrews (Rebecca Hall), que se junta ao podcaster Bernie (Brian Tyree Henry) e ao veterinário Trapper (Dan Stevens) para descobrir o que está ocorrendo.



Comparado a Godzilla vs. Kong, o novo filme parece tentar consertar um problema comum na franquia, diminuindo bastante o número de personagens humanos com alguma importância na trama. A tentativa é louvável, mas a execução ainda deixa a desejar porque mesmo os poucos humanos que aparecem conseguem tornar a narrativa incrivelmente aborrecida. Não só são figuras unidimensionais cujas ações não tem nada de interessante, mas também parecem servir mais para largar para o espectador os vários diálogos expositivos do roteiro. E em papeis como esses, não há nada que intérpretes carismáticos como Rebecca Hall, Brian Tyree Henry e Dan Stevens possam fazer para salvar alguma coisa.


Além disso, o roteiro procura estabelecer um pouco mais a mitologia por trás de seu universo de monstros gigantes e projetos secretos do governo, mas aposta em um desenrolar que não deixa de ser conveniente demais. Não há aqui nenhuma sutileza na apresentação de ideias, tamanha pressa que o filme tem para fazer as coisas. É algo que pontualmente até prejudica um pouco o diretor Adam Wingard (retornando após Godzilla vs. Kong), que tenta criar momentos que até soam épicos em suas ideias, mas acabam não tendo muito apelo quando executados, como por exemplo a cena envolvendo uma espécie de luva mecânica. 


Aliás, espero que Wingard retorne em breve a thrillers de baixo orçamento como Você é o Próximo e O Hóspede, já que seu trabalho nessa superprodução carece de criatividade. As cenas de ação envolvendo Kong e Godzilla até são bem conduzidas no sentido de não deixarem o espectador confuso em relação ao que ocorre na tela, mas ao mesmo tempo não trazem nada de muito memorável fora a presença de seus monstros. De qualquer forma, é preciso dizer que Kong e Godzilla exibem mais personalidade do que os humanos com os quais precisam dividir o filme, e se há algum tipo de envolvimento emocional do espectador com a narrativa isso se deve aos dois icônicos personagens, o que faz eu pensar que se o filme fosse composto apenas pelas cenas da dupla talvez tivéssemos aqui um média-metragem relativamente eficaz.

Mas Godzilla e Kong: O Novo Império infelizmente é um trabalho meia-boca. E para azar do filme, ele ainda empalidece quando pensamos que ele está sendo lançado pouco tempo depois de Godzilla Minus One, que com um orçamento muito mais modesto rendeu uma obra infinitamente mais memorável.

Nota:



quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sobreviventes: Depois do Terremoto

Candidato da Coreia do Sul para tentar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar deste ano, Sobreviventes: Depois do Terremoto se diferencia do que poderíamos esperar de um filme-catástrofe ao evitar trazer seus personagens em constantes cenas de ação nas quais eles lutam para sobreviver a uma catástrofe natural, preferindo ao invés disso focar mais nas consequências do desastre e fazendo comentários sócio-políticos em meio ao contexto que apresenta. Escrito pelo diretor Um Tae-hwa em parceria com Lee Shin-ji, o filme tem início mostrando a grande valorização que as pessoas dão ao fato de terem onde morar, apenas para logo em seguida um absurdo terremoto mandar tudo pelos ares. Ou melhor, quase tudo, já que um condomínio conseguiu se manter intacto no meio de toda a destruição. E a partir daí passamos a acompanhar moradores do edifício, como o casal Kim Min-seong e Joo Myeong-hwa (vividos por Park Seo-joon e Park Bo-young, respectivamente), precisando se adaptar a uma nova forma de viver enquanto pessoas de fora que perderam tudo são tratadas como forasteiras, principalmente depois que Kim Yeoung-tak (Lee Byung-hung) é eleito líder do condomínio, iniciando uma espécie de utopia por ali.


O filme procura fazer comentários e críticas sociais que são bastante pertinentes, mas o roteiro não deixa de soar um tanto básico ao abordar essas questões, de maneira que durante boa parte do filme tive a impressão de estar assistindo a algo que poderia se chamar “Sociologia Para Leigos”. Há conflitos que acabam sendo bastante previsíveis devido ao elitismo que passa a mover personagens como Kim Yeoung-tak, ao passo que muitas vezes o filme procura mostrar como o egoísmo e a hipocrisia dos moradores são fontes dos problemas que eles enfrentam. Isso é apontado sem nenhuma sutileza por Um Tae-hwa, como quando Kim Min-seong reclama que as pessoas não são mais solidárias enquanto ele próprio se esconde para consumir uma lata de pêssego para não precisar dividir, ou quando os chamados forasteiros são expulsos do condomínio e a câmera foca uma placa religiosa de “Amai-vos uns aos outros”. São detalhes que dão a impressão de que o diretor não confia muito na inteligência do espectador, martelando o máximo que pode suas mensagens a fim de deixar tudo demasiadamente esclarecido.


No entanto, se Sobreviventes não capricha muito nesses quesitos, ele ao menos funciona bem como thriller, com Um Tae-hwa utilizando o que sabemos sobre os personagens e a desumanização que assola aquela comunidade para criar momentos de tensão muito eficientes. E nisso é preciso destacar também a atuação de Lee Byung-hung, que faz do líder Kim Yeoung-tak uma figura cuja presença se torna gradativamente ameaçadora, se contrapondo a delicadeza com a qual Park Bo-young interpreta Joo Myeong-hwa, que se mostra a personagem mais empática da história e que, por isso, funciona como a bússola moral do filme.

Apesar de não ser tão interessante quanto sua ambição e suas ideias, Sobreviventes ainda se revela uma obra eficaz, conseguindo envolver o espectador na situação de seus personagens e merecendo alguns créditos também por conseguir fugir um pouco do lugar-comum dos filmes-catástrofe, considerando que o gênero em si já é bastante engessado por fórmulas narrativas.


Nota:


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Retratos Fantasmas

Astor, Central, Imperial, Guarany, São João, Vogue, Cacique, Ritz, Rosário, Presidente...

Esses são nomes de alguns dos cinemas de rua que por décadas marcaram presença no cenário de Porto Alegre, mas que com o passar do tempo e a chegada de negócios que se tornaram mais populares (como os cinemas de shopping) acabaram perdendo espaço na cidade. Se formos ver hoje os lugares onde estes cinemas estavam, talvez nem consigamos ver sinais de que eles existiram, já que muitos deram lugar a coisas que nada tem a ver com exibições cinematográficas. Tais sinais talvez só sejam encontrados em velhas fotografias e nas memórias de quem os frequentava (anos atrás, por exemplo, escrevi brevemente sobre uma experiência que meu pai teve no São João). Apesar de eu nunca ter frequentado esses cinemas, tendo nascido logo quando os cinemas de shopping já haviam se estabelecido, foi inevitável lembrar deles ao longo da sessão de Retratos Fantasmas, documentário de Kleber Mendonça Filho.

Em Retratos Fantasmas, o diretor faz um verdadeiro resgate histórico dos cinemas de rua de Recife, relembrando a popularidade que tinham ao mesmo tempo em que ele faz uma conexão entre esses espaços e sua própria vida e formação cinematográfica. A partir daí, Kleber Mendonça Filho realiza um filme que fala muito sobre como nós temos a capacidade de nos conectarmos a determinados espaços (sejam eles cinemas ou simplesmente as nossas casas) e como, dessa forma, tais espaços acabam ajudando a formar os seres humanos que somos. É algo que o diretor ilustra através de histórias sobre os cinemas (aliás, as imagens de arquivo que ele traz são um primor) e falando até sobre a evolução de sua própria casa, exibindo cenas de curtas que ele dirigiu na residência. Mas essas experiências que ele relata soam tão cotidianas que acaba sendo difícil para o espectador não relacionar com suas próprias experiências de vida e espaços que frequentou. Sendo assim, Kleber Mendonça Filho merece créditos por conseguir tornar universal um projeto que poderia soar puramente pessoal.

Mas, como bem sabemos, são poucos os cinemas de rua que ainda estão firmes no Brasil, de maneira que o destino daqueles de Recife não é muito diferente daqueles de Porto Alegre (e arrisco dizer que isso vale para o país todo). Tendo isso em mente, Kleber Mendonça Filho não deixa de trazer para o centro de sua narrativa uma discussão sobre preservação da memória, focando muito no nosso descaso, já que não é incomum a sociedade escantear ou até abrir mão de determinados lugares mesmo que eles tenham uma importância inegável, fazendo eles se tornarem fantasmas nas áreas em que se situavam. E o diretor pode até iniciar a discussão em um ponto (no caso, os cinemas), mas podemos facilmente incluir outros espaços na conversa, como parques, bibliotecas, teatros e universidades, o que contribui ainda mais com a universalidade da narrativa que ele concebe.

Retratos Fantasmas é nada menos que brilhante. Um filme que serve tanto como um documento histórico quanto como uma celebração da memória e do cinema como espaço de imaginação. Até por isso é ideal que Kleber Mendonça Filho encerre o filme com uma sequência divertidíssima que, situada dentro de um carro, ilustra muito bem o tipo de criatividade que apenas o cinema (como arte ou como espaço físico) pode nos proporcionar em toda sua potencialidade.

Nota:



terça-feira, 5 de setembro de 2023

A Chamada

Recentemente resolvi assistir a Legado Explosivo, um dos vários filmes de ação que Liam Neeson estrelou nos últimos anos. Não darei spoilers, ainda que o longa não seja daqueles que precise ser preservado, mas em determinado momento na história um personagem se vê preso dentro de seu carro, já que há uma bomba embaixo do banco que será acionada caso ele se levante para sair dali. Coincidência ou não, este novo filme protagonizado por Neeson, A Chamada, basicamente não deixa de ser uma versão estendida dessa cena.

Refilmagem do filme espanhol El Desconocido (que não assisti), A Chamada traz Neeson no papel de Matt Turner, um executivo de banco morando na Alemanha e (no modo mais clichê) dá atenção excessiva ao trabalho, relegando sua família. Um dia ele está em seu carro levando seus filhos, Zach e Emily (Jack Champion e Lilly Aspel, respectivamente), para a escola. O que ele não esperava era que durante o trajeto ele receberia uma ligação avisando que há uma bomba no carro, que explodirá caso ele ou seus filhos saiam do veículo e não façam tudo o vilão lhes mandar fazer.

Apesar de o conceito por trás do filme não ser nada novo, lembrando produções como Velocidade Máxima, é preciso dizer que ele é simples o bastante para poder render algo eficaz. Aliás, o próprio Liam Neeson protagonizou Sem Escalas, um longa que não é grande coisa, mas ainda funciona ao colocar o ator em um avião e precisando obedecer ao vilão a fim de salvar os passageiros. Mas A Chamada desde o princípio se mostra distante de conseguir entreter o espectador, conseguindo falhar até mesmo no que deveria ser básico em uma produção como essa: fazer o público se importar com os personagens, que se revelam medíocres. Matt Turner, para começo de conversa, é um marido e pai ausente que faz seu banco ganhar dinheiro mesmo que isso signifique fazer seus clientes perderem fortunas (em determinado momento ele é até descrito como “um orgulho para o capitalismo”). Já seus filhos nos fazem revirar os olhos com suas rebeldias adolescentes e bobas, como ao não gostarem que desliguem seus celulares, sendo que Zach ainda chama o pai pelo nome (um dos clichês que, ao menos para mim, automaticamente estabelece um personagem como uma criatura irritante). E é claro que o arco narrativo ao longo do filme é fazer os personagens mudarem diante da situação de risco em que se encontram, mas a verdade é que além de essa ideia ser tediosamente óbvia, os sinais de evolução dessas figuras são superficiais no máximo, e nem um ator talentoso como Liam Neeson consegue salvar.

Sendo assim, ao invés de torcermos para que os personagens sobrevivam, o único desejo que surge durante a projeção é que o carro exploda de uma vez e encurte a história. Possivelmente isso faria até com que não precisássemos ser guiados pela direção de Nimród Antal, que é burocrática no melhor dos casos, não conseguindo criar tensão em momento algum, nem criar sequências de ação minimamente envolventes (as perseguições com o carro chegam a ser risíveis). Aliás, permitam-me dizer que torcer para a bomba explodir não necessariamente significa torcer pelo vilão, já que até mesmo ele se mostra uma figura estúpida, algo que piora quando vemos o roteiro tentar fazer o personagem parecer muito inteligente, fazendo-o gritar que “pensou em tudo” e “está muitos passos a frente dos outros” mesmo que, na verdade, seu plano seja pavorosamente ruim.

Se Liam Neeson não fosse o protagonista, creio que A Chamada seria um daqueles filmes que nem são exibidos nos cinemas, sendo jogados direto na obscuridade do mercado de video-on-demand. Trata-se de uma experiência sem a menor graça, com reviravoltas previsíveis que fazem jus a pobreza criativa que vemos durante toda a narrativa.

Nota:



quarta-feira, 30 de agosto de 2023

As Tartarugas Ninja: Caos Mutante

Dentre todos os filmes produzidos sobre as Tartarugas Ninja, sejam eles longas em live-action ou animações, a palavra “adolescentes” que os personagens exibem em seu título original (“Teenage” Mutant Ninja Turtles) raramente tinha algum sentido na tela. Não que isso fosse um problema grave naquelas produções, que tinham suas próprias propostas narrativas, mas é um aspecto com o qual o diretor Jeff Rowe (que codirigiu o ótimo A Família Mitchell Contra as Máquinas) e os produtores (dentre eles a dupla Seth Rogen e Evan Goldberg) claramente se preocuparam mais na hora de realizar um novo filme focado na equipe. E o resultado é este As Tartarugas Ninja: Caos Mutante.

O roteiro parte da premissa que já conhecemos: Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello são tartarugas que moram com seu pai e mentor, o rato Splinter, nos esgotos de Nova York depois de terem tido contato com uma gosma mutagênica, vivendo escondidos da sociedade. Mas o quarteto sonha em ser aceito pelos humanos. Para isso, com a ajuda da jovem aspirante a jornalista April O’Neil, eles resolvem utilizar suas habilidades em artes marciais para tentar capturar uma gangue que está aterrorizando a cidade. Eles são pegos de surpresa, porém, quando os bandidos revelam ser animais mutantes como eles, liderados pela figura do Super-Mosca.

É interessante notar como a adolescência das tartarugas surge não tanto pela faixa etária em que elas estão e pela dinâmica que exibem umas com as outras, mas sim pelo que aspiram viver. Com o obscurantismo guiando e limitando suas rotinas, o roteiro desenvolve com naturalidade o fato de eles desejarem ser adolescentes normais que vão à escola, estudam, têm amigos e vivem as experiências comuns dessa fase. Dessa forma, o filme até dialoga com produções como aquelas dirigidas por John Hughes nos anos 1980 (Curtindo a Vida Adoidado até aparece em uma sessão de cinema), trazendo em seu centro personagens que querem viver sua adolescência por saberem a importância dela para sua formação humana, o que é uma grata surpresa considerando que estamos falando de tartarugas que sabem artes marciais, um conceito com o qual o filme poderia se dar por satisfeito.


Já visualmente As Tartarugas Ninja: Caos Mutante é encantador, com Jeff Rowe e sua equipe concebendo o design dos cenários e dos personagens em um formato 2D que lembra páginas de histórias em quadrinhos, o que reverencia o próprio material de origem do filme, além de mostrar que longas como Homem-Aranha no Aranhaverso talvez já estejam fazendo escola. E o filme ainda abraça com gosto certos absurdos. Talvez pudéssemos questionar de onde Donatello tirou seus óculos ou como Michelangelo colocou aparelho nos dentes, mas esses detalhes não são nada quando vemos que o filme já parte da premissa de um rato que ensina tartarugas a lutar, de forma que quaisquer outros absurdos servem até para pincelar a liberdade criativa de Jeff Rowe ao dar vida aos personagens. Além disso, as cenas de ação ganham a tela de maneira ágil, merecendo destaque a sequência em que acompanhamos intercaladamente cada um dos protagonistas ir atrás de chefões do crime, um momento que brilha pela continuidade visual que mantém entre cenas.

Ainda que o roteiro com alguma frequência se revele expositivo e trate de maneira repetitiva a questão do preconceito enfrentado pelos personagens, não fugindo muito do lugar-comum, As Tartarugas Ninja: Caos Mutante mostra ser um longa digno dos personagens divertidos que retrata, algo que eles estavam precisando tendo em vista que as últimas empreitadas deles nos cinemas não haviam sido muito interessantes.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.


Nota:

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte Um

Relendo críticas que escrevi anos atrás sobre filmes de Missão Impossível, uma coisa que sempre aponto é a minha surpresa de ver como a consistência da série segue firme mesmo depois de tantos anos. É uma franquia admirável na qual Tom Cruise e sua equipe parecem sempre determinados a tentar fazer um capítulo superar o outro. E em meio a esses esforços, o longa mais recente, Efeito Fallout, se mostrou uma obra-prima difícil de ser superada dentro da franquia, mas isso não impede Cruise de tentar. E o resultado é essa primeira parte de Missão Impossível: Acerto de Contas, que não chega a igualar o capítulo anterior, mas ainda assim é uma obra que impressiona em vários momentos.

Escrito por Erik Jendrensen e pelo diretor Christopher McQuarrie, Acerto de Contas – Parte Um coloca Ethan Hunt (Cruise) precisando recuperar as duas metades de uma chave. Mas claro que isso não é tão fácil quanto parece, já que o objeto dá acesso a uma inteligência artificial chamada de A Entidade, que atrai o interesse de muitas pessoas e cujo poder pode colocar em risco o mundo inteiro (detalhe que o roteiro aponta frequentemente, naquele que talvez seja seu maior problema). Tendo esse perigo em mente, Hunt decide se rebelar novamente contra a IMF a fim de tentar destruir A Entidade, o que o coloca no caminho de Gabriel (Esai Morales), um antigo e misterioso colega que tem interesse em controlar a inteligência artificial. No processo, Hunt ainda bate de frente com Grace (Hayley Atwell), uma ladra que mal sabe onde está se metendo. E claro que a única ajuda que o sujeito tem para realizar a missão é a de seus fiéis aliados Luther Stickel (Ving Rhames), Benji Dunn (Simon Pegg) e Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).


É uma história típica de Missão Impossível, com vários elementos que são de praxe na franquia e que podem apontar que ela talvez não funcione de outra forma, precisando sempre colocar o protagonista e sua equipe na posição de renegados que devem realizar uma missão que sempre parece próxima de dar errado (e que envolve um objeto que pode ser perigoso se cair nas mãos erradas). É tão comum que até os personagens já reconhecem como todas essas coisas parecem ser parte integral de suas rotinas. Mas é preciso dizer que, apesar da fórmula ser facilmente reconhecível, Christopher McQuarrie (o diretor mais longevo na franquia, o que faz eu pensar que Tom Cruise encontrou um cineasta tão maluco quanto ele) consegue fazer com que tudo tenha algum frescor e que o espectador fique na ponta da cadeira, seja pela tensão ou pela mera curiosidade de ver se os personagens conseguirão fazer o que planejam.

Muito disso se deve ainda a ameaça escolhida para essa missão. E não me refiro a personagens humanos, apesar de estes também renderem uma bela dor de cabeça para o protagonista, mas sim à A Entidade. Além de mostrar um timing preciso por parte dos realizadores (considerando as várias discussões que têm surgido ultimamente quanto ao uso desse tipo de tecnologia), a inteligência artificial enfrentada por Hunt e sua equipe dá início a um jogo de gato e rato que tem um bom grau de imprevisibilidade, já que o algoritmo da Entidade sempre parece estar muitos passos à frente do protagonista, consequentemente aumentando os riscos da missão e a tensão provocada pela narrativa. Como se não bastasse, a presença do ótimo Esai Morales como Gabriel, o principal vilão humano da história, funciona muito por conta de ele ser o mais próximo de uma representação da Entidade, ficando sempre por dentro do que é calculado pelo algoritmo e soando mais perigoso por conta disso.

Mas talvez as ameaças não fossem tão eficazes caso não nos importássemos com os personagens, o que sempre ocorreu na franquia e em Acerto de Contas – Parte Um não é diferente. Aliás, uma das coisas mais perceptíveis ao longo da série Missão Impossível é como Ethan Hunt cria laços cada vez mais fortes com sua equipe, a ponto de a partir do quinto filme ele poder dizer que tem um grupo de amigos com os quais se importa (e vice-versa). E a base emocional da narrativa desse sétimo exemplar reside principalmente na dinâmica que ele constrói com os talentosos Simon Pegg, Ving Rhames e Rebecca Ferguson, cujos ótimos personagens frequentemente são usados para ressaltar a humanidade do protagonista e manter os pés dele no chão enquanto tenta salvar o mundo.

Todos esses elementos ajudam a fazer com que a narrativa envolva o espectador enquanto as sequências de ação são costuradas umas nas outras pela trama, sequências estas que mais uma vez são conduzidas com competência por Christopher McQuarrie, que vem mostrando ser um diretor de ação muito confiável (vide não só Missão Impossível, mas também o primeiro Jack Reacher). McQuarrie concebe sequências cuja escala vai aumentando gradualmente durante o filme, formando uma estrutura em que o ritmo da narrativa segue uma crescente até chegar em seu ápice no terceiro ato, quando o diretor e Tom Cruise decidem deixar a sanidade de lado. Esse ritmo também merece ser creditado a ótima montagem de Eddie Hamilton, que ainda faz um trabalho notável em momentos em que precisa intercalar ações que ocorrem ao mesmo tempo, o que contribui com a tensão do filme, como pode ser visto por exemplo na sequência situada no aeroporto de Abu Dhabi.

Se juntando a Homem-Aranha Através do Aranhaverso no grupo de filmes de 2023 que se apresentam como a primeira parte de uma história, mas que sabe encerrar seu arco narrativo concluindo os pontos que precisa e criando uma curiosidade natural quanto a vindoura continuação, Missão Impossível: Acerto de Contas – Parte Um mantém o alto nível de uma franquia que parece não cansar de empolgar o público.

Nota: