Mostrando postagens com marcador Séries. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Séries. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Muito Obrigado, Ted Lasso!

(O texto a seguir não contém spoilers)

Não é exatamente comum eu me sentir em dívida com algum filme ou série de TV. Mas me sinto em dívida com Ted Lasso. Ao longo dos últimos três anos, em nenhum momento eu sentei em frente ao computador para escrever um texto sobre essa série, que acompanhei de maneira fiel desde seu lançamento. Mas tendo a série chegado ao fim nessa semana, creio ser apropriado usar o momento para cobrir essa dívida.

Ted Lasso começou como uma série engraçada sobre um técnico de futebol americano que praticamente cai de paraquedas no AFC Richmond, um clube fictício da Premier League (como é conhecida a primeira divisão do campeonato inglês). E seguiu sempre divertindo dentro dessa ideia. Mas creio que fui pego de surpresa com o quanto a série se revelou profundamente encantadora.

Com uma visão de mundo que mistura um pouco de otimismo, ingenuidade, humildade e doçura, o personagem-título (interpretado por Jason Sudeikis, que certamente encontrou aqui um papel que definirá sua carreira) facilmente conquista as pessoas ao seu redor e o espectador, sendo que tal visão de mundo não deixa de estabelecer os principais pontos da série em si. E a partir desses pontos, vemos a história e sua gama de personagens serem preenchidos de humanidade. Consequentemente, cada episódio no universo de Ted Lasso se revelou uma dose saborosa de chocolate quente, capaz de aquecer o coração e nos ajudar a escapar por alguns minutos dos nossos próprios problemas.

Até por conta disso a série não deixa de parecer uma utopia, algo que eu poderia ter concluído mais cedo, mas só fui refletir sobre isso nessa terceira e última temporada. E creio que esse é outro motivo para ela ter se mostrado tão agradável. Digo “utopia” não tanto pelo otimismo da série e de seu protagonista, mas porque na vida real falar de saúde mental ainda é um tabu. Digo “utopia” porque, olhando notícias recentes, o mundo do futebol pouco faz para combater coisas como racismo e homofobia. “Utopia” porque é comum vermos clubes serem patrocinados por marcas ou pessoas que violam direitos humanos. “Utopia” porque a série tocou em elementos como esses como se colocasse o dedo nas feridas, fazendo seus personagens refletirem e darem respostas sensatas sobre tais assuntos como raramente (para não dizer nunca) vemos na vida real, o que meio que fez o AFC Richmond ser um clube que eu gostaria que realmente existisse.

Essa última temporada de Ted Lasso certamente deixou a desejar em comparação com as anteriores (principalmente a segunda temporada). Tropeçou em subtramas e personagens não tão interessantes e mais de uma vez recorreu a resoluções fáceis. Mas apesar de não terminar numa nota tão alta, seu fim ainda foi digno, e os sentimentos doces que ela gerou ao longo das três temporadas são infinitamente mais fortes do que qualquer dose amarga que tenha surgido no caminho.

E por gerar esses bons sentimentos, digo apenas... Muito obrigado, Ted Lasso. Sentirei sua falta.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Séries: Staged

Os tempos têm sido difíceis. Como todos sabem, o mundo enfrenta a maior pandemia dos últimos cem anos, milhares de pessoas têm morrido todos os dias (fora os milhões que sofrem por essas perdas) e quem tem o mínimo de responsabilidade e empatia procura, dentro de suas possibilidades, ficar em casa para não contribuir para a proliferação do novo coronavírus. Com isso, muitas coisas acabaram precisando parar, o que inclui filmagens de séries de TV. Mas há quem consiga driblar as limitações do isolamento social a fim de se manterem produtivos, divertindo outras pessoas no processo. O diretor-roteirista Simon Evans e os atores David Tennant e Michael Sheen fazem parte desse grupo, tendo aproveitado o fato de estarem cada um em suas casas para produzir Staged, minissérie de seis episódios exibida pelo canal britânico BBC.

Staged traz Sheen e Tennant interpretando versões ficcionais de si mesmos em meio ao período de isolamento causado pela pandemia do coronavírus. Antes disso, porém, eles haviam combinado com Simon Evans de levar aos palcos a peça “Seis Personagens à Procura de um Autor”, do italiano Luigi Pirandello. Mas ainda que a produção tenha tido que ser adiada por conta da pandemia, o trio resolve ensaiar tudo através de chamadas de vídeo, o que não ocorre como planejado (para a nossa diversão).


Usando a tecnologia das chamadas de vídeo para formar quase toda a narrativa, a série usa a peça de Luigi Pirandello apenas como uma desculpa para colocar seus atores em movimento, já que no fim ela acaba pouco importando. A ideia de Simon Evans (que escreveu e dirigiu todos os episódios) é mostrar seus protagonistas entrando em conflito constantemente enquanto lidam com o tédio e a falta de foco, coisas que grande parte das pessoas tem enfrentado nesse período de isolamento.

Tendo isso em vista, o fato de David Tennant e Michael Sheen serem amigos (vale lembrar que eles estrelam a série Good Omens, da Amazon Prime Vídeo) acaba sendo vital para o sucesso de Staged. É uma relação que traz muita espontaneidade para cada cena, além de abrir espaço para que eles possam implicar um com o outro sempre de maneira divertida, com eles encontrando piadas em detalhes que podem soar pífios para o público, mas que são de suma importância para ambos e, por isso, naturalmente engraçados. Aliás, os atores claramente se divertem criando versões caricaturais de si próprios. Se Sheen surge como um ator um pouco mais sério e que precisa ter seu ego alimentado, Tennant é a parte excêntrica da dupla, características que se opõem, mas geram uma ótima química e um hilário choque de personalidades. Isso vale não só para a dinâmica entre eles, mas também quando envolve suas esposas, Anna Lundberg e Georgia Moffett, e o próprio diretor Simon Evans, que arranca sua parcela de risadas do espectador ao agir como um realizador inexperiente e de competência bastante limitada.

Contando ainda com participações mais do que especiais de atores de renome, cujo talento só agrega para a diversão proporcionada pela narrativa (não revelarei quem eles são para não estragar possíveis surpresas), Staged é um verdadeiro deleite para o espectador. Com cada um dos seis episódios durando cerca de quinze minutos, é uma minissérie que serve como uma distração breve, mas muito prazerosa em meio aos tempos que vivemos.


domingo, 20 de agosto de 2017

Séries: Os Defensores

A calma que a Marvel tem para desenvolver seus projetos não deixa de ser admirável, expandindo gradualmente seu universo e apresentando cada um de seus principais personagens antes de coloca-los em uma única superprodução. Tem sido assim no cinema com Os Vingadores, algo que tem funcionado bem e é repetido com Os Defensores, que surge como o resultado de todas as produções que o estúdio fez em parceria com a Netflix, colocando Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro lado a lado em uma grande batalha. Isso rende uma série até divertida, mas que também exibe uma irregularidade que a impede de deixar grandes marcas no espectador ao final de seus oito episódios.

Desenvolvida por Marco Ramirez e Douglas Petrie (responsáveis pela segunda temporada de Demolidor), Os Defensores segue seus heróis exatamente a partir do ponto em que cada um estava ao final de suas respectivas séries. Matt Murdock (Charlie Cox) se esforça para largar a vida de Demolidor e ter uma rotina normal, enquanto Jessica Jones (Krysten Ritter) retorna aos poucos a suas investigações após seu embate com Kilgrave, exibindo sua costumeira antissociabilidade. Já Luke Cage (Mike Coulter) tenta retomar sua vida após seu aprisionamento, ao passo que Danny Rand (Finn Jones) continua sua luta contra o Tentáculo com a ajuda de Colleen Wing (Jessica Henwick). Mas quando este mesmo Tentáculo entra no foco de todos eles, a solução é juntar forças contra a líder da organização, Alexandra (Sigourney Weaver), cujo plano promete colocar Nova York e seus habitantes em risco e conta ainda com o envolvimento de sua nova pupila, Elektra (Elodie Yung).


Não deixa de ser uma trama repetitiva dentro dessas séries da Marvel com a Netflix, considerando que o Tentáculo já deu as caras quase da mesma forma na segunda temporada de Demolidor e na primeira de Punho de Ferro. E ainda que tenhamos a ótima presença de Sigourney Weaver no papel de Alexandra (a atriz impõe a superioridade da vilã quase sem se esforçar), a ameaça representada pela organização não é particularmente instigante, justificando a reunião dos heróis mais por conta do tamanho de seus planos. Aliás, no que diz respeito à maneira como os protagonistas se juntam, o início da série se revela bem conveniente. Mesmo que os roteiros busquem fazer com que o encontro deles não aconteça repentinamente (são necessários três episódios para chegar nesse ponto), a primeira vez que eles aparecem juntos ainda ocorre mais pela coincidência de todos estarem perseguindo as mesmas coisas ao mesmo tempo. Para completar, há questões no desenvolvimento da história capazes de tirar o espectador do sério, desde clichês como um personagem que abandona a equipe e retorna num momento propício até algumas reviravoltas anticlimáticas na reta final da temporada.


De qualquer forma, a união dos heróis (que é o grande atrativo do projeto) faz a série valer a pena. Exibindo durante boa parte do tempo uma desconfiança natural de figuras que mal se conhecem, aos poucos os protagonistas aprendem a respeitar uns aos outros e a trabalhar em equipe, construindo uma dinâmica que melhora gradualmente. Os grandes momentos da série resultam exatamente desse aspecto, chegando ao ápice sempre que os personagens discutem questões pessoais, como na cena em que Luke e Danny debatem suas motivações ou na outra em que Jessica comenta sobre o passado de Matt. Além disso, se os episódios são tecnicamente trôpegos em alguns pontos (as transições de cena usando os metrôs de Nova York não são muito criativas e cansam rapidamente, enquanto que o esquema dos realizadores de enquadrar um personagem no canto da tela com o resto desfocado é visualmente pavoroso), ao menos as cenas de ação são bem coreografadas e aproveitam eficientemente as habilidades do quarteto, merecendo destaque especial a luta no escritório de Alexandra e a batalha no último episódio.

Tendo em vista toda a organização para que pudéssemos chegar a série naturalmente (o que começou há dois anos, lá na primeira temporada de Demolidor), Os Defensores deixa um gosto de que poderia ser melhor. Por sorte, as qualidades apresentadas pela produção conseguem sustentar a jornada ao lado deste novo grupo de heróis.


Confira as críticas das outras séries da Marvel/Netflix:

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Retorno de Twin Peaks


(Obs.: Texto referente aos dois primeiros episódios da nova temporada. Ao contrário das críticas habituais aqui do blog, ele contém alguns SPOILERS. Estão avisados.)

Quando séries de TV são canceladas precocemente, o sentimento de decepção é mais do que natural. Mas acho que é seguro dizer que poucas vezes a decepção foi tão grande quanto a proporcionada pelo cancelamento de Twin Peaks em 1991. Famosa por criar um dos maiores mistérios da TV americana (“Quem matou Laura Palmer?”), a série criada por David Lynch e Mark Frost apresentava um universo que fascinava com sua atipicidade, uma hora parecendo algo calcado na realidade apenas para depois passar a exibir toques oníricos, surreais e sobrenaturais, ao mesmo tempo em que nos colocava diante de uma galeria incomum de personagens, que nos guiavam por uma narrativa ambiciosa e inteligente, evitando caminhos fáceis. Seu ciclo na televisão se encerrou com um cliffhanger de deixar os cabelos em pé e que nunca viu uma resolução, o que não poderia ser mais frustrante em se tratando de uma produção como essa, que influenciou várias outras obras televisivas desde então.

Por tudo isso, é difícil não abrir um sorriso ao ver a série receber uma nova chance para explorar seu material e, no processo, instigar o espectador com o que mostra na tela, o que finalmente ocorre nesta nova temporada produzida pelo canal Showtime e cuja exibição no Brasil ficou a cargo da Netflix. E é ainda melhor que isso acontece mantendo o espírito original da série.

Mesmo que já faça 25 anos desde que o universo de Twin Peaks foi visitado pela última vez (o cancelamento foi em 1991, mas David Lynch lançou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer em 1992) e o público provavelmente esteja com saudades de tudo que a série proporcionou, esse retorno não começa querendo acatar desejos nostálgicos de revisitar logo de cara tudo o que conhecemos anteriormente. Sim, reencontramos alguns personagens e voltamos a locais famosos como a delegacia e o Great Northern Hotel, mas ainda são poucas coisas perto de tudo que já faz parte da mitologia da produção. Ao invés de se focar nisso, Lynch prefere já enfiar o pé na porta e apresentar gradualmente peças novas e antigas que devem mover a trama da vez (novamente aviso: se não quiser saber detalhes dessa nova temporada, retorne a este texto após assistir aos dois episódios), mostrando que o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) passou todos esses anos preso na Black Lodge, onde ficou ao final da 2ª temporada. Enquanto isso, seu doppelgänger (ou réplica) do mal faz serviços sujos com pessoas igualmente mal encaradas, ao passo que uma estranha caixa de vidro é vigiada em Nova York e a polícia de South Dakota começa a investigar o assassinato brutal de uma bibliotecária.


David Lynch e Mark Frost podem até reabrir as portas para aquele mesmo universo que criaram, mas nunca este se mostrou tão estranho, o que se deve principalmente à atmosfera imposta por Lynch nos episódios (toda a temporada foi comandada por ele, diga-se de passagem). O que encontramos aqui é um mundo que se aproxima bastante de um pesadelo, até lembrando Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, os últimos longas que Lynch dirigiu. Sendo assim, os dois episódios iniciais dessa temporada se revelam inquietantes e passam uma constante sensação de desconforto, que cresce em determinados momentos graças ao talento do diretor para criar imagens assustadoras, como o ataque sofrido por um casal, o espírito visto em uma cela de prisão ou o corpo da bibliotecária sendo encontrado pela polícia. E se as imagens em si já deixam o público com os olhos arregalados, a excelente trilha de Angelo Badalamenti trata de ressaltar a tensão ainda mais. Não que o humor da série esteja ausente, pois retorna pontualmente com suas excentricidades e provando que ainda é capaz de divertir, como quando Lucy (Kimmy Robertson) recepciona um agente de seguros ou as cenas com a vizinha da bibliotecária, ainda que esta acabe esticando momentos que poderiam ser mais objetivos. Mas ao menos nesse início trata-se de um detalhe que fica um pouco de lado diante dos outros elementos.

Apresentando questões que são capazes de deixar o público zonzo de tão perdido enquanto se pergunta o que diabos está acontecendo, algo que provavelmente renderá discussões e teorias até a chegada do novo episódio na semana seguinte (o que é a caixa de vidro? E as pistas mencionadas pelo Gigante? Como Dale escapará da Black Lodge? Que viagem foi aquela do personagem pela caixa?), esse início de Twin Peaks aponta que a nova jornada não será um quebra-cabeça de fácil resolução. Mas o que ela traz por enquanto já nos deixa intrigados pelo que vem por aí. Basicamente, a série voltou sendo aquilo que costumava ser. E se a placa na entrada da cidade-título nos dá boas-vindas àquele universo, não custa nada devolver a gentileza: Bem-vinda de volta, Twin Peaks!

domingo, 19 de março de 2017

Séries: Punho de Ferro

Apesar de terem fragilidades (principalmente quando falamos da segunda temporada de Demolidor e da primeira de Luke Cage), as séries da Marvel lançadas pela Netflix tem se revelado bem satisfatórias, criando um universo diferente do que se vê nos filmes e envolvendo o público com seus personagens e sua densidade. Isso, porém, sofre uma escorregada em Punho de Ferro, a mais nova série do estúdio e que apresenta o último herói que integrará Os Defensores, minissérie que reunirá os protagonistas da Marvel/Netflix da mesma forma que os filmes dos Vingadores fazem no cinema. Aqui infelizmente temos uma produção repleta de problemas (alguns deles até comuns nessas séries) e que não traz elementos interessantes o suficiente para compensar isso.

Desenvolvida por Scott Buck, cujos trabalhos anteriores como showrunner foram as péssimas temporadas finais de Dexter, Punho de Ferro nos apresenta a Danny Rand (Finn Jones), rapaz que retorna a Nova York quinze anos depois de ser dado como morto em um acidente aéreo que matou seus pais. Nesse período, ele foi criado por monges na mística cidade de K’un-Lun, tonando-se um mestre nas artes marciais e detentor do poder do Punho de Ferro, que o possibilita canalizar energia em um de seus punhos. Mas o retorno para casa não se revela tão tranquilo, com Danny precisando provar sua identidade a fim de retomar o que puder de sua vida e da antiga empresa de seu pai, agora liderada por seus velhos amigos Joy e Ward Meachum (Jessica Stroup e Tom Pelphrey), além de se ver tendo que enfrentar a ameaça do Tentáculo, organização que já deu dor de cabeça para o Demolidor.


Ainda que a temporada se resuma a esses pontos, ela leva um bom tempo para definir o caminho que quer seguir. Não, isso não se deve por conta de uma calma na hora de desenvolver a trama, mas sim porque os roteiros dos episódios em vários momentos parecem andar em círculos, enrolando as coisas por aparentemente não ter outra forma de preencher as treze horas da temporada. Como resultado, a série não consegue ter uma história consistente, exibindo também um ritmo muito irregular que dificulta o envolvimento do espectador. É algo que piora por os episódios ainda preferirem perder tempo com cenas totalmente descartáveis ou que pouco acrescentam à narrativa, como quando o herói e sua nova aliada, a professora de artes marciais Colleen Wing (Jessica Henswick), fazem uma espécie de disputa de habilidades ou ao se concentrar em uma subtrama de lutas clandestinas. Enquanto isso, o passado de Danny em K’un-Lun, elemento importante para estabelecer o personagem, é condensado em flashbacks superficiais e, principalmente, longos diálogos expositivos, sendo que este último é um recurso que os roteiristas usam e abusam ao longo da temporada.

Mais triste que esses problemas é ver que a série não consegue empolgar nem ao partir para a ação, algo surpreendente tendo em vista as habilidades dos personagens com artes marciais e como isso já havia rendido ótimos momentos em Demolidor. Com exceção de um confronto numa espécie de Escola Xavier Para Superdotados (só que para pessoas comuns) na reta final da temporada, as sequências de luta são conduzidas de maneira burocrática e sem qualquer energia, além de não contarem com o peso dos confrontos vistos na série do Homem Sem Medo ou até em Jessica Jones e Luke Cage, ainda que nestas a ação ficasse um tanto limitada diante da superforça dos protagonistas. Aliás, ao longo dos episódios o poder de Danny Rand não é utilizado à exaustão, dando prioridade aos socos e pontapés, mas não deixa de ser decepcionante que os realizadores o acionem quase como um deus ex machina em boa parte do tempo, tirando obstáculos da frente do herói quando ele se encontra sem saída.


Mas talvez tudo isso fosse compensado se ao menos tivéssemos personagens cativantes que segurassem bem a narrativa, mas a verdade é que é difícil se importar com a maioria das figuras que aparecem na tela. Por mais que o roteiro estabeleça Danny Rand como um sujeito que luta pelo que é certo, no fim ele acaba tendo o azar de ter em Finn Jones um intérprete esforçado, mas pouco carismático. O mesmo pode ser dito sobre Jessica Henwick no papel de Colleen Wing, sendo que a relação dela com Danny por vezes é desenvolvida de maneira boba e óbvia. Já Jessica Stroup e Tom Perphley surgem aborrecidos como os irmãos Joy e Ward Meachum, protagonizando alguns dos momentos mais enfadonhos da série, ao passo que David Wenham até tenta fazer com que o pai deles, Harold Meachum, soe imprevisível e ameaçador, mas o roteiro não colabora muito para isso. Vale dizer, porém, que as participações de figuras que já conhecíamos das outras séries funcionam melhor, desde Rosario Dawson como Claire Temple até Carrie Ann-Moss como a advogada Jeri Hogarth, passando por Wai Ching Ho como Madame Gao, que se destaca por ser uma vilã que sempre parece estar vários passos a frente de seus adversários.

Punho de Ferro até usa seu protagonista para fazer comentários relevantes sobre a desumanidade das grandes corporações, questionando a importância que elas dão aos próprios interesses (especialmente dinheiro) sem dar a mínima para quem sairá prejudicado por isso. Mas são pontos rápidos e que não chegam a ser prioridade em meio a uma temporada mal organizada, que se estabelece como uma das produções mais fracas do universo Marvel até agora. O que vemos aqui serve mais para que tenhamos alguma noção de quem é Danny Rand antes de ele se juntar a outros heróis, e resta torcer para que esta reunião em Os Defensores tenha uma força criativa maior.

Confira as críticas das outras séries da Marvel/Netflix:

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Séries: Luke Cage

Introduzido no universo Marvel na ótima primeira temporada de Jessica Jones, Luke Cage rapidamente se estabeleceu como um personagem interessante, tendo sido bom ver que sua participação na série da anti-heroína interpretada por Krysten Ritter teve um destaque maior do que ser apenas uma mera apresentação ao público. Ganhando agora sua própria série, este novo herói tem a chance de ter seu potencial mais explorado, além de ser por si só um ponto para a representatividade, já que não é sempre que minorias aparecem protagonizando grandes produções como esta, que é a primeira empreitada do universo Marvel centrada em um personagem negro. O que se vê aqui é uma série eficiente, ainda que inferior a Demolidor e Jessica Jones no que diz respeito aos trabalhos da parceria Marvel/Netflix.

Desenvolvida por Cheo Hodari Coker (cujos créditos incluem Ray Donovan e a cinebiografia Notorious B.I.G.), essa primeira temporada de Luke Cage traz o indestrutível personagem-título (novamente interpretado por Mike Coulter) vivendo no Harlem, bairro famoso por ser um grande centro da comunidade negra em Nova York. Por ali, Luke tenta não chamar a atenção de ninguém, mantendo suas habilidades em segredo e se dividindo entre seus empregos na barbearia comandada pelo bondoso Pop (Frankie Faison em uma participação pequena, mas marcante) e na boate de Cornell “Boca de Algodão” Stokes (Mahershala Ali). Este último é um dos maiores mafiosos da região e primo da vereadora Mariah Dillard (Alfre Woodard), com quem tem uma parceria corrupta que ajuda a mantê-los em suas respectivas posições de poder, e ambos ganham ainda a ajuda de Shades (Theo Rossi). Mas é claro que não demora até que eles batam de frente com Luke, desencadeando uma série de conflitos pelo Harlem que acabam sendo investigados pela detetive Misty Knight (Simone Missick) e seu parceiro Rafael Scarfe (Frank Whaley).

Claramente inspirada por produções de blaxploitation, movimento de filmes feitos e protagonizados por negros e que tomou as telas na década de 1970, Luke Cage logo mostra seguir um tom diferente de qualquer coisa que a Marvel já produziu. Com uma ótima trilha repleta de toques de soul, jazz e hip-hop composta por Ali Shaheed Muhammad e Adrian Younge, a ambientação no Harlem e as discussões pontuais envolvendo a cultura negra e seus principais expoentes, a série ganha uma personalidade muito particular graças à natureza de seu material, algo que ela abraça sem pestanejar. Além disso, os episódios não deixam de abordar questões sociais importantes, inserindo comentários sobre escravidão, racismo e sexismo, ainda que por vezes isso ocorra de um jeito óbvio e superficial.

Sabendo que os poderes de Luke Cage quase anulam as possibilidades de ele ficar em risco nas cenas de ação (ênfase no “quase”), a série acerta ao se concentrar bastante nos dramas pessoais do herói e nas rixas que ele cria com os vilões, e nesses aspectos estão alguns dos melhores pontos dessa temporada. Inicialmente, Luke vê seus poderes como uma maldição que o impede de ser uma pessoa normal, mas é bacana ver que, depois que ele os abraça como uma possibilidade de fazer o bem, o personagem utiliza-os não só como uma forma de derrubar bandidos e tornar seu mundo um pouco mais limpo, mas também de impedir que pessoas que ele quer proteger sujem as mãos (o quinto episódio mostra isso muito bem). Para completar, melhor do que ver os embates diretos entre o protagonista e seus inimigos é acompanhar as estratégias de ambos os lados para derrubar um ao outro, com a imagem que a população tem deles sendo um dos aspectos mais utilizados para isso.

Voltando confortavelmente ao papel de Luke Cage, o carismático Mike Coulter tem uma presença em cena que mistura imponência, charme e virilidade, características que acabam combinando perfeitamente com o personagem. E é bom ver como o ator ainda mostra saber entreter com o controle que Luke tem quanto os próprios poderes, divertindo com a calma que exibe enquanto alguns capangas desesperados o enfrentam (como não rir em momentos como aquele em que ele coloca alguém para dormir com um peteleco?). Já no elenco de apoio, Rosario Dawson volta a interpretar a enfermeira Claire Temple dando continuidade ao arco da personagem iniciado na primeira temporada de Demolidor, fazendo dela uma figura cada vez mais interessante, ao passo que Simone Missick se destaca ao estabelecer Misty Knight como uma policial que conquista o espectador com sua força e integridade. E se Theo Rossi compensa a unidimensionalidade de Shades ao torna-lo um braço-direto cuja racionalidade é vital para os chefes impulsivos, Mahershala Ali cria em Cornell Stokes um mafioso que segue a linha Wilson Fisk (ou seja, se meter com ele é assinar a própria sentença de morte), enquanto que Alfre Woodard faz de Mariah Dillard uma figura por vezes mais inteligente e ameaçadora que o primo, e ambos os atores formam uma bela dinâmica vilanesca entre seus personagens. É exatamente por a dupla ser tão bacana que é uma pena vê-la perder espaço na segunda metade da temporada para Kid Cascavel, cuja aparição é preparada desde o começo, mas que se revela um vilão um tanto aborrecido quando finalmente surge em cena, por mais que o roteiro e seu intérprete, Erik LaRay Harvey, se esforcem para fazer dele um sujeito intrigante.

Este, porém, não é o único problema que impede essa temporada de Luke Cage de ser um pouco mais consistente. Tendo que cumprir a demanda de treze episódios, a série infelizmente enrola demais a trama, como ao esticar por dois capítulos o momento em que o protagonista invade um esconderijo de Cornell Stokes, se estruturando de um jeito que passa a impressão de que não há material suficiente para a temporada toda. Isso, inclusive, leva os roteiristas a fazer algo parecido com o que ocorreu no recente segundo ano de Demolidor, organizando dois arcos narrativos que se dividem fragilmente a partir da metade da temporada, e por precisar lidar com isso e mais algumas subtramas a série acaba ganhando um ritmo irregular, mesclando grandes momentos com outros não tão interessantes, não conseguindo ser constantemente envolvente.

Mas por mais que haja uma sensação de que a temporada talvez pudesse ser melhor, felizmente os elementos ricos que ela apresenta sustentam bem os episódios. Assim, Luke Cage consegue ficar marcada como um exemplar satisfatório da franquia que a Marvel vem concebendo. E considerando que antes de uma provável segunda temporada o protagonista retornará em Os Defensores, minissérie que reunirá os heróis das produções da Marvel/Netflix, é inevitável ficar interessado em ver como a história dele e dos outros personagens irão se encontrar.

Leia as críticas das outras séries da Marvel/Netflix:

domingo, 17 de julho de 2016

Séries: Stranger Things

Ao começar a assistir Stranger Things, nova série da Netflix, foi inevitável lembrar de Super 8, filme que J.J. Abrams lançou em 2011. Ambas são produções que se apresentam claramente como homenagens a aventuras e ficções cientificas da década de 1980, com Abrams tendo dado foco especial principalmente aos trabalhos de Steven Spielberg, cineasta cuja influência também podemos ver fortemente ao longo da série. Super 8 é um filme eficiente, mas vale dizer que o que os irmãos Matt e Ross Duffer realizam nos oito episódios dessa primeira temporada de Stranger Things é ainda melhor, conseguindo deixar o espectador curioso do início ao fim com relação ao que apresenta na tela.

A série é situada em 1983, na pequena cidade de Indiana, tendo início quando os jovens Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin) e Will (Noah Schnapp) estão se divertindo jogando Dungeons & Dragons, sem ter que se preocuparem com quaisquer outras coisas. Mas logo depois, quando está voltando para casa, Will desaparece ao ser atacado por um monstro misterioso. A mãe dele, Joyce (Winona Ryder), e seu irmão mais velho, Jonathan (Charlie Heaton), não medem esforços para encontra-lo, contando com a ajuda do chefe de polícia Hopper (David Harbour). Enquanto isso, a jovem Onze (Millie Bobby Brown) foge de pessoas perigosas ligadas ao governo, mostrando não ser uma garota qualquer.

Deixando sua pegada oitentista bem clara logo nos créditos de abertura, os irmãos Duffer não demoram para fazer com que Stranger Things comece a dar um banho de nostalgia no espectador, trazendo ao longo dos episódios referências a obras clássicas como E.T. e O Enigma de Outro Mundo, lembrando também de Stephen King em determinados momentos. Além disso, os realizadores conseguem dar à série o interessante charme da década de 1980, seja através do design de produção de Chris Trujillo, que faz um ótimo trabalho de recriação de época, ou da trilha composta pela dupla Kyle Dixon e Michael Stein, repleta de toques de música eletrônica.

Mas se engana quem pensa que o estilo e a proposta de Stranger Things são seus únicos atrativos, já que a série não tenta se sustentar só em suas referências nostálgicas, fazendo a história seguir seu próprio caminho de maneira independente. Nisso, os Duffer são bem sucedidos não só ao impor um suspense que mantém o público instigado, mas também por desenvolverem uma trama que fica mais interessante à medida que os personagens vão descobrindo o que está acontecendo ao seu redor. É algo muito bem estruturado pelo roteiro, que chega a formar pequenos núcleos narrativos para desvendar gradualmente as peças do quebra-cabeça misterioso que tem em mãos. Para completar, a série desenvolve admiravelmente a maior parte de seus personagens, chegando a inserir breves flashbacks que ajudam o público a se aproximar deles e de seus dramas pessoais.

O ótimo elenco também contribui muito para isso, a começar por Winona Ryder (uma atriz talentosa e que há tempos não aparecia em um papel de destaque), que encarna o desespero de Joyce na medida certa, fazendo dela uma mulher forte, determinada e cujo amor pelos filhos guia a maior parte de suas ações. Enquanto isso, David Harbour mostra segurança no papel de Hopper, tornando-o um homem de expressão constantemente fechada e que revela nisso uma ferida profunda resultante de uma tragédia pessoal, algo que o ajuda a se identificar com Joyce. Já Matthew Modine surge sempre com uma presença curiosa como Martin Brenner, o líder conspiratório e vilanesco de uma agência do governo e que não é muito diferente do que já vimos em outras produções, ao passo que os intérpretes mais jovens do elenco esbanjam carisma e personalidade, com a pequena Millie Bobby Brown se estabelecendo como a grande revelação do projeto no papel de Onze.

Devorar os oito episódios de Stranger Things acaba sendo uma tarefa relativamente fácil. Afinal, a série bebe do que há de melhor em suas fontes, homenageando-as maravilhosamente ao mesmo tempo em que se estabelece como uma produção incrivelmente cativante.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Séries: Demolidor - 2ª temporada

Ao escrever sobre a excelente primeira temporada de Demolidor, no ano passado, mencionei que um dos aspectos interessantes do personagem-título é o fato de seus atos o fazerem andar em uma linha tênue. Por um lado, ele é um herói que busca fazer o bem por sua cidade, mas por outro sua agressividade não deixa de torna-lo parecido com as pessoas que ele condena. Pois discutir os aspectos morais e as consequências pessoais do heroísmo visto no universo violento de Hell’s Kitchen são os pontos que regem essa segunda temporada, que assim como a anterior (e a primeira de Jessica Jones) exibe uma densidade narrativa que a Marvel não coloca tanto nos longas que lança nos cinemas.

Trazendo Doug Petrie e Marco Ramirez como showrunners (substituindo Steven S. DeKnight, que cuidou da primeira temporada), a série volta mostrando logo de cara que a vida de Matt Murdock (Charlie Cox) não mudou tanto depois que ele ajudou a colocar Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) atrás das grades, mantendo a rotina de ser advogado de dia, ao lado de Foggy (Elden Henson) e da secretária Karen Page (Deborah Ann Woll), e Demolidor à noite. Mas Nova York e seu herói levam um belo choque quando grupos criminosos passam a ter seus membros brutalmente assassinados, obras de um único homem: o ex-fuzileiro Frank Castle (Jon Bernthal), que recebe o apelido de Justiceiro. Ao mesmo tempo, Matt se vê tendo que lidar com o retorno de sua antiga paixão, Elektra Natchios (Élodie Yung), precisando ajuda-la a derrubar planos da Yakuza – ou de um grupo muito maior.

Como podem ver, em termos de trama, essa segunda temporada se diferencia daquilo que vimos na primeira. Antes tínhamos acompanhado uma narrativa mais direta, focada no embate com Wilson Fisk, mas agora a série tenta lidar com mais coisas de uma só vez ao dividir sua história entre Frank Castle e Elektra. É curioso ver como os roteiros desenvolvem essas duas tramas centrais, criando pequenos arcos narrativos dentro de cada uma e fazendo com que, ao menos durante boa parte do tempo, elas se complementem tematicamente e causem impacto uma na outra. O único problema com relação a isso é que a série não consegue manter o ótimo ritmo que estabelece em seus primeiros episódios, principalmente em seu terço final quando uma das tramas vira o centro quase absoluto da narrativa, de forma que é inevitável sentir que a temporada começa muito melhor do que como termina, ao contrário do que aconteceu na anterior.

No entanto, a série ainda impressiona em vários aspectos, a começar pela forma como aborda a discussão moral envolvendo os ideais dos personagens, algo que ganha maiores contornos quando Frank Castle está em cena. Por mais violento que Matt Murdock seja ao pegar os criminosos, ele tem plena noção de que o que o separa deles é o fato de ele não mata-los, limite que pode vir desde seu lado religioso (ele menciona que Deus é quem decide essas coisas) até de seu lado advogado, que acredita que matar é errado e que quer provar que o sistema judiciário funciona. É um limite com o qual Frank Castle, obviamente, não se importa. Se referindo ao protagonista como um covarde que não termina o serviço (“Você bate neles e eles levantam, eu bato e eles ficam no chão”, ele diz), Castle é uma figura incrivelmente brutal, movido pela raiva/tristeza proporcionada por um trauma pessoal, que o fez perder grande parte de sua humanidade. Mas é claro que, mesmo assim, uma parcela da população de Nova York (e desconfio que dos espectadores também) aplaude os atos do personagem, que esquece que está limpando a sujeira das ruas com mais sujeira. Até por isso o julgamento que ocorre durante alguns episódios é uma jogada inspirada por parte dos realizadores quanto a como conduzir a introdução de Castle nesse universo.

Enquanto isso, a série também volta a mostrar um alto nível no que diz respeito à ação, apresentando várias sequências ágeis e muito bem coreografadas, como pode ser visto nos primeiros encontros entre o Demolidor e o Justiceiro ou na luta que se passa no corredor de uma prisão (e que não economiza no sangue, em um dos momentos mais violentos da temporada). Mas o maior destaque nesse quesito é a longa sequência no terceiro episódio na qual o protagonista enfrenta uma gangue de motoqueiros. Feita em plano-sequência, a cena tem como claro objetivo superar a excepcional luta no corredor vista na primeira temporada, sendo ainda mais complexa e empolgante, de forma que nem os cortes claramente mascarados durante sua execução diminuem seu brilhantismo.

Se a ação mantém a eficiência, o mesmo vale para o elenco. No papel de Matt Murdock, Charlie Cox volta a exibir carisma, sendo hábil também ao deixar claro o desgaste físico e emocional do personagem em meio a sua vida dupla, e ele até chega a ter dúvidas quanto a eficácia de seus esforços como herói, o que o torna um pouco mais humano. Enquanto isso, o Foggy de Elden Henson ganha oportunidades para provar ser muito mais do que um alívio cômico, mostrando seu talento como advogado e sua preocupação com o melhor amigo mesmo quando a amizade deles está balançada. Algo parecido ocorre com Deborah Ann Woll, que tem em Karen uma personagem que não fica apenas na função de interesse amoroso, revelando-se uma investigadora dedicada e persistente. E chegamos, claro, a Jon Bernthal e Élodie Yung, as duas principais adições da série. Sendo o quarto intérprete de Frank Castle (Dolph Lundgreen, Thomas Jane e Ray Stevenson já encarnaram o personagem no cinema), Bernthal traz intensidade a um homem que, por trás de sua faceta monstruosa, não deixa de ser essencialmente trágico, e seu excelente monólogo no quarto episódio é prova disso. Já Yung cria uma Elektra diferente daquela de Jennifer Garner, interpretando-a como uma figura rebelde e inconsequente. Mas vale dizer que nem sempre ela é interessante, sendo que a dinâmica levemente tensa construída entre ela e o protagonista também não foge muito da obviedade.

Mais preocupada em contar sua história do que em ficar fazendo conexões com o restante do universo Marvel (quando isso ocorre, é sempre de maneira orgânica), essa segunda temporada de Demolidor pode ter algumas irregularidades, mas seus acertos compensam isso satisfatoriamente. Com a força vista aqui, a produção mantém o ótimo nível das séries que a Marvel está fazendo com a Netflix, além de deixar a curiosidade quanto ao que virá a seguir.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Séries: Jessica Jones

Aparentemente, o que a Marvel não tem coragem de fazer em seus filmes, ela está fazendo nas séries que está realizando em parceria com a Netflix. Enquanto no cinema nos deparamos com produções que apostam em histórias relativamente leves, com uma escala grandiosa e que divertem com sua gama de heróis (o que vem funcionando bem na maioria dos longas), praticamente o oposto ocorre nas realizações para o serviço de streaming, onde somos apresentados a personagens mais densos em tramas adultas e sombrias que se utilizam de uma ambientação urbana, com os realizadores até se arriscando mais. Nisso, Demolidor surgiu no primeiro semestre como uma produção que fazia jus ao que o personagem e seu universo tinham de melhor, e Jessica Jones chega agora mantendo esse ritmo, conseguindo estabelecer novos patamares quanto ao que a Marvel nos acostumou nos últimos anos.

Desenvolvida por Melissa Rosenberg (que pode despertar suspeitas por ter sido roteirista da “saga” Crepúsculo, mas cuja participação em Dexter é notável), Jessica Jones tem na personagem-título (interpretada por Krysten Ritter) uma figura que está longe de ser perfeita e que até tentou usar sua superforça para ser uma heroína, tendo desistido disso para trabalhar como detetive particular. Chamada ocasionalmente para investigar alguns casos, Jessica ganha o suficiente para manter seu apartamento e sustentar seu alcoolismo, levando uma vida antissocial, desleixada e quase depressiva, na qual tem como única amiga a famosa apresentadora de rádio Trish Walker (Rachael Taylor). Enquanto segue uma das pistas de um caso, Jessica descobre que Kilgrave (David Tennant), homem que a traumatizou ao controlar sua mente e obriga-la a fazer coisas horríveis, está vivo e manipulando uma série de pessoas, estando mais obcecado do que nunca por ela.

Ambientada na mesma Nova York de Demolidor, Jessica Jones nos introduz novamente a um mundo sombrio e inquietante, não desviando o olhar da violência impregnada em sua sociedade. Se Demolidor já impressionava um pouco nesse sentido, o que se vê aqui eleva o nível de sanguinolência da Marvel, o que obviamente dá mais peso aos atos dos personagens, principalmente do vilão, diferindo bastante do que ocorre nos filmes, que contam com grandes destruições, mas não encaram suas consequências, algo que a série até referencia em um de seus episódios. É algo que já deixa bem claro o teor adulto que a produção deseja seguir, sendo que as cenas de sexo e a inclusão de temas como estupro e aborto ainda servem para enfatizar esse aspecto um pouco mais.

Em meio a isso e a uma narrativa que remete diretamente ao noir, Jessica Jones não se preocupa tanto com cenas de ação ou em ficar inserindo gratuita e constantemente detalhes que a conectem ao restante do universo Marvel. Ao invés disso, os episódios se concentram quase exclusivamente na trama e nos personagens, desenvolvendo-os inteligentemente. E se na metade da temporada ela parece inchada, com elementos que soam meio deslocados dentro da trama, como os vizinhos escandalosos de Jessica, um grupo de apoio formado por vítimas de Kilgrave e a subtrama pessoal da advogada Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss), eventualmente tudo acaba tendo alguma função, exibindo o bom planejamento feito para a temporada. Mas vale dizer que quando parte para uma cena de ação a série também não faz feio, podendo divertir com a aparente indestrutibilidade física da protagonista (a briga em um bar no segundo episódio é ótima nesse sentido) ou ser mais intensa (uma luta que acontece no apartamento de Trish).

Enquanto isso, Jessica Jones é quase uma anti-heroína se levarmos em conta seus hábitos e o desdém com o qual encara muito do que acontece ao seu redor. Mesmo assim, trata-se de uma mulher inteligente, determinada e forte (tanto física quanto psicologicamente), que se sente compelida a fazer a diferença no mundo onde vive, e Krysten Ritter encarna as nuances da personagem com segurança, sem esquecer seu lado humano. Além disso, a atriz tem uma boa dinâmica com Rachael Taylor e Eka Darville, que como Trish e um dos vizinhos de Jessica, Malcolm, funcionam muito bem como seus ajudantes. Já Carrie-Anne Moss se destaca com a frieza e a força de sua Jeri Hogarth, ao passo que Mike Colter prova ser uma bela escolha para o papel de Luke Cage, herói que ganha aqui uma ótima introdução antes de estrelar sua própria série no ano que vem. Fechando o elenco, David Tennant brilha interpretando Kilgrave, um vilão que pode não ser uma grande ameaça fisicamente, mas mais do que compensa isso com a maneira como utiliza seu poder de controlar a mente das pessoas, sendo um sujeito imoral e sádico, cuja obsessão pela protagonista chega a ser doentia. Tennant surpreende ao trazer charme e carisma ao papel, conseguindo até mesmo divertir com o jeito do personagem, ainda que ele seja uma figura inquietante, e não é à toa que vários grandes momentos da série trazem heroína e vilão em cena.

Jessica Jones é uma adição muito rica ao universo montado pela Marvel, e é bom ver mais uma personagem feminina se destacando nessa franquia, algo importante e que tem estado em falta. Ao final da temporada, fica a curiosidade de ver quais serão próximos passos dessa atípica heroína, que certamente ganhará maior popularidade graças a esta ótima série.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Séries: Bloodline


“Por favor, não nos julgue. Nós não somos más pessoas. Mas fizemos uma coisa errada”, diz o protagonista John Rayburn em sua narração em off logo no primeiro episódio de Bloodline, série da Netflix. Pode ser apenas um claro pedido feito ao público, que acabara de ser apresentado àquele sujeito e a toda sua família, figuras que passamos a acompanhar ao longo dos treze episódios dessa primeira temporada. Mas essa fala específica não deixa de ser uma espécie de cartão de visitas da série, indicando que ela, além de explorar os relacionamentos entre os personagens, também dará atenção a moral e as próprias personalidades deles, aspectos que no fim ajudam a formar a riqueza narrativa vista aqui.

Criada por Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman, o mesmo trio responsável por Damages (série que agora certamente subiu algumas posições em minha lista de prioridades), Bloodline concentra sua trama na Flórida, onde Robert Rayburn (Sam Shepard) e sua esposa Sally Rayburn (Sissy Spacek) têm um dos hotéis à beira da praia mais bem sucedidos da região. No aniversário de 45 anos dos negócios, eles decidem reunir toda a família para comemorar, incluindo o já citado filho John (Kyle Chandler), que faz parte da polícia local, e os mais novos, Kevin (Norbert Leo Butz) e Meg (Linda Cardellini). Mas o retorno do filho mais velho e ovelha negra do clã, Danny (Ben Mendelsonh), traz tensão entre todos.

Bloodline é perfeita para binge-watching (expressão que passou a ser usada para descrever as maratonas com todos os episódios). Com uma estrutura que acompanha os personagens no presente, mas que insere pontualmente flashbacks de eventos importantes e flashforwards de algo chocante que irá acontecer, a série acaba sendo instigante em vários sentidos, conseguindo desenvolver uma história envolvente ao mesmo tempo em que faz o espectador querer saber mais sobre os personagens. É difícil tirar o olho da tela quando se fica curioso com o porquê de John e seus irmãos agirem da maneira que se vê na tela e o quê os levará a um ato tão extremo. A capacidade dos realizadores de manter o espectador na palma de suas mãos é grande, de forma que os ganchos que encerram a maior parte dos episódios tornam difícil ignorar o aviso de “O próximo episódio começará em 15 segundos” da Netflix.

Estamos falando de uma história sobre família e todos os conflitos que esse tipo de núcleo pode ter, então é natural que seja exatamente nos personagens e na complexidade dos relacionamentos entre eles que Bloodline encontre suas maiores forças. Por mais felizes que os Rayburns possam parecer inicialmente, gradualmente isso se desmistifica, ganhando grande peso ao trazer à tona memórias dolorosas que não cicatrizaram tão bem (algumas dessas memórias, por sinal, são tão fortes que a série evita mostra-las por inteiro, apresentando-as através de flashes para que saibamos o necessário). Isso vem, principalmente, pelo impacto causado por Danny, que acende o pavio para que o roteiro possa explorar lados sombrios da família, já que a desconfiança gerada pela presença dele percorre todo o ambiente. E é a partir da relação que o primogênito tem com a família que o roteiro põe em xeque a fala de John que abriu este texto. Afinal, os Rayburns são estabelecidos como pessoas essencialmente boas, mas os erros que eles cometem dão muita voz ao que eles têm de pior dentro de si, e Danny conhece esse lado melhor do que ninguém.

É claro que a excelente dinâmica do elenco também é essencial para que esses conflitos entre os personagens soem naturais e tenham força na tela. Nisso, o nível das atuações é admirável, desde Norbert Leo Butz e Linda Cardellini como Kevin e Meg até os veteranos Sam Shepard e Sissy Spacek como Robert e Sally. Spacek, aliás, encarna Sally com uma delicadeza notável, com a matriarca sempre acreditando no potencial de seus filhos, detalhe que torna compreensível o porquê de em vários momentos eles evitarem decepcioná-la ou entristece-la. No entanto, Kyle Chandler e Ben Mendelsonh são os que se sobressaem nessa temporada, protagonizando os momentos mais impactantes. Chandler assume o papel de John com segurança, buscando fazer dele um sujeito paciente e compreensivo como a mãe, mas tendo o lado estressado e até explosivo de seu pai, nuances que ele encarna com enorme talento. Já Mendelsonh como Danny fica longe dos traços das composições de seus colegas, decisão apropriada considerando a posição do personagem na família. O ator cria um homem há muito perdido em sua desmoralização e que constantemente exibe indignação com a forma como é tratado. E se seus erros não são ignorados pelos irmãos, o próprio Danny não consegue esquecer os erros deles, como se vê na fita que ele escuta várias vezes enquanto dirige.

Ao lado de produções como Sense8, Orange is the New Black e House of Cards, Bloodline é mais um acerto da Netflix na hora de apostar em projetos originais para seu catálogo de streaming. A série pode não surpreender tanto com algumas de suas revelações, mas faz isso de sobra com sua construção narrativa, sendo capaz de manter o espectador grudado na tela até o último segundo. Levando em conta o gancho deixado ao final da temporada e sua promessa de que os personagens não percorrerão caminhos fáceis, a espera pelo próximo ano da série não poderia ser mais inquietante.


domingo, 12 de abril de 2015

Séries: Demolidor


Quando foi anunciado que a Marvel iria trazer o Demolidor (um de seus melhores e mais populares personagens) em uma série da Netflix, isso veio como uma sacada inesperada e ao mesmo tempo interessante. Inesperada porque nos acostumamos a ver heróis desse calibre indo para o cinema, e quando os direitos do personagem voltaram para a Marvel, a ideia inicial parecia ser a de realizar um novo filme, que faria aquele estrelado por Ben Affleck em 2003 ser completamente esquecido. E interessante porque a Netflix vem exibindo uma ambição muito bem-vinda em termos de séries, sendo que os quadrinhos do Demolidor sempre mostraram potencial para render uma produção bacana, independentemente de sua mídia. Se a sacada foi boa, melhor ainda é ver como essa primeira temporada da série aproveita isso admiravelmente.

Criada por Drew Goddard (diretor do ótimo O Segredo da Cabana) e com produção executiva de Steven S. DeKnight (de Spartacus), Demolidor se passa tempos depois da Batalha de Nova York (vista em Os Vingadores) e segue o advogado Matthew Murdock (Charlie Cox), que ficou cego após um acidente quando criança (algo que aumentou o alcance de seus outros sentidos) e agora acaba de abrir uma firma junto com seu melhor amigo Franklyn “Foggy” Nelson (Elden Henson). Mas enquanto pratica a advocacia de dia, à noite ele usa suas habilidades físicas e sensoriais para virar um vigilante que cansou de ver sua cidade, em especial o bairro de Hell’s Kitchen, ser dominada por criminosos. Indo cada vez mais fundo em sua luta contra o crime e ganhando aliados aos poucos, como a enfermeira Claire (Rosario Dawson) e o jornalista Ben Urich (Vondie Curtis-Hall), Matt acaba batendo de frente com o misterioso empresário Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), cujas ideias para tornar a cidade um lugar melhor não têm uma natureza particularmente boa.

O que se percebe logo nos primeiros momentos de Demolidor é que por mais que tudo seja parte de um único universo, o mundo de Matt Murdock não é o mesmo de Tony Stark, Steve Rogers, Thor e todos os outros heróis da Marvel que vimos no cinema e na TV. Hell’s Kitchen é um ambiente sujo e brutal, no qual boas pessoas às vezes se veem obrigadas a cometer atos horríveis, sendo que elas crescem sem esperança por algo melhor. Esse universo sombrio é abraçado com gosto pelos realizadores, o que resulta em uma série com um tom mais adulto do que o de qualquer outra produção da Marvel Studios, com direito até a um nível de violência muito mais pesado (a maneira como Wilson Fisk arrebenta um inimigo ao final do quarto episódio é o ápice nesse quesito). Além disso, se outros heróis enfrentam figuras com armaduras de alta tecnologia armamentista, deuses asgardianos, alienígenas ou uma organização terrorista nazista, Matt Murdock encara o submundo do crime talvez em sua forma mais pura, com traficantes, estupradores, chefes do crime organizado e assim por diante, e a série deixa claro que esse é o foco do personagem logo no final do primeiro episódio, numa sequência que traz o protagonista golpeando um saco de areia, enquanto àqueles que ele realmente gostaria de socar seguem normalmente suas atividades.

Mas um detalhe que sempre contribuiu muito para que o Demolidor fosse interessante é que, como herói, ele anda numa linha tênue entre fazer o bem e ser alguém cujos atos são parecidos com os daqueles que ele condena. É algo que o filme de 2003 chegou a inserir em sua história, ainda que rapidamente. Mas na série isso aparece com mais força, principalmente na segunda metade da temporada, e não é à toa que muitos confundem o “Homem da Máscara” com um criminoso em vários momentos. Colocando o protagonista em excelentes discussões morais, que rendem alguns belos diálogos e ajudam no desenvolvimento do personagem, Drew Goddard e companhia novamente demonstram compreender a natureza do herói que têm em mãos, não se esquivando de questões importantes que o envolvem.

Tudo isso é captado perfeitamente ao mesmo tempo em que a série mostra uma calma notável quando o assunto é o desenvolvimento de sua trama e seus personagens. Em nenhum momento Demolidor parece ter pressa, apresentando os elementos da história naturalmente e desenvolvendo-os eficientemente, de forma que eles não se tornam peças desperdiçadas dentro do quebra-cabeça que é montado. Assim, a temporada até pode ficar calcada em Matt, Foggy e sua secretária Karen Page (Deborah Ann Woll) se esforçando para expor as atividades ilegais de Wilson Fisk, mas ao longo de dois ótimos episódios (o sétimo e o oitavo) ela quase pausa essa linha principal para desenvolver subtramas que se conectam ao passado do herói e do vilão, nos fazendo compreender um pouco mais como eles se transformaram naquilo que vemos. E se em termos de história a série se sai bem, o mesmo pode ser dito sobre o quesito ação, onde ela empolga ao aproveitar as habilidades de seu personagem o máximo que pode. Nisso, é impossível não destacar a luta que encerra o segundo episódio. Filmado em um longo plano aparentemente sem cortes (lembrando um pouco a famosa sequência de Oldboy, até por se passar em um corredor), esse confronto é um dos melhores momentos não só da série, mas também entre todas as produções que a Marvel já lançou.

E finalmente chegamos ao ótimo elenco, responsável por boa parte do investimento emocional que colocamos na série. Vivendo Matt Murdock com carisma e segurança essenciais, Charlie Cox faz dele um personagem que teme que seus atos sacrifiquem sua integridade e prejudiquem àqueles com quem se importa, conduzindo-o maravilhosamente bem por seus dilemas. Enquanto isso, Elden Henson e Deborah Ann Woll ganham espaço para fazer de Foggy e Karen Page figuras cativantes e inteligentes a sua própria maneira, além de ajudarem a ressaltar o lado puramente humano do protagonista, tendo uma ótima química com Cox (e é por isso que a série incomoda sempre que sugere um triângulo amoroso entre eles). E se Rosario Dawson deixa uma forte impressão como Claire (o que só ajuda a tornar decepcionante o fim de sua participação), Vondie Curtis-Hall faz de Ben Urich um jornalista que tenta se manter honesto e relevante mesmo que sua profissão já não peça mais isso. No entanto, se há um destaque absoluto no elenco de Demolidor este é Vincent D’Onofrio, que ganha a chance de conceber Wilson Fisk como um vilão imprevisível e implacável, mas que também tem um lado tímido, traumatizado e extremamente sensível, que ele deixa aflorar principalmente quando está com sua amada Vanessa Marianna (Ayelet Zurer) e até com seu braço direito, James Wesley (o ótimo Toby Leonard Moore), que, inclusive, consegue ser quase tão ameaçador quanto seu chefe.

Depois da ótima Agents of SHIELD (que pode ter tido um início razoável, mas melhorou consideravelmente em sua atual segunda temporada) e da excelente Agent Carter, a Marvel dá mais um bom passo no mundo das séries com Demolidor. E esperemos que uma nova temporada (ou quem sabe um novo filme?) seja anunciada em breve. Afinal, como indica a ponta solta deixada no fim do sétimo episódio, há muitas coisas para explorar com esse personagem e será ótimo vê-lo novamente em ação.