quarta-feira, 29 de março de 2023

O Urso do Pó Branco

Arte é uma produção imaginativa por natureza. Um processo criativo que nos permite dar vida a qualquer história, sentimento ou ideia na esperança de nos conectarmos com outros seres humanos. É também o que permite que um filme como O Urso do Pó Branco pegue uma história real e a transforme em algo majoritariamente ficcional. Afinal, se a diretora Elizabeth Banks contasse a história do urso do título exatamente como se desenrolou, o filme na verdade não teria muito o que contar, tendo o animal consumido cocaína e morrido pouco tempo depois. Mas ao imaginar esse urso causando terror e deixando rastros de sangue por onde passa, Banks ganha uma premissa bem mais chamativa. É uma pena, porém, que tal imaginação não renda um filme dos mais eficazes.

Escrito por Jimmy Warden, O Urso do Pó Branco nos leva até 1985, quando uma grande remessa de cocaína cai nas florestas do estado da Geórgia. Ali, um grande urso acaba encontrando e consumindo grandes quantidades da droga, ficando absolutamente surtado e agressivo, o que o torna uma ameaça a qualquer um que surja em seu caminho. Enquanto isso, a enfermeira Sari (Keri Russell) entra na floresta à procura de sua filha Dee Dee (Brooklynn Prince) e o amigo dela Henry (Christian Convery), ao passo que a dupla Eddie e Daveed (Alden Ehrenreich e O’Shea Jackson Jr., respectivamente) tenta recuperar a cocaína, que pertence ao chefão do crime Syd (o saudoso Ray Liotta). E ninguém imagina que um urso “doidão” está à espreita.


É normal que uma premissa como essa não almeje se levar a sério, buscando ter o espírito de um filme B que mistura terror e comédia. É algo que Elizabeth Banks (em seu terceiro longa na cadeira de direção, depois do divertido A Escolha Perfeita 2 e o mediano reboot de As Panteras) trata de estabelecer já na primeira cena, trazendo um contrabandista (vivido por Matthew Rhys) despachando a cocaína de seu avião de maneira infantil e, logo em seguida, tendo um fim absolutamente patético. Mas mesmo tendo um senso de humor que pontualmente apresenta momentos engraçados como essa cena inicial, o filme na maior parte do tempo não consegue fazer tanta graça quando deseja, soando apenas bobo e colocando no meio disso personagens que ou são puramente caricatos ou puramente unidimensionais, o que os torna desinteressantes seja como obstáculos, seja como alimentos para o urso. E o elenco cheio de nomes talentosos pouco pode fazer para contornar isso.


Aliás, as cenas que trazem pessoas sendo atacadas pelo urso claramente são tratadas por Elizabeth Banks como uma espécie de carro-chefe do filme, mas nem mesmo elas impressionam. Isso porque além de ser difícil se importar com o que ocorre na tela, tais cenas ainda são realizadas de forma bastante burocrática, ficando longe de chocar o espectador com o que o urso é capaz de fazer com suas vítimas, e o fato de a sanguinolência (ou ao menos boa parte dela) ser feita através de computação gráfica também não contribui muito para que esses momentos tenham alguma relevância.

O Urso do Pó Branco até pode ser uma obra consciente da própria bobagem que representa, mas quem dera isso fosse suficiente para sustentar sua narrativa. Ou ao menos para tornar a graça do filme um pouco mais memorável.

Nota:



terça-feira, 21 de março de 2023

John Wick 4: Baba Yaga

Toda ação tem uma consequência. Podemos dizer que essa ideia está no centro de todos os eventos que se desenrolam ao longo de toda a franquia John Wick. Eventos estes que não cansam de tomar proporções cada vez maiores até ficarem quase fora de controle. É até curioso lembrar que tudo começou com um assassino profissional se vingando daqueles que mataram seu cachorro e roubaram seu carro, e gradualmente vimos este mesmo assassino entrar em uma verdadeira guerra contra todo seu submundo do crime. E se os três primeiros exemplares estabeleceram John Wick como uma franquia de ação empolgante, este John Wick 4: Baba Yaga retoma essa empolgação e não a deixa cair em nenhum momento.

Escrito por Shay Hatten e Michael Finch, John Wick 4 tem uma trama bem simples, como é comum na série. Depois dos eventos do terceiro filme, o personagem-título (Keanu Reeves) quer se vingar da Alta Cúpula e ficar livre de uma vez por todas do submundo de assassinos profissionais. A Cúpula por sua vez é representada agora pela figura do Marquês Vincent de Gramont (Bill Skarsgård), que quer o fim de John Wick e não medirá esforços para destruir ele e qualquer um que o ajudar. Para alcançar tal objetivo, o Marquês convoca até mesmo Caine (Donnie Yen), um assassino cego e que é um velho amigo de Wick.


Apesar de simples, a trama não impede que o diretor Chad Stahelski construa um épico de ação com quase três horas de duração. Isso se deve principalmente porque Stahelski e sua equipe parecem se deliciar com toda possibilidade de expandir o universo de John Wick, apresentando novos personagens, regras e núcleos narrativos. E assim como foi em John Wick 2 e 3, é fascinante ver esse universo ganhar vida e se revelar cada vez maior. Neste quarto filme, porém, há determinados momentos em que a trama pode soar desnecessariamente longa, com os roteiristas apenas querendo colocar mais obstáculos no caminho do protagonista mesmo quando poderiam ser mais objetivos. Mas creio que tal inchaço na história deixa de ser um problema quando vemos que ele traz recompensas, com os obstáculos adicionados rendendo belas cenas de ação e apresentando personagens que chamam a atenção. Nesse sentido, destaco o Rastreador vivido por Shamier Anderson, que ao longo do filme mostra ter seus próprios interesses, e o chefe da cúpula alemã, Killa, vivido por um quase irreconhecível Scott Adkins, um dos mais interessantes astros de ação contemporâneos e que aqui tem uma rara oportunidade de criar um personagem que não é definido só por suas habilidades como artista marcial.


E já que mencionei as cenas de ação, é preciso dizer que Chad Stahelski com frequência passa a sensação de que uma é melhor que a outra. A exemplo do que fez nos filmes anteriores, o diretor investe não só na grande escala das lutas e tiroteios, mas também na variedade, de forma que esses momentos jamais soam repetitivos e trazem o elenco usando de tudo um pouco em meio ao quebra-pau, sejam armas de fogo, facas, espadas, carros ou nunchakus. Mas mais do que isso, Stahelski e o diretor de fotografia Dan Laustsen fazem com que a ação seja visualmente atrativa para o espectador, deixando a mise en scène sempre clara e por vezes investindo em planos longos que contemplam as ótimas coreografias dos atores, merecendo destaque a sequência filmada em um ângulo alto (plongée) e que acompanha John Wick eliminando seus adversários enquanto passa por várias salas. Aliás, por conta da intensidade da ação, os momentos em que John Wick 4 se concentra no desenvolvimento de seu universo e de seus personagens também servem como pausas para o espectador, que assim pode respirar um pouco antes de entrar na próxima grande sequência do filme, e o roteiro merece créditos por conseguir amarrar de maneira organizada toda essa ação à história e às motivações dos personagens.

Tendo em vista a alta regularidade da franquia, dizer que John Wick 4 é o melhor exemplar que ela apresentou até agora não quer dizer pouca coisa. O que Chad Stahelski, Keanu Reeves e companhia realizam aqui é um verdadeiro espetáculo de ação, sendo desde já uma das produções que merecem destaque nesse ano.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 2 de março de 2023

Creed III

Uma coisa que podemos notar tanto na série Rocky quando nesta série derivada Creed é que, mesmo focando seus respectivos filmes em protagonistas completamente diferentes um do outro, elas compartilham a ideia de fazer os personagens encararem conflitos que se revelam muito pessoais. Assim, quando o Rocky Balboa de Sylvester Stallone ou o Adonis Creed de Michael B. Jordan entram em um ringue, o embate físico que se desenrola acaba sendo muito maior do que uma mera troca de socos em uma arena lotada. Jordan mantém essa ideia como cerne neste Creed III, no qual o ator ainda assume a cadeira de diretor pela primeira vez na carreira.

Escrito por Keenan Coogler e Zach Baylin a partir do argumento concebido por eles e Ryan Coogler, Creed III traz Adonis Creed vivendo feliz e tranquilamente ao lado de Bianca (Tessa Thompson) e a filha Amara (Mila Davis-Kent). É então que Damian Anderson (Jonathan Majors), seu grande amigo de infância e adolescência e que costumava ser um boxeador de grande potencial, ressurge em sua vida após muitos anos na prisão. Isso acaba trazendo de volta antigas e profundas feridas que Adonis queria esquecer, mas que talvez só possam ser cicatrizadas no ringue.

Como podem ver, Rocky Balboa não faz parte da história, marcando a primeira vez que Sylvester Stallone não dá as caras no universo que criou. Mas isso se revela até um alívio, não só porque a história do personagem teve um final digno em Creed II, mas também porque possibilita que este spin-off corra com as próprias pernas, não sendo surpresa que isso ocorra com naturalidade ao longo de Creed III. Adonis, sua família e o núcleo que formam são interessantes, apresentando conflitos palpáveis e humanos, sendo mais do que o suficiente para sustentar a narrativa. Aliás, é bacana ver o roteiro adicionar novas camadas aos personagens, o que contribui até para dar mais peso dramático às histórias daquelas figuras.

As atuações do elenco também são essenciais para isso. É notável, por exemplo, como Michael B. Jordan encarna Adonis Creed com uma segurança ainda maior do que nos filmes anteriores, exibindo uma postura mais forte e decidida em cena, detalhes que pincelam apropriadamente a experiência que o boxeador adquiriu ao longo dos anos. Além disso, sua química com Tessa Thompson novamente cativa o espectador, com os personagens se abrindo um com o outro e soando mais humanos no processo. Thompson, aliás, mais uma vez consegue fazer de Bianca uma mulher que não fica apenas apoiando o protagonista, exibindo personalidade e tendo seus próprios sonhos e frustrações. Para completar, o talentoso Jonathan Majors se revela uma boa adição ao universo da franquia, fazendo de Damian uma figura que mantém o espectador desconfiado, o que consequentemente torna a dinâmica dele com Michael B. Jordan algo cheio de tensão, mesmo quando os personagens se tratam com respeito e cumplicidade.


Enquanto isso, Michael B. Jordan mostra talento também como diretor, dedicando um bom tempo para o desenvolvimento dos dramas dos personagens e conseguindo assim manter o espectador envolvido. Mas ele merece créditos principalmente por conceber cenas de luta que fazem coisas novas dentro da franquia, usando a costumeira câmera lenta tanto para dar impacto aos golpes desferidos quanto para apontar o conhecimento do protagonista, que parece notar oportunidades para nocautear os adversários. Mas o principal momento nesse quesito certamente é aquele que traz um ringue fechado por grades e em uma arena sem público, transmitindo com eficiência como os lutadores ali presentes encaram seu embate. Esses detalhes da direção de Jordan até compensam um pouco o fato de Creed III não trazer grandes surpresas com o desenrolar de sua história, que em alguns momentos ou repete coisas que já vimos em outros exemplares (seja em filmes de Rocky ou de Creed) ou é apenas previsível.

Creed III, em suma, mantém admiravelmente a consistência da franquia. E eu não reclamarei caso o filme seja o capítulo final dessa história, até por ele trazer em seus derradeiros segundos um plano que encanta não só pela beleza da imagem ali contida, mas também porque realmente serve como um belo fim para o arco de seu ótimo protagonista.

Nota:



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Baleia

Os filmes de Darren Aronofsky não são exatamente conhecidos como experiências agradáveis para o espectador. O diretor, na verdade, criou um hábito de nos apresentar a personagens e, a partir daí, nos conduzir pela jornada de autodestruição deles, como em Pi, Réquiem Para um Sonho, O Lutador e Cisne Negro. São obras de grande densidade dramática e capazes de nos deixar angustiados por sabermos o que determinados passos representam na vida daqueles indivíduos. Este novo trabalho de Aronofsky, A Baleia, acaba sendo mais um exemplo desse seu hábito, além de colocar Brendan Fraser de volta aos holofotes após um bom tempo.

Escrito por Samuel D. Hunter a partir de sua própria peça de teatro, A Baleia nos apresenta a Charlie (Fraser), um professor universitário que perdeu o namorado há algum tempo e agora vive sob os cuidados da amiga enfermeira Liz (Hong Chau). Tais cuidados são necessários porque Charlie sofre com obesidade mórbida, vivendo em reclusão em seu pequeno apartamento. É então que ele resolve tentar se reconectar com sua filha adolescente, Ellie (Sadie Sink), procurando resolver antigas mágoas.

Desde o princípio as origens teatrais do texto de Samuel D. Hunter podem ser notadas, seja por diálogos expositivos que estabelecem detalhes do passado dos personagens ou pelo fato de o filme se situar quase todo em um único cenário (o apartamento de Charlie). Mas este ponto não chega a limitar a narrativa, com Darren Aronofsky e seu habitual diretor de fotografia Matthew Libatique optando por conceber o filme na tela com uma razão de aspecto de 1.33:1 (o clássico quadrado 4:3), que contribui para tornar opressivo o universo do protagonista, algo realçado também pela iluminação mais escura que toma seu apartamento.

Esse visual faz com que A Baleia, por vezes, pareça um filme de terror, o que não deixa de ser apropriado se pensarmos que Charlie sofre de uma espécie de maldição. Mas se engana quem acha que a maldição a qual me refiro é o estado físico e clínico do personagem, já que sua obesidade e compulsão alimentar parecem ser os resultados desta maldição. O problema de Charlie, na verdade, é pensar muito dos outros e muito pouco de si próprio. Temos aqui um personagem que não consegue evitar de pensar o melhor das pessoas, acreditando constantemente que a humanidade tem potencial para coisas maravilhosas. Não é à toa que logo nos primeiros minutos vemos ele dando uma aula (via videochamada) em que procura ajudar seus alunos a se expressarem melhor naquilo que escrevem, idealizando que eles são melhores do que imaginam. Mas ele não inclui a si próprio nessa visão de mundo. “Quem iria me querer como parte de sua vida?”, diz ele em determinado momento. E mais uma vez, não é à toa que sua câmera se mantém desligada durante suas aulas. Ao lidar com esses elementos, o roteiro naturalmente cria um embate de ideias que encontra grande peso dramático no protagonista e ressoa nos outros personagens, principalmente Liz e o jovem missionário Thomas (Ty Simpkins).


Mas boa parte do porquê de A Baleia envolver o espectador e fazê-lo se importar com seu protagonista tem nome e sobrenome: Brendan Fraser. Ator que passou anos relegado a projetos duvidosos até ter a carreira revitalizada recentemente, Fraser tem aqui uma oportunidade ímpar de brilhar e não decepciona. Por trás do excelente trabalho de maquiagem necessário para compor Charlie, o ator cria um personagem quebrado por arrependimentos e por um luto constante, que se entrega a compulsão alimentar como se acreditasse que esta é a punição que merece, seja pelo que já viveu e sofreu ou por quem é. Trata-se de um homem que está longe de ser perfeito, mas que tem também muito da honestidade que procura ver nas pessoas, e Fraser preenche com humanidade cada fala e movimento do personagem, tendo ainda uma ótima dinâmica com a sempre excelente Hong Chau, que faz de Liz uma figura que há muito já deixou de tentar evitar que o amigo se destrua, cuidando dele dentro do que pode e lhe servindo como única base de afeto. E enquanto Sadie Sink e Ty Simpkins são eficazes nos papeis de Ellie e Thomas, Samantha Morton se destaca mesmo com poucos minutos em cena, exibindo uma bela sensibilidade como Mary, a ex-esposa de Charlie.

A Baleia pode ser uma experiência triste e por vezes angustiante, mas se isso ocorre é porque Darren Aronofsky realiza aqui uma obra que transpira empatia por seu protagonista e pelas figuras ao redor dele, o que é algo bastante recompensador de ver.

Nota:



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Batem à Porta

Apesar de muitas vezes criarmos expectativas, a verdade é que é difícil saber o que esperar de uma obra de arte antes de conferi-la, principalmente se pensarmos que quase todo artista tem altos e baixos na carreira. Com um diretor como M. Night Shyamalan, essa incógnita talvez surja com mais força a cada obra que ele lança. Afinal, o que veremos será algo do calibre de O Sexto Sentido e Corpo Fechado (seus dois grandes filmes) ou outra bomba como Fim dos Tempos, Depois da Terra, Fragmentado, Tempo e outros?

Baseado no livro de Paul Tremblay, este Batem à Porta acompanha a família formada pelo casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge) e sua pequena Wen (Kristen Cui, adorável), que estão de férias em uma cabana. É quando eles são abordados por quatro indivíduos que pretendem invadir o local de qualquer forma e confrontá-los. Eles são Leonard (Dave Bautista), Sabrina (Nikki Amuka-Bird), Adriane (Abby Quinn) e Redmond (Rupert Grint), pessoas aparentemente comuns, mas que estão ali para fazer o possível para que aquela família sacrifique um de seus membros e, segundo eles, salve o resto da humanidade do apocalipse.

Por puro acaso, no dia anterior à sessão de Batem à Porta, eu conferi O Sacrifício do Cervo Sagrado, do sempre excelente Yorgos Lanthimos. E acaba sendo praticamente impossível não fazer uma comparação entre as duas produções, considerando que ambas contam histórias que colocam seres humanos recebendo a tarefa de sacrificar um ente querido em prol de algo maior. Mas se Lanthimos montava uma narrativa inquietante a partir da frieza dos personagens e de um contexto mais intimista para falar da natureza humana, Shyamalan constrói Batem à Porta lidando com ideias bíblicas que nos levam a discussões diferentes, onde algo mais amplo parece estar em jogo.


É uma pena, porém, que tais discussões não fujam muito do óbvio. Estariam Leonard e companhia acreditando em algo verdadeiro? Ou são apenas malucos conspiracionistas? E independentemente da resposta dessas questões, como atender o pedido de sacrifício para salvar a humanidade? Aliás, seria a humanidade digna de salvação? É com questões como essas que o roteiro escrito por Shyamalan e pela dupla Steve Desmond e Michael Sherman busca fomentar reflexões ao longo da projeção, mas elas não saem muito do lugar-comum ou ganham grande profundidade.

Mesmo assim, é relativamente interessante acompanhar o conflito entre as crenças do grupo invasor e o ceticismo da família, com Shyamalan conseguindo construir uma atmosfera de tensão entre os personagens na cabana, merecendo destaque o fato de o diretor manter a câmera muitas vezes próxima dos rostos dos atores, tirando espaço do cenário e tornando-o mais opressivo no processo. Contribui para essa inquietação também algumas atuações do elenco, principalmente Dave Bautista, que chama a atenção ao fazer de Leonard uma figura pacata e que mantém uma constante lamentação em seu tom de voz, aspectos que criam um contraste eficaz com seu físico imponente e ameaçador. E se Ben Aldridge mostra segurança ao encarnar a convicção de Andrew, Jonathan Groff é eficiente ao fazer de Eric um contraponto mais influenciável. Já Nikki Amuka-Bird, Abby Quinn e Rupert Grint pouco podem fazer com personagens essencialmente unidimensionais.


Mas se ao longo da narrativa Shyamalan cria alguma tensão, esta é quebrada sempre que o diretor insere flashbacks da vida de Eric e Andrew, mostrando compromissos que eles fizeram um com o outro ou como que um deles aprendeu a lutar. Mas esses são detalhes que não acrescentam nada de importante para a história, servindo apenas para tornar irregular o ritmo do filme. Além disso, apesar de a natureza bíblica das ideias do roteiro ser clara desde o princípio, Shyamalan parece não confiar na inteligência do espectador, resolvendo trazer explicações no terceiro ato que apenas martelam o óbvio e nos fazem revirar os olhos. Como se não bastasse, a resolução do filme além de não surpreender também soa um tanto anticlimática.

Talvez um elogio que eu possa fazer para Batem à Porta é que M. Night Shyamalan já fez filmes muito piores. O que não quer dizer muito levando em conta que ele também já fez filmes infinitamente melhores.

Nota:



domingo, 29 de janeiro de 2023

Os Banshees de Inisherin

Desde sua estreia como diretor há quase 20 anos no curta Six Shooter, Martin McDonagh tem se revelado um nome interessantíssimo de se acompanhar, mostrando ser um daqueles artistas capazes de criar dramas e personagens incrivelmente densos sem abrir mão de seu (muitas vezes ácido) senso de humor. Isso não é diferente neste Os Banshees de Inisherin, o quarto longa-metragem comandado por ele. Mas mesmo causando risos pontualmente, a impressão que este novo trabalho de McDonagh passa é de que se trata de sua obra mais triste até o momento, explorando a fragilidade das relações humanas e como estas movem a nossa existência.

Escrito pelo próprio McDonagh, Os Banshees de Inisherin se passa no início dos anos 1920 e traz Colin Farrell e Brendan Gleeson (parceiros habituais do diretor) nos respectivos papeis de Pádraic Súilleabháin e Colm Doherty, amigos de longa data e que vivem na ilha ficcional de Inisherin, situada próxima à Irlanda. Enquanto o primeiro é um fazendeiro que leva uma vida pacata ao lado da irmã, Siobhán (Kerry Condon), o segundo é um músico preocupado em deixar um legado. É então que Colm de um dia para o outro decide encerrar a amizade sem motivo aparente, algo que faz a vida de Pádraic virar de cabeça para baixo e impacta a vida de ambos.

E assim tem início um conflito que gera uma série de mágoas e ganha proporções cada vez maiores. Não é à toa, por sinal, que Martin McDonagh situa o filme em meio a guerra civil na Irlanda, já que assim ele pode fazer um paralelo entre as duas coisas. Claro que o tamanho de uma guerra em si é muito maior, mas isso não faz a nova relação entre Pádraic e Colm soar menos dolorosa, já que naquela pequena região o conflito entre esses dois homens é uma coisa grande que os machuca e ganha a atenção dos outros habitantes. Além disso, o diretor conduz a narrativa com sensibilidade, tendo plena noção dos sentimentos de seus personagens, sendo interessante ver ao longo do filme como, apesar dos pesares, tanto Colm quanto Pádraic mantêm algum respeito e consideração um pelo outro, o que ajuda a humaniza-los.

As atuações de Colin Farrell e Brendan Gleeson também são peças-chave para que nos conectemos com os personagens, performances estas que já se colocam entre as melhores de suas respectivas carreiras. Farrell, um ator que sempre achei subestimado, aqui faz de Pádraic um homem despreocupado e até ingênuo, que se mostra bastante conformado com a vida que leva e cuja doçura podemos ver não só em suas tentativas de falar com Colm, mas também nas relações que tem com Siobhán e com sua jumentinha Jenny, de forma que podemos afirmar que ambas sintetizam a humanidade do sujeito. Por conta disso, é justamente a jornada dele que acaba provando ser a mais triste de acompanhar. Brendan Gleeson por sua vez tem um personagem que talvez pudesse soar antipático nas mãos de um ator menos talentoso. Nas mãos dele, porém, Colm até pode ser um homem mais duro, mas nunca é insensível, de maneira que por mais drástico que ele seja com Pádraic, ainda assim é possível compreender sua posição. Mas o brilho do filme não fica restrito apenas a dupla principal, já que a excelente Kerry Condon se destaca ao viver Siobhán como uma mulher sonhadora, independente e cheia de ternura, sendo interessante notar que ela é a única personagem do filme que aparece vestindo roupas com cores quentes, o que reflete seu calor humano e a distingue dos habitantes que vivem sem perspectivas em Inisherin. Enquanto isso, Barry Kheogan rouba todas suas cenas como o jovem Dominic, sendo responsável por boa parte dos risos proporcionados pelo filme e exibindo uma excentricidade que parece mascarar uma clara vulnerabilidade.

Essencialmente, Os Banshees de Inisherin usa seu conflito central para discutir com propriedade aspectos naturais do ser humano. Frente a finitude da vida, cada um se preocupa de uma maneira com o quanto quer aproveitar essa existência e escrever uma história marcante. E assim como diversos excessos inesperados preenchem a relação de Pádraic e Colm, é inimaginável que tipo de efeito as histórias que escrevemos podem ter umas nas outras, ainda mais em um mundo no qual precisamos conviver uns com os outros.

Nota:

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Alerta Máximo

Durante a sessão de Alerta Máximo, novo trabalho protagonizado por Gerard Butler, é difícil não ter a sensação de que já vimos esse filme em algum lugar. Roteirizado por Charles Cumming e J.P. David, o longa traz Butler no papel do piloto Brodie Torrance, que está escalado para realizar um voo para Tóquio no Ano Novo, levando um grupo pequeno de passageiros e não vendo a hora de encerrar a jornada para poder passar o fim de ano com sua filha. Entre os passageiros está Louis Gaspare (Mike Coulter), um preso que está sendo extraditado depois de anos vivendo como fugitivo. Durante o voo, porém, a aeronave sofre danos por conta de uma forte tempestade, obrigando Torrance a pousar no primeiro pedaço de terra firme que surge em seu caminho. Para o azar do piloto, o local encontrado é uma ilha comandada por milicianos ao sul das Filipinas, e ele se vê tendo que se unir a Gaspare para salvar a si próprio e aos passageiros enquanto eles todos não são encontrados e resgatados.

A sensação de familiaridade do longa vem de muitos elementos. A começar por sua busca por ser um filme de ação com toques de luta pela sobrevivência, algo que basicamente o faz ser uma espécie de mistura cujos ingredientes foram obras como Força Aérea Um, Turbulência e O Voo da Fênix, com o roteiro não conseguindo desenvolver algum frescor no meio disso. Isso serve também para os personagens, que quando desenvolvidos trazem dramas ou histórias pessoais bastante batidas. E quando falo desse desenvolvimento de personagens, isso se refere exclusivamente a Torrance e Gaspare, já que o resto dos passageiros e os vilões são figuras por vezes irritantemente unidimensionais e estereotipadas. Em determinado momento, os vilões só faltam dizer que são maus apenas porque são (e gostam de ser) maus, enquanto os passageiros se revelam do tipo que não fariam falta caso tivessem morrido durante a tensão no avião.


Mas Alerta Máximo provavelmente nem foi produzido com o intuito de fazer coisas diferentes com suas referências, querendo ser apenas um filme de ação que entretenha. Nesse sentido, o diretor Jean-François Richet (que lembro do bom remake de Assalto ao 13º DP e do mediano Herança de Sangue, com Mel Gibson) faz um trabalho eficaz na condução da narrativa, de forma que mesmo com o roteiro irregular o longa nunca chega a ser uma experiência chata de se acompanhar, prendendo a atenção em suas sequências de ação. Há uma cena em particular que se destaca ao trazer uma luta filmada em um longo plano sem cortes aparentes, mostrando de maneira bem crua os esforços dos personagens para acabar um com o outro. Além disso, Gerard Butler e Mike Coulter exibem carisma interpretando Torrance e Gaspare, conseguindo ainda criar entre os personagens uma dinâmica que torna possível torcer para que eles tenham algum sucesso em seus objetivos.

Tendo em vista que o astro Gerard Butler com alguma frequência protagoniza bombas como Deuses do Egito e Tempestade, talvez possamos dizer que algo relativamente eficiente como Alerta Máximo seja lucro. Trata-se de um clássico filme que chega ao fim deixando uma sensação de que deu para o gasto.


Nota: