sexta-feira, 20 de outubro de 2023

47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - 1ª Parte

Em meio ao susto com o tamanho de São Paulo, ansiedade e pensamentos de “O que diabos estou fazendo aqui?”, finalmente dei início a essa aguardada cobertura da 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Um início bem leve com apenas três filmes, servindo como uma espécie de aquecimento para a correria que esses dias prometem ser.

Sem mais delongas, esses são os três primeiros filmes que conferi:

Portavoz (Passe-parole, 2023), de Mario Valero:

Situado entre as cidades de Paris, Marselha e Bruxelas entre 2019 e 2020, Portavoz mistura ficção e imagens documentais para fazer um retrato de um grupo de amigos, principalmente o casal Pierre e Mila (Hugues Perrot e Elise Vilain-Gosselin, respectivamente), enquanto vivem cotidianos bastante comuns com seus trabalhos, ideias e relacionamentos.

Partindo disso, o filme tem um ou outro momento interessante, como a cena em que duas mulheres cantam a música que surge pontualmente ao longo da história. Mas a mistura entre ficção e documentário, que é curiosa como ideia, cria um problema difícil de ignorar, já que infelizmente o diretor Mario Valero não consegue usar o recurso para que ambos os aspectos da narrativa se potencializem, de forma que o documental artificializa o ficcional. Sem falar que os personagens não se mostram tão cativantes, mesmo levando rotinas com as quais poderíamos nos identificar.

Nota: 

Gamodi (2023), de Felix Kalmenson:

Outro filme que se constrói no meio da pandemia, dessa vez em Tiblissi (capital da Geórgia), Gamodi foca sua narrativa em Victor (Matta Shally), uma drag queen que faz sucesso na TV, e no adolescente sem teto Tarzan. Ambos buscam lidar como podem com realidades bastante sombrias e que parecem piorar devido ao isolamento imposto pelo contexto do mundo, tendo como principal cenário um prédio que aparenta ou ser uma obra inacabada ou estar apenas caindo aos pedaços.

Dirigido por Felix Kalmenson, Gamodi praticamente não conta com diálogos ao longo da trama, mas ainda demonstra ter algo a dizer com sua narrativa, fazendo de certa forma uma reflexão em cima de ilusões que criamos e a realidade que encaramos. É algo bem ilustrado em uma longa cena em que vemos o programa de Victor na televisão, repleto de cores quentes e animação, enquanto ele fuma no canto de uma sala escura e sem vida, ou quando Tarzan encontra o projeto do prédio, mostrando como aquele lugar foi imaginado e o quão longe isso está da realidade.

É uma pena, porém, que tudo o que o diretor tem a dizer com essas reflexões já fique dito na metade do filme, fazendo a segunda metade da projeção se estender mais do que precisava enquanto a história fica sem ter muito pra onde ir, o que tira um pouco da força do que vinha sendo construído.

Nota: 


The Royal Hotel (2023), de Kitty Green:

Filme que reúne a diretora Kitty Green e a atriz Julia Garner após elas terem feito A Assistente, The Royal Hotel é um thriller que busca criar tensão ao jogar suas protagonistas no meio de um cenário dominado pela masculinidade. Inspirado pelo documentário Hotel Coolgardie (que não assisti), o filme nos apresenta a Hanna e Liv (vividas por Garner e Jessica Henwick, respectivamente), duas jovens que estão fazendo um mochilão pela Austrália. Mas quando se veem absolutamente sem dinheiro, elas acabando aceitando ir trabalhar como garçonetes no Royal Hotel, um bar no meio do nada, movimentado no pior sentido da palavra e habitado majoritariamente por homens que claramente não inspiram confiança – isso quando não são abertamente babacas.

E trata-se de um longa eficaz naquilo que se propõe, com Kitty Green usando a bagunça do estabelecimento e os abusos que ali ocorrem para criar uma atmosfera inquietante que percorre a narrativa praticamente o tempo inteiro. O grande mérito do filme, aliás, é passar para o público a impressão de que algo horrível está prestes a acontecer a qualquer momento, de maneira que é difícil não sentir alguma coisa errada naquela situação mesmo quando estamos diante de algo tranquilo como um banho em uma cachoeira.

Contribui muito para isso também o trabalho de Julia Garner e Jessica Henwick, cujas personagens não conhecemos de maneira muito aprofundada ao longo da história, mas têm personalidades completamente diferentes e que se chocam quando menos esperamos. Garner em particular se destaca ao fazer de Hanna uma figura que, mesmo frágil, mostra um grande esforço para se impor diante dos homens nojentos que ficam ao seu redor.

The Royal Hotel pode frustrar com algumas soluções da trama, que não chegam a ser tão catárticas, mas ainda assim a apreensão que sentimos pelas personagens acaba valendo o filme.

Nota: 


sábado, 14 de outubro de 2023

Linguagem Cinéfila estará na 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Apesar de ter este blog e escrever sobre cinema há quase 15 anos, minha experiência cobrindo festivais de cinema é escassa. É um compromisso difícil de assumir, seja por questões financeiras ou logísticas. Se posso dizer que cobri o Fantaspoa de 2020 ou que fiz parte do júri do Levante, festival de Pelotas, em 2021, isso se deve porque foram eventos online durante a maior pandemia do último século. Mas sempre tive vontade de sair da minha cidade (Porto Alegre) exclusivamente para cobrir um festival de cinema.

Essa vontade virou projeto para 2023. “Por que não pego uma parte de minhas economias e invisto nisso?”, pensei. E agora que as coisas que eu vinha planejando se confirmaram, posso compartilhar que estarei com o Linguagem Cinéfila cobrindo a 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Estou indo de maneira totalmente independente, com a esperança de não só ter uma experiência profissional e pessoal enriquecedora (será inclusive a primeira vez que viajarei sozinho), mas também de criar um conteúdo legal sobre os filmes que serão exibidos. É algo que tentarei encarar ainda como umas merecidas férias, mesmo que eu esteja longe de ir lá para passear.

Usarei as redes sociais para divulgar a cobertura o máximo possível. Criei um novo perfil do blog no Instagram (sigam aqui) e o usarei junto com meus perfis no Twitter (aqui) e no Letterboxd (aqui) para falar sobre os filmes e avisar sobre novas postagens. E como estou indo de maneira independente, peço apenas uma ajuda nessa parte da divulgação: compartilhem os posts. Quanto mais pessoas forem alcançadas, mais bacana essa experiência será.

Espero que gostem.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Retratos Fantasmas

Astor, Central, Imperial, Guarany, São João, Vogue, Cacique, Ritz, Rosário, Presidente...

Esses são nomes de alguns dos cinemas de rua que por décadas marcaram presença no cenário de Porto Alegre, mas que com o passar do tempo e a chegada de negócios que se tornaram mais populares (como os cinemas de shopping) acabaram perdendo espaço na cidade. Se formos ver hoje os lugares onde estes cinemas estavam, talvez nem consigamos ver sinais de que eles existiram, já que muitos deram lugar a coisas que nada tem a ver com exibições cinematográficas. Tais sinais talvez só sejam encontrados em velhas fotografias e nas memórias de quem os frequentava (anos atrás, por exemplo, escrevi brevemente sobre uma experiência que meu pai teve no São João). Apesar de eu nunca ter frequentado esses cinemas, tendo nascido logo quando os cinemas de shopping já haviam se estabelecido, foi inevitável lembrar deles ao longo da sessão de Retratos Fantasmas, documentário de Kleber Mendonça Filho.

Em Retratos Fantasmas, o diretor faz um verdadeiro resgate histórico dos cinemas de rua de Recife, relembrando a popularidade que tinham ao mesmo tempo em que ele faz uma conexão entre esses espaços e sua própria vida e formação cinematográfica. A partir daí, Kleber Mendonça Filho realiza um filme que fala muito sobre como nós temos a capacidade de nos conectarmos a determinados espaços (sejam eles cinemas ou simplesmente as nossas casas) e como, dessa forma, tais espaços acabam ajudando a formar os seres humanos que somos. É algo que o diretor ilustra através de histórias sobre os cinemas (aliás, as imagens de arquivo que ele traz são um primor) e falando até sobre a evolução de sua própria casa, exibindo cenas de curtas que ele dirigiu na residência. Mas essas experiências que ele relata soam tão cotidianas que acaba sendo difícil para o espectador não relacionar com suas próprias experiências de vida e espaços que frequentou. Sendo assim, Kleber Mendonça Filho merece créditos por conseguir tornar universal um projeto que poderia soar puramente pessoal.

Mas, como bem sabemos, são poucos os cinemas de rua que ainda estão firmes no Brasil, de maneira que o destino daqueles de Recife não é muito diferente daqueles de Porto Alegre (e arrisco dizer que isso vale para o país todo). Tendo isso em mente, Kleber Mendonça Filho não deixa de trazer para o centro de sua narrativa uma discussão sobre preservação da memória, focando muito no nosso descaso, já que não é incomum a sociedade escantear ou até abrir mão de determinados lugares mesmo que eles tenham uma importância inegável, fazendo eles se tornarem fantasmas nas áreas em que se situavam. E o diretor pode até iniciar a discussão em um ponto (no caso, os cinemas), mas podemos facilmente incluir outros espaços na conversa, como parques, bibliotecas, teatros e universidades, o que contribui ainda mais com a universalidade da narrativa que ele concebe.

Retratos Fantasmas é nada menos que brilhante. Um filme que serve tanto como um documento histórico quanto como uma celebração da memória e do cinema como espaço de imaginação. Até por isso é ideal que Kleber Mendonça Filho encerre o filme com uma sequência divertidíssima que, situada dentro de um carro, ilustra muito bem o tipo de criatividade que apenas o cinema (como arte ou como espaço físico) pode nos proporcionar em toda sua potencialidade.

Nota:



terça-feira, 5 de setembro de 2023

A Chamada

Recentemente resolvi assistir a Legado Explosivo, um dos vários filmes de ação que Liam Neeson estrelou nos últimos anos. Não darei spoilers, ainda que o longa não seja daqueles que precise ser preservado, mas em determinado momento na história um personagem se vê preso dentro de seu carro, já que há uma bomba embaixo do banco que será acionada caso ele se levante para sair dali. Coincidência ou não, este novo filme protagonizado por Neeson, A Chamada, basicamente não deixa de ser uma versão estendida dessa cena.

Refilmagem do filme espanhol El Desconocido (que não assisti), A Chamada traz Neeson no papel de Matt Turner, um executivo de banco morando na Alemanha e (no modo mais clichê) dá atenção excessiva ao trabalho, relegando sua família. Um dia ele está em seu carro levando seus filhos, Zach e Emily (Jack Champion e Lilly Aspel, respectivamente), para a escola. O que ele não esperava era que durante o trajeto ele receberia uma ligação avisando que há uma bomba no carro, que explodirá caso ele ou seus filhos saiam do veículo e não façam tudo o vilão lhes mandar fazer.

Apesar de o conceito por trás do filme não ser nada novo, lembrando produções como Velocidade Máxima, é preciso dizer que ele é simples o bastante para poder render algo eficaz. Aliás, o próprio Liam Neeson protagonizou Sem Escalas, um longa que não é grande coisa, mas ainda funciona ao colocar o ator em um avião e precisando obedecer ao vilão a fim de salvar os passageiros. Mas A Chamada desde o princípio se mostra distante de conseguir entreter o espectador, conseguindo falhar até mesmo no que deveria ser básico em uma produção como essa: fazer o público se importar com os personagens, que se revelam medíocres. Matt Turner, para começo de conversa, é um marido e pai ausente que faz seu banco ganhar dinheiro mesmo que isso signifique fazer seus clientes perderem fortunas (em determinado momento ele é até descrito como “um orgulho para o capitalismo”). Já seus filhos nos fazem revirar os olhos com suas rebeldias adolescentes e bobas, como ao não gostarem que desliguem seus celulares, sendo que Zach ainda chama o pai pelo nome (um dos clichês que, ao menos para mim, automaticamente estabelece um personagem como uma criatura irritante). E é claro que o arco narrativo ao longo do filme é fazer os personagens mudarem diante da situação de risco em que se encontram, mas a verdade é que além de essa ideia ser tediosamente óbvia, os sinais de evolução dessas figuras são superficiais no máximo, e nem um ator talentoso como Liam Neeson consegue salvar.

Sendo assim, ao invés de torcermos para que os personagens sobrevivam, o único desejo que surge durante a projeção é que o carro exploda de uma vez e encurte a história. Possivelmente isso faria até com que não precisássemos ser guiados pela direção de Nimród Antal, que é burocrática no melhor dos casos, não conseguindo criar tensão em momento algum, nem criar sequências de ação minimamente envolventes (as perseguições com o carro chegam a ser risíveis). Aliás, permitam-me dizer que torcer para a bomba explodir não necessariamente significa torcer pelo vilão, já que até mesmo ele se mostra uma figura estúpida, algo que piora quando vemos o roteiro tentar fazer o personagem parecer muito inteligente, fazendo-o gritar que “pensou em tudo” e “está muitos passos a frente dos outros” mesmo que, na verdade, seu plano seja pavorosamente ruim.

Se Liam Neeson não fosse o protagonista, creio que A Chamada seria um daqueles filmes que nem são exibidos nos cinemas, sendo jogados direto na obscuridade do mercado de video-on-demand. Trata-se de uma experiência sem a menor graça, com reviravoltas previsíveis que fazem jus a pobreza criativa que vemos durante toda a narrativa.

Nota:



quarta-feira, 30 de agosto de 2023

As Tartarugas Ninja: Caos Mutante

Dentre todos os filmes produzidos sobre as Tartarugas Ninja, sejam eles longas em live-action ou animações, a palavra “adolescentes” que os personagens exibem em seu título original (“Teenage” Mutant Ninja Turtles) raramente tinha algum sentido na tela. Não que isso fosse um problema grave naquelas produções, que tinham suas próprias propostas narrativas, mas é um aspecto com o qual o diretor Jeff Rowe (que codirigiu o ótimo A Família Mitchell Contra as Máquinas) e os produtores (dentre eles a dupla Seth Rogen e Evan Goldberg) claramente se preocuparam mais na hora de realizar um novo filme focado na equipe. E o resultado é este As Tartarugas Ninja: Caos Mutante.

O roteiro parte da premissa que já conhecemos: Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello são tartarugas que moram com seu pai e mentor, o rato Splinter, nos esgotos de Nova York depois de terem tido contato com uma gosma mutagênica, vivendo escondidos da sociedade. Mas o quarteto sonha em ser aceito pelos humanos. Para isso, com a ajuda da jovem aspirante a jornalista April O’Neil, eles resolvem utilizar suas habilidades em artes marciais para tentar capturar uma gangue que está aterrorizando a cidade. Eles são pegos de surpresa, porém, quando os bandidos revelam ser animais mutantes como eles, liderados pela figura do Super-Mosca.

É interessante notar como a adolescência das tartarugas surge não tanto pela faixa etária em que elas estão e pela dinâmica que exibem umas com as outras, mas sim pelo que aspiram viver. Com o obscurantismo guiando e limitando suas rotinas, o roteiro desenvolve com naturalidade o fato de eles desejarem ser adolescentes normais que vão à escola, estudam, têm amigos e vivem as experiências comuns dessa fase. Dessa forma, o filme até dialoga com produções como aquelas dirigidas por John Hughes nos anos 1980 (Curtindo a Vida Adoidado até aparece em uma sessão de cinema), trazendo em seu centro personagens que querem viver sua adolescência por saberem a importância dela para sua formação humana, o que é uma grata surpresa considerando que estamos falando de tartarugas que sabem artes marciais, um conceito com o qual o filme poderia se dar por satisfeito.


Já visualmente As Tartarugas Ninja: Caos Mutante é encantador, com Jeff Rowe e sua equipe concebendo o design dos cenários e dos personagens em um formato 2D que lembra páginas de histórias em quadrinhos, o que reverencia o próprio material de origem do filme, além de mostrar que longas como Homem-Aranha no Aranhaverso talvez já estejam fazendo escola. E o filme ainda abraça com gosto certos absurdos. Talvez pudéssemos questionar de onde Donatello tirou seus óculos ou como Michelangelo colocou aparelho nos dentes, mas esses detalhes não são nada quando vemos que o filme já parte da premissa de um rato que ensina tartarugas a lutar, de forma que quaisquer outros absurdos servem até para pincelar a liberdade criativa de Jeff Rowe ao dar vida aos personagens. Além disso, as cenas de ação ganham a tela de maneira ágil, merecendo destaque a sequência em que acompanhamos intercaladamente cada um dos protagonistas ir atrás de chefões do crime, um momento que brilha pela continuidade visual que mantém entre cenas.

Ainda que o roteiro com alguma frequência se revele expositivo e trate de maneira repetitiva a questão do preconceito enfrentado pelos personagens, não fugindo muito do lugar-comum, As Tartarugas Ninja: Caos Mutante mostra ser um longa digno dos personagens divertidos que retrata, algo que eles estavam precisando tendo em vista que as últimas empreitadas deles nos cinemas não haviam sido muito interessantes.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.


Nota:

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Barbie vs. Oppenheimer: O Fenômeno Barbenheimer

Acho que fazia algum tempo desde a última vez que dois filmes assumiram o protagonismo em uma semana de estreia como está ocorrendo com Barbie e Oppenheimer, duas obras totalmente diferentes e que, em qualquer outro momento, possivelmente estreariam com certa distância uma da outra, a fim de não prejudicar seus respectivos resultados de bilheteria. Mas “Barbenheimer” (como esse evento está sendo chamado) acabou fazendo bem para ambos os filmes, possivelmente dando-lhes muito mais atenção do que receberiam normalmente. E apesar do título deste texto apontar para algum tipo de disputa ou comparação, não é isso que pretendo fazer. Até porque os dois filmes me agradaram imensamente e por virtudes completamente diferentes.

Começarei por Oppenheimer porque foi o primeiro que consegui assistir. O longa é um retorno a boa forma para Christopher Nolan, um diretor que admiro, mas que escorregou em sua última empreitada, o medíocre e aborrecido Tenet. No filme, Nolan acompanha a vida de J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) a partir de duas linhas narrativas: a primeira (em cores) acompanha o protagonista de forma mais subjetiva, seguindo desde seus passos iniciais como físico até a liderança que exerceu no Projeto Manhattan e na criação da bomba atômica, enquanto a segunda (em preto e branco) se passa em meio a Guerra Fria e mostra as divergências que Oppenheimer veio a ter em relação ao uso da arma e os julgamentos aos quais foi submetido, algo que também é mostrado pelo ponto de vista de outros personagens, em especial Lewis Strauss (Robert Downey Jr.), membro do Comitê de Energia Atômica.

Christopher Nolan faz uma cinebiografia que mostra riqueza não só na figura de Robert Oppenheimer, mas também em todas as discussões morais e políticas que a criação e o uso da bomba atômica vieram a trazer para muito além do contexto que todos viviam. Não são discussões que o roteiro traz superficialmente ou martelando respostas fáceis, com Nolan desenvolvendo tudo com inteligência e colocando em xeque até mesmo intenções que podem parecer boas em teoria (“Não sei se nós somos confiáveis com tal arma. Mas sei que os nazistas não são”, diz o protagonista em determinado momento), mas que no fundo não deixam de abrir portas para o caos. Para completar, a narrativa concebida por Nolan é muito consistente, intercalando muito bem os dois pontos da história, de forma que o espectador nunca fica confuso com o desenrolar dos acontecimentos ao mesmo tempo em que o cineasta gera tensão a partir de diversas situações, e nisso é preciso aplaudir também tanto o trabalho da montadora Jennifer Lame quanto a trilha composta por Ludwig Göransson.


Mas seria impossível falar de Oppenheimer sem mencionar o trabalho absolutamente brilhante de Cillian Murphy, que consegue projetar desde a confiança e o narcisismo do personagem-título até a angústia que ele passa a sentir em relação ao que construiu (e seguindo a subjetividade da narrativa, vale dizer que o filme não tenta diminuir a responsabilidade do sujeito nas tragédias de Hiroshima e Nagazaki). Além disso, Murphy ainda conta com um elenco de apoio fabuloso, de forma que se eu for mencionar todo mundo esse texto não irá acabar. Por isso destacarei apenas dois nomes: Emily Blunt e Robert Downey Jr. No papel de Kitty Oppenheimer, esposa do protagonista, Blunt cria uma personagem resiliente e que muitas vezes demonstra ter mais força do que o próprio marido, ao passo que Downey Jr. faz de Lewis Strauss um homem cuja influência política rivaliza com sua aparente inveja e insegurança, o que o torna uma versão de Antonio Salieri frente ao Mozart representado por Robert Oppenheimer (lembrando a obra-prima Amadeus).

Já Barbie... Bem, adaptando um pouco uma fala de Anton Ego (o maravilhoso crítico de Ratatouille), o filme fez eu pensar que “nem toda obra pode ser excelente, mas uma excelente obra pode vir de qualquer lugar”. Digo isso porque não é particularmente comum ver uma produção baseada numa linha de brinquedos ter tanto a dizer, e se isso ocorre em Barbie acho que Greta Gerwig é a maior responsável. No longa, Barbie (vivida por Margot Robbie) é uma figura que tem uma vida perfeita na Barbielândia ao lado de suas amigas Barbies e vários Kens (o principal deles sendo vivido por Ryan Gosling). E o roteiro coescrito por Gerwig e Noah Baumbach começa a encontrar sua razão de ser quando a personagem-título se vê diante de uma crise existencial, precisando vir com Ken até o nosso mundo a fim de resolver o problema, que parece apenas piorar quando ela se depara com uma realidade essencialmente patriarcal, o oposto da Barbielândia.

Acho que a melhor forma que encontrei para descrever Barbie é que se trata de uma obra muito consciente. Consciente de suas origens, de seu contexto e que sabe trabalhar esses aspectos inteligentemente. O roteiro de Gerwig e Baumbach não tem medo de apontar o dedo para a própria boneca Barbie (e para a Mattel, empresa que a produz) e questionar o quanto ela contribuiu para o desenvolvimento de padrões que até podem se encaixar em uma Barbielândia, mas soam como mentiras no mundo real quando olhamos a desigualdade enfrentada pela parcela feminina da sociedade. Nesse sentido, é impossível não destacar o discurso feito em determinado momento por Gloria (interpretada pela ótima America Ferrera), palavras que além de cumprirem uma função bacana na história ainda escancaram a visão que a sociedade frequentemente tem e impõe às mulheres. E por apresentar dois universos distintos, o filme chama atenção quanto aos paralelos entre eles (principalmente na inversão de papeis na Barbielândia, onde as Barbies reinam e se apoiam enquanto os Kens ou tem pouco espaço, ou não tem tanto valor ou vivem em função das Barbies) e o quanto um é capaz de influenciar o outro, sem falar que Greta Gerwig ainda cria um contraste visual e físico entre os dois mundos que é muito apropriado.


São ideias muito ricas e que vêm embaladas num pacote de fantasia e comédia que envolve o espectador do início ao fim, seja pelas piadas divertidíssimas, pela direção ágil de Gerwig ou pelo elenco encantador liderado por Margot Robbie e Ryan Gosling. Aliás, enquanto Robbie gradualmente imprime personalidade a Barbie, conseguindo ressaltar a humanidade da personagem em cada passo e em cada dúvida que surge ao longo de sua jornada, Gosling usa a falta de personalidade de Ken como um fio condutor do personagem, que assim se torna um receptáculo de imposições patriarcais que mascaram sua insegurança. E ambos os intérpretes surgem em cena repletos de carisma e exibindo um timing cômico impecável.

De um lado, uma grandiosa (em vários sentidos) cinebiografia realizada por um diretor já muito bem estabelecido como um grande nome. Do outro, uma obra surpreendente e prazerosa que mostra que Greta Gerwig é uma cineasta cada vez mais interessante. E enquanto o cinema como indústria agradece o sucesso de ambos os trabalhos, creio que podemos dizer que o espectador também sai feliz por ver que a sessão dupla de “Barbenheimer” no fim das contas envolve dois dos melhores filmes de 2023.

Nota (para os dois filmes):



quarta-feira, 12 de julho de 2023

Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte Um

Relendo críticas que escrevi anos atrás sobre filmes de Missão Impossível, uma coisa que sempre aponto é a minha surpresa de ver como a consistência da série segue firme mesmo depois de tantos anos. É uma franquia admirável na qual Tom Cruise e sua equipe parecem sempre determinados a tentar fazer um capítulo superar o outro. E em meio a esses esforços, o longa mais recente, Efeito Fallout, se mostrou uma obra-prima difícil de ser superada dentro da franquia, mas isso não impede Cruise de tentar. E o resultado é essa primeira parte de Missão Impossível: Acerto de Contas, que não chega a igualar o capítulo anterior, mas ainda assim é uma obra que impressiona em vários momentos.

Escrito por Erik Jendrensen e pelo diretor Christopher McQuarrie, Acerto de Contas – Parte Um coloca Ethan Hunt (Cruise) precisando recuperar as duas metades de uma chave. Mas claro que isso não é tão fácil quanto parece, já que o objeto dá acesso a uma inteligência artificial chamada de A Entidade, que atrai o interesse de muitas pessoas e cujo poder pode colocar em risco o mundo inteiro (detalhe que o roteiro aponta frequentemente, naquele que talvez seja seu maior problema). Tendo esse perigo em mente, Hunt decide se rebelar novamente contra a IMF a fim de tentar destruir A Entidade, o que o coloca no caminho de Gabriel (Esai Morales), um antigo e misterioso colega que tem interesse em controlar a inteligência artificial. No processo, Hunt ainda bate de frente com Grace (Hayley Atwell), uma ladra que mal sabe onde está se metendo. E claro que a única ajuda que o sujeito tem para realizar a missão é a de seus fiéis aliados Luther Stickel (Ving Rhames), Benji Dunn (Simon Pegg) e Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).


É uma história típica de Missão Impossível, com vários elementos que são de praxe na franquia e que podem apontar que ela talvez não funcione de outra forma, precisando sempre colocar o protagonista e sua equipe na posição de renegados que devem realizar uma missão que sempre parece próxima de dar errado (e que envolve um objeto que pode ser perigoso se cair nas mãos erradas). É tão comum que até os personagens já reconhecem como todas essas coisas parecem ser parte integral de suas rotinas. Mas é preciso dizer que, apesar da fórmula ser facilmente reconhecível, Christopher McQuarrie (o diretor mais longevo na franquia, o que faz eu pensar que Tom Cruise encontrou um cineasta tão maluco quanto ele) consegue fazer com que tudo tenha algum frescor e que o espectador fique na ponta da cadeira, seja pela tensão ou pela mera curiosidade de ver se os personagens conseguirão fazer o que planejam.

Muito disso se deve ainda a ameaça escolhida para essa missão. E não me refiro a personagens humanos, apesar de estes também renderem uma bela dor de cabeça para o protagonista, mas sim à A Entidade. Além de mostrar um timing preciso por parte dos realizadores (considerando as várias discussões que têm surgido ultimamente quanto ao uso desse tipo de tecnologia), a inteligência artificial enfrentada por Hunt e sua equipe dá início a um jogo de gato e rato que tem um bom grau de imprevisibilidade, já que o algoritmo da Entidade sempre parece estar muitos passos à frente do protagonista, consequentemente aumentando os riscos da missão e a tensão provocada pela narrativa. Como se não bastasse, a presença do ótimo Esai Morales como Gabriel, o principal vilão humano da história, funciona muito por conta de ele ser o mais próximo de uma representação da Entidade, ficando sempre por dentro do que é calculado pelo algoritmo e soando mais perigoso por conta disso.

Mas talvez as ameaças não fossem tão eficazes caso não nos importássemos com os personagens, o que sempre ocorreu na franquia e em Acerto de Contas – Parte Um não é diferente. Aliás, uma das coisas mais perceptíveis ao longo da série Missão Impossível é como Ethan Hunt cria laços cada vez mais fortes com sua equipe, a ponto de a partir do quinto filme ele poder dizer que tem um grupo de amigos com os quais se importa (e vice-versa). E a base emocional da narrativa desse sétimo exemplar reside principalmente na dinâmica que ele constrói com os talentosos Simon Pegg, Ving Rhames e Rebecca Ferguson, cujos ótimos personagens frequentemente são usados para ressaltar a humanidade do protagonista e manter os pés dele no chão enquanto tenta salvar o mundo.

Todos esses elementos ajudam a fazer com que a narrativa envolva o espectador enquanto as sequências de ação são costuradas umas nas outras pela trama, sequências estas que mais uma vez são conduzidas com competência por Christopher McQuarrie, que vem mostrando ser um diretor de ação muito confiável (vide não só Missão Impossível, mas também o primeiro Jack Reacher). McQuarrie concebe sequências cuja escala vai aumentando gradualmente durante o filme, formando uma estrutura em que o ritmo da narrativa segue uma crescente até chegar em seu ápice no terceiro ato, quando o diretor e Tom Cruise decidem deixar a sanidade de lado. Esse ritmo também merece ser creditado a ótima montagem de Eddie Hamilton, que ainda faz um trabalho notável em momentos em que precisa intercalar ações que ocorrem ao mesmo tempo, o que contribui com a tensão do filme, como pode ser visto por exemplo na sequência situada no aeroporto de Abu Dhabi.

Se juntando a Homem-Aranha Através do Aranhaverso no grupo de filmes de 2023 que se apresentam como a primeira parte de uma história, mas que sabe encerrar seu arco narrativo concluindo os pontos que precisa e criando uma curiosidade natural quanto a vindoura continuação, Missão Impossível: Acerto de Contas – Parte Um mantém o alto nível de uma franquia que parece não cansar de empolgar o público.

Nota: