quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Retratos Fantasmas

Astor, Central, Imperial, Guarany, São João, Vogue, Cacique, Ritz, Rosário, Presidente...

Esses são nomes de alguns dos cinemas de rua que por décadas marcaram presença no cenário de Porto Alegre, mas que com o passar do tempo e a chegada de negócios que se tornaram mais populares (como os cinemas de shopping) acabaram perdendo espaço na cidade. Se formos ver hoje os lugares onde estes cinemas estavam, talvez nem consigamos ver sinais de que eles existiram, já que muitos deram lugar a coisas que nada tem a ver com exibições cinematográficas. Tais sinais talvez só sejam encontrados em velhas fotografias e nas memórias de quem os frequentava (anos atrás, por exemplo, escrevi brevemente sobre uma experiência que meu pai teve no São João). Apesar de eu nunca ter frequentado esses cinemas, tendo nascido logo quando os cinemas de shopping já haviam se estabelecido, foi inevitável lembrar deles ao longo da sessão de Retratos Fantasmas, documentário de Kleber Mendonça Filho.

Em Retratos Fantasmas, o diretor faz um verdadeiro resgate histórico dos cinemas de rua de Recife, relembrando a popularidade que tinham ao mesmo tempo em que ele faz uma conexão entre esses espaços e sua própria vida e formação cinematográfica. A partir daí, Kleber Mendonça Filho realiza um filme que fala muito sobre como nós temos a capacidade de nos conectarmos a determinados espaços (sejam eles cinemas ou simplesmente as nossas casas) e como, dessa forma, tais espaços acabam ajudando a formar os seres humanos que somos. É algo que o diretor ilustra através de histórias sobre os cinemas (aliás, as imagens de arquivo que ele traz são um primor) e falando até sobre a evolução de sua própria casa, exibindo cenas de curtas que ele dirigiu na residência. Mas essas experiências que ele relata soam tão cotidianas que acaba sendo difícil para o espectador não relacionar com suas próprias experiências de vida e espaços que frequentou. Sendo assim, Kleber Mendonça Filho merece créditos por conseguir tornar universal um projeto que poderia soar puramente pessoal.

Mas, como bem sabemos, são poucos os cinemas de rua que ainda estão firmes no Brasil, de maneira que o destino daqueles de Recife não é muito diferente daqueles de Porto Alegre (e arrisco dizer que isso vale para o país todo). Tendo isso em mente, Kleber Mendonça Filho não deixa de trazer para o centro de sua narrativa uma discussão sobre preservação da memória, focando muito no nosso descaso, já que não é incomum a sociedade escantear ou até abrir mão de determinados lugares mesmo que eles tenham uma importância inegável, fazendo eles se tornarem fantasmas nas áreas em que se situavam. E o diretor pode até iniciar a discussão em um ponto (no caso, os cinemas), mas podemos facilmente incluir outros espaços na conversa, como parques, bibliotecas, teatros e universidades, o que contribui ainda mais com a universalidade da narrativa que ele concebe.

Retratos Fantasmas é nada menos que brilhante. Um filme que serve tanto como um documento histórico quanto como uma celebração da memória e do cinema como espaço de imaginação. Até por isso é ideal que Kleber Mendonça Filho encerre o filme com uma sequência divertidíssima que, situada dentro de um carro, ilustra muito bem o tipo de criatividade que apenas o cinema (como arte ou como espaço físico) pode nos proporcionar em toda sua potencialidade.

Nota:



terça-feira, 5 de setembro de 2023

A Chamada

Recentemente resolvi assistir a Legado Explosivo, um dos vários filmes de ação que Liam Neeson estrelou nos últimos anos. Não darei spoilers, ainda que o longa não seja daqueles que precise ser preservado, mas em determinado momento na história um personagem se vê preso dentro de seu carro, já que há uma bomba embaixo do banco que será acionada caso ele se levante para sair dali. Coincidência ou não, este novo filme protagonizado por Neeson, A Chamada, basicamente não deixa de ser uma versão estendida dessa cena.

Refilmagem do filme espanhol El Desconocido (que não assisti), A Chamada traz Neeson no papel de Matt Turner, um executivo de banco morando na Alemanha e (no modo mais clichê) dá atenção excessiva ao trabalho, relegando sua família. Um dia ele está em seu carro levando seus filhos, Zach e Emily (Jack Champion e Lilly Aspel, respectivamente), para a escola. O que ele não esperava era que durante o trajeto ele receberia uma ligação avisando que há uma bomba no carro, que explodirá caso ele ou seus filhos saiam do veículo e não façam tudo o vilão lhes mandar fazer.

Apesar de o conceito por trás do filme não ser nada novo, lembrando produções como Velocidade Máxima, é preciso dizer que ele é simples o bastante para poder render algo eficaz. Aliás, o próprio Liam Neeson protagonizou Sem Escalas, um longa que não é grande coisa, mas ainda funciona ao colocar o ator em um avião e precisando obedecer ao vilão a fim de salvar os passageiros. Mas A Chamada desde o princípio se mostra distante de conseguir entreter o espectador, conseguindo falhar até mesmo no que deveria ser básico em uma produção como essa: fazer o público se importar com os personagens, que se revelam medíocres. Matt Turner, para começo de conversa, é um marido e pai ausente que faz seu banco ganhar dinheiro mesmo que isso signifique fazer seus clientes perderem fortunas (em determinado momento ele é até descrito como “um orgulho para o capitalismo”). Já seus filhos nos fazem revirar os olhos com suas rebeldias adolescentes e bobas, como ao não gostarem que desliguem seus celulares, sendo que Zach ainda chama o pai pelo nome (um dos clichês que, ao menos para mim, automaticamente estabelece um personagem como uma criatura irritante). E é claro que o arco narrativo ao longo do filme é fazer os personagens mudarem diante da situação de risco em que se encontram, mas a verdade é que além de essa ideia ser tediosamente óbvia, os sinais de evolução dessas figuras são superficiais no máximo, e nem um ator talentoso como Liam Neeson consegue salvar.

Sendo assim, ao invés de torcermos para que os personagens sobrevivam, o único desejo que surge durante a projeção é que o carro exploda de uma vez e encurte a história. Possivelmente isso faria até com que não precisássemos ser guiados pela direção de Nimród Antal, que é burocrática no melhor dos casos, não conseguindo criar tensão em momento algum, nem criar sequências de ação minimamente envolventes (as perseguições com o carro chegam a ser risíveis). Aliás, permitam-me dizer que torcer para a bomba explodir não necessariamente significa torcer pelo vilão, já que até mesmo ele se mostra uma figura estúpida, algo que piora quando vemos o roteiro tentar fazer o personagem parecer muito inteligente, fazendo-o gritar que “pensou em tudo” e “está muitos passos a frente dos outros” mesmo que, na verdade, seu plano seja pavorosamente ruim.

Se Liam Neeson não fosse o protagonista, creio que A Chamada seria um daqueles filmes que nem são exibidos nos cinemas, sendo jogados direto na obscuridade do mercado de video-on-demand. Trata-se de uma experiência sem a menor graça, com reviravoltas previsíveis que fazem jus a pobreza criativa que vemos durante toda a narrativa.

Nota:



quarta-feira, 30 de agosto de 2023

As Tartarugas Ninja: Caos Mutante

Dentre todos os filmes produzidos sobre as Tartarugas Ninja, sejam eles longas em live-action ou animações, a palavra “adolescentes” que os personagens exibem em seu título original (“Teenage” Mutant Ninja Turtles) raramente tinha algum sentido na tela. Não que isso fosse um problema grave naquelas produções, que tinham suas próprias propostas narrativas, mas é um aspecto com o qual o diretor Jeff Rowe (que codirigiu o ótimo A Família Mitchell Contra as Máquinas) e os produtores (dentre eles a dupla Seth Rogen e Evan Goldberg) claramente se preocuparam mais na hora de realizar um novo filme focado na equipe. E o resultado é este As Tartarugas Ninja: Caos Mutante.

O roteiro parte da premissa que já conhecemos: Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello são tartarugas que moram com seu pai e mentor, o rato Splinter, nos esgotos de Nova York depois de terem tido contato com uma gosma mutagênica, vivendo escondidos da sociedade. Mas o quarteto sonha em ser aceito pelos humanos. Para isso, com a ajuda da jovem aspirante a jornalista April O’Neil, eles resolvem utilizar suas habilidades em artes marciais para tentar capturar uma gangue que está aterrorizando a cidade. Eles são pegos de surpresa, porém, quando os bandidos revelam ser animais mutantes como eles, liderados pela figura do Super-Mosca.

É interessante notar como a adolescência das tartarugas surge não tanto pela faixa etária em que elas estão e pela dinâmica que exibem umas com as outras, mas sim pelo que aspiram viver. Com o obscurantismo guiando e limitando suas rotinas, o roteiro desenvolve com naturalidade o fato de eles desejarem ser adolescentes normais que vão à escola, estudam, têm amigos e vivem as experiências comuns dessa fase. Dessa forma, o filme até dialoga com produções como aquelas dirigidas por John Hughes nos anos 1980 (Curtindo a Vida Adoidado até aparece em uma sessão de cinema), trazendo em seu centro personagens que querem viver sua adolescência por saberem a importância dela para sua formação humana, o que é uma grata surpresa considerando que estamos falando de tartarugas que sabem artes marciais, um conceito com o qual o filme poderia se dar por satisfeito.


Já visualmente As Tartarugas Ninja: Caos Mutante é encantador, com Jeff Rowe e sua equipe concebendo o design dos cenários e dos personagens em um formato 2D que lembra páginas de histórias em quadrinhos, o que reverencia o próprio material de origem do filme, além de mostrar que longas como Homem-Aranha no Aranhaverso talvez já estejam fazendo escola. E o filme ainda abraça com gosto certos absurdos. Talvez pudéssemos questionar de onde Donatello tirou seus óculos ou como Michelangelo colocou aparelho nos dentes, mas esses detalhes não são nada quando vemos que o filme já parte da premissa de um rato que ensina tartarugas a lutar, de forma que quaisquer outros absurdos servem até para pincelar a liberdade criativa de Jeff Rowe ao dar vida aos personagens. Além disso, as cenas de ação ganham a tela de maneira ágil, merecendo destaque a sequência em que acompanhamos intercaladamente cada um dos protagonistas ir atrás de chefões do crime, um momento que brilha pela continuidade visual que mantém entre cenas.

Ainda que o roteiro com alguma frequência se revele expositivo e trate de maneira repetitiva a questão do preconceito enfrentado pelos personagens, não fugindo muito do lugar-comum, As Tartarugas Ninja: Caos Mutante mostra ser um longa digno dos personagens divertidos que retrata, algo que eles estavam precisando tendo em vista que as últimas empreitadas deles nos cinemas não haviam sido muito interessantes.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.


Nota:

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Barbie vs. Oppenheimer: O Fenômeno Barbenheimer

Acho que fazia algum tempo desde a última vez que dois filmes assumiram o protagonismo em uma semana de estreia como está ocorrendo com Barbie e Oppenheimer, duas obras totalmente diferentes e que, em qualquer outro momento, possivelmente estreariam com certa distância uma da outra, a fim de não prejudicar seus respectivos resultados de bilheteria. Mas “Barbenheimer” (como esse evento está sendo chamado) acabou fazendo bem para ambos os filmes, possivelmente dando-lhes muito mais atenção do que receberiam normalmente. E apesar do título deste texto apontar para algum tipo de disputa ou comparação, não é isso que pretendo fazer. Até porque os dois filmes me agradaram imensamente e por virtudes completamente diferentes.

Começarei por Oppenheimer porque foi o primeiro que consegui assistir. O longa é um retorno a boa forma para Christopher Nolan, um diretor que admiro, mas que escorregou em sua última empreitada, o medíocre e aborrecido Tenet. No filme, Nolan acompanha a vida de J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) a partir de duas linhas narrativas: a primeira (em cores) acompanha o protagonista de forma mais subjetiva, seguindo desde seus passos iniciais como físico até a liderança que exerceu no Projeto Manhattan e na criação da bomba atômica, enquanto a segunda (em preto e branco) se passa em meio a Guerra Fria e mostra as divergências que Oppenheimer veio a ter em relação ao uso da arma e os julgamentos aos quais foi submetido, algo que também é mostrado pelo ponto de vista de outros personagens, em especial Lewis Strauss (Robert Downey Jr.), membro do Comitê de Energia Atômica.

Christopher Nolan faz uma cinebiografia que mostra riqueza não só na figura de Robert Oppenheimer, mas também em todas as discussões morais e políticas que a criação e o uso da bomba atômica vieram a trazer para muito além do contexto que todos viviam. Não são discussões que o roteiro traz superficialmente ou martelando respostas fáceis, com Nolan desenvolvendo tudo com inteligência e colocando em xeque até mesmo intenções que podem parecer boas em teoria (“Não sei se nós somos confiáveis com tal arma. Mas sei que os nazistas não são”, diz o protagonista em determinado momento), mas que no fundo não deixam de abrir portas para o caos. Para completar, a narrativa concebida por Nolan é muito consistente, intercalando muito bem os dois pontos da história, de forma que o espectador nunca fica confuso com o desenrolar dos acontecimentos ao mesmo tempo em que o cineasta gera tensão a partir de diversas situações, e nisso é preciso aplaudir também tanto o trabalho da montadora Jennifer Lame quanto a trilha composta por Ludwig Göransson.


Mas seria impossível falar de Oppenheimer sem mencionar o trabalho absolutamente brilhante de Cillian Murphy, que consegue projetar desde a confiança e o narcisismo do personagem-título até a angústia que ele passa a sentir em relação ao que construiu (e seguindo a subjetividade da narrativa, vale dizer que o filme não tenta diminuir a responsabilidade do sujeito nas tragédias de Hiroshima e Nagazaki). Além disso, Murphy ainda conta com um elenco de apoio fabuloso, de forma que se eu for mencionar todo mundo esse texto não irá acabar. Por isso destacarei apenas dois nomes: Emily Blunt e Robert Downey Jr. No papel de Kitty Oppenheimer, esposa do protagonista, Blunt cria uma personagem resiliente e que muitas vezes demonstra ter mais força do que o próprio marido, ao passo que Downey Jr. faz de Lewis Strauss um homem cuja influência política rivaliza com sua aparente inveja e insegurança, o que o torna uma versão de Antonio Salieri frente ao Mozart representado por Robert Oppenheimer (lembrando a obra-prima Amadeus).

Já Barbie... Bem, adaptando um pouco uma fala de Anton Ego (o maravilhoso crítico de Ratatouille), o filme fez eu pensar que “nem toda obra pode ser excelente, mas uma excelente obra pode vir de qualquer lugar”. Digo isso porque não é particularmente comum ver uma produção baseada numa linha de brinquedos ter tanto a dizer, e se isso ocorre em Barbie acho que Greta Gerwig é a maior responsável. No longa, Barbie (vivida por Margot Robbie) é uma figura que tem uma vida perfeita na Barbielândia ao lado de suas amigas Barbies e vários Kens (o principal deles sendo vivido por Ryan Gosling). E o roteiro coescrito por Gerwig e Noah Baumbach começa a encontrar sua razão de ser quando a personagem-título se vê diante de uma crise existencial, precisando vir com Ken até o nosso mundo a fim de resolver o problema, que parece apenas piorar quando ela se depara com uma realidade essencialmente patriarcal, o oposto da Barbielândia.

Acho que a melhor forma que encontrei para descrever Barbie é que se trata de uma obra muito consciente. Consciente de suas origens, de seu contexto e que sabe trabalhar esses aspectos inteligentemente. O roteiro de Gerwig e Baumbach não tem medo de apontar o dedo para a própria boneca Barbie (e para a Mattel, empresa que a produz) e questionar o quanto ela contribuiu para o desenvolvimento de padrões que até podem se encaixar em uma Barbielândia, mas soam como mentiras no mundo real quando olhamos a desigualdade enfrentada pela parcela feminina da sociedade. Nesse sentido, é impossível não destacar o discurso feito em determinado momento por Gloria (interpretada pela ótima America Ferrera), palavras que além de cumprirem uma função bacana na história ainda escancaram a visão que a sociedade frequentemente tem e impõe às mulheres. E por apresentar dois universos distintos, o filme chama atenção quanto aos paralelos entre eles (principalmente na inversão de papeis na Barbielândia, onde as Barbies reinam e se apoiam enquanto os Kens ou tem pouco espaço, ou não tem tanto valor ou vivem em função das Barbies) e o quanto um é capaz de influenciar o outro, sem falar que Greta Gerwig ainda cria um contraste visual e físico entre os dois mundos que é muito apropriado.


São ideias muito ricas e que vêm embaladas num pacote de fantasia e comédia que envolve o espectador do início ao fim, seja pelas piadas divertidíssimas, pela direção ágil de Gerwig ou pelo elenco encantador liderado por Margot Robbie e Ryan Gosling. Aliás, enquanto Robbie gradualmente imprime personalidade a Barbie, conseguindo ressaltar a humanidade da personagem em cada passo e em cada dúvida que surge ao longo de sua jornada, Gosling usa a falta de personalidade de Ken como um fio condutor do personagem, que assim se torna um receptáculo de imposições patriarcais que mascaram sua insegurança. E ambos os intérpretes surgem em cena repletos de carisma e exibindo um timing cômico impecável.

De um lado, uma grandiosa (em vários sentidos) cinebiografia realizada por um diretor já muito bem estabelecido como um grande nome. Do outro, uma obra surpreendente e prazerosa que mostra que Greta Gerwig é uma cineasta cada vez mais interessante. E enquanto o cinema como indústria agradece o sucesso de ambos os trabalhos, creio que podemos dizer que o espectador também sai feliz por ver que a sessão dupla de “Barbenheimer” no fim das contas envolve dois dos melhores filmes de 2023.

Nota (para os dois filmes):



quarta-feira, 12 de julho de 2023

Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte Um

Relendo críticas que escrevi anos atrás sobre filmes de Missão Impossível, uma coisa que sempre aponto é a minha surpresa de ver como a consistência da série segue firme mesmo depois de tantos anos. É uma franquia admirável na qual Tom Cruise e sua equipe parecem sempre determinados a tentar fazer um capítulo superar o outro. E em meio a esses esforços, o longa mais recente, Efeito Fallout, se mostrou uma obra-prima difícil de ser superada dentro da franquia, mas isso não impede Cruise de tentar. E o resultado é essa primeira parte de Missão Impossível: Acerto de Contas, que não chega a igualar o capítulo anterior, mas ainda assim é uma obra que impressiona em vários momentos.

Escrito por Erik Jendrensen e pelo diretor Christopher McQuarrie, Acerto de Contas – Parte Um coloca Ethan Hunt (Cruise) precisando recuperar as duas metades de uma chave. Mas claro que isso não é tão fácil quanto parece, já que o objeto dá acesso a uma inteligência artificial chamada de A Entidade, que atrai o interesse de muitas pessoas e cujo poder pode colocar em risco o mundo inteiro (detalhe que o roteiro aponta frequentemente, naquele que talvez seja seu maior problema). Tendo esse perigo em mente, Hunt decide se rebelar novamente contra a IMF a fim de tentar destruir A Entidade, o que o coloca no caminho de Gabriel (Esai Morales), um antigo e misterioso colega que tem interesse em controlar a inteligência artificial. No processo, Hunt ainda bate de frente com Grace (Hayley Atwell), uma ladra que mal sabe onde está se metendo. E claro que a única ajuda que o sujeito tem para realizar a missão é a de seus fiéis aliados Luther Stickel (Ving Rhames), Benji Dunn (Simon Pegg) e Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).


É uma história típica de Missão Impossível, com vários elementos que são de praxe na franquia e que podem apontar que ela talvez não funcione de outra forma, precisando sempre colocar o protagonista e sua equipe na posição de renegados que devem realizar uma missão que sempre parece próxima de dar errado (e que envolve um objeto que pode ser perigoso se cair nas mãos erradas). É tão comum que até os personagens já reconhecem como todas essas coisas parecem ser parte integral de suas rotinas. Mas é preciso dizer que, apesar da fórmula ser facilmente reconhecível, Christopher McQuarrie (o diretor mais longevo na franquia, o que faz eu pensar que Tom Cruise encontrou um cineasta tão maluco quanto ele) consegue fazer com que tudo tenha algum frescor e que o espectador fique na ponta da cadeira, seja pela tensão ou pela mera curiosidade de ver se os personagens conseguirão fazer o que planejam.

Muito disso se deve ainda a ameaça escolhida para essa missão. E não me refiro a personagens humanos, apesar de estes também renderem uma bela dor de cabeça para o protagonista, mas sim à A Entidade. Além de mostrar um timing preciso por parte dos realizadores (considerando as várias discussões que têm surgido ultimamente quanto ao uso desse tipo de tecnologia), a inteligência artificial enfrentada por Hunt e sua equipe dá início a um jogo de gato e rato que tem um bom grau de imprevisibilidade, já que o algoritmo da Entidade sempre parece estar muitos passos à frente do protagonista, consequentemente aumentando os riscos da missão e a tensão provocada pela narrativa. Como se não bastasse, a presença do ótimo Esai Morales como Gabriel, o principal vilão humano da história, funciona muito por conta de ele ser o mais próximo de uma representação da Entidade, ficando sempre por dentro do que é calculado pelo algoritmo e soando mais perigoso por conta disso.

Mas talvez as ameaças não fossem tão eficazes caso não nos importássemos com os personagens, o que sempre ocorreu na franquia e em Acerto de Contas – Parte Um não é diferente. Aliás, uma das coisas mais perceptíveis ao longo da série Missão Impossível é como Ethan Hunt cria laços cada vez mais fortes com sua equipe, a ponto de a partir do quinto filme ele poder dizer que tem um grupo de amigos com os quais se importa (e vice-versa). E a base emocional da narrativa desse sétimo exemplar reside principalmente na dinâmica que ele constrói com os talentosos Simon Pegg, Ving Rhames e Rebecca Ferguson, cujos ótimos personagens frequentemente são usados para ressaltar a humanidade do protagonista e manter os pés dele no chão enquanto tenta salvar o mundo.

Todos esses elementos ajudam a fazer com que a narrativa envolva o espectador enquanto as sequências de ação são costuradas umas nas outras pela trama, sequências estas que mais uma vez são conduzidas com competência por Christopher McQuarrie, que vem mostrando ser um diretor de ação muito confiável (vide não só Missão Impossível, mas também o primeiro Jack Reacher). McQuarrie concebe sequências cuja escala vai aumentando gradualmente durante o filme, formando uma estrutura em que o ritmo da narrativa segue uma crescente até chegar em seu ápice no terceiro ato, quando o diretor e Tom Cruise decidem deixar a sanidade de lado. Esse ritmo também merece ser creditado a ótima montagem de Eddie Hamilton, que ainda faz um trabalho notável em momentos em que precisa intercalar ações que ocorrem ao mesmo tempo, o que contribui com a tensão do filme, como pode ser visto por exemplo na sequência situada no aeroporto de Abu Dhabi.

Se juntando a Homem-Aranha Através do Aranhaverso no grupo de filmes de 2023 que se apresentam como a primeira parte de uma história, mas que sabe encerrar seu arco narrativo concluindo os pontos que precisa e criando uma curiosidade natural quanto a vindoura continuação, Missão Impossível: Acerto de Contas – Parte Um mantém o alto nível de uma franquia que parece não cansar de empolgar o público.

Nota:



quarta-feira, 7 de junho de 2023

Transformers: O Despertar das Feras

Quem me acompanha há algum tempo deve saber que não vejo Transformers como uma franquia particularmente agradável. Mas ela mostrou ser capaz de render um filme simpático e divertido quando a prequel Bumblebee foi lançada em 2018, que curiosamente marcou a primeira vez que um longa da linha de brinquedos da Hasbro não foi comandado por Michael Bay. E a franquia resolve manter a diversidade por trás das câmeras neste Transformers: O Despertar das Feras, continuação de Bumblebee e que coloca a direção nas mãos de Steven Caple Jr. (de Creed II). E o resultado até que é satisfatório.

O Despertar das Feras se passa em 1994, quando o jovem Noah Diaz (Anthony Ramos) vive dificuldades com sua família e, em uma tentativa desesperada para ganhar dinheiro, acaba tendo contato com Mirage (voz de Pete Davidson), um dos Autobots liderados por Optimus Prime (voz de Peter Cullen). Junto com a pesquisadora Elena Wallace (Dominique Fishback), Noah acaba sugado para o conflito dos Autobots, passando a ajuda-los a recuperar uma chave que pode salvar o planeta deles. No caminho, eles têm que enfrentar os Terrorcons liderados por Scourge (voz de Peter Dinklage) e contam com o auxílio dos Maximals, que basicamente são Transformers que tomam a forma de animais ao invés de veículos.


Na maior parte do tempo, O Despertar das Feras não parece tão disposto a trazer frescor a série. Ao longo da projeção, nos deparamos com coisas que já estão mais do que batidas no universo desses filmes, desde ver novas espécies de Transformers serem apresentadas (sendo que não há nada que realmente as diferencie de outras que já vimos, tirando as formas que elas assumem), passando pela relação entre os personagens humanos e os robôs e chegando finalmente a própria base da trama. Afinal, esta não é a primeira vez que vemos pessoas ajudando os Autobots a recuperar um artefato que pode ajuda-los. Além disso, os diálogos expositivos que surgem com alguma frequência se intercalam com outros mais bestas (“Se vamos morrer, vamos morrer lutando como um só”).


Mas isso não impede o filme de divertir e até mesmo envolver minimamente o espectador. A introdução de Mirage, por exemplo, é muito bem-vinda, com o jeito mais irreverente do personagem rendendo bons risos, o que vale também para a dinâmica entre ele e Noah. Este, por sua vez, é interpretado com carisma e segurança por Anthony Ramos, exibindo muito mais personalidade que outros protagonistas que a franquia já teve (me refiro basicamente a Shia LaBeouf e Mark Wahlberg). E é bacana ver Steven Caple Jr. em determinados momentos se concentrar em questões mais pessoais dos personagens, principalmente no que diz respeito a relação de Noah com o irmão mais novo Kris (Dean Scott Vasquez), detalhes que ajudam o espectador a simpatizar com eles. Para completar, Caple Jr. conduz com competência as sequências de ação, lidando bem com a escala grandiosa dos combates sem criar uma confusão visual como Michael Bay tanto gosta de fazer, merecendo destaque a grande batalha que ocorre no terceiro ato. Mas é preciso dizer que o diretor nada pode fazer nos momentos em que certos personagens estão em perigo ou prestes a se sacrificarem, já que o próprio fato de O Despertar das Feras ser uma prequel impede que acreditemos que o destino daquelas figuras está realmente em jogo.

O Despertar das Feras não chega a ter a doçura e o coração de Bumblebee, mas ainda é uma obra que funciona bem como entretenimento, além de até deixar alguma curiosidade para continuações. E isso já representa uma evolução considerando o baixo nível apresentado pela franquia até pouco tempo atrás.

Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 1 de junho de 2023

Muito Obrigado, Ted Lasso!

(O texto a seguir não contém spoilers)

Não é exatamente comum eu me sentir em dívida com algum filme ou série de TV. Mas me sinto em dívida com Ted Lasso. Ao longo dos últimos três anos, em nenhum momento eu sentei em frente ao computador para escrever um texto sobre essa série, que acompanhei de maneira fiel desde seu lançamento. Mas tendo a série chegado ao fim nessa semana, creio ser apropriado usar o momento para cobrir essa dívida.

Ted Lasso começou como uma série engraçada sobre um técnico de futebol americano que praticamente cai de paraquedas no AFC Richmond, um clube fictício da Premier League (como é conhecida a primeira divisão do campeonato inglês). E seguiu sempre divertindo dentro dessa ideia. Mas creio que fui pego de surpresa com o quanto a série se revelou profundamente encantadora.

Com uma visão de mundo que mistura um pouco de otimismo, ingenuidade, humildade e doçura, o personagem-título (interpretado por Jason Sudeikis, que certamente encontrou aqui um papel que definirá sua carreira) facilmente conquista as pessoas ao seu redor e o espectador, sendo que tal visão de mundo não deixa de estabelecer os principais pontos da série em si. E a partir desses pontos, vemos a história e sua gama de personagens serem preenchidos de humanidade. Consequentemente, cada episódio no universo de Ted Lasso se revelou uma dose saborosa de chocolate quente, capaz de aquecer o coração e nos ajudar a escapar por alguns minutos dos nossos próprios problemas.

Até por conta disso a série não deixa de parecer uma utopia, algo que eu poderia ter concluído mais cedo, mas só fui refletir sobre isso nessa terceira e última temporada. E creio que esse é outro motivo para ela ter se mostrado tão agradável. Digo “utopia” não tanto pelo otimismo da série e de seu protagonista, mas porque na vida real falar de saúde mental ainda é um tabu. Digo “utopia” porque, olhando notícias recentes, o mundo do futebol pouco faz para combater coisas como racismo e homofobia. “Utopia” porque é comum vermos clubes serem patrocinados por marcas ou pessoas que violam direitos humanos. “Utopia” porque a série tocou em elementos como esses como se colocasse o dedo nas feridas, fazendo seus personagens refletirem e darem respostas sensatas sobre tais assuntos como raramente (para não dizer nunca) vemos na vida real, o que meio que fez o AFC Richmond ser um clube que eu gostaria que realmente existisse.

Essa última temporada de Ted Lasso certamente deixou a desejar em comparação com as anteriores (principalmente a segunda temporada). Tropeçou em subtramas e personagens não tão interessantes e mais de uma vez recorreu a resoluções fáceis. Mas apesar de não terminar numa nota tão alta, seu fim ainda foi digno, e os sentimentos doces que ela gerou ao longo das três temporadas são infinitamente mais fortes do que qualquer dose amarga que tenha surgido no caminho.

E por gerar esses bons sentimentos, digo apenas... Muito obrigado, Ted Lasso. Sentirei sua falta.