quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A Baleia

Os filmes de Darren Aronofsky não são exatamente conhecidos como experiências agradáveis para o espectador. O diretor, na verdade, criou um hábito de nos apresentar a personagens e, a partir daí, nos conduzir pela jornada de autodestruição deles, como em Pi, Réquiem Para um Sonho, O Lutador e Cisne Negro. São obras de grande densidade dramática e capazes de nos deixar angustiados por sabermos o que determinados passos representam na vida daqueles indivíduos. Este novo trabalho de Aronofsky, A Baleia, acaba sendo mais um exemplo desse seu hábito, além de colocar Brendan Fraser de volta aos holofotes após um bom tempo.

Escrito por Samuel D. Hunter a partir de sua própria peça de teatro, A Baleia nos apresenta a Charlie (Fraser), um professor universitário que perdeu o namorado há algum tempo e agora vive sob os cuidados da amiga enfermeira Liz (Hong Chau). Tais cuidados são necessários porque Charlie sofre com obesidade mórbida, vivendo em reclusão em seu pequeno apartamento. É então que ele resolve tentar se reconectar com sua filha adolescente, Ellie (Sadie Sink), procurando resolver antigas mágoas.

Desde o princípio as origens teatrais do texto de Samuel D. Hunter podem ser notadas, seja por diálogos expositivos que estabelecem detalhes do passado dos personagens ou pelo fato de o filme se situar quase todo em um único cenário (o apartamento de Charlie). Mas este ponto não chega a limitar a narrativa, com Darren Aronofsky e seu habitual diretor de fotografia Matthew Libatique optando por conceber o filme na tela com uma razão de aspecto de 1.33:1 (o clássico quadrado 4:3), que contribui para tornar opressivo o universo do protagonista, algo realçado também pela iluminação mais escura que toma seu apartamento.

Esse visual faz com que A Baleia, por vezes, pareça um filme de terror, o que não deixa de ser apropriado se pensarmos que Charlie sofre de uma espécie de maldição. Mas se engana quem acha que a maldição a qual me refiro é o estado físico e clínico do personagem, já que sua obesidade e compulsão alimentar parecem ser os resultados desta maldição. O problema de Charlie, na verdade, é pensar muito dos outros e muito pouco de si próprio. Temos aqui um personagem que não consegue evitar de pensar o melhor das pessoas, acreditando constantemente que a humanidade tem potencial para coisas maravilhosas. Não é à toa que logo nos primeiros minutos vemos ele dando uma aula (via videochamada) em que procura ajudar seus alunos a se expressarem melhor naquilo que escrevem, idealizando que eles são melhores do que imaginam. Mas ele não inclui a si próprio nessa visão de mundo. “Quem iria me querer como parte de sua vida?”, diz ele em determinado momento. E mais uma vez, não é à toa que sua câmera se mantém desligada durante suas aulas. Ao lidar com esses elementos, o roteiro naturalmente cria um embate de ideias que encontra grande peso dramático no protagonista e ressoa nos outros personagens, principalmente Liz e o jovem missionário Thomas (Ty Simpkins).


Mas boa parte do porquê de A Baleia envolver o espectador e fazê-lo se importar com seu protagonista tem nome e sobrenome: Brendan Fraser. Ator que passou anos relegado a projetos duvidosos até ter a carreira revitalizada recentemente, Fraser tem aqui uma oportunidade ímpar de brilhar e não decepciona. Por trás do excelente trabalho de maquiagem necessário para compor Charlie, o ator cria um personagem quebrado por arrependimentos e por um luto constante, que se entrega a compulsão alimentar como se acreditasse que esta é a punição que merece, seja pelo que já viveu e sofreu ou por quem é. Trata-se de um homem que está longe de ser perfeito, mas que tem também muito da honestidade que procura ver nas pessoas, e Fraser preenche com humanidade cada fala e movimento do personagem, tendo ainda uma ótima dinâmica com a sempre excelente Hong Chau, que faz de Liz uma figura que há muito já deixou de tentar evitar que o amigo se destrua, cuidando dele dentro do que pode e lhe servindo como única base de afeto. E enquanto Sadie Sink e Ty Simpkins são eficazes nos papeis de Ellie e Thomas, Samantha Morton se destaca mesmo com poucos minutos em cena, exibindo uma bela sensibilidade como Mary, a ex-esposa de Charlie.

A Baleia pode ser uma experiência triste e por vezes angustiante, mas se isso ocorre é porque Darren Aronofsky realiza aqui uma obra que transpira empatia por seu protagonista e pelas figuras ao redor dele, o que é algo bastante recompensador de ver.

Nota:



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Batem à Porta

Apesar de muitas vezes criarmos expectativas, a verdade é que é difícil saber o que esperar de uma obra de arte antes de conferi-la, principalmente se pensarmos que quase todo artista tem altos e baixos na carreira. Com um diretor como M. Night Shyamalan, essa incógnita talvez surja com mais força a cada obra que ele lança. Afinal, o que veremos será algo do calibre de O Sexto Sentido e Corpo Fechado (seus dois grandes filmes) ou outra bomba como Fim dos Tempos, Depois da Terra, Fragmentado, Tempo e outros?

Baseado no livro de Paul Tremblay, este Batem à Porta acompanha a família formada pelo casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge) e sua pequena Wen (Kristen Cui, adorável), que estão de férias em uma cabana. É quando eles são abordados por quatro indivíduos que pretendem invadir o local de qualquer forma e confrontá-los. Eles são Leonard (Dave Bautista), Sabrina (Nikki Amuka-Bird), Adriane (Abby Quinn) e Redmond (Rupert Grint), pessoas aparentemente comuns, mas que estão ali para fazer o possível para que aquela família sacrifique um de seus membros e, segundo eles, salve o resto da humanidade do apocalipse.

Por puro acaso, no dia anterior à sessão de Batem à Porta, eu conferi O Sacrifício do Cervo Sagrado, do sempre excelente Yorgos Lanthimos. E acaba sendo praticamente impossível não fazer uma comparação entre as duas produções, considerando que ambas contam histórias que colocam seres humanos recebendo a tarefa de sacrificar um ente querido em prol de algo maior. Mas se Lanthimos montava uma narrativa inquietante a partir da frieza dos personagens e de um contexto mais intimista para falar da natureza humana, Shyamalan constrói Batem à Porta lidando com ideias bíblicas que nos levam a discussões diferentes, onde algo mais amplo parece estar em jogo.


É uma pena, porém, que tais discussões não fujam muito do óbvio. Estariam Leonard e companhia acreditando em algo verdadeiro? Ou são apenas malucos conspiracionistas? E independentemente da resposta dessas questões, como atender o pedido de sacrifício para salvar a humanidade? Aliás, seria a humanidade digna de salvação? É com questões como essas que o roteiro escrito por Shyamalan e pela dupla Steve Desmond e Michael Sherman busca fomentar reflexões ao longo da projeção, mas elas não saem muito do lugar-comum ou ganham grande profundidade.

Mesmo assim, é relativamente interessante acompanhar o conflito entre as crenças do grupo invasor e o ceticismo da família, com Shyamalan conseguindo construir uma atmosfera de tensão entre os personagens na cabana, merecendo destaque o fato de o diretor manter a câmera muitas vezes próxima dos rostos dos atores, tirando espaço do cenário e tornando-o mais opressivo no processo. Contribui para essa inquietação também algumas atuações do elenco, principalmente Dave Bautista, que chama a atenção ao fazer de Leonard uma figura pacata e que mantém uma constante lamentação em seu tom de voz, aspectos que criam um contraste eficaz com seu físico imponente e ameaçador. E se Ben Aldridge mostra segurança ao encarnar a convicção de Andrew, Jonathan Groff é eficiente ao fazer de Eric um contraponto mais influenciável. Já Nikki Amuka-Bird, Abby Quinn e Rupert Grint pouco podem fazer com personagens essencialmente unidimensionais.


Mas se ao longo da narrativa Shyamalan cria alguma tensão, esta é quebrada sempre que o diretor insere flashbacks da vida de Eric e Andrew, mostrando compromissos que eles fizeram um com o outro ou como que um deles aprendeu a lutar. Mas esses são detalhes que não acrescentam nada de importante para a história, servindo apenas para tornar irregular o ritmo do filme. Além disso, apesar de a natureza bíblica das ideias do roteiro ser clara desde o princípio, Shyamalan parece não confiar na inteligência do espectador, resolvendo trazer explicações no terceiro ato que apenas martelam o óbvio e nos fazem revirar os olhos. Como se não bastasse, a resolução do filme além de não surpreender também soa um tanto anticlimática.

Talvez um elogio que eu possa fazer para Batem à Porta é que M. Night Shyamalan já fez filmes muito piores. O que não quer dizer muito levando em conta que ele também já fez filmes infinitamente melhores.

Nota:



domingo, 29 de janeiro de 2023

Os Banshees de Inisherin

Desde sua estreia como diretor há quase 20 anos no curta Six Shooter, Martin McDonagh tem se revelado um nome interessantíssimo de se acompanhar, mostrando ser um daqueles artistas capazes de criar dramas e personagens incrivelmente densos sem abrir mão de seu (muitas vezes ácido) senso de humor. Isso não é diferente neste Os Banshees de Inisherin, o quarto longa-metragem comandado por ele. Mas mesmo causando risos pontualmente, a impressão que este novo trabalho de McDonagh passa é de que se trata de sua obra mais triste até o momento, explorando a fragilidade das relações humanas e como estas movem a nossa existência.

Escrito pelo próprio McDonagh, Os Banshees de Inisherin se passa no início dos anos 1920 e traz Colin Farrell e Brendan Gleeson (parceiros habituais do diretor) nos respectivos papeis de Pádraic Súilleabháin e Colm Doherty, amigos de longa data e que vivem na ilha ficcional de Inisherin, situada próxima à Irlanda. Enquanto o primeiro é um fazendeiro que leva uma vida pacata ao lado da irmã, Siobhán (Kerry Condon), o segundo é um músico preocupado em deixar um legado. É então que Colm de um dia para o outro decide encerrar a amizade sem motivo aparente, algo que faz a vida de Pádraic virar de cabeça para baixo e impacta a vida de ambos.

E assim tem início um conflito que gera uma série de mágoas e ganha proporções cada vez maiores. Não é à toa, por sinal, que Martin McDonagh situa o filme em meio a guerra civil na Irlanda, já que assim ele pode fazer um paralelo entre as duas coisas. Claro que o tamanho de uma guerra em si é muito maior, mas isso não faz a nova relação entre Pádraic e Colm soar menos dolorosa, já que naquela pequena região o conflito entre esses dois homens é uma coisa grande que os machuca e ganha a atenção dos outros habitantes. Além disso, o diretor conduz a narrativa com sensibilidade, tendo plena noção dos sentimentos de seus personagens, sendo interessante ver ao longo do filme como, apesar dos pesares, tanto Colm quanto Pádraic mantêm algum respeito e consideração um pelo outro, o que ajuda a humaniza-los.

As atuações de Colin Farrell e Brendan Gleeson também são peças-chave para que nos conectemos com os personagens, performances estas que já se colocam entre as melhores de suas respectivas carreiras. Farrell, um ator que sempre achei subestimado, aqui faz de Pádraic um homem despreocupado e até ingênuo, que se mostra bastante conformado com a vida que leva e cuja doçura podemos ver não só em suas tentativas de falar com Colm, mas também nas relações que tem com Siobhán e com sua jumentinha Jenny, de forma que podemos afirmar que ambas sintetizam a humanidade do sujeito. Por conta disso, é justamente a jornada dele que acaba provando ser a mais triste de acompanhar. Brendan Gleeson por sua vez tem um personagem que talvez pudesse soar antipático nas mãos de um ator menos talentoso. Nas mãos dele, porém, Colm até pode ser um homem mais duro, mas nunca é insensível, de maneira que por mais drástico que ele seja com Pádraic, ainda assim é possível compreender sua posição. Mas o brilho do filme não fica restrito apenas a dupla principal, já que a excelente Kerry Condon se destaca ao viver Siobhán como uma mulher sonhadora, independente e cheia de ternura, sendo interessante notar que ela é a única personagem do filme que aparece vestindo roupas com cores quentes, o que reflete seu calor humano e a distingue dos habitantes que vivem sem perspectivas em Inisherin. Enquanto isso, Barry Kheogan rouba todas suas cenas como o jovem Dominic, sendo responsável por boa parte dos risos proporcionados pelo filme e exibindo uma excentricidade que parece mascarar uma clara vulnerabilidade.

Essencialmente, Os Banshees de Inisherin usa seu conflito central para discutir com propriedade aspectos naturais do ser humano. Frente a finitude da vida, cada um se preocupa de uma maneira com o quanto quer aproveitar essa existência e escrever uma história marcante. E assim como diversos excessos inesperados preenchem a relação de Pádraic e Colm, é inimaginável que tipo de efeito as histórias que escrevemos podem ter umas nas outras, ainda mais em um mundo no qual precisamos conviver uns com os outros.

Nota:

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Alerta Máximo

Durante a sessão de Alerta Máximo, novo trabalho protagonizado por Gerard Butler, é difícil não ter a sensação de que já vimos esse filme em algum lugar. Roteirizado por Charles Cumming e J.P. David, o longa traz Butler no papel do piloto Brodie Torrance, que está escalado para realizar um voo para Tóquio no Ano Novo, levando um grupo pequeno de passageiros e não vendo a hora de encerrar a jornada para poder passar o fim de ano com sua filha. Entre os passageiros está Louis Gaspare (Mike Coulter), um preso que está sendo extraditado depois de anos vivendo como fugitivo. Durante o voo, porém, a aeronave sofre danos por conta de uma forte tempestade, obrigando Torrance a pousar no primeiro pedaço de terra firme que surge em seu caminho. Para o azar do piloto, o local encontrado é uma ilha comandada por milicianos ao sul das Filipinas, e ele se vê tendo que se unir a Gaspare para salvar a si próprio e aos passageiros enquanto eles todos não são encontrados e resgatados.

A sensação de familiaridade do longa vem de muitos elementos. A começar por sua busca por ser um filme de ação com toques de luta pela sobrevivência, algo que basicamente o faz ser uma espécie de mistura cujos ingredientes foram obras como Força Aérea Um, Turbulência e O Voo da Fênix, com o roteiro não conseguindo desenvolver algum frescor no meio disso. Isso serve também para os personagens, que quando desenvolvidos trazem dramas ou histórias pessoais bastante batidas. E quando falo desse desenvolvimento de personagens, isso se refere exclusivamente a Torrance e Gaspare, já que o resto dos passageiros e os vilões são figuras por vezes irritantemente unidimensionais e estereotipadas. Em determinado momento, os vilões só faltam dizer que são maus apenas porque são (e gostam de ser) maus, enquanto os passageiros se revelam do tipo que não fariam falta caso tivessem morrido durante a tensão no avião.


Mas Alerta Máximo provavelmente nem foi produzido com o intuito de fazer coisas diferentes com suas referências, querendo ser apenas um filme de ação que entretenha. Nesse sentido, o diretor Jean-François Richet (que lembro do bom remake de Assalto ao 13º DP e do mediano Herança de Sangue, com Mel Gibson) faz um trabalho eficaz na condução da narrativa, de forma que mesmo com o roteiro irregular o longa nunca chega a ser uma experiência chata de se acompanhar, prendendo a atenção em suas sequências de ação. Há uma cena em particular que se destaca ao trazer uma luta filmada em um longo plano sem cortes aparentes, mostrando de maneira bem crua os esforços dos personagens para acabar um com o outro. Além disso, Gerard Butler e Mike Coulter exibem carisma interpretando Torrance e Gaspare, conseguindo ainda criar entre os personagens uma dinâmica que torna possível torcer para que eles tenham algum sucesso em seus objetivos.

Tendo em vista que o astro Gerard Butler com alguma frequência protagoniza bombas como Deuses do Egito e Tempestade, talvez possamos dizer que algo relativamente eficiente como Alerta Máximo seja lucro. Trata-se de um clássico filme que chega ao fim deixando uma sensação de que deu para o gasto.


Nota:

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

M3gan

Se tem algo que tecnologia vem fazendo nos últimos tempos é desenvolver produtos que falam diretamente com a comodidade e, por tabela, com a preguiça do ser humano. É como se qualquer coisa que faça com que não precisemos levantar das nossas cadeiras fosse válida. É mais ou menos a partir dessa ideia que este terror M3gan se constrói, pegando conceitos que já vimos outras vezes quando falamos de inteligência artificial e criando terror em cima da relação entre humanos e tecnologia.

Dirigido por Gerard Johnstone e escrito por Akela Cooper (que roteirizou o ótimo Maligno) a partir de um argumento concebido por ela e James Wan (por sua vez, o diretor de Maligno), M3gan mostra Gemma (Allison Williams) se tornando responsável por sua sobrinha Cady (Violet McGraw) depois que esta perde os pais em um acidente. Gemma trabalha como engenheira em uma empresa de brinquedos, tentando agora desenvolver o projeto de “M3gan”, uma boneca com inteligência artificial capaz de interagir com a criança com quem se conecta, suprindo quaisquer necessidades e cuidando de dores físicas ou emocionais. Com isso em mente, Gemma decide testar um protótipo do brinquedo com sua sobrinha, não imaginando que isso pode ser prejudicial e até mesmo letal.

Em sua base, M3gan lembra imediatamente obras como Brinquedo Assassino e até a aventura Pequenos Guerreiros, que Joe Dante dirigiu nos anos 1990. Mas por trazer um contexto mais moderno, o que vemos aqui é um conto sobre negligência e dependência, de forma que não é difícil colocá-lo como o filme de terror que mais cutuca alguns pais, mais especificamente aqueles que atualmente colocam um tablet ou um celular nas mãos dos filhos para não precisar dar atenção a eles e, consequentemente, não se incomodarem. Claro que o filme desenvolve com a boneca do título uma situação extrema, mas acaba sendo interessante acompanhar o brinquedo preencher a lacuna criada por problemas comuns de sociabilidade em uma dinâmica familiar. E Allison Williams interpreta Gemma como uma mulher que dá total atenção ao trabalho (a clássica workaholic), a ponto de agir com indiferença em relação a outras pessoas, não demonstrando reação nem quanto a perda da própria irmã, de forma que a personagem depender de tecnologia para cuidar da sobrinha surge naturalmente na história.


Voltando a conduzir um longa-metragem após quase dez anos desde sua estreia no ótimo Housebound, o diretor Gerard Johnstone não consegue fazer o filme escapar de certas previsibilidades, como a maneira que a cena inicial em um carro chega ao fim ou ao apresentar personagens que logo podemos sacar que irão sofrer nas mãos de M3gan. Aliás, as cenas violentas em sua maioria são mais sugeridas ao invés de mostradas, uma estratégia que imediatamente fez eu pensar que o longa foi suavizado para ter uma classificação indicativa menor e alcançar um público maior, algo que infelizmente acaba custando um pouco o peso narrativo desses momentos. Mas ainda assim Johnstone mostra saber usar a presença de M3gan para criar um bom nível de tensão na maior parte do tempo, mesmo quando a pequena Cady age de maneira irritantemente rebelde, sendo que o diretor também espreme naturalmente o humor que vem da própria ideia de um brinquedo psicótico, tendo vários momentos em que o espectador pode rir de nervoso por conta das aparições da boneca.

M3gan ganha pontos por saber usar suas ideias para dialogar com questões bastante atuais no que diz respeito a presença de tecnologia na vida das pessoas, especialmente em se tratando de crianças. Mas é bom ver também que o filme é um terror eficiente, ainda que não reserve grandes surpresas ou cause tanto impacto.

Nota:



domingo, 15 de janeiro de 2023

Babilônia

Em La La Land, o diretor-roteirista Damien Chazelle concebeu um romance com personagens sonhadores e que percorriam uma representação idealizada de Hollywood e da cidade de Los Angeles. Claro, os protagonistas de Emma Stone e Ryan Gosling acabavam tendo que fazer sacrifícios pessoais a fim de realizarem seus sonhos, mas nada que incluísse grandes transgressões ou sujeiras.

Pois bem, tendo isso estabelecido, podemos dizer que Babilônia é a antítese de La La Land, como se Chazelle simplesmente jogasse fora todo o lado gracioso de seu premiado trabalho para mergulhar de cabeça no lado obscuro da indústria do cinema. Se La La Land era o yang, Babilônia é o yin.

Escrito por Chazelle, Babilônia não chega a ter uma história em si, preferindo ser um retrato de uma era, mais especificamente o período entre o final dos anos 1920 e o início dos anos 1930, que em Hollywood marca o fim da era dos filmes mudos, a chegada dos filmes falados e o início de uma certa moralização dos costumes da indústria. Nisso, passamos a acompanhar a jornada de figuras que buscam viver e crescer profissionalmente por ali. A começar por Manny Torres (Diego Calva), imigrante mexicano que faz de tudo um pouco na mansão de um executivo do estúdio Kinoscope, desde servir convidados numa festa orgíaca até transportar um elefante para esta mesma festa. Ele conhece a bela Nellie LaRoy (Margot Robbie), que aspira ser uma atriz famosa e inclusive já age como uma grande estrela. Ambos acabam se conectando com a cantora de cabaré Lady Fay Zhu (Li Jun Li) e o músico de jazz Sidney Palmer (Jovan Adepo), eles próprios buscando ascender com seus talentos. Enquanto isso, o astro Jack Conrad (Brad Pitt) busca manter sua popularidade em meio a casamentos mal sucedidos e a evolução dos filmes.


Damien Chazelle deixa claro já nas cenas iniciais que Babilônia é um filme de excessos, algo que ele faz questão de marcar não só com a grandiosidade do projeto (incluindo suas três horas de duração), mas também com as situações absurdas e, por vezes, escatológicas que retrata. Sendo assim, é difícil não ficar com os olhos arregalados quando Chazelle e seu diretor de fotografia Linus Sandgreen apostam em longos planos para percorrer cenários impressionantes, com centenas (ou seriam milhares?) de figurantes criando um verdadeiro caos visual com seus corpos, em orgias regadas a todos os tipos de drogas. E talvez não seja à toa que Chazelle se sinta confortável para apresentar o título do filme na tela apenas depois desse primeiro ato, o que ocorre após mais de 30 minutos.

E o diretor-roteirista não diminui muito o nível desses excessos ao longo da projeção, fazendo o filme passar por várias situações que ora podem surpreender pelo absurdo (podendo chocar estômagos mais fracos), ora podem divertir com as reações dos personagens. Nesse último caso, um dos melhores momentos do filme vem em uma longa sequência em que acompanhamos uma cena ser filmada várias vezes devido a problemas sonoros. No entanto, ao mesmo tempo em que a grandiosidade do projeto denota sua ambição, tem horas que Damien Chazelle parece confundir isso com preciosismo e autoindulgência, de forma que há momentos em Babilônia que soam redundantes, como a confusão envolvendo uma cobra ou um confronto com um mafioso (vivido por um caricatural Tobey Maguire). São sequências que além de incharem a trama ainda atrapalham o ritmo da narrativa, que acaba ficando um pouco mais irregular a partir da segunda metade da projeção.

Já os personagens servem para ilustrar as opressões que tomam conta dos ambientes por onde eles passam, já que para terem alguma carreira eles se veem abrindo mão de muito do que os define como seres humanos. Diego Calva (em seu primeiro papel fora de terras mexicanas) interpreta Manny Torres como uma figura constantemente inquieta, tentando controlar coisas que, muitas vezes, estão além de seu controle (nesse sentido, talvez não haja muita diferença entre o transporte de um elefante em um carro que não o suporta e os problemas de um set de filmagem ou de um estúdio). Já Margot Robbie encarna Nellie LaRoy como uma imparável força da natureza, exibindo uma energia capaz de alavanca-la ou de destruí-la, ao passo que Brad Pitt traz um charme natural para Jack Conrad, buscando imprimir no personagem uma segurança mesmo que esta não se encaixe em sua realidade, que é jogada em sua cara pela jornalista Elinor St. John, vivida pela sempre ótima Jean Smart. Para completar, Li Jun Li e Jovan Adepo se destacam quando aparecem como Lady Fay Zhu e Sidney Palmer, sendo uma pena que os dois personagens sejam mais periféricos no filme, não tendo tanto espaço quanto os outros três citados mesmo mostrando mais personalidade.

Mas ainda que por vezes acabe tropeçando em seus exageros, no fim Damien Chazelle mostra com propriedade em Babilônia que Hollywood e a arte cinematográfica de modo geral podem realizar mágicas encantadoras, cujo efeito é diferente em cada espectador. Mas muitas vezes essas mágicas podem surtir de uma certa toxicidade, em um ambiente onde o progresso de uns pode ser a derrocada de outros.


Nota:

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Não! Não Olhe!

Uma das coisas que me chamou a atenção recentemente quando assisti ao ótimo documentário Pacto Brutal, sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, foi ver o tratamento dado ao local do crime. Nas imagens ali apresentadas, víamos o lugar ser invadido não só por toda a movimentação da polícia e pelo desespero de familiares da vítima, mas também pela cobertura sensacionalista da imprensa e por um alto número de transeuntes que nada tinham a ver com a história, tendo saído de suas casas e se locomovendo até o local apenas para... Bem, acho que apenas para ver o ocorrido como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Basicamente, as imagens do documentário mostram muito como ser humano pode ser sanguessuga, sentindo uma necessidade/curiosidade de ver coisas horríveis (e até aumentar sua escala) apenas para ser estimulado de alguma forma. Foi nesse sentido que acabei lembrando de Pacto Brutal enquanto assistia a este Não! Não Olhe!, novo longa de Jordan Peele após ele comandar os excepcionais Corra e Nós. Em meio a uma trama que mistura terror e ficção científica, o cineasta faz comentários pertinentes sobre o impulso que as pessoas têm de espetacularizar eventos horríveis, pouco se importando com a natureza deles.

Em Não! Não Olhe!, Jordan Peele nos apresenta aos irmãos OJ e Emerald Haywood (Daniel Kaluuya e Keke Palmer, respectivamente), que perdem o pai (Keith David) durante um inexplicável acontecimento em que objetos caíram do céu. Por conta disso, eles assumem aos trancos e barrancos o negócio da família, treinando cavalos para produções audiovisuais, sendo que eles também dizem ser descendentes do homem que montava o cavalo na famosa sequência de fotos de Eadweard Muybridge (uma das primeiras tentativas de fazer imagens em movimento). Mas quando OJ passa a suspeitar de uma presença extraterrestre na região, ele e Emerald passam a tentar capturar evidências disso em vídeo, tendo a ajuda de Angel Torres (Brandon Perea), o vendedor de uma loja de eletrônicos. Ao mesmo tempo vemos a relação dos irmãos com Jupe (Steven Yeun), um ex-ator mirim que comanda um parque de diversões nas redondezas e parece ter ele próprio certo interesse no que está acontecendo.

Assim como fez em Corra e em Nós, Jordan Peele desenvolve os temas de seu filme com sutileza, evitando martelar demais suas mensagens através de diálogos, permitindo que as imagens falem por si. Assim, o diretor procura deixar que as ações de seus personagens apontem como as pessoas podem subestimar a natureza das coisas e dar tão pouco valor a vida humana, não vendo problema em explorar eventos assustadores e capitalizar em cima disso, além de sempre haver uma garantia de que haverá público para tal sensacionalismo. Além disso, é bacana notar como o diretor faz isso ao mesmo tempo em que dá a família de OJ e Emerald o protagonismo que lhe foi negado no início. Afinal, apesar de ter aparecido em frente à câmera, pouco ou nada se sabe sobre o homem que montou o cavalo na obra de Eadweard Muybridge, tornando o protagonismo (mesmo que ficcional) de seus descendentes uma reparação interessante.


Mas Não! Não Olhe! também mostra riqueza como exercício de gênero, já que além de mesclar muito bem os elementos de terror com os de ficção científica, Jordan Peele novamente exibe uma habilidade admirável para manter o espectador na ponta da cadeira, concebendo sequências intrigantes que vão desde àquela envolvendo um jovem Jupe e que se passa num set de filmagem até a outra em que OJ investiga uma movimentação em seu celeiro. E se pontualmente o diretor insere um ou outro momento mais cômico, estes surgem naturalmente e sem tirar o peso da narrativa. Para completar, o roteiro é rico ao estabelecer sutilmente certas peças que ganharão sentido apenas mais tarde (como um poço no parque de Jupe ou um equívoco que Emerald comete em seu monólogo inicial), algo que Jordan Peele também já havia feito brilhantemente em Corra.

Instigante e tenso como as obras anteriores de seu diretor, Não! Não Olhe! é capaz de entreter sem deixar de colocar um dedo na ferida do público. E Jordan Peele mais uma vez mostra ser uma das vozes criativas mais interessantes no cinema atualmente.


Nota: