sábado, 27 de maio de 2017

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

Depois de uma trilogia consistente, que se desenrolou de maneira divertida e cada vez mais grandiosa até sua satisfatória conclusão, foi frustrante ver Piratas do Caribe escorregar em seu quarto capítulo, Navegando em Águas Misteriosas, que se revelou decepcionante e totalmente descartável. Mas mais frustrante que isso é ver o mesmo erro ser cometido novamente. É o que ocorre neste quinto filme, A Vingança de Salazar, que nunca justifica a própria existência.

Escrito por Jeff Nathanson a partir do argumento concebido por ele e Terry Rossio (que roteirizou os exemplares anteriores em parceria com Ted Elliot), Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar começa nos apresentando ao jovem Henry Turner (Brenton Thwaites), filho de Will Turner e Elizabeth Swann (Orlando Bloom e Keira Knightley, respectivamente) e que quer livrar o pai da maldição do Holandês Voador, navio do qual ele virou capitão ao final do terceiro filme. Para isso, Henry sai em busca do Tridente de Poseidon com a ajuda da astrônoma Carina Smyth (Kaya Scodelario) e do velho conhecido de seus pais, Jack Sparrow (Johnny Depp), cuja morte agora é desejada pelo capitão fantasma Armando Salazar (Javier Bardem), que passa a persegui-lo pelos mares com sua tripulação igualmente amaldiçoada.

Não demora muito para que possamos perceber que este novo exemplar tenta resgatar o espírito dos três primeiros filmes. No entanto, é uma pena que ele faça isso reciclando preguiçosamente uma série de elementos que já vimos antes, de forma que no fim ele acaba soando como uma cópia piorada do que a franquia construiu inicialmente. Temos o vilão amaldiçoado junto com sua tripulação, o filho que quer libertar o pai de uma maldição, o casal de jovens que guardam pra si os sentimentos que têm um pelo outro, a bússola de Jack Sparrow tendo papel importante... Quer dizer, ao que parece não há mais para onde ir ou o que inventar por aqui, com os diretores Joaquim Rønning e Espen Sandberg (os mesmos do bom Operação Kon-Tiki) não tendo chances de trazer coisas novas e expandir o que conhecíamos sobre esse universo. E considerando essa repetição, é até inevitável que alguns pontos da trama se tornem previsíveis.


Não que A Vingança de Salazar não tenha bons momentos. O plano que traz o Pérola Negra dentro de uma garrafa (onde está desde o filme anterior) sendo alinhado com o mar tem sua beleza, ao passo que a participação de um músico famoso se destaca mesmo durando alguns segundos. Da mesma forma, a sequência em que Jack Sparrow quase tem sua cabeça cortada na guilhotina é o tipo de absurdo que tornou a franquia divertida. Mas tudo isso ainda é pouco considerando que a narrativa construída por Rønning e Sandberg se mostra insossa no restante do tempo, com a dupla concebendo cenas de ação que não divertem tanto quanto deveriam (como o roubo ao banco logo no início ou a sequência com os tubarões-fantasma), além de perder tempo com coisas que pouco acrescentam a trama ou são absolutamente descartáveis (o casamento que surge em certo ponto não poderia ser mais constrangedor).

Enquanto isso, Johnny Depp volta ao icônico papel de Jack Sparrow não tendo muita chance de desenvolver um pouco mais o personagem, que ele já interpreta no piloto automático com seus maneirismos. Já seus jovens companheiros de cena, Brenton Thwaites e Kaya Scodelario, até se esforçam como Henry Turner e Carina Smyth, mas não têm uma presença tão cativante ou uma boa dinâmica com Depp, ao contrário daquela que o astro tinha com Orlando Bloom e Keira Knightley. E se Geoffrey Rush até consegue adicionar novas camadas a Barbossa, retornando confortavelmente ao papel e chegando a protagonizar aquele que é o momento mais belo do filme, Javier Bardem pouco pode fazer com Salazar, um vilão que chama atenção visualmente, mas não tem nada de realmente interessante além disso, empalidecendo principalmente quando comparado ao Barbossa do primeiro filme ou ao Davy Jones dos filmes posteriores.

O máximo que A Vingança de Salazar consegue fazer é esticar a série Piratas do Caribe sem exibir qualquer força criativa, apenas tentando aproveitar a nome da marca e contar os milhões de bilheteria que ele ainda é capaz de render. Algo que aparentemente não encontrará um fim tão cedo.

Obs.: Há uma cena após os créditos finais.


Nota:

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Retorno de Twin Peaks


(Obs.: Texto referente aos dois primeiros episódios da nova temporada. Ao contrário das críticas habituais aqui do blog, ele contém alguns SPOILERS. Estão avisados.)

Quando séries de TV são canceladas precocemente, o sentimento de decepção é mais do que natural. Mas acho que é seguro dizer que poucas vezes a decepção foi tão grande quanto a proporcionada pelo cancelamento de Twin Peaks em 1991. Famosa por criar um dos maiores mistérios da TV americana (“Quem matou Laura Palmer?”), a série criada por David Lynch e Mark Frost apresentava um universo que fascinava com sua atipicidade, uma hora parecendo algo calcado na realidade apenas para depois passar a exibir toques oníricos, surreais e sobrenaturais, ao mesmo tempo em que nos colocava diante de uma galeria incomum de personagens, que nos guiavam por uma narrativa ambiciosa e inteligente, evitando caminhos fáceis. Seu ciclo na televisão se encerrou com um cliffhanger de deixar os cabelos em pé e que nunca viu uma resolução, o que não poderia ser mais frustrante em se tratando de uma produção como essa, que influenciou várias outras obras televisivas desde então.

Por tudo isso, é difícil não abrir um sorriso ao ver a série receber uma nova chance para explorar seu material e, no processo, instigar o espectador com o que mostra na tela, o que finalmente ocorre nesta nova temporada produzida pelo canal Showtime e cuja exibição no Brasil ficou a cargo da Netflix. E é ainda melhor que isso acontece mantendo o espírito original da série.

Mesmo que já faça 25 anos desde que o universo de Twin Peaks foi visitado pela última vez (o cancelamento foi em 1991, mas David Lynch lançou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer em 1992) e o público provavelmente esteja com saudades de tudo que a série proporcionou, esse retorno não começa querendo acatar desejos nostálgicos de revisitar logo de cara tudo o que conhecemos anteriormente. Sim, reencontramos alguns personagens e voltamos a locais famosos como a delegacia e o Great Northern Hotel, mas ainda são poucas coisas perto de tudo que já faz parte da mitologia da produção. Ao invés de se focar nisso, Lynch prefere já enfiar o pé na porta e apresentar gradualmente peças novas e antigas que devem mover a trama da vez (novamente aviso: se não quiser saber detalhes dessa nova temporada, retorne a este texto após assistir aos dois episódios), mostrando que o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) passou todos esses anos preso na Black Lodge, onde ficou ao final da 2ª temporada. Enquanto isso, seu doppelgänger (ou réplica) do mal faz serviços sujos com pessoas igualmente mal encaradas, ao passo que uma estranha caixa de vidro é vigiada em Nova York e a polícia de South Dakota começa a investigar o assassinato brutal de uma bibliotecária.


David Lynch e Mark Frost podem até reabrir as portas para aquele mesmo universo que criaram, mas nunca este se mostrou tão estranho, o que se deve principalmente à atmosfera imposta por Lynch nos episódios (toda a temporada foi comandada por ele, diga-se de passagem). O que encontramos aqui é um mundo que se aproxima bastante de um pesadelo, até lembrando Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, os últimos longas que Lynch dirigiu. Sendo assim, os dois episódios iniciais dessa temporada se revelam inquietantes e passam uma constante sensação de desconforto, que cresce em determinados momentos graças ao talento do diretor para criar imagens assustadoras, como o ataque sofrido por um casal, o espírito visto em uma cela de prisão ou o corpo da bibliotecária sendo encontrado pela polícia. E se as imagens em si já deixam o público com os olhos arregalados, a excelente trilha de Angelo Badalamenti trata de ressaltar a tensão ainda mais. Não que o humor da série esteja ausente, pois retorna pontualmente com suas excentricidades e provando que ainda é capaz de divertir, como quando Lucy (Kimmy Robertson) recepciona um agente de seguros ou as cenas com a vizinha da bibliotecária, ainda que esta acabe esticando momentos que poderiam ser mais objetivos. Mas ao menos nesse início trata-se de um detalhe que fica um pouco de lado diante dos outros elementos.

Apresentando questões que são capazes de deixar o público zonzo de tão perdido enquanto se pergunta o que diabos está acontecendo, algo que provavelmente renderá discussões e teorias até a chegada do novo episódio na semana seguinte (o que é a caixa de vidro? E as pistas mencionadas pelo Gigante? Como Dale escapará da Black Lodge? Que viagem foi aquela do personagem pela caixa?), esse início de Twin Peaks aponta que a nova jornada não será um quebra-cabeça de fácil resolução. Mas o que ela traz por enquanto já nos deixa intrigados pelo que vem por aí. Basicamente, a série voltou sendo aquilo que costumava ser. E se a placa na entrada da cidade-título nos dá boas-vindas àquele universo, não custa nada devolver a gentileza: Bem-vinda de volta, Twin Peaks!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Corra!

Quando nos acostumamos com um determinado estilo de um artista, é uma surpresa quando este resolve seguir uma nova direção. Isso pode ser aplicado a Jordan Peele. Mesmo sendo mais conhecido por seus trabalhos na comédia, onde até tem uma parceria com Keegan-Michael Key que recentemente rendeu no cinema o divertido Keanu, Peele estreia como diretor com este Corra!, terror no qual exibe uma segurança admirável na construção da narrativa, ao mesmo tempo em que mostra um pouco de sua veia cômica e traz comentários sociais interessantes, quesitos que certamente lhe são caros.

Escrito pelo próprio Jordan Peele, Corra! tem uma premissa bem simples, focando o jovem fotógrafo Chris (Daniel Kaluuya), que faz uma viagem com sua namorada Rose (Allison Williams) a fim de conhecer a família dela, que inclui os pais, Dean e Missy (Bradley Whitford e Catherine Keener, respectivamente), e o irmão, Jeremy (Caleb Landry Jones). Isso ganha tons receosos por conta de ele ser negro, ao contrário deles. Tal receio aumenta à medida que Chris percebe algo um tanto errado com os empregados negros da casa, passando a desconfiar que a família talvez não seja o que parece.

Trata-se de uma história que não deixa de beber um pouco de uma fórmula já utilizada em vários outros longas, como o clássico Janela Indiscreta, O Suspeito da Rua Arlington e Paranoia, que também trazem protagonistas que desconfiam da natureza de pessoas ao seu redor. E parte da graça desses filmes é exatamente ver o suspense se construindo a partir da pulga atrás da orelha que assombra os personagens, aspecto que Jordan Peele repete eficientemente em Corra!, não nos dando certeza absoluta de que existe realmente uma ameaça (ao menos durante boa parte do tempo) e usando essa interrogação para manter o protagonista e, consequentemente, o espectador inquietos. Nisso, o diretor não só desenvolve uma tensão gradual e constante na narrativa, mas também cria momentos extremamente angustiantes, merecendo destaque a cena em que Chris é hipnotizado (o som da colher na xícara de chá é difícil de esquecer após sair do cinema).
Para completar, Peele consegue fazer com que a estranheza sentida por Chris funcione também para mostrar o próprio desconforto dele na situação em que se encontra. Afinal, por mais que os pais de Rose busquem passar um ar de tranquilidade a ele, o rapaz ainda é o único negro que não é um empregado subalterno na casa daquela família branca e rica. Essa questão racial, por sinal, é algo que Peele trata através de breves e pontuais comentários, fazendo um retrato interessante do famoso racismo velado, com o fato de os brancos dizerem coisas como “Eu votaria no Obama pela terceira vez se fosse possível” servindo como tentativas de esconder ou até mesmo negar isso.

Muito bem estruturado ao ter calma para apresentar detalhes que terão papel importante mais adiante, além de levar o espectador ao riso para aliviar um pouco a tensão, ainda que de um jeito mais escrachado (destaque para uma divertida cena na delegacia), Corra! nos coloca diante de um diretor que mostra saber exatamente o que está fazendo. No processo, o filme se revela um exercício de gênero bastante competente e que já se coloca entre as boas surpresas do ano.


Nota:

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Alien: Covenant

Sexto exemplar da série Alien (oitavo se formos incluir os dois Alien vs. Predador, o que não acho muito necessário), Alien: Covenant não demora muito para mostrar que pretende seguir os passos de seu antecessor, o mediano Prometheus. Aqui, Ridley Scott volta a fazer um filme que traz reflexões existenciais e filosóficas enquanto desenvolve a velha correria tensa da franquia, podendo agora voltar a utilizar o Alien em si (ou xenomorfo, caso o identifiquemos pela espécie). No entanto, enquanto Prometheus se mostrou raso em suas discussões e até mesmo bobo em termos de tensão, este novo exemplar traz esses problemas com mais força.

Escrito pelo experiente John Logan e pelo estreante Dante Harper a partir do argumento de Jack Paglen e Michael Green, Alien: Covenant nos apresenta aos membros da tripulação da nave que dá subtítulo ao filme. A missão deles é encontrar um planeta que possa ser colonizado (praticamente o mesmo ponto do recente – e péssimo – Passageiros), algo que encontra problemas depois que um sério acidente faz todos acordarem de seu sono induzido antes do fim da viagem (novamente lembrando Passageiros). É quando eles decidem checar um planeta mais próximo para ver se seu objetivo pode ser realizado por ali. Mas é claro que as coisas não saem como planejado e o grupo logo se vê tendo que lutar pela sobrevivência, enfrentando várias espécies de Aliens que se criam naquele ambiente hostil.

Se a ideia era dar continuidade a Prometheus, o filme meio que já encontra problemas em seu desenvolvimento. Tendo àquela produção deixado uma série de coisas mal resolvidas, de forma que o gancho no final colocava Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, que aqui surge só em fotos) prometendo dar seguimento à sua missão ao lado de David (Michael Fassbender, o único a realmente retornar do longa anterior), Alien: Covenant teoricamente deveria seguir as ideias apresentadas por lá, podendo até dar a elas o aprofundamento que não haviam tido. Mas apesar de se lembrar disso pontualmente, como logo no início ao trazer um flashback focado na relação entre David e seu criador, Peter Weyland (uma breve participação de Guy Pearce), o roteiro ainda se mantém superficial ao falar sobre nossas origens, além de preferir misturar tais questões com uma nova discussão, pondo em cheque o merecimento dos humanos de se reproduzirem em outro planeta tendo em vista nossa natureza destrutiva.


São ideias que no papel não deixam de soar interessantes, mas que ao serem executadas no filme rendem uma salada de frutas temática sem foco e pretensiosa, com Ridley Scott conduzindo cenas que chegam a ser enfadonhas, como aquela em que David ensina seu “irmão-androide” Walter (novamente Fassbender) a tocar flauta. Para completar, tudo isso perde espaço quando o roteiro se concentra no confronto entre a tripulação da Covenant e os Aliens, aspecto que talvez seja o principal interesse do filme. No entanto, por mais que Scott tente criar tensão na narrativa, usando até um alto nível de violência em determinadas partes (a cena em que um Alien sai pelas costas de um personagem se destaca nesse sentido), é difícil ficar angustiado com aquela situação tendo em vista que o longa tem em mãos personagens sem personalidade, que por vezes agem de maneira estúpida e são descartados gradualmente sem qualquer impacto. Isso é lamentável principalmente considerando que o elenco tem nomes talentosos como Katherine Waterston, Billy Crudup, Demián Bichir e Carmen Ejogo. E ainda que Michael Fassbender faça algumas coisas interessantes com seu papel duplo de David e Walter, mostrando o fascínio da dupla pelo mundo ao seu redor, é irritante que o roteiro aproveite o ator para inserir uma reviravolta que, de tão previsível e batida, pode ser notada quase uma hora antes de ocorrer.

Mesmo chamando atenção quanto a alguns detalhes da origem do xenomorfo que conhecemos lá no primeiro filme, Alien: Covenant tropeça demais nas próprias pernas, querendo lidar com muitas coisas, mas sem saber como. No fim, o que se tem é um longa decepcionante e esquecível, que nem parece ter sido feito pelo mesmo Ridley Scott que iniciou a série há quase 40 anos.



Nota:

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia: Vol. 2

Apesar de contar com personagens que até então não eram os mais populares da vasta galeria que a Marvel tem em mãos, Guardiões da Galáxia encontrou sucesso ao apostar em um humor irreverente que, somado ao carisma de seu grupo de heróis e a riqueza de seu universo cósmico, o tornou uma das grandes surpresas entre os filmes produzidos pelo estúdio. Naturalmente, o filme chegava ao fim deixando a vontade de reencontrar aquelas figuras em novas aventuras, o que finalmente ocorre neste Guardiões da Galáxia: Vol. 2, que felizmente consegue fazer a fórmula do primeiro exemplar funcionar novamente.

Com James Gunn assinando mais uma vez o roteiro e a direção, Guardiões da Galáxia 2 coloca Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz de Bradley Cooper) e o pequeno Groot (voz de Vin Diesel) encarando o surgimento de Ego (Kurt Russell, sempre uma presença interessante), o pai de Peter. Mas enquanto conhecem novos aliados, lidam com antigos antagonistas e descobrem mais detalhes sobre a natureza de seu líder, os Guardiões ainda se veem sendo perseguidos pelos Soberanos liderados por Ayesha (Elizabeth Debicki), que querem o fim dos heróis devido a contas mal acertadas.

A partir disso, James Gunn forma a base para repetir o que havia feito no primeiro filme, de maneira que este novo longa tem as mesmas qualidades e também os mesmos problemas de antes. Sendo assim, o roteiro recorre muito para diálogos expositivos (às vezes longos demais) para estabelecer coisas importantes, enquanto que algumas piadas soam um tanto forçadas e bobas, o que não deixa de ser natural considerando a grande quantidade delas (seria uma surpresa se todas fossem eficazes). Para a sorte de Gunn, o humor irreverente que ele volta a impor ainda funciona na maior parte do tempo com suas gags, sendo algo que o diretor preza a ponto de parar o filme apenas para poder fazer uma série de piadas, como quando Yondu (Michael Rooker) e Rocket têm falhas de comunicação com Groot (um dos momentos mais divertidos do filme).


Se esse quesito trata de levar o espectador constantemente ao riso, o trabalho de design de produção e de maquiagem concebe aquele universo e seus habitantes com uma diversidade fascinante, desde o império dos Soberanos, um povo com uma adoração pelo dourado, até o planeta de Ego e os membros bizarros da tripulação de Yondu. Aliás, é curioso notar como todos esses elementos constroem uma identidade bem particular do universo dos Guardiões da Galáxia no cinema, de forma que é até uma surpresa que, no fim das contas, o longa faça parte da mesma franquia que heróis como Homem de Ferro, Capitão América, Thor e Hulk, detalhe que o roteiro lembra pontualmente.

Enquanto isso, mesmo desenvolvendo uma história muito grande, James Gunn nunca perde de vista a chance de se aprofundar nos personagens e nas relações entre eles, criando momentos mais intimistas em meio à trama e que, por vezes, tocam o espectador com sua surpreendente sensibilidade, como a breve cena em que Peter e Ego brincam com uma bola. Para completar, Gunn é hábil na condução das sequências de ação, que divertem e exibem uma energia contagiante (a abertura com a dança de Groot em um momento caótico é um dos melhores exemplos disso), conseguindo também envolver o público por contar com personagens com os quais nos importamos. Nesse ponto, o carisma de atores como Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista e Michael Rooker (sem dúvida um dos grandes destaques) se revela essencial, com eles ganhando a chance de humanizar um pouco mais seus personagens e exibindo no processo uma segurança maior nos papeis.


Embalado por canções tão boas quanto as do primeiro filme e encerrando com aquele que é desde já um dos momentos mais belos da franquia do universo Marvel, Guardiões da Galáxia 2 é uma continuação que usa a máxima do “em time que está ganhando não se mexe” a favor da narrativa, sabendo usar isso para ficar no mesmo nível de seu já admirável antecessor.

Obs.: Há nada mais, nada menos que cinco cenas durante os créditos finais.

Nota:

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Velozes & Furiosos 8

Apesar de não ser uma franquia particularmente consistente, mesclando exemplares divertidos com outros mais irregulares, é no mínimo curioso (para não dizer insano) notar a evolução de Velozes & Furiosos ao longo de seus pouco mais de 15 anos de existência. Se no início a série apresentava tramas policiais situadas no submundo das corridas clandestinas, mais tarde ela entrou no ramo dos heist movies (quando um grupo se organiza para realizar um roubo), apenas para hoje ser uma espécie de filhote de Missão Impossível. Tudo isso mantendo sua natureza motorizada, enquanto que a escala de produção e o nível de absurdo foram aumentando gradualmente. Esses dois últimos detalhes chegam ao ápice neste Velozes & Furiosos 8, um longa que podemos classificar como sem noção, algo que até contribui para que ele seja uma diversão eficiente.

Escrito pelo mesmo Chris Morgan que assumiu os roteiros da franquia a partir do terceiro filme, Velozes & Furiosos 8 mostra Dominic Toretto (Vin Diesel) em lua de mel com sua amada Letty (Michelle Rodriguez), finalmente vivendo em paz. Mas isso muda quando a ciberterrorista Cipher (Charlize Theron) surge em seu caminho, obrigando-o a trair seus ideais e sua família para ajuda-la em seus crimes ao redor do mundo e que podem iniciar uma guerra (quem imaginaria esse tipo de coisa lá no primeiro exemplar da franquia?). Cai no colo de Hobbs (Dwayne Johnson) e da equipe habitual de Dom impedir que os planos de Cipher com o herói cooptado se concretizem, sendo que para isso o grupo ainda ganha o auxílio de velhos antagonistas e do Sr. Ninguém (Kurt Russell).

Trazendo um novo diretor para a franquia ao ir parar nas mãos de F. Gary Gray (o mesmo do ótimo Straight Outta Compton e que também é o responsável pelo belo remake de Uma Saída de Mestre, que tem elementos em comum com Velozes & Furiosos), este oitavo capítulo não deixa de seguir a fórmula que a série estabeleceu para si mesma nos últimos exemplares, conseguindo apresentar dentro disso uma narrativa que abraça com muito gosto os absurdos que surgem na tela, por mais idiotas que possam ser. E quando achamos que isso chegou no limite, o longa dá um jeito de se superar um pouco mais. É desse jeito que se forma a diversão que ele proporciona durante suas mais de duas horas de duração, trazendo momentos que causam risos por serem inacreditáveis, seja a fuga da prisão que ocorre no início do segundo ato (e na qual Dwayne Johnson mostra o quanto se diverte com a força bruta de Hobbs) ou o suicídio coletivo cometido por carros (você leu isso certo), sem falar na sequência final situada em um infinito canal congelado, local que parece desafiar a infinita pista de decolagem vista no sexto filme. Nisso, F. Gary Gray merece créditos por comandar a ação de maneira ágil e conseguindo injetar energia o suficiente para prender a atenção do público durante a maior parte do tempo.


No entanto, ainda que Velozes & Furiosos 8 divirta com todos esses elementos, há de se ressaltar que em determinados momentos a estupidez inerente da narrativa simplesmente testa a paciência do público. Se por um lado a descaracterização de alguns personagens feita pelo roteiro acaba funcionando para o que o filme quer fazer, por outro ele ainda aposta em frases de efeito e diálogos bobos (“Cipher é um ato digital de Deus”, “Eu vou te bater como um tambor cherokee”) enquanto desenvolve uma trama que quer surpreender, mas sem ter a competência ou criatividade para isso, como comprovam algumas reviravoltas pontuais, sendo que aquela envolvendo o retorno de um personagem no terceiro ato chega a irritar em sua tentativa óbvia e mal feita de enganar o público.

Enquanto isso, o elenco liderado por Vin Diesel volta a exibir uma boa dinâmica tanto como equipe quanto como família, algo que o roteiro preza bastante e, por isso mesmo, põe à prova ao longo da história. É um ponto que até rende momentos interessantes, como aquele em que vários cabos tentam prender o protagonista, tentando trazê-lo de volta para o lado do bem, ou o outro no qual ele encontra pessoalmente o motivo de sua aliança com Cipher, cena que deve ser a mais dramaticamente eficaz de toda a série. Aliás, falando na vilã, Charlize Theron cria uma figura que faz questão de mostrar o prazer que sente em ser uma canalha, além de surgir como uma ameaça palpável para os heróis e obrigando-os a se superarem para detê-la.


Mesmo não fazendo nada de muito diferente dentro do que a franquia tem apresentado, Velozes & Furiosos 8 funciona bem como entretenimento, sendo uma possível constatação de que os realizadores encontraram um caminho mais satisfatório para a diversão ao não temerem assumir o lado ridículo da narrativa.

Nota:

quinta-feira, 30 de março de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Adaptação do mangá de Masamune Shirow, O Fantasma do Futuro organizava uma narrativa complexa que encantava com suas discussões envolvendo tecnologia e natureza humana, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma trama policial e política envolvente com seus personagens. Trata-se de um filme rico em vários aspectos, trazendo um conteúdo que dialoga muito bem com obras como Blade Runner e RoboCop (o primeiro certamente foi uma de suas principais inspirações). É um material que não deixa de ter um bom potencial para render outras produções interessantes, algo que este remake, A Vigilante do Amanhã, parece compreender. Mas os esforços deste novo longa em repetir o sucesso de seu original não chegam a render uma obra tão boa quanto poderia.

Situado em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã segue Major (Scarlett Johansson), que após um acidente torna-se a primeira pessoa a ser transferida para um corpo cibernético, em um experimento realizado pela Dra. Ouélet (uma Juliette Binoche pouco aproveitada), ganhando habilidades sobre-humanas. Trabalhando com a força-tarefa conhecida como Seção 9, liderada por Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), Major se concentra em perseguir e prender terroristas. Com a ajuda de seu parceiro Batou (Pilou Asbæk), ela passa a investigar um criminoso (Michael Pitt) capaz de hackear as mentes das pessoas através da rede que as mantém interconectadas, sendo que ela ainda encara segredos sobre seu passado que a fazem questionar sua própria natureza.

Inicialmente, a impressão que o filme passa é a de que seguirá mais ou menos à risca aquilo que foi feito na animação original, como se vê nos créditos iniciais que surgem enquanto o corpo de Major é construído ou na sequência em que a protagonista salta de um prédio e se camufla para atacar seus alvos. Logo, porém, o roteiro (escrito por Jamie Moss e William Wheeler em parceria com Ehren Krueger) sai dessa linha, fazendo modificações e tentando seguir seu próprio caminho enquanto busca manter a essência de seu material. Nisso, até vemos pontualmente certas discussões envolvendo a relação da humanidade com a tecnologia avançada, com foco principalmente em questões existenciais quanto ao que nos torna humanos e se isso não seria afetado de alguma forma por aprimoramentos robóticos. E quando alguém diz que Major é o que todos serão um dia, é notável ver a atenção que o diretor Rupert Sanders (o mesmo do fraco Branca de Neve e o Caçador) dá para a solidão da personagem, dando um tom melancólico para o sentimento de deslocamento dela e para a possibilidade disso se espalhar pela sociedade.


No entanto, apesar de o filme apresentar um universo rico (por mais que sua concepção grite “Blade Runner” várias vezes, seja no visual com grandes outdoors holográficos ou no uso de memórias implantadas), essas ideias trazidas por ele não ganham muito aprofundamento, sendo também uma pena que tudo seja embalado por uma narrativa sem energia durante a maior parte do tempo, o que dificulta seus esforços para envolver o espectador. É algo que atinge não só o desenvolvimento da trama, mas também as próprias sequências de ação, quesito no qual Rupert Sanders parece mais preocupado em criar grandes momentos em câmera lenta do que em conceber cenas empolgantes com sua protagonista e as habilidades dela, que no fim são utilizadas de maneira burocrática, pouco imaginativa. Aliás, falando em Major, vale dizer que Scarlett Johansson volta a criar uma heroína de ação forte, trabalhando bem a humanidade da personagem e suas dúvidas quanto ao que realmente é (o pequeno susto que ela leva ao ser abraçada em determinado momento é um toque curioso nesse sentido), ainda que o papel se encaixasse melhor em uma atriz asiática.

Mesmo trazendo elementos interessantes em seu cerne, A Vigilante do Amanhã é um remake que não chega a realmente justificar sua existência, deixando ao final da projeção o sentimento de que pouco acrescentou ao que foi feito pelo anime original há cerca de 20 anos.


Nota: