sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros

Debi & Lóide deve ser um dos filmes mais subestimados da década de 1990. Claro que esta estreia dos irmãos cineastas Peter e Bobby Farrelly tem vários admiradores, mas é uma comédia que não parece ser referenciada como uma obra-prima, um clássico do gênero. No entanto, está mais do que na hora de dar o devido crédito a esse filme. Mesmo não sendo inovador e contando com um humor que pode soar idiota (ao menos à primeira vista), Debi & Lóide acaba representando uma experiência absolutamente hilária ao colocar o público em frente a duas figuras que não poderiam ser mais estúpidas.

Escrito pelos Farrelly em parceria com Bennett Yellin, Debi & Lóide acompanha as desventuras dos amigos fracassados Lloyd Christmas (Jim Carrey) e Harry Dunne (Jeff Daniels), que decidem atravessar o país até as montanhas gélidas de Aspen, no Colorado. O objetivo: devolver a maleta que Mary Swanson (Lauren Holly), mulher por quem Lloyd se apaixonou, teria esquecido no aeroporto antes de viajar. O que eles não sabem é que tal maleta deveria concluir uma transição entre Mary e alguns bandidos, que passam então a ficar no encalço da dupla ao longo de toda sua jornada.
Há comédias que disparam piadas para todos os lados e acertam muito pouco (ou até mesmo nada). Há outras que conseguem divertir, mas deixam algum espaço entre as risadas que causa. E há aquelas que fazem o espectador gargalhar constantemente durante sua história. Debi & Lóide se encaixa facilmente neste último tipo. Os irmãos Farrelly exploram com eficiência as personalidades de seus dois protagonistas em todas as sacadas do roteiro. Nisso, eles apostam em um humor que vai desde tiradas rápidas (a cena em que Lloyd comemora a chegada do homem à lua), passando por gags politicamente incorretas (como aquela envolvendo o periquito presenteado a um menino cego, uma das melhores do filme) e chegando ao ponto de brincar com informações que são de conhecimento do público, mas não dos personagens (o policial bebendo uma “cerveja”).
Mas Debi & Lóide não é admirável apenas por suas piadas inspiradas, pois do ponto de vista de estrutura ele também é exemplar, tendo um roteiro que não apresenta uma série de elementos secundários à toa. Em vários momentos, são inseridos no filme personagens e certas informações que inicialmente aparentam cumprir rapidamente sua função na narrativa, ou simplesmente não soam tão importantes. Mas quando voltam a ganhar atenção, não só pegam o espectador de surpresa, como também o fazem rir pela forma como são usados (as corujas que surgem em determinada cena são exemplo disso).
Só que o filme provavelmente perderia forças caso a dupla de protagonistas não fosse tão interessante. Por sorte, Jim Carrey (que na época fazia da comédia seu principal nicho e chegava estrelato absoluto com o sucesso de Ace Ventura e O Máskara) e Jeff Daniels (ator que sempre transitou bem entre vários gêneros) encarnam Lloyd e Harry com uma divertida ingenuidade, tendo ainda uma dinâmica excepcional e um carisma que nos faz simpatizar com eles rapidamente. A grande camaradagem entre os dois é a alma de Debi & Lóide, sendo curioso notar como eles se completam à sua própria maneira, como pode ser visto, por exemplo, quando um mostra não saber ler direito, fazendo o outro dizer o que está escrito em um jornal.
Quando uma comédia é realmente boa, tendemos a rir de suas piadas sempre que a revisitamos ao longo dos anos, não importa quantas vezes façamos isso. No caso de Debi & Lóide se passaram exatos 20 anos e o filme mesmo assim é capaz de causar ataques de risos como se o víssemos pela primeira vez. É outra prova de como ele é bem sucedido dentro de tudo o que almeja – como se ainda precisasse de mais uma evidência disso.
Nota:

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Interestelar

A curiosidade é responsável por boa parte dos grandes passos dados pelo homem em termos tanto de conhecimento quanto de evolução. É o que nos faz querer explorar o desconhecido, por mais estranho que este possa parecer, e cada nova descoberta nos deixa naturalmente mais instigados. Interestelar, novo filme do diretor britânico Christopher Nolan, apresenta um mundo que precisa urgentemente deste tipo de curiosidade, e o que vemos na tela é uma jornada que, apesar de não ser desprovida de problemas, se revela intrigante e tecnicamente brilhante.

Escrito pelo próprio Christopher Nolan em parceria com seu irmão Jonathan, Interestelar se passa em um futuro próximo, apresentando um planeta Terra cada vez mais escasso e que consequentemente está colocando toda a raça humana em risco. Nessa realidade, entra em cena o engenheiro e ex-piloto Joseph Cooper (Matthew McConaughey), que descobre que a NASA tem realizado expedições com o propósito de encontrar outro planeta para ser habitado pelas pessoas, em um projeto liderado pelo Professor John Brand (Michael Caine). É então que Cooper aceita a proposta de se juntar a filha de Brand, Amelia (Anne Hathaway), e liderar a equipe que fará a viagem que explorará os confins do universo, indo além de buracos negros e “buracos de minhoca” para definir o futuro de todos, mesmo que isso o faça deixar seus filhos Murph e Tom (Mackenzie Foy e Timothée Chalamet, respectivamente) para trás sem perspectiva de retorno.

A maior parte da primeira hora de projeção é dedicada para que Christopher Nolan estabeleça a realidade na qual estamos embarcando e apresente elementos que, ao longo da narrativa, servirão como uma espécie de guia para o desenvolvimento das ideias complexas que permeiam a história, o que é feito de maneira orgânica pelo roteiro ainda que inevitavelmente renda sua parcela de diálogos expositivos. Dessa forma, ficamos sabendo não só sobre os planos que John Brand tem para a colonização de outros planetas, mas também que as pessoas parecem estar meio que em um estado de retrocesso, negando algumas de suas maiores conquistas, como a chega do homem à lua. Nesse sentido, não deixa de ser irônico que a aposta para a salvação da humanidade seja exatamente uma exploração espacial. Para completar, ao mostrar que o ambiente na Terra fica revestido de pó, o diretor passa a ideia de um lugar ultrapassado, em um simbolismo curioso e adequado à trama.

É então que a viagem dos personagens tem início e Nolan passa a montar um filme que faz jus ao gênero de ficção científica, com seus conceitos investindo ora no existencialismo, ora no moralismo, passando pela própria natureza humana e trazendo até mesmo o espaço-tempo como um componente importante de toda a equação. Aliás, a relação que Interestelar tem com o tempo é um de seus pontos mais interessantes. O fato de minutos em outro planeta poderem significar anos na Terra adiciona um triste peso ao arco dramático de Cooper, que se vê perdendo a chance de ver seus filhos crescerem (quando adultos eles passam a ser interpretados por Jessica Chastain e Casey Affleck), além de criar uma tensão muito eficiente considerando que perder tempo é a última coisa que o protagonista e os membros de sua equipe querem. É um detalhe que torna eletrizante, por exemplo, a sequência que se passa em um planeta com ondas gigantes.

Tudo isso somado a sua escala absolutamente grandiosa faz de Interestelar uma bela experiência cinematográfica, e assisti-lo em uma sala IMAX expande isso consideravelmente. O design de produção de Nathan Crowley, com o auxílio dos impressionantes efeitos visuais, dá atenção aos mínimos detalhes das naves, “buracos de minhoca” e tudo o que vemos no espaço, sendo hábil também ao trazer certa precariedade a Terra futurista, que ainda assim se mantém como um lugar esteticamente mais cativante do que os outros planetas que vemos na história. Em meio a isso, é perceptível a influência que 2001: Uma Odisseia no Espaço tem no filme, algo que pode ser visto pelo modo como Christopher Nolan comanda determinadas sequências no espaço, além de elementos como o robô que ajuda os personagens nas expedições (uma mistura de HAL 9000 com um monólito) e a trilha de Hans Zimmer, que em alguns acordes lembra “Also Sprach Zarathustra” e dita bem o ritmo da narrativa.

Enquanto isso, o excelente Matthew McConaughey encarna Cooper com sua competência habitual, criando um personagem determinado e que tem na relação com os filhos (Murph em especial) seu lado mais vulnerável, e até por isso a cena em que ele chora ao ver uma mensagem deles é um momento particularmente tocante do filme. Já Murph é interpretada por Jessica Chastain com uma compreensível amargura, mas que não a impede de se manter conectada ao que seu pai está fazendo, vindo a ser uma pupila do Professor Brand, que tem em Michael Caine um intérprete que estabelece sua importância e inteligência desde o princípio. E se Anne Hathaway e Casey Affleck não tem muitas chances para tornar Amelia e Tom interessantes, detalhe que se deve mais ao modo um tanto raso com que o roteiro os desenvolve, o ator que interpreta um certo Dr. Mann (e que prefiro não revelar aqui) consegue subverter bem as expectativas do público considerando os tipos de papeis que ele costuma aceitar.

Mas mesmo com todas suas qualidades, Interestelar encontra problemas que o impedem de ser outra obra-prima do currículo Christopher Nolan. A cena em que Amelia e Cooper discutem como o amor transcende o espaço-tempo, por exemplo, não se encaixa direito na trama, talvez por o diretor tratar esse assunto com muito mais racionalidade do que sensibilidade, o que é uma pena se levarmos em conta que isso é importante para a narrativa. E apesar de o roteiro conseguir criar uma lógica interna que faz funcionar coisas absurdas do terceiro ato, é inegável que algumas delas ainda soam forçadas, caindo até no bom e velho deus ex machina.

Interestelar não é o melhor filme do ano e muito menos o melhor de Christopher Nolan, mesmo representando seu trabalho mais ambicioso por tudo o que explora. Mas no fim ainda é um ponto positivo para o diretor, sendo uma ficção científica admirável durante suas quase três horas de duração, não ficando no lugar-comum e se mostrando repleta de grandes momentos.

Nota:

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

November Man: Um Espião Nunca Morre

Depois de estrelar quatro filmes como James Bond na franquia 007, Pierce Brosnan ficou meio longe dos thrillers de espionagem, se dividindo entre outros gêneros que vão da comédia até a fantasia. Mas o ator retorna ao nicho no qual obteve mais sucesso neste November Man: Um Espião Nunca Morre, thriller comandado por Roger Donaldson, diretor com quem o astro trabalhou no já esquecido O Inferno de Dante. E apesar de problemático, a nova parceria dos dois resulta em uma obra razoável, em parte exatamente por causa da presença de Brosnan.

Baseado no livro de Bill Granger, o roteiro escrito por Michael Finch e Karl Gajdusek se concentra em Peter Deveraux (Brosnan), agente da CIA que se aposenta depois que uma de suas missões termina tragicamente graças a um erro de seu então pupilo David Mason (Luke Bracey). Anos depois, Deveraux é chamado por seu superior, John Henley (Bill Smitrovich), para ajudar na fuga de uma informante que conseguiu provas de que o presidente eleito da Rússia, Arkady Federov (Lazar Ristovski), é um criminoso de guerra. Mas as coisas não saem como planejado e a CIA fica no encalço de Deveraux, que com o auxílio da assistente social Alice Fournier (Olga Kurylenko) passa a tentar desmantelar toda a conspiração por trás do que está acontecendo, ao passo que Mason é enviado para eliminá-lo.

Inicialmente, November Man aparenta ter potencial para render um belo filme, mas à medida que avançamos na narrativa ele vai caindo com facilidade em uma sucessão de clichês, além de perder um pouco o foco da história de vez em quando. Isso ocorre até por o roteiro inserir muito mais peças do que é capaz de lidar em seu jogo de gato e rato, numa possível tentativa de deixar a trama mais complexa. Mesmo assim, o clima conspiratório imposto por Roger Donaldson funciona bem, o que impede o filme de ser aborrecido, envolvendo o espectador durante a maior parte do tempo. Mas se nesse aspecto o realizador acerta, o mesmo não pode ser dito sobre o modo como ele conduz as cenas de ação, que se revelam burocráticas em sua maioria, não tendo nada de especial.

Assim, o atrativo absoluto do filme acaba sendo Pierce Brosnan, que surpreende ao encarnar Peter Deveraux com uma intensidade que pouco tem se visto em seus trabalhos recentes. Com uma presença admirável em cena, Brosnan faz do protagonista uma figura cuja autoridade e experiência ficam evidentes logo de cara, sem falar que é curioso ver que ele se mostra disposto a machucar pessoas inocentes para atingir alguém que vê como inimigo. E a relação de Deveraux com Mason (interpretado com segurança por Luke Bracey) chama atenção pelo respeito que eles claramente têm um pelo outro, mesmo estando em lados opostos. No entanto, é uma pena isso não reflita na dinâmica dele com Alice Fournier, personagem que a bela Olga Kurylenko faz o possível para tornar interessante, apesar de o roteiro não ajudá-la muito.
Se equilibrando entre acertos e erros, November Man é um filme que até pode entreter enquanto durar. Mas é o tipo de produção que passa despercebida por não fazer nada muito memorável em termos narrativos.

Nota:

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Apocalipse

Como foi comentado na crítica do recente Fúria, Nicolas Cage dedica uma boa parte de seu tempo a filmes que não tem muita ambição artística. É como se o ator estivesse, basicamente, atrás de um cheque que pague suas contas. No entanto, às vezes ele se supera na escolha desses projetos, fazendo jus à fama de que topa qualquer coisa. O Apocalipse é um bom exemplo disso, afinal, temos aqui uma produção que falha nos mais diversos sentidos.

Servindo como reboot no cinema para a série literária Deixados Para Trás (que ganhou uma trilogia de filmes entre 2000 e 2005), O Apocalipse mostra o fim dos tempos seguindo o conceito do Arrebatamento, que diz que os únicos indivíduos dignos de salvamento são àqueles que acreditam em Deus. Assim, em um dia aparentemente comum, milhões de pessoas simplesmente desaparecem, deixando o restante da população em um verdadeiro caos. Nisso, somos apresentados ao piloto Rayford Steele (Cage), que busca manter a calma entre os passageiros de seu avião e descobrir o que está acontecendo. Para isso, ele contará com a ajuda do jornalista investigativo Cameron Williams (Chad Michael Murray). Já a filha de Rayford, Chloe (Cassi Thomson), está em busca do irmão, Raymie (Major Dodson), e da mãe, Irene (Lea Thompson), que estão entre os desaparecidos.
O Apocalipse passa seus primeiros minutos apresentando os personagens e seus dramas pessoais. Eles, no entanto, se revelam tão aborrecidos e estúpidos que é difícil se importar com qualquer um ao longo da projeção – e o fato de termos um péssimo elenco em cena não melhora as coisas. Cage, por exemplo, surge tão no piloto automático que é uma surpresa não o encontrarmos dormindo em certos momentos. Consequentemente, o diretor falha em todas as suas tentativas de tornar a narrativa intrigante, se mostrando inábil em criar qualquer tipo de tensão. Vic Armstrong, na verdade, revela ser um realizador que não sabe o que fazer com a câmera, já que não é raro vermos cenas um tanto desengonçadas tecnicamente, como quando Chloe usa um carro para limpar a pista. Sem falar que, ao menos num ponto de vista estético, o filme é simplesmente decepcionante, com efeitos visuais capengas dignos de produções trash.
Se esses aspectos já seriam suficientes para colocar O Apocalipse entre os piores do ano, ele ainda encontra problemas na forma como o roteiro trata a discussão envolvendo religião. É algo que soa bobo tanto na base da história com o Arrebatamento (que poderia ser interessante caso houvesse uma crítica bem construída à intolerância que esse conceito traz) quanto nas conversas que os personagens têm sobre suas crenças. Aliás, tais conversas são inseridas de um jeito forçado pelo roteiro, evidenciando a pobreza com relação ao desenvolvimento da história. Além disso, Armstrong parece achar que o público tem dificuldade para perceber a natureza religiosa do filme, focando constantemente em Bíblias e certas passagens para ressaltar como isso é um detalhe importante.
Em determinado momento de O Apocalipse, um personagem diz que todo o caos foi apenas o começo. Se esse começo já foi torturante, prefiro não imaginar como será o resto. E é triste ver um ator talentoso como Nicolas Cage protagonizando uma porcaria deste nível.
Nota:

domingo, 26 de outubro de 2014

Atirem no Pianista

Passando de crítico da Cahiers du Cinéma a cineasta, um dos grandes nomes da Nouvelle Vague, François Truffaut emocionou a maioria das pessoas logo em sua estreia por trás das câmeras, com a obra-prima Os Incompreendidos. Algo que um realizador, de um jeito ou de outro, sempre cria depois de ter esse tipo de recepção é certa expectativa com relação ao seu filme seguinte. O de Truffaut veio a ser Atirem no Pianista, adaptação do livro do americano David Goodis. Aqui o diretor tem em mãos uma trama completamente diferente da apresentada em sua primeira realização, conduzida de maneira a render um thriller muito eficiente, com suas marcas do início ao fim.

Escrito pelo próprio Truffaut em parceria com Marcel Moussy (colaborador habitual do diretor), o roteiro segue Charlie Kohler (Charles Aznavour), que na verdade é Edouard Saroyan, pianista outrora famoso, mas que agora trabalha tocando em um bar, enquanto tenta cuidar de seu irmão mais novo, Fido (Richard Kanayan). Tudo isso para fugir de sua família e de seu passado, que incluí o suicídio da esposa, Theresa (Nicole Berger). Então, seu outro irmão, Chico (Albert Rémy), se encrenca com os gângsteres locais Momo e Ernest (Claude Mansard e Daniel Boulanger), obrigando-o a abraçar novamente as coisas que pensava ter deixado para trás, tendo para isso a ajuda da garçonete Léna (Marie Dubois).
É uma história que poderíamos ver em um filme noir hollywoodiano, e se considerarmos que na época Truffaut havia feito apenas Os Incompreendidos, muitos poderiam pensar nele como inadequado para esse tipo de material. No entanto, estamos falando de um cineasta que era grande conhecedor do cinema e que tinha Alfred Hitchcock como ídolo. Portanto, é difícil acompanhar Atirem no Pianista sem vê-lo como uma homenagem de Truffaut a um gênero pelo qual tinha apreço particular.
E é uma homenagem muito interessante, já que, por mais que Truffaut siga a cartilha dos thrillers, ele imprime sua própria identidade no filme. Assim, ele não deixa de criar uma surpreendente verossimilhança em volta daquele universo, seja com relação à maneira como filma ou às locações utilizadas, fazendo isso sem sacrificar o ritmo envolvente da história e a tensão que passa por ela pontualmente, seja em uma briga entre Charlie e seu chefe, Plyne (Serge Davri), ou no intenso terceiro ato, em momentos que põe à prova o quanto nos importamos com o protagonista.
Falando nele, há de se ressaltar que Charles Aznavour segura a narrativa com propriedade. Tendo no físico franzino um de seus grandes trunfos para a trama, o ator traz um senso de vulnerabilidade surpreendente para Charlie/Edouard, algo que combina com o jeito tímido, sensível e até solitário do personagem. Enquanto isso, a bela Marie Dubois faz de Léna uma figura carismática na tela, fugindo um pouco da posição de femme fatale, ao passo que Albert Rémy, Claude Mansard e Daniel Boulanger deixam fortes impressões como Chico, Momo e Ernest, respectivamente.
Se Os Incompreendidos apresentou o talento de François Truffaut ao mundo, Atirem no Pianista é uma das obras que confirmaram ainda mais que ele iria realizar grandes trabalhos ao longo de sua carreira. Nada mal para um diretor que hoje é reconhecido como uma parte essencial do cinema.
Nota:

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Drácula: A História Nunca Contada

No início do ano, Frankenstein: Entre Anjos e Demônios trouxe o monstro criado por Mary Shelley de volta às telonas em uma releitura pobre tanto em conteúdo quanto em sua execução, o que certamente deu desgosto à maioria dos fãs do personagem. No entanto, figuras clássicas da literatura e do cinema de terror são fontes inesgotáveis de ideias, e agora chegou a vez do maior vampiro de todos retornar em uma produção que mostra uma versão alternativa da sua origem. Mas apesar de mais suportável que o filme de Frankenstein, Drácula: A História Nunca Contada infelizmente também se revela uma obra descartável.

Escrito pelos estreantes Matt Sazama e Burk Sharpless, Drácula: A História Nunca Contada acompanha a rotina do príncipe de Transilvânia, Vlad Tepes (Luke Evans), que vive o mais tranquilamente possível ao lado da esposa Mirena (Sarah Gadon) e do filho Ingeras (Art Parkinson) enquanto tenta manter a paz entre seu reino e o do povo turco, liderado pelo sultão Mehmed (Dominic Cooper). Mas quando ele se recusa a ceder mil garotos, incluindo seu filho, para serem treinados pelos turcos, Mehmed declara guerra. Sabendo que seus exércitos não são páreos para as forças adversárias, Vlad decide ir até o monstruoso Vampiro Mestre (Charles Dance), que lhe concede temporariamente a força sobre-humana de uma criatura da noite, mas com o aviso de que permanecerá assim para sempre caso sacie sua sede por sangue.
A princípio, o conceito da criação deste Drácula poderia render algo interessante, mas o modo como é desenvolvido se revela bobo e trôpego em seus clichês. Tudo se junta em uma narrativa rasa, que somada à previsibilidade da trama o impede de ser minimamente envolvente. Além disso, ao trazer um prólogo que mostra brevemente alguns detalhes que veremos ao longo da projeção (“spoilers”?), o roteiro evidencia a estrutura problemática que concebe para contar sua história.
Enquanto isso, o diretor Gary Shore (outro estreante) não dá sinais de ser um realizador dos mais talentosos. Sem conseguir impor um bom ritmo em sua narrativa, piora a situação ao conduzir as cenas de batalha de maneira burocrática e, por vezes, confusa, investindo em vários cortes rápidos e desnecessários. Outro ponto problemático é a fotografia escura de John Schwartzman (por causa disso, aliás, é um alívio que o filme não tenha sido convertido para 3D). E por Shore ter em mãos um personagem que usa seus poderes para arrasar exércitos inteiros sem nenhuma ajuda, a ação fica cansativa rapidamente, sem falar que por mais que a sede por sangue pareça enfraquecer Vlad, esse detalhe não chega a ser utilizado a ponto de torná-lo vulnerável.
Se isso de certa forma já prejudica o protagonista, o fato de ter Luke Evans como intérprete não melhora as coisas, considerando que o ator não é muito expressivo e não consegue fazer de Vlad uma figura cativante o suficiente para que possamos nos importar com ele durante o filme. Já sua companheira de cena Sarah Gadon (uma das gratas surpresas do excepcional O Homem Duplicado) pouco tem a fazer com Mirena, ao passo que Dominic Cooper encarna Mehmed como uma mera caricatura. Mas há um ponto positivo no elenco, e este se chama Charles Dance (o Tywin Lannister, da série Game of Thrones), que tem uma bela presença em seus poucos minutos em cena como o Vampiro Mestre. Não à toa a melhor cena do filme é exatamente aquela em que este transforma Vlad em vampiro, promovendo até alguns bons diálogos entre os personagens.
Com tantas obras admiráveis por aí envolvendo este monstro clássico, Drácula: A História Nunca Contada entra no grupo de produções que não acrescentam muita coisa à mitologia do personagem. É um detalhe curioso tendo em vista o próprio subtítulo do filme. Nesse sentido, talvez “A História Que Não Precisava Ser Contada” fosse mais apropriado.
Nota:

sábado, 18 de outubro de 2014

O Juiz

Há filmes que parecem ser feitos sob medida para tentar agradar o público. O problema é que muitas produções que buscam fazer isso se arriscam pouco, resultando em trabalhos genéricos e com convenções que o espectador já está cansado de ver. O Juiz, infelizmente, segue essa linha, o que piora se considerarmos o fato de ele até subestimar a inteligência do público, desperdiçando o elenco talentoso no processo.

Escrito por Bill Dubuque e Nick Schenk a partir do argumento escrito por este último em parceria com o diretor David Dobkin, O Juiz segue Hank Palmer (Robert Downey Jr.), advogado muito bem sucedido profissionalmente em Chicago, mas que agora está em processo de divórcio. É então que ele se vê obrigado a voltar para sua cidade-natal, Carlinsville, para o enterro de sua mãe. Lá, ele reencontra seus irmãos Glen e Dale (Vincent D’Onofrio e Jeremy Strong), a ex-namorada Samantha Powell (Vera Farmiga) e o juiz Joseph Palmer (Robert Duvall), o pai com quem ele cortou relações antes de ir embora. Quando Hank pensa que sua passagem pela cidade será fácil, Joseph acaba sendo preso pelo assassinato de um antigo réu, precisando então de um advogado competente para defendê-lo.

“Protagonista precisa voltar para sua cidade-natal por algum motivo e é obrigado a enfrentar os demônios do passado”. É uma história que já foi contada várias vezes e ainda é capaz de render belos filmes. Mas O Juiz a segue de forma tão clichê que é possível prever boa parte das coisas que acontecem ao longo da narrativa antes de fechar a primeira hora de projeção, o que é grave principalmente se levarmos em conta que o filme tem 140 minutos de duração. Até por isso é irritante que o roteiro enrole muito a história com subtramas bobas (como aquela envolvendo Carla, a filha de Samantha vivida por Leighton Meester) e personagens que não têm relevância para a trama (o advogado C.P. Kennedy, interpretado Dax Shepard). Além disso, é impressionante como o desenvolvimento da trama é esquemático com relação a alguns elementos. Quando ficamos sabendo que um personagem está doente, por exemplo, isso é jogado forçadamente, já que ele não dá sinais disso. Sinais estes que, é claro, aparecem a partir do momento em que alguém diz que a doença se agravou.

Com um roteiro tão fraco, não é surpresa constatar que tudo é conduzido sem imaginação por David Dobkin (o mesmo de Penetras Bons de Bico), que investe em detalhes óbvios, como o plano em que vemos Hank e Joseph irem para lados contrários depois de uma briga, e não consegue impedir que o filme caia no melodrama, seja em cenas mais sentimentais ou nas grandes discussões entre os personagens (o terceiro ato chega a ser triste de se acompanhar nesse sentido). Como se não bastasse, Dobkin ainda tem como diretor de fotografia um Janusz Kaminski afetado demais, que joga uma luz forte na tela para criar uma espécie de aura em volta dos personagens, mas faz ela se destacar mais do que qualquer outra coisa, o que não ajuda a narrativa em nada. No entanto, Dobkin merece créditos por ao menos fazer com que certos momentos de humor funcionem, e nisso o destaque fica por conta da cena em que Hank escolhe o júri que participará do julgamento de seu pai.

Todos os problemas são ainda mais lamentáveis quando se tem em mãos um elenco tão bom, que torna os personagens simpáticos o bastante que o filme não fique entediante. A começar por Robert Downey Jr., que tem em Hank um papel que aproveita seu tipo arrogante, mas carismático, o que torna difícil não gostar dele mesmo quando não concordamos com seus atos. Já o veterano Robert Duvall impõe a autoridade de Joseph com naturalidade, além de encarnar eficientemente o cansaço e a confusão que o personagem sente pontualmente. Pra fechar, apesar de não serem tão bem aproveitados, Vera Farmiga, Vincent D’Onofrio, Billy Bob Thornton e Jeremy Strong têm presenças interessantes em papeis menores.

No fim, O Juiz é um filme que pensa ser grande coisa, e toda essa pretensão apenas contribui para torna-lo decepcionante. E é uma pena ver tantos bons nomes envolvidos em um projeto tão sem graça.

Nota: