quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Entidade

Tendo os mesmos produtores de Atividade Paranormal, não chega a ser surpreendente ver que A Entidade é um filme que mais uma vez mostra um ser desconhecido infernizando a vida de alguém. E coincidência ou não, vídeos caseiros no estilo found footage são um elemento importantíssimo na história deste terror estrelado por Ethan Hawke. Mesmo contando uma história um tanto comum, o filme consegue torna-la interessante, mas é lamentável que a desperdice tentando cumprir seu objetivo de assustar o público.
Dirigido por Scott Derrickson (o mesmo de O Exorcismo de Emily Rose e da refilmagem de O Dia em Que a Terra Parou) e roteirizado por ele em parceria com C. Robert Cargill, A Entidade nos apresenta a Ellison Oswalt (Ethan Hawke), escritor que se muda com sua esposa Tracy (Juliet Rylance) e seus filhos Trevor (Michael Hall D’Addario) e Ashley (Claire Foley) para a casa onde ocorreu o assassinato da família Miller, até então não solucionado pela polícia local. Querendo investigar o caso que será o tema de seu novo livro, Ellison encontra vários filmes feitos em Super 8, que mostram não só o crime que ocorreu em seu novo lar, mas também outros terríveis assassinatos envolvendo famílias e crianças desaparecidas. À medida que mergulha no caso, Elisson se vê dentro de uma história que é bem diferente dos outros crimes que investigou para seus livros.
Iniciado com o vídeo do crime que ocorreu naquela casa, mostrando a família Miller sendo enforcada no quintal, A Entidade já começa criando o clima tenso que perdurará durante quase toda a narrativa. Vale dizer que esses breves filmes dos assassinatos representam os momentos mais pesados da produção, e a calma com a qual Scott Derrickson os filma é essencial para torna-los ainda mais desconfortáveis. A trilha sonora de Christopher Young também contribui discretamente para a tensão desses momentos, ainda que em outras cenas Derrickson a utilize desnecessariamente, como se fosse preciso avisar que algum susto está por vir.
Aliás, a preocupação de do diretor em querer assustar o público é tamanha que ele resolve recorrer a um clichê típico de filmes de terror: aumentar o volume da trilha sonora quando necessário. Dessa forma, o diretor não deixa o filme causar os sustos de maneira mais orgânica. E considerando que 90% dos pulos na cadeira acontecem por causa desse recurso, isso acaba virando algo irritante depois de algum tempo, tirando muito do impacto que o filme poderia ter. Mais lamentável ainda é ver que A Entidade tem material para aterrorizar sem precisar se atirar em algo tão lugar-comum.
No meio de toda a atmosfera que envolve o filme, é surpreendente ver que A Entidade consiga encontrar espaço para cenas mais descontraídas que não destoam tanto da história. Nesse sentido, o policial “Fulano” (interpretado por James Ransone) protagoniza alguns momentos divertidos no filme, sendo uma figura bastante atrapalhada. Até o próprio protagonista arranca algumas risadas quando tenta falar para esposa que “tecnicamente“ não mentiu para ela sobre determinados assuntos.
Apesar de prender a atenção, o roteiro de A Entidade não deixa de ter alguns problemas. As crises que Trevor tem ao longo do filme, por exemplo, não acrescentam praticamente nada ao filme. Na verdade, o garoto poderia ser descartado sem maiores problemas, já que não ganha muito espaço para ser desenvolvido e ainda é uma figura desinteressante com seu jeito rebelde. Além disso, a história não deixa de ser um pouco previsível quanto ao caminho que vai tomando, já que Scott Derrickson e C. Robert Cargill mencionam pistas importantes ao longo do filme, tornando possível montar o plano do vilão.
Sendo um ator talentoso, Ethan Hawke carrega eficientemente as quase duas horas de duração do filme. Hawke (que divide com o personagem o fato também de ser um escritor) retrata muito bem o estresse e o desgaste de Ellison durante a investigação do caso, o que inclui deixar os olhos arregalados, o que é perfeito quando se vê que ele não consegue ter uma noite de sono tranquila, sempre acordando por causa das assombrações em sua casa. E apesar de dizer que escreve livros pela fama e pelo dinheiro, Ellison parece pouco se importar com essas coisas ao longo do filme, o que mostra o quanto o novo caso o impressiona.
Finalizado de maneira não muito impactante, A Entidade é um terror eficiente, mas se tivesse um pouco mais de confiança em seu material certamente poderia ter deixado uma marca maior ao final da projeção.
Cotação:

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ruby Sparks: A Namorada Perfeita

Depois de estrearem na direção de longas-metragens em 2006 com o excepcional Pequena Miss Sunshine, após uma longa carreira trabalhando com videoclipes, o casal Jonathan Dayton e Valerie Faris não deu mais as caras. Acabaram deixando no ar uma certa curiosidade com relação ao que fariam depois do sucesso que alcançaram em sua estreia. Seis anos se passaram e os dois finalmente retornam neste Ruby Sparks: A Namorada Perfeita, filme que apesar de não ser tão bom quanto o trabalho anterior do casal, é eficiente a ponto de fazer desses diretores figuras que merecem mais atenção.
Em Ruby Sparks, Paul Dano interpreta Calvin, um jovem escritor que conseguiu grande prestígio com seu primeiro livro, lançado quando ele tinha apenas 19 anos. Uma década se passa e ele se vê em meio a um bloqueio criativo, passando suas horas ao lado do irmão, Harry (Chris Messina), e fazendo terapia. Mas ao sonhar com uma garota, a quem ele dá o nome de Ruby Sparks (Zoe Kazan, que também escreveu o roteiro), Calvin se inspira novamente e começa a escrever um livro sobre ela. Mas ele mal sabia que isso faria a garota de seus sonhos tornar-se real.
Como Ruby se torna real? Não se sabe, mas assim como acontece em outro filme lançado recentemente, Ted, essa mágica pouco importa. Depois de estabelecer o relacionamento entre Calvin e Ruby, Zoe Kazan passa a desenvolver uma simpática história de amor que diverte com todo seu absurdo. Boa parte disso se deve aos personagens. Apesar de toda a fama que conquistou, é interessante ver que Calvin não gosta do rótulo de gênio que tentam colocar nele. Além disso, antes de conhecer Ruby, o rapaz parece ser uma pessoa fechada até para os novos tempos (ele ainda usa uma máquina de escrever para digitar seus livros). Já Ruby mostra ser uma garota cheia de energia, mas o mais interessante é o fato de ela ser um ser humano comum. Ela tem suas necessidades e seus sentimentos, e isso ajuda a fazer dela a pessoa real que ela deveria ser.
No entanto, sem intérpretes competentes o casal de Ruby Sparks certamente poderia soar um pouco desinteressante. A sorte é que Paul Dano e Zoe Kazan se saem muito bem em seus respectivos papeis. Como Ruby passa por modificações ao longo da história, é admirável ver que Kazan consegue implementar isso na personagem sem muitos exageros, com exceção da cena em que ela se torna um grude de Calvin, em uma das partes mais divertidas do filme. Já Dano empresta grande carisma para o protagonista, o que acaba sendo importante considerando que em determinado momento ele passa a tomar atitudes um tanto reprováveis. Além disso, Dano e Kazan tem uma ótima química ao longo do filme, e não foi uma surpresa ver que os dois tem um relacionamento na vida real.
Sendo o criador de Ruby, Calvin pode mudar o jeito dela a qualquer momento, podendo fazer dela uma namorada melhor ou pior. Isso ocorre com qualquer artista (seja um escritor, um pintor, um músico) que gostaria de ver sua obra cada vez melhor. Mas um dia chega o momento em que ele precisa lança-la para o mundo, mesmo não estando satisfeito com o resultado final, ainda que este esteja perfeito. E, às vezes, mudar é o que acaba estragando tudo. Zoe Kazan capta isso brilhantemente no roteiro, e essa é talvez a grande virtude do filme.
Enquanto isso, a direção de Dayton e Faris é segura ao longo de todo filme, conseguindo divertir ao mesmo tempo em que mostra grande sensibilidade com a história que está sendo contada. Isso fica bem canalizado em uma das melhores cenas do filme, quando Calvin começa a modificar Ruby incessantemente, naquela que é a parte mais pesada do filme apesar de ser divertida em alguns momentos. É interessante ainda a decisão da dupla em investir em planos mais fechados quando Calvin está escrevendo, mostrando muito bem o quanto o personagem está mergulhado naquilo que está fazendo.
No entanto, o roteiro de Ruby Sparks não escapa de ser previsível com relação aos conflitos entre os personagens, um problema que quase todas as comédias românticas enfrentam por seguirem uma fórmula básica. Além disso, o desfecho que Zoe Kazan dá para tudo aquilo é um tanto clichê, o que é uma pena por mais satisfatório que ele seja.
Mesmo assim, Ruby Sparks é um filme cativante e divertido, mostrando que Pequena Miss Sunshine talvez não tenha sido uma sorte de principiante para Jonathan Dayton e Valerie Faris. Tomara que o talento deles continue a aparecer em seus próximos projetos, ainda que estes levem mais seis anos para serem feitos.
Cotação:

sábado, 6 de outubro de 2012

Análise de Áudio - Era Uma Vez no Oeste

Uma das cenas que mais impressionam no clássico Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, é aquela na qual o vilão Frank (interpretado por Henry Fonda) mata a família de Jill (Claudia Cardinale). É um momento que impressiona em vários aspectos, e um deles é o modo como o áudio é usado.
Logo no início da cena (00:18), Leone inclui o canto de grilos ao fundo, e o mantém ali durante exatos dois minutos. É o tempo suficiente para que os personagens e o espectador se acostumem com aquele som, de forma que quando ele é cortado pela primeira vez acaba trazendo um silêncio que passa desconforto muito grande para todos os envolvidos naquela cena, e nisso incluo os espectadores que assistem ao filme. Nessa primeira vez que os grilos saem de cena, deixando apenas o som do vento, de um cão gemendo e das galinhas cacarejando, Leone consegue passar muito bem a ideia de que aquele local é tão isolado que se algo acontecer ali aquelas pessoas estarão indefesas, além de já passar a sensação de que algo ruim está prestes a acontecer.
Os membros da família voltam a ficar tranquilos quando os grilos retornam (02:42). É então que ocorre o segundo corte desse canto (05:23), e dessa vez é algo que tem muito mais impacto, não tendo mais o gemido do cão ou o cacarejar das galinhas, e o vento fica mais forte. Logo depois disso, ocorrem os primeiros tiros. É como se Frank fosse um ser humano tão amedrontador que todos pararam diante de sua presença.
Quando o pai e dois de seus filhos caem mortos, o caçula da família corre para a rua para saber o que está acontecendo. No momento em que ele bota os pés para fora da casa (06:37), Sergio Leone inclui a trilha musical de Ennio Morricone. É uma música bastante triste e ao mesmo tempo consegue dar um tom de suspense para a cena. Seu lado triste é mais do que apropriado por que aquela família estava prestes a ser completada com a presença de Jill, e eles também estavam se preparando para se livrar de suas dificuldades financeiras e serem mais felizes. Felicidade esta que nunca mais será alcançada.
Já o lado do suspense é adequado por dois motivos: 1) Será que aqueles homens são tão cruéis a ponto de matar uma criança?; 2) Quem é o líder daquele grupo?
Afinal, na época do lançamento do filme, ninguém sabia que Henry Fonda (mais conhecido por interpretar “mocinhos”) apareceria aqui como o vilão da história. E não é à toa que a música chega ao seu ápice (07:53) no momento em que Leone faz um travelling circular revelando Fonda como a figura pela qual as pessoas terão que torcer contra. E depois dessa grande revelação, Leone baixa um pouco o volume da música, como se estivesse dizendo para o público “Conformem-se! Este será o grande vilão do filme!”. E ainda por cima, é um vilão impiedoso, que mata crianças quando preciso.
É uma cena incrível e muito bem orquestrada por Sergio Leone, sendo apenas um dos vários momentos sensacionais de uma das grandes obras-primas da história do Cinema.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Breve Comentário - 13 Assassinos

Conheço muito pouco os filmes de Takashi Miike, um dos nomes mais conhecidos do cinema japonês. O que vi em alguns trechos de suas obras mostra que ele é um diretor que tem como marca registrada a violência, sendo que às vezes ela aparece de forma um tanto absurda. Em 13 Assassinos, refilmagem de um filme de 1963 (que não assisti), Miike junta isso a uma história interessante, combinando tudo com belas cenas de ação.
Escrito por Daisuke Tengan, 13 Assassinos acompanha os personagens-título, liderados por Shinzaemon (Kôji Yakusho), que são chamados para matar o Lorde Naritsugu (Gorô Inagaki), que com toda sua crueldade está prestes a se tornar o conselheiro de seu irmão mais velho, o shogun.
O filme demora um pouco para ganhar forças, buscando apresentar bem seus personagens logo de cara. Sendo assim, os heróis da história mostram serem homens honrados e inteligentes. Shinzaemon, em particular, é ainda um grande estrategista, o que fica claro na sequência final do filme (e que comentarei mais adiante). Enquanto isso, Naritsugu já é estabelecido como uma figura não só cruel, mas também sanguinária, abrindo sorrisos ao fazer pessoas sofrerem.
É interessante ver que, quando Shinzaemon começa a procurar pelos guerreiros que quer ao seu lado na luta contra os exércitos de Naritsugu, a montagem não se torna episódica como geralmente ocorre em filmes assim. Isso porque o roteiro consegue fazer com que o grupo se junte de maneira bastante natural, sendo que um dos personagens, Koyata (Yûsuke Iseya), se junta quando todos estão passando por uma floresta. Aliás, se 13 Assassinos não fosse uma refilmagem, não deixaria de ser uma versão japonesa de 300, já que os heróis precisam lutar contra os grandes exércitos que protegem Naritsugu.
Takashi Miike conduz muito bem as cenas de ação, sendo que o maior destaque fica por conta da batalha final em um vilarejo. Ocupando cerca de 40 minutos de filme, a sequência impressiona por sua grandiosidade, e é admirável ver que Miike consegue deixar o espectador a par de tudo o que acontece na tela, não abusando de cortes rápidos para tentar dar mais energia às imagens. Mesmo contando com alguns bois claramente feitos em computação gráfica que destoam daquilo que acontece na cena (tendo o mesmo efeito dos terríveis esquilos de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), a batalha é o grande momento de 13 Assassinos.
Com ótimas atuações de seu elenco (em especial Kôji Yakusho e Gôro Inagaki), 13 Assassinos é um belo filme e espero conseguir ver mais algumas obras de Takashi Miike.
Cotação:

sábado, 29 de setembro de 2012

Looper: Assassinos do Futuro

Looper faz parte de um tipo de ficção científica que tem surgido pelo menos uma vez por ano: aquela em que um conceito fascinante é criado e explorado ao máximo ao longo da história, como acontece em exemplos recentes como A Origem e Contra o Tempo. Dito isso, em uma temporada em que não são muitos os blockbusters de grande destaque, é bom ver que o diretor-roteirista Rian Johnson (responsável pelo ótimo A Ponta de Um Crime, além de Vigaristas, que não vi ainda) surge com uma obra que confia na inteligência do espectador, ao mesmo tempo em que é desenvolvida uma narrativa interessantíssima e envolvente usando a boa e velha viagem no tempo como um de seus principais elementos.
Looper se passa no ano de 2044 e a viagem no tempo só será criada dali trinta anos. Sendo assim, a máfia do futuro envia seus desafetos ao passado para que assassinos profissionais, conhecidos como “loopers”, os matem e se livrem do corpo. Quando a organização quer encerrar o contrato dos loopers, as versões mais velhas deles, conhecidas como “loops”, são enviadas para serem eliminadas. O grande chefe da máfia, conhecido como “Rainmaker”, começa a encerrar o contrato de vários loopers, sendo um deles o jovem Joe (Joseph Gordon-Levitt), que deixa seu loop (Bruce Willis) escapar. Enquanto Joe precisa fugir de seus chefes, se escondendo na fazenda de Sara (Emily Blunt), sua versão mais velha procura o jovem Rainmaker com o objetivo de matá-lo e impedir que destrua a vida que tinha no futuro.
Rian Johnson dedica boa parte da primeira hora de Looper para explicar como tudo funciona naquele universo, apresentando os poderes telecinéticos de uma minoria da população rapidamente (e que mais tarde tem papel importante na história) e deixando claro como os loopers e seus chefes agem, além de mostrar cenas impressionantes como quando um loop começa a sofrer as consequências de uma tortura realizada em sua versão do passado. Johnson ainda inclui a narração em off de Joe, o que acaba sendo importante para que tudo seja explicado sem a necessidade de parar a história. Com tantos elementos para serem explicados, o filme demora um pouco a engrenar, mas depois que chega ao ponto principal de sua história, o diretor a conduz com agilidade e inteligência, confiando que o espectador conseguirá acompanhar a trama tranquilamente.
Sendo uma espécie de mistura entre os excelentes Primer e O Exterminador do Futuro, o roteiro de Looper é bastante complexo, tendo que lidar com várias linhas do tempo e duas versões do mesmo personagem, o que faz com que qualquer coisa que aconteça com a versão do presente também precise acontecer com a versão do futuro. Em determinado momento, por exemplo, Joe presencia uma cena chocante, o que faz com que seu loop tenha a mesma memória e ganhe uma informação importante. Esse tipo de detalhe que Rian Johnson inclui é algo que ajuda o conceito de Looper a se tornar ainda mais fascinante.
Joe, por sinal, é um personagem muito interessante. No presente, ele demonstra ser um homem frio, que realiza seu trabalho rapidamente e sem hesitação. Sempre sério, ele tem em uma sonhada viagem a França uma das poucas coisas que podem colocar algum sinal de sorriso em seu rosto. Já o velho Joe é um homem arrependido de muitas coisas e que tinha em sua vida no futuro algo pelo que realmente se importar. E depois que ele mata alguém que não devia, éinteressante ver sua reação de tristeza, já que isso acaba representando um retorno a uma vida que ele há muito tempo abandonou.
Joseph Gordon-Levitt e Bruce Willis interpretam seus Joes com extrema eficiência, criando o personagem até com os mesmos maneirismos um dos outro. Um dos grandes momentos de Looper é exatamente uma cena em que os dois conversam frente a frente, na qual vemos o quanto o jovem Joe ainda vai mudar com o passar dos anos. Enquanto isso, Emily Blunt se sai admiravelmente bem como uma mãe que protege seu filho ao mesmo tempo em que tem uma relação um tanto conturbada com ele.
Se a história que Rian Johnson conduz já é envolvente, o mesmo pode ser dito com relação às cenas de ação. Tensas e violentas na medida certa, elas ajudam a fazer de Looper um filme que prende a atenção do início ao fim. Johnson ainda economiza bastante no uso dos efeitos visuais, incluindo-os apenas quando necessário. As viagens no tempo, por exemplo, não contam com esses recursos, o que inclusive torna tudo muito mais orgânico na tela.
Looper é no final das contas uma ficção científica exemplar. Se com A Ponta de Um Crime Rian Johnson já demonstrava talento, agora ele parece se confirmar como um diretor que merece ser acompanhado.
Cotação:

sábado, 22 de setembro de 2012

Ted

Seth MacFarlane é mais conhecido como o criador de três séries animadas de muito sucesso: Family Guy (ou Uma Família da Pesada, como ficou conhecida no Brasil), American Dad e The Cleveland Show. Dessas, a única com a qual sou familiarizado é a primeira, ainda que não a assista com frequência. Em Family Guy, MacFarlane sempre mostrou ter talento para fazer um humor politicamente incorreto com eficiência, e por causa disso era grande a curiosidade para ver o que ele iria fazer em Ted, sua estreia na direção de longas-metragens. Tendo em mãos um simples ursinho de pelúcia e transformando-o numa figura mal-educada e extremamente divertida, MacFarlane não poderia ter estreado melhor na função.
Escrito pelo próprio MacFarlane em parceria com Alec Sulkin e Wellesley Wild, Ted conta a história de John Bennett (Mark Wahlberg), que quando criança desejou que Ted (dublado por MacFarlane), seu ursinho de pelúcia, pudesse falar com ele. O desejo se realizou e os dois se tornaram amigos inseparáveis. Mas quando Lori (Mila Kunis), a namorada de John há quatro anos, vê que ele não consegue dar atenção para o relacionamento deles da mesma forma que para o amigo, o rapaz precisa decidir entre ficar com a garota ou com o companheiro que esteve ao seu lado durante toda sua vida.
É possível prever em pouco tempo que o filme terá alguns conflitos clichês ao longo da história. Mas MacFarlane não joga esses artifícios de qualquer forma na tela, como se fosse obrigatório a presença deles. O diretor-roteirista faz com que eles funcionem a favor da história, não fazendo com que eles soem forçados. Além disso, como ele faz com que nos importemos com seus personagens, tais conflitos têm um peso um pouco maior do que o esperado.
Já que mencionei os personagens, vale dizer que são figuras não só interessantes, mas também muito divertidas. A começar por John, um homem de 35 anos que ainda age como se fosse uma criança em vários momentos. Quando ele demonstra essa infantilidade (como no momento em que nega para Lori sobre ter medo de trovões, em uma das cenas mais engraçadas do filme), o personagem tira várias risadas, além de mostrar o quanto que não cresceu ao longo dos anos. O fato de Mark Walhberg ainda acertar no tom da criancice do personagem, sem cometer nenhum exagero, é algo que contribui ainda mais para que ele conquiste o espectador. Enquanto isso, Lori não surge como a namorada que quer que seu amado faça tudo o que ela pedir, compreendendo que o relacionamento entre John e Ted é importante para ambos. E além de linda como sempre, Mila Kunis empresta grande carisma para a garota, o que impede que ela seja vista como uma estraga prazeres.
Mas Ted é mesmo o grande trunfo do filme. Se com uma família formada por pessoas incomuns Seth MacFarlane já conseguia arrancar risadas, o que dizer quando ele tem em sua história um ursinho de pelúcia que se droga, fala palavrões sem pudor e transa com uma colega de trabalho na hora do expediente? Mas mesmo com essas atitudes, em nenhum momento o personagem vira uma figura condenável. Muito pelo contrário, o fato de ele ser assim é o que o torna tão interessante. Além disso, a equipe que ajudou na concepção de Ted está de parabéns, já que o personagem jamais surge como algo falso na tela e os atores nunca parecem estar atuando com o “nada”. Apesar de ser um ursinho de pelúcia, Ted é uma figura tão humana quanto qualquer outra pessoa no filme, e quando ele sofre alguns machucados fica muito clara a dor que ele sente, mostrando que não é mais um mero brinquedo.
Mas para que Ted fosse um projeto bem sucedido, a amizade entre o personagem-título e seu dono precisaria ser bem estabelecida, por ser basicamente o centro da história. E Seth MacFarlane faz isso muito bem logo no começo, quando vemos Ted ficar famoso (afinal, estamos falando de um ursinho de pelúcia que fala!) e mesmo assim ele não se separa de John. Uma das provas do quanto que aqueles dois personagens se gostam está no modo que tratam um ao outro durante a história, com direito a xingamentos e brincadeiras, o que ainda resulta em mais momentos divertidos para o filme.
MacFarlane ainda cria um universo no qual alguns personagens reagem de maneira extremamente exagerada (mas não menos engraçada) a determinados acontecimentos, como quando os pais de John descobrem que Ted começou a falar. Já em cenas mais de ação, o diretor surpreende ao conseguir impor tensão em uma sequência de perseguição no terceiro ato, e na luta que ocorre em um quarto de hotel é admirável o fato de ele não colocar nenhuma trilha cômica no fundo, deixando a cena prender a atenção e divertir por si mesma.
Tendo momentos absurdos que acabam soando perfeitamente críveis na história (como os motivos de o personagem-título ser promovido em seu trabalho) e repleto de cenas e diálogos hilários (“Um cara pegou meu ursinho de pelúcia!”, diz John para a polícia), Ted é sem dúvida uma das melhores comédias do ano. Agora fica a curiosidade para saber quais serão as próximas empreitadas de Seth MacFarlane por trás câmeras. Além de Ted 2, é claro.
Cotação:

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Palhaço é o candidato brasileiro para o Oscar 2013

Assim como foi com Tropa de Elite 2 no ano passado, mais uma vez o Brasil escolhe sua melhor obra para tentar concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Foi anunciado hoje que O Palhaço, de Selton Mello, lutará por uma das cinco vagas da categoria.
É um grande filme, que diverte e emociona. Tem uma direção sensível de Selton Mello, que ainda atua brilhantemente no papel do palhaço Benjamin, tendo uma excelente química com Paulo José, que interpreta seu pai. Por ser uma história mais universal, O Palhaço tem boas chances de conquistar os membros da Academia, e isso é o que acaba importando no final.
Não vai ser uma disputa fácil. O ganhador da Palma de Ouro em Cannes, Amour, dirigido por Michael Haneke, é o candidato da Áustria e parte como um dos filmes que já deve ter vaga garantida na premiação. A França escolheu o ótimo Intocáveis, filme que fez sucesso no mundo todo e também tem grandes chances de estar entre os cinco indicados. Beyond the Hills, que venceu Melhor Roteiro em Cannes, é o candidato da Romênia e o vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, Pietà, é o representante da Coréia do Sul. Mas difícil não é o mesmo que impossível.
Desde 1999, com Central do Brasil, de Walter Salles, o Brasil não chega à lista final de Melhor Filme Estrangeiro. Já passou da hora de esse jejum acabar e O Palhaço não poderia ser um representante melhor para isso.