sábado, 21 de janeiro de 2012

2 Coelhos

Já está sendo algo comum o cinema brasileiro pegar algumas coisas de Hollywood. Podemos perceber isso em muitos filmes, desde os dois fracos Se Eu Fosse Você até o ótimo O Homem do Futuro, passando pelo pavoroso Assalto ao Banco Central e a vergonha alheia Segurança Nacional. A influência do cinema americano nesses filmes é bastante óbvia, e geralmente resulta em má qualidade. O que nos faz chegar a 2 Coelhos, mais uma exceção a regra. É uma produção que bebe da fonte hollywoodiana de fazer filmes, mas não é apenas um mero exercício de estilo, tendo também o propósito de montar uma narrativa envolvente e interessante.
Escrito e dirigido pelo estreante Afonso Poyart, 2 Coelhos nos apresenta a Edgar (Fernando Alves Pinto), jovem inteligente com um grande plano para tirar dois milhões de dólares do grupo liderado por Maicon (Marat Descartes). A armação de Edgar envolve ainda o deputado corrupto Jader (Roberto Marchese), a promotora de justiça Julia (Alessandra Negrini), o ex-professor Walter (Caco Ciocler) e a dupla de ladrões Velinha (Thaíde) e Clayton (Robson Nunes). Ao longo do filme, as histórias dos personagens vão revelando estar mais interligadas do que aparentam e o plano cada vez mais mirabolante.
Adotando uma estrutura narrativa que segue várias histórias a fim de nos mostrar todos os envolvidos no plano de Edgar, o roteiro de Poyart mostra ser um desafio para a montagem, realizada por ele, André Toledo e Lucas Gonzaga. O diretor-roteirista desenvolve sua história, mas sempre que chega a um ponto importante, ele interrompe a ação e nos mostra como os personagens chegaram até ali (algo que Guy Ritchie fez em seus filmes de Sherlock Holmes), usando ainda a narração em off de Edgar, que às vezes aparece explicativa demais. É uma opção que deixa o filme mais curioso de se assistir, e, portanto, mais envolvente.
Algo que não falta em 2 Coelhos são tipos de linguagem. Afonso Poyart usa diversos formatos para contar sua história, desde animações até o estilo mockumentary (que, aliás, traz depoimentos sobre o protagonista que formam uma rima divertida entre o início e o fim do filme). Cada um desses tipos de linguagem aparece no filme naturalmente e fazem de 2 Coelhos uma experiência fascinante do ponto de vista estético. Por exemplo, nos ataques de pânico de Julia, o diretor usa desenhos de pequenos animais para mostrar a imaginação da personagem ao tentar se acalmar. Quando ela não consegue, eles a atacam como monstros, e o modo como um remédio faz resultado nessa imaginação é sensacional. Estas sequências “imaginativas” fazem lembrar muito 300 e Sucker Punch, ambos de Zack Snyder, até pela fotografia empregada por Carlos Zalasik.
Aliás, Snyder parece ter servido de grande inspiração para Afonso Poyart. É difícil não lembrar desse diretor nas cenas em câmera lenta. Mas é bom ver que Poyart só utiliza este efeito para fazer a ação do filme ter um impacto maior do que teria normalmente. Outro elemento que torna 2 Coelhos uma obra interessante é o fato de o diretor fazer rabiscos em alguns momentos do filme, como pequenos desenhos em cima do protagonista, revelando um pouco da personalidade dele e como leva sua vida.
Poyart ainda cria sequências de ação empolgantes. Logo no início, ele mostra um sensor de proximidade que, além de mostrar a inteligência do protagonista, ainda acaba tendo papel importante em uma perseguição de carros. E as cenas de tiroteio também são muito eficientes, destaque para a que acontece no apartamento de Maicon, um dos vários usos impactantes da câmera lenta.
O uso da canção “Kings and Queens”, da banda 30 Seconds to Mars, também mostra ter um propósito interessante. Apesar de ter um ritmo que não combina muito com o filme, enjoando ao ser tocada quatro vezes em diferentes pontos da história, a canção serve para ressaltar a felicidade que os personagens sentem em certos momentos. Além disso, ela conecta muito bem as histórias de Edgar e Walter, que é marcada por uma tragédia. Uma pena, no entanto, que o roteiro não desenvolva muito bem o relacionamento entre os dois personagens. Edgar diz em certo momento que a vida de Walter pode ser definida como AE e DE (antes de Edgar e depois de Edgar). Nós vemos como a relação deles começou, mas o que acontece mais adiante não é mostrado, o que não deixa muito claro como as coisas aconteceram para que os dois se encontrem na situação do terceiro ato do filme.
O elenco de 2 Coelhos também merece destaque. Fernando Alves Pinto traz grande carisma para Edgar, enquanto que Alessandra Negrini sempre muito forte interpretando Julia. Enquanto isso, Marat Descartes faz de Maicon um vilão simpático no início (algo ressaltado até mesmo por Edgar, em uma sequência que lembra os primeiros filmes da história do cinema), mas que revela sua maldade ao longo do filme. E se Thaíde e Robson Nunes demonstram uma boa química como a dupla Velinha e Clayton, Caco Ciocler tem em Walter um personagem que fala em poucas cenas, mas que é marcante por ter uma participação maior do que pensamos no plano de Edgar.
O cinema brasileiro começou mal o ano com As Aventuras de Agamenon: O Repórter (filme que não assisti ainda, mas que só escuto comentários de que é o pior do ano). Mas aos poucos, acredito que seremos recompensados com um cinema de qualidade. 2 Coelhos é o primeiro da lista. Que venham os próximos.
Cotação:

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim

Mal houve tempo para respirar a boa impressão deixada por Cavalo de Guerra e já é possível voltar para o território de Steven Spielberg, dessa vez com As Aventuras de Tintim. Primeira investida do cineasta como diretor de animações (ele ainda contou com a ajuda de Peter Jackson, que atuou como produtor), o filme usa a tecnologia do motion capture brilhantemente, e consegue ser uma aventura bastante eficiente e fiel ao universo dos quadrinhos criados pelo belga Hergé (digo isso tendo assistido a alguns episódios da famosa série animada).
Escrito por Steven Moffat em parceria com Joe Cornish e Edgar Wright (este último é o realizador dos excelentes Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Scott Pilgrim Contra o Mundo), As Aventuras de Tintim não perde tempo contando as origens do personagem, nos colocando no meio da aventura desde o início. Depois de comprar o modelo de um navio raro chamado Licorne, Tintim (Jamie Bell) acaba se envolvendo nos planos de Ivan Sakharine (Daniel Craig), que precisa do navio para tentar encontrar o tesouro do pirata Red Rackham. Sendo um repórter que está sempre à procura de uma boa história para contar, Tintim terá a ajuda de seu adorável cão Milu e do Capitão Archibald Haddock (Andy Serkis) para encontrar o tesouro antes do vilão.
Acho difícil não comparar Tintim com uma figura bastante conhecida da carreira de Steven Spielberg: Indiana Jones. Assim como o personagem de Harrison Ford, Tintim tem suas aventuras como parte de sua profissão. Se Indy corria atrás dos artefatos para salvá-los e manda-los para o museu, Tintim ajuda em uma investigação e é o primeiro a dar o furo de reportagem, algo que pode ser visto nas capas de jornais expostas nas paredes de sua casa e que mostram a vida de aventuras que o garoto leva (os ótimos créditos iniciais também ressaltam isso muito bem). Além disso, Tintim é um jovem corajoso, que não desiste fácil e que põe a mão na massa (leia-se: luta com os bandidos) sempre que necessário.
Tintim é apresentado pelo roteiro como um jovem bastante curioso, que desconfia de qualquer coisa estranha que apareça em sua frente, e é até por isso que acaba entrando em problemas. Em certo momento, um personagem pergunta para ele “Porque tantas perguntas?”, algo que ele responde muito bem: “É o meu trabalho!”. Isso mostra o quanto ele gosta não só de sua profissão, mas também de ajudar nas investigações.
Logo de cara, As Aventuras de Tintim conquista pelo maravilhoso design dos personagens, uma qualidade que o filme divide com outras animações feitas em motion capture, como O Expresso Polar e Os Fantasmas de Scrooge. Os traços originais são passados para o formato digital de maneira impecável. Spielberg ainda brinca com isso ao fazer o protagonista mostrar uma pintura sua, colocando o Tintim “original” ao lado do digital, algo até divertido de se ver.
Além de desenvolver bem os personagens e fazer com que nos importemos com eles, o roteiro consegue prender a atenção do público do início ao fim do filme. Os desafios que Tintim e seus amigos enfrentam ao longo da história em busca de seu objetivo são empolgantes, principalmente quando se tratam de cenas de ação (algo que comentarei um pouco mais adiante). As gags também são um ponto positivo em As Aventuras de Tintim, deixando o filme bastante divertido, sendo que algumas das melhores envolvem uma certa amnésia de Haddock e a coragem de Milu. O que dizer do modo como o cãozinho amansa um rotweiler? Aliás, Milu é uma das figuras mais adoráveis do filme, sendo um cachorro inteligente como seu dono.
Os roteiristas pecam um pouco com relação a desafios que exijam o raciocínio dos personagens. Em certo momento, por exemplo, Tintim precisa colocar em ordem as letras apontadas em um jornal, e faz isso facilmente, descobrindo a palavra em poucos segundos. Além disso, a trama envolvendo um punguista não tem muita utilidade na história, sendo apenas mais um obstáculo que Tintim precisa driblar, e depois que cumpre seu propósito é simplesmente esquecida.
O gênero de aventura é algo que Spielberg conhece muito bem. Sendo assim, sua direção é muito competente. Nem parece que As Aventuras de Tintim é sua primeira animação. As cenas de ação são muito caprichadas, sendo que a sequência em que Tintim, Haddock e Milu tentam pegar três pergaminhos de Sakharine e seu pássaro é uma das melhores coisas que o diretor já fez em sua bela carreira. Spielberg faz vários travellings ao longo do filme, sempre de maneira bastante eficiente, como quando Tintim perde algo de vista e a câmera anda em volta dele ao mesmo tempo em que carros quase o atropelam, algo que faz o público se perder junto com o protagonista. O diretor ainda se dá ao luxo de usar o topete de Tintim para fazer uma referência a um de seus filmes mais famosos (e considerando o formato do topete, acho que não preciso dizer de qual filme estou falando).
A montagem também se destaca em vários momentos. O roteiro tem alguns flashbacks que contam uma antiga lenda relacionada aos antepassados de Haddock. São seguimentos que aparecem no filme naturalmente graças à opção de Spielberg e seu montador habitual, Michael Kahn, de fazer raccords. O rosto de Haddock é usado em outro personagem também, e isso abre a possibilidade de fazer ótimas transições entre um plano e outro. Tudo sem interromper o ritmo ágil do filme. E a trilha sonora de John Williams dá um toque de mistério para a história, o que é muito interessante por que faz de As Aventuras de Tintim não só um filme de aventura, mas também um bom exemplar de filme de detetive.
Mas os personagens não seriam tão interessantes se não fosse o trabalho de seus intérpretes. Neste caso, Jamie Bell aparece carismático como Tintim, e ainda desenvolve uma ótima química com o sempre eficiente Andy Serkis, que diverte muito interpretando Haddock. Já Daniel Craig transforma Sakharine em um personagem que usa muito mais a inteligência do que força, o que o transforma quase em um vilão de filme de James Bond, o que não deixa de ser um pouco irônico em se tratando do ator. E para interpretar a dupla Dupont e Dupond a escolha não poderia ter sido melhor. Simon Pegg e Nick Frost formam uma dupla divertidíssima e trazem isso para seus personagens. Uma pena, no entanto, que o roteiro dê tão pouco espaço para eles.
Com As Aventuras de Tintim, Steven Spielberg fecha sua sessão dupla muito bem. E espero que o filme tenha uma continuação. Os personagens são interessantes demais para ficarem presos a apenas um filme.
Cotação:

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Globo de Ouro 2012

O Globo de Ouro desse ano foi bastante equilibrado. The Artist foi o filme com maior número de prêmios, levando três dos seis troféus que disputava. Os Descendentes foi o segundo maior ganhador da noite, com dois prêmios.
Depois do ano passado, não afirmarei que o Oscar já tem seu favorito. Muitas coisas mudam faltando pouco mais de um mês para a grande premiação do cinema.
Quanto à cerimônia, vale dizer que Ricky Gervais foi muito mais cauteloso com suas piadas, o que fez ele ser um pouco menos divertido do que no ano passado. Mas ainda assim ele conseguiu mostrar ser o cara engraçado de sempre.
Eis a lista do Globo de Ouro 2012 (os vencedores estão marcados com um asterisco):
Melhor Filme – Drama
Os Descendentes*
Histórias Cruzadas
A Invenção de Hugo Cabret
Tudo Pelo Poder
O Homem Que Mudou o Jogo
Cavalo de Guerra
Melhor Filme – Comédia/Musical
The Artist*
Missão Madrinha de Casamento
50%
Meia-Noite em Paris
My Week With Marilyn
Melhor Ator – Drama
George Clooney, por Os Descendentes*
Leonardo DiCaprio, por J. Edgar
Michael Fassbender, por Shame
Ryan Gosling, por Tudo Pelo Poder
Brad Pitt, por O Homem Que Mudou o Jogo
Melhor Atriz – Drama
Glenn Close, por Albert Nobbs
Viola Davis, por Histórias Cruzadas
Rooney Mara, por Millennium: Os Homens Que Não Amava as Mulheres
Meryl Streep, por A Dama de Ferro*
Tilda Swinton, por We Need to Talk About Kevin
Melhor Ator – Comédia/Musical
Jean Dujardin, por The Artist*
Brendan Gleeson, por O Guarda
Joseph Gordon-Levitt, por 50%
Ryan Gosling, por Amor a Toda Prova
Owen Wilson, por Meia-Noite em Paris
Melhor Atriz – Comédia/Musical
Jodie Foster, por Carnage
Charlize Theron, por Jovens Adultos
Kristen Wiig, por Missão Madrinha de Casamento
Michelle Williams, por My Week With Marilyn*
Kate Winslet, por Carnage
Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh, por My Week With Marilyn
Albert Brooks, por Drive
Jonah Hill, por O Homem Que Mudou o Jogo
Viggo Mortensen, por Um Método Perigoso
Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor*
Melhor Atriz Coadjuvante
Bérénice Bejo, por The Artist
Jessica Chastain, por Histórias Cruzadas
Janet McTeer, Albert Nobbs
Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas*
Shailene Woodley, por Os Descendentes
Melhor Diretor
Woody Allen, por Meia-Noite em Paris
George Clooney, por Tudo Pelo Poder
Michel Hazanavicius, por The Artist
Alexander Payne, por Os Descendentes
Martin Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret*
Melhor Roteiro
Michel Hazanavicius, por The Artist
Alexader Payne, Nat Faxon e Jim Rash, por Os Descendentes
George Clooney, Grant Heslov e Beau Williams, por Tudo Pelo Poder
Woody Allen, por Meia-Noite em Paris*
Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin, por O Homem Que Mudou o Jogo
Melhor Canção
“Lay Your Head Down”, de Albert Nobbs
“Hello, Hello”, de Gnomeu e Julieta
“The Living Proof”, de Histórias Cruzadas
“The Keeper”, de Redenção
“Masterpiece”, de W.E.*
Melhor Trilha Sonora
Ludovic Bource, por The Artist*
Trent Reznor e Atticus Ross, por Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Howard Shore, por A Invenção de Hugo Cabret
John Williams, por Cavalo de Guerra
Abel Korzeniowski, por W.E.
Melhor Animação
As Aventuras de Tintim*
Operação Presente
Carros 2
Gato de Botas
Rango
Melhor Filme Estrangeiro
Jin Líng Shí San Chai (China)
In The Land of Blood and Honey (Estados Unidos)
O Garoto de Bicicleta (Bélgica)
A Separação (Irã)*
A Pele Que Habito (Espanha)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

A volta de Sherlock Holmes aos cinemas em 2009, quando ganhou o rosto de Robert Downey Jr., foi uma experiência divertida e empolgante, que mostrou o personagem de uma maneira nunca antes vista. Seguindo a fórmula hollywoodiana de que tudo que faz sucesso merece uma continuação, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras traz de volta o detetive mais famoso da literatura britânica e seu parceiro, Watson (Jude Law), além de nos apresentar finalmente o grande inimigo de Holmes, o Professor James Moriarty (Jared Harris). O resultado é um filme que diverte tanto quanto seu antecessor.
Escrito pelo casal Kieran e Michele Mulroney, baseado nos personagens criados por Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes 2 coloca o protagonista investigando uma série de crimes que tem em comum o envolvimento de Moriarty. Ao mesmo tempo, Holmes precisa lidar com o fato de sua parceria com Watson estar chegando ao fim, já que o doutor está prestes a se casar com Mary (Kelly Reilly). Mas depois que o casal sofre um atentado na ida para a lua-de-mel, Holmes e Watson juntam forças com a cartomante Sim Heron (Noomi Rapace) para encontrar o irmão dela, Rene, que está envolvido nos planos de Moriarty para iniciar uma guerra na Europa.
Sherlock Holmes 2 não só deveria trazer de volta os bons elementos do primeiro filme, como também ter coisas novas. Mas não há nada de novo nesta sequência, o que é um pouco decepcionante porque passa a ideia de que o filme foi feito com o pensamento “em time que está ganhando não se mexe”, algo bastante comum. Por outro lado, o que o antecessor tinha de bom e que havia sido pouco aproveitado aparece bastante nesta continuação. Os momentos em câmera lenta são usados em exaustão por Guy Ritchie, e para sua sorte eles nunca se tornam enjoativos ou entediantes, diferente do que ocorreu com Zack Snyder em Sucker Punch, por exemplo. É bom também ver que há um número maior de sequências em que Holmes planeja o que vai fazer com seus inimigos. E o fato de o roteiro colocar Holmes e Watson descobrindo locais e pessoas suspeitas através de pequenos detalhes, como o tipo de papel usado para escrever uma carta ou as marcas de um objeto, também é interessante. Isso mostra o quanto a dupla é inteligente, algo bastante óbvio, mas quando ampliado torna os personagens ainda mais admiráveis.
Guy Ritchie consegue fazer boas cenas de luta, abusando de cortes rápidos, mas sempre deixando o espectador a par do que está acontecendo na tela. Aliás, as cenas de luta são uns dos pontos altos do projeto, sendo muito bem coordenadas. Além disso, os momentos em que o diretor pausa o filme para mostrar algo que não vimos Sherlock Holmes fazer surgem naturalmente, não atrapalhando o ritmo ou a ação do filme. Mas Ritchie consegue brilhar mais em um dos momentos finais, quando Holmes está jogando xadrez com Moriarty enquanto Watson e Sim procuram Rene. As duas cenas seguem o mesmo padrão de tensão por não admitir erros dos personagens.
Mais uma vez, a direção de arte faz um trabalho muito bom de recriação de época, além de conseguir mostrar um pouco da personalidade dos personagens. A casa de Holmes, por exemplo, mostra muito bem o quanto o protagonista se dedica para tentar derrubar Moriarty. Isso faz um contraste interessante com a casa do vilão, que é bastante organizada, mostrando o quanto ele é metódico. E a montagem de James Herbert chama bastante a atenção por trazer transições de cenas que funcionam como se virássemos a página de um livro, o que é perfeito visto que estamos falando de uma adaptação.
Quanto às figuras adicionadas na história, somos apresentados a Mycroft Holmes (Stephen Fry), irmão de Sherlock e que diverte em quase todas as cenas em que aparece. Além dele temos, é claro, a nova holmes girl. Se no primeiro filme tivemos Irene Adler (Rachael McAdams, que tem uma participação minúscula neste filme), agora temos Sim. Uma pena que nem ela, nem Mycroft sejam bem desenvolvidos pelo roteiro, o que limita o talento de seus intérpretes, principalmente Noomi Rapace que mostrou ser uma ótima atriz no mediano Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Fry tem a vantagem de ser o alivio cômico do projeto).
O roteiro abre mais espaço para apenas um novo personagem, e é claro que estou falando do vilão. Desde sua primeira cena, Moriarty mostra ser tão inteligente quanto Holmes, sendo ainda uma figura perigosa. Quando se lida com Moriarty, um simples erro de cálculo (como chega a ser dito em um momento do filme) pode colocar tudo a perder. O embate entre ele e Holmes rende um dos momentos mais inspirados do filme, quando o protagonista prevê os movimentos do vilão enquanto que este faz exatamente a mesma coisa. O ator Jared Harris traz um quê de sabedoria para Moriarty, algo essencial para o personagem. Além disso, Harris fala seu texto da maneira mais controladora possível, o que o torna mais ameaçador.
Mas se Sherlock Holmes 2 é bem sucedido, isso se deve muito a ótima química entre Robert Downey Jr. e Jude Law, que mostram estar muito confortáveis interpretando os personagens. Holmes e Watson são como irmãos, sendo que o primeiro age como o caçula e enquanto que o segundo age como o mais velho. Isso fica mais claro no início quando Watson chega na casa de Holmes e este quer que o amigo descubra onde ele está, algo que o doutor responde com um “Certo. Você venceu!”, tamanha é a sua vontade de brincar. E Holmes ficar triste com o fato de Watson se casar não é resultado exclusivo de ciúmes, mas também porque o protagonista além de perder o parceiro de aventuras, também vê que continuará sendo uma pessoa com uma vida cotidiana, dedicada sempre a experimentos em sua casa e a desvendar casos.
Sendo um bom entretenimento do início ao fim, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras vai conseguindo estabelecer esta nova franquia estrelada pelo detetive como algo interessante e Robert Downey Jr. mostra que é um de seus melhores intérpretes.
Cotação:

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Reconhecimento

Recebi um e-mail do pessoal do belo site Fala Cultura no qual eles me parabenizam pelo trabalho que faço aqui no blog. São palavras muito bacanas e coloco elas aqui no blog, já que é algo que quero compartilhar com vocês.
“Escrever sobre cinema é um desafio. O cinema permite às pessoas experimentar novas vidas, experiências e sensações, sem sair de sua poltrona - porém, cada vez menos pessoas parecem se deixar envolver por esse mundo mágico. Enquanto os sites e blogs dedicados à moda, relacionamento e games, por exemplo, aumentam cada vez mais de público, convencer às pessoas a dedicarem seu tempo a um bom filme constitui um desafio e uma conquista.
Da mesma forma, é difícil destacar-se entre os muitos sites dedicados a cinema, produzindo conteúdo diferenciado. Felizmente, essa é a postura assumida pelo Brazilian Movie Guy: trazer ao leitor um conteúdo rico, que demonstra uma grande paixão pelo universo do cinema. Por isso, você merece toda nossa admiração, por ajudar a espalhar o entusiasmo pela sétima arte.
Estamos escrevendo apenas para reconhecer o seu trabalho, e para desejar um sucesso ainda maior em 2012! Vamos juntos construir uma internet mais cheia de arte, cultura e vida! ;)
Fortes abraços,
da Equipe do Fala Cultura”
Agradeço muito a toda equipe do Fala Cultura. Primeiro por visitar o blog, segundo por escrever o e-mail. Como já falei em outro post, estou sempre buscando melhorar. E e-mails/comentários como esse me motivam a ganhar mais conhecimento e apresentar um conteúdo ainda melhor no Brazilian Movie Guy.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Injustiças Lamentáveis

Algo que detesto é ver que existem filmes com datas de estreia nos cinemas já programadas, mas por algum motivo (quase sempre dinheiro, e coloco o “quase” apenas para não generalizar) as distribuidoras resolvem cancelar os lançamentos e mandá-los direto para o mercado de DVDs. Atualmente, é possível perceber quando esse tipo de coisa acontece no instante em que as estreias começam a ser adiadas. Há vezes em que o filme realmente chega aos cinemas (em poucas salas, mas pelo menos estreia), mas o que mais acontece é nós perdermos a oportunidade de conferir os filmes no modo como deveria ser.
Eu não sei quanto a vocês, mas acho que a experiência de ir ao cinema é incomparável. Perdemos muito ao assistir um filme na televisão, sentado no sofá. Há detalhes do filme que podemos perceber no cinema e perder em casa, já que neste estado não estamos prestando total atenção no que assistimos. Sempre acontece de termos de parar o filme para ir ao banheiro ou para comer alguma coisa, e isso atrapalha demais. Sendo assim, considero uma ida ao cinema muito mais do que apenas ver um filme. E fico triste quando não tenho a oportunidade de ver alguma obra na telona (isso quando não é algum filme como os que vou citar no final).
Mas por que estou escrevendo isso? Geralmente, os filmes que tem seus lançamentos cancelados são aqueles que fazem feio nas bilheterias e na opinião da crítica (ou só a primeira alternativa). Então, o quê fez 50% e Guerreiro serem nocauteados direto para as estantes de DVDs? Não são filmes feitos com a certeza de que farão dinheiro, como é o caso dos blockbusters. O que eles arrecadaram não foi nada muito grande, mas também não é nenhum pouco terrível. Até o momento, 50% arrecadou 39 milhões de dólares, tendo custado apenas 8 milhões. Já Guerreiro custou 25 milhões e arrecadou 23 milhões. Como eu disse, nada muito grande, mas nenhum pouco terrível.
Para completar, são filmes que foram sucessos absolutos de crítica. Vi eles essa semana (em casa, para minha tristeza) e são realmente muito bons (não perfeitos, mas muito bons). 50% é um filme que transita muito bem entre o drama e a comédia, além de trazer uma grande atuação do sempre eficiente Joseph Gordon-Levitt. E Guerreiro conta uma história forte de dois irmãos lutadores com seus próprios traumas, e tem atuações brilhantes do trio Tom Hardy (um ator que admiro desde A Origem), Joel Edgerton e Nick Nolte.
Os dois filmes ainda podem ser indicados em alguma categoria no Oscar. 50% está mirando uma vaga em Melhor Roteiro Original, tendo alcançado isso no WGA, o prêmio do sindicato dos roteiristas. Além disso, foi indicado a Melhor Filme Comédia/Musical e Melhor Ator Comédia/Musical para Gordon-Levitt no Globo de Ouro. E Guerreiro pode conseguir uma indicação para Nick Nolte em Melhor Ator Coadjuvante (ele está concorrendo no SAG Awards, prêmio do sindicato dos atores).
Mais curioso é ver que a distribuidora de 50% e Guerreiro é a Imagem Filmes, a mesma de Guerra ao Terror, e acho que todos se lembram das trapalhadas feitas com relação a este filme. E se acontecer de mais uma vez a Imagem Filmes voltar atrás e querer lançar os filmes nos cinemas, depois de eles terem chegado às locadoras?
De qualquer maneira será tarde demais. As pessoas já terão alugado os filmes ou encontrado outros meios para assisti-los. Enquanto isso, aberrações (e falo essa palavra pensando em qualquer filme dirigido pela dupla Jason Friedberg e Aaron Seltzer, como Deu a Louca em Hollywood e Super-Heróis: A Liga da Injustiça, que detesto e foram as primeiras que me vieram a cabeça) que poderiam poupar o público de ter seu cérebro diluído chegam aos cinemas. Lamentável.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

Algo interessante em Steven Spielberg é o fato de ele às vezes lançar dois filmes no mesmo ano geralmente seguindo uma espécie de regra. Um deles é blockbuster, enquanto o outro é um drama. Este ano, o blockbuster é As Aventuras de Tintim, e o drama é este Cavalo de Guerra, filme que conta uma história com uma fórmula bastante batida: a amizade entre uma pessoa e um animal. Apesar disso, Cavalo de Guerra consegue ser conquistador e emocionante.
Escrito por Lee Hall e Richard Curtis, baseado no livro de Michael Morpurgo, Cavalo de Guerra segue a amizade do jovem Albert Narracott (Jeremy Irving) com o cavalo Joey nos tempos da Primeira Guerra Mundial. Albert mostra ter uma grande admiração pelo animal desde que o viu nascer, e fica feliz ao ver que seu pai, Ted (Peter Mullan), o comprou para ajudar na fazenda, algo visto com desgosto por sua mãe, Rose (Emily Watson). Mas por problemas financeiros, Ted o vende para o exército. Mesmo separados, Albert e Joey continuam ligados por sua amizade e pela promessa de que irão se encontrar novamente. Enquanto isso, eles precisam enfrentar os terrores da guerra.
O filme começa com o nascimento de Joey. Pouco depois, Steven Spielberg já mostra sua primeira boa sacada, muito parecida com a que Danny Boyle fez em 127 Horas. Ele mantém o foco quase o tempo todo no pequeno cavalo ao lado da mãe, e então corta para mostrar o título do filme. Isso já nos mostra o que Joey se tornará ao longo da história.
Todo o primeiro ato de Cavalo de Guerra se dedica ao relacionamento de Albert e Joey, que é muito bem estabelecido. Com sensibilidade, Spielberg consegue fazer a amizade se tornar algo interessante. Isso acaba sendo fundamental para que nós nos importemos com o destino dos personagens e consiga segurar as duas horas e meia de duração do filme, não fazendo ele se tornar chato e entediante. Essa parte do filme mostra Joey sendo treinado para arar as terras da fazenda. Aparentemente, essa sequencia mostra-se previsível, mas o roteiro surpreende ao fazer Joey precisar de uma “ajudinha dos céus” para fazer o serviço. Pouco depois, essa mesma ajudinha volta, mas com o sentido de dizer “Deus dá, e Deus tira”, o que serve não só para dar o gancho para o segundo ato do filme, como também para dar uma função ao fato de a família ter problemas financeiros.
Joey é mostrado no filme como um cavalo insistente, que nunca desiste, e é isso que chama a atenção de Ted Narracott quando este o compra, já que é uma característica que prevalece na família. Já Albert, interpretado com grande determinação pelo estreante Jeremy Irvine, é um garoto que coloca aqueles que ama antes de si mesmo. Depois de arar a terra com Joey, ele fica tão cansado quanto o cavalo, mas ainda assim prefere cuidar do amigo.
A direção de Spielberg ajuda muito a passar a ideia de que Albert e Joey se completam. Isso porque, ao longo do filme, o diretor faz rimas muito interessantes. Quando Joey vai à guerra com o Capitão Nicholls (o carismático Tom Hiddleston, de Thor), Spielberg segue toda a correria fazendo um travelling para a esquerda. Já quando Albert entra em batalha, a câmera segue o personagem indo para a direita. Além disso, Spielberg mostra-se preocupado em mostrar as consequências dos combates na guerra, como no momento em que ele faz a câmera se afastar e revelar, aos poucos, um mar de soldados mortos. Se isso já bastaria para causar impacto no filme, o diretor em outros momentos foca os rostos dos personagens, que brilham por causa das explosões e dos disparos de armas, mostrando a reação deles perante o horror que acontece diante de seus olhos. E as cenas em que Joey aparece correndo, sem saber qual será seu próximo destino, são de uma beleza incrível, em parte graças à excelente fotografia de Janusz Kaminski, parceiro habitual de Spielberg.
O roteiro enrola um pouco a história. O tempo que Joey passa com dois irmãos (interpretados por David Cross e Leonhard Carow) mostra ser desnecessário, já que em nada acrescenta ao filme. Já a sequência em que o animal fica aos cuidados da jovem Emilie (Celine Buckens) é um pouco irritante no início, já que a garota mostra ser um pouco mimada, mas melhora quando ela começa a tratar Joey da mesma maneira que Albert. Isso faz essa parte ficar até um pouco divertida, tornando-se o momento mais leve do projeto. E o fato de ela não conseguir ensinar o cavalo a saltar por cima de obstáculos resulta, mais tarde, na cena mais agonizante do filme.
Cavalo de Guerra ainda conta com belos trabalhos no design de produção e nos figurinos, que recria a época da Primeira Guerra Mundial eficientemente. O mesmo pode ser dito sobre a montagem, que é hábil ao conseguir acompanhar Joey e Albert quase ao mesmo tempo, mesmo eles estando separados. Mas a jornada de Joey se torna ainda mais envolvente e emocionante graças à espetacular trilha sonora do mestre John Williams, que só não será indicada ao Oscar caso os membros da Academia sejam surdos. Williams consegue transformar Cavalo de Guerra quase em um épico, o que já é digno de aplausos.
Depois de quase três anos sem lançar um filme, é bom ver que Steven Spielberg volta com uma obra como Cavalo de Guerra. Se ele conseguirá ser totalmente bem-sucedido em seu retorno duplo, só poderemos afirmar depois de assistir As Aventuras de Tintim.
Cotação: