sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Carne Trêmula

A evolução do cinema espanhol é algo que pode ser percebido se compararmos os filmes produzidos no país na década de 1970 (Cría Cuervos, O Espírito da Colmeia, entre outros) e os filmes de Pedro Almodóvar. Isso por que naquela época começaram a surgir diretores corajosos o bastante para criticar a ditadura de Francisco Franco, que perdurou na Espanha no período de 1939 a 1975, enquanto que Almodóvar é a representação perfeita da maior liberdade de expressão possibilitada quando esse regime terminou. Em Carne Trêmula, ao mesmo tempo em que conta uma história envolvente e muito bem tramada, o diretor faz uma bela declaração de alívio quanto ao fato de aqueles tempos de medo e insegurança terem acabado.
Escrito pelo próprio Almodóvar, Carne Trêmula conta a história de Víctor Plaza (Liberto Rabal), jovem que é apaixonado por Elena (Francesca Neri). Durante uma discussão entre eles, a dupla de policiais David (Javier Bardem) e Sancho (Jose Sancho) intervém. Sancho e Víctor brigam por uma arma, que acaba disparando e acertando David, deixando-o paraplégico. Sendo culpado por isso, Víctor vai para a cadeia. Seis anos depois, ele volta querendo se vingar de Elena e David, agora casados.
A motivação de Víctor é bem definida por Almodóvar. Na cadeia, o jovem leva uma vida que não merece, em um lugar onde suas maiores preocupações são não pegar AIDS e não se drogar. Enquanto isso, David e Elena formam um casal feliz. Ou pelo menos é o que aparentam ser. O policial se tornou um famoso jogador de basquete em cadeira de rodas, enquanto que Elena cuida de uma creche. Aliás, a mudança que os personagens sofrem depois do disparo da arma é surpreendente. Elena, por exemplo, era viciada em drogas, algo que não se vê nenhum pouco na pessoa em que se tornou, o que nos faz ter uma ideia do quanto seu relacionamento com David a fez repensar sua vida.
Almodóvar começa o filme em 1970, quando a mãe de Víctor, Isabel (uma jovem Penélope Cruz), está prestes a dar a luz ao rapaz em um ônibus. Isso acaba sendo importante para conseguirmos ver a diferença entre esta época e os dias atuais (no caso do filme, 1996). Em 1970, as ruas da Espanha estão desertas à noite, e o motorista do ônibus pensa muito antes de aceitar levar Isabel para o hospital, o que revela seu medo em não seguir as regras impostas por seu trabalho. Agora as coisas são completamente diferentes, como pode ser visto no final do filme, quando uma verdadeira massa de pessoas caminha pelas ruas tranquilamente.
A direção de Almodóvar é primorosa. Além de usar cores quentes ao longo de todo o filme, característica que ressalta sua liberdade de expressão, o diretor coloca tensão em certas cenas, algo que deixa Carne Trêmula ainda mais envolvente. Exemplo disso é a discussão entre Víctor e Elena, uma das melhores cenas do filme. Nessa parte, Almodóvar consegue impor um bom clima de suspense e ainda se preocupa com os relacionamentos entre aqueles personagens. Ele dá atenção até mesmo para o momento em que Elena e David se olham e se apaixonam, algo que fica evidente pelo belo uso do slow motion e da trilha sonora. Mas nada nesta cena é tão tenso quanto o uso da câmera subjetiva, que Almodóvar faz quando Víctor e Sancho estão brigando pela arma, que é balançada de uma maneira que nos deixa sem saber o que ela acertará.
Algo que acontece muito na história de Carne Trêmula é traição, e Almodóvar não incluí cenas desse tipo sem ter algum propósito. Todas as traições que aparecem no filme acabam tendo um papel importante, seja para o desenvolvimento dos personagens ou para ajudar nas reviravoltas da história. Ao colocar dois maridos tendo que lidar com as traições de suas esposas com o mesmo homem, Almodóvar mostra o quão engenhoso é seu roteiro, que é muito bem montado até seu clímax.
As atuações do elenco são muito eficientes. A começar por Liberto Rabal. Víctor não é um criminoso, apesar de ser visto como um pelos outros personagens. Ele é apenas um jovem ingênuo, que ganha carisma graças a seu intérprete. Outro destaque é Francesca Neri, que faz de Elena uma mulher que anseia por prazeres maiores, algo que fica claro no momento em que ela aproveita o cheiro que está em seu corpo antes de tomar banho. Javier Bardem consegue mostrar que David apesar de estar em uma cadeira de rodas, não é nenhum pobre coitado, já que ele consegue levar uma vida normal mesmo tendo uma deficiência. Enquanto isso, Jose Sancho interpreta Sancho como um homem das antigas, que não consegue ver sua mulher, Clara, se tornar uma pessoa mais independente, ultrapassando os limites para mantê-la ao seu lado. E Angela Molina tem em Clara uma personagem que tenta ser aceita pelos homens ao seu redor.
Ao final de Carne Trêmula, um personagem tem uma belíssima fala na qual é dito que “Já faz muito tempo que na Espanha perdemos o medo”. Esta não só é a maneira perfeita para terminar um grande filme, mas também um dos melhores momentos que o cinema espanhol já teve.
Cotação:

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Matar ou Morrer

(Texto originalmente escrito para a aula de Análise da Produção Audiovisual)
O gênero western é muito mais conhecido por ser aquele em que aparecem os cowboys, os saloons, os “bang-bang”, o cenário desértico, entre outras coisas. Lançado em 1952, Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, é um dos maiores clássicos do gênero. Mas diferente de outros grandes filmes, como os da Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, este exemplar tem apenas uma cena em que seus personagens trocam tiros, e ela acontece no final do filme. O que se vê em Matar ou Morrer é uma bela história de honra e coragem na qual o protagonista passa por conflitos internos muito interessantes.
Escrito por Carl Foreman, Matar ou Morrer conta a história de Will Kane (Gary Cooper), delegado que está se casando com a bela Amy Fowler (Grace Kelly, em um de seus primeiros papeis no cinema). Depois do casamento, ele é avisado que Frank Miller (Ian MacDonald) inacreditavelmente conseguiu se safar da cadeia, e é esperado por seus capangas (um deles é Lee Van Cleef, por sinal) no trem que chegará ao meio-dia. Querendo ele mesmo encerrar o assunto com Miller, Kane resolve ficar na cidade e enfrentar seu inimigo. Mas a situação piora quando o delegado vê que a população não o ajudará.
Historicamente, Matar ou Morrer começa de forma inédita: usa uma canção-tema, feita especialmente para o filme, na abertura. Quando “Do Not Forsake Me, Oh My Darling” (por sinal, uma belíssima canção que ganhou merecidamente o Oscar, em 1953) começa a tocar, o tom da narrativa já é imposto quase que imediatamente, já que a letra mostra exatamente a situação pela qual Will Kane está passando. Ao mesmo tempo em que quer enfrentar Frank Miller, ele não quer que sua esposa o esqueça, mesmo que ele morra lutando. É uma questão não só dignidade (morro como herói ou fujo e fico conhecido como um covarde), mas também protetora, já que sem ele a cidade fica sem delegado durante um dia inteiro. E sabe-se lá o que os bandidos podem fazer nesse período.
A direção de Fred Zinnemann é absolutamente brilhante. O filme foi feito para dar a impressão de que a história se passa em tempo real. Ela ocorre em um período de tempo de uma hora e quarenta minutos, um pouco acima dos 85 minutos de duração, mas Zinnemann consegue perfeitamente passar esse sentimento. Ao longo do filme, o diretor faz vários enquadramentos em que mostra não só os personagens, mas também um relógio na parede. Isso é algo que traz uma grande tensão para o filme, por que à medida que os ponteiros se aproximam do meio-dia, nós tememos cada vez mais com o que pode acontecer quando Frank Miller chegar.
O grande Gary Cooper ajuda muito a implantar essa atmosfera temerosa. Interpretando Will Kane como o típico bom homem que quer apenas manter a paz em sua cidade, é difícil não gostar do ator e, consequentemente, se importar com o destino do personagem. Sendo assim, quando a cidade começa a se recusar a ajuda-lo na luta contra Frank Miller, nós ficamos tão desesperados quanto o protagonista.
Quando chega a grande cena da luta, Fred Zinnemann brilha mais uma vez ao fazer um zoom out no momento em que Kane está indo em direção aos vilões, algo que mostra que, da maneira em que está, ele é apenas uma formiga fácil de ser abatida. E quando a câmera fica próxima de seu rosto, em primeiro plano, vemos o medo que este homem está sentindo. Já com os vilões, Zinnemann mantém a câmera baixa e próxima deles, em plano de conjunto, algo que os torna maiores do que já aparentam ser, e consequentemente mais ameaçadores perto da “formiga” Kane.
Matar ou Morrer faz ainda uma crítica ao sistema de justiça americano. Apesar de existir corrupção, há pessoas que querem fazer o certo, mas não podem por terem as mãos atadas pela lei. Will Kane como essas pessoas. Além de saber que os bandidos estão soltos, ele sabe quem eles são, mas não pode prendê-los por que não tem justificativa. Esse é um dos motivos para que a maioria população não queira ajuda-lo. A cena na igreja é uma das melhores do filme por mostrar que há pessoas que entendem a situação de Kane, mas não o ajudam por medo.
Matar ou Morrer é o tipo de filme que mostra o porquê de o cinema ser uma arte tão apaixonante. Hoje em dia, é uma pena que existam tão poucos westerns com tamanha qualidade.
Cotação:

sábado, 3 de dezembro de 2011

Os Muppets

A única participação que os Muppets tiveram na minha infância foi um pequeno clipe que passava antes de A Bela e a Fera, no VHS do filme. Fora isso, nunca vi o programa The Muppet Show e, até pouco tempo atrás, nem sabia direito os nomes de Kermit (ou Caco, como ficou conhecido por aqui), Miss Piggy e companhia. Por isso, antes de assistir a esta nova produção, resolvi me familiarizar um pouco com os personagens assistindo a quatro dos seis filmes protagonizados por eles nos cinemas: Muppets – O Filme, A Grande Farra dos Muppets, Os Muppets Conquistam Nova York e Muppets do Espaço. Tirando o último, que é mediano, adorei os filmes e de quebra ainda me tornei fã dos personagens, que são absolutamente adoráveis. Sendo assim, é bom vê-los protagonizando mais um filme, e melhor ainda é constatar que é um exemplar muito divertido, assim como os próprios Muppets.
Escrito pelo ator Jason Segel (grande fã dos personagens) ao lado de Nicholas Stoller, Os Muppets mostra que o grupo se separou e não se vê há muito tempo. Enquanto isso, Tex Richman (Chris Cooper) pretende comprar o abandonado Estúdio Muppet e demoli-lo para aproveitar o petróleo que existe na área. Para impedir que isso aconteça, Walter, seu irmão Gary (Segel) e a namorada dele, Mary (Amy Adams), reúnem o grupo para mais um show, com o objetivo de arrecadar dez milhões de dólares e salvar o estúdio.
Algo que diverte no roteiro do filme é a metalinguagem. Os personagens se aventuram ao mesmo tempo em que estão cientes de que estão dentro de um filme (o que faltou em Muppets do Espaço). Quando um prédio explode, por exemplo, Fozzie pergunta se isso estava no orçamento. Outro exemplo é o momento em que Richman fala a trama do filme e é questionado pelo velhinho Statler. Isso é algo que ressalta a graciosa ingenuidade dos Muppets, uma característica que os torna ainda mais adoráveis e divertidos.
Outro elemento admirável é Walter, personagem criado especialmente para o filme (e que torço para que participe de futuras produções dos Muppets). Apesar de ser uma marionete, Walter é irmão de Gary, um humano, mas isso nunca vira motivo de estranhamento por que, afinal, estamos em um filme dos Muppets. O que torna Walter um personagem tão carismático e interessante é o fato de ele ser a verdadeira representação do que acontece com um fã incondicional quando este está diante de seus ídolos. Ele fica extremamente feliz só por poder visitar o Estúdio Muppet e ainda desmaia quando Kermit o chama de amigo. É uma representação que pode parecer exagerada, mas mostra muito bem a felicidade que sentimos diante de uma pessoa que admiramos.
O modo como o roteiro trata o reencontro dos Muppets é muito bacana. Mesmo tendo passado tanto tempo desde que se viram pela última vez, eles não se esqueceram um do outro ou dos ótimos momentos que viveram juntos. Gonzo, por exemplo, virou o maior magnata do saneamento da região, mas sempre usa sua velha “roupa de Muppet” por baixo do terno.
É de se admirar ainda que Segel e Stoller entendem que os Muppets são os verdadeiros “donos da área”. Sendo assim, os humanos nunca se tornam o centro do filme. Quando os Kermit e companhia aparecem, eles dominam a tela. E sendo personagens tão populares, várias celebridades fazem participações especiais, algo muito comum em se tratando dos Muppets. Se nos outros filmes tivemos figuras como Steve Martin, Bob Hope, Mel Brooks, Liza Minnelli, Brooke Shields, Ray Liotta e Orson Welles, em Os Muppets temos Alan Arkin, Mickey Rooney, Dave Grohl, Sarah Silverman, Jack Black, Neil Patrick Harris, e muitos outros. São participações que enriquecem bastante o filme, já que mostram o quanto os os personagens são adorados (duvido que algum desses atores tenha aceitado participar deste filme apenas por participar).
Jason Segel não capricha só como roteirista, mas também como ator, mostrando uma química invejável não só com Walter, mas também com sua parceira em cena, a sempre eficiente Amy Adams. Os dois emprestam seu carisma para Gary e Mary, dois personagens que apoiam um ao outro. Enquanto isso, Chris Cooper claramente se diverte com seu Tex Richman (nome interessante, por sinal), fazendo deste um vilão à altura dos Muppets. Aliás, o número musical de rap protagonizado por Cooper diverte por não estarmos acostumados a vê-lo dessa maneira.
O diretor James Bobin tem como principal trabalho deixar os Muppets darem seu show, mas também merece créditos por ser responsável por alguns belos momentos do filme. Ele consegue enganar o público mostrando algo que parece ser uma coisa, mas que logo depois mostra ser diferente do que pensávamos. Por exemplo, quando alguém está próximo a uma janela e começa a chover, o que revela ser apenas um jardineiro usando uma mangueira. Ou quando um personagem aparece pela primeira vez no filme, com um coral como música de fundo, sendo que logo depois isso mostra estar vindo de um simples ônibus que está passando por ali. Além disso, os números musicais são muito bem feitos e é bom ver que a famosa canção “At the Rainbow Connection” não é esquecida.
Quando o programa de arrecadação do dinheiro começa, os realizadores mostram que sabem qual é o público-alvo do filme. Ao invés de crianças na plateia, o que se vê, em sua grande maioria, são adultos. Isso é algo que deve refletir nos cinemas, já que é esse grupo de pessoas que cresceu assistindo estes personagens. Enquanto que as crianças de hoje vão estar lá apenas para se divertir, os adultos estarão se reconectando com sua infância. E esta é a grande magia em volta de Os Muppets.
Cotação:

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Operação Presente

Acho que a maioria das crianças já passou pela situação de temer não receber nenhum presente do Papai Noel. Ser esquecido pelo bom velhinho é um dos piores sentimentos que se pode ter, já que o pensamento que se tem é a de que foi a única criança a ser deixada de lado. Quando um filme pega um tema comum, como o Natal, e enche sua história com grande criatividade, os resultados geralmente são muito interessantes. Isso Operação Presente tem de sobra, o que faz desta nova animação não só um filme muito divertido, mas também cativante.
Escrito pela diretora Sarah Smith ao lado de Peter Baynham, Operação Presente mostra que Papai Noel é um trabalho que passa de geração a geração. Malcolm, o atual Papai Noel, tem um grande esquema na hora de entregar os presentes no Natal. Mas algo dá errado e, dentre bilhões de presentes, apenas um não é entregue: a bicicleta da menina Gwen. Malcolm e seu filho mais velho, Steve, insistem em dizer que é impossível entregar o presente antes da manhã de Natal, mas o caçula Arthur, ao lado do Vovô Noel e da elfa Bryony, corre para que Gwen não seja a única criança esquecida pelo Papai Noel.
Sarah Smith inicia o filme com Gwen enviando uma carta para o bom velhinho. Nela, a garota faz várias perguntas, desde “Como você entrega tantos presentes em uma só noite?” até “Como não encontro sua casa no Google Earth?”. A diretora não perde tempo, respondendo essas perguntas logo depois de elas surgirem na tela, através da grande operação de entrega dos presentes. As soluções são divertidíssimas tanto em ideia como em aplicação, fazendo da missão de Natal um dos melhores momentos do filme.
O desenvolvimento dos personagens também é bem realizado pelo roteiro. Apesar de ser filho do Papai Noel, Arthur não recebe muita atenção das pessoas a sua volta, tanto que é deixado no setor de cartas, um lugar isolado e apertado onde não atrapalharia ninguém. Sendo assim, quando ele vê que uma criança ficará sem presentes no Natal, ele compreende o sentimento que ela terá, já que ele mesmo é, literalmente, ignorado pelo Papai Noel. O fato de o garoto entrar em uma missão arriscada para que todas as crianças tenham um Natal feliz o torna um personagem ainda mais admirável, porque não é qualquer um que se importa com um único presente esquecido no meio de bilhões entregues. Malcolm e Steve se importam com esse pequeno detalhe, mas não tanto quanto Arthur.
Aliás, Malcolm é um Papai Noel que diverte por ter se deixado levar pela tecnologia, o que facilitou muito seu trabalho, algo que o Vovô Noel vê com desdém, já que tudo funcionava muito bem na época em que ele descia pela chaminé. O trabalho ficou tão facilitado que Malcolm praticamente não faz nada na hora de entregar os presentes. Mas isso trouxe consequências, já que ele não trata os problemas, como o presente esquecido, com a mesma atenção de antes, além de ser bastante dependente das outras pessoas, até para fazer um embrulho. E o conflito entre ele e Steve, acertadamente, nunca se torna o centro das atenções, o que ajuda no desenvolvimento da história.
O roteiro investe bastante em gags, mas, infelizmente, erra várias vezes ao longo da projeção. Este é um problema que piora pelo fato de Sarah Smith praticamente parar o filme para que as gags aconteçam, o que atrapalha a ação da história. Algumas dessas gags que não dão certo envolvem o ajudante de Steve. Por outro lado, Bryony consegue fazer rir várias vezes, como quando leva a sério uma ordem do Vovô Noel.
Operação Presente nos faz lembrar de como era a nossa infância, quando esperávamos o Papai Noel para nos dar presentes. São crenças que desaparecem depois que crescemos, mas que marcam bastante a nossa história. Ao final do filme, é legal ver os personagens felizes com coisas bastante simples. É essa a magia do Natal para as crianças, já que para elas um mero boneco pode transformá-las nas pessoas mais felizes do mundo. De certa maneira, ao longo de seus 100 minutos de projeção, o filme nos faz voltar para aqueles bons tempos, algo que é sempre muito bom.
Cotação:

Underground: Mentiras de Guerra

(Texto originalmente escrito para a aula de Estudo do Cinema Internacional)
Underground: Mentiras de Guerra mostra a história da Iugoslávia desde a Segunda Guerra Mundial até os dias atuais, em 1992. Toda a história é contada de maneira satírica pelo diretor Emir Kusturica, o que faz com que Underground seja um filme engraçado durante quase todo tempo de projeção (162 minutos), e consegue essa façanha mesmo com o cenário político em que está envolvido.
Dividido em três partes (Guerra, Guerra Fria e Guerra), Underground nos apresenta a uma dupla de fabricantes de armas, Marko e Crni, no período da Segunda Guerra Mundial. Eles mantêm em seu porão um grupo de refugiados que os ajudam na fabricação dos armamentos. Quando a guerra acaba, os trabalhadores não ficam sabendo e continuam a produção. Anos mais tarde, eles conseguem sair do porão e descobrem que a guerra, apesar de não ser a mesma de antes, continua.
Essa forma com que o filme é dividido já é engraçada por ser muito bem montada para que os refugiados se surpreendam com o que veem no momento em que saem do porão. Isso é só uma parte do humor negro que aparece ao longo do filme. Mas, apesar de contar com seus momentos engraçados, Underground não deixa de ficar sério em alguns momentos, como quando um dos personagens, Ivan, tenta desesperadamente salvar os animais do zoológico enquanto que a guerra estoura no país.
O final de Underground, quando vários personagens, até mesmo os que morreram ao longo do filme, aparecem juntos em um pequeno pedaço de terra, é genial por ser uma bela metáfora, que representa um novo começo para o povo daquele país. Genialidade que merece ser aplaudida de pé.

sábado, 26 de novembro de 2011

For Your Consideration

Como vocês podem perceber pelo número de postagens que escrevo sobre o assunto, eu gosto muito do Oscar. Acompanho essas festas incessantemente desde 2005. É claro que às vezes a cerimônia não é muito empolgante e aqueles que queremos como ganhadores acabam saindo com as mãos abanando, mas gosto de ver diretores, atores, roteiristas e etc., sendo prestigiados por seus trabalhos.
Faltando dois meses para sair a lista de indicados da próxima edição, os estúdios já começaram as campanhas de seus filmes fazendo os famosos banners e clipes com a headline “For Your Consideration” (“Para a sua Consideração”). Coloco aqui alguns desses banners, que são bem bacanas, além de dois clipes da fervorosa campanha que a Warner está fazendo para Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2.

domingo, 20 de novembro de 2011

A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1

Ao longo dos livros da “saga” Crepúsculo, pude perceber que Stephanie Meyer teve uma ideia que poderia resultar em algo interessante, caso ela não fosse uma escritora ruim por enrolar demais pra chegar ao ponto principal do quer contar. Enquanto lia Amanhecer, sempre que a história parecia estar tomando um rumo interessante, Meyer colocava algo no caminho que acabava com a experiência de ler o livro. O filme, assim como as outras adaptações, poderia muito bem cortar esses erros da escritora e fazer da história algo mais suportável. Mas, infelizmente, não é o que acontece.
Escrito por Melissa Rosenberg (acho incrível que ela seja uma das pessoas envolvidas na grande série Dexter), Amanhecer – Parte 1 mostra o casamento de Bella Swan (Kristen Stewart) e Edward Cullen (Robert Pattinson) e como suas vidas seguem depois de casados. Durante a lua de mel, Bella engravida, e o bebê mostra ser uma ameaça a sua vida e a vida daqueles a sua volta, o que faz o bando de Jacob Black (Taylor Lautner) querer resolver o problema. Mas o lobisomem se rebela e junta forças com os Cullen para proteger Bella.
Amanhecer – Parte 1 começa terminando Eclipse, colocando a cena na qual Jacob foge ao receber o convite para o casamento de Bella. O problema do modo como isso é feito aparece na passagem de tempo. Quando Jacob volta para o casamento, a impressão que fica é a de que ele foi só dar uma volta para pensar, quando na verdade ele desapareceu durante meses. Aliás, o roteiro de Rosenberg tenta concertar várias coisas dos filmes anteriores, como explicar o conceito do imprinting, que foi jogado na tela displicentemente em Lua Nova. Mas isso acaba trazendo consequências, como diálogos explicativos como “Essa é a lei absoluta deles (referindo-se aos lobisomens)”.
Mas se o filme procura rever algumas desatenções que ocorreram ao longo da franquia, o mesmo não se pode dizer quanto à “encheção de linguiça” feita por Stephanie Meyer e que ocorre em demasia no livro. Se por um lado Rosenberg tira partes como quando Edward pede para Jacob ter um filho com Bella (uma das coisas mais absurdas da história), do outro ela mantém o fato de o vampiro não querer mais ter relações sexuais com a garota por medo de machucá-la como na primeira vez, o que não muda em nada o rumo da história porque depois eles voltam a dormir juntos de qualquer maneira. Além disso, Rosenberg ainda inclui momentos dos livros anteriores, como um flashback de Edward, que mostra ser desnecessário porque, mais uma vez, não muda em nada o rumo da história. E manter essas partes só mostra o quanto o texto de Stephanie Meyer é superestimado por seus realizadores.
O escolhido para conduzir a última parte da franquia, Bill Condon (do mediano Dreamgirls), tem uma direção bastante burocrática, de modo geral. O único momento realmente inspirado do cineasta acontece no já citado flashback de Edward, onde o diretor faz um uso interessante da fotografia em preto e branco, usando-a para mostrar a fase terrível da vida do personagem. Mas este é um acerto muito isolado.
Nas cenas de ação, Condon chacoalha demais a câmera, não permitindo que o público compreenda o que está acontecendo, algo ainda mais agravante pelo fato de ele investir em muitos cortes rápidos. E apesar de ele conduzir bem a cena do casamento (o traveling circular que ele faz no momento do beijo, quando os protagonistas estão “sozinhos”, é bacana), o mesmo não pode ser dito sobre a festa, que se revela a parte mais entediante do filme, chegando ao ápice no momento em que os convidados começam a fazer brindes. O diretor ainda mantém as cores quentes vistas no início durante todo o filme, o que não passa o total clima de tensão que impera a partir do momento em que a narrativa fica mais sombria.
O filme ainda investe um pouco no humor, mas falha miseravelmente. Há apenas dois momentos engraçados nas quase duas horas de projeção, ambos envolvendo Charlie (Billy Burke): quando ele comenta com a mãe de Bella sobre os chapéus de formatura dos Cullen e o brinde que ele faz na festa. De resto, ver um quarto ser destruído é outra parte que deveria ter sido cortada do filme, já que é usada para buscar o riso fácil quando, na verdade, deveria representar um momento especial.
E chegamos finalmente aos personagens. Bella prova neste filme que adora qualquer coisa que possa matá-la. Primeiro foi Edward, depois Jacob e agora é o bebê que carrega em seu ventre. É claro que o amor que ela sente pela criança é maternal, mas acaba entrando perfeitamente no código que a garota parece seguir. E Kristen Stewart continua com a mesma inexpressão de sempre, o que faz com nunca saibamos se Bella está realmente feliz ou triste.
Se Stewart está inexpressiva, Robert Pattinson continua com sua cara de dor de barriga. E quando Edward entra em choque em certo momento do filme, Pattinson acaba causando o riso involuntário com seus olhos arregalados, quando na verdade ele deveria demonstrar preocupação com aquilo que não conhece, ou seja, o que pode acontecer a seguir. Já Taylor Lautner faz o possível com um personagem que merecia uns tapas para pensar direito. Mesmo depois de três filmes (ou livros), Jacob não entendeu que Edward não fará mal a Bella, o que faz ele questionar a garota se ela realmente acha que terá uma verdadeira lua de mel ao lado do vampiro.
Amanhecer claramente não precisava ser dividido em duas partes, tendo isso acontecido muito mais por motivos comerciais. Bastava seus realizadores terem um pouco mais de atenção com certas informações e um corte mais brando nas enrolações de sua criadora. Muitas coisas teriam que ser mudadas no material original de Crepúsculo para que este pudesse render bons filmes. E depois que a segunda parte de Amanhecer for lançada, esta será uma franquia que ficará marcada por aquilo que tem de ruim.
Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.
Cotação: