terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Alerta Máximo

Durante a sessão de Alerta Máximo, novo trabalho protagonizado por Gerard Butler, é difícil não ter a sensação de que já vimos esse filme em algum lugar. Roteirizado por Charles Cumming e J.P. David, o longa traz Butler no papel do piloto Brodie Torrance, que está escalado para realizar um voo para Tóquio no Ano Novo, levando um grupo pequeno de passageiros e não vendo a hora de encerrar a jornada para poder passar o fim de ano com sua filha. Entre os passageiros está Louis Gaspare (Mike Coulter), um preso que está sendo extraditado depois de anos vivendo como fugitivo. Durante o voo, porém, a aeronave sofre danos por conta de uma forte tempestade, obrigando Torrance a pousar no primeiro pedaço de terra firme que surge em seu caminho. Para o azar do piloto, o local encontrado é uma ilha comandada por milicianos ao sul das Filipinas, e ele se vê tendo que se unir a Gaspare para salvar a si próprio e aos passageiros enquanto eles todos não são encontrados e resgatados.

A sensação de familiaridade do longa vem de muitos elementos. A começar por sua busca por ser um filme de ação com toques de luta pela sobrevivência, algo que basicamente o faz ser uma espécie de mistura cujos ingredientes foram obras como Força Aérea Um, Turbulência e O Voo da Fênix, com o roteiro não conseguindo desenvolver algum frescor no meio disso. Isso serve também para os personagens, que quando desenvolvidos trazem dramas ou histórias pessoais bastante batidas. E quando falo desse desenvolvimento de personagens, isso se refere exclusivamente a Torrance e Gaspare, já que o resto dos passageiros e os vilões são figuras por vezes irritantemente unidimensionais e estereotipadas. Em determinado momento, os vilões só faltam dizer que são maus apenas porque são (e gostam de ser) maus, enquanto os passageiros se revelam do tipo que não fariam falta caso tivessem morrido durante a tensão no avião.


Mas Alerta Máximo provavelmente nem foi produzido com o intuito de fazer coisas diferentes com suas referências, querendo ser apenas um filme de ação que entretenha. Nesse sentido, o diretor Jean-François Richet (que lembro do bom remake de Assalto ao 13º DP e do mediano Herança de Sangue, com Mel Gibson) faz um trabalho eficaz na condução da narrativa, de forma que mesmo com o roteiro irregular o longa nunca chega a ser uma experiência chata de se acompanhar, prendendo a atenção em suas sequências de ação. Há uma cena em particular que se destaca ao trazer uma luta filmada em um longo plano sem cortes aparentes, mostrando de maneira bem crua os esforços dos personagens para acabar um com o outro. Além disso, Gerard Butler e Mike Coulter exibem carisma interpretando Torrance e Gaspare, conseguindo ainda criar entre os personagens uma dinâmica que torna possível torcer para que eles tenham algum sucesso em seus objetivos.

Tendo em vista que o astro Gerard Butler com alguma frequência protagoniza bombas como Deuses do Egito e Tempestade, talvez possamos dizer que algo relativamente eficiente como Alerta Máximo seja lucro. Trata-se de um clássico filme que chega ao fim deixando uma sensação de que deu para o gasto.


Nota:

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

M3gan

Se tem algo que tecnologia vem fazendo nos últimos tempos é desenvolver produtos que falam diretamente com a comodidade e, por tabela, com a preguiça do ser humano. É como se qualquer coisa que faça com que não precisemos levantar das nossas cadeiras fosse válida. É mais ou menos a partir dessa ideia que este terror M3gan se constrói, pegando conceitos que já vimos outras vezes quando falamos de inteligência artificial e criando terror em cima da relação entre humanos e tecnologia.

Dirigido por Gerard Johnstone e escrito por Akela Cooper (que roteirizou o ótimo Maligno) a partir de um argumento concebido por ela e James Wan (por sua vez, o diretor de Maligno), M3gan mostra Gemma (Allison Williams) se tornando responsável por sua sobrinha Cady (Violet McGraw) depois que esta perde os pais em um acidente. Gemma trabalha como engenheira em uma empresa de brinquedos, tentando agora desenvolver o projeto de “M3gan”, uma boneca com inteligência artificial capaz de interagir com a criança com quem se conecta, suprindo quaisquer necessidades e cuidando de dores físicas ou emocionais. Com isso em mente, Gemma decide testar um protótipo do brinquedo com sua sobrinha, não imaginando que isso pode ser prejudicial e até mesmo letal.

Em sua base, M3gan lembra imediatamente obras como Brinquedo Assassino e até a aventura Pequenos Guerreiros, que Joe Dante dirigiu nos anos 1990. Mas por trazer um contexto mais moderno, o que vemos aqui é um conto sobre negligência e dependência, de forma que não é difícil colocá-lo como o filme de terror que mais cutuca alguns pais, mais especificamente aqueles que atualmente colocam um tablet ou um celular nas mãos dos filhos para não precisar dar atenção a eles e, consequentemente, não se incomodarem. Claro que o filme desenvolve com a boneca do título uma situação extrema, mas acaba sendo interessante acompanhar o brinquedo preencher a lacuna criada por problemas comuns de sociabilidade em uma dinâmica familiar. E Allison Williams interpreta Gemma como uma mulher que dá total atenção ao trabalho (a clássica workaholic), a ponto de agir com indiferença em relação a outras pessoas, não demonstrando reação nem quanto a perda da própria irmã, de forma que a personagem depender de tecnologia para cuidar da sobrinha surge naturalmente na história.


Voltando a conduzir um longa-metragem após quase dez anos desde sua estreia no ótimo Housebound, o diretor Gerard Johnstone não consegue fazer o filme escapar de certas previsibilidades, como a maneira que a cena inicial em um carro chega ao fim ou ao apresentar personagens que logo podemos sacar que irão sofrer nas mãos de M3gan. Aliás, as cenas violentas em sua maioria são mais sugeridas ao invés de mostradas, uma estratégia que imediatamente fez eu pensar que o longa foi suavizado para ter uma classificação indicativa menor e alcançar um público maior, algo que infelizmente acaba custando um pouco o peso narrativo desses momentos. Mas ainda assim Johnstone mostra saber usar a presença de M3gan para criar um bom nível de tensão na maior parte do tempo, mesmo quando a pequena Cady age de maneira irritantemente rebelde, sendo que o diretor também espreme naturalmente o humor que vem da própria ideia de um brinquedo psicótico, tendo vários momentos em que o espectador pode rir de nervoso por conta das aparições da boneca.

M3gan ganha pontos por saber usar suas ideias para dialogar com questões bastante atuais no que diz respeito a presença de tecnologia na vida das pessoas, especialmente em se tratando de crianças. Mas é bom ver também que o filme é um terror eficiente, ainda que não reserve grandes surpresas ou cause tanto impacto.

Nota:



domingo, 15 de janeiro de 2023

Babilônia

Em La La Land, o diretor-roteirista Damien Chazelle concebeu um romance com personagens sonhadores e que percorriam uma representação idealizada de Hollywood e da cidade de Los Angeles. Claro, os protagonistas de Emma Stone e Ryan Gosling acabavam tendo que fazer sacrifícios pessoais a fim de realizarem seus sonhos, mas nada que incluísse grandes transgressões ou sujeiras.

Pois bem, tendo isso estabelecido, podemos dizer que Babilônia é a antítese de La La Land, como se Chazelle simplesmente jogasse fora todo o lado gracioso de seu premiado trabalho para mergulhar de cabeça no lado obscuro da indústria do cinema. Se La La Land era o yang, Babilônia é o yin.

Escrito por Chazelle, Babilônia não chega a ter uma história em si, preferindo ser um retrato de uma era, mais especificamente o período entre o final dos anos 1920 e o início dos anos 1930, que em Hollywood marca o fim da era dos filmes mudos, a chegada dos filmes falados e o início de uma certa moralização dos costumes da indústria. Nisso, passamos a acompanhar a jornada de figuras que buscam viver e crescer profissionalmente por ali. A começar por Manny Torres (Diego Calva), imigrante mexicano que faz de tudo um pouco na mansão de um executivo do estúdio Kinoscope, desde servir convidados numa festa orgíaca até transportar um elefante para esta mesma festa. Ele conhece a bela Nellie LaRoy (Margot Robbie), que aspira ser uma atriz famosa e inclusive já age como uma grande estrela. Ambos acabam se conectando com a cantora de cabaré Lady Fay Zhu (Li Jun Li) e o músico de jazz Sidney Palmer (Jovan Adepo), eles próprios buscando ascender com seus talentos. Enquanto isso, o astro Jack Conrad (Brad Pitt) busca manter sua popularidade em meio a casamentos mal sucedidos e a evolução dos filmes.


Damien Chazelle deixa claro já nas cenas iniciais que Babilônia é um filme de excessos, algo que ele faz questão de marcar não só com a grandiosidade do projeto (incluindo suas três horas de duração), mas também com as situações absurdas e, por vezes, escatológicas que retrata. Sendo assim, é difícil não ficar com os olhos arregalados quando Chazelle e seu diretor de fotografia Linus Sandgreen apostam em longos planos para percorrer cenários impressionantes, com centenas (ou seriam milhares?) de figurantes criando um verdadeiro caos visual com seus corpos, em orgias regadas a todos os tipos de drogas. E talvez não seja à toa que Chazelle se sinta confortável para apresentar o título do filme na tela apenas depois desse primeiro ato, o que ocorre após mais de 30 minutos.

E o diretor-roteirista não diminui muito o nível desses excessos ao longo da projeção, fazendo o filme passar por várias situações que ora podem surpreender pelo absurdo (podendo chocar estômagos mais fracos), ora podem divertir com as reações dos personagens. Nesse último caso, um dos melhores momentos do filme vem em uma longa sequência em que acompanhamos uma cena ser filmada várias vezes devido a problemas sonoros. No entanto, ao mesmo tempo em que a grandiosidade do projeto denota sua ambição, tem horas que Damien Chazelle parece confundir isso com preciosismo e autoindulgência, de forma que há momentos em Babilônia que soam redundantes, como a confusão envolvendo uma cobra ou um confronto com um mafioso (vivido por um caricatural Tobey Maguire). São sequências que além de incharem a trama ainda atrapalham o ritmo da narrativa, que acaba ficando um pouco mais irregular a partir da segunda metade da projeção.

Já os personagens servem para ilustrar as opressões que tomam conta dos ambientes por onde eles passam, já que para terem alguma carreira eles se veem abrindo mão de muito do que os define como seres humanos. Diego Calva (em seu primeiro papel fora de terras mexicanas) interpreta Manny Torres como uma figura constantemente inquieta, tentando controlar coisas que, muitas vezes, estão além de seu controle (nesse sentido, talvez não haja muita diferença entre o transporte de um elefante em um carro que não o suporta e os problemas de um set de filmagem ou de um estúdio). Já Margot Robbie encarna Nellie LaRoy como uma imparável força da natureza, exibindo uma energia capaz de alavanca-la ou de destruí-la, ao passo que Brad Pitt traz um charme natural para Jack Conrad, buscando imprimir no personagem uma segurança mesmo que esta não se encaixe em sua realidade, que é jogada em sua cara pela jornalista Elinor St. John, vivida pela sempre ótima Jean Smart. Para completar, Li Jun Li e Jovan Adepo se destacam quando aparecem como Lady Fay Zhu e Sidney Palmer, sendo uma pena que os dois personagens sejam mais periféricos no filme, não tendo tanto espaço quanto os outros três citados mesmo mostrando mais personalidade.

Mas ainda que por vezes acabe tropeçando em seus exageros, no fim Damien Chazelle mostra com propriedade em Babilônia que Hollywood e a arte cinematográfica de modo geral podem realizar mágicas encantadoras, cujo efeito é diferente em cada espectador. Mas muitas vezes essas mágicas podem surtir de uma certa toxicidade, em um ambiente onde o progresso de uns pode ser a derrocada de outros.


Nota:

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Não! Não Olhe!

Uma das coisas que me chamou a atenção recentemente quando assisti ao ótimo documentário Pacto Brutal, sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, foi ver o tratamento dado ao local do crime. Nas imagens ali apresentadas, víamos o lugar ser invadido não só por toda a movimentação da polícia e pelo desespero de familiares da vítima, mas também pela cobertura sensacionalista da imprensa e por um alto número de transeuntes que nada tinham a ver com a história, tendo saído de suas casas e se locomovendo até o local apenas para... Bem, acho que apenas para ver o ocorrido como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Basicamente, as imagens do documentário mostram muito como ser humano pode ser sanguessuga, sentindo uma necessidade/curiosidade de ver coisas horríveis (e até aumentar sua escala) apenas para ser estimulado de alguma forma. Foi nesse sentido que acabei lembrando de Pacto Brutal enquanto assistia a este Não! Não Olhe!, novo longa de Jordan Peele após ele comandar os excepcionais Corra e Nós. Em meio a uma trama que mistura terror e ficção científica, o cineasta faz comentários pertinentes sobre o impulso que as pessoas têm de espetacularizar eventos horríveis, pouco se importando com a natureza deles.

Em Não! Não Olhe!, Jordan Peele nos apresenta aos irmãos OJ e Emerald Haywood (Daniel Kaluuya e Keke Palmer, respectivamente), que perdem o pai (Keith David) durante um inexplicável acontecimento em que objetos caíram do céu. Por conta disso, eles assumem aos trancos e barrancos o negócio da família, treinando cavalos para produções audiovisuais, sendo que eles também dizem ser descendentes do homem que montava o cavalo na famosa sequência de fotos de Eadweard Muybridge (uma das primeiras tentativas de fazer imagens em movimento). Mas quando OJ passa a suspeitar de uma presença extraterrestre na região, ele e Emerald passam a tentar capturar evidências disso em vídeo, tendo a ajuda de Angel Torres (Brandon Perea), o vendedor de uma loja de eletrônicos. Ao mesmo tempo vemos a relação dos irmãos com Jupe (Steven Yeun), um ex-ator mirim que comanda um parque de diversões nas redondezas e parece ter ele próprio certo interesse no que está acontecendo.

Assim como fez em Corra e em Nós, Jordan Peele desenvolve os temas de seu filme com sutileza, evitando martelar demais suas mensagens através de diálogos, permitindo que as imagens falem por si. Assim, o diretor procura deixar que as ações de seus personagens apontem como as pessoas podem subestimar a natureza das coisas e dar tão pouco valor a vida humana, não vendo problema em explorar eventos assustadores e capitalizar em cima disso, além de sempre haver uma garantia de que haverá público para tal sensacionalismo. Além disso, é bacana notar como o diretor faz isso ao mesmo tempo em que dá a família de OJ e Emerald o protagonismo que lhe foi negado no início. Afinal, apesar de ter aparecido em frente à câmera, pouco ou nada se sabe sobre o homem que montou o cavalo na obra de Eadweard Muybridge, tornando o protagonismo (mesmo que ficcional) de seus descendentes uma reparação interessante.


Mas Não! Não Olhe! também mostra riqueza como exercício de gênero, já que além de mesclar muito bem os elementos de terror com os de ficção científica, Jordan Peele novamente exibe uma habilidade admirável para manter o espectador na ponta da cadeira, concebendo sequências intrigantes que vão desde àquela envolvendo um jovem Jupe e que se passa num set de filmagem até a outra em que OJ investiga uma movimentação em seu celeiro. E se pontualmente o diretor insere um ou outro momento mais cômico, estes surgem naturalmente e sem tirar o peso da narrativa. Para completar, o roteiro é rico ao estabelecer sutilmente certas peças que ganharão sentido apenas mais tarde (como um poço no parque de Jupe ou um equívoco que Emerald comete em seu monólogo inicial), algo que Jordan Peele também já havia feito brilhantemente em Corra.

Instigante e tenso como as obras anteriores de seu diretor, Não! Não Olhe! é capaz de entreter sem deixar de colocar um dedo na ferida do público. E Jordan Peele mais uma vez mostra ser uma das vozes criativas mais interessantes no cinema atualmente.


Nota:


quinta-feira, 16 de junho de 2022

Lightyear

É difícil não ver Lightyear como uma produção caça-níquel feita pela Pixar. Com uma aparente falta de planos para Toy Story, franquia carro-chefe do estúdio, realizar um longa focado na figura que inspirou o brinquedo coprotagonista daqueles filmes parece ser só mais uma nova maneira encontrada de explorar aquela boa e velha propriedade. E nem podemos dizer que isso não foi feito de alguma forma antes, já que há 20 anos tivemos a série animada Buzz Lightyear do Comando Estelar. Mas motivações do projeto à parte, o diretor Angus MacLane aproveita bem o material que tem em mãos para realizar uma divertida aventura de ficção científica, ainda que longe do que o estúdio já fez de melhor.

Em Lightyear, encontramos o personagem-título (dublado na versão original por Chris Evans) em meio a uma missão com sua equipe em um planeta hostil, onde ele e toda sua tripulação acabam ficando presos após um acidente. Se sentindo culpado pela situação, Buzz não desiste por nada da ideia de levar todos de volta para a Terra, se juntando no processo a um grupo de recrutas iniciantes liderados por Izzy (Keke Palmer) e enfrentando ameaças robóticas inesperadas.

Além de contar com o perfeccionismo técnico comum dos filmes da Pixar (dessa vez fiquei particularmente surpreso com a verossimilhança dos rostos suados dos personagens), Lightyear claramente se inspira em grandes clássicos de ficção científica (como 2001: Uma Odisseia no Espaço e Star Wars) até clássicos mais recentes (como Gravidade) para montar uma narrativa que entretenha. E nisso o filme não desaponta, apresentando sequências de ação divertidas e chegando a exibir até certa ambição ao brincar com o espaço-tempo. É algo que inclusive serve para realçar o próprio arco dramático de Buzz, que aqui surge como uma figura determinada e leal (como já havíamos visto em Toy Story), e que por isso mesmo tem um foco tão grande em cumprir uma missão que acaba deixando de viver e notar o que ocorre ao seu redor. Mas por melhor que o roteiro se saia ao desenvolver os dramas de Buzz e outros personagens humanos, é preciso dizer que o gato robótico SOX (dublado por Peter Sonh) rouba o filme sempre que aparece, nos conquistando com seu carisma e suas tiradas.

Lightyear perde pontos mesmo é em seu terceiro ato, que frustra ao exibir certa pressa para finalizar a trama, resolvendo alguns pontos de maneira excessivamente simples. A sensação acaba sendo de que ganhamos uma recompensa que não chega à altura de todo o trabalho que foi feito. De qualquer forma, trata-se de uma aventura válida no universo de um personagem carismático, e não ficarei surpreso se isso futuramente nos levar a uma produção mostrando os casos de Woody e companhia no Velho Oeste.

Obs.: Há algumas cenas adicionais durante os créditos finais.

Nota:



quinta-feira, 26 de maio de 2022

Top Gun: Maverick

Talvez eu vá ser julgado por muitos ao dizer isso, mas não vejo Top Gun: Ases Indomáveis como um dos grandes filmes da década de 1980. É sem dúvidas um dos mais conhecidos, além de eficaz como filme de ação, mas tinha também alguns dos piores vícios de Hollywood naquela época (só de lembrar das montagens musicais do filme bate certo constrangimento). Vícios estes que até voltam a dar as caras 36 anos depois neste Top Gun: Maverick, uma continuação que sabe-se lá por que foi ser feita somente agora. Mas surpreendentemente, eis que Tom Cruise e companhia realizam aqui o tipo de continuação que supera o original.

Top Gun: Maverick reencontra o Pete “Maverick” Mitchell vivido por Tom Cruise já de cara concertando um avião, mostrando que ainda vive e respira o trabalho aéreo. Depois de confrontar as ordens de um superior, ele recebe como “castigo” ter que voltar ao seu velho conhecido programa de caças da marinha norte-americana, onde terá que treinar um grupo de jovens pilotos para uma missão de alto risco. Entre esses pilotos está Bradley Bradshaw (Miles Teller), também conhecido como “Rooster”, o filho de seu falecido melhor amigo Goose (vivido por Anthony Edwards no original) e com quem tem sérias desavenças para resolver.

Certamente querendo retomar o espírito do longa original, Top Gun: Maverick introduz cenas, personagens, relacionamentos e clichês que às vezes fazem a produção parecer uma refilmagem. Isso vai desde a rivalidade entre Rooster e o arrogante Hangman (Glen Powell), que lembra àquela entre Maverick e Iceman (Val Kilmer), até o romance entre Maverick e Penny (Jennifer Connelly), que chega a render o momento mais risível da projeção em uma sequência romântica extremamente cafona. E são elementos tratados de maneira tão óbvia pelo roteiro que até tiram muito do frescor que o longa poderia ter.

Mas mesmo assim o filme consegue envolver o espectador e fazer com que este se importe com os personagens, sendo que muito se deve ao elenco. Tom Cruise, por exemplo, volta ao papel de Maverick sem se acomodar, compondo o protagonista como alguém que, mais uma vez, parece fazer sempre questão de exibir o prazer que tem de voar e superar desafios. Mas ao mesmo tempo, o ator é hábil ao mostrar como a perda do melhor amigo no longa anterior impactou Maverick mais do que poderíamos imaginar há 36 anos, um peso que vemos na dinâmica dele com o ótimo Miles Teller. Teller, aliás, já entra em cena mostrando uma segurança invejável como Rooster, tendo muito do espírito e da presença que Anthony Edwards tinha como Goose. E se é um pouco decepcionante ver Jennifer Connelly ser relegada a interesse romântico e apoio emocional do protagonista, ao menos ela ainda faz de Penny uma figura carismática e que diverte em determinados momentos, enquanto Glen Powell se destaca com a arrogância de Hangman, não deixando de ter ele próprio um arco dramático que chama a atenção.


Mas é no ar que Top Gun: Maverick realmente impressiona, já que o diretor Joseph Kosinski (que, por sinal, já havia feito um retorno a uma obra da década de 1980 em Tron: O Legado) cria sequências de ação absolutamente fantásticas e de tirar o fôlego – me desculpem por usar essa expressão, mas não resisti ao contexto com a famosa canção do filme original. Sempre deixando clara a geografia espacial desses momentos, Kosinski conduz o espectador magistralmente por sequências aéreas bastante complexas, merecendo destacar também o ótimo trabalho do montador Eddie Hamilton, que evita o uso de cortes rápidos que poderiam deixar o público perdido em meio a ação. E apesar de seguir o que Tony Scott fez originalmente, exibindo certo maniqueísmo ao evitar dar rostos para os inimigos (afinal, é mais fácil torcer por Maverick e companhia quando não vemos humanidade do outro lado da trincheira), o terceiro ato com a missão dos personagens acaba sendo mesmo o auge da ação, fazendo eu lembrar também que “não importa sobre o que é um filme, e sim como ele é” (já diria o saudoso Roger Ebert). Assim, podemos até prever uma ou outra coisa que acontecerá, mas o filme ainda mantém o espectador curioso quanto a como ele irá se desenrolar.

Posso não ter sido alguém que esperou tantos anos para que Top Gun ganhasse uma continuação. Mas vendo Top Gun: Maverick, certamente posso dizer que sou alguém que ficou feliz por tal continuação ter sido feita.

Nota:



quinta-feira, 12 de maio de 2022

O Peso do Talento

Nicolas Cage é um ator que acho fascinante. Tendo vivido o auge de sua carreira entre o início dos anos 90 e meados dos anos 2000, quando conquistou um Oscar e enfileirou sucessos, Cage passou boa parte dos últimos anos realizando filmes que, à primeira vista, são indignos de seu talento e serviam basicamente para que ele pudesse pagar dívidas, com boa parte desses trabalhos mirando mais o mercado de home video do que propriamente um lançamento nos cinemas. Mas o que é curioso nisso é que a presença de Cage nessas obras tornava estas um pouco mais divertidas, muito por conta do estilo de atuação do ator, que sabe misturar overacting e canastrice de um jeito ímpar, e talvez por isso ele tenha se revelado uma espécie de guilty pleasure (quando gostamos de algo, ainda que não possamos dizer que se trata de uma coisa boa). E o próprio Nicolas Cage parece ter percebido o tipo de impressão que passou para o público, de forma que não é raro vê-lo fazer piada consigo mesmo. Isso chega ao ápice nesse seu mais novo filme, O Peso do Talento, onde ele interpreta uma versão fictícia de si próprio.

Escrito por Kevin Etten e pelo diretor Tom Gormican, O Peso do Talento traz Nick Cage tendo dificuldades para conseguir novos papeis no cinema, o que o faz aceitar uma proposta de 1 milhão de dólares para ir à festa de aniversário do bilionário Javi Gutierrez (Pedro Pascal), um de seus maiores fãs. Mas o que na teoria seria apenas um dinheiro fácil acaba se complicando quando a CIA, representada pela dupla de agentes Vivian e Martin (Tiffany Haddish e Ike Barinholtz, respectivamente), resolve aproveitar a proximidade entre Nick e Javi para fazer o ator espionar o ricaço, que supostamente concebeu seu império graças ao tráfico de armas.

É curioso ver que Nicolas Cage tem logo em sua versão ficcional um papel que lhe dá a oportunidade de explorar habilidades cômicas que ele há tempos não explorava. E o ator se sai muitíssimo bem, criando um personagem que diverte com seu jeito excêntrico e por vezes exagerado. Além disso, a natural metalinguagem da produção entretém não só pelas várias referências a carreira de Cage, mas também por colocar o ator tendo que encarnar o que viveu em seus filmes a fim de espionar Javi. Isso, aliás, rende uma sequência que já se coloca desde já entre as mais hilárias da carreira de Nicolas Cage (direi apenas que envolve LSD). Mas a graça do filme não impede o roteiro de mostrar vulnerabilidades do protagonista, principalmente no que diz respeito a suas inseguranças, sejam elas como ator ou como pai, algo que o faz constantemente sentir que precisa se provar de alguma forma, ganhando maiores contornos quando ele tem visões de sua versão mais jovem chamada de Nicky.

Mas o coração de O Peso do Talento certamente se encontra na dinâmica entre Cage e Pedro Pascal, que não demoram muito para fazer a relação de ídolo e fã entre seus personagens se tornar uma relação de amizade mesmo, com a admiração de um servindo como o apoio que o outro tanto precisa. E Pascal (um ator que gosto desde que o vi interpretando o fantástico Oberyn Martell de Game of Thrones) surge tão carismático no papel de Javi e tem uma química tão boa com Nicolas Cage que é difícil não simpatizar e torcer pelo personagem, mesmo com as suspeitas que a CIA joga em cima dele.

Sabendo equilibrar bem sua narrativa entre o lado cômico e o lado de ação, Tom Gormican concebe em O Peso Talento uma obra que diverte com seu grande astro ao mesmo tempo que o homenageia. E é um filme que certamente se soma a trabalhos como Mandy e Pig, contribuindo para que Nicolas Cage volte a ganhar o destaque que merece.

Nota: