sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Grande Farra dos Muppets

Com o enorme sucesso que faziam na TV, os Muppets ganharam uma oportunidade para divertir o público no cinema em Muppets: O Filme, longa que contém brilhantemente todo o humor e o carisma de Kermit, Miss Piggy e companhia. Mas as aventuras dos personagens em película não pararam por aí, afinal a primeira empreitada foi tão bem sucedida que produzir um novo filme foi inevitável. Seu criador, Jim Henson, os levou novamente às telonas neste A Grande Farra dos Muppets que, apesar de ser um pouco inferior ao antecessor, ainda se mostra um belo exemplar dentro da franquia.

Escrito por Tom Patchett e Jay Tarses, em parceria com Jerry Juhl e Jack Rose, A Grande Farra dos Muppets traz Kermit, o urso Fozzie e Gonzo como repórteres. No entanto, o trio não é muito bom no trabalho, considerando que enquanto a notícia do momento é o roubo das joias de Lady Holiday (Diana Rigg), a designer de moda mais famosa de Londres, eles preferem dar atenção aos gêmeos que integraram a redação de seu jornal, ou seja, os próprios Kermit e Fozzie. Mas, de qualquer maneira, eles decidem ir a Londres para entrevistar Lady Holiday e acabam confundindo-a com sua secretária, Miss Piggy, por quem Kermit obviamente se apaixona. É então que o ladrão, Nick Holiday (Charles Grodin), rouba a designer (sua irmã) novamente.
Desde o início, o roteiro utiliza várias marcas registradas do universo Muppets, sendo que as mais evidentes são a ingenuidade dos personagens e o uso da metalinguagem. É fácil, por exemplo, rir nos momentos em que todos demonstram a noção de participar de um filme (a cena em que Kermit aponta o exagero na atuação de Miss Piggy é uma sacada particularmente inspirada, assim como quando Kermit, Fozzie e Gonzo acham que terão comida no precário Hotel da Felicidade). Jim Henson - na única vez em que assumiu a cadeira de diretor num filme de suas criaturas - conduz a narrativa com um timing cômico perfeito, já que as piadas, principalmente as metalinguísticas, surgem de maneira orgânica. Contudo, às vezes o roteiro falha ao repetir em demasia algumas gags (mais especificamente aquela em que os personagens são prensados na parede por uma cama), mas nem isso se revela suficiente para atrapalhar a diversão.
Diversão esta que é alimentada, ainda, por números musicais típicos dos Muppets, com canções que colocam um sorriso no rosto do público facilmente, como “Hey A Movie!”, que abre o filme, e“Happiness Hotel”. Méritos de Joe Raposo, que escreveu as letras de todas elas. Isso torna quase perdoável que alguns dos números em si não sejam tão interessantes, como aquele em que Kermit deixa claro estar apaixonado por Miss Piggy. Enquanto isso, em termos de história, A Grande Farra dos Muppets é um pouco previsível, algo que acaba em segundo plano, por conta do entretenimento que o filme proporciona.
Com ótimas participações especiais de atores famosos (John Cleese, por exemplo, aparece em uma das sequências mais engraçadas do filme), A Grande Farra dos Muppets faz jus aos seus adoráveis personagens e a todo o universo do qual eles fazem parte. É uma produção carregada por uma doce sensação de nostalgia que apenas figuras como os Muppets poderiam nos dar.
Nota:

domingo, 22 de junho de 2014

Se Meu Apartamento Falasse

Ao longo da carreira, Billy Wilder trabalhou com gêneros bem diferentes, passando por drama, thriller e comédia, este, aliás, ao qual ele dedicou boa parte de sua filmografia, com uma série de obras memoráveis. Após ter realizado o brilhante Quanto Mais Quente Melhor, que trouxe Jack Lemmon em um dos papeis principais, Wilder decidiu continuar na comédia e colocar o ator outra vez como protagonista. A nova parceria resultou neste maravilhoso Se Meu Apartamento Falasse, que também contou com a presença de Shirley MacLaine, na época uma atriz já merecedora de muita atenção.

Escrito por Wilder em parceria com I.A.L. Diamond (um de seus colaboradores mais assíduos), Se Meu Apartamento Falasse traz Lemmon interpretando C.C. Baxter, homem solitário que trabalha em uma empresa de seguros e é cheio de sorrisos para Fran Kubelik (Shirley MacLaine), uma operadora de elevadores no local. Ele tem um esquema visando rápida promoção: seus superiores pegam a chave de seu apartamento para “pular a cerca”, algo que em várias ocasiões o obriga a ficar trabalhando até tarde. Tal situação faz com que seu vizinho, o Dr. Dreyfuss (o divertido Jack Kruschen), passe a ter uma impressão errada sobre ele. É então que o diretor da empresa, Jeff Sheldrake (Fred MacMurray), descobre o que está acontecendo e resolve aproveitar. A mulher com quem Sheldrake está envolvido é exatamente Fran, e o apaixonado Baxter acaba cuidando da garota depois das decepções com o chefe mau-caráter.
Baxter e Fran são personagens com as quais o público se identifica rapidamente, pois figuras em busca de coisas que completem suas vidas, como qualquer outra pessoa. Curiosamente, Sheldrake está diretamente relacionado com os sonhos de ambos, já que enquanto Baxter tenta ser promovido, Fran gostaria de ficar com o homem que ama, mesmo ele sendo casado. Não à toa o roteiro de Wilder e Diamond coloca o nome de “Consolidated Life” (“Vida Consolidada”) na empresa de seguros comandada por Sheldrake, em uma das ótimas sacadas do filme. Quanto mais a dupla principal vai desenvolvendo sua relação e descobrindo que seus sonhos talvez não sejam tão interessantes quanto pensavam, mais confortáveis eles ficam na presença um do outro.
Vividos com carisma arrebatador por Lemmon e MacLaine (ambos indicados ao Oscar), C.C. Baxter e Fran Kubelik formam um daqueles casais pelos quais é difícil não torcer. Ele mostra ser um homem tímido e cortês, totalmente diferente da canalhice do Jeff Sheldrake de Fred MacMurray, o que consequentemente nos faz indignados quando alguns o confundem com alguém que brinca com as mulheres e festeja todas as noites. Já ela se revela uma mulher sensível e absolutamente adorável, ainda que corra atrás do homem errado e tome medidas extremas com relação às suas decepções. Assim, não surpreende constatar que é exatamente a dinâmica de Lemmon com MacLaine a responsável por boa parte da eficiência do filme.
Apesar de ser uma comédia, Se Meu Apartamento Falasse tem alguns toques sérios. No entanto, isso não faz sê-lo menos cativante, considerando que Billy Wilder é hábil ao dosar momentos divertidos e dramáticos. O cineasta insere sequências como aquela em que Baxter remarca os dias disponíveis para seus chefes no apartamento (que causa bons risos, por aproveitar muito bem o talento cômico de Jack Lemmon), mas de forma que elas não tirem o peso de cenas como aquela na qual Fran aparece desacordada. 
Se Meu Apartamento Falasse confirmou ainda mais Billy Wilder como um grande nome. Tal sucesso acabou refletindo no Oscar de 1961, premiação da qual ele saiu como grande vencedor. Foi o segundo filme de Wilder a conquistar as estatuetas de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro, sendo Farrapo Humano o primeiro. É um trabalho memorável, até hoje reconhecido como uma das melhores comédias já feitas. Posição merecida, sem dúvida.
Nota:

sábado, 21 de junho de 2014

Como Treinar o Seu Dragão 2

Apresentando personagens absolutamente adoráveis em uma história que divertia, emocionava e empolgava em medidas iguais, Como Treinar o Seu Dragão é uma das melhores animações realizadas pela Dreamworks. É então que o estúdio faz aquilo que sempre acontece com filmes bem sucedidos: produz uma continuação para firmar uma franquia. Mas diferente de sequências que parecem não se preocupar muito em desenvolver algo interessante, achando que nosso apego pelos personagens será o suficiente para entreter (alô, Rio 2!), Como Treinar o Seu Dragão 2 mostra realmente ter outra boa história para contar envolvendo Soluço e Banguela, conseguindo ser uma agradável surpresa.

Escrito e dirigido por Dean DeBlois (que dessa vez assume sozinho as rédeas da trama, já que seu parceiro Chris Sanders preferiu se dedicar ao ótimo Os Croods), Como Treinar o Seu Dragão 2 se passa cinco anos após os eventos no filme anterior, com a harmonia entre humanos e dragões crescendo a cada dia. Nesse contexto, Soluço explora novos territórios ao lado de Banguela enquanto precisa lidar com a vontade de seu pai, Stoico, de vê-lo tomar seu lugar como chefe na ilha de Berk. No entanto, o rapaz descobre que nem todos os humanos veem os dragões como seres dóceis, encontrando um grupo de caçadores que tenta capturar os bichos a mando de Drago, um velho conhecido de Stoico que quer domar todos eles. Enquanto tenta descobrir uma forma de manter a paz, Soluço encontra ajuda em uma misteriosa domadora, que revela ser Valka, a mãe que ele achava ter perdido ainda bebê e que passou todos os anos longe da família salvando os dragões das mãos de Drago.

Ao longo da história, Como Treinar o seu Dragão 2 busca expandir o que havíamos conhecido no filme anterior, o que é comum em boa parte das continuações. Nisso, o design de produção volta a fazer um trabalho impecável na concepção dos vários tipos de dragões, além de mostrar a grandiosidade daquele universo com novos e belos cenários, cujo visual ora tende para tons mais escuros, como o céu nublado por onde Soluço e Banguela passam, ora para algo colorido e cheio de vida, como o ninho onde Valka reside com seus dragões e que conta com detalhes em gelo que remetem a criatura que domina o local. Aliás, o fato de os créditos finais trazerem o nome do excepcional diretor de fotografia Roger Deakins como consultor visual mostra o quanto os envolvidos no filme se preocuparam com esse aspecto.

Já que mencionei Valka, vale ressaltar que o retorno dela a sua antiga realidade, que se inicia quando ela reencontra Soluço, é tratado com uma sensibilidade admirável por Dean DeBlois, que acerta ao desenvolver o relacionamento entre ela e o filho com calma ao invés de inserir um conflito bobo (e é bom ver que ela é uma mulher forte, não temendo os obstáculos que precisa enfrentar para salvar os animais que tanto aprendeu a amar). Na verdade, a relação familiar entre os personagens é um dos pontos altos da produção, sendo curioso notar que por mais que Soluço não queira ser o novo chefe de seu povo, ele discute com seu pai com o espírito de um líder, demonstrando uma segurança que aponta o quanto ele amadureceu desde o filme anterior.

Tal amadurecimento também pode ser visto na própria trama, que em determinados pontos é mais sombria do aquela vista no primeiro filme, que já tinha alguns pontos corajosos para uma animação voltada para o público infantil. Porém, se antes havíamos ficado surpresos em ver Soluço perdendo um pé, dessa vez Dean DeBlois se arrisca um pouco mais e traz momentos particularmente impactantes, que resultam a partir dos atos do vilão, cujos motivos são muito bem estabelecidos. Por sinal, Drago se revela um belo contraponto a Soluço, considerando que enquanto ele doma as criaturas através do medo, o protagonista o faz através do carinho que eles merecem.

Não que o filme tenha esses tons sombrios o tempo todo. Muito pelo contrário. Como Treinar o Seu Dragão 2 consegue entreter com seus ótimos personagens, ainda que às vezes invista em coisas pouco interessantes, como a subtrama romântica envolvendo Cabeçaquente, amiga de Soluço, e Eret, capanga de Drago. Mesmo assim, se em um momento o filme diverte, por exemplo, com a corrida de dragões (uma espécie de quadribol viking), em outro fascina com as cenas em que Soluço voa ao lado de Banguela. Para completar, Dean DeBlois conduz eficientemente as sequências de batalha que aparecem ocasionalmente, sendo que a excelente trilha de John Powell dá toques épicos bastante apropriados.

Contando com alguns elementos um tanto previsíveis nos arcos dramáticos de determinados personagens, mas que apesar disso são capazes de encantar e emocionar pela forma como o roteiro chega até eles, Como Treinar o Seu Dragão 2 consegue ser tão bom quanto seu antecessor. Dessa forma, o filme acaba entrando fácil na lista de animações de destaque do ano.

domingo, 15 de junho de 2014

A Montanha dos Sete Abutres

“Diga a verdade”. Estas três simples palavras aparecem emolduradas na parede da redação de um jornal, no início de A Montanha dos Sete Abutres, décimo filme dirigido por Billy Wilder. Considerando que a obra traz no centro da narrativa um repórter capaz até de mentir para emplacar grandes histórias nos jornais, tais palavras representam praticamente um aviso com relação ao que veremos. Afinal, é isto que esperamos que jornalistas façam: mantenham as pessoas informadas sem apelar para manipulações que encubram a verdade, não prejudicando ou beneficiando alguém injustamente. À medida que a história se desenrola, Billy Wilder mostra como envolver o público, pela maneira como aborda tais questões.

Escrito pelo próprio diretor em parceria com Lesser Samuels e Walter Newman, A Montanha dos Sete Abutres acompanha Chuck Tatum (Kirk Douglas), repórter que está apenas em busca do próprio sucesso, principalmente depois de ser demitido de um jornal de prestígio em Nova York. Aceitando trabalhar quase de graça em uma publicação pequena de Albuquerque, Tatum logo fica impaciente com a falta de grandes eventos para cobrir. Isso até o dia em que encontra Leo Minosa (Richard Benedict), homem preso embaixo dos escombros de uma velha montanha, local cuja história envolve uma espécie de maldição. Tatum então vê a oportunidade que tanto esperava, tornando o ocorrido o centro das atenções da mídia e fazendo com que o resgate a Leo demore mais que o planejado, já que assim poderá explorar ao máximo a notícia do momento.
Billy Wilder faz de A Montanha dos Sete Abutres um conto sobre ética jornalística e sensacionalismo midiático, explorando o lado ruim de tudo isso, algo que diferencia a produção de outras similares, como a também obra-prima Todos os Homens do Presidente. À primeira vista poderíamos admirar o fato de Chuck Tatum trazer repercussão gigantesca para um acontecimento que poderia ser ignorado. Mas por isso ser feito puramente em benefício próprio, com ele manipulando a informação que tem em mãos, bem como as pessoas ao seu redor, para aproveitar cada vez mais o que ocorre com Leo, o filme acaba sendo interessante na dimensão das consequências. Além disso, o roteiro faz um belo retrato das pessoas que gostam de servir-se desse jornalismo corrupto, e não deixa de ser ideal que elas também apareçam tirando vantagem da situação.
Mas A Montanha dos Sete Abutres também é um ótimo estudo de personagem. Vivido com segurança absoluta pelo magnífico Kirk Douglas, Chuck Tatum é uma figura cuja ambição é ofuscada pelos próprios egoísmo e arrogância. Ele não mede esforços para que a notícia funcione perfeitamente conforme seus interesses, como bem podemos ver na cena em que a esposa de Leo, Lorraine (Jan Sterling), interessada sexualmente por ele, apanha para aparentar tristeza. E mesmo quando o personagem mostra um pouco de sensibilidade por Leo, é fruto de uma preocupação primeira consigo. Para completar, é bacana ver como Billy Wilder estabelece a personalidade do protagonista através da roupa. Em boa parte do filme, Tatum aparece com uma camisa preta, o que cria um contraste com o figurino mais claro dos repórteres de pouco sucesso do jornal em Albuquerque, além de estabelecer a influência que o protagonista tem no novato Herbie Cook (Robert Arthur), que o segue ao longo de toda a história e passa a usar a mesma roupa mais tarde.
Apesar de ter recebido uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro, A Montanha dos Sete Abutres não foi muito bem recebido na época de seu lançamento, tendo ainda fracassado nas bilheterias. Mas o cinema constantemente concede novas chances para determinados filmes, e com o passar do tempo a obra de Wilder teve suas qualidades reconhecidas, tornando-se outro clássico na carreira do cineasta. O que é um alívio, já que este trabalho certamente não merece ser esquecido.
Nota:

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Culpa é das Estrelas

John Green vem se destacando nos últimos anos graças a sua carreira literária e ao seu canal de vídeos no YouTube (no qual discute assuntos interessantes de um jeito rápido e divertido). Mas mesmo sendo talentoso como escritor, A Culpa é das Estrelas talvez seja sua obra mais irregular, simpática em algumas partes e boba em outras. Mas é o livro responsável por seu sucesso absoluto. Não à toa, é o primeiro a ganhar as telas de cinema. Afinal, quando um romance se torna tão popular, a ideia de uma adaptação cinematográfica entra em desenvolvimento quase que naturalmente.

Escrito por Scott Neustadter e Michael H. Weber (que recentemente escreveram o ótimo The Spectacular Now), A Culpa é das Estrelas nos apresenta a Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley), jovem que está numa batalha contra um câncer há alguns anos, sentindo que a qualquer momento ele irá tomar a sua vida. É então que em uma das reuniões de seu grupo de apoio ela conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), que perdeu a perna por causa da doença, mas conseguiu sobreviver a ela. Juntos, Hanzel e Gus iniciam um relacionamento no qual se completam e que os faz aproveitar o tempo que lhes resta juntos, incluindo aí uma viagem para conhecer Peter Van Houten (Willem Dafoe), o escritor favorito da garota.
O diretor Josh Boone (responsável pelo bom Ligados Pelo Amor), conduz o filme com sensibilidade, trazendo uma fluidez admirável para o desenrolar da história. É um detalhe que também se deve ao roteiro, construído com calma e naturalidade. E pelo fato da protagonista ter uma doença que é quase uma bomba, podendo explodir a qualquer momento, o realizador merece créditos por sempre dar atenção à condição da garota (como o desgaste físico que sente em vários momentos), criando tensão quando isso se mostra necessário. Mas ainda que isso ocupe uma parte respeitável da narrativa, A Culpa é das Estrelas é pontuado com curiosos momentos de humor – mesmo que alguns sejam mais bobos – possibilitando uma bem-vinda descontração.
Se Hazel e Gus fossem desinteressantes, A Culpa é das Estrelas certamente seria um fracasso. Por sorte, o relacionamento deles se segura principalmente por causa de seus intérpretes, que têm belas atuações e mostram uma química invejável em cena. Shailene Woodley (que ao lado de Jennifer Lawrence é uma das jovens atrizes que mais vem merecendo atenção nos últimos anos) surge absolutamente adorável como a protagonista, ao mesmo tempo em que faz dela uma garota forte e realista com relação à própria condição. Já Ansel Elgort (que interpretou o irmão de Woodley no recente Divergente) encarna a contraparte masculina com carisma, oferecendo senso de humor e charme para o personagem. Assim, é fácil para o espectador se importar com aquelas figuras e com o que elas estão vivendo. No elenco, também vale destacar Laura Dern e Sam Trammel, como os afetuosos pais de Hazel, além de um excêntrico Willem Dafoe no papel de Peter Van Houten
.Porém, nem tudo é as mil maravilhas em A Culpa é das Estrelas. Um dos problemas é a construção do enredo, que ao buscar uma maior fidelidade ao livro, termina por inserir cenas que até funcionam isoladamente, mas que quando vistas no contexto cinematográfico praticamente param o desenrolar da trama, não a levando para frente e alongando-a desnecessariamente. Exemplo disso é a sequência em que Isaac (Nat Wolff), amigo do casal, joga ovos em um carro. No entanto, o principal problema vem no terço final, quando o filme infelizmente se entrega a certos clichês. É então que a produção passa a apelar para o choro do espectador de maneira artificial, enfraquecendo a narrativa. Mesmo assim, assistir a A Culpa é das Estrelas se revela uma experiência agradável durante a maior parte do tempo, o que não deixa de ser uma boa surpresa.
Nota:


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Raze


Zoë Bell é mais conhecida por seu trabalho como dublê em vários filmes, entre eles  produções comandadas por Quentin Tarantino (foi ela quem ajudou Uma Thurman nas cenas de ação de Kill Bill: Vol. 1). Mas ela vem se destacando nos últimos tempos também como intérprete, como quando foi uma das ótimas surpresas de À Prova de Morte, outro projeto de Tarantino, em que apareceu como uma das protagonistas. E agora, encabeça o elenco deste Raze, filme de ação de baixo orçamento que não só revela ser uma produção eficiente como também prova que Bell merece ganhar outras oportunidades como protagonista.

Escrito por Robert Beaucage a partir de um argumento feito por ele em parceria com Kenny Gage e o diretor Josh Waller, Raze acompanha Sabrina (Bell), que foi sequestrada por uma organização e colocada ao lado de outras 49 mulheres em um cativeiro. Ela se vê obrigada a lutar até a morte com suas “companheiras”, em uma espécie de torneio transmitido para figuras poderosas e organizado pelo casal Joseph (Doug Jones) e Elizabeth (Sherilyn Fenn). Caso as participantes se recusem a lutar ou saiam da arena derrotadas, os responsáveis pelo evento mandam eliminar seus entes queridos. No caso de Sabrina, a filha dela é quem vira um alvo.
Levando em conta sua trama, Raze poderia facilmente resultar em uma obra misógina. No entanto, o roteiro surpreende ao construir personagens femininas que ganham maior aprofundamento, oferecendo peso dramático à história. Assim, quando Sabrina ou suas amigas Cody (Bailey Anne Borders) e Teresa (Tracie Thoms, também presente em À Prova de Morte) saem para lutar, nos importamos com elas e nos identificamos com sua situação (afinal, é mais fácil criar um elo emocional com alguém que está vulnerável).
Enquanto isso, as cenas de luta são bem conduzidas por Josh Waller, que deixa sempre claro para o espectador o que está acontecendo na tela, inevitavelmente representando a parte brutal do longa. O diretor investe em um gore impactante por mostrar o que as lutadoras são capazes de fazer com as próprias mãos, trazendo um grande peso para seus atos. Logo na primeira luta, por exemplo, o rosto de uma delas é totalmente dilacerado. E é exatamente por isso ser um elemento forte que Waller toma a decisão de manter a câmera focada apenas no rosto de quem está finalizando a luta, usando flashes do rosto da perdedora e efeitos sonoros para dar uma ideia do resultado dos golpes desferidos.
Mas é mesmo Zoë Bell o grande destaque. Ela faz de Sabrina uma personagem forte e demonstra ter um alcance dramático admirável. Isso, somado à ótima dinâmica com Bailey Anne Borders e Tracie Thoms, resulta nos momentos mais tristes do filme. Bell ainda encara a parte física das cenas de ação tranquilamente, detalhe que também não é nenhuma surpresa. Já Doug Jones e Sherilyn Fenn criam vilões apropriadamente insanos em sua misoginia. Esta última, por sinal, é até mais cruel e não deixa de ser tratada pelo roteiro como uma traidora do próprio gênero.
Trazendo um comentário social interessante de como as mulheres se encontram constantemente em posições de subserviência, Raze até pode ser um pouco esquemático e contar com alguns clichês, como a velha figura da lutadora vilã que quer matar a protagonista (com ambas eventualmente se enfrentando). Mas é um filme que no geral funciona muito bem, tornando-o uma das boas surpresas do Fantaspoa 2014.
Nota:


180 Segundos


Produção colombiana de assalto a banco escrita e dirigida pelo estreante Alexander Giraldo, 180 Segundos nos apresenta a Zico (Manuel Sarmiento), que lidera um grupo especializado em roubos e que está sendo procurado pela polícia. Ao lado de sua irmã, Angie (Angelica Blandon), ele planeja um último golpe para que então possam aproveitar a vida da maneira que tanto sonharam. O plano consiste em saírem com o dinheiro do local em apenas três minutos, tempo que o alarme leva para ser acionado. Para tanto, precisam de mais um membro em sua equipe, encontrando-o em Rincón (Alejandro Aguilar), indicado por um velho parceiro de crime. Mas o decorrer da operação não sai como o planejado e tragédias acontecem.

À medida que a história de 180 Segundos se desenrola é triste constatar o quão formulaica ela se revela, trazendo um amontoado de clichês que chegam a fazer com que uma reviravolta que ocorre no terceiro ato se torne previsível (aqui lembramos, por exemplo, do primeiro capítulo da franquia Velozes e Furiosos). O curioso sobre isso é que Alexander Giraldo parece ter noção de todos esses problemas envolvendo a trama de seu filme, e na tentativa de tornar as coisas interessantes ele resolve investir em uma estrutura não-linear, fragmentando a edição e embaralhando as cenas para fazer uma espécie de quebra-cabeça que o público deve montar para entender o que está acontecendo. Mas o tiro saiu pela culatra, já que o modo como utiliza esse recurso não tem uma lógica interna e gera um grave problema de ritmo para a narrativa. Dessa forma, quando 180 Segundos parece estar finalmente engrenando, Giraldo corta para um momento sem maiores interesses e frustra as expectativas do espectador. Para completar, os cortes entre cada parte da ação são realizados de maneira muito brusca, atrapalhando ainda mais nosso envolvimento com o filme.
Não que 180 Segundos se resuma a apenas estes pontos negativos. Zico e Angie mostram ser figuras carismáticas, o que se deve principalmente ao trabalho de seus intérpretes (Angelica Blandon, em especial, traz uma bem-vinda doçura a sua personagem), enquanto que os tons pastel da fotografia de Eduardo Ramirez Gonzalez chamam a atenção por darem um ar mais sombrio ao enredo. Já a cena em que acompanhamos a explicação de Zico sobre como acontecerá o assalto é o momento mais inspirado, com uma bela montagem que insere com eficiência alguns gráficos na tela. Este é um recurso que, ainda que não seja totalmente original, expõe muito bem o raciocínio do personagem com relação ao plano que desenvolveu. No entanto, tais qualidades, infelizmente, acabam sendo muito pouco para salvar o longa de todos seus problemas de narrativa.
Assim, 180 Segundos se estabelece como uma obra que decepciona muito mais do que empolga. Mas parece que elenco e diretor gostaram da experiência de trabalhar na produção, considerando que se reuniram para o filme seguinte de Giraldo. Tomara que essa nova empreitada resulte em uma colaboração um pouco melhor do que esta vista por aqui.
Nota: