domingo, 30 de março de 2014

Veronica Mars: O Filme

Veronica Mars é considerada por muitos fãs como uma daquelas séries de TV injustiçadas por terem sido canceladas prematuramente. No caso dela, teve apenas três temporadas, entre 2003 e 2007. Mas, no ano passado, através do site de crowdfunding Kickstarter, o público teve a chance única de ajudar a financiar o projeto de um filme que daria continuidade a história vista na televisão. E o resultado pode não ser excelente, mas ao menos mostra ser uma produção satisfatória.

Escrito pelo criador da série, Rob Thomas (que também assina a direção), em parceria com Diane Ruggiero, Veronica Mars traz a personagem-título (Kristen Bell) morando em Nova York com o namorado Piz (Chris Lowell) e tentando um emprego de advogada em uma grande firma, algo diferente de seu passado como detetive particular. Mas seu ex-namorado, Logan Echolls (Jason Dohring), se torna o principal suspeito de ter assassinado a estrela Bonnie DeVille (Andrea Estella), antes conhecida como a colega deles Carrie Bishop. Isso motiva Veronica a voltar à cidade de Neptune nove anos após sua partida para ajudar a descobrir quem está por trás do crime.
É difícil um filme que busca continuar a história de uma série de TV conseguir funcionar totalmente independente de seu material original. Não é à toa que Rob Thomas inclui logo de cara uma pequena sequência introdutória que tenta explicar (ainda que superficialmente) quem é a protagonista, o quê a levou a ser uma investigadora e qual sua relação com outros personagens. E mesmo que isso eventualmente ajude ao longo do filme, é difícil não se sentir um pouco perdido em determinados momentos, principalmente nos minutos iniciais.
Mas, depois que os principais elementos da história são apresentados e Veronica inicia suas investigações, a ação engrena e fica interessante, mesmo com o fato da protagonista ser obrigada a retomar suas atividades do passado e reencontrar velhos conhecidos não seja algo muito original. O roteiro faz a trama desenrolar com naturalidade, e como ocorre em boa parte das produções de thrillers policiais, qualquer pista pode ajudar na resolução do caso, por mais boba que seja (aqui até um vídeo cômico de um ator famoso acaba sendo útil). Além disso, Rob Thomas é hábil ao trazer um ritmo envolvente ao filme, sendo ajudado nesse quesito pela montagem de Daniel Gabbe, enquanto o tom de mistério é bem ressaltado pela bela fotografia de Ben Kutchins.
De qualquer forma, é mesmo com a ótima personagem-título que o filme chama a atenção. Nas mãos da bela e carismática Kristen Bell, Veronica Mars demonstra ser uma garota inteligente, de grande determinação e personalidade forte, sendo uma protagonista perfeita para esse tipo de história. Já o resto do elenco se revela eficiente em seus respectivos papeis, tendo personagens com os quais conseguimos simpatizar, se destacando Jason Dohring e Enrico Colantoni, este como o pai da protagonista. Para completar, algumas participações especiais que surgem ao longo da trama ajudam a torna-la um pouco mais interessante.
No entanto, vale dizer que o filme tem problemas com as subtramas envolvendo Veronica, como a de seu emprego em Nova York e o relacionamento com Piz, que são desenvolvidas de um jeito previsível. O roteiro também falha ao incluir, a partir de determinado momento, outro caso envolvendo um amigo da protagonista, o que em nada contribui com o enredo principal e fica mal resolvido no final. Como se não bastasse, vemos a investigação de Veronica culminar em um momento no qual o culpado conta tudo o que fez, algo que ocorre de maneira muito expositiva e clichê.
Apesar de certamente funcionar melhor com quem viu a série original, Veronica Mars é um filme bom o bastante para que iniciantes nesse universo queiram conferir outras aventuras de sua ótima protagonista. E nesse caso, as três temporadas da série não poderiam ser mais apropriadas.
Nota:

sábado, 29 de março de 2014

O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias

Em 2006, o talentoso diretor Cao Hamburger partiu de um ponto de vista curioso para mostrar a época da Ditadura Militar no Brasil em O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, seu primeiro filme desde o sucesso infantil Castelo Rá-Tim-Bum. Tendo uma criança como protagonista, o longa retratava aqueles anos através de uma visão mais ingênua, e que por isso mesmo se revelava tão interessante. O resultado é um belo filme, e não é difícil entender o porquê dele ter sido selecionado para tentar uma vaga para o Brasil na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2008.

Com roteiro escrito por Hamburger, Claudio Galperin, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert, a partir de um argumento concebido pelo diretor em parceria com Galperin, O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias se passa em 1970 e nos apresenta a Mauro (Michel Joelsas), menino de 12 anos que é levado de Belo Horizonte por seus pais, Bia e Daniel (Simone Spoladore e Eduardo Moreira, respectivamente), até a casa de seu avô, Mótel (Paulo Autran), em São Paulo. O motivo da mudança é que os dois são ativistas políticos e precisam “tirar umas férias” (leia-se: tentar fugir da repressão da ditadura). No entanto, Mótel morre no mesmo dia da chegada de Mauro, deixando o garoto desamparado, além de totalmente alheio à fase que o Brasil está passando. Ele acaba sob os cuidados de Shlomo (Germano Haiut), um velho judeu solitário e rabugento que não sabe bem o que fazer com o garoto, que espera ansiosamente pela Copa do Mundo, não só por adorar futebol, mas também por esta ser a época na qual seus pais lhe prometeram que voltariam.
A inocência de Mauro diante de tudo o que acontece ao seu redor é tocante de se ver ao longo do filme, tratada sempre com sensibilidade pelo diretor. Afinal, enquanto várias pessoas “tiram férias” diante da atual situação do país, ele está preocupado com coisas típicas de qualquer criança, como fazer um gol no jogo de botão, ver o jogo da seleção na Copa ou não ser reprovado na escola, sem ideia de que eventos muito maiores estão acontecendo. Em determinados momentos o roteiro traz toques de humor que são inseridos organicamente na narrativa e ajudam até a descontrair um pouco, como quando o protagonista e seus amigos tentam ver mulheres trocando de roupa na loja da mãe de Hanna (a adorável Daniela Piepszyk).
Mas por mais infantil que seja a visão do garoto (e não poderia ser diferente, é claro), Cao Hamburger não tenta amenizar de alguma forma o peso daquela época, trazendo um ar melancólico apropriado à história que está contando. Para isso, o diretor conta com a ajuda da excepcional fotografia de Adriano Goldman e do design de produção de Cassio Amarante, que investem em uma paleta dominada por cores de tom pastel, tirando muito da vida existente naquele cenário.
Enquanto isso, o jovem Michel Joelsas interpreta Mauro com uma delicadeza surpreendente, encarnando eficientemente a ingenuidade do personagem e sua tristeza por não ter os pais por perto. E se Germano Haiut brilha como Shlomo, que apesar de rabugento mostra uma bela determinação em ajudar o protagonista, Paulo Altran tem praticamente uma ponta no papel de Mótel, mas ainda assim marcante, ao passo que Simone Spoladore e Eduardo Moreira têm atuações tocantes como os pais de Mauro (a cena logo no início, na qual se despedem do filho, é uma das mais tristes do enredo). Já atores como Caio Blat e Liliana Castro surgem carismáticos, sendo presenças sempre bem-vindas.
Isso tudo não quer dizer que o filme não tenha problemas em alguns aspectos. Por exemplo, a relação de Mauro com Shlomo é desenvolvida de maneira previsível, e a narrativa, em alguns momentos, não deixa de ser um pouco episódica. Ainda assim, O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias compensa todos esses delizes com um retrato triste e relevante de um período que marcou a história do país.
Nota:

sexta-feira, 28 de março de 2014

Rio 2

Depois do sucesso que Rio alcançou em 2011, era apenas uma questão de tempo até termos uma continuação. E ela chega agora, trazendo seus personagens em uma nova aventura. Mas dessa vez o Rio de Janeiro dá espaço para a Amazônia, que serve como palco principal para a animação. No entanto, enquanto o primeiro conseguia divertir com as figuras que desfilavam pela tela mesmo não tendo muita originalidade, esta sequência conta com alguns dos mesmos problemas vistos lá e ainda se revela pouco inspirada.

Escrito pelo diretor Carlos Saldanha em parceria com Don Rhymer, Rio 2 mostra que Blu (Jesse Eisenberg) e Jade (Anne Hathaway) continuam felizes no Rio de Janeiro, agora com seus três filhotes, Carla (Rachel Crow), Bia (Amandla Stenberg) e Tiago (Pierce Gagnon). É quando a Linda (Leslie Mann) e seu agora marido Tulio (Rodrigo Santoro) descobrem que existe a possibilidade de haver outras araras azuis na Amazônia, fazendo todos saírem numa viagem até lá. Eles acabam encontrando a família de Jade, inclusive o pai dela, Eduardo (Andy Garcia), que não vê Blu com bons olhos. Mas o local está ameaçado, já que o dono de uma madeireira está desmatando as florestas. Ao mesmo tempo, o antigo vilão Nigel (Jemaine Clement) planeja uma vingança contra Blu com a ajuda da rã Gabi (Kristin Chenoweth) e do tamanduá Carlitos.

Ao longo do filme, Carlos Saldanha aposta bastante em planos gerais que contemplam os belos lugares por onde os personagens passam. Nesse quesito, aliás, a sequência em que Blu e os outros estão indo para a Amazônia chama a atenção, já que no caminho eles passam por cidades como Brasília e Salvador. E a mensagem ambiental do filme, que chama atenção para os desmatamentos na floresta amazônica, não deixa de ser relevante mesmo sendo passada de maneira muito superficial pelo roteiro.

Mas essas virtudes, somada ao carisma dos personagens principais, não são o bastante para compensar uma série de problemas graves que impedem o filme de ser uma animação interessante. A relação entre Blu, Jade e Eduardo tem um desenrolar formuláico, clichê e, consequentemente, previsível, lembrando muito filmes como Entrando Numa Fria. Já os números musicais não empolgam tanto quanto poderiam, além de não terem canções das mais cativantes e na maioria das vezes interromperem o desenvolvimento da história, ao contrário do que ocorre, por exemplo, em Frozen, onde tudo é aproveitado a favor da narrativa. 

Enquanto isso, a subtrama da vingança de Nigel fica bastante perdida em meio aos vilões responsáveis pelos desmatamentos, o que até faz o personagem ser um tanto descartável. E se os novos personagens aos quais somos apresentados são bem estereotipados, desde os filhotes do casal principal até os capangas de Nigel, as gags incluídas pelo roteiro se revelam muito bobas na maioria das vezes. A exceção nesse caso fica por conta da sequência onde os pássaros sambistas Pedro (Will i Am) e Nico (Jamie Foxx) promovem testes para sua escola de samba, que rende ótimos momentos de humor negro, nos fazendo relevar um pouco o fato de não acrescentar absolutamente nada a história, servindo mais para que os dois alívios cômicos da produção tenham algo para fazer.

Assim, Rio 2 acaba sendo uma animação nada memorável e que, infelizmente, desperdiça seus adoráveis personagens.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O Gângster


Ridley Scott é um diretor cuja carreira é cheia de altos e baixos. Aliás, olhando sua filmografia, é triste constatar que ele vem mais decepcionando do que criando obras realmente interessantes, e filmes como os recentes Prometheus e O Conselheiro do Crime comprovam isso, sendo produções que vão de razoável para menos. No entanto, Scott ainda é capaz de realizar trabalhos que façam jus ao início de sua carreira, quando dirigiu títulos como Alien: O Oitavo Passageiro e Blade Runner: O Caçador de Andróides. O Gângster é uma prova disso, sendo indubitavelmente o melhor filme que o cineasta fez nos últimos anos.

Com roteiro escrito por Steven Zaillian, baseado em um artigo de Mark Jacobson, O Gângster traz um arco dramático clássico de ascensão, apogeu e queda, contando a história real de Frank Lucas (Denzel Washington), que após a morte de seu chefe e mentor Bumpy Johnson (Clarence Williams III) se tornou um nome forte do crime na Nova York dos anos 1970. Lucas montou um império trazendo a “Magia Azul”, uma nova e poderosa heroína, para os Estados Unidos, usando aviões que vinham do Vietnã. Ao mesmo tempo, acompanhamos o policial Richie Roberts (Russell Crowe), que lidera uma equipe de colegas honestos como ele em uma tentativa de terminar com a circulação da droga.
Intercalando as trajetórias de seus dois personagens principais, Ridley Scott é hábil ao criar um belo contraponto entre eles. Se Frank ganha cada vez mais respeito de outras figuras poderosas e cresce nos negócios, além de valorizar sua família, Richie tem uma vida complicada, sendo um policial incorruptível (em determinado momento, recusa uma bela quantia em dinheiro que achou durante uma de suas investigações, o que vira uma espécie de piada no filme) e, por isso, nada confiável perante boa parte de seus colegas. Além disso, ainda luta com a ex-esposa Laurie (Carla Gugino) pela guarda do filho. O design de produção também contribui muito para este contraste, tornando a casa de Frank um lugar bastante harmonioso, enquanto Richie fica em um lugar precário e bagunçado, refletindo o fato dele ligar mais para o próprio trabalho do que para o modo como leva sua vida.
Mas é mesmo com Frank que O Gângster acaba prendendo a atenção, já que o sujeito se revela absolutamente fascinante, sendo o tipo de personagem com o qual simpatizamos mesmo com todos os crimes que comete. Isso que estamos falando de um cara que mata um desafeto a sangue frio no meio da rua, diante de várias pessoas. De certa forma, acabamos virando cúmplices dos seus atos, e até por isso lamentamos quando ele faz algo que vai contra seus princípios e dá início a sua queda. Mas em momento algum o roteiro tenta redimir os atos do protagonista, chegando ao ponto de trazer uma sequência que mostra o estrago que a “Magia Azul” vem causando em seus usuários, enquanto ele está com a família aproveitando tranquilamente o Dia de Ação de Graças.
É claro que boa parte do envolvimento do público com Frank se deve a estupenda atuação de Denzel Washington. Fazendo do personagem uma figura elegante e carismática, mas fria sempre que isso se mostra necessário, Washington tem uma composição que torna Frank um tipo bastante complexo (como ele ficou de fora do Oscar daquele ano é difícil de compreender). Enquanto isso, Russell Crowe encarna a integridade de Richie Roberts com propriedade, mas há de se ressaltar que enquanto que a investigação que faz com sua equipe é muito interessante, o mesmo não pode ser dito sobre a subtrama familiar dele, pois se afasta demais do enredo principal e é resolvida de um jeito simplista. Já o resto do elenco se revela bastante competente, com destaques a Josh Brolin (que na época estava começando a se tornar um ator requisitado) como o corrupto detetive Trupo, Chiwetel Ejiofor como o irmão de Frank, e Ruby Dee como Mama Lucas, que protagoniza ao lado de Denzel Washington uma das melhores cenas do filme, quando ela faz com que o filho mude de ideia quanto a matar alguém.
Envolvente ao longo de suas quase três horas de duração (isso se formos assistir a versão do diretor, já que a do cinema tem quase 30 minutos a menos), O Gângster é o tipo de filme que qualquer admirador de Ridley Scott gosta de ver o diretor fazendo. E esperemos que ele volte logo a lançar obras desse nível.
Nota:

segunda-feira, 24 de março de 2014

Toque de Mestre

Ao longo de Toque de Mestre é impossível não lembrar de Por Um Fio, thriller estrelado por Colin Farrell. Ambos os filmes contam com protagonistas que são obrigados a se manter reclusos em uma área específica, enquanto cumprem ordens de um vilão que tem uma arma apontada para eles, ameaçando-os de matá-los caso cometam qualquer erro. No entanto, se o longa dirigido por Joel Schumacher conseguia ser tenso e instigante do início ao fim, esta nova produção que conta com Elijah Wood à frente do elenco infelizmente possui problemas que a impedem de ser eficiente dentro do que se propõe.

Escrito por Damien Chazelle, Toque de Mestre traz Wood no papel do pianista Tom Selznick, que ficou vários anos fora da ativa devido a um medo de palco que resultou em uma crise durante uma apresentação. Mas agora, com o apoio da esposa Emma (Kerry Bishé), ele finalmente está prestes a retornar em um concerto feito em homenagem a seu falecido mentor Patrick Godureaux, e que será conduzido por seu amigo William Reisinger (Don McManus). Tudo transcorre perfeitamente até que ao checar as partituras, Tom vê um aviso de que ele morrerá caso toque uma nota errada. Começa então um inferno do qual o rapaz se esforça para escapar vivo durante a apresentação, sendo que a única pessoa com quem ele pode se comunicar é o próprio vilão Clem (John Cusack), que cuida tudo o que ele faz no palco.

Tal inferno é conduzido um tanto artificialmente pelo diretor Eugenio Mira, que investe muito em uma série de travellings em volta de Tom e dos outros artistas no palco como forma de ressaltar a tensão daquele momento. Mas esses movimentos de câmera mais chamam a atenção para o diretor do que propriamente funcionam a favor da história. O filme até tem boas sequências, como quando Tom precisa dar um jeito de escrever rapidamente uma partitura, mas cenas assim aparecem muito pouco ao longo da história, o que é lamentável considerando que um de seus principais objetivos é manter o espectador inquieto na cadeira do cinema. Além disso, o cineasta aposta muitas vezes na obviedade, como o plano-detalhe em uma foto que estabelece a relação de Tom e Patrick Godureaux ou a mudança abrupta na iluminação quando o protagonista ouve o nome da “La Cinquette”, composição famosa do mentor e que ele estava tocando quando teve sua crise.

Elijah Wood se esforça para segurar o filme, e até que é bem sucedido ao tornar Tom uma figura vulnerável, além de ter um bem-vindo carisma. Mas vale dizer que em alguns momentos o personagem mostra ser incrivelmente multifacetado, como na cena ele ao mesmo tempo toca piano, fala com o vilão e manda uma mensagem de texto no celular, ainda que este esteja (acreditem) embaixo das páginas das partituras, em um momento surreal e involuntariamente hilário do filme. Já John Cusack tem a árdua tarefa de fazer com que Clem seja ameaçador tendo na maior parte do tempo apenas sua voz como recurso para isso. Mas o próprio personagem se revela pouco interessante, tendo motivações bobas e batidas.

Com um terceiro ato particularmente fraco, que faz uma frase que o protagonista ouve várias vezes se tornar realidade de maneira estúpida, além de deixar um mistério nada relevante no final, Toque de Mestre até poderia ter rendido um bom filme, mas acaba sendo apenas uma versão genérica – e piorada – de diversas outras produções similares.

Nota:

quinta-feira, 20 de março de 2014

Monstros

Com orçamento na casa dos 500 mil dólares, número que fica muito longe até mesmo daquilo que é gasto em projetos considerados de baixo custo em Hollywood, Monstros é uma prova de que é possível fazer um belo filme de monstro tendo em mãos uma produção bastante modesta. Na verdade, esta estreia do britânico Gareth Edwards como diretor não faz feio se comparada a obras recentes como Cloverfield, o que torna ainda mais surpreendente que tão pouco dinheiro tenha sido gasto em sua realização.

Escrito pelo próprio Gareth Edwards, Monstros se passa seis anos após a NASA ter confirmado a possibilidade de haver vida extraterrestre. Pouco tempo depois disso, uma área no México foi classificada como “zona infectada”, já que vários seres alienígenas começaram a aparecer por ali, e tantos os americanos quanto os mexicanos estão fazendo de tudo para contê-los. Nesse contexto, o fotógrafo Andrew Kaulder (Scoot McNairy) vai até o México a pedido de seu chefe, com a tarefa de encontrar a filha dele, Samantha (Whitney Able), e trazê-la a salvo para casa. No entanto, a viagem se revela mais longa do que eles esperavam.
Algo que chama a atenção no que Gareth Edwards faz em Monstros é o fato de não haver grande pânico nas ruas como é normal de se ver nesse tipo de filme. Aqui, as pessoas aparecem tentando viver suas vidas normalmente, mesmo sabendo que alienígenas estão por perto. Aliás, o fato do roteiro contar com o retorno dos protagonistas para casa como fio condutor da narrativa e colocar uma série de obstáculos no caminho deles acaba sendo uma ótima maneira de desenvolver o ambiente no qual a história acontece. Assim, Andrew e Sam são obrigados a passar por vários lugares na tentativa de cumprir seu objetivo.
Ao mesmo tempo, o diretor constrói um ótimo clima de desconforto em cima dos contratempos que os personagens encontram. O curioso é que ele alcança isso quase sem mostrar as criaturas, usando com inteligência o detalhe de todos saberem que eles podem surgir a qualquer momento. No entanto, quando os alienígenas dão as caras, o resultado são cenas incrivelmente tensas, como o ataque a um grupo de soldados logo no início da trama, ou a sequência no terceiro ato que se passa em um posto de gasolina. E apesar de os efeitos visuais criados pelo próprio Edwards para a concepção das criaturas serem um tanto baratos, ao menos o diretor faz com que esse quesito funcione na maior parte do tempo, o que se deve também ao fato dele filmar geralmente à noite, disfarçando sua ocasional artificialidade.
No entanto, talvez o filme não tivesse tanto impacto caso seus protagonistas não fossem figuras com as quais pudéssemos nos identificar. Por sorte, Gareth Edwards dedica boa parte do roteiro desenvolvendo Andrew e Sam, cada um dono de dramas pessoais com os quais conseguimos simpatizar, o que nos faz torcer para que cheguem vivos em casa. Scoot McNairy e Whitney Able se revelam boas surpresas, trazendo peso dramático para os personagens e tendo uma ótima química em cena.
Com o sucesso alcançado em Monstros, Gareth Edwards recebeu um desafio: comandar o novo filme de Godzilla, um monstro clássico do cinema. E será realmente interessante se ele conseguir manter na nova empreitada o mesmo nível que mostrou nesta bela estreia.
Nota:

quarta-feira, 19 de março de 2014

Sem Identidade

Cary Fukunaga é um diretor que atualmente se encontra em ascensão absoluta graças ao seu nada menos que brilhante trabalho na série televisiva True Detective, estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson. No entanto, é interessante ver o que ele realizou antes de se envolver com a belíssima produção da HBO. Em 2009, o cineasta lançou este Sem Identidade, seu primeiro longa-metragem e que lhe rendeu prêmios em alguns festivais do circuito independente. Um reconhecimento merecido, já que se trata de uma excelente estreia.

Escrito pelo próprio Fukunaga, Sem identidade segue dois personagens centrais: Sayra (Paulina Gaitan) e Willy (Edgar Flores). Enquanto ela sai de Honduras em uma tentativa de imigrar para os Estados Unidos ao lado do pai e do tio para recomeçar sua vida, ele vive no México e é membro da gangue Mara Salvatrucha. Lá é conhecido como “Casper” e acaba de trazer para o grupo o jovem Smiley (Kristyan Ferrer). Os caminhos dos dois se cruzam após algumas tragédias, quando Willy esconde da gangue seu namoro com Martha Marlene (Diana García), obrigando-o a fugir o mais rápido possível antes que os outros ex-colegas o peguem. As coisas complicam quando é Smiley o escolhido para matá-lo.
Mostrando a precariedade ao redor dos personagens logo nos primeiros minutos, Fukunaga consegue estabelecer que a vida que levam não é das mais fáceis, e as decisões que tomam são fruto do sonho de terem algo melhor para si mesmos. Se Sayra está a caminho dos Estados Unidos, isso se deve ao pensamento comum de que lá tudo é melhor e as pessoas alcançam seus objetivos, sejam estes quais forem. Já Willy faz parte de uma gangue em uma provável tentativa de ganhar respeito e ser uma figura importante na comunidade onde vive, detalhe que inclusive reflete no pequeno Smiley. Isso é algo que podemos ver na breve cena em que ele é admirado por outras crianças e se exibe mostrando a arma que o novo líder da Mara Salvatrucha lhe deu, ou seja, seu novo poder naquele meio. Dessa forma, o fato de todos os personagens estarem em busca de fazer parte de algo maior, que lhes deem um valor pessoal que não encontrariam normalmente, é o que os torna tão interessantes e, ao mesmo tempo, tão trágicos. Afinal, não sabem que custos dessa nova condição.
Com um tom melancólico, quesito que ganha o auxilia da ótima fotografia do brasileiro Adriano Goldman, Sem Identidade acompanha os dois protagonistas intercalando suas histórias até o momento do encontro que irá uni-los em um trem. Sendo assim, a montagem de Luis Carballar e Craig McKay faz um ótimo trabalho ao seguir ambos os núcleos narrativos de forma muito natural. Além disso, o ritmo da trama nunca é quebrado, o que se deve não só pelos personagens serem figuras pelas quais ficamos muito interessados, mas também por Cary Fukunaga ser hábil ao tornar seu filme envolvente do início ao fim. Soma-se a isso o mérito dele criar belos momentos de tensão, como um tiroteio que ocorre no fim do segundo ato.
Trazendo grandes atuações de seu jovem e talentoso elenco (destaque para os protagonistas Paulina Gaitan e Edgar Flores), Sem Identidade abriu caminho para que Cary Fukunaga assumisse projetos cada vez mais ambiciosos. E é uma prova de que o cineasta é, sem dúvida, um diretor que merece toda a atenção que vem recebendo.
Nota: