quinta-feira, 12 de julho de 2012

Na Estrada

O projeto de transformar On The Road, o livro de Jack Kerouac (que não pude ler ainda), em filme existia desde a época de seu lançamento, ou seja, há mais de cinquenta anos. Desde então, houve várias tentativas de levá-lo para as telonas, principalmente a partir de 1980, quando Francis Ford Coppola comprou os direitos de adaptação da obra. Sendo a história um verdadeiro road movie, a escolha de Walter Salles para a direção não é nenhum pouco estranha. Afinal, estamos falando de um diretor que fez Central do Brasil e Diários de Motocicleta, dois filmes absolutamente maravilhosos neste estilo. Na Estrada não chega a ser tão bom quanto os filmes citados, mas também está longe de ser uma decepção.
Escrito por Jose Rivera, Na Estrada acompanha Sal Paradise (Sam Riley), um jovem escritor que não consegue escrever seu livro por causa de um bloqueio criativo. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund), Sal inicia uma bela amizade formada graças à admiração mútua que os dois sentem um pelo outro. Enquanto Sal admira o lado selvagem e irresponsável de Dean, este aprecia a paixão que o outro tem em escrever. Eles começam a viajar sem rumo pelos Estados Unidos ao lado de Marylou (Kristen Stewart), uma amante de Dean, procurando aproveitar o máximo que podem de suas vidas.
A amizade entre Sal e Dean é bem construída pelo roteiro, o que é fundamental para o funcionamento da história. Os dois personagens têm personalidades muito diferentes. Se Dean faz o tipo que fica com todas as garotas, sem ter vergonha ou muita consciência daquilo que faz, Sal é um rapaz mais “pé no chão”. Claramente eles se completam de alguma maneira, e a viagem que fazem juntos é uma maneira de fugir de problemas e responsabilidades que podem prendê-los eternamente. Dean foge de seu casamento com Camille (Kirsten Dunst, ótima), enquanto que Sal tenta escapar de seu bloqueio. Para ele, uma página em branco é como uma estrada sem fim, algo ressaltado em um pequeno (e inspirado) momento da montagem de François Gédigier. Já Marylou tenta aproveitar o que pode antes que seu noivo retorne da Marinha. Não é à toa que sempre que a palavra “casa” entra em alguma conversa, os personagens mostram certo desconforto, porque sabem o que os estará esperando.
Mas Na Estrada não é um filme apenas sobre a viagem e a amizade dos personagens da história. É também um filme que mostra muito bem que, querendo ou não, o período da juventude tem um limite. Ao longo da história, Sal e Dean aproveitam ao máximo as coisas que aparecem em seu caminho. Mas não importa o quanto eles (ou nós, já que é muito fácil nos identificarmos com a situação de alguma maneira) tentem ignorar, suas responsabilidades fazem questão de estar grudadas em suas vidas. Se um deles percebe isso e aceita seu destino como deve ser, o outro se torna dependente da vida de aventuras, praticamente da mesma forma que alguém fica viciado em uma droga.
Com sua competência habitual, Walter Salles explora bem todas as experiências pelas quais Sal, Dean e Marylou passam durante a viagem. Ainda que a montagem seja um tanto episódica (um risco que muitos road movies correm), o diretor consegue fazer a narrativa fluir bem. Além disso, a opção de investir em vários cortes rápidos nos momentos em que os personagens estão no meio da agitação de uma festa ou usando drogas se mostra mais do acertada, já que passa muito bem a sensação energética que eles sentem. E a narração em off de Sal não é mal utilizada, nos mostrando o que o personagem pensa ou está sentindo diante de tudo o que acontece ao seu redor. No entanto, Salles não consegue situar muito bem o passar do tempo no filme, que desenrola rapidamente. A história começa em 1940, mas só a partir de 1950 é que o tempo volta a ficar bem estabelecido, quando o diretor começa a colocar os anos nos letreiros que aparecem na tela, que até então informavam apenas os locais pelos quais os personagens passam.
É uma pena que o roteiro falhe com relação a algumas figuras que aparecem ao longo filme. O saxofonista Walter (Terrence Howard), por exemplo, além de não acrescentar nada realmente importante ao filme, é esquecido logo depois de sua breve participação no início. Outra personagem que é praticamente abandonada depois de sua aparição, apesar de ser um pouco mais marcante, é Terry (Alice Braga), mulher que Sal encontra quando está viajando sozinho como um andarilho. Já o casal Old Bull Lee (Viggo Mortensen) e Jane (Amy Adams) ganha mais atenção, tornando-se as figuras mais interessantes que Sal, Dean e Marylou encontram na viagem, sendo que boa parte disso se deve pela excentricidade deles. O fato de os atores estarem muito bem nos papéis (principalmente Viggo Mortensen, que rouba a cena em seu pouco tempo de tela) é algo que torna esse problema ainda mais lamentável.
Sam Riley e Garrett Hedlund surpreendem com suas atuações, conseguindo mostrar que Sal e Dean tem um carinho muito grande um pelo outro, ainda que eles saibam que não são nada parecidos e queiram coisas diferentes para si mesmos. O abraço que eles dão ao se encontrarem depois de um tempo sem se ver é o retrato perfeito de duas pessoas que se veem como irmãos. Hedlund, aliás, chega a se destacar até mais do que Riley, já que seu personagem é uma pessoa triste devido ao seu medo de encarar a vida que tem, e o ator mostra isso muito bem. Enquanto isso, Kristen Stewart finalmente se livra de sua persona de Bella Swan (algo que se viu não só em Crepúsculo, mas também no fraquíssimo Branca de Neve e o Caçador), deixando claro que quando tem uma personagem interessante em mãos, ela pode sim ter uma boa atuação, como foi no início de sua carreira quando apareceu tão promissora em Quarto do Pânico.
Depois de tantos anos na espera para ir aos cinemas, Na Estrada pode não ser perfeito, mas consegue ser um filme interessante do início ao fim. Apesar de ainda não ter lido o livro, acredito que Jack Kerouac ficaria satisfeito com a transição de sua obra para a tela grande.
Cotação:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha

Mesmo com seus superpoderes, é admirável ver que o Homem-Aranha sempre foi um personagem que enfrenta problemas muito humanos, como não ter muito dinheiro para pagar o aluguel, e este é um dos motivos de ele ser o meu super-herói favorito dos quadrinhos. Há dez anos, o primeiro filme do personagem chegava às telonas, praticamente consolidando as adaptações de histórias em quadrinhos como um gênero. De lá pra cá, houve adaptações desse tipo em todos os anos, e os estúdios passaram a dar uma atenção mais do que especial a estes filmes. Se Sam Raimi continuou muito bem sua história do aracnídeo da Marvel no excelente Homem-Aranha 2, é triste constatar que em Homem-Aranha 3 ele tenha finalizado sua trilogia de maneira tão decepcionante.
Dito isso, um reboot como O Espetacular Homem-Aranha soa precoce demais. Afinal, há apenas cinco anos de diferença entre o terceiro filme de Raimi e este exemplar dirigido por Marc Webb. Esta nova produção chama a atenção por mostrar um lado diferente das histórias do personagem, apesar de estar mostrando algo que já vimos boa parte há dez anos. Mas é bom ver que ela ainda consegue ser eficiente, não ficando preocupada apenas com cenas de ação ou com a introdução de novos vilões, apresentando muito bem o novo universo pelo qual o cabeça-de-teia transitará nos cinemas.
Escrito por James Vanderbilt, Alvin Sargent (de volta depois de Homem-Aranha 2 e Homem-Aranha 3) e Steve Kloves, O Espetacular Homem-Aranha mostra o início das aventuras de Peter Parker (Andrew Garfield) como Homem-Aranha. Deixado por seus pais, Richard e Mary (Campbell Scott e Embeth Davidtz) na segurança de seus tios Ben e May (Martin Sheen e Sally Field), Peter cresce (ganhando então o rosto de Andrew Garfield) sem saber o porquê de eles terem desaparecido. Durante uma investigação, Peter é mordido por uma aranha e... bem, o resto todos já sabem mais ou menos como se desenrola. Enquanto isso, ele tenta ajudar o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans), um antigo colega de seu pai, a completar uma fórmula que pode curar as pessoas de qualquer deficiência, a ponto de poderem regenerar partes do corpo.
O roteiro peca com relação a esse mistério envolvendo os pais de Peter. É algo que praticamente não é explorado, sendo usado muito mais para encaminhar o personagem até a aranha que lhe dará os poderes e também para coloca-lo frente a frente com Curt Connors. Provavelmente isso ganhará um pouco mais de foco nos próximos filmes, mas poderia ser um pouco mais resolvido aqui. Afinal, a ausência dos pais é algo que fez muita falta para Peter e há várias cenas que comprovam isso.
Logo no início, o filme demonstra ter como objetivo mostrar um Peter Parker mais cool. Ele é tímido e tudo mais, mas não hesita em brincar com o que o diretor da escola diz ou defender um colega. E ele ainda anda de skate e brinca no celular, o que é até estranho comparado com o que havia sido mostrado nos filmes de Sam Raimi. Como a história é inteiramente situada nos tempos de escola, atmosfera de O Espetacular Homem-Aranha se torna muito mais teen do que a dos outros filmes.
Marc Webb (que fez o excelente 500 Dias Com Ela) dirige alguns momentos-chave do filme meio displicentemente, como a picada da aranha e a morte de um determinado personagem. Isso tira um pouco do impacto que esses momentos deveriam ter no filme. Por um lado, essa pode ter sido uma forma de o diretor dizer que sabe que está contando uma história que praticamente todo mundo conhece, mas de qualquer forma isso não justifica a irregularidade dessas cenas. Por outro, ao não dar muita ênfase nessas cenas e agilizar o desenrolar da história, Webb consegue abrir um pouco mais de espaço para se concentrar nos personagens.
E esses personagens tornam a história ainda mais interessante, e como eles têm intérpretes afinados no elenco, as coisas ficam ainda melhores. A começar pelo protagonista, um jovem inteligentíssimo e corajoso, capaz de desafiar mesmo quem não deveria. Em nenhum momento se sente falta de Tobey Maguire, já que Andrew Garfield tem uma atuação bastante segura e eficiente, mostrando estar muito confortável no papel. Ele faz de Peter um rapaz atrapalhado (sua gagueira quando o personagem fica nervoso não é forçada) e tímido (o jeito encurvado como anda deixa isso claro), além de muito carismático e bem humorado. E o fato de Marc Webb prestar atenção às consequências das lutas em que o Homem-Aranha se mete, como hematomas e arranhões, é algo que torna o personagem vulnerável e humano, compensando um pouco a falta de problemas como aqueles que citei inicialmente.
Já Emma Stone empresta seu carisma habitual para Gwen Stacy, nos fazendo esquecer completamente o modo como a personagem foi tratada em Homem-Aranha 3 (o que não seria muito difícil de fazer, diga-se de passagem). Em momento algum Gwen se torna uma mocinha em perigo, sendo uma espécie de calor humano para o herói. E a química entre ela e Garfield é ótima, resultando em bons momentos. Enquanto isso, Rhys Ifans consegue se destacar como Curt Connors, um vilão com motivações parecidas com as do Dr. Otto Octavius, vivido por Alfred Molina em Homem-Aranha 2. Ambos os personagens têm uma ideia com o objetivo de ajudar as pessoas de alguma maneira, mas mal sabem que podem trazer consequências destruidoras.
Quanto ao resto do elenco, Martin Sheen aproveita ao máximo suas cenas, conseguindo fazer de Ben Parker uma figura querida e um pai ideal para Peter. Uma pena que o roteiro resolva deixar isso ainda mais claro ao incluir uma cena em que o protagonista diz ao tio “Você é um ótimo pai”, o que só martela o óbvio. E se Sally Field aparece um pouco apagada como a tia May, Denis Leary interpreta o Capitão Stacy com grande seriedade, sendo este um personagem que compensa a ausência de J. Jonah Jameson.
No quesito ação, Marc Webb se sai admiravelmente bem. Não investindo na fórmula “dez cortes por segundo”, o diretor deixa o espectador a par de toda a ação que acontece na tela. Além disso, Webb explora bem as habilidades tanto do Homem-Aranha quanto do Lagarto, o que resulta em boas cenas de luta. Tudo isso é muito bem embalado pela trilha sonora de James Horner, apesar de esta não ser muito marcante. O Espetacular Homem-Aranha ainda traz o famoso bom humor do personagem, e nesse sentido o roteiro acerta na maioria de suas tentativas de fazer rir e as gags surgem naturalmente. As brincadeiras que o herói faz com alguns capangas que aparecem em seu caminho são interessantes, principalmente aquela envolvendo um ladrão de carros. Mas certamente a gag que todos lembrarão é a que envolve uma figura carimbada em quase todos os filmes da Marvel.
Caindo um pouco em um desnecessário melodrama adolescente no terceiro ato, O Espetacular Homem-Aranha não chega a fazer jus ao seu título, mas consegue ser um filme de origem eficiente, ainda que essa origem já tenha sido contada há pouco tempo. O universo do personagem ainda pode render várias histórias interessantes. Caberá aos próximos filmes encontrá-las.
Obs.: Há uma cena durante os créditos finais.
Obs. 2: Apesar de o filme ter sido filmado em 3D, Marc Webb não soube utilizar a tecnologia muito bem. Infelizmente, o resultado não difere muito das conversões, portanto não há diferença entre ver o filme em 2D ou em 3D.
Cotação:

domingo, 1 de julho de 2012

Indie Game: The Movie

Algo que apenas as pessoas que me conhecem há anos sabem é que, durante algum tempo, cogitei trabalhar na área de games. Sempre gostei de videogames e, seguindo a lógica de que “devo trabalhar com aquilo que gosto”, pensei que essa era a área para a qual eu estava destinado. Até que um dia percebi que gostava muito mais de cinema do que de jogos.
Mas por que resolvi compartilhar esse detalhe da minha vida nessa crítica? Muito simples: depois de assistir a este documentário Indie Game: The Movie passei a admirar muito os profissionais que trabalham com a produção de jogos independentes, e o filme ainda me fez pensar o que poderia ter acontecido comigo caso eu tivesse seguido esse caminho. Eu aguentaria todo o stress que rola durante o processo de fazer um jogo? Aguentaria a pressão que cai nos ombros desses profissionais? Provavelmente são respostas que só poderão ser encontradas em uma outra dimensão.
Dirigido pela dupla Lisanne Pajot e James Swirsky, Indie Game: The Movie segue três histórias: Jonathan Blow, criador jogo de plataforma Braid; Tommy Refenes e Edmund McMillen, que se dedicam a produção de Super Meat Boy; e Phil Fish tenta finalizar FEZ. Todos eles trabalham em seus jogos sem a ajuda de ninguém. Nada de empresas da área ou doações. E é claro que isso traz várias dificuldades para cada um deles.
Essa dificuldade é muito bem transmitida pelos diretores. Os protagonistas do filme sacrificam muitas coisas para poder ver seu projeto ganhar vida, desde o próprio dinheiro até as chances de uma vida social. Tommy Refenes diz em certo momento “Você meio que precisa desistir de alguma coisa para ter algo ótimo”. O problema é que esse “algo” pode demorar muito para vir ou até mesmo não vir, o que torna o trabalho de Tommy e de outros designers de jogos independentes um grande risco. Ao longo de Indie Game: The Movie, nós conhecemos a vida das pessoas retratadas no filme, ficamos a par de seus problemas, e dessa forma é fácil simpatizar com elas, o que faz com que o sucesso dessas figuras seja um desejo até para quem está assistindo ao filme.
Blow, Refenes, McMillen e Fish projetam seus jogos como uma forma de se conectar com as pessoas, mas isso não quer dizer que eles queiram conhece-las. Como McMillen diz em certo momento: “Eu posso não gostar delas”. Esse antissocialismo é compreensível, já que há pessoas que não se importam com as dificuldades pelas quais eles passam para fazer os jogos ou com o tempo que eles levam. O que interessa para elas é apenas quando que o produto será lançado, e se ocorrer algum tipo de atraso então é o começo dos comentários desrespeitosos, algo que faz parte da vida de Phil Fish, que está há quatro anos desenvolvendo FEZ.
A montagem, feita pelos próprios diretores, é um tanto episódica, mostrando as histórias do filme uma de cada vez. Mesmo assim, a narrativa nunca perde sua fluidez, as histórias não atrapalham umas as outras (por exemplo, uma delas poderia ganhar mais importância, o que não acontece em momento algum) e a dupla de cineastas sempre consegue deixar o espectador muito bem situado no filme. Em certos momentos, Pajot e Swirsky ainda se dão a liberdade de fazer alguns raccords saindo de um jogo para outro ou de um jogo para a vida real, como quando um personagem virtual vai cair em uma piscina e no plano seguinte vemos Edmund mergulhar.
Mas um dos elementos mais interessantes de Indie Game: The Movie é o fato de que, apesar de não ser reconhecido como arte, um jogo não difere muito de outros tipos de obras. Quem faz um filme, escreve um livro ou pinta um quadro tem um propósito específico com essa produção. Vistos à primeira vista, jogos parecem servir apenas como um entretenimento, algo para distrair as pessoas. Assim como as artes citadas, os games têm seus críticos especializados, que às vezes escrevem sobre um jogo e ainda assim não conseguem captar tudo o que o artista quis dizer com seu trabalho. Esse é um dos motivos que fazem Jonathan Blow não ficar muito satisfeito mesmo com Braid fazendo um sucesso estrondoso. As pessoas podem adorar o jogo, dar nota 10, mas ainda assim dar uma opinião muito superficial sobre ele, e isso é realmente algo triste para um realizador que tinha muito a dizer com sua obra.
A produção de um jogo independente é parecida com a de um filme independente. Existem dificuldades e muitas vezes é preciso da ajuda de desconhecidos para que o produto possa ser finalizado. Nesse caso, o próprio Indie Game: The Movie serve para uma comparação interessante. Afinal, a equipe que fez o filme não é muito grande e seus diretores ocuparam várias funções, como a direção de fotografia e a montagem, além da direção. Muitas pessoas doaram dinheiro para que o filme pudesse ser feito, e o nome delas ocupa uma parte nos créditos do filme muito maior do que a dos próprios realizadores.
Indie Game: The Movie é praticamente uma carta de amor feita a jogos de videogame e computador, que são parte importante não só na vida das pessoas vistas no filme, mas também de muitas outras. E se arte é tudo aquilo que pode causar um determinado tipo de emoção no ser humano, então já está na hora de os games ganharem sua chance.
Cotação:

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Era do Gelo 4

A franquia A Era do Gelo parece ser uma daquelas séries que começa bem, mas começa a se estender tanto que acaba perdendo a noção do momento de dizer “chega”. Assim, ela lembra um pouco o que aconteceu com Shrek. Gosto dos dois primeiros capítulos da série, mas o terceiro já mostrou certo desgaste, sendo um filme no máximo mediano e parecendo ter sido feito muito mais para ganhar dinheiro com as crianças que vão ao cinema e depois pedem para seus pais comprarem outros produtos do filme, desde brinquedos até lancheiras. Mesmo com esse desgaste, agora temos A Era do Gelo 4 e o resultado é um filme que se não é um desastre, tampouco chega a ser grande coisa, mostrando que a série realmente já está se estendendo um pouco além do que devia.
Escrito por Michael Berg e Jason Fuchs, A Era do Gelo 4 coloca Manny (voz original de Ray Romano) tendo que impor limites a sua filha adolescente, Amora (Keke Palmer), que sempre o desobedece. Depois que o esquilo Scrat provoca a separação dos continentes com sua amada noz, o mamute e seus amigos, Diego (Denis Leary) e Sid (John Leguizamo) acabam se separando de seu bando. Em meio aos perigos que passam, o trio precisa lutar contra o terrível Capitão Entranhas (Peter Dinkladge, uma pena não ter podido ouvir sua dublagem) e sua trupe de piratas para poder reencontrar Ellie (Queen Latifah), Amora e os gambás Crash (Seann William Scott) e Eddie (Josh Peck). Além disso, eles ainda precisam cuidar da avó de Sid (dublada por Wanda Sykes), que é largada com eles por ser considerada um peso na família do bicho-preguiça.
Apesar de absurdo, o modo como A Era do Gelo 4 mostra a separação dos continentes não deixa de ser divertida, além de criativa dentro do universo do filme. Se essa cena já diverte e coloca o filme em um nível agradável, isso prova o quanto que o esquilo Scrat continua carismático mesmo depois de dez anos fazendo a mesma coisa, lembrando um pouco os pinguins de Madagascar. E se aqueles personagens já ganharam uma série de TV, não é a toa que Scrat já começou a protagonizar curtas-metragens.
Mas logo depois vem um dos problemas do filme: são muitos personagens. Se o roteiro já precisa se preocupar com as figuras que foram adicionadas ao longo dos outros três filmes, aqui são introduzidas mais algumas. Afinal, algo de novo o filme precisa ter além do trio principal vivendo aventuras e Scrat perseguindo sua noz. Com isso, personagens que faziam graça nos filmes anteriores, como Crash e Eddie, quase não aparecem ao longo da história, sendo substituídos pela avó de Sid como principal alívio cômico do projeto. Nesse sentido o roteiro é feliz, já que a personagem é divertida. Por outro lado, temos também Amora, que depois de nascer no terceiro filme agora aparece crescida. O problema é que ela, infelizmente, é usada para alguns clichês, como a garota que está disposta a mudar tudo o que faz só para poder andar com os adolescentes populares, além do velho conflito entre pai e filha.
Como o filme um grupo de piratas entre novos personagens, os diretores Steve Martino e Mike Thurmeier (que substituem o brasileiro Carlos Saldanha, que volta apenas como produtor executivo) são criativos na hora de construir os “navios” que são vistos no filme, sendo eles grandes icebergs. Os canhões e o gambá que serve como bandeira também são detalhes inspirados da dupla. E como não poderia deixar de faltar, é claro que há referências a franquia Piratas do Caribe. No entanto, em nenhum momento Martino e Thurmeier conseguem tornar a história envolvente, além de não conseguirem fazer cenas de ação interessantes. Quando Manny luta contra o Capitão Entranhas, por exemplo, este parece não saber usar uma espada, acertando quase que propositalmente as presas do protagonista “cheinho”. Aliás, o vilão é outro acerto do filme, já que apesar de não protagonizar grandes cenas de batalha, pelo menos ele consegue soar ameaçador e tem uma presença interessante.
Em A Era do Gelo 2, Manny ganhou uma namorada. Em A Era do Gelo 3, foi a vez de Scrat (apesar de a relação ter durado pouco tempo). Neste quarto filme, mais um personagem ganha uma alma gêmea. Sendo assim, acho que já posso prever um dos possíveis caminhos que A Era do Gelo 5 seguirá. Mas ainda espero que a série pare por aqui, talvez ficando apenas nos curtas-metragens, antes que o desgaste comece a ser um desastre.
Obs.: O curta-metragem dos Simpsons, The Longest Daycare, que passou antes da sessão, é muito divertido. Espero que Matt Groening e companhia façam outros.
Cotação:

terça-feira, 26 de junho de 2012

30 Anos de Blade Runner e O Enigma de Outro Mundo

Em 2012, Ridley Scott voltou ao campo da ficção científica com Prometheus, depois de ficar trinta anos longe do gênero, quando dirigiu o filme que fez aniversário ontem: Blade Runner: O Caçador de Androides. Aliás, não foi só este belo filme que completou trinta anos de existência, mas também um dos melhores filmes de John Carpenter, O Enigma de Outro Mundo, o que tornou a data 25 de junho de 1982 um dia ainda mais especial. Infelizmente, o post está um pouco atrasado, mas a homenagem é justa, e preferi escrever alguma coisa para não deixar o momento passar em branco.
Blade Runner levou alguns anos para ser reconhecido como o grande clássico que todos conhecem. Na época de seu lançamento, o filme não conquistou a crítica e fracassou nas bilheterias. A produção passou por muitos problemas, entre eles estão os produtores, que viram o primeiro corte do filme e, achando que as pessoas não entenderiam nada, mandaram Ridley Scott colocar uma narração de Rick Deckard (Harrison Ford), além de um final feliz (isso tudo é falado nos extras da edição especial tripla do DVD). Dessa forma, Blade Runner continuou sendo um filme muito bom, mas com problemas. A narração, por exemplo, tira muito do impacto que o discurso final feito por Roy Batty (interpretado magistralmente por Rutger Hauer) tem no filme.
Em 1992, depois de várias exibições testes, foi lançada a Versão do Diretor e Blade Runner foi reconhecido como um grande clássico. Ainda assim, a versão foi lançada as pressas e não agradou totalmente Ridley Scott, que queria fazer mais algumas alterações. Só em 2007 o diretor conseguiu lançar aquela que ele considera como sua versão definitiva para o filme.
As várias versões de Blade Runner abriram espaço para diversos debates sobre o que o filme mostra. As discussões vão desde religião até a possibilidade de Deckard ser um replicante. Independentemente da versão, o filme sempre chamou muito a atenção pelo seu visual estonteante da Los Angeles futurista. É um filme que mistura muito bem o estilo de ficção científica com o noir, o que o torna algo muito lindo de se ver esteticamente. Tudo isso em uma história envolvente do início ao fim, grandes atuações (Rutger Hauer, em particular, deveria ter sido indicado a todos os prêmios do mundo na época) e um Ridley Scott em um início de carreira brilhante.
Já O Enigma de Outro Mundo é um terror absolutamente espetacular. Representando o auge da parceria entre John Carpenter e Kurt Russell, o filme conta com um dos vilões mais assustadores da história do cinema: a “coisa”, como diz o título original.
Nada é mais assustador do que o desconhecido. Steven Spielberg soube usar isso muito bem em Tubarão e John Carpenter foi um mestre em O Enigma de Outro Mundo. Ao longo de todo o filme, nós não vemos a forma real do alienígena que inferniza os cientistas. Esse detalhe cria um nível de tensão muito grande no ambiente em que os personagens se encontram. Afinal, o monstro pode ser qualquer coisa que esteja ali, desde um cachorro até um dos cientistas. E como ele pode se transformar naquilo que quiser, não é difícil compará-lo ao bicho-papão que tanto assombra crianças. Sendo assim, ele pode ser a representação dos nossos próprios medos e isso faz deste vilão uma figura interessantíssima.
Se o vilão já é incrível, as cenas tensas que John Carpenter comanda não são menos do que geniais. Temos a parte em que MacReady (personagem de Kurt Russel) faz o exame de sague com todos os outros cientistas. Mas talvez a mais famosa seja mesmo a cena em que Cooper (Richard Dysart) tenta usar um desfibrilador em Norris (Charles Hallahan), mas o corpo deste se torna uma boca enorme, naquele que é o momento mais assustador do filme.
Dois grandes filmes, e não sei se lamento o fato de estarem rendendo mais produções. O Enigma de Outro Mundo teve uma prequel (que ainda não vi) lançada no ano passado, enquanto que Blade Runner está com uma continuação em desenvolvimento. Mas nada irá mudar o status dessas duas belíssimas obras-primas. Então, parabéns a elas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sombras da Noite

Como escrevi aqui, Tim Burton e Johnny Depp sempre conseguiram manter um bom padrão de qualidade nos projetos em que se envolveram, não fazendo nenhum filme realmente desagradável (pelo menos para mim). Depois de fazer uma releitura de Alice no País das Maravilhas, a dupla se aventura agora adaptando para as telonas Dark Shadows, a série de TV que fez muito sucesso na década de 1960 (e da qual não conheço nada). Apesar de Sombras da Noite não ser um filme tão bom quanto outras obras que Burton e Depp fizeram, como Edward Mão de Tesoura, Ed Wood e A Noiva Cadáver, este novo exemplar da dupla também não é uma perda de tempo.
Escrito por Seth Grahame-Smith e com argumento feito por ele em parceria com John August, Sombras da Noite nos apresenta a Barnabas Collins (Johnny Depp), um vampiro que ficou soterrado e preso em um caixão por 196 anos graças à bruxa Angelique Bouchard (Eva Green). Ao voltar para sua antiga mansão, o ano é 1972 e ele encontra alguns de seus estranhos parentes distantes, sendo Elizabeth (Michelle Pfeiffer) a matriarca da família. Ao mesmo tempo em que se vê tendo que se adaptar aos novos tempos, Barnabas também procura viver tranquilamente com sua família, mas Angelique ameaça os planos do vampiro ao saber de seu retorno.
No pequeno prólogo antes dos créditos, que se passa no século 18 e mostra o que aconteceu com Barnabas, Tim Burton investe seu já conhecido estilo para dar um tom sombrio e sério para as cenas, o que é ainda mais ressaltado pela fotografia de Bruno Delbonnel e pela trilha sonora do colaborador habitual do cineasta, o eficiente Danny Elfman. Ao passar o filme para 1972, algo que a montagem faz bem naturalmente, não fazendo soar muito brusco, o diretor já impõe um clima mais descontraído e começa incluir cores mais saturadas não só em alguns cenários, mas também nos figurinos e na maquiagem de seu elenco, deixando mais do que claro que os tempos mudaram completamente do século XVIII para o XX. Até mesmo a trilha sonora sofre mudanças, e ao invés de ouvirmos a composição de Elfman o tempo todo, Burton inclui também canções da época em que o filme se passa, indo de The Carpenters até Alice Cooper. Este último inclusive aparece em uma ponta que diverte pelo modo como é tratada.
Essa diferença entre as duas épocas mostradas no filme acaba sendo o alvo da maioria das piadas do roteiro de Grahame-Smith. Acostumado com a vida que tinha antes, Barnabas estranha algumas coisas que vê na década de 1970. Por exemplo, ele fica surpreso ao saber que Julia Hoffman (Helena Bonham Carter, esposa de Burton e figura carimbada nos filmes dele) é uma psicóloga, já que ele nunca imaginou que uma mulher poderia assumir uma posição como essa. Em outro, ele diz que a jovem Carolyn (Chloë Grace Moretz) já deveria estar casada e pronta para ter filhos. Mas nenhuma gag consegue superar aquela envolvendo o símbolo do McDonalds. E Johnny Depp (incluindo mais um personagem estranho em sua carreira) não só traz carisma para Barnabas como também o interpreta com seriedade, o que torna seus diálogos ainda mais divertidos.
Infelizmente, as piadas não desviam a atenção dos problemas do filme, principalmente com relação ao roteiro. No início, Victoria Winters (Bella Heathcote), a jovem que começa a trabalhar para os Collins cuidando do pequeno David (Gulliver McGrath), ganha bastante atenção, parecendo que ela surgirá como uma das principais personagens do filme, o que fica um pouco mais aparente graças ao fato de ela ser parecida com Josette, antiga paixão do protagonista (e que também é interpretada por Heathcote). Por causa disso, fica bem claro em sua primeira cena com Barnabas que ela será o interesse amoroso do vampiro. No entanto, ao longo do filme, ela só ganha importância quando o roteiro julga ser realmente necessário, o que demonstra uma dúvida do roteirista quanto ao que focar na história.
Além disso, a vilã vivida por Eva Green soa mais irritante do que propriamente ameaçadora, querendo que Barnabas a ame e castigando-o por ele não correspondê-la. Já Roger Collins (personagem de Jonny Lee Miller) além de ter poucas cenas e não acrescentar quase nada ao filme, ainda é simplesmente descartado depois de algum tempo. E o humor do filme nem sempre funciona, como na bizarra cena de sexo entre Barnabas e Angelique, na qual Burton tenta causar o riso com o resultado de toda a ação, mas acaba não conseguindo o impacto que gostaria, além de lembrar demais o desastroso Todo Mundo em Pânico 2.
No elenco, se Johnny Depp surge divertido como Barnabas, Michelle Pfeiffer tem uma presença interessante como Elizabeth. Já a talentosa Chloë Grace Moretz faz da antipática Carolyn uma figura suportável, apesar de a atuação da jovem atriz ser um tanto artificial no momento em que a personagem grita com a família na hora do jantar, uma cena na qual Burton consegue mostrar que ela não se sente parte daquele grupo de pessoas, colocando-a em uma ponta isolada na mesa. É uma pena, no entanto, que o roteiro resolva desenvolver Carolyn um pouco mais no terceiro ato do filme, incluindo um elemento desnecessário e do qual não fora nem indicado ao longo da história. Enquanto isso, Helena Bonham Carter aparece um tanto apagada como a excêntrica Dra. Julia Hoffman, ao passo que Jackie Earle Haley tem momentos divertidos como Willie, o faz-tudo da família Collins.
Sombras da Noite não é o tipo de filme que fica na memória após a sessão. Mesmo assim, mostra ser uma experiência divertida, ainda que tenha seus problemas.
Cotação:

terça-feira, 19 de junho de 2012

A Parceria Johnny Depp e Tim Burton

Todos sabem que é muito comum ver atores e diretores formarem parcerias, fazendo vários filmes juntos, seja porque ambos ficaram amigos nas filmagens de um longa e admiram muito o trabalho um do outro ou porque simplesmente se completam de alguma forma (mesmo que não se suportem, como Klaus Kinski e Werner Herzog). Parcerias é algo que não falta no cinema. Temos Russel Crowe e Ridley Scott, Leonardo DiCaprio e Robert De Niro com Martin Scorsese, Liv Ullman e Ingmar Bergman, Brad Pitt e David Fincher, Penélope Cruz e Pedro Almodóvar, só para citar alguns exemplos. Com a estreia de Sombras da Noite se aproximando, resolvi falar um pouco sobre uma parceria que já rendeu muitos sucessos desde que se iniciou em 1990: Johnny Depp e Tim Burton.
É uma parceria bastante compreensível. Não só porque eles se tornaram grandes amigos no set de Edward Mãos de Tesoura, mas também porque eles têm um gosto muito parecido. Depp é famoso por interpretar personagens estranhos e excêntricos, enquanto Burton tem como marca registrada seus mundos estranhos e excêntricos, no qual seu estilo gótico impera. Em todos os filmes que fizeram juntos, Depp interpretou um personagem louco, que às vezes beira a caricatura, mas que combina com o universo criado por Burton.
Oito filmes contaram com as marcas de Depp e Burton e o que é mais interessante é que eles viajam por vários gêneros, desde o terror (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) até o musical (Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet), passando pela animação (A Noiva Cadáver), a comédia (Ed Wood e Sombras da Noite) e a fantasia (A Fantástica Fábrica de Chocolate, Edward Mãos de Tesoura e Alice no País das Maravilhas). Com exceção de Sombras da Noite (que não vi ainda e, portanto, não posso opinar), todos os filmes são muito agradáveis, o que é até surpreendente considerando que é difícil manter um bom padrão de qualidade durante tanto tempo.
São dois artistas talentosíssimos, mas é curioso ver que Tim Burton tem uma limitação, relacionada a sua visão artística, algo diferente de Johnny Depp. Enquanto que o ator consegue embarcar em vários projetos, precisando se preocupar apenas com os personagens que irá interpretar, não importando se são excêntricos ou não (uma hora ele é Jack Sparrow, em outra ele é John Dillinger), o diretor precisa sempre combinar seu estilo com o filme que irá fazer. O visual gótico e estranho que Burton utiliza nas produções é sua marca registrada, e ele consegue inseri-la até em projetos mais leves, como A Fantástica Fábrica de Chocolate e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, e duvido muito que algum dia ele irá deixar de lado seu estilo. Isso faz as pessoas pensarem que todos os filmes de Burton são praticamente a mesma coisa, o que não é verdade.
Johnny Depp e Tim Burton já trouxeram muitas alegrias para os cinéfilos. E acredito que essa parceria ainda irá render muitas outras produções interessantes.