sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Artista

Sempre que penso que não há mais como uma experiência cinematográfica me surpreender ou emocionar aparece um filme que consegue simplesmente me derrubar. Quando me surpreende além do que é esperado, o cinema se torna uma arte ainda mais apaixonante para mim. Sendo assim, ver um filme como O Artista é algo que me deixa com um sorriso no rosto de orelha a orelha do início até depois de sair da sala de cinema. Isso porque o filme de Michel Hazanavicius consegue ser uma belíssima homenagem à sétima arte ao mesmo tempo em que é um filme absolutamente encantador, sendo merecedor de toda a atenção que vem ganhando como grande favorito ao Oscar deste ano.
Escrito pelo próprio Hazanavicius, O Artista se passa no final da década de 1920 e início da década de 1930 e mostra a ascensão e queda do ator do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin). Sendo um grande astro que gosta de colher os frutos de seu trabalho, George está acostumado com o modo com que os filmes são feitos. Mas a chegada do som faz com que sua vida dê uma reviravolta inesperada, já que o cinema mudo acaba perdendo espaço. Enquanto George faz um fracasso atrás do outro, seu grande achado, a atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo), sobe cada vez mais na carreira, tornando-se uma verdadeira estrela dos filmes falados.
Em primeiro lugar deve-se admirar a ambição e a coragem de O Artista. Em uma época em que a maioria das pessoas está acostumada a ver filmes falados e cheios de efeitos visuais, vemos aqui uma produção simples e quase que 100% muda. Vendo o filme, percebe-se que metade do impacto que ele causa não aconteceria se ele fosse feito de outra maneira.
Iniciado com créditos que lembram imediatamente os filmes das décadas de 1920 e 1930, O Artista logo nos apresenta ao seu famoso protagonista. Um astro extremamente orgulhoso, George Valentin chama tanto a atenção para si mesmo que sua figura se destaca mais do que seus filmes nos jornais, o que irrita muito o chefe de estúdio, Al Zimmer (John Goodman). Tal orgulho é exatamente o que faz George começar a cair, já que ele acredita cegamente que o som não é o futuro do cinema, uma crença adotada por várias figuras na época, como Charlie Chaplin, que continuou a fazer filmes mudos (entre eles as obras-primas Luzes da Cidade e Tempos Modernos) mesmo quando o som já havia se tornado obrigação para boa parte dos estúdios (seu primeiro filme falado veio apenas em 1940 em O Grande Ditador, outra obra-prima). Detalhes como um fio de cabelo fora do lugar ou um bigode maior do que aquele mostrado no início do filme passam muito bem a ideia de que George está sofrendo com seus fracassos.
Jean Dujardin surge divertido e carismático interpretando o personagem, nos fazendo gostar de George do início ao fim do filme, mesmo quando não concordamos com seus atos. O ator ainda consegue não soar exagerado em cenas mais sérias ou tensas, como no momento em que ele reencontra vários objetos que vendeu em um leilão. Se Dujardin brilha, a bela Bérénice Bejo não fica muito atrás, fazendo de Peppy Miller uma personagem simpática, que aprende cedo com George a não deixar o estrelato subir a cabeça. O relacionamento dos dois personagens apesar de parecer romântico ao longo do filme, não é bem explorado dessa maneira, fazendo deles uma dupla como Fred Astaire e Ginger Rogers (que inspiram uma das melhores cenas do filme). Aliás, a química entre Bejo e Dujardin é brilhante, sendo responsável por alguns grandes momentos do filme, como quando Peppy começa a dançar depois de falar com George nas escadas, em claro sinal de agradecimento por tudo que este fez por ela. Enquanto isso, Uggie, o cachorro que segue George para todos os lados, também é um destaque à parte, divertindo com sua obediência e sua fidelidade.
Michel Hazanavicius faz O Artista da maneira como os filmes mudos eram feitos. A razão de aspecto usada pelo diretor, por exemplo, é a de 1.37:1, muito próxima da usada naqueles filmes (1.33:1). Assim, o diretor é obrigado a fazer alguns planos de conjunto em que precisa distribuir os personagens triangularmente em sua mise em scène, ou seja, alguns em primeiro plano nas pontas da tela e os outros em segundo plano mais para o meio. Além disso, Hazanavicius mostra muito bem como eram exibidos os filmes mudos, com a orquestra tocando a trilha sonora ao vivo, em um vão localizado abaixo da tela.
O diretor tem ao longo do filme uma mescla de momentos inspirados e outros que conseguem alcançar o status de geniais. É interessante, por exemplo, ver ele usar créditos de elenco para mostrar Peppy subindo aos poucos na carreira. E é fascinante o modo como ele constrói um pesadelo de George. Fica óbvio quase desde o início que esta sequência não é real, mas mostra perfeitamente como o personagem teme ser esquecido graças à novidade cinematográfica que surgiu.
O roteiro do diretor ainda conta com diálogos ambíguos absolutamente brilhantes. Em certo momento, um “BANG” que aparece na tela tem um propósito divertido ao mesmo tempo em que traz tensão. Em outro, o “Fim” que aparece ao final de uma sessão de um filme de George, no qual ele aparece afundando em areia movediça, representa não só o final deste filme, mas também o fim da carreira do personagem. Mas quando George fala para Peppy “Eu abri caminho para você!”, temos um dos grandes momentos do roteiro de Hazanavicius. À primeira vista, esta fala poderia apenas lembrar Peppy de que ela foi escolhida por George para um papel em um de seus filmes e que isso desencadeou seu sucesso. Mas depois de pensar um pouco, vi uma pequena alfinetada no cinema atual, já que hoje em dia o público vê filmes mudos com certa indifereça (e o fato de pessoas terem saído durante algumas sessões do filme só reforça isso). Mas sem o sucesso do cinema mudo, os produtores jamais investiriam tanto para tentar melhorar o modo de contar histórias. Ou seja, o cinema falado que conhecemos hoje deve muito ao legado deixado pelos filmes mudos, assim como Peppy deve boa parte de seu sucesso a George.
A direção de arte e os figurinos fazem uma recriação de época impecável, enquanto que a fotografia em preto e branco de Guillaume Schiffman se destaca não só por sua elegância, mas também por conseguir mostrar que a imagem no cinema foi ficando cada vez mais moderna e a vida de George cada vez pior. Se no início do filme, em 1927, temos um preto e branco mais claro, em 1929, quando o estúdio começa a investir apenas em filme falados, temos uma tela um pouco mais escura. Enquanto isso, a montagem realizada pelo próprio diretor ao lado de Anne-Sophie Bion consegue acompanhar muito bem o fracasso de George e o sucesso de Peppy, além de mostrar um pouco da confiança que Hazanavicius tem em sua gags. Quando a esposa de George (vivida por Penelope Ann Miller) aparece fazendo rabiscos na foto dele em uma revista, o diretor logo corta para uma plateia rindo em um cinema, e por ser uma gag divertida, devo dizer que é isso é um belo reflexo do público da vida real.
Contando com uma belíssima trilha sonora de Ludovic Bource, que consegue separar muito bem os momentos mais cômicos daqueles mais sérios, O Artista é uma ótima oportunidade de conhecer um pouco mais sobre uma arte tão inspiradora. É desde já uma das melhores homenagens que o cinema já recebeu.
Cotação:

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A conversão para 3D de Star Wars

O sucesso da tecnologia 3D em termos de bilheteria abriu mais um caminho para George Lucas ganhar mais alguns milhões com sua adorada saga Star Wars. Hoje, tive a oportunidade de conferir na cabine de imprensa a conversão para 3D de A Ameaça Fantasma, que chegará aos cinemas nesta sexta-feira.
O problema das conversões de filmes originalmente filmados em 2D é que o 3D passa praticamente despercebido, fazendo o público pagar caro pelo ingresso de um filme que poderia muito bem ter sido assistido convencionalmente (até por isso, a popularidade da tecnologia caiu ano passado). Em A Ameaça Fantasma não deixa de ser muito diferente.
Não que a conversão tenha ficado ruim. Na verdade, devo dizer que até me surpreendi com o que apareceu na tela. Em cenas contendo um elemento em primeiro plano e outro em segundo, por exemplo, a tecnologia consegue chamar bastante a atenção. Já em planos mais abertos, não há diferença alguma, o que é comum nas conversões.
Vale dizer que esta versão do filme é a do Blu-Ray. Ou seja, o Yoda feito em CGI marca presença enquanto que a marionete originalmente usada é abandonada. Como falei no post sobre as mudanças na saga, isso tornou o personagem muito mais real e agradável de se ver.
A Ameaça Fantasma é um bom filme, apesar de ser o mais fraco da saga. Por isso, acredito que quem for assisti-lo novamente (ou pela primeira vez) se divertirá. Mesmo que o 3D não seja de grande qualidade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cada Um Tem a Gêmea Que Merece

Adam Sandler já teve dias bons nos cinemas. Em toda a sua carreira, são poucos os filmes que merecem destaque. Nisso, cito como exemplos Como Se Fosse a Primeira Vez, Click, e Embriagado de Amor. Mas de modo geral, a filmografia de Sandler é composta por filmes fracos, sendo que alguns alcançam o status de grandes porcarias, como Little Nick: Um Diabo Diferente, Zohan: O Agente Bom de Corte e este Cada Um Tem a Gêmea Que Merece, sua mais nova tentativa de fazer humor.
Escrito por Sandler em parceria com Steve Koren e com argumento de Ben Zook, Cada Um Tem a Gêmea Que Merece nos apresenta aos irmãos Jack e Jill Sadelstein (ambos interpretados por Sandler). Ele é uma pessoa tranquila e mais próxima do normal possível. Já ela é o mais próximo possível do repugnante. Uma vez por ano, Jill visita Jack e sua família e durante quatro dias faz da vida deles algo insuportável. E para desespero de Jack, ela não parece querer ir embora tão cedo.
Jill é apresentada como uma pessoa que quase ninguém gostaria de ter por perto. Agressiva, forte, suarenta e com uma voz irritante, ela parece nunca ter ouvido falar de bons modos. Ao longo de todo filme, o roteiro busca nos fazer se importar com a personagem, com seus sentimentos, já que ela é uma pessoa carente. Mas é praticamente impossível que isso aconteça, já que Adam Sandler investe em uma caracterização feminina que só não é pior que a dos irmãos Wayans no pavoroso As Branquelas. Quando aparece em cena como Jill, Sandler investe em uma voz fina e gritante que claramente mostra que ele está se esforçando para soar engraçado. E não consegue em nenhum momento. Até quando está interpretando Jack ele resolve soltar alguns berros para fazer rir.
O roteiro consegue deixar o filme ainda pior por simplesmente não ter quase nenhuma boa piada durante toda a projeção. A tela é preenchida com gags óbvias e fracas que não conseguem nem dar vontade de rir. Os roteiristas ainda cometem o grande erro de achar que estão sendo hilários, algo que pode ser percebido pela grande repetição de algumas piadas. Por exemplo, o jardineiro que diz alguma coisa apenas para depois avisar que está brincando ou as marcas de suor que Jill deixa na cama sempre que se deita. Pensando que coisas desse tipo são engraçadas, Sandler e seus companheiros simplesmente subestimam a inteligência do espectador, achando que este vai rir de qualquer movimento mostrado no filme.
Os esforços de Sandler e companhia para fazer rir chegam ao ponto de simplesmente ignorar as leis da física, fazendo um personagem voar longe sempre que leva um soco ou faz uma atividade de risco, o que é bastante típico em comédias que apelam a tudo que podem para fazer rir. Em cenas assim, o diretor Dennis Dugan faz cortes rápidos, com o propósito de surpreender o público no momento em que as batidas acontecem, mas acabam não causando efeito algum por se tratarem de bobagens usadas em muitos e muitos filmes.
Além disso, o potencial dramático de alguns elementos, como a história de que irmãos gêmeos sentem a dor um do outro, é jogado fora, o que demonstra o medo que os realizadores têm em trazer um pouco de seriedade para o filme. Ao invés de criar uma situação grave entre os personagens, o roteiro usa essa informação para uma cena em que Jill começa a dar tapas em si mesma, esperando que seu irmão também sinta a dor, o que é de uma idiotice inacreditável.
Cada Um Tem a Gêmea Que Merece ainda traz Al Pacino em ação. Mas é um verdadeiro desperdício de talento. Brincando com a própria imagem ao interpretar a si mesmo, Al Pacino é a única peça em todo filme que até consegue tirar algumas risadas. Um pouco disso se deve ao fato de este não ser o tipo de projeto no qual estamos acostumados a vê-lo. Se o filme faz rir em algum momento é na última cena, e isso se deve a Pacino. Mas, de modo geral, as situações em que o ator entra ao lado de Adam Sandler são constrangedoras, como o momento em que ele começa a cheirar a marca de suor na cama de Jill.
Nem um ator como Al Pacino conseguiria salvar este filme de ser uma catástrofe. Quando se trata de uma comédia e a cena que faz rir é exatamente a última, só há uma conclusão a ser tirada ao final da sessão: o filme que acabou de ser visto foi terrível. Cada vez mais Adam Sandler está se aproximando do amigo Rob Schneider em termos de qualidade de seus filmes.
Cotação:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Personagens Marcantes - Indiana Jones

Aproveitando que neste mês de janeiro tivemos uma sessão dupla de Steven Spielberg, a coluna dos Personagens Marcantes dessa vez homenageia um dos maiores aventureiros que o cinema já viu (detesto usar esse tipo de frase, mas aqui é a mais pura verdade): Henry Jones Jr., também conhecido como Indiana Jones. Criado por George Lucas enquanto ele estava de férias com o amigo Steven Spielberg, o arqueólogo foi idealizado como parte de um filme que homenagearia as séries de TV das décadas de 1930 e 1940 que os dois cineastas costumavam assistir.
Interpretado com carisma, bom humor e grande determinação por Harrison Ford em quatro filmes muito bons (sim, gosto de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, apesar de não tanto quanto os outros) e uma série de TV, Young Indiana Jones (que não assisti ainda), onde era interpretado por Sean Patrick Flannery, Indy sempre foi sinônimo de grandes aventuras, repletas de desafios. Para encarar estas aventuras é preciso um personagem forte e interessante o bastante para que o público se importe com ele do início ao fim. Sendo assim, Harrison Ford, a segunda opção que Lucas e Spielberg queriam para o papel, não poderia ter sido uma escolha melhor.
No auge da carreira, interpretando Han Solo na trilogia clássica de Star Wars, Ford trouxe um peso interessante para o personagem, e arrisco dizer que isso é algo que Tom Selleck, a primeira opção para o papel, não teria trazido. Acredito que, quando as pessoas viram Ford pela primeira vez como Indiana Jones, elas imediatamente lembravam de Han Solo e isso ajudou muito o processo de identificação do público com o personagem. E Ford ainda possui um timing cômico perfeito, o que deixa Indy muito mais simpático. Mas de qualquer maneira, como não torcer para um cara corajoso (exceto quando há cobras envolvidas na situação), extremamente inteligente e cauteloso?
Em minha crítica de As Aventuras de Tintim, disse que o protagonista daquela ótima animação era muito parecido com Indiana Jones. Tintim era um repórter que conseguia ótimos furos de reportagem graças as suas investigações, enquanto Indy era um arqueólogo que encontrava os objetos históricos com o objetivo de leva-los para os museus, onde deveriam estar expostos para todos ficarem cientes de sua existência. Ambos os personagens, como falei na crítica, usavam suas aventuras dentro de suas profissões.
Apesar de fazer Indy brilhar em todos os filmes, os roteiros sempre conseguiram fazer outros personagens se destacarem, não deixando o protagonista levar a franquia nas costas sozinho. Seus grandes amigos Sallah e Marcus Brody, interpretados respectivamente por John Rhys-Davies e Denholm Elliot, sempre aparecem divertidos em Os Caçadores da Arca Perdida e Indiana Jones e a Última Cruzada. O eterno amor de Indy, Marion Ravenwood, interpretada por Karen Allen em Os Caçadores da Arca Perdida e O Reino da Caveira de Cristal, e o filho do herói, Mutt Williams, que teve o rosto de Shia LaBeouf apenas em O Reino da Caveira de Cristal por enquanto, também são outros destaques. Short Round, interpretado por Jonathan Ke Quan em Indiana Jones e o Templo da Perdição, também não deve ser esquecido. Mas certamente a maior personagem da franquia depois de Indy é seu pai, Henry Jones, que ganhou toda a experiência e carisma do grande Sean Connery. O relacionamento entre pai e filho, aliás, foi bem tratado pelo roteiro, seguindo a figura do pai ausente, algo bastante recorrente na carreira de Steven Spielberg.
Sempre contando com a trilha sonora espetacular do mestre John Williams e nunca perdendo seu chapéu ao longo de toda a franquia, Indiana Jones é um personagem que ainda tem muito potencial, e um quinto longa está sendo planejado. Se ele se concretizará, só o tempo dirá.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

O filme sueco Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, baseado no livro de Stieg Larsson (que não li ainda), tinha uma história bastante chamativa, mas que não conseguia ser muito envolvente, além de ter um protagonista desinteressante, o que resultou em uma produção apenas mediana. O filme fez sucesso e, como de costume, Hollywood resolveu fazer sua própria versão do livro. Mas Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres não é uma refilmagem qualquer. Estamos falando de um filme de David Fincher. E isso é apenas um dos elementos que tornam essa versão infinitamente superior a sueca.
Escrito por Steven Zaillian, o roteiro de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres segue o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig), que aceita investigar o caso de Harriet Vanger, sobrinha de Henrik Vanger (Christopher Plummer), desaparecida há 40 anos. Henrik suspeita que a pessoa que causou o desaparecimento da menina é da própria família, e em troca dos trabalhos de Blomkvist propõe entregar informações que o ajudariam em outro caso. Ao mesmo tempo, somos apresentados a hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara), a melhor investigadora da empresa Milton Security. Mikael descobre que está atrás de um assassino de mulheres, o que o faz precisar de ajuda no caso de Harriet. Mikael contrata Lisbeth como assistente, e juntos descobrem grandes segredos na família Vanger.
Iniciando o filme com créditos iniciais fantásticos e que mostram o mundo brutal no qual mergulharemos minutos depois, David Fincher coloca um incrível clima de suspense ao longo de todo filme, algo que ele faz melhor do que ninguém. O diretor ainda mostra não ter piedade do público, explorando ao máximo os momentos mais pesados do filme, como uma cena de tortura, que é brilhantemente executada. Nem Mikael aguenta a violência, pedindo para Lisbeth parar de mostrar as fotos dos assassinatos cometidos pelo suspeito do caso de Harriet.
Seguindo cada passo de seus protagonistas até o momento em que eles se encontram, Fincher consegue apresentar eles muito bem, além de estabelecer como cada um leva sua vida. Apesar de ter sua reputação destruída por ser declarado culpado em um caso de difamação contra Hans-Erik Wennerström, Mikael leva uma vida bastante tranquila durante boa parte do tempo. Isso se mantém até mesmo quando ele começa a investigar o caso de Harriet, do qual ele tem acesso livre para fazer e perguntar o que quiser.
Já Lisbeth é cheia de problemas, algo que pode ser refletido até no visual da garota, cheia de tatuagens e piercings. Ela é considerada incapaz de viver independentemente, sendo obrigada a ficar sob a tutela do Estado. E mais um problema surge quando seu guardião sofre um derrame e ela tem sua situação controlada pelo advogado Nils Bjurman, já que este guardião temporário revela ser muito repugnantemente abusivo. Dessa maneira, quando Mikael e Lisbeth se encontram pela primeira vez ocorre um belíssimo choque de personalidades, já que ambos mostram não estar muito confortáveis na presença um do outro.
Fincher ao lado de seu diretor de fotografia, Jeff Cronenweth (merecidamente indicado ao Oscar da categoria), investe bastante em uma paleta de cores escuras, que transforma aquele mundo em um lugar hostil, tenso e cheio de desconfiança, absolutamente perfeito para a história. Esse visual muda apenas nas sequências em flashback, que mostram a época em que Harriet sumiu. Nesses momentos, a fotografia passa a ser repleta de cores quentes, que exaltam a aparente felicidade da família Vanger, e quando voltamos para os dias atuais Fincher consegue passar muito bem a ideia de que o desaparecimento da garota foi uma tragédia que mudou a vida de todos tristemente. Isso fica mais óbvio quando vemos Henrik falar mal de todos os membros da família, menos de Harriet, transformando ela em uma espécie de anjo.
A montagem dos sempre eficientes Angus Wall e Kirk Baxter (também lembrados no Oscar) se destaca não só por conseguir acompanhar Mikael e Lisbeth ao mesmo tempo durante grande parte da projeção (pelos meus cálculos, eles se conhecem depois de mais de uma hora de filme) como também coloca um ritmo frenético ideal nas cenas de ação. Mas um de meus momentos favoritos no longa é a sequência na qual Mikael está estudando os relatórios do caso e começa a marcar algumas passagens que acha importante para a investigação. É interessante por que vemos um flashback de cada uma dessas passagens enquanto ele faz seu trabalho. O uso de fusões empregado nesta sequência pela dupla de montadores ajuda a fazer com que os flashbacks surjam naturalmente.
Interpretando Mikael Blomkvist com grande competência, Daniel Craig traz um grande peso para o personagem, além de conseguir mostrar como ele se sente exausto em certos momentos do filme. O roteiro merece pontos por tratar Mikael não como um grande gênio da investigação, e sim como um jornalista inteligente, mas passivo ao erro, o que o torna mais humano. Entre os coadjuvantes, Christopher Plummer faz de Henrik uma figura carismática, ao passo que Stellan Skarsgård e Joely Richardson aparecem eficientes como os misteriosos Martin e Anita Vanger.
Mas quem surpreende e se torna o grande destaque do elenco Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é Rooney Mara. Sua Lisbeth Salander fala apenas o necessário e a atriz profere seus diálogos com grande rapidez (lembrando, às vezes, Jesse Eisenberg em A Rede Social), como se quisesse se livrar imediatamente das palavras que ocupam sua cabeça. A personagem mantém foco total nas investigações, e ela aparecer sempre comendo alimentos feitos instantaneamente (massas e fast-foods) mostra que Lisbeth não gosta de perder tempo com outras coisas fora de seu campo de trabalho. A cena em que ela dá o troco em Nils por este ter abusado sexualmente dela é um exemplo perfeito de uma atriz em pleno controle de sua personagem, e fico feliz em ver que a Academia reconheceu essa grande atuação.
É bom ver David Fincher de volta a filmes do mesmo estilo de Seven, uma de suas obras-primas. Sendo este Os Homens Que Não Amavam as Mulheres um grande filme, Fincher mostra mais uma vez que é um dos melhores diretores da atualidade.
Cotação:

Oscar 2012 - Indicados

Foram anunciados hoje os indicados a 84ª edição do Oscar. Com as mudanças nas regras na categoria de Melhor Filme, que passou de dez indicados para a possibilidade de ter cinco a dez filmes concorrendo, tivemos nove lembranças, sendo as grandes surpresas a inclusão de Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry, que estava sendo ignorado nessa temporada de premiações, e a ausência inexplicável de Tudo Pelo Poder, de George Clooney, que teve sua única indicação em Melhor Roteiro Adaptado. Os filmes que lideram em número de indicações são A Invenção de Hugo Cabret, com onze indicações, e O Artista, com dez.
Outras surpresas foram vistas, estas que comentarei um pouco desagradáveis. O que me chamou mais atenção foi na categoria Melhor Animação. As Aventuras de Tintim, considerado o favorito para levar o prêmio, foi ignorado assim como o ótimo Operação Presente. Estes foram esquecidos e os medianos Kung Fu Panda 2 e Gato de Botas foram lembrados, o que parece facilitar a vida do genial Rango.
O Brasil ficou de fora na categoria Melhor Filme Estrangeiro, mas seremos representados por Sergio Mendes e Carlinhos Brown, indicados para Melhor Canção pela animação Rio.
Outros dois filmes que acho que deveriam estar indicados em mais categorias são O Espião Que Sabia Demais (indicado em três categorias, sendo uma delas o merecido reconhecimento de Gary Oldman em Melhor Ator) e Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (indicado em cinco categorias, sendo uma delas Melhor Atriz para Rooney Mara, sensacional no filme).
No resto, tudo ocorreu conforme mais ou menos previsto.
Eis a lista completa de indicados:
Melhor Filme
O Artista
Os Descendentes
Tão Forte e Tão Perto
Histórias Cruzadas
A Invenção de Hugo Cabret
Meia-Noite em Paris
O Homem Que Mudou o Jogo
A Árvore da Vida
Cavalo de Guerra
Melhor Direção
Woody Allen, por Meia-Noite em Paris
Michel Hazanavicius, por O Artista
Terrence Malick, por A Árvore da Vida
Alexander Payne, por Os Descendentes
Martin Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Ator
Demián Bichir, por A Better Life
George Clooney, por Os Descendentes
Jean Dujardin, por O Artista
Gary Oldman, por O Espião Que Sabia Demais
Brad Pitt, por O Homem Que Mudou o Jogo
Melhor Atriz
Glenn Close, por Albert Nobbs
Viola Davis, por Histórias Cruzadas
Rooney Mara, por Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Meryl Streep, por A Dama de Ferro
Michelle Williams, por Sete Dias com Marilyn
Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh, por Sete Dias com Marilyn
Jonah Hill, por O Homem Que Mudou o Jogo
Nick Holte, por Guerreiro
Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor
Max von Sydow, por Tão Forte e Tão Perto
Melhor Atriz Coadjuvante
Bérénice Bejo, por O Artista
Jessica Chastain, por Histórias Cruzadas
Melissa McCarthy, por Missão Madrinha de Casamento
Janet McTeer, por Albert Nobbs
Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas
Melhor Roteiro Original
Michel Hazanavicius, por O Artista
Kristen Wiig e Annie Mumolo, por Missão Madrinha de Casamento
J.C. Chandor, por Margin Call: O Dia Antes do Fim
Woody Allen, por Meia-Noite em Paris
Asghar Farhadi, por A Separação
Melhor Roteiro Adaptado
Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash, por Os Descendentes
John Logan, por A Invenção de Hugo Cabret
George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, por Tudo Pelo Poder
Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin, por O Homem Que Mudou o Jogo
Bridget O’Connor e Peter Straughan, por O Espião Que Sabia Demais
Melhor Animação
Um Gato em Paris, de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli
Chico e Rita, de Fernando Trueba e Javier Mariscal
Kung Fu Panda 2, de Jennifer Yuh
Gato de Botas, de Chris Miller
Rango, de Gore Verbinski
Melhor Filme Estrangeiro
Bullhead, de Michael R. Roskam (Bélgica)
Footnote, de Joseph Cedar (Israel)
In Darkness, de Agnieszka Holland (Polônia)
Monsieur Lazhar, de Philippe Falardeau (Canadá)
A Separação, de Asghar Farhadi (Irã)
Melhor Fotografia
Guillaume Schiffman, por O Artista
Jeff Cronenweth, por Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Robert Richardson, por A Invenção de Hugo Cabret
Emmanuel Lubezski, por A Árvore da Vida
Janusz Kaminski, por Cavalo de Guerra
Melhor Montagem
Anne-Sophie Bion e Michel Hazanavicius, por O Artista
Kevin Tent, por Os Descendentes
Angus Wall e Kirk Baxter, por Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Thelma Schoonmaker, por A Invenção de Hugo Cabret
Christopher Tellefsen, por O Homem Que Mudou o Jogo
Melhor Direção de Arte
Laurence Bennett e Robert Gould, por O Artista
Stuart Craig e Stephenie McMillan, por Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2
Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo, por A Invenção de Hugo Cabret
Anne Seibel e Hélène Dubreuil, por Meia-Noite em Paris
Rick Carter e Lee Sandales, por Cavalo de Guerra
Melhor Figurino
Lisy Christl, por Anonymous
Mark Bridges, por O Artista
Sandy Powell, por A Invenção de Hugo Cabret
Michael O´Connor, por Jane Eyre
Arianne Phillips, por W.E. - O Romance do Século
Melhor Maquiagem
Martial Corneville, Lynn Johnson e Matthew W. Mungle, por Albert Nobbs
Nick Dudman, Amanda Knight e Lisa Tomblin, por Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2
Mark Coulier e J. Roy Helland, por A Dama de Ferro
Melhor Trilha Sonora
John Williams, por As Aventuras de Tintim
Ludovic Bource, por O Artista
Howard Shore, por A Invenção de Hugo Cabret
Alberto Iglesias, por O Espião Que Sabia Demais
John Williams, por Cavalo de Guerra
Melhor Canção
“Man or Muppet”, de Os Muppets. Letra e música de Bret McKenzie
“Real in Rio”, de Rio. Letra Siedah Garret, música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown
Melhor Mixagem de Som
David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Bo Persson, por Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Tom Fleischman e John Midgley, por A Invenção de Hugo Cabret
Deb Adair, Ron Bochar, Dave Giammarco e Ed Novick, por O Homem Que Mudou o Jogo
Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Peter J. Devlin, por Transformers: O Lado Oculto da Lua
Gary Rydstrom, Andy Nelson, Tom Johnson e Stuart Wilson, por Cavalo de Guerra
Melhor Montagem de Som
Lon Bender e Victor Ray Ennis, por Drive
Ren Klyce, por Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Philip Stockton e Eugene Gearty, por A Invenção de Hugo Cabret
Ethan Van der Ryn e Erik Aadahl, por Transformers: O Lado Oculto da Lua
Richard Hymns e Gary Rydstrom, por Cavalo de Guerra
Melhores Efeitos Visuais
Tim Burke, David Vickery, Greg Butler e John Richardson, por Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2
Rob Legato, Joss Williams, Ben Grossman e Alex Henning, por A Invenção de Hugo Cabret
Erik Nash, John Rosengrant, Dan Taylor e Swen Gillberg, por Gigantes de Aço
Joe Letteri, Dan Lemmon, R. Christopher White e Daniel Barrett, por Planeta dos Macacos: A Origem
Dan Glass, Brad Friedman, Douglas Trumbull e Michael Fink, por Transformers: O Lado Oculto da Lua
Melhor Documentário
Danfung Dennis e Mike Lerner, por Hell and Back Again
Marshall Curry e Sam Cullman , por If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front
Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, por Paradise Lost 3: Purgatory
Wim Wenders e Gian-Piero Ringel , por Pina
T.J. Martin, Dan Lindsay e Richard Middlemas, por Undefeated
Melhor Curta Documentário
Robin Fryday e Gail Dolgin, por The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement
Rebecca Cammisa e Julie Anderson, por God is the Bigger Elvis
James Spione, por Incident in New Baghdad
Daniel Junge e Sharmeen Obaid-Chinoy, por Saving Face
Lucy Walker e Kira Carstensen, por The Tsunami and The Cherry Blossom
Melhor Curta Metragem de Animação
Patrick Doyon, por Dimanche
William Joyce e Brandon Oldenburg, por The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
Enrico Casarosa, por La Luna
Grant Orchard e Sue Goffe, por A Morning Stroll
Amanda Forbis e Wendy Tilby, por Wild Life
Melhor Curta Metragem
Peter McDonald e Eimear O'Kane, por Pentecost
Max Zähle e Stefan Gieren, por Raju
Terry George e Oorlagh George, por The Shore
Andrew Bowler e Gigi Causey, por Time Freak
Hallvar Witzø, por Tuba Atlantic
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A cerimônia será no dia 26 de fevereiro.

sábado, 21 de janeiro de 2012

2 Coelhos

Já está sendo algo comum o cinema brasileiro pegar algumas coisas de Hollywood. Podemos perceber isso em muitos filmes, desde os dois fracos Se Eu Fosse Você até o ótimo O Homem do Futuro, passando pelo pavoroso Assalto ao Banco Central e a vergonha alheia Segurança Nacional. A influência do cinema americano nesses filmes é bastante óbvia, e geralmente resulta em má qualidade. O que nos faz chegar a 2 Coelhos, mais uma exceção a regra. É uma produção que bebe da fonte hollywoodiana de fazer filmes, mas não é apenas um mero exercício de estilo, tendo também o propósito de montar uma narrativa envolvente e interessante.
Escrito e dirigido pelo estreante Afonso Poyart, 2 Coelhos nos apresenta a Edgar (Fernando Alves Pinto), jovem inteligente com um grande plano para tirar dois milhões de dólares do grupo liderado por Maicon (Marat Descartes). A armação de Edgar envolve ainda o deputado corrupto Jader (Roberto Marchese), a promotora de justiça Julia (Alessandra Negrini), o ex-professor Walter (Caco Ciocler) e a dupla de ladrões Velinha (Thaíde) e Clayton (Robson Nunes). Ao longo do filme, as histórias dos personagens vão revelando estar mais interligadas do que aparentam e o plano cada vez mais mirabolante.
Adotando uma estrutura narrativa que segue várias histórias a fim de nos mostrar todos os envolvidos no plano de Edgar, o roteiro de Poyart mostra ser um desafio para a montagem, realizada por ele, André Toledo e Lucas Gonzaga. O diretor-roteirista desenvolve sua história, mas sempre que chega a um ponto importante, ele interrompe a ação e nos mostra como os personagens chegaram até ali (algo que Guy Ritchie fez em seus filmes de Sherlock Holmes), usando ainda a narração em off de Edgar, que às vezes aparece explicativa demais. É uma opção que deixa o filme mais curioso de se assistir, e, portanto, mais envolvente.
Algo que não falta em 2 Coelhos são tipos de linguagem. Afonso Poyart usa diversos formatos para contar sua história, desde animações até o estilo mockumentary (que, aliás, traz depoimentos sobre o protagonista que formam uma rima divertida entre o início e o fim do filme). Cada um desses tipos de linguagem aparece no filme naturalmente e fazem de 2 Coelhos uma experiência fascinante do ponto de vista estético. Por exemplo, nos ataques de pânico de Julia, o diretor usa desenhos de pequenos animais para mostrar a imaginação da personagem ao tentar se acalmar. Quando ela não consegue, eles a atacam como monstros, e o modo como um remédio faz resultado nessa imaginação é sensacional. Estas sequências “imaginativas” fazem lembrar muito 300 e Sucker Punch, ambos de Zack Snyder, até pela fotografia empregada por Carlos Zalasik.
Aliás, Snyder parece ter servido de grande inspiração para Afonso Poyart. É difícil não lembrar desse diretor nas cenas em câmera lenta. Mas é bom ver que Poyart só utiliza este efeito para fazer a ação do filme ter um impacto maior do que teria normalmente. Outro elemento que torna 2 Coelhos uma obra interessante é o fato de o diretor fazer rabiscos em alguns momentos do filme, como pequenos desenhos em cima do protagonista, revelando um pouco da personalidade dele e como leva sua vida.
Poyart ainda cria sequências de ação empolgantes. Logo no início, ele mostra um sensor de proximidade que, além de mostrar a inteligência do protagonista, ainda acaba tendo papel importante em uma perseguição de carros. E as cenas de tiroteio também são muito eficientes, destaque para a que acontece no apartamento de Maicon, um dos vários usos impactantes da câmera lenta.
O uso da canção “Kings and Queens”, da banda 30 Seconds to Mars, também mostra ter um propósito interessante. Apesar de ter um ritmo que não combina muito com o filme, enjoando ao ser tocada quatro vezes em diferentes pontos da história, a canção serve para ressaltar a felicidade que os personagens sentem em certos momentos. Além disso, ela conecta muito bem as histórias de Edgar e Walter, que é marcada por uma tragédia. Uma pena, no entanto, que o roteiro não desenvolva muito bem o relacionamento entre os dois personagens. Edgar diz em certo momento que a vida de Walter pode ser definida como AE e DE (antes de Edgar e depois de Edgar). Nós vemos como a relação deles começou, mas o que acontece mais adiante não é mostrado, o que não deixa muito claro como as coisas aconteceram para que os dois se encontrem na situação do terceiro ato do filme.
O elenco de 2 Coelhos também merece destaque. Fernando Alves Pinto traz grande carisma para Edgar, enquanto que Alessandra Negrini sempre muito forte interpretando Julia. Enquanto isso, Marat Descartes faz de Maicon um vilão simpático no início (algo ressaltado até mesmo por Edgar, em uma sequência que lembra os primeiros filmes da história do cinema), mas que revela sua maldade ao longo do filme. E se Thaíde e Robson Nunes demonstram uma boa química como a dupla Velinha e Clayton, Caco Ciocler tem em Walter um personagem que fala em poucas cenas, mas que é marcante por ter uma participação maior do que pensamos no plano de Edgar.
O cinema brasileiro começou mal o ano com As Aventuras de Agamenon: O Repórter (filme que não assisti ainda, mas que só escuto comentários de que é o pior do ano). Mas aos poucos, acredito que seremos recompensados com um cinema de qualidade. 2 Coelhos é o primeiro da lista. Que venham os próximos.
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