sábado, 5 de setembro de 2015

The Death of "Superman Lives": What Happened?

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Em uma época na qual Batman estava sendo cinematograficamente sepultado graças aos filmes dirigidos por Joel Schumacher, circulava na Warner o projeto de trazer Superman de volta às telonas, anos depois do fracasso de Superman IV: Em Busca da Paz. Intitulado Superman Lives, o filme seria dirigido por Tim Burton, ao passo que Nicolas Cage havia sido o escolhido para encarnar o Homem de Aço. A produção estava quase pronta para começar seus trabalhos em frente às câmeras quando, repentinamente, foi cancelada pelo estúdio, mantendo o herói longe dos cinemas por mais alguns anos (ele só voltaria em 2006, com o fraco Superman: O Retorno). Mas o projeto nunca foi totalmente esquecido, como prova este The Death of “Superman Lives”: What Happened?, documentário feito por Jon Schnepp.

No filme, Schnepp busca investigar como Superman Lives seria, o que poderia ter representado e os motivos que levaram ao seu cancelamento. Para isso, o diretor tem acesso irrestrito a praticamente todo o material de pré-produção do filme, desde artes conceituais e vídeos de testes de figurino até os três roteiros que foram desenvolvidos, além de entrevistar grande parte dos envolvidos no projeto, como Tim Burton e os roteiristas Kevin Smith, Wesley Strick e Dan Gilroy.
É um ótimo material de bastidores, e a partir dele o documentarista consegue explorar bem o processo criativo do projeto frustrado, mostrando a visão que havia por trás da história e até que ponto os produtores controlavam seu desenvolvimento. Esse detalhe, aliás, rende um momento divertido no qual Kevin Smith fala das regras impostas pelo produtor Jon Peters. Mas um dos méritos de The Death of “Superman Lives” é mostrar que, por mais inusitadas que fossem certas escolhas para aquele filme, este ainda poderia ter sido interessante. A maneira existencialista como Tim Burton queria abordar o herói fazia sentido (por coincidência ou não, a ideia veio a ser explorada no recente O Homem de Aço), enquanto que Nicolas Cage parecia capaz de dar conta do papel e toda a equipe técnica estava empenhada em realizar algo que fizesse jus ao herói. Aliás, é visível o quão marcante a produção foi para seus envolvidos, que sentem uma clara frustração por terem visto seu trabalho ser jogado fora. Tim Burton, por exemplo, chega a dizer que fica meio depressivo só de pensar nele.
No entanto, apesar da riqueza do material, é lamentável que Jon Schnepp quase sabote o próprio filme ao se revelar parte da escola Morgan Spurlock de documentaristas (e não é surpresa ver o nome do diretor de Super Size Me, 2004, listado entre os produtores associados). Ao longo de The Death of “Superman Lives”, o realizador mostra um desejo compulsivo de aparecer, surgindo na tela quase o tempo todo, como ao ficar ao lado de seus entrevistados durante as conversas, de forma que em determinados momentos ele até parece chamar atenção para si mesmo, como se estivesse tentando se inserir em uma história da qual não faz parte. O ápice do egocentrismo de Schnepp ocorre quando Jon Peters precisa atender um telefonema e vemos o diretor aproveitar para beber água, algo que não tem nada a ver com o filme, não servindo nem por um lado cômico e pausando a narrativa desnecessariamente.
Superman Lives poderia ter sido uma bomba homérica ou poderia ter adiantado o impacto causado por Batman nas mãos de Christopher Nolan. Nunca saberemos ao certo, e a curiosidade com relação a isso é frustrante, principalmente se considerarmos que o dinheiro gasto com grandes fracassos poderia ter sido usado nele. Resta nos contentarmos com o fato de sua história ao menos render um documentário satisfatório, mas que certamente seria mais interessante nas mãos de um cineasta com um pouco mais de noção.
Nota:


Shocker: 100.000 Volts de Terror

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Não seria nem um pouco surpreendente se o roteiro de Shocker: 100.000 Volts de Terror, filme que Wes Craven lançou em 1989, tivesse sido concebido como uma continuação de A Hora do Pesadelo, mas que o diretor decidiu retrabalhar, no fim das contas, para ter em mãos algo original. Assim como na franquia de Freddy Krueger, os sonhos desempenham papel importante na história centrada num maníaco assassino que ataca suas vítimas de maneira atípica (na falta de definição melhor). Aliás, a produção é conhecida por ter sido uma tentativa de Craven de emplacar uma nova franquia dentro do subgênero slasher, seguindo o estilo de longas como o próprio A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. Mas, é um alívio constatar que o plano do diretor acabou não dando certo, porque este é, sem dúvida, um dos piores trabalhos de sua carreira.

No filme, o manco técnico de TV Horace Pinker (Mitch Pileggi) é responsável pela morte de várias pessoas. O detetive que está investigando os assassinatos é Don Parker (Michael Murphy), cuja esposa e dois filhos são mortos por Pinker. Mas, o outro filho dele, Jonathan (Peter Berg), descobre que consegue prever os ataques de Pinker por meio de seus sonhos, o que lhe dá uma pista para o esconderijo do serial killer. Quando este é preso, a cadeira elétrica acaba sendo seu destino, mas não antes dele fazer um pacto com o diabo. Assim, Pinker não morre na execução, tornando-se um espírito capaz de possuir outras pessoas e se locomover através da eletricidade, habilidades que ele utiliza para ir atrás de Jonathan.
Por mais absurda que seja a premissa de Shocker, ela não chega a ser particularmente bizarra para um filme de terror. Contudo, a forma como Wes Craven a desenvolve é inacreditável, no pior sentido da palavra. Quando o diretor usa o poder de seu vilão para que ele possua o corpo de uma garotinha que, então, vemos sair mancando e falando palavrões, fica claro que ele perdeu a noção do ridículo. Essa nem é a cena mais esdrúxula do longa que, algum tempo depois, traz Pinker dizendo que não conseguiu possuir um personagem porque este gostava muito de Jonathan, em uma tentativa nada eficaz de querer regrar algo que não precisa disso. E adivinhem? Essa ainda não é a parte mais risível do filme. Pena ele não ser uma comédia.
Shocker é uma daquelas produções que se supera. Quando pensamos que não pode ficar pior, ela fica. Realmente parece que estamos vendo o filme de um diretor não sabe o que está fazendo. E estamos falando de um realizador cujo talento para o terror ficou mais que comprovado ao longo dos anos. Em determinado momento, Shocker até desiste de querer fazer sentido, chegando a usar os sonhos como uma forma preguiçosa de recuperar objetos, algo que funcionaria se estivéssemos falando do universo de Freddy Krueger.
Levando tudo isso em conta, nem é preciso dizer que Shocker carece de qualquer tensão, se é possível dizer que Wes Craven tenta inserir isso na narrativa. Pior, o filme quer que torçamos por Jonathan, um personagem aborrecido e interpretado sem carisma por Peter Berg, hoje mais conhecido por seu trabalho de direção em produções como Tudo Pela VitóriaBattleship: A Batalha dos Mares, e O Grande Herói. O mesmo pode ser dito do vilão, encarnado de maneira amalucadamente exagerada por Mitch Pileggi, que se esforça para mostrar toda a insanidade de Pinker, sem, contudo, impedi-lo de cair no ridículo.
Wes Craven errou feio em Shocker. Trata-se de uma bobagem bagunçada e indefensável, em que o diretor não dá nem sinais das coisas boas que é capaz de fazer. Não à toa, é uma produção merecidamente relegada ao esquecimento. Esperamos que permaneça assim.
Nota:


Últimos Dias

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Filme que finaliza a chamada “Trilogia da Morte” de Gus Van Sant, Últimos Dias, assim como seus antecessores (Gerry e Elefante), apresenta uma história ficcional inspirada numa tragédia real, seguindo os momentos que antecedem a respiração final de seus personagens. Aqui, ele acompanha os últimos dias de vida de um músico claramente baseado em Kurt Cobain, morto em 1994. No entanto, o fato do roteiro ser apenas fundamentado no líder do Nirvana dá uma liberdade interessante a Van Sant para desenvolver os eventos. E se não chegamos a ver a vida de Cobain, sobretudo como ela foi na reta final, acabamos tendo uma versão do que leva alguém como ele a morrer tão precocemente.

Últimos Dias se concentra em Blake (Michael Pitt), músico que claramente perdeu quaisquer propósitos de sua vida, não conseguindo arrancar muitos prazeres dela. Nadar livremente em um rio, por exemplo, já não é relaxante, representando apenas mais um vazio. “Eu perdi algo no caminho para onde quer que eu esteja hoje”, ele diz. Vagando por uma floresta ou por sua mansão sem destino certo, até porque não há mais nenhum, Blake se isola, evitando as pessoas ao seu redor e se entregando ao cansaço e à pressão que sente, seja da fama, das drogas ou até de si mesmo.
Investindo quase sempre em planos longos (e até planos-sequência) para contar a melancólica jornada de Blake, Gus Van Sant desenvolve uma narrativa cujas cenas têm uma dinâmica natural, passando uma interessante impressão de realismo, marca registrada, por exemplo, em Elefante, do qual ele resgata a técnica de mostrar cenas por mais de um ângulo. Assim, Van Sant consegue explorar não só a visão do protagonista, mas também a de seus amigos, como agem e se sentem com relação a ele, criando um retrato um pouco mais completo de seu universo. Além disso, a decisão do diretor de manter a câmera afastada de Blake na maior parte do tempo se revela inteligente, pois serve para limitar nossa entrada em seu mundo, detalhe que, somado à proporção de tela utilizada (1.37:1), contribui para sua introspecção.
Blake está exausto. Nada do que surge em seu caminho chama a atenção, seja a fala de um representante das Páginas Amarelas ou um amigo colocando deliberadamente a mão em seu bolso e pegando seu dinheiro. Para a filha pequena ele já disse o que precisava, mesmo que tenha sido pelo telefone. Na verdade, Blake está mais que exausto. Ele já está morto, mas à espera do trem definitivo rumo ao infinito (se este existir). A atuação do talentoso Michael Pitt é essencial para que as emoções do personagem fiquem sempre claras. Praticamente sem poder utilizar o rosto para sua composição, já que ele constantemente fica escondido por seu cabelo e Van Sant faz questão de não fazer close ups, Pitt tem em seu jeito avoado e sonolento, que inclui postura encurvada e voz arrastada, seu principal instrumento para transmitir os sentimentos de Blake, algo que ele usa com extrema competência. E o fato do personagem aparecer murmurando coisas para si mesmo mostra o quanto ele parece reprimir os próprios pensamentos, liberando-os apenas quando canta. Sendo assim, seus dois momentos musicais se destacam, representando desabafos libertadores.
Gus Van Sant não busca fazer grandes reflexões com a jornada de Blake (ou Kurt Cobain, se preferirem), e isso não é particularmente necessário. Seguir o personagem em sua espera quase silenciosa pelo inevitável acaba sendo o suficiente para formar uma história com grande peso emocional. Como resultado, Último Dias revela-se um trabalho consistente na carreira de seu diretor.
Nota:


A História do Mundo: Parte 1

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Orson Welles começa a narrar a história de nossos antepassados enquanto "Also Sprach Zarathustra", de Richard Strauss (música que marcou 2001: Uma Odisseia no Espaço), surge ao fundo. Em cena, vemos alguns macacos se levantarem, tornando-se homens, como diz nosso narrador. É então que, após erguer as mãos, como se tocassem o céu que cobre suas cabeças, os macacos inesperadamente começam a… se masturbar. Essa é a primeira cena de A História do Mundo: Parte 1, sétimo trabalho de Mel Brooks no cinema, momento que apresenta muito bem o que teremos ao longo do filme. Vemos o diretor brincar com nossa própria História, não tendo medo de apostar em piadas sujas em meio às várias sacadas que tem ao longo da narrativa, sendo bem-sucedido, assim apresentando um exemplar divertidíssimo em sua respeitável filmografia.

A História do Mundo: Parte 1 é uma antologia dividida em cinco partes, cada uma parodiando uma época importante de nossos passos por este mundo: Idade da Pedra, Antigo Testamento, Império Romano, Inquisição Espanhola e Revolução Francesa. Algumas são curtas, se aproximando de verdadeiros esquetes, enquanto outras são um pouco mais elaboradas, possuindo até mesmo tramas bem definidas. E, claro, todas têm a trupe de rostos conhecidos da filmografia do diretor, como Madeline Kahn, Dom DeLuise, Harvey Korman, Ron Carey e Cloris Leachman, além do próprio, que aparece em todos os episódios interpretando personagens diferentes.
Mesmo tratando de coisas distintas, todos os segmentos têm algo em comum, e este é o talento de Mel Brooks para divertir o público, a aposta no mais puro nonsense que cria belas piadas com seus personagens. As falas de duplo sentido da imperatriz romana Ninfo (interpretada por Kahn) são hilárias, assim como os diálogos que Brooks desenvolve para cenas como a da Última Ceia (que até conta com uma participação especial de John Hurt na pele de Jesus) e da pequena reunião dos revolucionários franceses. E se segmentos curtos como a Idade da Pedra e o Antigo Testamento são eficientes, trazendo uma gag para cada elemento tratado (o surgimento da arte e do crítico é ótimo), punchlines como “É bom ser o rei” e “Dez mandamentos para todos obedecerem” representam alguns dos grandes momentos do filme.
Tudo isso é conduzido com uma energia admirável por Mel Brooks, que caçoa sem dó nem piedade das épocas mostradas. A Inquisição Espanhola, por exemplo, se resume a um grande número musical cuja produção não faz feio diante daquelas da Broadway, divertindo por conta do diretor apontar o absurdo por trás das torturas e outras coisas horríveis do período. Assim, figuras como Tomás de Torquemada (interpretado pelo próprio Brooks) viram verdadeiras caricaturas. O mesmo ocorre com o Império Romano e a Revolução Francesa (os episódios mais longos) e o modo como trata os poderosos e o descaso com os pobres. Contar com a voz imponente de Orson Welles para narrar o filme é uma ótima sacada, já que causa um contraste divertido entre o dito e a loucura que está acontecendo.
Ao final de A História do Mundo: Parte 1, Mel Brooks insere uma pequena prévia do que poderíamos ver numa segunda parte, que inclui desde Adolf Hitler patinando no gelo até uma versão de Star Wars com judeus. Considerando o trabalho feito aqui, é uma pena que o diretor não tenha levado adiante a possível continuação, já que possibilidades não faltavam para ele nos fazer rir mais uma vez com sua visão divertida de nossa História.
Nota:


Playtime: Tempo de Diversão

(Crítica originalmente publicada no Papo de Cinema)

Playtime: Tempo de Diversão é um filme que continua impressionante mesmo depois de quase 50 anos de seu lançamento. Revelando uma ambição até rara de se ver em comédias, a produção dirigida por Jacques Tati conta com uma escala grandiosa para envolver o público numa narrativa complexa que mostra muito da visão de mundo do cineasta. Isso em momento algum impede o filme de divertir imensamente, sendo que ele faria uma belíssima sessão dupla com Tempos Modernos.

Playtime não tem uma história e nem segue uma narrativa clássica. O que se vê durante o filme é Jacques Tati, basicamente usando seu famoso alterego Sr. Hulot, e um grupo de turistas americanas, em especial a bela Barbara (Barbara Dennek), para guiar o público por uma Paris ultramoderna e bem desenvolvida. A partir disso, o diretor monta a estrutura do longa inserindo os personagens em situações que ancoram comentários dele com relação à sociedade e à modernização através dos tempos.
Tais situações vêm em forma de longas setpieces conduzidas não só com inteligência, mas também com uma precisão genial, já que muitas coisas acontecem em cena e o diretor nunca perde o controle da ação, conseguindo o feito de divertir das mais diversas maneiras. Assim, vale dizer que poucas vezes os figurantes (se é que devemos chama-los desse jeito) tiveram tanta importância e foram tão bem utilizados. Seja pelos efeitos sonoros (uma pessoa caminhando chama a atenção com seus passos antes de entrar em cena) ou pelas gags visuais formidáveis (um garçom parece estar regando flores ao invés de apenas servir champanhe), o que Tati realiza aqui é absolutamente admirável em sua aula de mise en scène. Merece destaque o fato de algumas piadas se estenderem criativamente no meio de tudo isso, como quando o Sr. Hulot quebra a porta de vidro de um restaurante e os funcionários tentam manter as aparências, fingindo que nada aconteceu, desencadeando momentos divertidíssimos. Aliás, a sequência do restaurante é o ápice da narrativa, durando quase toda a segunda metade do filme e fazendo rir com a loucura que toma conta do estabelecimento.
Se tudo isso diverte, em parte se deve ao fato de Jacques Tati apontar como há coisas absurdas ao nosso redor e até mesmo na nossa forma de agir, tornando fácil o processo de identificação do público com o que é colocado na tela. Aqui também é impossível não destacar o excepcional design de produção. Quando o diretor foca uma sala envidraçada enorme num prédio comercial e a decora com poucos quadros e móveis, é como se ele dissesse que as pessoas têm a ambição para pensar em grande escala mesmo não tendo conteúdo suficiente para preencher isso. Já o restaurante até pode ter uma aparência chique que irá atender apenas os ricos, mas, à medida que avançamos e o lugar vai expondo sua verdadeira face, percebe-se que aquilo é madeira, tijolos e cimento, como em qualquer outro lugar. As pessoas se vestem para adequar-se àquele espaço, mas no fim fazem uma festa incrivelmente caótica.
Há uma sequência em Playtime que mostra quatro apartamentos que parecem verdadeiras vitrines para o público abrir um sorriso enquanto pratica voyeurismo, sendo que Tati filma os moradores como se eles próprios conseguissem entreter uns aos outros com o que fazem (outra ótima gag visual). Isso passa a ideia de que as pessoas gostam de se divertir conferindo a vida dos outros. Considerando que essa obra-prima usa seu grande universo e a rotina de seus habitantes para nos fazer rir, esse é um momento que a define muito bem. Como o próprio título original (ou o subtítulo que ganhou aqui no Brasil) indica, este é um perfeito tempo de diversão.
Nota:


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O Agente da U.N.C.L.E.

Kingsman, A Espiã Que Sabia de Menos, Missão Impossível 5. Não importa o gênero dos projetos, 2015 tem sido um belo ano para os espiões do cinema, rendendo produções que mantêm o público muito bem entretido e até empolgado com as missões de seus agentes. E para se juntar a este ótimo grupo temos agora O Agente da U.N.C.L.E., novo filme de Guy Ritchie que, assim como a franquia liderada por Tom Cruise, adapta uma série de TV da década de 1960, conseguindo bons resultados, principalmente, graças à dinâmica entre seus personagens.

Diferente do que ocorre em Missão Impossível e até mesmo em Agente 86, O Agente da U.N.C.L.E. não é uma adaptação moderna de seu material de origem, situando a trama na década de 1960. Nisso, somos apresentados ao agente da CIA Napoleon Solo (Henry Cavill), que ajuda a jovem Gaby Teller (Alicia Vikander) a fugir para a Alemanha Ocidental, mesmo com o agente da KGB Illya Kuryakin (Armie Hammer) em seu encalço. Mas logo depois os dois homens se veem obrigados a trabalhar juntos em uma missão, tendo a ajuda de Gaby para localizar e tentar impedir que o pai dela construa uma bomba atômica para o casal Victoria e Alexander Vinciguerra (Elizabeth Debicki e Luca Calvani, respectivamente). Só que lidar com suas diferenças é tão difícil para a dupla quanto a missão em si.

São nessas diferenças entre os personagens que reside boa parte da diversão do filme, e o fato de eles serem um americano e um russo em plena Guerra Fria é uma parte essencial disso. Vividos com carisma por Henry Cavill e Armie Hammer, Solo e Kuryakin mostram ser inteligentes e eficientes naquilo que fazem, mas é curioso como suas nacionalidades contribuem para que eles tenham um relacionamento birrento muito divertido, seja pela posição dos países no quadro mundial da época, algo que faz um tentar provar que é melhor que o outro, ou como as experiências deles os definiram como indivíduos. Se Cavill encarna Solo como um homem sedutor e que mantém a calma até nas piores situações, Hammer faz de Kuryakin alguém mais explosivo e que quase sempre precisa conter isso em suas ações. Já a Gaby da ótima Alicia Vikander (que depois da brilhante aparição em Ex Machina continua seu caminho rumo ao estrelato que merece) é muito mais do que um interesse amoroso ou um mero equilíbrio entre os dois homens, sendo uma mulher forte e tão inteligente quanto eles, o que apenas torna mais cativante a dinâmica entre todos.

Enquanto isso, Guy Ritchie resgata o charme dos filmes de espionagem sessentistas, aspecto no qual ele ganha o auxílio do design de produção de Oliver Scholl e da fotografia de John Mathieson. Ao mesmo tempo, Ritchie conduz com eficiência uma narrativa ágil, onde as cenas de ação prendem a atenção e conseguem divertir, como na sequência inicial envolvendo a fuga de Gaby e a outra com a invasão a um estaleiro cujo nível de segurança faria a vida de Ethan Hunt ser bem fácil. Aliás, um detalhe notável é como o roteiro, por vezes, dá aos personagens tarefas que combinam com suas personalidades. Dessa forma, se numa hora estamos em uma situação mais ou menos tranquila com Solo, na seguinte podemos ir à pura tensão com Kuryakin.

Caindo um pouco no terceiro ato, quando resolve mastigar demais a trama para o espectador, além de não escapar muito da obviedade, O Agente da U.N.C.L.E. ainda assim se revela uma grata surpresa. E, considerando que o filme termina com um pequeno gancho, acho que rever esses personagens em outras missões poderia ser interessante.

Nota:


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ricki and the Flash: De Volta Para Casa

O trailer de Ricki and the Flash foi um dos últimos que assisti antes de optar por deixar de lado essas peças de publicidade. Sendo quase um pequeno resumo, o vídeo dava a impressão de uma produção que não teria grandes novidades com relação à história, e durante a projeção é fácil confirmar isso. Por sorte, julgar filmes apenas pelo trailer não faz sentido nenhum, e esse novo trabalho do talentoso diretor Jonathan Demme (a quem serei eternamente grato por O Silêncio dos Inocentes) mostra ser capaz de contornar essa familiaridade da trama e render um bom filme no fim das contas.

Escrito por Diablo Cody (a conhecida roteirista por trás de Juno e Jovens Adultos), Ricki and the Flash nos apresenta a Ricki Randazzo (Meryl Streep), alter-ego de Linda Bummer, que atualmente se apresenta com o parceiro Greg (Rick Springfield) e a banda Flash em um pequeno bar na Califórnia e trabalha como caixa em um supermercado para pagar as contas. Mas ao saber através de seu ex-marido, Pete (Kevin Kline), que a filha deles, Julie (Mamie Gummer), entrou em crise ao ser trocada por outra pelo marido, Ricki decide voltar à Indianapolis e ajudá-la, reencontrando ainda seus outros dois filhos, Josh (Sebastian Stan) e Adam (Nick Westrate), que fecham a família que ela deixou para trás ao decidir seguir seus sonhos como roqueira. Mas é claro que antigos ressentimentos vêm à tona e não fazem a presença dela ser muito bem-vinda, e Ricki passa a se esforçar para ter uma relação saudável com todos.

É uma daquelas histórias de redenção envolvendo relacionamentos familiares complicados, e ao longo do filme Diablo Cody segue cartilhas comuns dessas produções, numa estrutura até previsível. Mas a roteirista desenvolve a maior parte dos personagens de forma que eles tenham peso dramático e dilemas com os quais possamos nos importar, o que sustenta bem a narrativa. Ricki está longe de ser uma pessoa perfeita. Na verdade, às vezes ela é um tanto sem noção. Mas os sentimentos que tem por sua antiga família são genuínos, sendo interessante que ela lamente a distância que se criou, mas não se arrependa da decisão que tomou, buscando reconstruir esses relacionamentos sem tentar corrigir algum tipo de erro, já que isso seria como anular quem ela é. E Meryl Streep, como seria de se esperar, surge muito bem no papel, tanto pelo lado roqueiro que não parece se encaixar naquele núcleo familiar quanto pelo lado materno que gostaria de estar mais presente.

Aliás, as atuações em Ricki and the Flash merecem destaque. Kevin Kline e Rick Springfield, por exemplo, trazem uma bela sensibilidade aos homens com quem a protagonista se envolveu, e o choque quanto às direções tomadas na vida é algo que ocorre com eles também. Se o Greg de Springfield passa por uma situação parecida com a de Ricki, ficando com a fala que define muito bem o filme (“Não é tarefa de nossos filhos nos amar, mas é a nossa amá-los”), o Pete de Kline tem uma vida bastante confortável com sua atual esposa, Maureen (Audra McDonald), e os filhos, mas não consegue evitar de pensar como teria sido se Ricki tivesse ficado ao seu lado (e a breve cena em que ele põe a cabeça no colo da ex-esposa mostra bem isso). Já Mamie Gummer (filha de Meryl Streep) aparece como a grande revelação do filme, encarnando com segurança a raiva de Julie sem torna-la aborrecida, merecendo aplausos por conseguir passar a montanha-russa de emoções que a personagem sente pontualmente, como ao hesitar entrar em um casamento.

Lidando com os relacionamentos conturbados dos personagens, Jonathan Demme merece créditos por em momento algum deixar o filme cair no puro melodrama, o que poderia ocorrer facilmente, ao passo que as apresentações de Ricki ao lado de sua banda até podem pausar o desenrolar da trama e serem longas demais, mas têm uma boa energia graças à total entrega de Meryl Streep nos vocais e por trazerem uma ótima seleção musical, que transmite muito do que os personagens gostariam de falar. Além disso, o roteiro mostra um senso de humor por vezes surpreendente e que traz leveza à narrativa, como na piada de puro humor negro que Pete faz com Julie quando esta vai ao banheiro. No entanto, nada disso impede a narrativa de sofrer com problemas de ritmo a partir do final do segundo ato, sendo que Diablo Cody ainda desenvolve superficialmente a relação da protagonista com seus outros dois filhos, algo que tira boa parte do peso que o clímax poderia ter e leva o filme a resoluções artificiais.
 

Ricki and the Flash encontra suas forças nos talentos envolvidos para contar sua história de pais e filhos e o abalo que tais relações podem sofrer. Isso até pode ocorrer sem sair muito do lugar-comum, mas ainda rende um filme agradável.

Nota: