terça-feira, 12 de maio de 2015

007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade

Quando um ator decide não voltar a interpretar determinado personagem que o deixou famoso numa franquia lucrativa, sempre fica a expectativa de quem será seu substituto e de como serão os filmes seguintes. Hoje em dia, a série 007 talvez seja a que mais chama a atenção com relação a eventuais trocas de elenco, algo compreensível considerando sua longevidade e o quão icônico James Bond se tornou. Depois de Com 007 só se Vive Duas Vezes, a série sofreu a primeira mudança de protagonista, com Sean Connery preferindo não retornar como Bond neste 007: A Serviço Secreto de Sua Majestade, que poderia ter sido sua sexta encarnação do personagem. Em seu lugar, surge o australiano George Lazenby que, logo no início, depois de uma luta na praia, solta a famosa fala “Isso nunca aconteceu com o outro cara”, brincadeira divertida por parte dos realizadores. No entanto, Lazenby infelizmente revela-se um James Bond irregular, o que surpreendentemente não impede este exemplar de ser um dos melhores da franquia.

Escrito por Richard Maibaum, 007: A Serviço Secreto de Sua Majestade coloca James Bond no caminho da bela e problemática Teresa “Tracy” di Vicenzo (Diana Rigg), com quem inicia um relacionamento conturbado. Mas a cabeça de 007 está mais concentrada em tentar localizar Ernst Stavro Blofeld (Telly Savalas, substituindo Donald Pleasence). Para isso, ele aceita uma proposta do pai de Tracy, o chefe do crime Marc-Ange Draco (Gabriele Ferzetti), continuando o relacionamento com a garota em troca de informações importantes sobre o paradeiro do vilão. É então que Bond se apaixona inesperadamente por Tracy ao mesmo tempo em que tenta parar Blofeld, cujo plano é espalhar um vírus em várias partes do mundo.
A série 007 como um todo é conhecida por colocar James Bond em grandes missões que o expõe constantemente ao perigo. Levando isso em conta, é uma surpresa que quase toda a primeira hora de 007: A Serviço Secreto de Sua Majestade se dedique ao relacionamento do protagonista com Tracy. Apesar de Bond se meter em algumas brigas aqui e ali, o longa não soa como um filme de ação durante essa parte inicial, mas sim como um romance, decisão corajosa do roteiro que, de quebra, ainda faz esse aspecto ser um dos pontos altos do filme. É interessante ver James Bond sendo finalmente conquistado por uma mulher como Tracy, algo que inclusive ajuda a humaniza-lo. Além disso, ao desenvolver o romance entre os personagens com calma no início para só depois se concentrar na grande missão com Blofeld, o roteiro exibe inteligência na forma como estrutura a história, já que mais tarde ambas as partes se juntam, contribuindo para que o terceiro ato seja muito envolvente.
Com um roteiro desses nas mãos, o diretor Peter Hunt (estreante na função depois de ser montador e diretor de segunda unidade nos filmes anteriores) faz um ótimo trabalho ao impor um ritmo cativante, mantido do início ao fim da narrativa, além de ter uma bem-vinda sensibilidade na forma como trata a relação de Bond com Tracy. Em termos de ação, Hunt merece aplausos pelo dinamismo que traz às cenas, surpreendendo ao realizar alguns momentos memoráveis da franquia nesse aspecto, como nas perseguições na neve, que contam com uma avalanche de escala impressionante (e vale dizer que poucas vezes foi tão eletrizante acompanhar um capanga caindo de uma montanha).
Então chegamos a George Lazenby, ator que não é páreo para Sean Connery como o agente 007. É difícil não simpatizar com o Bond de Lazenby, mas isso se deve mais ao roteiro que ao intérprete em si, que se mostra um tanto inexpressivo, além de claramente tentar emular sem sucesso seu predecessor (e por mais que a Era Roger Moore tenha sido a pior da franquia no quesito qualidade dos filmes, ao menos o britânico tinha personalidade). Em contrapartida, Diana Rigg é simplesmente uma das melhores Bond girls que a série teve, fazendo de Tracy uma personagem feminina forte, que mostra ser capaz de se cuidar sozinha, tendo um lado sensível e encantador. É fácil compreender como o protagonista se apaixona por ela. Telly Savalas, por sua vez, encarna Blofeld com naturalidade, ficando completamente distante dos maneirismos da icônica composição de Donald Pleasence no longa anterior, decisão que faz o vilão parecer mais real.
007: A Serviço Secreto de Sua Majestade foi um fracasso quando lançado e George Lazenby não voltou a interpretar James Bond. Sean Connery aceitou retomar o papel em 007: Os Diamantes São Eternos em troca de um salário astronômico. Mas, de qualquer forma, o australiano acabou marcando seu nome num filme excepcional, que acrescentou detalhes importantes à mitologia do personagem e ainda teve o desfecho mais trágico de um exemplar 007. Uma obra que ao longo dos anos, felizmente, vem sendo reconhecida como a preciosidade que é.
Nota:

Zumbis na Neve

A primeira cena de Zumbis na Neve traz uma jovem em pânico, correndo desesperadamente pela neve enquanto zumbis a perseguem. Ela é encurralada e, claro, vira comida nas mãos das criaturas. É uma imagem teoricamente aterrorizante, sem dúvida, mas quando percebemos que “Ode à Alegria”, de Beethoven, é a trilha que toca ao fundo, é impossível não sentir um tom de comicidade no jeito como o diretor Tommy Wirkola conduz a sequência. E é um tom que se mantém durante todo o filme, contribuindo para fazer deste um exemplar divertido dentro do subgênero dos zumbis, ainda que não tenha nada de novo ou surpreendente.

Escrito pelo próprio Wirkola em parceria com Stig Frode Henriksen (que também atua no filme), Zumbis na Neve traz uma história que não poderia ser mais comum. Um grupo de jovens estudantes noruegueses decide aproveitar suas férias nas montanhas nevadas, onde uma amiga deles tem uma cabana. Tudo ocorre na maior tranquilidade, com todos aproveitando a estadia da melhor forma possível. Mas quando menos esperam, obviamente, são rodeados por zumbis. Aliás, zumbis nazistas, como se as coisas não pudessem piorar. Tem-se início, então, a boa e velha luta pela sobrevivência.
Há um grau de idiotice que é praticamente inerente à história que Tommy Wirkola conta, e ao longo do filme parece que o diretor e sua equipe dão mais atenção ao gore e ao humor que tomam a tela do que a qualquer outra coisa. Como narrativa, então, Zumbis na Neve não deixa de ser um tanto pobre, não só pela trama preferir seguir uma fórmula batida, mas também por ser difícil de se envolver com os personagens unidimensionais que nos guiam por aquilo tudo, sendo que eles nem se diferenciam muito uns dos outros. Aliás, a construção dos personagens é tão irregular que Martin (vivido por Vegar Hoel) mostra em uma cena que não gosta de ver sangue, o que é totalmente esquecido depois, logo quando o filme começa a tocar sangue para todos os lados. A impressão que fica diante disso tudo é a de que o diretor teve uma ideia curiosa e preferiu ancorá-la em uma narrativa simples, por mais que esta se revele pouco inspirada.
No entanto, para a sorte de Wirkola, ele consegue fazer com que sua premissa renda boas e constantes risadas. O nazismo dos zumbis até soa interessante, mesmo não acrescentando muita coisa à trama. As criaturas chamam mais atenção por serem figuras racionais que sabem exatamente o que estão fazendo, detalhe que causa risos por ser um tanto inusitado. Mas a maneira como os personagens reagem à situação na qual se encontram é o que Zumbis na Neve tem de melhor, e aqui o roteiro chega a apresentar bons toques de non sense. Dessa forma, é engraçado que um deles veja uma cena chocante e solte um “Eu disse que deveríamos ter ido à praia!”, assim como quando ligam para a emergência e dizem o que realmente está acontecendo (porque ser perseguido por zumbis é perfeitamente normal, certo?). Mas Tommy Wirkola também usa o gore eficientemente nesse aspecto, algo que fica evidente em cenas como a luta contra os zumbis no terceiro ato ou em bizarrices como entranhas sendo usadas como corda em um penhasco.
Zumbis na Neve não é uma produção memorável. Na verdade, é uma pequena bobagem. Mas dentro disso, o filme cumpre seu objetivo de ser uma diversão agradável enquanto dura. No fim, isso acaba deixando uma impressão mais forte do que os problemas narrativos.
Nota:

My Life Directed by Nicolas Winding Refn

My Life Directed by Nicolas Winding Refn lembra em alguns aspectos O Apocalipse de um Cineasta. Ambos são documentários intimistas, que trazem diretores sendo filmados por suas esposas durante a produção de um novo filme, captando os bastidores das obras. Mas se Eleanor Coppola conseguiu pegar seu marido Francis Ford Coppola em meio à pressão e ao caos no qual ele se meteu durante as conturbadas gravações de Apocalypse Now, gerando uma obra complexa e vista como um dos melhores documentários sobre bastidores de produções cinematográficas, Liv Corfixen não arranja o mesmo tipo de material ao filmar Nicolas Winding Refn, obtendo como resultado um filme que não chega a ser tão interessante.

Corfixen não filma seu marido no meio de um Apocalypse Now, mas sim na produção de algo bem mais modesto: o belo e violento Apenas Deus Perdoa, seu primeiro trabalho após o grande sucesso alcançado pelo excepcional Drive e, claro, segunda parceria com o ator Ryan Gosling. A partir disso, ela foca desde o fim da pré-produção do longa, passando pelas gravações e chegando finalmente ao lançamento e recepção no Festival de Cannes de 2013. No processo, a diretora capta a pressão que o marido sente por querer fazer um filme tão bom quanto seu anterior, e que ao mesmo tempo não pareça que está se repetindo.
My Life Directed by Nicolas Winding Refn tem pouco menos de uma hora de duração, e só por isso é possível prever que Liv Corfixen não conseguiu material o suficiente para realizar um longa aprofundado. Assistindo ao filme isso fica evidente, e talvez seja consequência do fato de Refn se sentir um tanto incomodado com a presença da câmera da esposa, não a deixando penetrar muito em seu processo criativo (“Você não me deixa filmar nenhuma de suas crises”, ela diz para ele em determinado momento). Assim, as coisas que Corfixen consegue mostrar não deixam de soar um tanto superficiais e até comuns, sendo que o método de trabalho de seu marido também não tem nada de muito peculiar. E apesar do estresse de seu realizador, as filmagens de Apenas Deus Perdoa revelam-se bastante tranquilas, algo que, inclusive, é completamente oposto à sua narrativa. Ou seja, o documentário não tem nada de revelador com relação ao filme, e o que vemos aqui sobre ele não é muito diferente do que aparece nos costumeiros making ofs, podendo ter sido montado de forma a ser colocado nos extras dos DVDs e blu-rays do longa.
No entanto, isso não impede o documentário de ter detalhes curiosos que o ajudam a ser, no mínimo, cativante. É bacana ver, por exemplo, o grande companheirismo existente entre Nicolas Winding Refn e Ryan Gosling, com o ator sendo não só um ótimo parceiro de trabalho (além de produtor, ele foi diretor de segunda unidade em Apenas Deus Perdoa), mas também uma espécie de membro da família, e os momentos nos quais brinca com as filhas do cineasta são genuinamente graciosos. Além disso, Liv Corfixen mostra que seu marido não é um diretor que pensa que tudo que filma é ouro, como alguns de seus colegas de profissão (sim, estou olhando para você, M. Night Shyamalan). Boa parte de seu constante estresse, na verdade, vem do fato dele se cobrar muito, e não à toa as críticas para as quais ele dá mais atenção no final das contas são as negativas, já que são as que podem ressaltar detalhes sobre seu trabalho que ele pode tentar melhorar em projetos futuros.
Uma pena que isso não seja o bastante para tornar My Life Directed by Nicolas Winding Refn um documentário particularmente essencial como outros do tipo. É um filme que não traz grandes insights sobre bastidores, servindo mais como uma pequena curiosidade sobre um diretor talentoso.
Nota:

Tucker: Um Homem e Seu Sonho

Consagrado nos anos 1970 como um dos grandes nomes do cinema norte-americano, ao lado dos amigos Martin Scorsese e Steven Spielberg, Francis Ford Coppola não chegou a mostrar toda a força de seu talento nas décadas seguintes. Sim, de lá pra cá ele realizou belos filmes, como O Selvagem da Motocicleta, mas nada que se compare aos dois O Poderoso Chefão, A Conversação ou Apocalypse Now (a não ser, é claro, O Poderoso Chefão 3 que, diferentemente do que muitos dizem, fecha a trilogia dos Corleone com brilhantismo). Isso pode ser visto em Tucker: Um Homem e Seu Sonho, projeto caro ao cineasta. Mesmo sendo uma obra eficiente, fica longe de seus melhores trabalhos.

Com roteiro de Arnold Schulman e David Seidler, Tucker se passa pouco depois da Segunda Guerra Mundial e mostra a história real do empresário Preston Tucker (Jeff Bridges) concebendo o Tucker 48, carro inovador no quesito segurança de motoristas e passageiros, atributo visto hoje como fundamental em qualquer veículo. Tendo o apoio da família e conseguindo financiamento com Abe Karatz (Martin Landau), Preston forma uma equipe para ajudá-lo na empreitada. Mas, sua ambição bate de frente com figuras poderosas, o que o faz enfrentar alguns problemas durante o processo.
Mesmo que Tucker seja um projeto dos sonhos de Coppola e bastante pessoal (muito se fala sobre o cineasta paralelizar a situação do protagonista com o Tucker 48 e a dele com sua produtora American Zoetrope), é difícil não pensar que o filme é guiado no piloto automático. Coppola parece apertar os botõezinhos certos para agradar o público inofensivamente, apostando até em um tom leve mesmo quando a narrativa poderia ganhar toques mais sérios, como no julgamento que vemos no terceiro ato. Dentro desse objetivo, Coppola acaba sendo bem-sucedido, mas é uma pena ele se arriscar tão pouco, não exibindo muita imaginação ou ambição.
Se o diretor peca um pouco nesses aspectos, curiosamente o contrário pode ser dito sobre o protagonista. Tratado por Coppola com um respeito notável (isso pode ser visto nos ângulos baixos que o engrandecem ocasionalmente), Preston Tucker é a ambição e o entusiasmo em pessoa, empolgado com as próprias ideias e sem dúvidas de que elas darão certo. Além disso, é bacana notar que ele não é arrogante a ponto de barrar as ideias de sua equipe, como podemos ver no tratamento dado ao designer Alex Tremulis (Elias Koteas). E, apesar de o personagem ser essencialmente unidimensional (devido mais ao roteiro), Jeff Bridges traz seu carisma habitual ao papel, além de ter uma boa dinâmica com o restante do elenco (destaque para o ótimo Martin Landau como Abe Karatz e Joan Allen como a esposa de Preston), o que contribui para que a história se torne cativante ao espectador.
Considerando o que aconteceu com Preston Tucker após os eventos retratados aqui (e que é estabelecido superficialmente por meio de letreiros finais), talvez a abordagem que Coppola dá à história seja excessivamente bonitinha, até um pouco desonesta. Mas, mesmo com seus problemas, Tucker não chega a representar um ponto baixo na carreira do diretor. É um Coppola menor, lançado numa época em que ele tinha dificuldades para reencontrar o prestígio recebido quando estava no auge.
Nota:

Jessabelle: O Passado Nunca Morre

É possível constatar ao longo deste terror Jessabelle que os realizadores estão realmente se esforçando para tentar causar sustos e arrepios no público. Isso não deixa de ser louvável, mas é uma pena quando o talento por trás destes esforços não é dos melhores, incapaz de cumprir seus objetivos. Aqui, acabamos tendo em mãos um filme que praticamente passa batido pelo espectador, e isso para uma obra de terror é terrível se considerarmos que, quando bem realizado, o gênero é capaz de manter seus espectadores assustados por um bom tempo.

Escrito por Robert Ben Garant (cuja carreira é calcada em comédias como Uma Noite no Museu), Jessabelle nos apresenta a jovem Jessie Laurent (Sarah Snook), que volta para sua cidade-natal na Louisiana para se recuperar de um acidente de carro. Nesta tragédia ela perdeu o namorado, o bebê que estava esperando e os movimentos das pernas. Ficando sob os cuidados de seu mal-encarado pai (David Andrews), Jessie tenta recomeçar a vida, mas aos poucos começa a ser assombrada por fantasmas e pesadelos. Ao encontrar algumas fitas VHS que sua falecida mãe (Joelle Carter) gravou antes dela nascer, Jessie é avisada quanto a uma estranha presença na casa. Contando apenas com a ajuda de seu amigo Preston (Marc Webber), ela tentará entender o que está acontecendo, em um mistério que traz à tona um passado conturbado.
Misturando terror psicológico com sobrenatural e alguns toques de magia negra, Jessabelle tem uma história que se revela bastante clichê, seja pela forma como traz elementos vistos em outras obras do gênero ou pela própria estrutura usada no desenrolar da trama. Nesse sentido, ele lembra um pouco produções como o ótimo O Chamado ou até mesmo o mediano A Chave Mestra. No entanto, em nenhum momento o filme consegue envolver por completo o espectador, tendo uma trama desinteressante e contando com algumas resoluções que são óbvias desde o princípio, já que o roteiro não é sutil ao usar as fitas da mãe da protagonista para apresentar pistas importantes sobre os mistérios.
O diretor e montador Kevin Greutert (responsável pelos sexto e sétimo exemplares da série Jogos Mortais) ainda assim tenta construir uma atmosfera inquietante, mas acaba não sendo muito eficaz ao utilizar desde uma fotografia que separa de maneira bem clara os momentos sombrios daqueles mais tranquilos até uma trilha que não poderia ser mais batida. Há cenas que até provocam alguns arrepios, como aquela em que Jessie tem uma alucinação na banheira. Mas em outras é possível nos adiantarmos aos sustos que estão sendo preparados, já que a condução não é nenhum pouco criativa, tirando completamente o impacto que as cenas poderiam ter. Bons exemplos disso são o acidente de Jessie ou quando Preston é atacado pela tal assombração.
Esses problemas são ainda mais lamentáveis se levarmos em conta que o filme tem uma atriz competente em seu centro. Após a grande atuação na ótima ficção científica O Predestinado, Sarah Snook mostra mais uma vez que é uma intérprete que merece atenção, conseguindo fazer de Jessie uma personagem carismática e que exibe força em meio a situação vulnerável na qual se encontra. Uma pena que seu talento não seja suficiente para compensar os vários problemas do filme, que é esquecido rapidamente após o fim da sessão.
Nota:

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Franco-Atirador

Sean Penn é um ator excepcional. Extremamente versátil, ele pode encarnar com propriedade desde a frieza de um pai vingativo, em Sobre Meninos e Lobos, até a delicadeza de um político homossexual que luta pelos direitos de sua comunidade, em Milk, sem falar no jeito maluco de um surfista maconheiro, em Picardias Estudantis. Até em papeis pequenos ele é capaz de brilhar, como o do fotógrafo que aprecia o mundo ao seu redor em A Vida Secreta de Walter Mitty. Em maior ou menor grau, todos são papeis que soam normais na carreira do ator. Mas é então que Penn surge em O Franco-Atirador (não, não é um remake do famoso filme com Robert De Niro) como um herói de ação a la Stallone, Schwarzenegger e tantos outros, algo bastante diferente dos personagens que ele interpretou ao longo dos anos. À primeira vista isso pode ser curioso, mas é uma pena que o ator tenha escolhido um projeto tão medíocre para explorar essa faceta.

Baseado no livro de Jean-Patrick Machette, o roteiro escrito a seis mãos pelo próprio Penn em parceria com Don MacPherson e Pete Travis tem início em 2006, em meio à guerra civil no Congo, onde Jim Terrier (Penn) mata o Ministro das Minas local em uma operação liderada por Felix (Javier Bardem). Seu contrato ainda o manda fugir do país, obrigando-o a abandonar sua amada Annie (Jasmine Trinca). Oito anos depois, Jim volta ao Congo buscando corrigir seus erros do passado, trabalhando em uma ONG e levando uma existência pacífica. Mas quando alguns homens tentam mata-lo, ele se vê tendo que abraçar sua antiga vida para descobrir quem está por trás disso.

Dirigido por Pierre Morel (que coincidentemente foi quem lançou o veterano Liam Neeson como herói de ação no primeiro Busca Implacável), O Franco-Atirador inicialmente parece querer ser um filme de ação com um lado político, focando logo de cara o conflito no Congo, o trabalho de ONGs e os interesses de grandes corporações, algo que até combina com Sean Penn, que é conhecido por seu engajamento político em causas sociais. Mas o roteiro se mostra bastante raso nesse aspecto, sendo que não demora muito até ele ceder lugar à pancadaria e aos objetivos do protagonista. É então que o filme cai em um amontoado de clichês enquanto desenvolve uma trama desinteressante e lugar-comum, que inclusive dá um espaço maior do que devia a um triângulo amoroso novelesco entre Jim, Felix e Annie, elemento que irrita pela forma quase infantil como os personagens constrangem uns aos outros.

Mas estamos falando de um filme de ação, então O Franco-Atirador obviamente precisa parar a história de vez em quando para se concentrar em suas sequências de tiroteios e explosões. Nisso, Pierre Morel claramente se esforça para envolver o espectador ao ditar um ritmo frenético. Mas as sequências não deixam de ser um tanto burocráticas, sendo que o diretor ainda peca por não conseguir impor tensão nelas, de maneira que nunca tememos pelo destino do protagonista, o que só contribui para torna-las aborrecidas. Como se não bastasse, no terceiro ato o filme chega ao ápice da bobagem ao conseguir colocar um touro em seu grande clímax em uma arena de Barcelona.

Enquanto isso, Sean Penn merece créditos por convencer como herói de ação, e considerando o número de vezes em que ele aparece sem camisa ou com os braços à mostra durante o longa, eu não duvidaria se ele tiver topado fazer o filme só para exibir sua forma física invejável aos 54 anos. No entanto, quaisquer tentativas de Penn para tentar humanizar o personagem vão por água a baixo quando o roteiro praticamente faz dele uma figura indestrutível. Em determinado momento, por exemplo, ele descobre ter um problema de saúde, mas nem isso ajuda a torna-lo vulnerável, por mais que seus efeitos apareçam ocasionalmente. E se Javier Bardem (outro ator que dispensa apresentações) engata o overacting interpretando o insuportável Felix, a bela Jasmine Trinca pouco pode fazer com Annie, sendo esta o típico interesse amoroso que segue o herói por todo canto. Fechando o elenco, atores talentosos como Ray Winstone e Idris Elba são desperdiçados em papeis menores (até o já citado touro ganha mais o que fazer no filme).

Espero que O Franco-Atirador não seja para Sean Penn o que Busca Implacável foi para Liam Neeson: o início de um novo rumo na carreira. Se for, é melhor o ator escolher projetos mais interessantes para estrelar. Caso contrário será um enorme desperdício de talento.

Nota:


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Noite Sem Fim

Liam Neeson ter se estabelecido como um astro de ação popular é algo surpreendente. Afinal, quem diria que, depois de 30 anos de carreira, um ator reconhecido por obras como A Lista de Schindler e Michael Collins viria a entrar tão engajado num gênero como esse? Só nos últimos anos, Neeson montou um currículo que o encaixaria perfeitamente na franquia Os Mercenários. No entanto, por mais bem sucedido que ele venha se revelando nisso, poucos de seus projetos tem se mostrado eficientes, sendo que no início do ano ele já apareceu no desastroso Busca Implacável 3 (o pior exemplar de uma franquia que torço para que não renda outros frutos). Mas Neeson está de volta, agora neste Noite Sem Fim, que não é grandes coisas apesar de ser uma obra-prima se comparado ao trabalho anterior do ator.

Noite Sem Fim traz Liam Neeson interpretando Jimmy Conlon, sujeito que costumava trabalhar como assassino profissional para seu melhor amigo, o ex-chefe do crime Shawn Maguire (Ed Harris). Em meio a uma vida repleta de sangue e que o tornou um homem amargurado e alcoólatra, Jimmy fez uma coisa certa: conseguiu impedir que seu filho, Mike (Joel Kinnaman), repetisse seus erros, de forma que o rapaz sente vergonha do pai e tem uma vida feliz e confortável com a família. O mesmo não pode ser dito sobre Shawn, cujo filho, Danny (Boyd Holbrook), está cada vez mais inserido no mundo do crime. Quando Mike presencia um assassinato cometido por Danny, este começa a caçá-lo e como resultado acaba morrendo pelas mãos de Jimmy. É então que pai e filho se veem tendo que se juntar para fugir de Shawn, que passa a querer a cabeça deles custe o que custar.

Não demora muito até que se perceba que Noite Sem Fim é um daqueles filmes de ação que tenta não recorrer apenas a pancadarias, tiroteios e explosões para conquistar o interesse do espectador. O roteiro de Brian Ingelsby insere esses elementos ao mesmo tempo em que desenvolve com calma a história e as relações entre os personagens, o que abre a possibilidade para o filme ter um peso maior e deixar o espectador envolvido no drama que está acontecendo. Em parte o roteirista é bem sucedido nisso, mas é uma pena que ele parta de clichês batidos para compor o que ocorre na tela, seja o conflito entre Jimmy e Mike ou a inclusão de um detetive (vivido por Vincent D’Onofrio) que está há anos no encalço de Jimmy e quer que ele se entregue, detalhes que contribuem para que muitas das resoluções da trama sejam previsíveis e óbvias. Além disso, o roteirista em determinados momentos se entrega a simplicidades convenientes demais, como ao apresentar o universo do filme como algo extremamente corrupto, mas trazer um personagem entregando uma informação importante exatamente ao único policial íntegro visto ali.

Enquanto isso, o diretor Jaume Collet-Serra (em sua terceira colaboração com Neeson, depois de Desconhecido e Sem Escalas) merece créditos por apostar em transições de cena fluídas, que pulam de um lugar a outro quase que literalmente, e por impor um tom um tanto soturno ao longa, aspecto que encontra auxílio no fato de o roteiro estabelecer a maior parte da ação ao longo de uma única noite. Nesse sentido, aliás, é curioso ver que Noite Sem Fim faz jus ao título que ganhou no Brasil, já que tantas coisas acontecem no filme que fica a impressão de que as horas se esticaram bastante na narrativa. Mas esse detalhe não chega a ser um problema (é até normal, na verdade), diferente das sequências de ação, que são dirigidas por Collet-Serra de modo burocrático e aborrecido, sendo que a própria estrutura do roteiro (que depois de sua cena inicial volta 16 horas no tempo para contar a história) deixa claro que um personagem não morrerá naqueles momentos, tirando boa parte da tensão.

Liam Neeson, por sua vez, interpreta Jimmy Conlon com competência, apesar de o alcoolismo do personagem ser um detalhe repetitivo quando se fala no ator (lembremos que seu papel em Sem Escalas trazia o mesmo vício). Quando está em cena, Neeson traz segurança e carisma a um homem que não está em busca do perdão do filho ou de uma espécie de redenção, mas sim de impedir que sua antiga vida cause danos a quem simplesmente não merece. Já Ed Harris faz de Shawn Maguire um vilão que deixa de lado qualquer senso de justiça e racionalidade para dar voz à própria dor como pai, e a grande amizade que ele tem com Jimmy traz um toque intrigante aos eventos. E se Vincent D’Onofrio e Nick Nolte são desperdiçados em papeis pequenos, Joel Kinnaman impede que Mike se torne o filho chato do protagonista, tendo personalidade e motivações bem estabelecidas.

Soando até mais longo do que o necessário (culpa principalmente da estrutura do roteiro, que é obrigado a chegar de alguma forma a sua cena inicial, o que ocorre de um jeito pouco interessante), Noite Sem Fim é uma obra irregular que ao menos não representa uma experiência torturante. Mas, como sempre, fica a esperança de que Liam Neeson não se contente com projetos que vão disso para pior.

Nota: