quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer

Desde seu início, há 25 anos, a franquia Duro de Matar sempre conseguiu entreter com as enrascadas em que John McClane (Bruce Willis) se metia, mesmo quando os roteiros traziam momentos absurdos (como esquecer do protagonista atirando um carro em cima de um helicóptero, em Duro de Matar 4.0?). Não é à toa que o final de cada um dos filmes deixava um gosto de quero mais, não só por McClane ser um grande personagem, mas também porque as produções aparentavam ter sido feitas com cuidado. Mas eis que agora o policial se complica uma quinta vez e esse cuidado com relação a franquia parece sumir, resultando no primeiro capítulo decepcionante da série.

Escrito por Skip Woods (responsável pelo roteiro dos fracos Hitman: Assassino 47 e X-Men Origens: Wolverine), Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer sai dos Estados Unidos e coloca McClane indo para a Rússia, onde seu filho, Jack (Jai Courtney), foi preso por assassinato. Chegando lá, McClane encontra Jack em meio a uma missão da CIA, fugindo ao lado de Yuri Komarov (Sebastian Koch), que tem informações que podem incriminar o oficial do governo Viktor Chagarin (Sergei Kolesnikov). McClane acaba se juntando ao filho na missão, e a dupla terá de resolver suas diferenças ao mesmo tempo em que tentam impedir bandidos de realizar um roubo envolvendo armas nucleares.

Os problemas de Duro de Matar 5 começam exatamente na relação entre pai e filho, onde o roteiro segue o velho clichê de colocar os dois brigados durante a maior parte da projeção, apenas para eles irem se entendo aos poucos, algo que até chegou a ser utilizado em Duro de Matar 4.0 com a filha de McClane, Lucy (a bela Mary Elizabeth Winstead), mas isso não era um dos principais elementos daquela história. Durante o filme, o roteiro ainda fica martelando esse conflito ao fazer com que Jack se refira ao pai como “John”, o que é absolutamente irritante. Mas o pior é que por mais brigados que pai e filho estejam, isso é apenas um artifício que Skip Woods usa para jogar alguma tensão entre eles, já que o motivo do desentendimento nem chega a ser revelado.

Como se isso não bastasse, o roteirista ainda tenta desenvolver o “novo” personagem da franquia (Jack aparece no primeiro capítulo da série, mas praticamente de relance) com diálogos desnecessariamente explicativos. Em determinado momento, por exemplo, o filme dá uma pausa em toda a ação para que McClane fique contando velhas historinhas sobre o rapaz. Para completar, Jai Courtney, infelizmente, interpreta Jack de um jeito marrento, fazendo dele uma figura chata demais, o que é decepcionante principalmente quando lembramos que os parceiros de McClane nos outros filmes eram bastante carismáticos. Mas se Courtney não se sai muito bem, isso não pode ser dito sobre Bruce Willis, que volta a encarnar confortavelmente o personagem mais famoso de sua carreira, sendo eficiente mesmo quando parece estar no piloto-automático. O ator volta a exibir todo o bom humor do protagonista, e as poucas cenas divertidas funcionam graças a ele, como quando McClane precisa roubar o carro de um russo, em um dos melhores momentos do filme.

Enquanto isso, o diretor John Moore (responsável por bombas como O Voo da Fênix e Max Payne) conduz tudo de maneira bastante burocrática. Ao longo da projeção, é raro ver uma cena que faça jus a franquia Duro de Matar (um dos poucos exemplos acontece quando McClane dirige um carro passando por cima de vários outros veículos). Mas de modo geral, as sequências de ação consistem apenas em tiroteios que trazem os bandidos contra o protagonista e seu filho, o que acaba cansando depois de um tempo. Além disso, o diretor às vezes nem consegue deixar a ação compreensível para o espectador, seja na primeira cena de perseguição, onde não há como saber onde exatamente os personagens se encontram, ou quando McClane está com as mãos amarradas e escapa sem que fiquemos sabendo como. Para piorar, quando Moore resolve se espelhar em Zack Snyder e utilizar o slow motion (algo que ele já havia feito em Max Payne), ele ao invés de criar tensão acaba fazendo com que as cenas se tornem um tanto aborrecidas, o que é lamentável.

Previsível, pouco inspirado e trazendo um vilão desinteressante, Duro de Matar 5 ainda assim não chega a ser uma experiência realmente insuportável, até por que conta com cerca de uma hora e meia de duração (o capítulo mais curto da série). De qualquer forma, diferente do que diz o título original, este definitivamente não foi um bom dia para a franquia Duro de Matar.

Cotação:


sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura

Depois da missão que resultou na morte do líder terrorista Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo até que isso fosse tema de algum filme. Não demorou muito, e logo de uma vez temos duas produções envolvendo essa caça: O Homem Mais Procurado do Mundo (lançado nos cinemas brasileiros mesmo que originalmente tenha sido feito para a TV americana, e que não vi ainda) e este A Hora Mais Escura, novo trabalho de Kathryn Bigelow depois do excepcional e premiadíssimo Guerra ao Terror. Criando um belo thriller em cima de um evento bastante significativo, Bigelow é bem sucedida ao fazer de A Hora Mais Escura um filme que prende a atenção do início ao fim.
Escrito por Mark Boal (responsável pelo roteiro de Guerra ao Terror), A Hora Mais Escura foca os esforços da CIA para localizar Osama bin Laden após os terríveis ataques de 11 de setembro de 2001 (mostrados de maneira angustiante logo no início da projeção, quando é usado apenas o áudio de gravações feitas na época, onde o pânico das pessoas é triste de ouvir). Nisso somos apresentados a jovem agente Maya (Jessica Chastain), que ao longo dos anos não mede esforços para tentar encontrar o líder da Al-Qaeda, não se deixando abater por nada do que acontece ao seu redor.
Estabelecendo um clima hostil que percorre todo o filme, Kathryn Bigelow rapidamente faz de sua narrativa algo envolvente. Aliás, a tensão em volta de A Hora Mais Escura é tão grande que acaba fazendo com que cenas mais calmas se tornem estranhamente desconfortáveis, até porque depois de um tempo fica óbvio que elas precedem algum tipo de ataque impactante, como quando Maya tenta sair de uma garagem com seu carro. A cineasta ainda desenvolve tudo com agilidade, não parando em nenhum momento para explicar em que ponto das investigações os personagens estão, o que prova que ela confia em seu espectador para acompanhar a história sem maiores problemas.
Enquanto isso, Mark Boal constrói as investigações com inteligência, sempre conseguindo manter o interesse do público, o que é importante considerando que todos entram na sala de cinema sabendo como será o final disso tudo. Em meio a isso, o roteirista inclui detalhes que tentam aproximar a história um pouco mais da realidade, como o modo como a CIA tenta arrancar informações de prisioneiros na base da tortura (algo que trouxe tanta polêmica para cima do filme que diminuiu consideravelmente o favoritismo que ele tinha no início da temporada de premiações). Mas em momento algum Boal e Bigelow defendem esse tipo de ato, tratando-o de maneira desconfortável tanto para quem assiste ao filme quanto para os personagens, que não sentem prazer nenhum em ter que fazer aquilo. Na verdade, o roteiro não deixa de criticar esse método, por que pelo menos no filme ele não ajuda muito, obrigando os personagens a ter outra ideia para tentar ganhar informações. Querendo ou não, esse é um elemento que precisava ser retratado de alguma forma, porque torturas infelizmente ocorreram e omitir isso seria o mesmo que negar os fatos, o que seria absurdo por parte dos envolvidos no projeto.
Saltando no tempo várias vezes, o roteiro torna a narrativa um tanto episódica, mas compensa esse detalhe por conseguir condensar muito bem toda uma década dedicada à procura de bin Laden, além de mostrar as dificuldades que Maya e sua equipe na CIA passam para cumprir sua missão. Já alguns eventos que realmente aconteceram, como a explosão em Islamabad que destruiu parte do Hotel Marriott em 2008 ou o ataque a uma base dos Estados Unidos no Afeganistão em 2009, são inseridos na história organicamente por Mark Boal, colocando os personagens no meio da ação, o que inclusive ajuda a aumentar o nível de suspense dessas cenas, porque nos importamos com as figuras vistas na tela.
Vale ressaltar também o excelente trabalho dos montadores Dylan Tichenor e William Goldenberg (este último indicado ao Oscar desse ano não só por este filme, mas também por Argo). Inserindo imagens de arquivo e outras gravações ao longo da narrativa, a dupla merece créditos por manter um ritmo cativante durante toda a projeção. Para completar, vale dizer que Tichenor e Goldenberg também lidam admiravelmente bem com as montagens paralelas, como na sequência final que segue a equipe que vai atrás de bin Laden ao mesmo tempo em que Maya fica nos bastidores na base de comando.
Já que comentei a parte da missão, é difícil não destacar a qualidade com a qual ela é orquestrada e que a faz ser um dos vários pontos altos do filme. Filmada de maneira extremamente escura por Kathryn Bigelow e o diretor de fotografia Greig Fraser (detalhe que nos obriga a prestar a atenção ainda mais no que está acontecendo), essa tensa sequência conta com uma calmaria que evidencia o cuidado que todos tiveram em seu desenvolvimento. E é interessante ver que Bigelow consegue deixar clara a geografia da cena mesmo no meio da escuridão e acompanhando os vários lugares em que os soldados entram.
Transformando Maya em uma figura forte e corajosa em um universo onde os homens praticamente imperam sozinhos, Jessica Chastain surge em A Hora Mais Escura com uma determinação incrível, brilhando em cada cena em que aparece. Ainda que o elenco masculino tenha seus destaques, como Jason Clark, Kyle Chandler e Mark Strong, é Chastain quem domina a tela. É interessante ver que a atriz em alguns momentos faz da personagem uma pessoa até um pouco perturbada por causa do trabalho, já que Maya não faz outra coisa a não ser tentar cumprir sua missão. Dessa forma, pegar bin Laden acaba sendo um vício para ela, o que a faz ser parecida com o Sargento William James, interpretado por Jeremy Renner em Guerra ao Terror (lá, a própria guerra era um tipo de droga para ele). Além disso, é admirável ver Maya enfrentar seus superiores sem medo algum, o que mostra a confiança que ela tem no que está fazendo ao lado de sua equipe.
Representando mais um acerto de Kathryn Bigelow, A Hora Mais Escura retrata com eficiência a caça a um terrorista, mas ao mesmo tempo deixa claro que por mais que bin Laden esteja morto, isso não é motivo de comemoração. Afinal, matar um líder terrorista não termina com o terrorismo em si, que infelizmente ainda será responsável por muitos eventos trágicos, enquanto várias pessoas gastam anos de suas vidas tentando combatê-lo.
Cotação:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Personagens Marcantes - John McClane

Há muitas perguntas sobre cinema que eu particularmente penso muito antes de responder. Mas quando o assunto envolve heróis de filmes de ação, não preciso pensar duas vezes antes de dizer qual é o meu favorito: John McClane, o policial que não curte muito tecnologia e acaba com terroristas na franquia Duro de Matar, cujo primeiro filme foi responsável por transformar Bruce Willis (até então famoso pela série A Gata e o Rato) em um grande astro. De quebra, a obra-prima comandada por John McTiernan ainda revolucionou o gênero dos filmes de ação, criando uma história que coloca seu protagonista enfrentando os bandidos em um único local (no caso, um prédio), o que mais tarde acabou rendendo filmes como Velocidade Máxima e Força Aérea Um.
Entrando nas situações ameaçadoras da franquia por mera coincidência, McClane sempre mostrou claramente que gostaria de estar em qualquer outro lugar, menos no meio do caos. Mas mesmo assim, ele se esforça ao máximo para resolver os problemas (leia-se: acabar com os vilões e seus planos), já que ninguém mais parece ser capaz de fazer isso. Em Duro de Matar 2 aparece pela primeira vez a melhor definição do personagem, quando o Major Grant (interpretado por John Amos) fala “Você é o cara errado, na hora errada e no lugar errado”. E é divertido ver McClane responder “É a história da minha vida”.
Aliás, algo muito interessante no personagem é o modo como ele tenta manter o bom humor mesmo diante do perigo, como no primeiro filme quando ele conversa com o vilão Hans Gruber (Alan Rickman) pelo walkie-talkie de maneira bastante sarcástica. É como se McClane tentasse rir para não chorar do problemão em que acabou entrando, e Bruce Willis lida com esse humor do personagem perfeitamente, além de trazer grande carisma para ele. Na verdade, é difícil imaginar qualquer outro ator no papel, porque o próprio porte físico de Willis torna McClane uma figura mais vulnerável, já que comparado a Arnold Schwarzenegger (um dos astros que estavam cotados para dar vida ao personagem originalmente) ele aparenta ser uma figura bastante comum. Além disso, Willis consegue mostrar o esforço que McClane faz para cumprir seus objetivos, que fazem o policial chegar extremamente exausto ao final de cada história, como não poderia ser diferente.
Mas é impossível falar sobre John McClane sem mencionar sua famosa frase de efeito: “Yippee-ki-yay, motherfucker!” (que foi ideia do próprio Bruce Willis, por sinal). É o tipo de coisa que fica na cabeça e dá vontade de sair repetindo por aí. “Yippee-ki-yay” é uma expressão usada por cowboys, o que acaba sendo bastante apropriado no primeiro Duro de Matar, já que McClane é chamado de “cowboy” por Hans Gruber antes de mandar a frase, sendo que naquela oportunidade ela serviu como uma espécie de “Me aguarde!”. Nos filmes seguintes o personagem usa a expressão como um verdadeiro “Adeus” aos seus inimigos, dizendo sempre antes ou depois de matá-los. É até uma pena que em Duro de Matar 4.0 a frase tenha tido uma parte censurada para que o filme recebesse uma classificação menor.
Sendo ainda um cara que fica surpreso com os próprios atos, John McClane é um personagem cativante. E Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer (quinto filme da série) vem aí, com mais uma ameaça a ser enfrentada, dessa vez na Rússia. Espero que não seja dessa vez que a franquia apresente um capítulo decepcionante.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Os Indicados ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação

Este ano estou tentando ver o maior número possível de indicados ao Oscar, até para não parecer um peixe fora d’água quando chegar a hora da cerimônia. Assistir aos indicados das principais categorias é algo que venho conseguindo fazer com algum sucesso nos últimos anos, o problema é não conseguir acompanhar direito outras categorias.
Pois bem, dessa vez consegui ver todos os cinco indicados a Melhor Curta-Metragem de Animação e resolvi comentar rapidamente sobre cada um deles. Algo bastante curioso nessa categoria é o fato de nenhum dos filmes usarem diálogos para contar suas histórias, privilegiando um pouco mais suas imagens.
Os indicados são bem diferentes entre si, mas são todos bem interessantes. Apenas um deles ainda não está online, mas os outros estão todos linkados ao YouTube. Então vamos a eles:
- Adam and Dog, de Minkyu Lee:
Utilizando um estilo de animação mais clássico, Adam and Dog mostra um cão que constrói uma bela amizade com Adão, no Jardim do Éden.
De maneira rápida e simples, o diretor Minkyu Lee (que também escreveu o roteiro) consegue estabelecer muito bem o relacionamento entre esses dois personagens, e até por isso chega a ser um pouco triste o momento em que Adão passa a não dar tanta atenção ao seu amigo. Mas Lee consegue deixar claro que a fidelidade de um cão ao seu dono não tem limites (afinal, como dizem por aí, ele é o melhor amigo do homem), o que faz com que o belo final da história seja sensível e tocante.
- Fresh Guacamole, de PES:
Durante a disciplina de Animação que tive na faculdade, ouvi falar muito de Adam Pesapane (também conhecido como PES). É um cara que tem talento para fazer animações em stop-motion um tanto excêntricas utilizando objetos muito simples. Em Roof Sex, ele conseguiu fazer um curta centrado no sexo entre dois sofás no topo de um prédio. Em Game Over (trabalho dele que mais gosto), ele fez uma reconstrução curiosa de alguns jogos famosos.
Agora em Fresh Guacamole (curta-metragem que já entrou pra história do Oscar por ser a animação de menor duração a ser indicada na categoria, tendo menos de dois minutos), PES repete a ideia que originou seu Western Spaguetti, cozinhando algo usando objetos diferentes. Em Western Spaguetti ele fez uma massa utilizando varetas. Já em Fresh Guacamole ele faz um guacamole com o “molho” de uma granada, alguns dados e fichas de pôquer, entre outras coisas. É uma animação que acaba chamando a atenção por ser uma coisa inusitada, e por isso divertida.
- Head Over Heels, de Timothy Reckart:
Head Over Heels é o meu favorito para ganhar o prêmio esse ano. O filme nos apresenta a um casal de velhinhos, Walter e Madge, que não estão nos melhores dias de seu casamento e convivem de um jeito muito peculiar: ele mora no chão e ela mora no teto. Nisso, acompanhamos a tentativa de Walter para reconquistar sua esposa e como isso afeta o estilo de vida dos dois.
O modo como os protagonistas vivem dentro de casa já é curioso por si só, e é interessante ver como eles utilizam os mesmos objetos (a geladeira, por exemplo, acaba sempre subindo e descendo). Além disso, o diretor Timothy Reckart trata seus carismáticos personagens com grande sensibilidade, sendo que a animação em stop-motion ainda é bastante expressiva e a trilha sonora é contagiante. São elementos que ajudam Head Over Heels a ser uma produção absolutamente encantadora e tocante.
- Paperman, de John Kahrs:
Paperman vem como o grande favorito para levar a estatueta, tendo ganhado esse prêmio no Annie Awards, o Oscar da Animação. O filme conta a simpática história de um cara que trabalha em um escritório e tenta chamar a atenção de uma garota que conheceu na estação de trem usando aviões de papel. Isso não dá certo, mas os aviões acabam se rebelando para juntar o casal.
Paperman foi exibido nos cinemas antes de Detona Ralph e, assim como comentei na minha crítica desse filme, é um curta que mistura muito bem a animação 2D com a 3D, além de divertir e contar com personagens pelos quais torcemos para que fiquem juntos ao final da história. É um filme muito bacana e caso realmente confirme seu favoritismo, então ao menos o Oscar estará em boas mãos.
- The Simpsons: The Longest Daycare, de David Silverman:
Protagonizado por Maggie Simpson (uma das melhores personagens da série), este curta-metragem da família mais excêntrica da TV americana coloca a menina passando um dia na creche, tendo que salvar uma borboleta das mãos de um bebê sociopata (não acredito que escrevi isso).
The Longest Daycare segue o humor típico dos Simpsons ao criar gags visuais eficientes (como quando Maggie chega na creche e é revistada e classificada) ao longo da narrativa. Sem falar que é um filme que acaba conquistando exatamente por ter Maggie como protagonista, e esta é uma personagem que sempre fez rir com o fato de sempre ter mostrado ser mais inteligente do que muitos moradores de Springfield.
É uma animação agradável, e sua lembrança no Oscar compensa um pouco o fato de, em 2008, a Academia não ter indicado o divertidíssimo longa-metragem dos Simpsons (dirigido pelo mesmo David Silverman responsável por este curta) na categoria Melhor Animação.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Voo

Robert Zemeckis ficou toda a década passada se dedicando a animações em motion capture (os resultados foram o excepcional O Expresso Polar, o mediano A Lenda de Beowulf e o ótimo Os Fantasmas de Scrooge). Mas agora o diretor finalmente volta aos filmes live action neste O Voo, e é bom ver o diretor que nos presenteou com obras como a trilogia De Volta Para o Futuro e Forrest Gump retornar a esse campo. Apesar de não ser um dos melhores filmes do cineasta, O Voo consegue prender a atenção graças ao trabalho de outro grande nome que há algum tempo não aparecia tão bem: Denzel Washington.
Escrito por John Gatins, O Voo conta a história de William “Whip” Whitaker (Washington), piloto que tem problemas com drogas e, principalmente, álcool. Durante um voo aparentemente normal, falhas técnicas fazem o avião cair rumo a uma tragédia, mas Whip surpreendentemente consegue pousá-lo sem muitos danos e salvando quase todas as pessoas a bordo (algo que nenhum outro piloto conseguiu repetir com sucesso em simulações). Ao mesmo tempo em que seu alcoolismo piora, Whip tem que lidar com a investigação do acidente, já que é revelado que ele estava “ligado” no momento do pouso, e todos querem saber o que realmente aconteceu.
Logo na primeira cena do filme, Whip acorda em um quarto de hotel e ao atender sua ex-esposa no telefone precisa beber um gole de cerveja para prestar a atenção no que ela está dizendo. Dessa forma, o roteiro de Gatins já consegue deixar bem estabelecida a gravidade da dependência do personagem. E mesmo assim, Whip mostra ser um piloto extremamente competente, algo que fica claro não só pelo modo como ele pousa o avião, mas também quando ele se livra de uma turbulência com segurança absoluta. Esses detalhes tornam Whip um personagem muito intrigante, a ponto de a história ser envolvente exatamente por manter uma grande curiosidade quanto ao que vai acontecer com ele diante das investigações e seu vício.
Não é à toa que o roteiro perde muito de sua força sempre que tenta focar algum outro personagem, como Nicole (Kelly Reilly, em uma atuação convincente), mulher que Whip conhece no hospital e tenta se recuperar de seu vício em drogas. Aliás, Gatins tenta criar um paralelo entre os dois personagens, sendo eles duas figuras que iniciam um relacionamento ao mesmo tempo em que tentam lidar com suas dependências. Mas a verdade é que esse elemento nunca se mostra tão interessante, e considerando que Nicole ganha muita atenção inicialmente apenas para depois ser deixada de lado a partir de determinado momento, isso acaba servindo mais para desviar a atenção daquilo que realmente importa e deixar a duração do filme desnecessariamente inchada. O roteirista ainda procura investir no humor, usando principalmente o amigo de Whip, Harling Mays (interpretado por John Goodman), em uma pequena participação como o alívio cômico da história (mais um para a carreira do ator). No entanto, diante do tom sério do filme, todas as tentativas acabam destoando demais da narrativa, o que é uma pena.
Mas o que brilha em O Voo é mesmo Denzel Washington e seu retrato do alcoolismo de Whip. Washington faz dele um personagem que por mais que passe quase todo o filme negando ter um vício, tem total consciência de sua condição. Mais do que isso, tem vergonha desse problema, algo indicado pelos momentos em que ele olha para os lados antes de pegar uma garrafa, procurando se certificar que ninguém está o vendo. Além disso, em vários momentos o ator gagueja bastante, o que só deixa mais claro o quanto Whip está perdido em meio a sua condição. Quando esta em cena, Washington domina a tela admiravelmente, mostrando total controle sobre seu personagem.
Enquanto isso, Robert Zemeckis conduz o filme com seu talento habitual durante a maior parte do tempo, tratando com cuidado a progressiva autodestruição do protagonista. Mas é mesmo o acidente aéreo que representa o melhor momento do filme. Tensa e muito bem orquestrada por Zemeckis, que consegue acompanhar o pânico dos passageiros ao mesmo tempo em que mostra os esforços de Whip e sua tripulação para tentar evitar um desastre, a cena se coloca entre os melhores momentos da carreira do cineasta, e chega a ser uma pena que ela ocorra com menos de meia hora de projeção. Também é interessante notar como Zemeckis constrói o ambiente claustrofóbico em que o protagonista se encontra em meio a uma audiência, filmando-o quase o tempo todo com planos fechadíssimos. No entanto, é uma pena que o diretor procure demais arrancar algumas lágrimas do público a partir de determinado momento no terceiro ato da trama.
Mesmo com seus problemas, O Voo ainda consegue ser um belo filme, representando um bom retorno de Robert Zemeckis ao live action. Só espero que não precisemos aguardar mais doze anos até que o diretor lance um novo trabalho nesse formato.
Cotação:

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Meu Namorado é um Zumbi

Se Zumbilândia e Romeu e Julieta se casassem e tivessem um filho, este seria Meu Namorado é um Zumbi. Investindo em uma premissa que à primeira vista é boba e absurda demais (um romance entre uma humana e um zumbi), o filme surpreende ao assumir tal esquisitice, além de contar com uma veia cômica eficiente que somada ao carisma do casal principal acaba resultando em uma história muito agradável de se acompanhar. Uma certa franquia de vampiros brilhantes certamente poderia ter sido mais suportável caso tivesse um pouco do bom humor desse novo filme dirigido por Jonathan Levine (responsável pelo ótimo 50%).
Escrito pelo próprio Levine, baseado no livro de Isaac Marion, Meu Namorado é um Zumbi se passa oito anos após algo (nunca é explicado o quê) ter acabado com quase toda a sociedade, transformando as pessoas em zumbis, sendo que algumas viram figuras conhecidas como Esqueléticos depois de algum tempo. Nisso somos apresentados a R (Nicholas Hoult), morto-vivo que anda pelos arredores de um aeroporto e só consegue se comunicar com seu amigo M (Rob Corddry) através de grunhidos e às vezes com palavras. Durante um ataque em que ele e mais alguns “amigos” tentavam se alimentar, R come o cérebro de Perry (Dave Franco) e depois salva a namorada dele, Julie (Teresa Palmer). Se sentindo responsável pela garota e procurando protegê-la o máximo possível, R desenvolve com ela um relacionamento que começa a causar sérias mudanças nele e em toda a comunidade zumbi, podendo esta ser a chance de todos voltarem ao normal.
O roteiro de Levine não chega a desmistificar a figura do zumbi. O que vemos no filme continua sendo a criatura que morre levando tiros na cabeça, se alimenta de carne humana e cambaleia por aí. A única mudança um pouco mais estranha é o detalhe de eles serem bastante racionais, mas ainda assim não é nada muito gritante como brilhar sob a luz do sol. E por a história ser contada pelo ponto de vista de R, isso ajuda para que compreendamos o porquê de eles agirem da forma vista no filme, como por exemplo o porquê de eles comerem cérebros, sendo esta a única maneira de eles se sentirem humanos de novo, já que eles veem as memórias das pessoas de quem estão se alimentando. É absurdo, mas não deixa de ser interessante porque assim o roteiro faz deles pessoas comuns presas em um corpo moribundo, e todos desejam se curar um dia.
O fato de R ser o personagem que guia o espectador através da história ainda contribui para que nos identifiquemos rapidamente com ele. Boa parte disso também se deve a sua ótima narração em off, que apesar de ser explicativa demais em alguns momentos, acaba ajudando a compor R como uma figura tímida e, por isso mesmo, divertida. Além disso, seu talentoso intérprete, Nicholas Hoult, não só tem um ótimo timing cômico como ainda traz seu carisma habitual para o personagem. O mesmo pode ser dito sobre a bela Teresa Palmer e o modo como ela interpreta Julie, e a química que os dois atores desenvolvem faz com que nos importemos com o destino dos personagens, mesmo que haja um conflito previsível (e até mesmo clichê) envolvendo o fato de R manter em segredo o que fez com Perry. E se o casal principal se sai bem, os coadjuvantes não ficam muito atrás, onde vemos um Rob Corddry divertido e um John Malkovich mais contido interpretando o pai da mocinha (e que é praticamente uma espécie de presidente nos tempos do apocalipse).
Jonathan Levine conduz tudo com leveza, incluindo gags eficientes ao longo do filme, como quando Julie tenta imitar um zumbi ou a cena em que M traduz de maneira hilária o que um grupo de zumbis quer dizer com seus gemidos. No entanto, o diretor falha ao fazer dos Esqueléticos figuras relativamente fáceis de serem combatidas, não fazendo jus a ameaça que eles representam inicialmente, o que até tira um pouco da tensão de algumas cenas de ação. Já a montagem de Nancy Richardson merece créditos por inserir os flashbacks (a maioria são memórias de Perry vistas por R) organicamente na narrativa, nunca interrompendo a história abruptamente.
Com uma aura de produção que poderia ter sido realizada na década de 1980 (o que inclui sequências com uso de músicas, que são muito bem escolhidas, por sinal), Meu Namorado é um Zumbi surge nesse início de ano não só como uma comédia eficiente, mas também como uma agradável surpresa.
Cotação:

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida

É difícil não gostar de O Lado Bom da Vida. Trata-se de um filme divertido, simpático, com uma história bonitinha e boas atuações. Em resumo, é uma obra feita exatamente com o propósito de agradar o público, e é bem sucedido nesse objetivo. Mas mesmo assim, é inegável que este novo trabalho de David O. Russell (responsável por filmes muito eficientes como Três Reis, Huckabees: A Vida é Uma Comédia e O Vencedor) se trate de algo previsível e movido a clichês já muito batidos, o que infelizmente o faz ficar muito longe de ser uma produção digna de oito indicações para o Oscar.
Escrito pelo próprio diretor, baseado no livro de Matthew Quick, O Lado Bom da Vida nos apresenta a Pat Solatano Jr. (Bradley Cooper), jovem professor que fica internado em um hospital psiquiátrico após flagrar sua esposa, Nikki (Brea Bee), o traindo com outro homem ao som da música que tocou no casamento deles. De volta para casa de seus pais, Patrizio e Dolores (Robert De Niro e Jacki Weaver, respectivamente), depois de oito meses de tratamento, Pat está disposto a recomeçar sua vida ao lado de Nikki, ainda que esta tenha pedido uma ordem de restrição contra ele. Enquanto tenta provar que está mudado, Pat conhece Tiffany Maxwell (Jennifer Lawrence), que perdeu o marido há algum tempo e é tão perturbada quanto ele. Juntos eles iniciam uma amizade incomum e tentarão se ajudar a superar seus problemas.
Mantendo sua câmera muitas vezes perto de seus atores, David O. Russell ajuda a fazer com que o espectador se aproxime dos personagens e simpatize com eles rapidamente. O diretor ainda traz um tom agradável que percorre por toda a narrativa, e demonstra um timing cômico essencial para algumas cenas, como quando o pai de Pat resolve fazer uma aposta acumulada com seu amigo Randy (Paul Herman). Além disso, é interessante o modo como ele conduz algumas sequências, como ao mostrar a traição de Nikki ao mesmo tempo em que Pat explica o que aconteceu exatamente, em um momento que a montagem da dupla Jay Cassidy e Crispin Struthers é bastante eficiente.
Mas a verdade é que no resto o diretor não faz nada de novo em O Lado Bom da Vida, sendo esta mais uma versão de uma história que já foi contada várias vezes. Tendo uma relação que uma hora está tranquila e feliz e em outra está tensa e cheia de discussões, Pat e Tiffany não deixam de ser mais um “casal que se odeia, mas se ama”. Sem falar que o filme traz cenas que já são comuns do gênero comédia romântica, como um conflito originado pelo fato de um personagem não comparecer em determinado lugar ou quando Pat precisa correr desesperadamente atrás de Jennifer (e o filme trazer eles correndo um atrás do outro várias vezes ao longo da história, infelizmente, não torna a cena menos clichê). E como o final é bastante previsível, a obsessão de Pat em reconquistar a esposa se torna meio irritante depois de algum tempo. Sendo assim, é uma surpresa ver que o roteiro de Russell foi indicado ao Oscar, já que chega até a subestimar a inteligência do espectador, como prova a reviravolta extremamente óbvia envolvendo uma carta.
De qualquer forma, O Lado Bom da Vida consegue divertir, e boa parte disso se deve às atuações de seu elenco. Trazendo carisma para Pat, Bradley Cooper faz do personagem uma figura que parece estar fazendo um esforço muito grande para se controlar (algo fica claro no modo como ele não para de mexer as mãos quando está na terapia), mesmo estando em busca de sua felicidade, de seu “raio de esperança”. E o fato de Pat ter isso como objetivo é algo que torna divertida a cena em que ele se irrita com um livro de Ernest Hemingway. Já Jennifer Lawrence (a quem sempre me refiro como uma das grandes revelações dos últimos anos) além de ter uma bela química com Cooper, ainda se mostra bastante contida quando Tiffany resolve colocar pra fora toda sua indignação com algumas coisas, demonstrando grande segurança com relação à personagem, como pode ser visto na cena em que ela discute com Pat em uma lanchonete e na outra em que ela fala vários resultados de futebol americano.
Enquanto isso, Robert De Niro finalmente volta a atuar depois de vários filmes em que apareceu no piloto automático, fazendo de Patrizio um homem que claramente se importa com o filho mesmo com todos os seus problemas, protagonizando uma cena tocante ao lado de Cooper, além de ter um ótimo timing cômico nas cenas em que mostra o Transtorno Obsessivo Compulsivo do personagem e sua superstição com seu time de futebol. E se Chris Tucker é um alívio cômico até interessante, surgindo apropriadamente excêntrico como Danny, amigo de Pat dos tempos do tratamento psiquiátrico, Jacki Weaver não se destaca nenhuma vez ao longo da história, ficando em segundo plano praticamente o tempo todo.
O Lado Bom da Vida não é um grande filme, mas realmente consegue fazer seu espectador sair da sala de cinema com um sorriso no rosto. E isso acontece porque em meio a todos os seus problemas, ao menos ele consegue fazer com que nos importemos com o destino de seus personagens. Mas ainda falta muito para colocá-lo entre os melhores filmes do ano.
Cotação: