quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Gonzaga: De Pai Pra Filho
Gonzaga e Gonzaguinha foram dois grandes ídolos da música brasileira. Por isso, é uma pena constatar que enquanto o pai sofreu uma triste decadência no fim de sua carreira, depois de brilhar e ganhar o apelido de “Rei do Baião”, o filho não conseguiu explorar todo seu potencial, morrendo em um acidente de carro aos 45 anos. Gonzaga: De Pai Pra Filho, novo filme de Breno Silveira (seu segundo em 2012, tendo lançado ainda À Beira do Caminho, que não vi), tenta explorar o relacionamento conturbado que os dois tinham um com o outro, algo que prevaleceu durante boa parte de suas vidas.
Escrito por Patricia Andrade e com argumento de Maria Hernandez, Gonzaga: De Pai Pra Filho mostra Gonzaguinha (Julio Andrade) no auge do sucesso no início da década de 1980, enquanto seu pai (Adélio Lima) fora renegado ao esquecimento. Quando a esposa de Gonzaga pede para que Gonzaguinha ajude o pai, o rapaz propõe a ele uma série de shows. Mas essa acaba se tornando uma oportunidade para que pai e filho possam saber mais sobre eles mesmos e colocarem para fora tudo o que pensam quanto ao relacionamento distante que eles têm.
Mostrando os principais fatos da vida de Gonzaga, o roteiro consegue passar por eles sem parecer episódico, o que é admirável considerando o número de acontecimentos que aborda. Nisso, a montagem da dupla Vicente Kubrusly e Gustavo Giane é ágil ao conseguir fazer com que a narrativa flua bem enquanto intercala entre o passado e o presente sendo que eles ainda conseguem incluir imagens de arquivo organicamente na narrativa.
Breno Silveira (que emocionou boa parte das pessoas em 2 Filhos de Francisco, outra cinebiografia de figuras conhecidas da música) se sai admiravelmente bem na direção do filme. Os shows do Rei do Baião são conduzidos com grande vivacidade, combinando com a energia que ele demonstrava no palco. Já as cenas no presente, com pai e filho conversando, são carregadas de uma constante tensão, porque não há como saber a maneira com que eles reagirão as palavras ditas naquele momento. Isso chega ao auge no terceiro ato, quando Gonzaguinha começa a falar tudo que estava trancado em sua garganta, em uma cena que representa um dos grandes momentos do filme. Pra completar, o modo como o diretor utiliza as já citadas imagens de arquivo é muito interessante, colocando-as em momentos pontuais que talvez não tivessem o mesmo impacto caso fossem cenas do filme.
Apesar de explorar bastante a vida de Gonzaga, o roteiro comete o grave erro de não se dedicar da mesma maneira a vida do outro personagem importante da história, Gonzaguinha. Em nenhum momento ele mostra algum interesse em seguir uma carreira musical, sendo retratado no filme como um jovem que cresceu irritado com a ausência do pai. Com as motivações não ficando claras, é até uma surpresa quando Gonzaguinha aparece cantando e tocando violão pela primeira vez no filme.
Além disso, se Gonzaga não era o pai que o rapaz tanto queria e precisava, o mesmo não pode ser dito com relação a Xavier (Luciano Quirino), o padrinho dele. O problema é que Xavier ganha pouquíssima atenção ao longo da história, e a amizade entre ele e Gonzaga não é bem estabelecida pelo roteiro de modo que os dois demonstrem ter confiança um no outro. E quando Gonzaguinha grita em determinada cena “Meu pai era Henrique Xavier”, a frase acaba não tendo muito peso porque a importância daquela figura não é bem desenvolvida.
Quanto às atuações, Adélio Lima se destaca ao interpretar Gonzaga como um homem arrependido de muitas coisas, entre elas o modo como tratou o filho. Enquanto isso, Nivaldo Expedito de Carvalho (que interpreta o personagem na fase dos 25 aos 50 anos) e Land Vieira (que o interpreta na fase dos 17 aos 23 anos) emprestam grande carisma ao cantor. Mas o grande destaque do filme é Julio Andrade como Gonzaguinha. Surgindo sempre sério em cena, Andrade faz de seu personagem uma figura com uma raiva bastante contida do modo como foi tratado no passado. No entanto, isso não impede que ele se arrependa de algumas palavras que diz para seu pai, algo que Andrade consegue transmitir apenas com uma leve mudança de olhar. Sendo assim, é até uma pena que essa versão do personagem apareça esporadicamente ao longo da projeção.
Gonzaga: De Pai Pra Filho pode ter seus problemas, mas acaba sendo mais um sopro de ar fresco (ao lado de filmes como 2 Coelhos e Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios) diante de tantas comédias brasileiras ridículas que andam ocupando espaço nos cinemas.
Cotação:
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Busca Implacável 2
O primeiro Busca Implacável é até um filme razoável, no qual Liam Neeson convencia bem como herói de ação. Sendo assim, uma continuação para aquele filme soa desde o princípio como algo desnecessário, já que o filme não havia sido feito com a ambição de criar uma franquia, e a história havia ficado muito bem resolvida. Mas tendo sido uma grande surpresa em termos de bilheteria, é claro que o dinheiro acaba falando mais alto. Afinal, os produtores não pensam mais se é realmente preciso explorar mais uma vez o universo dos filmes. Se deu lucro, uma continuação será planejada mesmo que tenha acontecido o apocalipse zumbi no final da história. Nisso é lançado Busca Implacável 2, que mesmo trazendo Liam Neeson de volta ao papel de Bryan Mills, é um filme insosso do início ao fim.
Escrito por Luc Besson e Robert Mark Kamen (responsáveis pelo roteiro do filme anterior), Busca Implacável 2 coloca Bryan em uma viagem a Istambul ao lado de sua filha, Kim (Maggie Grace), e sua ex-esposa, Lenore (Famke Janssen). É quando Murad Krasniqi (Rade Serbedzija), pai do vilão do primeiro filme, resolve se vingar por todo sofrimento que Bryan causou a ele e sua família, caçando o ex-agente da CIA na cidade turca. Mas é claro que Bryan não facilitará a vida do vilão e seus capangas.
Logo no início, ao apresentar a vida que os personagens estão levando depois dos eventos pelos quais passaram, o roteiro já coloca Bryan novamente no papel de pai que se esforça para ficar próximo da filha, ideia já utilizada no primeiro filme. O problema é que aqui isso soa um pouco estranho considerando tudo o que aconteceu com eles. Sem falar que quando Bryan faz com que a filha cumpra algo que haviam combinado anteriormente, isso cria um conflito bobo e que é esquecido logo depois.
Mas esse é o menor dos problemas do roteiro de Besson e Kamen. É incrível, por exemplo, o modo como eles compõem os capangas do vilão do filme, transformando-os em algumas das figuras mais burras que poderiam existir. Em determinado momento, um deles atira em uma pessoa no hotel em Istambul, e sente a necessidade de avisar seu parceiro (“Atirei em alguém!”) como se isso não tivesse sido óbvio o bastante. Mas o cúmulo da burrice desses indivíduos é a cena em que Bryan e Lenore são sequestrados. Em meio a toda a confusão, eles permitem que o protagonista ligue para Kim, avisando-a que ele e sua mãe foram pegos e que ela será a próxima caso não fuja. Que capangas mais gentis, não?
O próprio vilão é desinteressante, fazendo várias ameaças, mas nunca agindo de fato. Na verdade, o detalhe de ele ser interpretado por Rade Serbedzija já é praticamente um aviso de que esse inimigo não será grande coisa, considerando que a lista de vilões interpretados pelo ator não é das melhores. Além disso, o roteiro faz de Bryan a figura inteligente que mostrara ser no primeiro filme, o que faz com que ele sempre pareça estar no controle da situação, e sabendo exatamente o que fazer para destruir aqueles que querem acabar com ele e sua família. Dessa forma, não há como temer pelo destino dele ou de Kim e Lenore. E já que citei a inteligência de Bryan, vale dizer que um bom momento do filme é quando ele ajuda Kim pelo telefone a localizá-lo em um esconderijo, que impressiona pelo modo como o protagonista conduz sua filha.
O diretor Olivier Megaton (responsável pelo medíocre Carga Explosiva 3) abusa demais dos cortes e dos rápidos movimentos de câmera nas sequências de ação, fazendo com que elas se tornem incompreensíveis em vários momentos, como o desfecho de uma luta entre Bryan e o subchefe (a linguagem dos videogames o classifica melhor). O cineasta também não consegue empregar energia na história, e dessa forma até uma cena de perseguição se torna aborrecida. Para completar, Bryan parece nem se esforçar para se livrar dos capangas que o enfrentam, tamanha falta de ritmo demonstrada por Megaton.
Liam Neeson encarna Bryan com a mesma determinação mostrada no filme anterior. Aliás, Neeson poderia entrar para o elenco de Os Mercenários 3, já que aos 60 anos o ator ainda se sai bem como herói de ação. Enquanto isso, Maggie Grace consegue fazer de Kim uma garota menos chata do que antes, sendo que ela ainda vira uma espécie de sidekick do próprio do pai, a ponto de se tornar a melhor motorista do mundo em uma cena de perseguição. Já Famke Janssen pouco tem a fazer com Lenore, não tendo muito espaço para fazer da personagem uma figura realmente interessante.
Ao final de Busca Implacável 2 só há uma conclusão a ser tirada: ninguém deve se meter com Bryan Mills. Mas espere um pouco, isso já não havia ficado claro no primeiro filme?
Cotação:
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Crianças no Cinema
Já que hoje é Dia das Crianças, achei que essa seria uma boa hora para lembrar alguns personagens inesquecíveis interpretados por crianças. Como sempre, não há como lembrar de todos, então preferi limitar a lista aos sete primeiros que pensei. Alguns intérpretes infelizmente caíram no esquecimento, mas outros se tornaram grandes estrelas ou estão em plena ascensão.
- Kevin McCallister (Macaulay Culkin), de Esqueceram de Mim:
No momento em que tive a ideia de fazer essa lista, Kevin McCallister foi o primeiro personagem que pensei. Talvez porque seu filme passou na televisão há alguns dias. Esqueceram de Mim lançou Macaulay Culkin ao estrelato, e este personagem será sempre lembrado como o que marcou sua carreira. Culkin transmite grande carisma para Kevin, um garoto inteligente e até corajoso por enfrentar dois bandidos usando apenas armadilhas. Armadilhas estas que resultaram em gags bastante divertidas. Kevin rendeu uma indicação ao Globo de Ouro para Macaulay Culkin. Hoje, o ator é mais conhecido por seus problemas com as drogas, o que é lamentável já que ele é (ou pelo menos costumava ser) muito talentoso. Sua última aparição nos cinemas foi em 2007, no filme Sex and Breakfast.
- Olive Hoover (Abigail Breslin), de Pequena Miss Sunshine:
Na família disfuncional de Pequena Miss Sunshine, Olive Hoover se destaca por ser uma criança comum, que tem seus sonhos e reage diante de tudo o que acontece a sua volta. E a graciosidade que Abigail Breslin empresta para a menina só ajuda a torná-la ainda mais adorável. Em um filme com tantas virtudes, ela é um dos grandes destaques em um elenco inspiradíssimo. Breslin conseguiu uma indicação ao Oscar pelo papel, e tem trabalhado bastante desde então.
- Mindy Macready/Hit-Girl (Chloë Grace Moretz), de Kick-Ass: Quebrando Tudo:
Em um filme com uma galeria de personagens interessantes, é impressionante que um deles seja uma garota de 10 anos que fala todos os tipos de palavrões e mata bandidos sem hesitar. Tendo seu pai, Damon Macready/Big Daddy (Nicolas Cage, em uma de suas melhores atuações nos últimos anos), como grande parceiro na luta contra crime, Mindy parece ser inofensiva quando vista de longe. Mas apenas parece, já que essa é uma garota que sabe muito bem como se virar sozinha. Chloë Grace Moretz praticamente se confirmou em Kick-Ass como um dos nomes a serem seguidos de perto nos próximos anos, tendo ainda conseguido papéis em filmes de diretores importantes, como Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret) e Tim Burton (Sombras da Noite).
- Billy Kramer (Justin Henry), de Kramer vs. Kramer:
Billy Kramer é praticamente o centro das atenções de Kramer vs. Kramer. Depois da separação de seus pais, o menino tem que se ajustar a nova vida que começa com seu pai, Ted (Dustin Hoffman), e é interessante ver o garoto passar por tantos conflitos internos, já que ao mesmo tempo em que compreende o que está acontecendo, ele quer a mãe (Meryl Streep) ao seu lado. Por não ter isso, seu descontentamento com o mundo é bastante compreensível, mas é admirável ver a belíssima relação que desenvolve aos poucos com o pai. O ator Justin Henry é até hoje a pessoa mais nova a ser indicada ao Oscar (tinha apenas oito anos). Desde então, ele não voltou a fazer o mesmo sucesso e tem trabalhado pouco ultimamente. Seu último crédito em frente às câmeras foi uma participação em um episódio da série Brothers & Sisters.
- Jim Graham (Christian Bale), de Império do Sol:
A trajetória de Jim “Jamie” Graham em Império do Sol é muito interessante. Ele sai de uma vida de privilégios na família, passa por várias dificuldades em um acampamento no meio da Segunda Guerra Mundial para então reencontrar os pais de maneira emocionante. A mudança que ele sofre ao longo do filme, precisando aprender a ser uma pessoa mais independente para sobreviver em meio aquela situação, é algo bonito de se acompanhar. Foi um início de carreira marcante para Christian Bale, que com sua belíssima atuação fez com que os organizadores do National Board of Review criassem uma categoria especialmente para ele: Melhor Atuação de um Ator Juvenil. É um dos atores mais respeitados atualmente, aceitando papeis sem medo de sacrificar o próprio corpo para interpretá-los.
- Cole Sears (Haley Joel Osment), de O Sexto Sentido:
“Eu vejo gente morta” deve ser uma das frases mais repetidas do mundo. Aliás, é uma cena muito boa, dos tempos em que M. Night Shyamalan estava no ponto alto de sua carreira. Quando Cole Sears revela isso para o psicólogo Malcolm Crowe (Bruce Willis), é possível ver o quanto o garoto tem medo de seu assombroso dom, a ponto de essa fala sair quase como um sussurro para ninguém mais ouvir. Haley Joel Osment interpreta Cole como uma criança perturbada e extremamente vulnerável, e sua indicação ao Oscar em 2000 foi muito merecida. Mas desde 2003, quando fez Lições Para Toda Vida ao lado de Michael Caine e Robert Duvall, o rapaz não tem dado as caras em uma produção que ganhe atenção.
- Mathilda (Natalie Portman), de O Profissional:
Mathilda é uma prisioneira da própria vida. A única pessoa com quem se importa é seu irmão caçula, já que o resto da família não dá a mínima para ela. Mas depois que todos eles são assassinados, ela encontra em seu vizinho, o matador profissional Léon (Jean Reno), alguém a quem seguir. Por mais que a relação deles pareça amorosa em alguns momentos, fica muito claro que ali estão duas figuras que não têm muita felicidade em suas vidas e que se entendem, e talvez fosse esse tipo de amizade que precisavam. Interpretando Mathilda, Natalie Portman iniciou brilhantemente o caminho rumo a grande atriz que viria a se tornar. Talento merecidamente reconhecido com o Oscar por Cisne Negro.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
A Entidade
Tendo os mesmos produtores de Atividade Paranormal, não chega a ser surpreendente ver que A Entidade é um filme que mais uma vez mostra um ser desconhecido infernizando a vida de alguém. E coincidência ou não, vídeos caseiros no estilo found footage são um elemento importantíssimo na história deste terror estrelado por Ethan Hawke. Mesmo contando uma história um tanto comum, o filme consegue torna-la interessante, mas é lamentável que a desperdice tentando cumprir seu objetivo de assustar o público.
Dirigido por Scott Derrickson (o mesmo de O Exorcismo de Emily Rose e da refilmagem de O Dia em Que a Terra Parou) e roteirizado por ele em parceria com C. Robert Cargill, A Entidade nos apresenta a Ellison Oswalt (Ethan Hawke), escritor que se muda com sua esposa Tracy (Juliet Rylance) e seus filhos Trevor (Michael Hall D’Addario) e Ashley (Claire Foley) para a casa onde ocorreu o assassinato da família Miller, até então não solucionado pela polícia local. Querendo investigar o caso que será o tema de seu novo livro, Ellison encontra vários filmes feitos em Super 8, que mostram não só o crime que ocorreu em seu novo lar, mas também outros terríveis assassinatos envolvendo famílias e crianças desaparecidas. À medida que mergulha no caso, Elisson se vê dentro de uma história que é bem diferente dos outros crimes que investigou para seus livros.
Iniciado com o vídeo do crime que ocorreu naquela casa, mostrando a família Miller sendo enforcada no quintal, A Entidade já começa criando o clima tenso que perdurará durante quase toda a narrativa. Vale dizer que esses breves filmes dos assassinatos representam os momentos mais pesados da produção, e a calma com a qual Scott Derrickson os filma é essencial para torna-los ainda mais desconfortáveis. A trilha sonora de Christopher Young também contribui discretamente para a tensão desses momentos, ainda que em outras cenas Derrickson a utilize desnecessariamente, como se fosse preciso avisar que algum susto está por vir.
Aliás, a preocupação de do diretor em querer assustar o público é tamanha que ele resolve recorrer a um clichê típico de filmes de terror: aumentar o volume da trilha sonora quando necessário. Dessa forma, o diretor não deixa o filme causar os sustos de maneira mais orgânica. E considerando que 90% dos pulos na cadeira acontecem por causa desse recurso, isso acaba virando algo irritante depois de algum tempo, tirando muito do impacto que o filme poderia ter. Mais lamentável ainda é ver que A Entidade tem material para aterrorizar sem precisar se atirar em algo tão lugar-comum.
No meio de toda a atmosfera que envolve o filme, é surpreendente ver que A Entidade consiga encontrar espaço para cenas mais descontraídas que não destoam tanto da história. Nesse sentido, o policial “Fulano” (interpretado por James Ransone) protagoniza alguns momentos divertidos no filme, sendo uma figura bastante atrapalhada. Até o próprio protagonista arranca algumas risadas quando tenta falar para esposa que “tecnicamente“ não mentiu para ela sobre determinados assuntos.
Apesar de prender a atenção, o roteiro de A Entidade não deixa de ter alguns problemas. As crises que Trevor tem ao longo do filme, por exemplo, não acrescentam praticamente nada ao filme. Na verdade, o garoto poderia ser descartado sem maiores problemas, já que não ganha muito espaço para ser desenvolvido e ainda é uma figura desinteressante com seu jeito rebelde. Além disso, a história não deixa de ser um pouco previsível quanto ao caminho que vai tomando, já que Scott Derrickson e C. Robert Cargill mencionam pistas importantes ao longo do filme, tornando possível montar o plano do vilão.
Sendo um ator talentoso, Ethan Hawke carrega eficientemente as quase duas horas de duração do filme. Hawke (que divide com o personagem o fato também de ser um escritor) retrata muito bem o estresse e o desgaste de Ellison durante a investigação do caso, o que inclui deixar os olhos arregalados, o que é perfeito quando se vê que ele não consegue ter uma noite de sono tranquila, sempre acordando por causa das assombrações em sua casa. E apesar de dizer que escreve livros pela fama e pelo dinheiro, Ellison parece pouco se importar com essas coisas ao longo do filme, o que mostra o quanto o novo caso o impressiona.
Finalizado de maneira não muito impactante, A Entidade é um terror eficiente, mas se tivesse um pouco mais de confiança em seu material certamente poderia ter deixado uma marca maior ao final da projeção.
Cotação:
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Ruby Sparks: A Namorada Perfeita
Depois de estrearem na direção de longas-metragens em 2006 com o excepcional Pequena Miss Sunshine, após uma longa carreira trabalhando com videoclipes, o casal Jonathan Dayton e Valerie Faris não deu mais as caras. Acabaram deixando no ar uma certa curiosidade com relação ao que fariam depois do sucesso que alcançaram em sua estreia. Seis anos se passaram e os dois finalmente retornam neste Ruby Sparks: A Namorada Perfeita, filme que apesar de não ser tão bom quanto o trabalho anterior do casal, é eficiente a ponto de fazer desses diretores figuras que merecem mais atenção.
Em Ruby Sparks, Paul Dano interpreta Calvin, um jovem escritor que conseguiu grande prestígio com seu primeiro livro, lançado quando ele tinha apenas 19 anos. Uma década se passa e ele se vê em meio a um bloqueio criativo, passando suas horas ao lado do irmão, Harry (Chris Messina), e fazendo terapia. Mas ao sonhar com uma garota, a quem ele dá o nome de Ruby Sparks (Zoe Kazan, que também escreveu o roteiro), Calvin se inspira novamente e começa a escrever um livro sobre ela. Mas ele mal sabia que isso faria a garota de seus sonhos tornar-se real.
Como Ruby se torna real? Não se sabe, mas assim como acontece em outro filme lançado recentemente, Ted, essa mágica pouco importa. Depois de estabelecer o relacionamento entre Calvin e Ruby, Zoe Kazan passa a desenvolver uma simpática história de amor que diverte com todo seu absurdo. Boa parte disso se deve aos personagens. Apesar de toda a fama que conquistou, é interessante ver que Calvin não gosta do rótulo de gênio que tentam colocar nele. Além disso, antes de conhecer Ruby, o rapaz parece ser uma pessoa fechada até para os novos tempos (ele ainda usa uma máquina de escrever para digitar seus livros). Já Ruby mostra ser uma garota cheia de energia, mas o mais interessante é o fato de ela ser um ser humano comum. Ela tem suas necessidades e seus sentimentos, e isso ajuda a fazer dela a pessoa real que ela deveria ser.
No entanto, sem intérpretes competentes o casal de Ruby Sparks certamente poderia soar um pouco desinteressante. A sorte é que Paul Dano e Zoe Kazan se saem muito bem em seus respectivos papeis. Como Ruby passa por modificações ao longo da história, é admirável ver que Kazan consegue implementar isso na personagem sem muitos exageros, com exceção da cena em que ela se torna um grude de Calvin, em uma das partes mais divertidas do filme. Já Dano empresta grande carisma para o protagonista, o que acaba sendo importante considerando que em determinado momento ele passa a tomar atitudes um tanto reprováveis. Além disso, Dano e Kazan tem uma ótima química ao longo do filme, e não foi uma surpresa ver que os dois tem um relacionamento na vida real.
Sendo o criador de Ruby, Calvin pode mudar o jeito dela a qualquer momento, podendo fazer dela uma namorada melhor ou pior. Isso ocorre com qualquer artista (seja um escritor, um pintor, um músico) que gostaria de ver sua obra cada vez melhor. Mas um dia chega o momento em que ele precisa lança-la para o mundo, mesmo não estando satisfeito com o resultado final, ainda que este esteja perfeito. E, às vezes, mudar é o que acaba estragando tudo. Zoe Kazan capta isso brilhantemente no roteiro, e essa é talvez a grande virtude do filme.
Enquanto isso, a direção de Dayton e Faris é segura ao longo de todo filme, conseguindo divertir ao mesmo tempo em que mostra grande sensibilidade com a história que está sendo contada. Isso fica bem canalizado em uma das melhores cenas do filme, quando Calvin começa a modificar Ruby incessantemente, naquela que é a parte mais pesada do filme apesar de ser divertida em alguns momentos. É interessante ainda a decisão da dupla em investir em planos mais fechados quando Calvin está escrevendo, mostrando muito bem o quanto o personagem está mergulhado naquilo que está fazendo.
No entanto, o roteiro de Ruby Sparks não escapa de ser previsível com relação aos conflitos entre os personagens, um problema que quase todas as comédias românticas enfrentam por seguirem uma fórmula básica. Além disso, o desfecho que Zoe Kazan dá para tudo aquilo é um tanto clichê, o que é uma pena por mais satisfatório que ele seja.
Mesmo assim, Ruby Sparks é um filme cativante e divertido, mostrando que Pequena Miss Sunshine talvez não tenha sido uma sorte de principiante para Jonathan Dayton e Valerie Faris. Tomara que o talento deles continue a aparecer em seus próximos projetos, ainda que estes levem mais seis anos para serem feitos.
Cotação:
sábado, 6 de outubro de 2012
Análise de Áudio - Era Uma Vez no Oeste
Uma das cenas que mais impressionam no clássico Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone, é aquela na qual o vilão Frank (interpretado por Henry Fonda) mata a família de Jill (Claudia Cardinale). É um momento que impressiona em vários aspectos, e um deles é o modo como o áudio é usado.
Logo no início da cena (00:18), Leone inclui o canto de grilos ao fundo, e o mantém ali durante exatos dois minutos. É o tempo suficiente para que os personagens e o espectador se acostumem com aquele som, de forma que quando ele é cortado pela primeira vez acaba trazendo um silêncio que passa desconforto muito grande para todos os envolvidos naquela cena, e nisso incluo os espectadores que assistem ao filme. Nessa primeira vez que os grilos saem de cena, deixando apenas o som do vento, de um cão gemendo e das galinhas cacarejando, Leone consegue passar muito bem a ideia de que aquele local é tão isolado que se algo acontecer ali aquelas pessoas estarão indefesas, além de já passar a sensação de que algo ruim está prestes a acontecer.
Os membros da família voltam a ficar tranquilos quando os grilos retornam (02:42). É então que ocorre o segundo corte desse canto (05:23), e dessa vez é algo que tem muito mais impacto, não tendo mais o gemido do cão ou o cacarejar das galinhas, e o vento fica mais forte. Logo depois disso, ocorrem os primeiros tiros. É como se Frank fosse um ser humano tão amedrontador que todos pararam diante de sua presença.
Quando o pai e dois de seus filhos caem mortos, o caçula da família corre para a rua para saber o que está acontecendo. No momento em que ele bota os pés para fora da casa (06:37), Sergio Leone inclui a trilha musical de Ennio Morricone. É uma música bastante triste e ao mesmo tempo consegue dar um tom de suspense para a cena. Seu lado triste é mais do que apropriado por que aquela família estava prestes a ser completada com a presença de Jill, e eles também estavam se preparando para se livrar de suas dificuldades financeiras e serem mais felizes. Felicidade esta que nunca mais será alcançada.
Já o lado do suspense é adequado por dois motivos: 1) Será que aqueles homens são tão cruéis a ponto de matar uma criança?; 2) Quem é o líder daquele grupo?
Afinal, na época do lançamento do filme, ninguém sabia que Henry Fonda (mais conhecido por interpretar “mocinhos”) apareceria aqui como o vilão da história. E não é à toa que a música chega ao seu ápice (07:53) no momento em que Leone faz um travelling circular revelando Fonda como a figura pela qual as pessoas terão que torcer contra. E depois dessa grande revelação, Leone baixa um pouco o volume da música, como se estivesse dizendo para o público “Conformem-se! Este será o grande vilão do filme!”. E ainda por cima, é um vilão impiedoso, que mata crianças quando preciso.
É uma cena incrível e muito bem orquestrada por Sergio Leone, sendo apenas um dos vários momentos sensacionais de uma das grandes obras-primas da história do Cinema.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Breve Comentário - 13 Assassinos
Conheço muito pouco os filmes de Takashi Miike, um dos nomes mais conhecidos do cinema japonês. O que vi em alguns trechos de suas obras mostra que ele é um diretor que tem como marca registrada a violência, sendo que às vezes ela aparece de forma um tanto absurda. Em 13 Assassinos, refilmagem de um filme de 1963 (que não assisti), Miike junta isso a uma história interessante, combinando tudo com belas cenas de ação.
Escrito por Daisuke Tengan, 13 Assassinos acompanha os personagens-título, liderados por Shinzaemon (Kôji Yakusho), que são chamados para matar o Lorde Naritsugu (Gorô Inagaki), que com toda sua crueldade está prestes a se tornar o conselheiro de seu irmão mais velho, o shogun.
O filme demora um pouco para ganhar forças, buscando apresentar bem seus personagens logo de cara. Sendo assim, os heróis da história mostram serem homens honrados e inteligentes. Shinzaemon, em particular, é ainda um grande estrategista, o que fica claro na sequência final do filme (e que comentarei mais adiante). Enquanto isso, Naritsugu já é estabelecido como uma figura não só cruel, mas também sanguinária, abrindo sorrisos ao fazer pessoas sofrerem.
É interessante ver que, quando Shinzaemon começa a procurar pelos guerreiros que quer ao seu lado na luta contra os exércitos de Naritsugu, a montagem não se torna episódica como geralmente ocorre em filmes assim. Isso porque o roteiro consegue fazer com que o grupo se junte de maneira bastante natural, sendo que um dos personagens, Koyata (Yûsuke Iseya), se junta quando todos estão passando por uma floresta. Aliás, se 13 Assassinos não fosse uma refilmagem, não deixaria de ser uma versão japonesa de 300, já que os heróis precisam lutar contra os grandes exércitos que protegem Naritsugu.
Takashi Miike conduz muito bem as cenas de ação, sendo que o maior destaque fica por conta da batalha final em um vilarejo. Ocupando cerca de 40 minutos de filme, a sequência impressiona por sua grandiosidade, e é admirável ver que Miike consegue deixar o espectador a par de tudo o que acontece na tela, não abusando de cortes rápidos para tentar dar mais energia às imagens. Mesmo contando com alguns bois claramente feitos em computação gráfica que destoam daquilo que acontece na cena (tendo o mesmo efeito dos terríveis esquilos de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), a batalha é o grande momento de 13 Assassinos.
Com ótimas atuações de seu elenco (em especial Kôji Yakusho e Gôro Inagaki), 13 Assassinos é um belo filme e espero conseguir ver mais algumas obras de Takashi Miike.
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